RESUMO
O trabalho aborda a questão do sujeito autobiográfico nas pesquisas em educação, rasurado pelas lentes pós-estruturais, enfocando as relações com as imagens de artistas mulheres no currículo, em um viés autobiográfico, mas ampliando-o para a dimensão imagética. Dialogo com as/os autoras/es Judith Butler, Donna Haraway, Michel Foucault e outras/os autoras/es do campo da educação e de teoria feminista. Trabalho com os conceitos de enquadramento, saberes sujeitados e saberes localizados, argumentando sobre como uma abordagem autobiográfica, entendida mais como autorretrato que como espelho, pode nos fazer repensar os quadros de referência/enquadramentos implicados nos processos de subjetivação e relatos de si. Defendo que uma escrita friccionada com obras disruptivas de artistas mulheres possa criar na imprevisibilidade visualidades dissidentes perante entendimentos normativos no currículo e na docência.
Palavras-chave:
Autobiografia; Mulheres Artistas; Diferença; Currículo; Enquadramento
ABSTRACT
The work addresses the question of the autobiographical subject in education research, erased by post-structural lenses, focusing on the relationships with the images of women artists in the curriculum, in an autobiographical bias, but expanded to the imagery dimension. I dialogue with the authors Judith Butler, Donna Haraway, Michel Foucault and others in the field of education and feminist theory. I work with the concepts of framing, subject knowledge and located knowledge, arguing as to how an autobiographical approach, understood more as a self-portrait than a mirror, can make us rethink the frames/framings of reference involved in the processes of subjectivation and self-reports. I argue that a writing that is chafed with disruptive works by women artists can create dissident visualities in unpredictability, in the face of normative understandings in curriculum and teaching.
Keywords:
Autobiography; Woman Artists; Difference; Curriculum; Framming
RESUMEN
El trabajo aborda la cuestión del sujeto autobiográfico en la investigación educativa, borrado por lentes postestructurales, centrándose en las relaciones con las imágenes de mujeres artistas en el currículo, en un sesgo autobiográfico, pero ampliándolo a la dimensión de la imaginería. Diálogo con los autores Judith Butler, Donna Haraway, Michel Foucault entre otros autores del campo de la educación y la teoría feminista, trabajo con los conceptos de marcos, conocimiento sujeto y conocimiento localizado, argumentando como un enfoque autobiográfico, entendido más como un autorretrato que un espejo, puede hacernos repensar los marcos de referencia involucrados en los procesos de subjetivación y autoinformes. Sostengo que una escritura mezclada con obras disruptivas de mujeres artistas puede crear visualidades disidentes en la imprevisibilidad frente a interpretaciones normativas en el currículo y la enseñanza.
Palabras-clave:
Autobiografía; Mujeres Artistas; Diferencia; Currículo; Marcos
INTRODUÇÃO
Todos os fatos aqui apresentados são verdades. Tirando os que foram totalmente inventados. (Inventando Anna, 2022).
Mais um ano letivo começa, nos reunimos nos corredores, sala de professoras/es ou salas de aula e, seja como docentes, seja em nossos processos de (co)formação, estamos familiarizadas com um rito um tanto ordinário em nossas aulas: o falar de si, apresentar-se. Em meio a dinâmicas de grupo para quebrar o gelo e conhecer melhor nossos pares, trechos freireanos motivacionais e falas esperançando o ano ou semestre que começa, a apresentação protocolar comumente vem acompanhada de perguntas sobre nossas motivações, nossa história, experiência e desejos, que pretendem dar conta não só de nossas identidades docentes, aos moldes do que autores como Nóvoa e Finger (2010) e Tardif (2014) apontam, mas também das nossas subjetividades, das narrativas de nós mesmas enquanto sujeitas.1
Seja na escola, em relatos autobiográficos, seja na academia em pesquisas em educação, a construção de uma narrativa acerca de si nos é bastante familiar. Para Lira e Passeggi, "as narrativas de si espelham também a imagem que a sujeita constrói sobre suas capacidades, suas ações e as repercussões de seu lugar no mundo" (2021, p. 8, grifo meu). O que me levou a escolher ser professora? Como a formação em artes visuais aconteceu no meu caminho? O que me constitui enquanto docente? Quais as motivações subjetivas para tomar certos caminhos — e não outros — na pesquisa e em sala de aula? Sou mesma capaz de responder estas (e tantas outras) interpelações que se colocam diante de mim? Esses questionamentos estão costurados entre si por certa ideia de acesso a uma verdade interior, intrínseca a nós mesmas, passível de ser acessada e decodificada para dar conta de uma narrativa de si, recaindo assim sobre uma dicotomia entre verdade e ficção (Lira e Passeggi, 2021, p. 5). Ao olharmos para o espelho esperamos (desejamos?) ver ali uma representação mimética de nós.
