Resumo
O presente artigo examina as transformações da crítica nas sociedades contemporâneas a partir da trajetória teórica de Luc Boltanski. Argumenta-se que não vivemos o fim da crítica, mas sua reconfiguração em um contexto de fragmentação institucional, dispersão epistêmica e multiplicação dos regimes de verdade. A partir da análise de três momentos da obra de Boltanski – a passagem da sociologia crítica da dominação à sociologia da crítica em “L’amour et la justice comme compétences” (1990a), a genealogia institucional da sociedade crítica em “Énigmes et complots” (2012) e a crise contemporânea da estabilização do real em “Qu’est-ce que l’actualité politique?” (2022) –, o texto propõe a categoria de pós-modernidade reflexiva. Essa noção designa o atual regime da crítica, no qual a multiplicação de controvérsias e a erosão das instituições de validação coexistem com uma crescente consciência reflexiva sobre os limites e paradoxos da própria crítica. Conclui-se que o desafio contemporâneo consiste em reconstruir, sob novas condições, circuitos legítimos de veridicção e confiança pública capazes de sustentar o dissenso democrático sem colapsar o horizonte comum de inteligibilidade.
Palavras-chave:
Luc Boltanski; sociedade crítica; pós-modernidade reflexiva; sociologia da crítica; regimes de verdade; confiança pública; modernidade reflexiva; fragmentação epistêmica
Abstract
This article examines the transformations of critique in contemporary societies through the theoretical trajectory of Luc Boltanski. It argues that we are not witnessing the end of critique but its reconfiguration within a context of institutional fragmentation, epistemic dispersion, and the multiplication of truth regimes. Analyzing three key moments in Boltanski’s work – the shift from the sociology of domination to the sociology of critique in “L’amour et la justice comme compétences” (1990a), the institutional genealogy of the critical society in “Énigmes et complots” (2012), and the contemporary crisis of reality stabilization in “Qu’est-ce que l’actualité politique?” (2022) –, the article introduces the concept of reflexive postmodernity. This notion designates the current regime of critique, in which the proliferation of controversies and the erosion of validation institutions coexist with an increasing reflexive awareness of critique’s own limits and paradoxes. It concludes that the main challenge today lies in reconstructing, under new conditions, legitimate circuits of truth and public trust capable of sustaining democratic dissent without collapsing shared frameworks of intelligibility.
Keywords:
Luc Boltanski; critical society; reflexive postmodernity; truth regimes; public trust; reflexive modernity; sociology of critique
1. Introdução1
Nas sociedades democráticas contemporâneas, a crítica está em toda parte. Ela transborda nos debates políticos, nas redes sociais, nos podcasts e nos embates cotidianos, atravessando múltiplas esferas da vida social. Se há uma competência amplamente exercida hoje, é a capacidade de julgar, reagir e opinar. Basta uma breve navegação por plataformas digitais para nos depararmos com uma torrente de indignações, réplicas veementes e diagnósticos morais, nos quais diferentes visões de mundo colidem de forma, muitas vezes, irredutível.
Essa ubiquidade, contudo, convive com diagnósticos paradoxais. Apesar de vivermos em sociedades marcadas pela crítica incessante, não é incomum ouvirmos – seja no senso comum, em documentários ou em parte da literatura especializada (Sunstein, 2017; Gerbaudo, 2018) – a alegação de que vivemos, paradoxalmente, em uma sociedade cada vez mais acrítica. Segundo essa perspectiva, o desenvolvimento das redes sociais e das plataformas digitais estaria nos confinando em bolhas informacionais rígidas, retroalimentadas por algoritmos que personalizam a entrega de conteúdo segundo nossos gostos, crenças e estilos de vida (Zuboff, 2021; Pariser, 2012; Cesarino, 2020). Essa lógica algorítmica filtraria seletivamente a diversidade de visões disponíveis, nos expondo cada vez menos ao dissenso e à diferença. O resultado seria um estreitamento dos horizontes interpretativos e perspectivos, uma erosão da capacidade de distanciamento crítico e uma fragilização das condições cognitivas que tornam possível a deliberação democrática.
Essa visão, no entanto, não é unânime. Diversos autores, como Anthony Giddens (Giddens, 1991; Beck, Giddens e Lash, 1994), Margaret Archer (2007) e Ulrich Beck (1992, 1999), sustentam que as sociedades contemporâneas, longe de se tornarem acríticas, intensificaram seus processos reflexivos. A chamada modernidade tardia teria radicalizado a capacidade dos indivíduos de problematizar suas condições de vida, refletir sobre normas sociais, desconfiar de autoridades e interrogar o mundo ao seu redor.
Sob essa ótica, o avanço das tecnologias de informação e comunicação não restringiu, mas ampliou a agência crítica, democratizando o acesso ao conhecimento e à produção discursiva (Castells, [1996] 2009; Jenkins, 2009). O problema, portanto, não residiria na ausência de crítica, mas em sua proliferação desancorada: múltiplas formas concorrentes de crítica que carecem de critérios compartilhados de validação ou de reconhecimento mútuo.
Esse contraste entre duas interpretações – de um lado, a denúncia da erosão da crítica, de outro, a ênfase em sua intensificação – constitui o pano de fundo deste artigo. Mais do que perguntar se a sociedade atual se tornou mais ou menos crítica, importa compreender como a crítica opera hoje: com que formas, dispositivos, efeitos e limites. A hipótese central defendida neste artigo é que a crítica não desapareceu; ela foi profundamente transformada em suas condições de possibilidade, de circulação e de reconhecimento.
