Open-access Reflexões sobre filosofia da educação: fantasmas, monólogos e o mal de arquivo da violência escolar

Reflections on the philosophy of education: ghosts, monologues and the archive fever of school violence

Reflexiones sobre filosofía de la educación: fantasmas, monólogos y el mal archivístico de la violencia escolar

RESUMO

O artigo tem como objetivo reexaminar as contribuições de Jacques Derrida para a área da educação, explorando os fantasmas que permeiam o contexto da violência escolar. O texto aborda as interpretações da figura do fantasma na hermenêutica de Derrida, identifica os fantasmas que assombram as discussões sobre a violência escolar e discute o impacto da teoria do fantasma para a filosofia da educação do futuro. A hipótese do texto é que a figura do espectro é uma categoria hermenêutica essencial na interpretação do real em Derrida e por isso os scholars do futuro deveriam falar com os fantasmas. Assim, a abordagem da conversação com os fantasmas pode ser incorporada no contexto educacional para tornar a compreensão do inconsciente mais acessível e contribuir para o bom êxito do processo educativo.

Palavras-chave:
Filosofia da Educação; Fantasma; Mal de Archivo; Hermenêutica; La Violência Escolar

ABSTRACT

This paper aims to re-examine Jacques Derrida's contributions to the field of education, exploring the ghosts that permeate the context of school violence. The paper approaches interpretations of the figure of the ghost in Derrida's hermeneutics, identifies the ghosts that haunt discussions about school violence, and discusses the impact of the ghost theory on the philosophy of future education. The hypothesis of the paper is that the figure of the spectre is an essential hermeneutic category in Derrida's interpretation of the real and that is why scholars of the future should talk to ghosts. Thus, the « conversation with ghosts » approach can be incorporated into the educational context to make understanding of the unconscious more accessible and contribute to the success of the educational process.

Keywords:
Philosophy of Education; Ghost; Archive Fever; Hermeneutics; School Violence

RESUMEN

El artículo tiene como objetivo reexaminar las contribuciones de Jacques Derrida al campo de la educación, explorando los fantasmas que impregnan el contexto de la violencia escolar. El texto aborda interpretaciones de la figura del fantasma en la hermenéutica de Derrida, identifica los fantasmas que rondan las discusiones sobre la violencia escolar y discute el impacto de la teoría del fantasma en la filosofía de la educación futura. La hipótesis del texto es que la figura del espectro es una categoría hermenéutica esencial en la interpretación de lo real en Derrida y por eso los estudiosos del futuro deberían hablar con fantasmas. Así, el enfoque de la conversación con fantasmas puede incorporarse al contexto educativo para hacer más accesible la comprensión del inconsciente y contribuir al éxito del proceso educativo.

Palabras clave:
Filosofía de la Educación; Fantasma; Mal de Archivo; Hermenéutica; La Violencia Escolar

INTRODUÇÃO

Imaginemos que a nossa mente é como uma biblioteca. Nela, armazenamos informações sobre as nossas experiências, aprendizados, memórias e emoções. Assim como em uma biblioteca, as informações em nossa mente precisam ser organizadas e catalogadas para que possamos acessá-las facilmente quando precisarmos delas. Essa organização é o que chamamos de "arquivo" do inconsciente. O problema é que, às vezes, algumas informações não são arquivadas da maneira correta. Elas ficam "perdidas" ou "esquecidas" em algum canto da nossa mente, mas ainda assim afetam a nossa percepção, pensamentos e comportamentos. E isso pode ocorrer tanto em nível psíquico como no campo social e histórico. Por isso: "Nessa nova metáfora, desempenha papel fundamental à noção de pulsão de morte ou de destruição (tânatos), a pulsão que desune ou agride, exercendo esse trabalho aniquilador do arquivo, deixando nele muitas arestas ou lacunas a ser preenchidas" (Trevisan, Azevedo e Rosa, 2021, p. 5). Nessa perspectiva, o "mal de arquivo" transforma-se em verdadeira morada para os fantasmas do passado, tanto em nível individual quanto coletivo. Esses fantasmas, representativos de traumas, conflitos não resolvidos e memórias dolorosas, habitam esse espaço de forma persistente, influenciando o presente e o futuro. Assim, é essencial compreender a importância desse conceito na análise dos fenômenos sociais e psicológicos, reconhecendo a complexidade das relações entre o passado e o presente, bem como a necessidade de lidar com os fantasmas do arquivo para promover processos de cura e transformação em nível tanto individual quanto social.

A teoria do fantasma é parte importante da filosofia do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Ele acreditava que o fantasma fosse um mito necessário para o funcionamento da cultura e da identidade humanas. Afirmou, ainda, que os seres humanos são capazes de trabalhar com o fantasma como parte de sua própria estrutura psicológica e social. O uso do fantasma por Derrida está ligado a seu pensamento ético-político, pois ele acreditava que as pessoas precisam ser capazes de lidar com as narrativas e mitos compartilhados pela sociedade.

Na tradição freudiana, o psiquismo é influenciado por fantasias e desejos inconscientes, que moldam a subjetividade e a identidade. Esses fantasmas são entendidos como agentes das representações mentais que surgem das experiências e dos desejos reprimidos do indivíduo e que permanecem presentes na psique, mesmo que não sejam conscientemente reconhecidos. A interpretação da metapsicologia freudiana é apresentada como forma de decifrar esses fantasmas e desejos inconscientes, buscando compreender o que impulsiona a subjetividade e as formações do inconsciente. É nesse sentido o comentário de Birman (2003):

(…) segundo a concepção freudiana o psiquismo seria perpassado por fantasmas, que encantavam a realidade psíquica para o bem e para o mal. Nas cenas onde os desejos se inscreviam e circulavam permanentemente, os fantasmas capturavam os signos e as representações mentais, colocando a subjetividade em movimento, sustentando-a no seu pensar, no seu dizer e no seu fazer. Por isso mesmo, pela interpretação, a metapsicologia freudiana buscava realizar o deciframento dos fantasmas e dos desejos que impulsionavam a subjetividade, que se manifestavam pelas formações do inconsciente. (p. 54)

Dessa forma, a análise psicanalítica busca trazer à luz aspectos da subjetividade que estão ocultos ou reprimidos, permitindo ao indivíduo compreender melhor a si mesmo e a seu funcionamento psíquico. Freud destaca ainda a importância dos fantasmas e dos desejos inconscientes na formação da subjetividade e apresenta a interpretação psicanalítica como ferramenta para compreender e decifrar esses elementos ocultos da psique.

Para Derrida, o uso do fantasma é importante para promover a criação de um pensamento ético-político que permita às pessoas lidar com narrativas, mitos e ideias compartilhadas. A teoria do fantasma de Derrida pode fornecer uma importante contribuição para a educação, pois oferece um mecanismo para entender como tais situações são usadas na vida social e moldar a identidade dos estudantes e docentes. Além disso, a teoria do fantasma pode ajudar os educadores a construir discursos ético-políticos que permitam o ensino de ética e responsabilidade social.