E, se buscássemos descolonizar essa ideia de espelho, de verdade a ser acessada sobre nós mesmas enquanto alunas, docentes, pesquisadoras? Como falar de si sem evocá-la? Neste texto, provocada por uma autobiografia atravessada por um viés pós-estrutural, proponho assumir a ilusão, assumir a imagem no espelho como reflexo de algo que não está verdadeiramente lá, mas como criação e invenção, tomando as práticas curriculares, a docência e a pesquisa em suas incertezas e em seus jogos de representação, nos quais não existem respostas fechadas e objetivas, mas sim escritas provisórias e contingentes, vislumbres em vez de verdades capturadas pelo espelho.
Não para trazer respostas, mas no interesse de me deter na f(r)icção com as perguntas, textos e autoras, neste ensaio proponho pensar as relações da subjetividade com base nas produções curriculares e autobiografia. Em diálogo com as ideias de enquadramento de Judith Butler (2019) e a produção de teóricas feministas, trago questionamentos sobre a impossibilidade de falar de si no currículo e na docência de forma transparente. Proponho que a fricção com as imagens e atuações de mulheres artistas na imprevisibilidade de visualidades dissidentes são caminhos potentes para criar fissuras no contexto educacional para a existência de subjetividades habitadas pela diferença e criar possíveis rotas de fuga perante entendimentos normativos e hegemonizantes no currículo.
Para tanto, me aproximo do viés pós-estrutural, que critica as certezas totalizantes e que desmantela o sujeito único, autônomo (aqui no masculino, de fato), que estava no centro da análise e da teoria no paradigma positivista (Peters, 2000), o que implica também deslocar o modo de encarar as ciências e a feitura das pesquisas nas ciências humanas e sociais e, por conseguinte, na teorização educacional e curricular. É como nos provoca Donna Haraway, que faz uma crítica ao modus operandi da produção de saber centrada na objetividade, universalidade e transparência de visão da ciência, operada do "ponto de vista do senhor, do Homem, do deus único, cujo olho produz, apropria e ordena toda a diferença" (Haraway, 2009b, p. 27), nesse eu distanciado, objetivo e imparcial, entendendo que a objetividade dessa visão infinita defendida por esta ciência não implicada e seus pesquisadores é também uma ilusão (p. 20). Como coloca Haraway, o olho que "tem o poder de ver sem ser visto, de representar, escapando à representação" (2009b, p. 18), marca a categoria não marcada da suposta neutralidade do Homem Branco, com letras capitulares que sinalizam o nome próprio, a individualidade do humano, na centralidade do sujeito.
DE QUE AUTO FALO? A MIRADA NO ESPELHO
Não há muito tempo que saímos do paradigma do nós na escrita acadêmica, que marcava o afastamento do autor/pesquisador (e aqui novamente, o plural masculino se faz necessário) do texto e do seu objeto de pesquisa. A primeira pessoa do singular vai aparecendo e ocupando as fissuras criadas nas ideias universalizantes de eu e de ciência com a virada linguística, distorcem a ilusão de autoridade objetiva e distanciada da/o pesquisador/a. Passa-se a admitir uma escrita da pesquisa atravessada pelas nossas subjetivações, contingente e sempre provisória. O distanciamento e a objetividade vão se configurando como impossíveis. Através dessas lentes, toda pesquisa seria, portanto, autobiográfica.