Inspirado na obra de Luc Boltanski, argumento que não vivemos o fim da crítica, mas sua reconfiguração em um contexto de fragmentação institucional, multiplicação dos regimes de verdade e dispersão epistêmica. Para sustentar essa hipótese, reconstruo três momentos decisivos de sua trajetória: (i) a passagem de uma sociologia crítica da dominação para uma sociologia da crítica fundada nas competências dos atores; (ii) a genealogia da sociedade crítica em Énigmes et complots, centrada nos dispositivos institucionais de estabilização do real; e (iii) a análise da atualidade em rede em Qu’est-ce que l’actualité politique?, marcada pela saturação informacional e pela multiplicação das críticas.
A partir disso, proponho, na quarta parte, a noção de pós-modernidade reflexiva, entendida como chave analítica para pensar a transformação da crítica nas sociedades contemporâneas. Ela resulta do cruzamento entre duas tradições diagnósticas: de um lado, a “virada pós-moderna”, marcada pelo colapso das grandes narrativas de legitimação e pela fragmentação dos regimes de verdade (Lyotard, 1979; Bauman, 2000); de outro, a teoria da modernidade reflexiva, que interpreta a reflexividade como produto interno da modernidade tardia, sobretudo diante dos riscos e efeitos colaterais do progresso técnico e científico (Beck, Giddens e Lash, 1994).
Em vez de escolher entre uma ou outra, a ideia de pós-modernidade reflexiva opera uma virada metacrítica: tematiza simultaneamente os efeitos colaterais do progresso moderno e os impasses da fragmentação epistêmica pós-moderna. Seu eixo desloca-se da pura desconstrução para a reconstrução de formas legítimas de crítica em meio à incerteza. O que está em jogo já não é apenas quem tem razão, mas como sustentar juízos razoáveis sob condições de dissenso e ausência de fundamentos comuns. A crítica, nesse novo regime, precisa reinventar circuitos de veridicção que articulem pluralidade, legitimidade e partilha democrática, ainda que de forma precária.
2. Da sociologia crítica (da sociedade) à sociologia da (sociedade) crítica?
Antigo colaborador de Pierre Bourdieu, Luc Boltanski iniciou, a partir dos anos 1980, um processo de distanciamento progressivo tanto do estruturalismo genético bourdieusiano, quanto da tradição da sociologia (hiper)crítica que seu ex-orientador encarnava de forma emblemática (Corrêa, 2016; Boltanski, 2009; Susen, 2014). Esse afastamento expressava uma insatisfação crescente com um modelo sociológico que, em sua avaliação, tendia a reduzir os atores sociais à condição de efeitos ou produtos das estruturas objetivas, negligenciando suas capacidades de agir, julgar e, sobretudo, criticar. Em oposição a essa concepção totalizante, Boltanski propôs, em parceria com Laurent Thévenot, uma inflexão teórica: recolocar a crítica no centro da vida social (Thévenot e Boltanski, 1991). Isso implicava pensar os atores não mais como simples portadores de habitus ou de disposições incorporadas, mas como sujeitos dotados de competências críticas e repertórios normativos, mobilizados cotidianamente para questionar, negociar e reconfigurar as estruturas sociais e as relações de dominação que os atravessam.
A transição de uma sociologia da dominação para uma sociologia da crítica – formalizada no famoso artigo de Luc Boltanski (1990b), intitulado “Sociologie critique et sociologie de la critique” – exigia um reposicionamento epistemológico. Enquanto a sociologia crítica bourdieusiana buscava desvelar estruturas de dominação invisíveis aos próprios agentes, reivindicando uma ruptura epistemológica para com o senso comum (Bourdieu, Passeron e Chamboredon, 2007), a sociologia da crítica partia de outra aposta. Ela sugeria que era preciso levar a sério a capacidade dos atores de criticar, contestar, julgar e justificar. Tratava-se, portanto, de reconhecer que o senso de justiça dos atores não era mero reflexo ideológico de estruturas objetivas e relações de poder, mas uma competência real, concreta e distribuída, ainda que desigualmente, pelos diferentes atores sociais. Esse gesto implicava não em impor uma interpretação externa ao que os atores pensavam sobre o que faziam, mas delegar (Corrêa, 2021) e confiar em sua capacidade de enunciar o mundo e disputar seu sentido. Contra a imagem do indivíduo como “idiota cultural”, para retomar a famosa formulação de Garfinkel (1967), Boltanski propunha vê-lo como agente reflexivo e moralmente orientado. Foi precisamente essa reorientação epistêmica que conduz à formulação do conceito de sociedade crítica.
Desenvolvido por Luc Boltanski (1990a), no capítulo “La Sociologie de la Société Critique”, do livro “L’amour et la justice comme compétences”, esse conceito parte do seguinte princípio: uma teoria social fundamentada na sociologia da crítica só faz sentido – e exige uma formulação teórica e erudita – quando o objeto de análise é (e parte de) uma sociedade na qual a crítica está efetivamente em operação de forma permanente na vida social e cotidiana. Para Boltanski, uma sociologia da crítica é ela própria sintoma de uma sociedade crítica, ou seja, uma sociedade atravessada por práticas contínuas de questionamento, problematização e justificação por parte dos próprios atores sociais. Nessa sociedade, a crítica, erudita ou leiga, não é exceção, mas a regra, ou seja, parte constitutiva da experiência cotidiana dos atores sociais. Da demissão contestada por racismo à briga conjugal reinterpretada como expressão de machismo estrutural, a vida social moderna é, nas sociedades críticas, entremeada por disputas de sentido, que transitam permanentemente entre críticas e justificações. Esses conflitos – que variam conforme classe, gênero, escolaridade ou posição institucional – não devem ser tratados como resíduos anômicos, mas como evidência de um funcionamento normativo intrinsecamente contestável.
Esse diagnóstico estabelece um fecundo diálogo com a filosofia política de Michael Walzer, especialmente em “Interpretation and Social Criticism” (Walzer, 1987). Nesse livro, Walzer argumenta que a crítica social não é monopólio de intelectuais, nem exige exterioridade. Pelo contrário, a partir de exemplos históricos, o autor mostra como o crítico opera a partir dos valores e práticas compartilhadas de sua comunidade social e linguística, desdobrando-as de modo reflexivo. Assim como Boltanski reivindica uma sociologia que leve a sério os repertórios normativos e as capacidades críticas dos atores, Walzer recusa a imagem do crítico como iluminado externo ao mundo social. Ambos convergem na valorização de uma crítica imanente, enraizada e situada.
