Resumo
Este artigo usa o enfoque da teoria dos preços dos ativos na determinação do preço da moeda para apresentar uma resenha concisa sobre os seguintes tópicos da teoria monetária: i) preço da moeda: bolhas versus fundamentos; ii) equilíbrio múltiplo; iii) indeterminação do nível de preço ; iv) quantidade ótima de moeda ; v) hiperinflação; vi) substituição de moeda e vii) rigidez do preço no curto prazo.
preço da moeda; bolhas x fundamentos; indeterminação do nível de preços; quantidade ótima de moeda; hiperinflação; substituição de moeda
Abstract
The price of money, as the price of any financial asset, can be determined through asset pricing theory. Based on this approach, this paper presents a concise survey of the following topics of monetary theory: i) price of money: bubbles versus fundamentals; ii) multiple equilibria; iii) price level indeterminacy; iv) optimum quantity of money; v) hyperinflation; vi) currency substitution, and vii) price of money rigidity.
O valor da moeda e a teoria dos preços dos ativos*
Fernando de Holanda Barbosa
Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas. E-mail: fholanda@fgv.br
RESUMO
Sumário: 1. Introdução; 2. Preço da moeda: fundamentos x bolhas; 3. Equilíbrio múltiplo; 4. Indeterminação do preço da moeda; 5. Quantidade ótima de moeda; 6. Hiperinflação: bolhas; 7. Hiperinflação: fundamentos; 8. Dolarização: substituição da moeda doméstica; 9. Rigidez do preço da moeda; 10. Conclusão.
Este artigo usa o enfoque da teoria dos preços dos ativos na determinação do preço da moeda para apresentar uma resenha concisa sobre os seguintes tópicos da teoria monetária: i) preço da moeda: bolhas versus fundamentos; ii) equilíbrio múltiplo; iii) indeterminação do nível de preço ; iv) quantidade ótima de moeda ; v) hiperinflação; vi) substituição de moeda e vii) rigidez do preço no curto prazo.
Palavras-chave: preço da moeda; bolhas x fundamentos; indeterminação do nível de preços; quantidade ótima de moeda; hiperinflação; substituição de moeda.
Códigos JEL: E31; E41; E52.
ABSTRACT
The price of money, as the price of any financial asset, can be determined through asset pricing theory. Based on this approach, this paper presents a concise survey of the following topics of monetary theory: i) price of money: bubbles versus fundamentals; ii) multiple equilibria; iii) price level indeterminacy; iv) optimum quantity of money; v) hyperinflation; vi) currency substitution, and vii) price of money rigidity.
1. Introdução
A moeda é um ativo financeiro usado como meio de trocas. Portanto, seu preço é igual ao valor presente dos fluxos de serviços de liquidez que ela produz. Este modo de calcular o valor da moeda é bastante geral e abrange qualquer modelo monetário independente da existência ou não dos micro-fundamentos do mesmo.1 A maneira pela qual os serviços de liquidez prestados pela moeda são especificados depende do modelo, mas o resultado final de cada abordagem é estabelecer uma equação de demanda de moeda, que será aqui tomada como dada.
O artigo está organizado do seguinte modo: a seção 2 deriva o preço da moeda a partir de uma condição de arbitragem, supondo certeza e mercados de capitais perfeitos, e mostra o resultado bem conhecido da literatura que o preço de um ativo financeiro pode ter um comportamento de bolha; a seção 3 trata da existência de equilíbrios múltiplos para o preço da moeda; a seção 4 discute o problema da indeterminação do preço da moeda quando o Banco Central fixa a taxa de juros nominal da economia; a seção 5 trata da quantidade ótima de moeda que maximiza o bem-estar da sociedade; a seção 6 mostra que em vários modelos de hiperinflação sua origem não é o déficit público, mas sim a existência de bolhas; a seção 7 apresenta um modelo em que a hiperinflação é causada por fundamentos e não por bolhas; a seção 8 trata do fenômeno da dolarização, quando uma moeda estrangeira também é usada como meio de trocas; a seção 9 discute a questão da rigidez do preço da moeda no curto prazo; a seção 10 conclui o trabalho.