Para Santos e Torga (2020), autobiografia seria o "relato de vida pela própria pessoa que viveu o acontecimento relatado" (p. 122), partindo da premissa da coincidência entre autor/a, narrador/a e personagem, o chamado pacto autobiográfico. Adentrando no campo da educação, muitas/os autoras/es veem na autobiografia uma possibilidade de formação de si pelo contato com o outro, essa alteridade que lê o relato autobiográfico. Contudo, não seria esse "si mesmo" permeado pela alteridade? "Então a história narrada neste trabalho pode ser considerada um espelho, uma metáfora para o ato de refletir, para contemplar quem somos" (Silva, Oliveira e Souza, 2018, p. 3). Neste trecho, os autores fazem uso da metáfora do espelho ao se referirem à dimensão autobiográfica de seu relato acerca da sua atuação nas fronteiras entre as ciências biológicas e as humanas. O texto, segundo eles, seria, portanto, um espelho que reflete quem se é e a própria trajetória em meio a escolhas, pontos de contato e distanciamento entre esses diferentes campos do conhecimento, identidades e identificações.
Apesar da admissão de camadas, multiplicidade e fantasias que coexistem na imagem de si acessada pelo espelho, ainda recai sobre a reflexão o papel de acesso a um eu que está lá. Contudo, através de lentes pós-estruturalistas nos deparamos com a impossibilidade de essa reflexão dar conta da totalidade de quem somos; a autoimagem que se contempla não é estática, ela é também construída, fragmentada, criada na bricolagem das nossas memórias, impossível de ser capturada.
Para Judith Butler, uma das questões desse relato que fazemos de nós mesmas é justamente a impossibilidade de falar só sobre mim. Quando falo de mim, a partir da interpelação do outro, não existe verdade transparente, totalmente acessível, sendo esta mais uma ilusão. Apoiando-nos em Butler, que nos fala de um sujeito opaco, que não é translúcido nem completamente conhecível para si mesmo (2019), podemos nos perguntar o quanto ele tem sido ficcionado em nós mesmas, já que ao relatarmos uma experiência, no exercício retrospectivo de falar de algo que não estamos vivendo mais, que tem seus contornos alterados nesse esforço narrativo, toda lembrança se torna então, de certa forma, uma ficção.
Os relatos autobiográficos em uma visão pós-estrutural são, portanto, um constante processo de desilusão de si mesma e do apego a uma linearidade e veracidade narrativa. Importante salientar, no entanto, que ao falar das ficções e ilusões mobilizadas na pesquisa não desejo me aproximar da noção de falsidade em oposição a uma realidade, não mobilizando, portanto, determinado desejo de verdade como fala Foucault (2021), dividindo o acesso às memórias e a escrita da pesquisa como verdadeiras ou falsas. Juan José Saer diz que escrevemos ficções não para fugir da verdade, mas para não estarmos limitadas/os ao verificável (2009, p. 2). A intenção não é descobrir verdades, mas sim rasurar os contornos nítidos e estanques em torno das questões aqui abordadas, complicando os entendimentos das palavras e conceitos. Como Thiago Ranniery aciona e provoca, o desejo é friccionar e produzir uma escrita e a pesquisa em educação "[…] como quem roça os corpos, borrando os limites entre o eu e o outro, entre qualquer território chamado de ‘si mesmo’ e a alteridade que o habita e que busca encobrir" (Ranniery, 2018, p. 16).
Por conta disso, assumir um viés pós-estrutural e pós-fundacional já é, de início, abandonar qualquer ideia fixa de sujeito, delimitado e separado de sua exterioridade, uma vivência estanque que existe em si mesma e é passível de ser analisada de forma (autor)reflexiva, como se de frente para um espelho. Aqui retomo este objeto, mencionado no início desta seção, e seus próprios sentidos subjetivos, que comumente são atrelados a sua função, por assim dizer, de refletir o que ou como somos. Muito evocada no gênero autobiográfico, a reflexão é acionada como o ato de observar-se, deparar-se consigo mesma e, a partir daí, formular e conjecturar sobre esse eu, suas escolhas e caminhos percorridos — recurso bastante utilizado nas pesquisas educacionais que tomam as falas docentes por sua empiria. Essa autoanálise pressupõe novamente uma sujeita transparente e acessível, tal qual a que pode ser vista refletida imageticamente no espelho.