Seguindo essa orientação teórica, Boltanski concebe a crítica não como algo que vem de fora, imposto por um aparato teórico totalizante, mas como um processo que emerge dos próprios atores sociais e de seus repertórios normativos. Essa inflexão o leva a propor uma nova chave de leitura para distinguir sociedades tradicionais e modernas. Em vez de recorrer aos pares clássicos da antropologia (como natureza versus cultura) ou da sociologia estrutural (indivíduo versus sociedade), Boltanski sugere que o verdadeiro divisor está no papel desempenhado pela crítica (Boltanski e Claverie, 2007). A hipótese de base é que enquanto, nas sociedades tradicionais, a ordem social tende a ser naturalizada e raramente é objeto de contestação sistemática, as sociedades modernas seriam atravessadas por uma crítica contínua. Ela seria, segundo imagem que Boltanski estabeleceu em um texto escrito com Elisabeth Claverie (2007), uma “cena permanente de julgamento” – um espaço em que tudo pode ser arguido, avaliado, justificado ou rejeitado à luz de princípios normativos. Isso quer dizer que, para Boltanski, o mundo social moderno não apenas tolera a crítica – ele a exige, a institucionaliza e a transforma em critério de legitimidade.
Mas se, em “L’amour et la justice comme compétences”, Boltanski (1990a) delimita conceitualmente os contornos da sociedade crítica, reconhecendo a centralidade da crítica ordinária na vida moderna, é apenas em “Énigmes et complots” (Boltanski, 2012) que ele empreende uma reconstrução genealógica das condições históricas que tornaram possível sua emergência. O foco desloca-se da elaboração conceitual à análise das práticas e dispositivos: compreender como instituições como o direito, a ciência, a imprensa e a polícia se consolidaram como operadores de estabilização semântica, capazes de conter a inquietação epistêmica e organizar regimes difusos de problematização da realidade.
Esse movimento, do diagnóstico da crítica difusa ao exame de sua institucionalização, marca a passagem da modernidade crítica como fenômeno sociológico presente para a sociedade crítica como forma histórica estruturada. Boltanski nos convida, assim, a pensar a crítica não apenas como gesto subjetivo ou faculdade moral, mas como fenômeno social que requer condições institucionais para se exercer sem se dissolver em pura suspeita.
3. Enigmes et complots: elementos para uma genealogia da sociedade crítica
É exatamente essa questão que orienta “Énigmes et complots: Une enquête à propos d’enquêtes”, no qual Boltanski (2012) analisa o papel das figuras do enigma (énigme), da conspiração (complot) e da investigação (enquête) na constituição das formas modernas de problematização da realidade. A partir de uma leitura transversal que articula narrativas literárias e epistemologias científicas, ele mostra como as sociedades modernas passaram a estruturar sua relação com o conhecimento, a verdade e a suspeita por meio de dispositivos específicos de investigação e de justificação.
Historicamente, esse processo ganha força entre o final do século XIX e o início do século XX, quando surgem gêneros narrativos como o romance policial e o romance de espionagem. Essas formas não apenas refletem mudanças culturais, mas também configuram uma nova sensibilidade diante do real: a verdade já não é evidente ou pressuposta, devendo ser perseguida e desvelada por meio de procedimentos sistemáticos de investigação. Longe de serem fenômenos marginais, esses gêneros, segundo Boltanski, exprimem transformações mais amplas, associadas ao fortalecimento do Estado-nação, à expansão do capitalismo e à consolidação das ciências humanas e sociais – estas últimas funcionando como tecnologias modernas de interpretação, normatização e estabilização da realidade.
“Énigmes et complots” examina como as narrativas investigativas não apenas tematizam, mas efetivamente participam na construção de dispositivos institucionais que estabilizam semanticamente a realidade. O projeto Boltanski vai além da catalogação de representações culturais para interrogar como determinadas formas narrativas contribuem para a legitimação de regimes específicos de verdade e autoridade. O que está em jogo no livro não é apenas a proliferação de relatos sobre mistérios e conspirações, mas a emergência histórica de um aparato institucional – jurídico, científico, midiático e policial – dedicado à produção e manutenção da estabilidade semântica do real. Através desses dispositivos, argumenta Boltanski, o Estado-nação moderno vai estabelecer sua legitimidade não apenas pelo monopólio da violência física, como na clássica definição weberiana, mas também pelo controle sobre os processos de determinação da realidade socialmente válida – ou, para retomar a famosa imagem de Berger e Luckmann (1966), aconstrução social da realidade.
Logo no início da obra, Boltanski estabelece uma distinção central entre “real” e “realidade”. O “real” é concebido como o conjunto ilimitado de tudo aquilo que acontece e pode potencialmente acontecer – o campo da indeterminação. Já a “realidade” designa a construção social que organiza, filtra e estabiliza essa indeterminação, definindo o que será considerado relevante, legítimo e verdadeiro. Essa operação de estabilização exige instituições, categorias jurídicas, convenções narrativas e práticas sociais que tornam o imprevisível inteligível, dando ao mundo uma aparência de continuidade e ordem.
Contudo, Boltanski argumenta que, nas sociedades modernas (e críticas), essa estabilidade é sempre relativa. A realidade pode ser – e frequentemente é – desestabilizada por acontecimentos imprevistos, que desafiam os enquadramentos disponíveis, produzindo rupturas e incertezas. Ele denomina essas ocorrências de enigmas: acontecimentos que não se encaixam na lógica institucional vigente e, por isso, exigem investigação. É nesse contexto que emergem o romance policial e o romance de espionagem, gêneros ficcionais que tematizam o esforço de recompor a ordem a partir da irrupção do caos. A investigação, nesses moldes, aparece como um dispositivo racional de restauração semântica e simbólica, capaz de reunir elementos dispersos, explicar o inesperado e reinscrever o sentido no mundo.