2. Preço da Moeda: Bolhas x Fundamentos
O preço da moeda é igual à quantidade de bens e serviços que pode ser comprada com uma unidade do padrão monetário. Isto é, o preço da moeda (q) é igual ao inverso do nível de preços (P):
O termo depois do segundo sinal da igualdade mostra que o preço da moeda é igual à razão entre a quantidade real (m) e o estoque nominal (M) de moeda. O enfoque tradicional para determinar o valor da moeda consiste justamente em analisar as variáveis que afetam os estoques real e nominal da moeda.2 Os indivíduos decidem a quantidade real de moeda que desejam ter nas suas carteiras de ativos financeiros, e o Banco Central dispõe de instrumentos para a compra e a venda de moeda que lhe permite controlar o seu estoque nominal.
Um problema fundamental na teoria monetária é a provisão de micro-fundamentos da equação de demanda de moeda. Quatro enfoques têm sido usados com este propósito na literatura: i) moeda na função utilidade (MIU); ii) restrição prévia de liquidez (CIA); iii) custos de transação (TC) e iv) modelos de gerações superpostas (OLG).3 O último enfoque foi abandonado porque ele não leva em consideração o principal atributo da moeda, a função de meio de trocas. Qualquer um destes enfoques produz uma equação inversa para a quantidade real demandada de moeda,
onde r, a taxa nominal de juros, é o custo de oportunidade de reter moeda.4
Os serviços de liquidez da moeda podem ser medidos pelo custo de oportunidade dos recursos usados na forma de moeda. Isto é:
que corresponde ao retângulo com a área tracejada da figura 1. Os serviços de liquidez por unidade de moeda são obtidos dividindo-se o fluxo de serviços (s) pelo estoque nominal de moeda: s(m)/M.
Exemplos usuais da função s(m) correspondem às especificações da equação de demanda de moeda nas formas funcionais semi-logarítmica e dupla logarítmica. Na forma semi-logarítmica logm = -ar, a > 0, s(m) = -(m log m) /a, s'(m) = 0 quando m = exp(-1) e s"(m) < 0. A forma funcional dupla logarítmica é um caso particular de logm = - Î log (b+r), Î > 0, quando b = 0. A função de serviços de liquidez neste caso é dada por
,s'(m) < 0 e s"(m) > 0 quando Î< 1. Os gráficos da figura 2 correspondem aos casos particulares das equações semi-logarítmica e dupla logarítmica em que Î = 1. Na Figura 2a a elasticidade da quantidade real demandada de moeda com relação à taxa de juros varia entre zero e menos infinito. Na Figura 2b a elasticidade é menor do que um em valor absoluto e a moeda é definida neste caso como essencial.5
A moeda é essencial quando ela não é facilmente substituível por outros ativos financeiros na sua função de meio de trocas. A moeda é uma convenção social que depende tanto do arcabouço jurídico que estabelece as condições legais para a liquidação financeira dos contratos quanto do grau em que a sociedade é obrigada a cumprir as leis vigentes. Portanto, a essencialidade da moeda é determinada não somente pela tecnologia das transações econômicas mas também pelas instituições de cada país.
O preço de qualquer ativo em equilíbrio, quando existe certeza e os mercados de capitais são perfeitos, é tal que sua taxa de retorno é igual à taxa de juros. Caso contrário, existem oportunidades para arbitragem. Portanto, se ré a taxa de juros real, o preço da moeda satisfaz à seguinte condição de arbitragem:
onde
= dq/dt é o ganho (perda) de capital quando o preço da moeda aumenta (diminui). Para deduzir esta equação basta combinar-se s(m) = rm e a equação de Fisher r = r+p = r-
, ou seja, s(m) =
Mq, levando-se em conta o fato de que m = Mq. A equação (4) também pode ser escrita do seguinte modo:
A solução desta equação diferencial necessita da especificação da função que representa os serviços da moeda s(m) e do processo que gera o estoque nominal (M) de moeda. Todavia, qualquer que seja a solução, ela tem dois componentes, uma de fundamentos e outra de bolha:
A solução de bolha (qb) é dada por:
É fácil verificar que esta expressão é solução da equação (5). Com efeito, derivando-se ambos os lados de (6), levando-se em conta (7) e substituindo-se em (5), obtém-se:
f + r C ert = rqf + r C ert - s (m) /Me simplificando-se:
f = r qf - s (m) /MLogo, a solução da equação (5) tem dois componentes. A constante C da solução de bolha pode ser negativa pois no caso da moeda sem lastro nada impede que o seu preço seja igual a zero. A solução de fundamentos (qf) é igual ao valor presente dos fluxos dos serviços da moeda. Isto é:6
A afirmação de que a moeda é um ativo financeiro usado como meio de trocas e seu preço é igual ao valor presente dos fluxos de serviços de liquidez que ela produz deve ser qualificada. Esta proposição baseia-se no seguinte teorema: O preço da moeda é dado por (8) se e somente se r = r(m) e r = r+p, onde r( ) é a função inversa da equação de demanda de moeda e r = r+pé a equação de Fisher. A demonstração de que esta condição é suficiente já foi feita na obtenção de (8). Para demonstrar que esta condição é necessária basta derivar a expressão (8) com relação ao tempo e usar a definição da função s(m).