O espelho como anunciador da realidade pode ser localizado na lógica ocidental da colonialidade, enquadrando incessantemente uma verdade, produzindo ao mesmo tempo seus excessos. A ilusão é expurgada pela reflexão fiel da mimese do que é refletido. Como invenção ocidental produtiva da mesmidade, o espelho não comporta o que não pertence à lógica da representação e da metafísica da presença. Haraway propõe que abandonemos a reflexão como acionadora da verdade, produto do olho branco, masculino, que enquadra nossos corpos, pesquisas e subjetividades. O próprio verbo refletir deixa de fazer sentido para dar conta do falar de si, seja na pesquisa, seja na docência.
Contudo, como empreender o falar de si implicado no auto para além da mimese? O próprio espelho, que não é exclusividade ocidental, tomado por outras epistemologias, me provoca a pensar outras abordagens que se relacionam com a subjetividade de outro modo. Ao escrever sobre os orixás Iemanjá e Oxum, que na religiosidade e epistemologia iorubá portam espelhos, Cibele Silva (2020) menciona diferentes simbologias e usos para esse objeto e aponta para uma subjetividade relacional, que não se encerra no indivíduo. Partindo de enquadramentos não eurocêntricos, são possíveis outras relações com o espelho; relações que em outros contextos sociais não estão interessadas na apreensão da verdade, ou da imagem fiel, mas na construção hetero-subjetiva de quem mira o espelho, um mergulho mais profundo do que o de quem se interessa somente pela superfície:
Por isso a importância do espelho de Oxum, que permite o olhar para si, diferente do espelho de Iemanjá, que olha para fora e diz sobre as relações com as pessoas e com o mundo. Um completa o outro, pois é primeiro a partir do olhar das outras pessoas, daquilo que elas nos mostram e dizem sobre nós, que formaremos a visão de nós mesmas. (Silva, 2020, p. 80)
Ao deslocar o espelho, que na episteme ocidental se localiza como aparato que anseia pela mesmidade e pela captura do que — ou de quem — se coloca a sua frente, é possível também colocar em suspenso a reflexão, verbo tão utilizado no fazer da pesquisa, o que faz eco com as provocações de Donna Haraway (1992), que aciona a difração ao invés da reflexão. Para Haraway, a difração é composta de raios de interferência, que se abrem à diferença: "(…) um mapeamento da interferência, não de replicação, reflexão ou reprodução. Um padrão difrativo não mapeia onde a diferença aparece, mas onde os efeitos de diferença aparecem" (Haraway, 1992, p. 300).2
Como as autoras, acredito ser possível pensarmos a subjetividade no viés autobiográfico com suas fronteiras borradas. Os espelhos de Iemanjá e Oxum nos convidam a olhar para dentro, para outra, para o mundo (e aqui me refiro ao mundo habitado não só pelo humano). As cosmologias afro-indígenas nos abrem caminhos para questionar até mesmo o que Oxum vê no espelho: homem, mulher, jovialidade, amor (Goldman, 2021), imagens-cristal, que habitam a indiscernibilidade deleuziana. Um olhar que produz junto ao espelho como aparato tecnológico algo inédito, e não repetição, "no prazer da confusão das fronteiras, territórios da produção da reprodução e da imaginação" (Haraway, 2009a, p. 37).
Na re/criação inventiva da imagem de si, difração ao invés de reflexão, "o sujeito vaza por todos os lados" (Haraway, 2009a, p. 8), e me interessa não perder de vista que a imagem enquadrada na superfície reflexiva deixa de fora a diferença. Abandonando a ideia de verdade e acesso transparente a si mesma, e me detendo na construção difrativa dessa imagem na tentativa de uma pesquisa de bricolagem metodológica, a impossibilidade de falar de si ou de ser capturada pelo espelho faz com que eu me abra para outros relatos de si que não recaiam na superioridade da voz como verdade (St. Pierre, 2008). Este caminho também nos lembra de pensar o espelho como aparato generificado, que operando com a linguagem do auto negou por muito tempo e limitou quem poderia falar de si, tornando a autobiografia um gênero literário marcadamente masculino (Rago, 2013). Ou, como Haraway nos lembra: "As feministas não cansam de nos lembrar que o retrato canônico do sujeito que posa como abstrato, universal, racional, reflexivo evoca — coincidência? — um membro típico de um subconjunto particular do gênero masculino" (Haraway, 2009a, p. 10).