Do segundo ao quarto capítulo de “Énigmes et complots”, Boltanski se detém na análise sistemática do romance policial e do romance de espionagem, tratando-os como formas narrativas que moldam a maneira moderna e própria à sociedade crítica de se relacionar com a verdade. No romance policial, que surge no século XIX e se consolida com autores como Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle, a figura do detetive encarna a razão metódica: é ele quem, por meio da observação precisa e do raciocínio dedutivo, consegue restabelecer a ordem violada por um crime ou mistério. A verdade, nesse modelo, pode ser temporariamente encoberta, mas é, em última instância, acessível. Ao fim da narrativa, o caos dá lugar à racionalidade e a estabilidade simbólica é restaurada.
O romance de espionagem, que ganha força no início do século XX, rompe com essa lógica estabilizadora. Nesse novo regime narrativo, a verdade se torna escorregadia, encoberta por múltiplos véus de manipulação, segredos de Estado e jogos de poder. Diferentemente do desfecho claro do romance policial, aqui a investigação não leva à certeza, mas, por vezes, à intensificação da dúvida. As informações são ambíguas, as fontes são instáveis e a conspiração se apresenta como um horizonte onipresente e irreversível. Essa inflexão narrativa sinaliza uma virada ou intensificação de um aspecto da sensibilidade moderna: a crença na investigação como instrumento de decifração do real cede lugar à suspeita generalizada de que o próprio Estado e suas instituições podem ser os principais produtores de opacidade e desinformação.
Nos capítulos seguintes de “Énigmes et complots”, Boltanski amplia sua análise para além da literatura, explorando como a suspeita e a necessidade de investigação passaram a estruturar outras áreas do saber, como a psiquiatria e a sociologia. No quinto capítulo, ele explora a emergência da paranoia como categoria clínica no início do século XX, definida como um distúrbio marcado pela busca incessante por conexões ocultas e pela desconfiança generalizada em relação às explicações oficiais. A figura do paranoico espelha, de modo distorcido, as figuras do detetive e do espião: todos partem de sinais dispersos para construir uma narrativa de sentido – mas, no caso do paranoico, a investigação nunca se conclui, tornando-se um ciclo interminável de suspeita.
Essa reflexão leva ao capítulo seguinte, o sexto, em que Boltanski analisa como a sociologia, desde sua consolidação no final do século XIX, se insere nessa tensão entre a estabilização e a problematização da realidade. A disciplina nasce como um esforço para construir explicações racionais e sistemáticas sobre os fenômenos sociais, em contraposição a interpretações conspiratórias ou meramente intuitivas. No entanto, a sociologia também opera como uma forma de investigação, buscando revelar causas ocultas para comportamentos e estruturas sociais. Assim, ela não apenas reforça a ordem, mas também pode alimentar a crítica ao questionar aquilo que se apresenta como natural ou evidente. Com isso, a sociologia encarna o duplo movimento típico da modernidade crítica: de um lado, estabilizar a realidade por meio da razão; de outro, desestabilizá-la ao revelar seus fundamentos arbitrários ou contingentes.
A obra se encerra com um epílogo no qual Boltanski retoma a literatura, analisando “O Processo”, de Franz Kafka, como um exemplo extremo da relação entre investigação e incerteza. Diferentemente do romance policial, no qual a verdade pode ser descoberta, e do romance de espionagem, em que a verdade é ambígua, a narrativa kafkiana apresenta um universo no qual a busca pela verdade se transforma em um labirinto sem saída. O protagonista, Josef K., é submetido a um processo judicial cujo sentido nunca lhe é plenamente revelado, tornando-se vítima de um sistema que opera com regras opacas e inacessíveis. Boltanski sugere que essa lógica reflete uma das dimensões fundamentais da sociedade contemporânea: a crescente dificuldade de distinguir entre investigações legítimas e delírios paranoicos, entre críticas fundamentadas e teorias conspiratórias. O livro, portanto, não apenas traça uma genealogia da sociedade crítica, mas também lança luz sobre seus impasses e ambivalências, mostrando como a modernidade, ao transformar a crítica e a investigação em elementos estruturais, criou também as condições para sua própria instabilidade.
Ainda que Boltanski destaque a ambivalência da modernidade – um regime simultaneamente crítico e instável –, ele enfatiza que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, houve a consolidação de instituições cuja função central é a estabilização e produção de uma “segurança semântica” da realidade (cf. Boltanski, 2009, p. 121). Esse período, marcado pelo avanço da burocracia, pela ascensão das ciências sociais e pela crescente interdependência entre o poder estatal e os dispositivos de produção do saber, representa a fundação institucional da sociedade crítica.
O que está em jogo, aqui, é a institucionalização de mecanismos capazes de tornar essa verdade operável e relativamente estável em meio à intensificação da problematização social no interior do Estado-nação moderno. Boltanski indaga quais instituições e campos do saber assumiram a tarefa de enquadrar a construção social da realidade, oferecendo explicações racionais e colaborando para conter a incerteza estrutural do mundo social. Se esta não pode ser eliminada, precisa ao menos ser administrada e justificada. A questão decisiva, portanto, não é apenas como a realidade é criticada, mas quais dispositivos, entre o fim do século XIX e meados do XX, conseguiram estabilizá-la de modo suficientemente duradouro, evitando que a crítica se dissolvesse em paranoia ou conspiracionismo.