3. Equilíbrio Múltiplo
Para analisar a questão de equilíbrio múltiplo admita-se que o estoque nominal de moeda é constante e igual a uma unidade: M = 1. Esta hipótese simplifica o problema sem acarretar nenhuma perda de generalidade.7 A equação diferencial (5) torna-se então,
O diagrama de fases da figura 3 mostra que esta equação diferencial pode ter dois equilíbrios estacionários, ou apenas um, dependendo do limite da função s(q), quando o preço da moeda aproxima-se de zero,
Quando a moeda for essencial este limite é positivo e existe apenas um equilíbrio. Quando a moeda não for essencial, o limite é igual a zero e existem dois pontos de equilíbrio. Num equilíbrio, a moeda não tem valor, e existem trajetórias de hiperinflação que conduzem o valor da moeda para zero. As trajetórias que conduzem ao equilíbrio no qual o preço da moeda é igual a zero têm sido denominadas de bolhas. Todavia, elas não correspondem a soluções de bolhas propriamente ditas porque o valor da moeda em equilíbrio é igual a zero em virtude dos fluxos de serviços de liquidez da moeda neste caso serem iguais a zero.
Como verificar empiricamente qual das duas situações é a relevante na prática? A resposta para esta pergunta é simples, porque se a moeda é essencial a elasticidade da quantidade real de moeda com relação à taxa de inflação é menor do que ou igual a um em valor absoluto. Quando a moeda não é essencial tal fato não ocorre. Logo, em princípio, dados de experiências de hiperinflação podem ser usados para testar esta hipótese.
4. Indeterminação do Preço da Moeda
O preço da moeda é indeterminado quando o Banco Central fixa a taxa de juros nominal (r =
) .8 Nestas circunstâncias, o fluxo de serviços é constante,s(m) =
, mas a quantidade nominal de moeda não é determinada. Logo, a equação diferencial (5) é dada por:
O diagrama de fases da figura 4 mostra que para cada valor de M existe um valor de equilíbrio para o preço da moeda. A indeterminação pode ser resolvida caso o Banco Central mude a regra de fixação da taxa de juros, para uma regra do tipo:
onde
é a meta do preço da moeda para o Banco Central. Em equilíbrio, quando r =
, q =
, e o preço é determinado.
5. Quantidade Ótima de Moeda
O custo privado de oportunidade de reter moeda é a taxa de juros nominal. Numa economia com moeda sem lastro, o custo social de produzir a moeda é igual a zero. Nesta economia, como mostra a figura 5, o excedente do consumidor é máximo quando a taxa de juros nominal for igual a zero, e a quantidade real demandada de moeda igual a
.9 O valor dos fluxos de serviços da moeda, neste caso, é igual a zero: s(
) = 0.