Assim, esse enfoque tem implicações profundas para a educação, pois exige que os educadores pensem crítica e reflexivamente sobre como as ideias estão sendo apresentadas aos alunos, como bem sugere Derrida (2001, p. 57):

(…) se o scholar clássico não acreditava em fantasmas e na verdade não sabia como falar a eles, proibindo-se mesmo de fazê-lo, poderia bem ser que Marcelo [abertura de Hamlet] tenha antecipado a chegada de um scholar do futuro, de um scholar que no futuro, e para pensar o futuro, ousaria falar com o fantasma. De um scholar que ousaria confessar que ele sabe falar com fantasmas, pretendendo mesmo que isso não contradiga nem limite sua scholarship, mas que, ao contrário, a tenha condicionado à custa de alguma complicação ainda impensada que viesse dar razão ao outro, isto é, ao fantasma.

Derrida adverte que, enquanto o "scholar clássico" não acreditava em aparições desse tipo e, portanto, evitava falar com elas, um "scholar do futuro" poderia ser aquele que ousaria falar com fantasmas e reconhecer a importância deles na construção do conhecimento. A palavra scholar, em inglês, pode ser traduzida como "estudioso", "erudito" ou "doutor", mas poderíamos dar um passo além e incluir aqui a figura do professor. Esse scholar seria capaz de confessar que ele sabe falar com fantasmas sem limitar sua scholarship, ou seja, a sua especialidade acadêmica. Essa nova forma de pensamento, então, permitiria que os professores considerassem a possibilidade de enfrentar complicações desconhecidas para dar sentido aos espectros na singularidade de cada um.

Derrida está se referindo aqui ao conceito de "mal de arquivo", que envolve a ideia de que o arquivo ou a documentação não são apenas registros neutros da história, mas estão sempre sujeitos a interpretações; são impressões e, portanto, são influenciados por fantasmas ou traumas do passado. "O arquivo da história que nos foi legado deixa muitas arestas, muitas frinchas e por isso a interpretação será, então, sempre permeada por fantasmas, impressões, representações próprias do mal de arquivo" (Trevisan, 2022, p. 9). Ao reconhecer a presença desses fantasmas, o scholar do futuro poderia ser capaz de desenvolver uma atuação mais crítica e reflexiva da scholarship e, portanto, da sua própria área de conhecimento. É o que ocorre com o personagem principal do livro analisado por Freud e, depois, por Derrida, intitulado Gradiva: uma fantasia pompeiana, de Wilhelm Jensen (1993). O romance narra as peripécias de um arqueólogo que subitamente começa a perseguir o fantasma de Gradiva, acabando por procurá-lo nas ruínas de Pompeia. Contudo, ao dialogar com Gradiva, aos poucos ele acaba adquirindo um distanciamento crítico de sua própria área de conhecimento, a saber, a arqueologia.

Derrida está sugerindo ainda que a abertura de Hamlet, de Willian Shakespeare (2010), em que o personagem fala com o fantasma de seu pai, é um exemplo de como o diálogo com fantasmas pode ser visto como fonte de conhecimento e reflexão crítica. Ele faz referência à abertura de Hamlet, em que o personagem Marcelo é o que vê primeiro o fantasma do pai de Hamlet. Para Derrida, Marcelo pode ser visto como um antecipador da chegada de um estudioso do futuro que seria capaz de conversar com fantasmas. Derrida sugere que falar com fantasmas pode ser uma forma de a pessoa se abrir a novas perspectivas e compreender melhor o mundo que nos rodeia, inclusive o futuro.

Em vez de evitar fantasmas e traumas, o scholar do futuro deveria se envolver com eles e reconhecer sua importância na construção do conhecimento. Dialogar com os fantasmas que dificultam ao estudante entender melhor a sua área de estudo significa ir além do negacionismo de que eles existem e influenciam no seu aprendizado. Em suma, esses elementos podem nos ajudar a encontrar soluções para problemas cotidianos e a refletir sobre questões espirituais. Os fantasmas são vistos como meio de expressar ou externalizar sentimentos complexos ou como fontes de conhecimento sobre o mundo espiritual. Assim, Derrida propõe um desafio para a scholarship tradicional, ao sugerir que a presença de fantasmas e traumas não deve ser ignorada, mas sim reconhecida e analisada criticamente. O "scholar do futuro" deve estar disposto a confrontar a complexidade e a ambiguidade da realidade, bem como a reconhecer que a scholarship não é uma atividade neutra, mas está sempre influenciada por fantasmas e traumas do passado. Além disso, sugere que, no passado, o estudioso clássico não acreditava em fantasmas e não sabia como se comunicar com eles, enquanto, no presente, uma postura mais aberta e receptiva com relação a eles é possível e até mesmo necessária.

O comentário de Derrida também destaca a ideia de que o conhecimento e a atividade acadêmica podem ser afetados por essa abertura para o mundo da comunicação com fantasmas. Tal abertura pode trazer consigo uma complicação impensada, mas também pode enriquecer a atividade acadêmica e permitir uma compreensão mais completa e complexa do mundo e do futuro.

Mas como o scholar pode se relacionar com o fantasma na perspectiva de uma filosofia da educação do futuro? Vamos arriscar uma resposta a essa questão, tratando-a da perspectiva do tema da violência escolar, que muitas vezes é mencionado como um problema a ser resolvido e superado, mas que na verdade é um fantasma que não desaparece completamente. O mal de arquivo da violência escolar continua vivo no contexto escolar atualmente, mesmo que ações para combatê-lo estejam sendo implementadas. Assim, é importante reconhecer a presença desses fantasmas e lidar com eles de forma consciente e crítica, em vez de simplesmente tentar ignorá-los ou apagá-los da história.

Dessa forma, num primeiro momento vamos debater como a teoria do fantasma aparece na filosofia de Derrida relacionada ao legado da psicanálise freudiana e à literatura. A seguir, vamos discutir como a filosofia da educação do futuro pode ressignificar a compreensão pedagógica das atribuições da escola na perspectiva da teoria do fantasma, da relação professor e aluno, especialmente no enfrentamento da violência escolar.