Questionando assim a feitura da ciência e uma possível identidade de pesquisador/a que exista a priori, passamos a entender o sujeito como um projeto sempre a concluir, com sua significação sempre adiada. Certezas como a ciência, identidade, eu, educação, o pensamento racional, não servem mais — se é que um dia serviram — para basear nossas visões de mundo (Lopes, 2013). Aqui me pergunto: como re/pensar o espelho como aparato que participa dos nossos processos de subjetivação? Como des/limitar as quatro bordas da planificação da reflexão de modo que a diferença emerja nos fazeres da pesquisa e da docência atravessadas pela autobiografia?
AUTORRETRATO EM VEZ DE ESPELHO
Espelho. Superfície vitrificada que reflete completamente a luz que incide sobre si. Areia, sódio e cálcio que junto ao olho criam imagens como técnicas de si (Rago, 2013), que circunscrevem o espelho como tecnologia de subjetivação. Contudo, dada a impossibilidade da reflexão que se dobra sobre si mesma, como tenho defendido até aqui, como pensar a subjetividade em viés autobiográfico de modo difrativo e atravessado pela diferença? Como falar de si para a além da mesmidade e da captura pelo que acessamos na reflexão? Nesta seção gostaria de trazer uma outra imagem, outro aparato que opera técnicas de si, mas que acredito que possa nos ajudar na criação de fugas do aprisionamento mimético, ou ainda tornar mais perceptível a mimese e reflexão como falsas promessas, porque impossíveis: o autorretrato.
Nas artes visuais, o autorretrato é a tradução imagética que a própria artista faz de si, não como espelho, mas como criação, que entre tantas nuances engloba a linguagem escolhida pela artista, sua poética, suas referências (de outras artistas, obras, tempos, espaços) que deseja que sejam vistas junto à sua imagem, a posição em que está, o fundo que deixa ver (e o que exclui), entre tantas outras coisas. Materialidade e subjetividade se encontram para criar um registro da outridade de si mesma. Certamente o autorretrato na pós-modernidade rasura a ideia de objeto a ser representado. Como mobilizado das vanguardas à arte contemporânea, a obra não é a artista, nem mesmo a representação do rosto de quem a pinta ou desenha, como provocou René Magritte em 1929 com a obra A traição das imagens3 (seria a artista uma ilusionista?). É tinta, grafite, suporte, materialidade e linguagem orquestradas à mercê de sua poética de modo provisório, já que a cada mirada e a cada pincelada ou traço já não se é a mesma que segundos antes.
Então, em vez de ser espelho, poderíamos falar que a pesquisa pode aprender com a autobiografia ao olhar para os próprios processos de subjetivação do eu que escreve, a se entender como sujeita opaca, como Butler coloca, que não está totalmente acessível a si mesma, nem às nossas preferências e causalidades de escolha de tema de pesquisa, ou ainda nossa trajetória como docentes. Olhar para mim mesma enquanto mulher, pesquisadora, professora, artista, admitindo a bricolagem nunca acabada do meu estar e ser na escola, no currículo, no mundo. Nem toda pesquisa em educação necessita ser autobiográfica, mas a pesquisa pode se beneficiar do contato com o processo autobiográfico de sua autora como técnica de si, em se perceber implicada nessa escrita e nesse pesquisar, nessa despossessão de sua perspectiva como sua. Assim, a escrita da pesquisa se faz atravessada pelos processos de subjetivação e assombrada pela impossibilidade de se acessar uma história fechada e definida (Butler, 2021). Há uma natureza relacional da autobiografia que só existe no ato da leitura do texto pela outra, uma importância dessa outra na constituição de si mesma: "Só se pode contar uma autobiografia para o outro, e só se pode fazer referência a um ‘eu’ em relação a um ‘tu’: sem o ‘tu’, minha própria narrativa torna-se impossível" (Butler, 2021, p. 46). O autorretrato constitui-se assim como essa outridade relacional que desestabiliza a identidade como algo a se possuir, de forma acabada e fechada.