O primeiro é o sistema judiciário. É ele que, na leitura de Boltanski, cumpre uma função central na estabilização do real ao transformar conflitos, incertezas e disputas em decisões vinculantes. Ao interpretar e aplicar a lei, os tribunais não apenas regulam a vida social, mas também produzem categorias jurídicas que organizam a percepção pública dos fatos. A modernidade, portanto, não se sustenta unicamente na coerção, mas requer um quadro jurídico que garanta previsibilidade e coerência, convertendo a instabilidade em normatividade. O direito opera como uma tecnologia de estabilização semântica do real: constrói narrativas oficiais, delimita fronteiras entre o legítimo e o ilegítimo e institui sentidos compartilháveis sobre os acontecimentos.
A polícia, por sua vez, vai além da repressão física. Ela administra cotidianamente a ordem simbólica, definindo quais comportamentos são toleráveis, quais ameaças são reconhecidas como legítimas e quais formas de transgressão merecem atenção do Estado. A figura do policial moderno é, assim, aquela do guardião da realidade estabilizada. Sua atuação assegura que os desvios não se tornem forças desestabilizadoras da ordem social. Essa função aparece de forma emblemática na literatura policial, na qual o detetive – braço investigativo da polícia – reconstrói a coerência do mundo a partir de fragmentos e rupturas.
A ciência moderna constitui outro pilar fundamental desse regime de estabilização. Ancorada na verificação empírica, na replicabilidade dos resultados e na objetividade dos procedimentos, a ciência constrói quadros interpretativos que permitem nomear, classificar e compreender os fenômenos sociais e naturais. Dessa forma, contribui para a produção de um horizonte de inteligibilidade compartilhado, estabelecendo critérios normativos sobre o que deve ser considerado verdadeiro. Se o direito estabiliza por meio da norma e a polícia pela vigilância e pela força, a ciência o faz pela sistematização racional do conhecimento.
A imprensa, desde o final do século XIX, emerge como peça-chave na consolidação de uma realidade pública comum. Ao narrar os acontecimentos, organizar os fatos e hierarquizar a atenção coletiva, os jornais não apenas informam, eles formatam a experiência social do tempo presente. Funcionando como um dispositivo de unificação semântica, a mídia fornece versões legitimadas dos eventos, reduzindo a ambiguidade e reforçando um senso de mundo partilhado.
Ao mapear essas instituições e sua interdependência funcional, Boltanski argumenta que a modernidade se organiza sob um regime de estabilização contingente. O Estado-nação moderno não elimina a incerteza, mas a administra dentro de parâmetros institucionalmente controláveis. A verdade, nesse regime, não é absoluta, nem fixa: ela é negociada, disputada e, sobretudo, continuamente reafirmada por dispositivos que asseguram um mínimo de coerência simbólica. Quando novas formas de contestação emergem, as instituições se veem obrigadas a adaptar suas estratégias de estabilização. A sociedade crítica que emerge no fim do século XIX e vai até meados do século XX, longe de abolir a ordem, transforma o conflito em componente estrutural do real – e as instituições, em gestoras do dissenso.
É essa lógica – em que tudo pode, em tese, ser objeto de questionamento, mas sob condições reguladas – que define a genealogia da sociedade crítica. Trata-se de um regime em que a crítica, longe de ameaçar externamente a ordem social, se torna seu próprio motor interno. Para manter sua legitimidade, as instituições precisam acolher a crítica e ao mesmo tempo modulá-la, distinguindo entre o que será integrado e o que será neutralizado. A crítica, nesse sentido, é absorvida, recodificada e devolvida ao campo institucional sob formas controláveis. O que está em jogo, portanto, não é apenas a tensão entre crítica e ordem, mas a capacidade das instituições modernas de gerir essa tensão de forma produtiva.
A análise desenvolvida por Luc Boltanski em “Énigmes et complots” revela como a modernidade construiu, simultaneamente, dispositivos de problematização do real e mecanismos institucionais voltados à sua estabilização diante da crescente inquietação crítica. Contudo, como argumentam Boltanski e Esquerre (2022) em “Qu’est-ce que l’actualité politique?” – obra publicada uma década depois –, tais dispositivos entram em crise frente à reconfiguração radical do espaço público contemporâneo.
A proliferação das plataformas digitais, a multiplicação das mediações informacionais e a fragmentação dos critérios de validação fragilizam o regime moderno de verdade, ainda que não o destruam por completo. A passagem da figura do enigma — que exigia investigação para restaurar a ordem — para a da atualidade — saturada por disputas, imagens e ruídos — expressa esse deslocamento de instituições ancoradas em critérios estáveis para um contexto de instabilidade epistêmica e produção volátil de confiança (cf. Cesarino, 2020).
É nesse quadro que se inscreve a relevância de “Qu’est-ce que l’actualité politique?”, de Boltanski e Esquerre. A obra explicita a dificuldade crescente que os novos circuitos informacionais e formas de mediação impõem à crítica, reconhecendo seus efeitos não intencionais e paradoxais. Como defendo na conclusão, esse diagnóstico pode ser lido como expressão de uma pós-modernidade reflexiva: um momento em que a crítica não desaparece, mas se volta sobre si mesma, consciente da fragmentação que a atravessa.
4. A sociedade crítica radicalizada: a atualidade e o momento rede
Com a virada do século XXI, intensificada pela revolução digital, Boltanski e Esquerre (2022) identificam uma inflexão decisiva na forma como a crítica se exerce e como o real é estabilizado. Em “Qu’est-ce que l’actualité politique?”, descrevem a radicalização do universo kafkaniano e o declínio da centralidade dos grandes dispositivos unificadores da modernidade — a ciência, o direito e a imprensa. Em seu lugar, emerge a atualidade: um fluxo contínuo de eventos, imagens e controvérsias que constitui o novo campo de disputa pela definição do real. Em uma espécie de prolongamento e radicalização dos processos já delineados em “Énigmes et complots”, a sociedade contemporânea aparece ainda mais marcada pela dispersão, pela competição narrativa e pela instabilidade permanente.