A TEORIA DO FANTASMA COMO ESTRATÉGIA HERMENÊUTICA DE DESCONSTRUÇÃO

Iniciemos a reflexão tentando responder: como Jacques Derrida interpreta a figura do fantasma no campo da psicanálise? A filosofia do francês Jacques Derrida é marcada por uma crítica da lógica, da razão e do pensamento binário. O conceito de desconstrução é fundamental para a sua filosofia, pois propõe que as verdades e as realidades não são absolutas, mas sim construídas com base em associações entre palavras e contextos culturais. Suas contribuições para a hermenêutica centram-se na análise da linguagem, pois ele acredita que as diferentes formas de significado são construídas por referências intertextuais. Ele desenvolveu um modelo de comunicação que enfatiza o jogo entre o contexto da mensagem e o significado do texto. Isso contrasta com o pensamento de Heidegger e Gadamer, que colocam ênfase na compreensão do texto baseada da perspectiva intencional do autor. Derrida argumenta que nenhuma leitura é neutra e que toda leitura está imbricada em um contexto cultural e histórico. Ele argumentou que a pré-compreensão, ou pré-juízo, é uma estrutura fundamental da experiência humana e, portanto, não pode ser superada. E usou justamente a metáfora do fantasma para explicar como isso funciona: o fantasma representa as expectativas e pressupostos de uma cultura, que são reforçados pelos processos de educação e socialização. Essas expectativas e pressupostos limitam a capacidade de as pessoas questionarem o status quo e pensarem de maneira crítica e criativa. Por isso, ele argumentou que é necessário desenvolver formas alternativas de pensamento para romper as limitações impostas pela pré-compreensão ou pré-juízo. Mas, para avançar na discussão, é preciso definir algumas categorias aqui utilizadas.

O inconsciente é uma parte da nossa mente que contém pensamentos, desejos e emoções a que não temos acesso consciente. Esses conteúdos podem influenciar o nosso comportamento e percepção de forma sutil e inconsciente. O mal de arquivo, por sua vez, é uma forma de disfunção na organização da memória, que pode levar à manifestação desses conteúdos inconscientes de forma inadequada. A memória é o processo pelo qual os eventos e experiências são armazenados e recuperados na nossa mente. Isso pode levar a uma fragmentação da memória, em que os conteúdos emocionais intensos são armazenados separadamente do resto da memória. Essa fragmentação pode facilitar a manifestação de fantasmas e, consequentemente, levar a comportamentos violentos.

Os fantasmas são as manifestações desses conteúdos inconscientes que não foram arquivados de forma correta. Eles podem ser medos, traumas, desejos reprimidos ou outras emoções intensas que ficaram "presas" na memória. Os fantasmas podem influenciar o comportamento das pessoas de forma inconsciente, levando a padrões de comportamento destrutivos e, em casos extremos, à violência.

Na violência escolar, a interligação desses conceitos é especialmente importante. A escola é um ambiente onde muitos conteúdos emocionais são gerados e armazenados, tanto positivos quanto negativos. As experiências vivenciadas pelos estudantes e professores podem deixar marcas profundas na memória e no inconsciente individual ou coletivo, assim como atestam os romances de formação.1 Quando esses conteúdos não são adequadamente arquivados e processados, eles podem levar a comportamentos agressivos e violentos.

A figura do fantasma é usada por Jacques Derrida como categoria hermenêutica de interpretação do real, ao argumentar que fantasmas representam traços ou vestígios do passado que continuam a influenciar o presente. Derrida acredita que a realidade é construída por meio de uma rede de significados que é continuamente negociada e reinterpretada. Ele vê os fantasmas como elementos dessa rede, que podem ser evocados e reinterpretados de maneiras diferentes. Por isso é tão importante dar atenção aos arquivos da violência escolar, tanto na memória psicológica dos estudantes e professores quanto na memória física das escolas.

Derrida usa a figura do fantasma para destacar o papel do inconsciente na interpretação do mundo e na construção de significados. Ele argumenta que essas aparições mobilizam desejos, medos e emoções que podem não ser facilmente acessíveis à consciência, mas que têm impacto significativo na maneira como as pessoas se comportam e interagem com o mundo. É assim que Derrida interpreta a presença do fantasma (espectro) na obra de Marx, especialmente no Manifesto Comunista, escrito com Engels, quando fala que "um fantasma ronda a Europa — o espectro do Comunismo" (Marx e Engels, 2007, p. 39). Em seu livro Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova internacional (1994), Derrida vai complementar essa reflexão dizendo:

As sociedades capitalistas sempre podem dar um suspiro de alívio, dizendo-se: o comunismo acabou desde o desmoronamento dos totalitarismos do século XX, e não somente acabou como não aconteceu, isso não passou de um fantasma. Mal podem denegar isso, o inegável mesmo: o fantasma não morre nunca, está sempre por vir ou por retornar. (Derrida, 1994, p. 136)

Essa frase de Jacques Derrida aponta para a ideia de que os fantasmas são presenças constantes e inelimináveis em nossa vida social e política, mesmo que tentemos negá-los ou exorcizá-los. No contexto específico do trecho citado, Derrida está criticando a ideia de que o comunismo e seus ideais foram definitivamente derrotados e superados pelo capitalismo, dizendo que esses fantasmas ainda permeiam nossa sociedade e podem voltar a se manifestar a qualquer momento.

Ao falar com os fantasmas e tentar entender suas motivações e atribuições, Derrida propõe que podemos desenvolver uma compreensão mais profunda do mundo e das relações entre as coisas. Essa perspectiva hermenêutica de interpretação do real é usada por ele para desafiar as concepções mais tradicionais de verdade e realidade, argumentando que essas noções são construções sociais que podem ser questionadas e reinterpretadas.

Ao chamar a atenção para reconhecermos a dimensão espectral do pensamento desconstrutivo, Derrida denomina isso de hantologie, ou seja, um pensamento da assombração, do fantasma e do espectro que abala o lugar do ser ou da presença metafísica. O fantasma não pertence nem ao mundo sensível e nem ao inteligível, ou seja, ele se encontra numa zona cinzenta e, portanto, para além dos binarismos que constituíram a metafísica clássica. Esta ideia é importante porque nos incentiva a considerar as implicações e nuances das questões filosóficas com mais profundidade. A hantologie de Jacques Derrida é o estudo dos fantasmas ou elementos incorpóreos em obras literárias e filosóficas. Ele propõe que os fantasmas sejam entendidos como figuras metafóricas para expressar a ideia de significados além do óbvio e abordar questões profundas relativas à natureza da morte, ao tempo e à memória.

A ótica de Derrida é fascinante porque destaca a ambiguidade inerente aos fenômenos, ou seja, ao mesmo tempo que algo "parece ser", também não é totalmente visível. "Derrida lembra que ‘fenômeno’ vem da palavra grega phainesthai que quer dizer ao mesmo tempo ‘o aparecer’ e ‘o fantasma’, isto é, o que é da ordem da aparição só parece ser, ao mesmo tempo, na condição de não ser totalmente visível" (Freire, 2014, p. 61). Isso nos leva a questionar nossas próprias crenças e percepções sobre o mundo. Essa perspectiva fornece uma base para um pensamento mais crítico e holístico sobre questões importantes e nos encoraja a considerar as implicações profundas das decisões que tomamos.