Quando o valor dos serviços de liquidez da moeda é igual a zero, a equação diferencial (5) é, então, dada por:
ou seja, o preço da moeda cresce a uma taxa igual à taxa de juros real da economia. O preço da moeda, pelos fundamentos, é igual a zero. Todavia, o preço da moeda é dado pelo componente de bolha. Esta solução pode parecer estranha, mas ela não é uma solução de bolha típica dos modelos de otimização intertemporal, em virtude da hipótese de existência de uma quantidade real de moeda finita quando a taxa de juros nominal é igual a zero. Ademais, a interpretação mais adequada neste caso não seria com uma bolha, mas com o preço de um ativo que não produz um fluxo de caixa como o ouro, cujo preço, em equilíbrio, num mundo sem incerteza e com mercados perfeitos, deve aumentar a uma taxa igual a taxa de juros real.10
A regra de Friedman, da taxa de juros nominal igual a zero, que determina a quantidade ótima de moeda sofre do problema da indeterminação analisado na seção anterior, se o Banco Central decidir implementá-la fixando a taxa de juros. O preço da moeda, nesta economia, no instante inicial não está definido, pois o valor presente dos fluxos dos serviços de liquidez da moeda é igual a zero, Esta condição, portanto, não pode ser usada para calcular o preço inicial da moeda. Logo, o Banco Central pode escolher qualquer valor inicial, de acordo com a regra modificada da equação (12). Isto equivale a dizer que existe um número infinito de trajetórias para o preço da moeda.
Qualquer que seja o seu valor inicial, o preço da moeda tem de satisfazer a condição de que ele cresça a uma taxa igual a taxa de juros real da economia. O Banco Central ao invés de fixar a taxa de juros pode, portanto, implementar a política monetária ótima estabelecendo a trajetória da quantidade de moeda, com o estoque nominal diminuindo a uma taxa igual a taxa de juros real. As duas formas de implementar a política ótima são equivalentes desde que o preço inicial escolhido na regra da taxa de juros corresponda ao estoque inicial de moeda da trajetória do estoque nominal de moeda.
6. Hiperinflação: Bolhas
A hiperinflação é o fenômeno no qual o preço da moeda converge para zero num tempo finito ( limt®Tqt = 0,0 < T < ¥) . O modelo clássico de hiperinflação supõe que a emissão de moeda financia um déficit público (g)constante em termos reais (g =
).11 Isto é:
O preço da moeda é determinado pelas equações (5) e (14). Este modelo fica mais simples de ser analisado através da variável m = Mq. A equação diferencial de m é dada por:12
A figura 6 mostra duas possibilidades deste modelo dependendo do formato da função s(m). No caso da figura 6a, existem dois pontos de equilíbrio. Em ambos os casos, o preço da moeda diminui a uma taxa constante, mas não existe hiperinflação, pois o equilíbrio do ponto A é estável como indica as setas do gráfico.
No caso da figura 6b existe apenas um ponto de equilíbrio e é possível a ocorrência de hiperinflação como uma bolha, de acordo com a seta direcionada para a origem.13 Um caso particular ocorre na hipótese de s(m = 0) =
. Isto é, quando o déficit público financiado por emissão de moeda for justamente igual ao valor dos serviços de liquidez da moeda, no ponto em que a quantidade real de moeda é igual a zero, existe um equilíbrio estacionário [
= m = 0] de hiperinflação. Esta possibilidade teórica não é muito atrativa do ponto de vista empírico porque não há registro histórico de que alguma hiperinflação tenha ocorrido de modo instantâneo.
7. Hiperinflação: Fundamentos
O fenômeno da hiperinflação pode ser gerado num modelo com três ingredientes básicos: i) déficit público financiado através da emissão de moeda; ii) crise fiscal com o déficit público aumentando com o passar do tempo, e iii) moeda essencial.14 Analiticamente, estas três hipóteses podem ser escritas do seguinte modo:
Combinando-se estas três equações com a equação (5), obtém-se uma equação igual à equação (15), exceto pelo fato de que g não é uma constante. Isto é:
Esta equação diferencial não é uma equação autônoma porque g(t) varia com o tempo, mas mesmo assim é possível fazer uma análise gráfica da dinâmica do modelo.
A figura 7 mostra uma representação gráfica do modelo. No instante inicial, o déficit público financiado por moeda é igual a g(0), e o estoque real de moeda é igual a m(0). Este valor inicial do estoque real de moeda é uma variável endógena do modelo, e sua determinação não é trivial.15 O valor m0 da figura 7 corresponde ao ponto em que a variação do estoque real de moeda é nula [
(0) = 0Þg (0) +rm0 = s(m0) ]. Como a quantidade real de moeda diminui durante o processo de hiperinflação, o valor inicial m(0) está à esquerda de m0 como indicado na figura 7. A economia descreve, então, a trajetória de hiperinflação HH num intervalo de tempo finito T, ao final do qual o valor da moeda foi destruído.