O momento da multidão (foule) se configura entre o final do século XIX e o início do século XX. Frequentemente percebida com ambivalência pelas elites intelectuais e pelos aparelhos de Estado – ora como ameaça, ora como potência transformadora –, a multidão aparece como um coletivo instável, movido por afetos, impulsos e espontaneidade. Os estudos clássicos sobre psicologia das massas, como os de Gustave Le Bon, expressam de forma exemplar essa inquietação diante da nova forma de ação coletiva. A multidão surge como vetor de desestabilização do real: ela age fora das instituições, contesta hierarquias e subverte a lógica da autoridade. É precisamente nesse contexto que se configuram os primeiros dispositivos modernos de estabilização: o jornalismo de massa, a nascente ciência social e os aparatos policiais passam a desempenhar funções centrais na mediação, contenção e inteligibilidade da multidão.
O segundo momento, o momento da massa (masse), desenrola-se entre as décadas de 1920 e 1970 e é marcado tanto pelo fortalecimento dos Estados-nação, quanto pela consolidação dos meios de comunicação de massa. Trata-se do período em que o rádio, a televisão e os grandes jornais impressos alcançam ampla difusão e se tornam dispositivos centrais na formação da opinião pública. Esses meios não apenas informam, mas organizam o sensível coletivo, servindo como operadores fundamentais da estabilização semântica do real. A característica central dessa fase histórica é o quase monopólio institucional dos processos de mediação. Os regimes de verdade e os dispositivos de confiança atingem, aqui, seu grau máximo de centralização e controle simbólico. O que é visto, legitimado e discutido depende fortemente de estruturas institucionais hegemônicas. Talvez seja aqui o momento áureo da sociedade crítica da qual Boltanski escreve em 1990, como vimos na primeira parte deste texto.
A partir da década de 1980 – e de forma ainda mais acentuada no século XXI –, a estrutura da sociedade crítica sofre mutações profundas. Luc Boltanski e Arnaud Esquerre denominam esse novo período de “momento rede” (moment réseau), caracterizado por um ambiente comunicacional altamente descentralizado, competitivo e instável, no qual a disputa pela visibilidade dos acontecimentos e pela definição do real se intensifica. Se, no momento de massa anterior, instituições centrais como o Estado, a grande imprensa e a ciência detinham o (quase) monopólio da mediação e da estabilização semântica em larga escala, no momento rede esse privilégio se dissolve. A proliferação de fontes informacionais, a segmentação da esfera pública e a ascensão das mídias digitais transformam a estabilização do real em um processo fragmentado e polifônico. A autoridade discursiva, antes concentrada nas grandes instituições, se dispersa por uma multiplicidade de polos narrativos: canais de notícias contínuas, plataformas digitais, redes sociais, blogs independentes e coletivos de ativismo midiático, todos disputam legitimidade na produção de sentido.
Nesse novo ecossistema informacional, os “enigmas” contemporâneos – como escândalos políticos, pandemias, catástrofes climáticas ou eventos violentos – raramente seguem uma trajetória linear de esclarecimento. Em vez disso, tendem a se converter em controvérsias públicas persistentes, alimentadas por fluxos contínuos de informação e desinformação que circulam em velocidade global. O que é considerado fato para um grupo, pode ser imediatamente rotulado como “fake news” por outro. Assim, a própria ideia de uma verdade factual estabilizadora é posta em xeque por uma lógica de “duelo de narrativas” em tempo real, onde versões concorrentes disputam legitimidade, sem que haja necessariamente uma instância consensual de arbitragem.
Essa proliferação não implica o desaparecimento dos mistérios ou das teorias da conspiração – ao contrário, eles se multiplicam. Contudo, ao invés de serem resolvidos por figuras de autoridade institucionalmente reconhecidas – como o detetive, o juiz ou o jornalista investigativo –, esses enigmas se tornam objeto de disputa entre múltiplos “investigadores” e coletivos de interpretação. Um mesmo acontecimento pode ser, ao mesmo tempo, alvo de inquérito policial, pauta de análise jornalística, tema de debates acadêmicos, foco de escrutínio por “detetives digitais” anônimos e, ainda, matéria-prima para teorias conspiratórias em redes sociais. Cada um desses atores mobiliza linguagens, recursos e repertórios distintos para enquadrar o real, o que frequentemente resulta em versões irreconciliáveis e em um colapso do horizonte de inteligibilidade compartilhada.
Em síntese, a passagem do enigma moderno à atualidade hiperconectada marca uma mudança profunda no regime narrativo que estrutura o vínculo entre crítica e estabilização. Se no passado, sobretudo no momento massa, as narrativas investigativas tendiam a encerrar os questionamentos por meio de uma autoridade restauradora, na contemporaneidade as narrativas informativas tendem a multiplicar os pontos de vista, reabrindo incessantemente as disputas interpretativas. Diante desse cenário, Boltanski e Esquerre propõem que a atualidade política deve ser analisada a partir de dois processos interligados – a mise en actualité (produção da atualidade) e a politização – que estruturam a forma contemporânea de produção, debate e contestação da realidade coletiva.
5. Mise en actualité e a produção da notícia
No vocabulário conceitual de Boltanski e Esquerre (2022), mise en actualité designa o conjunto de operações que conferem a certos acontecimentos o estatuto de “atualidade” – isto é, eventos reconhecidos como socialmente relevantes, dignos de atenção, comentário e acompanhamento coletivo. Esse processo envolve tanto critérios jornalísticos clássicos (novidade, impacto e interesse público), quanto dinâmicas contemporâneas de circulação em tempo real, próprias da era digital. A primeira parte de “Qu’est-ce que l’actualité politique?” é dedicada a explorar essas engrenagens da visibilidade. Os autores mostram que, em grande medida, a atualidade é conhecida “por ouvir dizer” – ou seja, não é vivida diretamente, mas mediada por filtros informacionais como redações, agências de notícias e, hoje, algoritmos que definem o que aparece nos trending topics das plataformas.