O espectro é uma gama de frequências que pode ser percebida pelos nossos olhos, mas nem todas as frequências são visíveis da mesma maneira. Como salienta Derrida: "O espectro, como seu nome o indica, é a frequência de uma certa visibilidade. Mas a visibilidade do invisível" (Derrida, 1994, p. 138). A visibilidade do espectro é, portanto, uma forma de tornar o invisível visível, proporcionando uma visibilidade diferente da que estamos acostumados. Isso pode ser interpretado de várias maneiras, mas uma possível explicação é que o espectro representa algo que não é completamente sensível ou tangível, mas que ainda assim é presente e tem impacto. Pode ser uma memória, uma emoção, uma ideia, uma crença, ou qualquer outra coisa que não possa ser vista diretamente, mas que pode ser sentida ou percebida indiretamente. O espectro, portanto, pode ser visto como espécie de presença ausente, algo que está presente de alguma forma, mas que não pode ser totalmente captado pela visão. Em todos esses campos, pode haver algo que é presente, mas que não pode ser visto ou tocado diretamente, e que só pode ser percebido por meio de sua influência na experiência humana.

Derrida também se refere ao livro O Moisés de Freud: Judaísmo Terminável e Interminável, de Yosef Hayim Yerushalmi (1992), em que, no último capítulo, o autor conversa com o fantasma de Freud. Yerushalmi discutiu com o fantasma de Freud sobre a relação entre o judaísmo e a psicanálise. Ele argumentou que, para Freud, o judaísmo era "terminável" — no sentido de que poderia ser abandonado — mas também "interminável", pois continha elementos que vão além da religião. Em vez disso, ele sugeriu que Freud via o judaísmo como um sistema cultural complexo que contemplava dimensões históricas, culturais, sociais e econômicas.

O monólogo de Yerushalmi com Freud sugere que esse diálogo com o passado (representado aqui por Freud) pode ajudar a entender melhor como as experiências pregressas influenciam a forma como pensamos e agimos no presente. Isso pode ser particularmente relevante na psicanálise, em que o trabalho com o passado e com o inconsciente é fundamental para o tratamento dos pacientes. Deriva daí a ideia, defendida por Adriano, da presença de um "dispositivo Yerushalmi" na obra de Derrida que tem em vista analisar melhor o poder da imagem, como no caso do cinema, e sua influência em nossas vidas: "Maravilhado pelo que chama dispositivo Yerushalmi, Derrida aposta na promessa de um método de imagem" (Adriano, 2015, p. 73). Ao falar em um "método de imagem", está se referindo a uma abordagem que lida com a memória e a história de forma mais visual e figurativa, em vez de apenas textual ou discursiva. Esse método poderia ser usado para pensar sobre como as imagens, tanto mentais quanto materiais, influenciam a forma como lembramos e representamos o passado. Ele está sugerindo que o dispositivo Yerushalmi oferece um modelo para esse enfoque da imagem. Está maravilhado com a forma como Yerushalmi usa imagens e metáforas para explorar a complexidade da memória e da história, e acredita que isso possa levar a uma conduta mais rica e multidimensional para pensar sobre esses temas.

Derrida também se refere ao papel do fantasma de Gradiva, recorrendo à análise da obra de Freud (2003) Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, publicada em 1907, a qual, por sua vez, foi baseada no romance Gradiva: uma fantasia pompeiana, do escritor e poeta alemão Wilhelm Jensen. O enredo do livro gira em torno de uma história de amor entre um homem e uma mulher, mas também contém elementos de fantasia e metafísica. Freud explora a noção de que o desejo pode ter raízes profundas na psique, e que esses desejos inconscientes podem influenciar o comportamento dos seres humanos. Assim, o romance trata da relação entre a realidade material e os impulsos psíquicos inconscientes, sugerindo que estes últimos podem influenciar o comportamento humano (Trevisan, 2022). De acordo com Freud, é possível que nossas motivações inconscientes desempenhem um papel importante na forma como nos comportamos e interagimos com o mundo. A filosofia de Derrida tem sido muito importante para a compreensão da violência, e a sua abordagem de Gradiva, realizada ao final do livro Mal de arquivo: uma impressão freudiana, explora como as forças inconscientes podem influenciar os comportamentos humanos. Derrida argumenta que é necessário abordar a violência com um pensamento crítico que considere questões como poder, história, direitos humanos e liberdade. Por esse motivo, a educação deve levar em conta esses elementos inconscientes para produzir resultados educacionais mais satisfatórios.

Além disso, nesse mesmo livro, Derrida argumenta que o fantasma de Hamlet foi usado por Shakespeare como metáfora dos efeitos da memória no tempo, do passado no presente e das crenças culturais na formação da identidade. Ele sugeriu que a presença do fantasma enfatizava a impossibilidade de nos livrarmos completamente de nosso passado, pois eles sempre estarão conosco e nos influenciando. No livro Hamlet, de Shakespeare, o fantasma aparece primeiro para Marcelo e depois para o príncipe Hamlet, filho do rei morto. O fantasma é o espírito do pai de Hamlet, que retorna do mundo dos mortos para revelar a verdade sobre sua morte e pedir vingança. O fantasma diz a Hamlet que ele foi envenenado por seu próprio irmão, Cláudio, que o sucedeu como rei e casou-se com sua esposa, a rainha Gertrudes. Pede então a Hamlet que vingue sua morte, matando Cláudio. A aparição do fantasma é um dos elementos mais famosos e importantes da peça, e sua verdadeira natureza é um ponto de debate entre os estudiosos. Harold Bloom destaca a importância dessa obra ao longo do tempo, uma vez que, referindo-se a Hamlet, diz: "O Príncipe pronuncia os nossos limites, quatro séculos mais tarde, quando qualquer um de nós se dá conta de que mesmo um profundo conhecimento do consciente pouco nos vale para decifrarmos o inconsciente, mistério que confunde a verdade" (Bloom, 2001, p. 209).

Bloom afirma que, mesmo quatro séculos depois de sua escrita, ainda enfrentamos limites em nossa compreensão do inconsciente e que a peça é uma reflexão sobre essa questão. Sugere que a obra de Shakespeare continua a ser relevante para a compreensão da natureza humana, mesmo depois de tanto tempo. Ainda hoje, muitas das questões que Hamlet enfrenta com relação ao seu próprio psicológico e ao mundo a seu redor são relevantes para nós. A ideia de que a verdade pode ser confusa ou esquiva, particularmente quando se trata do inconsciente, é uma reflexão importante sobre as complexidades da experiência humana. Por isso a obra de Shakespeare é uma fonte duradoura de sabedoria e insight, e ainda pode ser uma ferramenta valiosa para a compreensão da condição humana nos dias de hoje.

Algumas frases famosas que aparecem nessa obra podem ser interpretadas de forma mais eloquente do ponto de vista da teoria do fantasma. A passagem "ser ou não ser: esta é que é a questão" (Shakespeare, 2010, p. 118) é uma das mais famosas do personagem Hamlet, da peça homônima de William Shakespeare. Refere-se à ideia de que a vida pode ser tão dolorosa e difícil que às vezes parece que seria melhor não existir, mas, ao mesmo tempo, a morte é um mistério e pode ser ainda mais assustadora. Essa indecisão e conflito interior são temas importantes na obra e podem ter algumas relações com a teoria do fantasma.