Quando a moeda não é essencial (figura 6a), a hipótese de que o déficit público financiado por moeda varia com o tempo não é capaz de produzir uma trajetória de hiperinflação, mas sim uma hiperinflação instantânea, pois a quantidade real de moeda no instante inicial é igual a zero. Portanto, neste modelo, a condição necessária e suficiente para que exista uma trajetória de hiperinflação é de que a moeda seja essencial.
8. Dolarização: Substituição da Moeda Doméstica
O uso da moeda estrangeira como meio de trocas, além da moeda doméstica, ficou conhecido na América Latina pelo nome de dolarização.16 Esta substituição da moeda local afeta a quantidade real demandada de moeda, e conseqüentemente o valor dos serviços de liquidez da mesma.
A liquidez da economia quando existe substituição de moeda pode ser especificada através de uma função do tipo CES, cujos argumentos são as quantidades reais da moeda doméstica e da moeda estrangeira:
onde g, d e f são parâmetros. A quantidade real de moeda estrangeira é obtida multiplicando-se a quantidade nominal de moeda estrangeira usada na economia local como meio de trocas pela taxa de câmbio, e dividindo-se este resultado pelo índice de preços doméstico. A elasticidade de substituição é definida por: s = 1/(1+f). Quando f ® -1, a elasticidade de substituição é infinita e as duas moedas são substitutas perfeitas. Quando f ® -¥, a elasticidade de substituição é zero, e as moedas não são substitutas. Quando f = 0, a elasticidade de substituição é igual a um, e a função é Cobb-Douglas.
As equações de demanda da moeda doméstica e da moeda estrangeira podem ser derivadas a partir de um modelo no qual a liquidez é um argumento da função utilidade, que é aditiva no consumo e na liquidez, U = u(c) +v(
) , satisfazendo as propriedades tradicionais da teoria do consumidor. A taxa marginal de substituição entre consumo e moeda doméstica, em equilíbrio, é igual à taxa de juros doméstica:
e a taxa marginal de substituição entre consumo e moeda estrangeira, em equilíbrio, é igual à taxa de juros externa:
Dividindo-se a equação (21) pela equação (22) e levando-se em conta a especificação da liquidez obtém-se:
A proporção entre os estoques das moedas doméstica e estrangeira depende da relação entre as taxas de juros. Quando a relação entre as taxas de juros aumenta de 1%, a proporção entre os estoques diminui de s%, onde sé a elasticidade de substituição entre as moedas.
O valor dos serviços de liquidez da moeda doméstica pode ser facilmente obtido da equação (21) admitindo-se, para simplificar, que v(
) = log
, u(c) = log c, e c = 1. Isto é:17
Quando a elasticidade de substituição for menor ou igual a um, f> 0 , é fácil verificar que:
e
A desigualdade (25) afirma que o valor dos serviços da moeda aumenta (diminui) quando a quantidade real de moeda diminui (aumenta) se a elasticidade de substituição entre as moedas for menor ou igual a um. Nestas circunstâncias, a desigualdade (26) diz que o valor dos serviços da moeda aumenta (diminui) quando o estoque real da moeda estrangeira aumenta (diminui).
A conclusão deste tipo de modelo de substituição da moeda doméstica é que seu preço é afetado pela existência de outra moeda que lhe substitui na função de meio de trocas. Este efeito depende da elasticidade de substituição entre as duas moedas. Quando a elasticidade for menor ou igual a um, a presença da moeda estrangeira não afeta a essencialidade da moeda doméstica.18 Todavia, se a elasticidade de substituição for maior do que um a moeda doméstica torna-se descartável. Uma possível extensão deste modelo seria tratar a elasticidade de substituição como um parâmetro variável, e analisar a bifurcação do sistema dinâmico na vizinhança do ponto em que a elasticidade de substituição é igual a um.19
9. Rigidez do Preço da Moeda
Nos modelos com preços flexíveis e expectativas racionais, a política monetária antecipada não produz efeitos sobre as variáveis reais da economia. A hipótese de rigidez dos preços é capaz de explicar o fato de que a moeda não é neutra no curto prazo.20
No modelo de precificação da moeda como um ativo financeiro, apresentado nas seções anteriores, a taxa de juros real era suposta constante e o preço da moeda poderia mudar repentinamente de valor para atender à equação de arbitragem. A rigidez do preço da moeda no curto prazo impede que isto ocorra. Neste caso, o efeito liquidez supõe que a taxa de juros real muda de valor repentinamente para satisfazer à equação de arbitragem. A hipótese por trás deste comportamento é de que os mercados financeiros ajustam-se mais rapidamente do que os mercados de bens e serviços, onde o preço da moeda é determinado. Uma especificação consistente com esta hipótese é a seguinte:
onde
é a taxa de juros real de longo prazo. O problema com esta equação é a falta de micro-fundamentos que a justifiquem.21 Todavia, do ponto de vista empírico, ela é consistente com os fatos observados.