Ao analisar concretamente a mise en actualité, Boltanski e Esquerre recorrem a um extenso corpus de comentários de leitores em ambientes digitais – tanto no site do jornal Le Monde, quanto em plataformas do Institut National de l’Audiovisuel (INA) – com o objetivo de compreender de que maneira o público reage ao que é apresentado como atualidade. A comparação longitudinal com as décadas anteriores, em especial com as cartas de leitores examinadas por Boltanski nos anos 1980, permite identificar transformações significativas. Entre elas, eles destacam a emergência de um estilo mais opinativo, marcado pelo distanciamento crítico e pela formulação de juízos de valor sobre as notícias.
Tal transformação sugere, para os autores, uma reconfiguração nos dispositivos de engajamento cívico-midiático. A forma tradicional de converter uma indignação particular em “causa pública”, frequentemente por meio de cartas enviadas à redação, que poderiam se converter em reportagens e, assim, “fazer a diferença”, deslocou-se progressivamente para novos canais de expressão e mobilização, como blogs, abaixo-assinados digitais e redes sociais. Em outros termos, a mise en actualité jornalística clássica, centrada na prerrogativa editorial das redações e na participação episódica dos leitores, passou a ser complementada, e, em certa medida, substituída por modalidades emergentes de atualização, baseadas em hashtags mobilizadoras, vídeos virais e campanhas digitais que operam como catalisadores de atenção e como mecanismos alternativos de publicização de fatos ou agendas.
6. Politização da atualidade e multiplicação das críticas
A segunda parte da obra de Boltanski e Esquerre (2022) se concentra na análise da politização da atualidade – ou seja, na forma como eventos cotidianos são transformados em matéria de deliberação política, engajando julgamentos morais, posicionamentos ideológicos e disputas de valor. Trata-se de uma intensificação do regime da sociedade crítica: as pessoas são interpeladas a todo momento a reagir, comentar e tomar partido. A atualidade se converte, assim, em um grande fórum de politização difusa, que atravessa desde interações íntimas – conversas familiares, trocas entre amigos – até arenas mais amplas, como redes sociais, mídias digitais e debates midiáticos.
Um dos aspectos centrais destacados pelos autores é o caráter intrinsecamente agonístico da atualidade política. Diferentemente do conhecimento científico, que tende, ao menos idealmente, à convergência argumentativa regulada pela noção de verdade, a atualidade política é atravessada por divisões interpretativas profundas. Cada acontecimento noticiado pode ser lido como expressão de justiça ou de injustiça, de progresso ou de regressão, a depender do horizonte normativo do intérprete. Uma medida governamental pode ser vista como avanço civilizatório por uns e como retrocesso autoritário por outros; uma denúncia pode ser lida como instrumento legítimo de controle ou como perseguição. A politização, nesse sentido, produz segmentações do espaço público e forma subpúblicos que compartilham visões de mundo conflitantes.
Sociologicamente, a politização da atualidade corresponde à ampliação do escopo do político, de modo que acontecimentos antes considerados banais ou privados passam a ser interpretados como questões públicas. Qualquer tema, desde a escolha de vacinas durante uma pandemia até o resultado de um campeonato esportivo, pode ser arrastado para o debate político mais amplo, conectado a narrativas de “nós versus eles”, “certo versus errado”, ou usado para expressar descontentamentos difusos. Os autores chegam a falar na existência de um “imperativo de opinião” na cena contemporânea: espera-se que os cidadãos tomem posição sobre os acontecimentos, que tenham uma opinião e a manifestem. Ficar em silêncio ou neutro passa a ser uma exceção. De certo modo, isso amplia a esfera democrática, visto que mais vozes se expressam sobre mais assuntos, mas também a torna volátil e fragmentada.
Nesse quadro, “Qu’est-ce que l’actualité politique?” descreve a atualidade como um campo de conflitos incessantes, onde a luta por atenção e visibilidade reorganiza o espaço público. Temas como feminismo, ecologia, imigração, religião ou nacionalismo, muitos dos quais outrora era considerados periféricos ou tratados como técnicos, são reconfigurados como arenas de disputa pública, nas quais valores e identidades colidem e se rearticulam.
Esse processo de politização da atualidade envolve a transformação de fatos em argumentos e posicionamentos, reativando a esfera pública como espaço de apropriação coletiva dos acontecimentos. A contrapartida dessa efervescência, porém, é a intensificação do conflito sem mediações estabilizadoras duradouras: cada novo fato torna-se imediatamente controverso, e poucos temas alcançam consensos minimamente compartilhados. Com isso, os dispositivos modernos de estabilização, como tribunais, redações jornalísticas, academias científicas e a polícia judiciária, não colapsam de repente, mas sofrem um desgaste progressivo diante da nova morfologia da crítica, marcada por plataformas digitais, fragmentação do espaço público e corrosão da confiança nas autoridades tradicionais. É justamente nesse ponto que a análise de “Qu’est-ce que l’actualité politique?” se conecta à genealogia de “Énigmes et complots”, e prepara o terreno para avançar além de Boltanski: compreender como essa crise abre espaço para o que denomino “pós-modernidade reflexiva”.
7. Pós-modernidade reflexiva: uma proposta diagnóstica
Até aqui, vimos como a trajetória teórica de Luc Boltanski pode ser lida como uma cartografia das transformações da crítica nas sociedades modernas e contemporâneas. Em “L’amour et la justice comme compétences” (Boltanski, 1990a), ele formula uma sociologia da crítica fundada na ideia de sociedade crítica: um mundo em que os atores dispõem de competências para justificar suas ações, contestar injustiças e mobilizar repertórios normativos no espaço público. A crítica, nesse modelo, não é um gesto excepcional, nem exterior à vida social, mas uma prática imanente ao cotidiano, sustentada por capacidades distribuídas, ainda que de modo desigual, pelo tecido social. Um passo adiante se dá em “Énigmes et complots”, onde Boltanski (2012) elabora uma genealogia histórica da sociedade crítica. Por meio da análise de gêneros narrativos, como o romance policial e o romance de espionagem, ele mostra como, entre o final do século XIX e o início do XX, emergiram dispositivos narrativos e institucionais que articularam, ao mesmo tempo, a problematização e a estabilização do real. Nesse contexto, a crítica exige mediações robustas, por parte da ciência, do direito e da imprensa, capazes de converter a incerteza em investigação e reinscrever o dissenso em uma ordem simbólica reconhecível.