Me aproximo do autorretrato, interessada em uma alteridade não antropocêntrica que habita também o "eu" que escreve, assim como uma fissura espaço-tempo do próprio movimento de se narrar que mais difrata que reflete, que faz emergir os efeitos da diferença. Ao que chamamos identidade, convido a encarar como efeitos da performatividade que envolve nossos processos de assujeitamento. Ao tentar dar forma narrativa das condições de meu surgimento e contar sobre os possíveis significados que essa "exposição ao outro" possa ter tido em mim, a autobiografia como técnica de si adquire caráter prismático. Persigo os raios coloridos e múltiplos que emergem do prisma. Em vão, pois não consigo capturá-los. No entanto, ao se multiplicarem e fugirem, eles me remetem a outras imagens. Aqui, escolho três obras em diferentes suportes e mídias como textos imagéticos que a meu ver operam com o autorretrato como escrita de si difrativa.
A artista Élle de Bernardini afirma que a imperatriz está entre nós4 ao ocupar de forma imponente, estratégica e provocativa espaços museais, onde corpos como o de Élle são abjetos entre seus acervos. Pensar o lugar da alteridade, em reconhecimento das singularidades e processos de encontros na relação eu-tu no currículo perante esses recortes normativos dicotômicos entre a ausência da mulher enquanto artista na arte e a abundância de representações de corpos femininos por artistas homens se torna uma questão para pensarmos quais quadros de reconhecimento são dados como possíveis no currículo5 e, como Luzia Margareth Rago (2013) elabora, para quem existe espaço para falar de si. No registro autofotográfico, a massa vermelha do vestido de Élle se sobressai e rouba o olhar no enquadramento, mesmo mediante a arquitetura e as obras de importantes e tradicionais instituições de arte. O cuidado com aspectos como simetria, contraste e equilíbrio que se destacam na série fotográfica de mesmo título e chamam a atenção para o corpo de Élle denuncia: não o que está enquadrado, mas o que fica de fora do quadro, seus excessos. Em certa medida, os acervos, as curadorias, sejam elas museais sejam educacionais, que criamos a cada aula como professoras, ou ainda os acervos teóricos que compõem nossa listagem de referências bibliográficas na academia, não admitem o que não é espelho. Ao modo do espelho de Oxum, Élle nos convida a olhar difrativamente, na indiscernibilidade de um olhar prismático que não vê somente seu próprio reflexo, mas é atravessado pela diferença, por outra temporalidade, que faz o presente falar também do passado e do futuro.
O jogo de enquadramentos que atua na diferenciação das vidas que podemos apreender daquelas que não podemos organiza nossa experiência visual e também gera ontologias específicas do sujeito (Butler, 2019) nas significações que produz e nas seleções e exclusões que opera. Raça, gênero e sexualidade são efeitos da diferença que capturamos em termos como mulher cis, trans, negra, branca etc. Oyèrónkẹ Oyěwùmí (2021) localiza que a generificação dos corpos como mapa para nos organizar e hierarquizar socialmente é também uma invenção ocidental. Élle, como mulher trans, com sua obra nos lembra que mulher não se refere a algo dado a priori, mas existe de modo relacional e contingente como efeito da reiteração dos atravessamentos e afetamentos que nos constituem. Na elaboração da performatividade corporificada e multifacetada de Judith Butler (2018), as inscrições e interpelações do outro não só nos produzem, mas também informam os modos vividos de corporificação das atribuições de gênero, uma fantasia ao mesmo tempo formada pelos outros e parte da nossa formação; e é nessa constituição relacional discursiva, mas também corporificada, que vamos nos constituindo enquanto sujeitas generificadas.
Corpos negros, gordos, com deficiência, latinos, trans, como nos lembram Beyoncé e Jay-Z em The Apeshit,6 não são vistos como possíveis na hegemônica pretensão ocidental universal da historiografia da arte, que postulava até inícios do século XX um cânone muito estreito, delimitando as fronteiras do que poderia ou não ser considerado arte, e por conseguinte nas práticas curriculares, do que poderia ser lido como possível no ensino de artes visuais. Digo isso não afirmando que o alargamento de possibilidades com base na representatividade que vemos nas últimas décadas seja suficiente. Mais do que alargar fronteiras é preciso questioná-las e borrá-las. Beyoncé brinca com os enquadramentos normativos de arte, corpo, gênero e raça ao se colocar em meio a um dos acervos mais famosos do mundo, o museu do Louvre. Rap, corpos em movimento, versos que provocam com a autoridade que o dinheiro e a fama trazem, se misturam com obras icônicas como Mona Lisa, Vitória de Samutrácia e a Barca da Medusa. As formas e cores de pele do corpo de bailarinas com segundas-peles nos fazem lembrar dos nus femininos que povoam os acervos, mas são em sua maioria brancos, como apontam as Guerilla Girls. Raça e gênero atravessam e afetam os enquadramentos e nossos repertórios imagéticos que também participam das nossas subjetivações.