O preço da moeda e a taxa de juros real são agora determinados pelo sistema dinâmico de duas equações diferenciais:
cuja matriz jacobiana é dada por:
O determinante desta matriz no ponto de equilíbrio estacionário é negativo se s'< 0. Isto é:
|J| = -a (
- s') < 0
Logo, o ponto de equilíbrio do sistema dinâmico é um ponto de sela, como indicado no diagrama de fases da figura 8. Na sela SS o preço da moeda e a taxa de juros real são correlacionados negativamente.
Considere o experimento de um aumento não antecipado de estoque de moeda de M0 para M1, como descrito na figura 9. O diagrama de fases da figura 10 mostra a dinâmica e o equilíbrio do modelo quando ocorre o choque monetário. Como o preço da moeda é rígido no curto prazo, a taxa de juros real muda instantaneamente de r(0) para r(0+) , e gradualmente converge para o equilíbrio de longo prazo. O preço da moeda cai gradualmente até atingir o valor q1 no novo estado estacionário.
10. Conclusão
Os micro-fundamentos necessários para explicar de modo convincente os serviços de liquidez produzidos pela moeda constituem-se num desafio ainda não resolvido pela teoria monetária. Qualquer que seja o avanço nesta área no futuro próximo, estes micro-fundamentos devem ser consistentes com a evidência empírica acumulada desde meados do século passado sobre a equação de demanda de moeda. Todavia, esta lacuna não impede que na teoria monetária convencional o preço da moeda, no longo prazo, seja determinado através da análise do comportamento das variáveis que afetam a oferta e a demanda de moeda.
Este trabalho mostra que a combinação das equações de demanda de moeda e de Fisher permite interpretar o preço da moeda como resultado de um mecanismo de arbitragem, de modo semelhante ao que ocorre com os demais preços dos ativos financeiros. O preço da moeda, como qualquer ativo, é igual ao valor presente do fluxo de caixa que ela produz ao longo de sua existência. A diferença entre a moeda e os demais ativos financeiros é que o fluxo de caixa da moeda corresponde ao fluxo de serviços de liquidez que ela proporciona através de sua função de meio de trocas. Esta abordagem tem a vantagem de tratar de modo unificado, sistemático, e bastante simples, vários tópicos da teoria monetária que foram apresentados neste trabalho.
Artigo recebido em out. 2003 e aprovado em ago. 2004.
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=
. Por hipótese
e da equacão (5)
obtém-se, então, a equacão (15).
, segue-se da condicão de equilíbrio (21) que
. Desta expressão obtém-se o valor dos servicos da moeda
= d(
) ,d > 0. A curva IS é analiticamente representada por: y-
=-g( r-
),g > 0 . Isto é, o hiato do produto é proporcional à diferenca entre a taxa de juros real e a taxa de juros real de pleno emprego. A regra de política monetária supõe que o Banco Central fixa a taxa de juros nominal levando em conta o hiato do produto e a diferenca entre a taxa de inflacão e a meta fixada para a mesma, de acordo com:
+p+b(p-
) +f(
),b > 0,f> 0. Derivando-se ambos lados da regra de política monetária com relacão ao tempo obtém-se:
= b
+f
. Da curva IS tem-se
= -g
. Logo,
= b
-gf
, ou seja:
= b
/(1+gf). Combinando-se as curvas de Phillips e IS resulta em:
= -dg(r-
). Substituindo-se esta expressão na equacão anterior tem-se:
= a(
-r), onde a = bgd/(1+gf) .