De acordo com Derrida, Hamlet é uma peça que mostra a dificuldade humana de lidar com a incerteza e a ambiguidade da vida. O personagem principal é confrontado com uma série de dilemas e conflitos internos que o impedem de agir e o levam à introspecção e ao questionamento constante. Essa reflexão sobre a vida e sobre si mesmo pode ser vista como forma de enfrentar e de desconstruir as certezas e as verdades absolutas que governam a sociedade.

Assim, a frase de Hamlet pode ser interpretada como uma referência à necessidade de enfrentar essas questões internas e externas para poder "ser" de verdade, ou seja, para alcançar uma vida mais plena e autêntica. A teoria do fantasma pode ser vista como forma de ajudar as pessoas a enfrentar essas questões e superar seus traumas e limitações para alcançar uma formação mais completa e integral.

Já a outra citação — "Oh Deus, eu poderia viver preso numa casca de noz e me achar rei dos espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho" (Shakespeare, 2010, p. 98) — também é de Hamlet e mostra a autoilusão e a imaginação poderosa do personagem. Ele está imaginando que, mesmo em um espaço tão pequeno e restrito como uma casca de noz, ele ainda poderia se sentir como um governante poderoso e dominar os "espaços infinitos" da sua mente e da sua imaginação. Essa frase pode ter relação com a teoria do fantasma na medida em que destaca a importância da imaginação e da fantasia na vida das pessoas. Tal perspectiva busca entender e lidar com as "sombras" e "fantasmas" que permeiam a vida de todos, como traumas, preconceitos, desigualdades e outros problemas que podem afetar o processo educativo. Além disso, pode ser vista como uma crítica à arrogância e à autoilusão, que são temas importantes na teoria do fantasma. A abordagem educacional busca ajudar as pessoas a confrontar e a superar as suas próprias limitações e a reconhecer a sua vulnerabilidade e a sua interdependência com os outros e com o mundo. Ela valoriza a humildade e a empatia como virtudes importantes para a formação integral das pessoas. A teoria do fantasma valoriza a criatividade e a imaginação como formas de enfrentar e superar os traumas e as limitações da vida. Ela reconhece que as fantasias e os sonhos podem ser importantes recursos para lidar com a realidade e para criar novas possibilidades.

A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO NA PERSPECTIVA DA TEORIA DO FANTASMA

Neste momento, vamos refletir sobre o impacto da teoria do fantasma numa filosofia da educação do futuro. Antes, cabe referir que a filosofia da educação não indica um lugar específico para a educação, mas sim um horizonte para a prática educativa. Isso significa que não se trata de uma fórmula pronta e acabada, mas sim de uma abordagem flexível e adaptável às necessidades e desafios de cada contexto educacional. Dessa forma, a filosofia da educação pode ser uma ferramenta valiosa para repensar a educação em nosso país e buscar novas formas de promover a inclusão, a diversidade e a democracia em nossas escolas. Assim, essa filosofia pode redimensionar o papel da escola atual ao promover uma educação mais inclusiva, diversa e democrática, valorizando tanto o conhecimento técnico quanto as experiências emocionais e subjetivas dos alunos. Em vez de uma educação que busca apenas a formação de mão de obra especializada, a interpretação dos fantasmas como filosofia da educação propõe uma educação que forme cidadãos críticos, capazes de questionar as estruturas sociais que os cercam e de buscar novas formas de pensar e agir. Além disso, ao trabalhar com as experiências emocionais e subjetivas dos alunos, essa filosofia ajuda a superar as barreiras emocionais e psicológicas que muitas vezes impedem o diálogo e a cooperação entre as pessoas.

Muitos estudos psicanalíticos têm se concentrado no exame do fantasma em um momento específico, sem considerar como ele pode mudar ou evoluir ao longo do tempo (Adriano, 2015). Essa falta de estudos diacrônicos pode ser preocupante, pois o fantasma é uma parte essencial da teoria psicanalítica e é central para a compreensão de vários transtornos mentais. Compreender como o fantasma pode mudar ou evoluir ao longo do tempo pode ser importante para identificar mudanças na psicopatologia e para desenvolver tratamentos mais eficazes.

Além disso, uma perspectiva diacrônica pode ajudar a compreender como o fantasma se desenvolve ao longo da vida de uma pessoa e como ele pode ser influenciado por experiências passadas e presentes. Isso pode ser particularmente importante para pacientes com transtornos mentais crônicos, pois o fantasma pode ter uma influência significativa na qualidade de vida.

Uma exceção é o livro Hipótese sobre o fantasma na cura psicanalítica, de Contardo Calligaris (1986), que propõe o conceito de "fantasma" como fundamental para a prática da psicanálise. Ele argumenta que o fantasma é uma construção psíquica que representa o conflito entre nossos desejos inconscientes e a realidade externa, e que a análise do fantasma é essencial para ajudar o paciente a lidar com seus problemas psicológicos. Calligaris também aborda a questão da cura psicanalítica, argumentando que ela não é um processo linear ou definitivo, mas sim um processo contínuo de reflexão e análise do próprio sujeito. Ele enfatiza que a psicanálise não busca eliminar o sofrimento, mas sim ajudar o paciente a compreender e lidar com seus conflitos internos de forma mais saudável e construtiva.

No livro A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg, George Didi-Huberman (2013) não aborda diretamente a hipótese do fantasma na cura psicanalítica. Em vez disso, ele se concentra na figura do historiador da arte Aby Warburg e explora o modo com que sua abordagem da história da arte e das imagens pode ser visto como forma de lidar com os "fantasmas" do passado. Didi-Huberman argumenta que Warburg estava interessado nas formas como as imagens sobrevivem ao longo do tempo e como elas podem ser reinterpretadas e reapropriadas por diferentes culturas e contextos históricos. Ele sugere que Warburg estava ciente da dimensão simbólica e emocional das imagens e como elas podem evocar memórias e fantasias do passado. Desse modo, embora o livro de Didi-Huberman não aborde diretamente a hipótese do fantasma na cura psicanalítica, ele faz uma conexão entre a abordagem de Warburg às imagens e o conceito de "fantasma", sugerindo que elas possam evocar espectros do passado e que a análise desses fantasmas pode ser fundamental para compreender a história da arte e a cultura.

Na filosofia, a teoria do fantasma é usada para examinar como os valores morais e sociais são moldados pela cultura. Por exemplo, os filósofos exploram como certas crenças culturais sobre o que é certo ou errado influenciam os comportamentos das pessoas. Eles também estudam como as narrativas culturais formam nossa identidade moral e nosso senso de justiça. A ideia de que a cultura influencia a moralidade e a justiça é uma preocupação constante na filosofia, desde os antigos gregos até os dias de hoje. Filósofos como Platão, Aristóteles, Immanuel Kant, John Stuart Mill e Michel Foucault, por exemplo, discutiram extensivamente a relação entre cultura, moralidade e justiça, e como essas questões podem moldar a vida humana e a sociedade.