Enquadramentos que seguem operando significações que se pretendem totalizantes do que é "Arte" estão envolvidas também nos processos de subjetivação no currículo. Ao enquadrar a arte com A maiúsculo (branca, europeia e masculina) como única narrativa possível, recai-se no perigo da história única (Adichie, 2019) e na expulsão dos saberes sujeitados (Foucault, 2005) e localizados (Haraway, 2009b) perante a arte hegemônica, nos discursos que operam a seleção do que adentra ou não a escola. Em sua análise sobre a fotografia, Butler contribui ao considerar as imagens e mídias como materiais de nossa autoconstituição, como discursos que não estão à espera de serem interpretados, mas eles mesmos seguem ativamente, por vezes forçosamente, interpretando o mundo (Butler, 2019).
Nos caminhos de autoconstituição de si, reconhecendo os atravessamentos da alteridade para além do que enxergamos no espelho, retomo o autorretrato na arte contemporânea como visualidade fantasmática que expõe — mas necessariamente também exclui — os enquadramentos que possibilitam e produzem a ideia de si mesma da artista. Em autorretratos fotográficos na série Glass on body (imprints), Ana Mandieta7 convida o borrado, o imprevisto e o abjeto para o instante fotográfico que captura seu corpo não como é visto ou esperado por outra pessoa, acionando também uma ilusão/ficção de corpo. Com base na série fotográfica de Mandieta, atentamos que a representação não pode ser tomada pelo "seu conteúdo explícito, uma vez que ele é constituído fundamentalmente pelo que é deixado de fora, mantido fora do enquadramento no qual as representações aparecem; podemos pensar no enquadramento, então, como algo ativo" (Butler, 2019, p. 112). Tomar a imagem e seu caráter animado produtivo como discursivos é entender a primeira como envolvida nos processos de subjetivação no currículo e na vida social que vão constituindo os campos de possibilidades e subjetivação; enquadramentos que se apresentam como verdade, o alcance do que será percebido como realidade, perfazendo, de certo modo, "a tarefa de compreender a operação de uma norma que circunscreve uma realidade cujo funcionamento se dá pelo próprio enquadramento" (Butler, 2019, p. 127), marcando seu excedente como ininteligível e irreconhecível. Assim, defendo que o processo de curadoria docente no contínuo selecionar/excluir imagens, obras, artistas e demais manifestações visuais vai inscrevendo nos corpos o gênero e a sexualidade lidos como legítimos (Louro, 2018) e esperados na escola e os enquadramentos possíveis e as subjetivações envolvidas no tornar-se na relação com a alteridade. Para Ranniery: "[…] A ficção permite-me assumir a não transparência da escrita sem, entretanto, dispensar a alteridade, quer pelo risco do autoencapsulamento, quer por riscar da paisagem os diversos modos pelos quais a diferença distorce, desloca, faz derivar e constitui a escrita da pesquisa" (2018, p. 4).
Mas a reiteração dos enquadramentos normativos em si não é previsível e fechada, como nos alerta Butler (2019), e no próprio enquadrar vai produzindo excessos imprevisíveis. Nas interpelações desse si mesma de mulher-professora-artista, admitir o excedente, assumir a impossibilidade da transparência de qualquer relato que faço de mim e do texto da pesquisa. O desafio que se coloca é a criação de uma investigação das práticas curriculares de modo situado, atento e aberto à diferença em um contínuo tornar-se na escrita, nunca acabado. No atravessamento das f(r)icções com as imagens, para além da representação, trabalhar com a mulher artista, o corpo agente e insurgente, subversivo como a própria incerteza viva da arte que subverte as delimitações entre vida, sujeito, verdade e ilusão é também rasurar os enquadramentos normativos, ampliar as formas de significar o mundo e brincar com as fronteiras que não param quietas (Barad, 2007) dos nossos enquadramentos, subvertendo-os e rasurando-os, e quiçá inventando-os em outros termos, imprevisíveis, "reativando possibilidades desconsideradas para o currículo" (Lopes, 2015, p. 141).