Mas como a conversação com os fantasmas, segundo Jacques Derrida, pode tornar a compreensão do inconsciente mais acessível e, consequentemente, contribuir para o processo educativo? A resposta a essa pergunta pode ajudar a entender as motivações inconscientes dos estudantes, bem como suas emoções e comportamentos em relação ao ambiente escolar. Essa perspectiva pode permitir que educadores e alunos desenvolvam uma compreensão mais profunda do contexto da violência escolar e, em consequência, ajudar a lidar com esse problema de forma mais eficaz. Além disso, pode estimular o investimento afetivo e a elaboração das atribuições dos fantasmas, criando um ambiente educacional mais aberto e empático.

A ideia do scholar do futuro, tal como proposta por Jacques Derrida, implica uma ancoragem que reconhece a importância do fantasma, entendido como aquilo que não está presente e que não pode ser completamente compreendido ou explicado. Esse ponto de vista pode gerar uma filosofia da educação do futuro que valorize o diálogo e a compreensão das múltiplas camadas de significado e perspectivas que permeiam o ato de aprender e ensinar.

Ao se relacionar com o fantasma — como foi o caso de Yerushalmi com o fantasma de Freud, na abertura do Hamlet, ou ainda no diálogo do arqueólogo com a sua musa inspiradora, a Gradiva —, o scholar do futuro reconhece que há sempre algo além do que pode ser visto ou dito. Isso implica uma ação que não se limita a transmitir conhecimento, mas que busca entender os diferentes contextos e experiências que moldam o processo de conhecimento e aprendizado. O scholar do futuro pode ser visto como alguém que está disposto a ouvir e a aprender com o que não pode ser visto ou compreendido de forma imediata, e que valoriza a riqueza que essa abertura pode trazer para o processo educativo.

Assim, a relação do scholar do futuro com o fantasma pode gerar uma filosofia da educação que valorize a escuta, o diálogo e a compreensão das múltiplas camadas de significado que permeiam o processo de aprendizado. E isso pode gerar uma educação mais inclusiva, que valorize a diversidade de saberes e experiências e que seja capaz de formar cidadãos mais críticos, empáticos e comprometidos com a construção de um mundo mais justo e igualitário.

Em termos de filosofia da educação, essa interpretação pode gerar uma valorização do diálogo e da comunicação como elementos centrais para o aprendizado. O scholar do futuro pode entender que a educação não é um processo unilateral, mas que envolve a troca de ideias e perspectivas diferentes. E essa atitude conduz a um entendimento mais profundo e complexo do mundo e das pessoas, valorizando a diversidade e a multiplicidade de experiências e saberes.

O diálogo com os fantasmas pode ser uma forma alternativa, e até inovadora, em relação à concepção do diálogo da pedagogia tradicional e da escola nova, na medida em que parte de uma perspectiva que reconhece a presença de elementos invisíveis e simbólicos que influenciam o comportamento e o pensamento dos indivíduos. Enquanto a pedagogia tradicional e a escola nova se concentram em abordagens racionais e empíricas do conhecimento, o diálogo com os fantasmas propõe uma visada mais subjetiva e simbólica, que leva em consideração as experiências e as memórias que não podem ser quantificadas ou mensuradas de forma objetiva.

A pedagogia tradicional e a escolanovista são abordagens distintas em relação ao processo educativo, tendo em comum a valorização do conhecimento, mas diferindo na forma como ele é transmitido e utilizado pelos alunos. A pedagogia tradicional se baseia em um enfoque racional do conhecimento, que tem como principal objetivo a transmissão do conhecimento acumulado pelas gerações anteriores. A escola é vista como um espaço para a aquisição de conhecimentos e habilidades que serão úteis para o indivíduo em sua vida futura. A pedagogia tradicional é centrada no professor, que é visto como o detentor do conhecimento e o responsável por transmiti-lo aos alunos. Os métodos pedagógicos utilizados são principalmente a exposição verbal, a repetição e a memorização.

Já a pedagogia escolanovista valoriza uma visão mais empírica do conhecimento, que tem como objetivo principal desenvolver a capacidade dos alunos de pensar por si próprios e de aprender com a própria experiência. A escola é vista como um espaço de experimentação e descoberta, onde o aluno é incentivado a explorar o mundo e a desenvolver suas próprias habilidades e interesses. A pedagogia escolanovista é centrada no aluno, que é visto como o protagonista do seu próprio processo de aprendizagem, e os métodos pedagógicos utilizados são principalmente a atividade prática, a pesquisa e a discussão em grupo.

Em síntese, enquanto a pedagogia tradicional se concentra na transmissão do conhecimento acumulado, a escolanovista enfatiza o desenvolvimento das capacidades dos alunos apoiado em sua própria experiência e na reflexão crítica sobre o mundo ao seu redor. Já o diálogo com os fantasmas pode ser uma forma alternativa de pensar a educação ao permitir que os estudantes explorem seus medos, traumas, fantasias e outras emoções que podem afetar sua aprendizagem, os quais não são alcançados pelos métodos convencionais de ensino e aprendizagem. Além disso, essa intencionalidade pode incentivar a reflexão crítica e a compreensão das relações de poder e dominação presentes na sociedade e na cultura.

Mas como a relação com o fantasma pode auxiliar no entendimento da violência escolar? Uma das principais contribuições do diálogo com os fantasmas para a educação é a possibilidade de construir uma pedagogia mais inclusiva, que leve em consideração as diversas experiências e vivências dos estudantes e que respeite sua subjetividade e individualidade. Isso pode ser particularmente importante para alunos que enfrentam situações de violência escolar ou que têm dificuldades de aprendizagem, pois o diálogo com os fantasmas pode ajudá-los a identificar e lidar com seus medos e traumas, criando um ambiente mais acolhedor e empático na escola. Afinal, como bem afirma Vasconcelos, a escola, mais do que um lugar de formação para a cidadania e respeito, se transformou em arena de disputas, conflitos e de reprodução da violência:

Efetivamente, ela se situa na encruzilhada da educação de casa com a educação do mundo. É um agente de socialização e mudança. Contudo, exerce esse papel em meio à violência, podendo-se traduzir tal cenário indesejado como "violência da escola, na escola e contra a escola". Dessa maneira, no jogo de mútuas influências com o lado de fora, a escola tem deixado de ser uma instituição tão somente invadida pelo problema da violência para transformar-se numa máquina de sua reprodução. (Vasconcelos, 2017, p. 897)

A relação com os fantasmas pode redimensionar o papel da escola moderna de diversas maneiras. Em primeiro lugar, ao reconhecer a presença dos fantasmas na vida dos estudantes, essa abordagem pode ajudar a criar um ambiente escolar mais acolhedor e sensível às necessidades emocionais e psicológicas dos alunos. Ao trabalhar com a ideia de que o passado está presente no tempo atual dessa forma, a filosofia da educação pode incentivar uma atitude mais reflexiva e crítica em relação à história e às estruturas sociais que nos influenciaram até aqui. Por exemplo, ela pode desconstruir diversos fantasmas, narrativas ou mitos que permeiam o contexto escolar, como: o fantasma da ordem; de que a escola é um lugar seguro, sagrado e infenso à violência; de que o conflito é sempre algo negativo. "Na verdade, o conflito é a manifestação da ordem em que ele próprio se produz e da qual se derivam suas consequências principais. O conflito é a manifestação da ordem democrática, que o garante e o sustenta" (Chrispino, 2007, p. 17). Há aqui, portanto, a necessidade de uma revisão constante das práticas educacionais e de suas implicações sociais, bem como a promoção de uma educação mais inclusiva, diversa e democrática.

Um exemplo de aplicação prática da filosofia da educação do futuro que dialoga com os fantasmas pode se dar pela pedagogia do trauma, que tem se tornado cada vez mais comum em diversas partes do mundo, reconhecendo a importância de lidar com as feridas e traumas que permeiam a vida dos estudantes e que muitas vezes são invisíveis ou ignoradas no contexto escolar. A pedagogia do trauma valoriza o diálogo e a escuta dos estudantes, buscando entender suas histórias, experiências e emoções. Isso sugere uma interpretação mais aberta e empática, que não se limita apenas ao ensino de conteúdos técnicos, mas que busca entender as múltiplas camadas de significado que permeiam o processo de aprendizado.

Essa perspectiva pode dialogar com os fantasmas ao reconhecer que existem experiências e emoções que não podem ser completamente compreendidas ou explicadas, mas que precisam ser acolhidas e trabalhadas de forma cuidadosa e respeitosa, mais sensível e que valoriza a empatia, o cuidado e a atenção plena no processo de aprendizado. A pedagogia do trauma pode ter uma aplicação prática em diversas áreas do conhecimento, como a psicologia, a saúde mental, a assistência social, entre outras. Ela pode ser aplicada tanto em escolas regulares como em projetos sociais e comunitários, valorizando a diversidade e a inclusão como elementos centrais para a formação de cidadãos mais críticos, empáticos e comprometidos com a construção de um mundo mais justo e igualitário.

Além disso, o diálogo com os fantasmas pode ser uma forma de incentivar a criatividade e a imaginação dos estudantes, permitindo que eles desenvolvam novas formas de pensar e de se expressar, explorando sua subjetividade e sua relação com o mundo. Dessa forma, contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e emocionais que não são tão enfatizadas pela pedagogia tradicional e pela escola nova, como a compreensão, a reflexão crítica, a criatividade e a expressão artística. Em suma, esta pode ser uma forma alternativa de pensar a educação, permitindo que os estudantes explorem sua subjetividade e suas emoções, e que desenvolvam habilidades e competências que não são tão enfatizadas pelas formas tradicionais de pensar a educação. Essa perspectiva de trabalho pode contribuir para a construção de uma educação mais inclusiva, empática e criativa, que valorize a diversidade e a individualidade dos estudantes.

A teoria do fantasma também pode ajudar a questionar o modelo habitual de ensino, que muitas vezes privilegia o conhecimento técnico em detrimento das experiências emocionais e subjetivas dos estudantes. Ao reconhecer a presença dos fantasmas na vida dos estudantes, a filosofia da educação pode ajudar a promover uma compreensão mais holística e integrada do processo de aprendizado, valorizando tanto o conhecimento técnico quanto as experiências emocionais e subjetivas dos alunos. Como modelo teórico e filosófico, a abordagem dos fantasmas da violência escolar não se traduz diretamente em um desenho físico da escola. No entanto, podemos propor algumas ideias e características de uma escola do futuro que, atenta aos fantasmas da violência escolar, poderia estar mais aberta e sensível para a desconstrução do modelo atual:

  1. Ambiente acolhedor e sensível: uma escola do futuro, atenta aos fantasmas da violência escolar, poderia ser um ambiente acolhedor e sensível às necessidades emocionais e psicológicas dos alunos. Isso pode ser traduzido em um espaço físico que seja acolhedor e estimulante, com cores claras e espaços amplos que convidem os alunos a se sentir à vontade e seguros;

  2. Compreensão holística do ensino: a escola assim constituída deveria adotar uma perspectiva mais plural e integral do ensino, valorizando tanto o conhecimento técnico quanto as experiências emocionais e subjetivas dos alunos. Isso pode se traduzir em um currículo mais diversificado, que inclua não apenas as matérias tradicionais, mas também atividades extracurriculares e programas de educação emocional e psicológica;

  3. Educação para a diversidade e a inclusão: promover uma educação mais crítica e reflexiva com relação aos valores e às estruturas sociais que nos trouxeram até aqui, mais atenta e crítica com relação à história e à cultura, valorizando a diversidade e a inclusão como elementos centrais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária;

  4. Prevenção e intervenção em casos de violência escolar: a escola do futuro, em diálogo com os fantasmas da violência escolar, estaria assim preparada para prevenir e intervir nesses casos. Isso poderia se traduzir em políticas e programas específicos de prevenção, acompanhamento e intervenção em casos de bullying, assédio, discriminação e outras formas, sabendo-se que a escola não é um lugar sagrado e infenso à violência;

  5. Participação e diálogo: finalmente, uma escola com esse perfil promoveria a participação e o diálogo entre alunos, professores, pais e comunidade. Isso poderia se traduzir em espaços de debate e reflexão, onde os alunos possam expressar suas opiniões e ideias, e onde os professores e pais possam dialogar e trocar experiências.

Desse modo, a interpretação dos fantasmas como filosofia da educação pode redimensionar o papel da escola moderna ao promover uma educação mais inclusiva, diversa e democrática, valorizando tanto a dimensão técnica quanto as experiências emocionais e subjetivas dos alunos, questionando constantemente as estruturas sociais que nos moldaram até aqui.

ASPECTOS CONCLUSIVOS

O texto procurou versar sobre a relação entre o inconsciente, o mal de arquivo, os fantasmas, a memória e a violência escolar na perspectiva complexa e multidimensional da hermenêutica desconstrutiva. Jacques Derrida foi um filósofo francês que se dedicou à desconstrução das ideias e dos conceitos dominantes da tradição filosófica ocidental. Em sua obra, ele se interessou por temas como a linguagem, a escrita, a diferença, a identidade e a desconstrução. Existe uma crença comum de que fantasmas são elementos associados às energias negativas, ao medo e à superstição. No entanto, para os estudos de Freud e Derrida, eles representam uma forma de autorreflexão e autoconsciência que nos permite fazer ajustes em nossas próprias vidas.

A teoria do fantasma pode se beneficiar dessa perspectiva derridiana sobre Hamlet e outras obras acadêmicas em que aparece o espectro, ao propor um desenho educacional que reconheça a importância da reflexão crítica e da desconstrução das ideias e dos conceitos que moldam a nossa visão de mundo. A teoria do fantasma valoriza a reflexão sobre as questões sociais, históricas e culturais que afetam a educação e a formação das pessoas, e busca desestabilizar as certezas e as verdades que limitam a nossa capacidade de pensar e de agir de forma autônoma.