NÃO VERNISSAGE OU CONSIDERAÇÕES PROVISÓRIAS
A época das obras com as quais Beyoncé dialoga em Apeshit, a vernissage, era o evento da finalização da obra, selado com o envernizamento do quadro. Depois de meses, anos, décadas, a obra estava acabada, não havia mais nada a ser feito ou alterado e o verniz era aplicado para proteger as pinceladas e marcar também a finalização do seu processo de criação. Aqui não há verniz ou conclusão. Enxergo o autorretrato de modo ampliado, seja ele fotográfico, seja ele pintado ou audiovisual, mais como linguagem que como gênero tradicional da arte. Linguagem usada pelas artistas com quem converso neste artigo como processo, como técnica de si, pra re/pensar os limites da autorrepresentação, que desejam mais que criar imagens realistas de si, como refletidas em um espelho, mas sim explorar autobiograficamente a escrita de sua subjetividade, de modo atravessado, provisório e rasurado, que ao se materializar em imagem já é outra coisa, fala de outra pessoa, que já é outra, não a mesma, pois foi modificada pelo próprio fazer/ser. Imagem-processo que não cabe verniz, porque nunca chega, nunca acaba, no eterno caminho de tornar-se.
Assumir as des/ilusões que a autobiografia rasurada pode nos permitir se mostra um caminho para a construção de uma pesquisa e escrita que se desejam não normativas. Outra f(r)icção que vamos construindo ao longo do caminho ao pesquisar quaisquer que sejam nossos temas de pesquisa, na produção de práticas curriculares comprometidas com a diferença. Novamente, soltar a mão das certezas humanistas para colocar meu corpo em movimento e dançar, como me convida Élle de Bernardini, se faz necessário: abraçamos assim o fazer de uma pesquisa localizada, uma docência implicada, feitas por um eu relacional, atravessado e constituído por muitas vozes, temporalidades, relações, acontecimentos e interações que participam de um processo contínuo e nunca acabado de subjetivação. Podemos aprender com as escritas autobiográficas a dançar com a provisoriedade do que se é (ou do que se está sendo), nunca acessível em completude pela opacidade de si mesma. Acolher a ilusão como uma pesquisadora-professora-artista, fazendo uso de diferentes recursos, experiências, teorias, tempos, rabiscos, autoras, imagens, pincéis, dados, espaços, tintas, falas e suportes numa bricolagem difrativa, com sua própria poética e linguagem baseadas na experienciação no currículo, na pesquisa e no mundo.
As obras que trago aqui provocam a tomar a escrita como costura dos retalhos/fragmentos das memórias e acontecimentos, f(r)iccionalizados, emaranhados nas camadas da imagem que apresento e crio continuamente quando sou interpelada a falar de mim, mais como autorretrato que como espelho, ou ainda em um espelho outro que difrata ao invés de refletir. Acredito que, ao assumir a pesquisa e o currículo como autorretratos performativos, emaranhados através/com/a partir das visualidades produzidas por mulheres artistas, podemos produzir e inventar fissuras para viver em significados e corpos que tenham a possibilidade de re/des/enquadrar um futuro mais vivível na escola.
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1
Neste texto, recusando o masculino como universal, as palavras estarão flexionadas no feminino, quando possível.
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Tradução livre da autora do original: "Diffraction is a mapping of interference, not of replication, reflection, or reproduction. A diffraction pattern does not map where differences appear, but rather maps where the effects of difference appear".
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3
Magritte (s.d.).
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"As mulheres precisam estar nuas para entrar no MASP?", perguntam o coletivo Guerrilla Girls em 2017 sobre a presença de artistas no acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Linda Nochlin, quase 50 anos antes, indaga em seu artigo "Por que não houve grandes artistas mulheres?" e questiona por que na listagem de grandes gênios da arte não há nomes femininos (Nochlin, 2016).
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Financiamento:
Programa de Excelência Acadêmica (PROEX) - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Processo 88887.837058/2023-00.
Declaração de disponibilidade de dados
Não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa.
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Edla Eggert https://orcid.org/0000-0002-1980-7053