Além disso, a interpretação derridiana dessas obras destaca a importância da linguagem e da escrita como formas de expressão e de desconstrução das ideias. Ela pode valorizar a escrita criativa e reflexiva como forma de lidar com os fantasmas e as sombras que permeiam a vida de todos e de construir novas possibilidades de entendimento e de transformação da realidade.

Se o inconsciente é concebido na cena arqueológica habitada por ruínas, por óbvio ele se torna a casa dos fantasmas. Demanda um investimento afetivo, fazendo com que os traços sejam interpretados na medida de sua ocorrência. Se a função do fantasma é tornar suportável o real, então a tarefa de se livrar dele não cabe, mas sim a de conversar com ele, saber suas motivações e a serviço do que ele se encontra, com a consequente elaboração de suas atribuições. Até que ponto o fantasma está exaurindo as nossas energias?

Derrida, assim como Freud, destaca a importância de reconhecer que o inconsciente é habitado por fantasmas, ou seja, memórias e traumas do passado que podem influenciar negativamente nossa vida presente. Em vez de tentar simplesmente eliminar esses fantasmas, o autor sugere que é importante lidar com eles de forma consciente e compreender suas motivações e impacto em nossa vida.

A ideia de que os fantasmas podem tornar o real suportável é interessante, já que sugere que eles podem nos ajudar a desconstruir situações difíceis, mas também sugere que é preciso ter cuidado para não deixar que eles esgotem nossas energias. Em vez disso, é importante investir tempo e esforço para entender esses fantasmas e elaborar suas atribuições, a fim de encontrar maneiras saudáveis de lidar com eles e seguir em frente.

No contexto escolar, o mal de arquivo pode estar relacionado a experiências traumáticas ou negativas que não foram devidamente processadas e arquivadas pela mente do estudante. Isso pode levar a uma sensação de desconforto, medo, ansiedade ou mesmo desesperança. Essas emoções podem se manifestar em comportamentos agressivos, depressão ou desmotivação, afetando o desempenho acadêmico e a relação do estudante com a escola.

Os "fantasmas da violência escolar" são consequência direta do mal de arquivo. Representam os traumas e medos que assombram os estudantes, professores e funcionários da escola, mesmo após a ocorrência de um episódio de violência. Esses fantasmas podem afetar não só as pessoas envolvidas diretamente no incidente, mas toda a comunidade escolar.

Para combater o mal de arquivo e os fantasmas da violência escolar, é importante investir em uma educação que valorize a empatia, o diálogo, a resolução pacífica de conflitos e o acolhimento emocional (Chrispino, 2007). Para prevenir a violência escolar, é necessário investir em políticas de prevenção que levem em conta a saúde mental e emocional dos estudantes e professores, além de oferecer apoio psicológico e terapêutico para aqueles que precisam um acompanhamento mais especializado. É preciso que haja espaço para que os estudantes se sintam ouvidos e compreendidos, para que possam compartilhar suas emoções e experiências de forma saudável e construtiva.

Um exemplo de como os educadores podem usar a teoria do fantasma para ensinar ética é discutir as narrativas, mitos e ideias que estão relacionados às questões de gênero, dado que este é um dos espinhos mais agudos da violência escolar. Ao se discutirem questões complexas como gênero e sexualidade, muitas vezes se passa rapidamente por uma trama intrincada, sem explorar de maneira aprofundada as nuances e interseções desses temas. Nesse sentido, a complexidade das problemáticas de gênero e sexualidade demanda uma gama mais ampla de perspectivas e vozes. Destaca-se aqui a riqueza dos escritos de autoras e autores brasileiros, como Jéssica Antunes Ferrara (2019), cujo trabalho sobre feminismo e desconstrução amplia o horizonte de reflexão, ultrapassando as fronteiras estabelecidas pelo pensamento tradicional. É fundamental reconhecer que essas questões não são meramente acadêmicas, mas têm repercussões profundas na vida dos estudantes e na construção de uma cultura de paz. Em um contexto em que as violências de gênero se avolumam, confrontar esses fantasmas torna-se uma tarefa premente. A educação, nesse sentido, não pode ser dissociada do engajamento com as questões sociais e políticas que permeiam a sociedade e a própria universidade, como bem demonstra Ruggieri (2020). No texto "Os fins da universidade: herança e imaginação", ela mostra como intelectuais como Derrida e Virginia Woolf procuraram pensar uma universidade para além "dos ideais modernos da ilustração excludente nem o fim utilitário do desenvolvimento nacional" (Ruggieri, p. 168). Integrar essa outra perspectiva no campo da filosofia da educação implica abrir espaço para vozes marginalizadas e para uma reflexão crítica sobre as práticas pedagógicas e os discursos que sustentam o status quo.

A proposta de uma escrita mais aberta e desconstrutiva não se limita ao campo teórico, mas tem implicações práticas na forma como concebemos e implementamos as políticas educacionais. Incorporar a conversa com os fantasmas, como sugere o texto até aqui apresentado, significa reconhecer e enfrentar os desafios reais que permeiam o ambiente escolar, buscando transformar as estruturas opressivas e promover uma educação mais inclusiva e emancipatória.

Desse modo, os professores poderiam explorar com os estudantes como certas narrativas patriarcais podem contribuir para a desigualdade econômica entre homens e mulheres, ou como certas narrativas rígidas sobre gênero limitam as possibilidades de autonomia das pessoas. Já com relação à violência escolar, a teoria do fantasma pode ajudar a desconstruir certas crenças culturais ou narrativas que são capazes de influenciar o comportamento dos alunos e moldar seus valores morais. Se uma cultura incentivar a violência para resolver conflitos, isso poderá levar a um ambiente escolar violento; porém, se os valores culturais enfatizarem a tolerância e a resolução pacífica de problemas, isso poderá levar a um ambiente escolar mais saudável e seguro (Chrispino, 2007).

Para prevenir a violência escolar, é fundamental que haja um trabalho de conscientização sobre a importância da saúde mental e emocional dos estudantes e professores. É necessário investir em políticas de prevenção, como a promoção da cultura de paz, o diálogo aberto e a mediação de conflitos (Chrispino e Dusi, 2008; Vasconcelos, 2017). Além disso, é importante que haja apoio psicológico e terapêutico disponível para aqueles que precisam de um acompanhamento mais especializado.

Em resumo, o mal de arquivo e os fantasmas da violência escolar são problemas sérios e complexos, mas é possível enfrentá-los com uma educação que valorize a consideração, a escuta ativa e o cuidado emocional. É necessário entender que o que está em jogo não é apenas o desempenho acadêmico dos estudantes, mas a sua saúde mental e emocional, que é fundamental para o seu desenvolvimento pessoal e social.

  • 1
    Referimo-nos a livros como: O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger (2017); O ateneu, de Raul Pompéia (1981); ou ainda Balão cativo, de Pedro Nava (2012).
  • Financiamento:
    O estudo não recebeu financiamento.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    30 Mar 2023
  • Revisado
    06 Fev 2024
  • Aceito
    29 Fev 2024
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