Já em “Qu’est-ce que l’actualité politique?”, essa linha de análise sofre uma inflexão decisiva. Ao tratar do chamado momento rede, Boltanski e Esquerre (2022) deslocam o foco para os efeitos potencialmente deletérios e não intencionais da crítica em sua forma atual – uma crítica marcada pela fragmentação dos regimes de verdade e pela progressiva desinstitucionalização dos critérios de validação. Em um espaço público saturado por disputas narrativas, imagens concorrentes e fluxos informacionais instáveis, parte da crítica perde sua ancoragem nas instituições do momento massa e passa a corroer as mediações que outrora lhe conferiam consistência e eficácia. Assim, o que torna essa obra particularmente relevante é o fato de expressar uma forma original e consistente de consciência reflexiva, isto é, uma consciência crítica voltada aos impasses que hoje atravessam a própria crítica. Pois, em vez de simplesmente reiterar a denúncia da instabilidade epistêmica contemporânea, Boltanski e Esquerre (2022) oferecem uma lucidez diagnóstica quanto aos limites, paradoxos e consequências não previstas da crítica como forma histórica. É precisamente essa inflexão autorreflexiva que transforma “Qu’est-ce que l’actualité politique?” em um sintoma – e uma das expressões mais sofisticadas – daquilo que chamo aqui de pós-modernidade reflexiva.
Diante desse cenário, impõe-se a questão de como a obra de Luc Boltanski pode nos ajudar a diagnosticar e enfrentar os impasses contemporâneos. É aqui que a genealogia da sociedade crítica, delineada em “Énigmes et complots”, revela toda a sua atualidade. A modernidade, tal como reconstruída por Boltanski, não aparece como um processo linear de racionalização, mas como um regime de problematização sustentado por instituições capazes de oferecer estabilização semântica ao mundo social. O direito, o jornalismo, a ciência e a polícia não anulavam a crítica; ao contrário, canalizavam-na e davam-lhe forma institucionalmente reconhecida. Com o enfraquecimento progressivo desses dispositivos, o que Boltanski e Esquerre descrevem como momento rede, instala-se uma ambivalência estrutural: ao mesmo tempo em que se multiplicam os circuitos de contestação, surgem riscos inéditos, da desinformação sistêmica ao conspiracionismo, que fragilizam os próprios alicerces da construção coletiva de sentido.
A releitura da obra de Luc Boltanski sugere que o desafio contemporâneo não consiste em restaurar, por meio de decretos nostálgicos ou soluções autoritárias, os antigos pilares de autoridade já corroídos e desacreditados. Trata-se, antes, de conceber dispositivos e formas de mediação que, embora distintos daqueles do passado, sejam capazes de exercer, sob condições profundamente transformadas, a função estabilizadora que, no momento massa, foi desempenhada por instituições como a imprensa, o direito e a ciência. Mas como fazê-lo? Que elementos já existentes nas sociedades atuais (e críticas) poderiam apontar caminhos nessa direção?
A resposta, longe de se apresentar de modo fechado, passa por reconhecer práticas e tentativas parciais que já operam com essa ambição, ainda que de forma fragmentária e experimental. O que vivemos durante a pandemia de Covid-19 pode ser particularmente instrutivo. A campanha global de vacinação foi atravessada por intensas disputas epistêmicas: as mesmas vacinas foram interpretadas, simultaneamente, como emblemas da solidariedade científica e da segurança sanitária, ou como instrumentos de manipulação, controle e vigilância. No Brasil, a polarização foi intensa. Enquanto parte do campo progressista defendia a ciência e os epidemiologistas, a extrema direita propagava a ideia de que a vacina era mais perigosa do que o próprio vírus – expressão aguda do colapso das referências epistêmicas compartilhadas.
Diante do cenário contemporâneo de fragmentação informacional e erosão das autoridades tradicionais de validação, emergiram no Brasil e em outros países iniciativas que exemplificam o que denomino pós-modernidade reflexiva. Plataformas como Agência Lupa, Aos Fatos, Full Fact e Le Monde Factuel não se restringem a desmentir boatos ou corrigir erros factuais; seu propósito mais ambicioso é o de reconstruir, ainda que de forma precária, reativa e experimental, circuitos confiáveis de coordenação epistêmica. Essas iniciativas expressam, em si mesmas, uma consciência reflexiva dos impasses provocados pela desestabilização dos dispositivos tradicionais de validação – como a ciência, a imprensa, as versões oficiais dos governos e o aparato jurídico do Estado. Em um ambiente marcado pelo ruído informacional, pela polarização e pela incerteza, essas experiências tentam restaurar mínimos compartilhados que permitam sustentar decisões coletivas baseadas em algum grau de validação comum.
Contudo, tais experiências não representam a superação da atual crise de validação, mas sim tentativas reflexivas de reinscrever, em um ecossistema comunicacional descentralizado, funções estabilizadoras outrora exercidas pelas instituições da modernidade crítica. Como mostrou Boltanski (2012) em “Énigmes et complots”, a modernidade operava a contenção das suspeitas por meio de dispositivos legitimadores institucionalizados. Hoje, na ausência ou fragilidade dessas ancoragens, as práticas de checagem de fatos funcionam como mecanismos paliativos, disputando credibilidade em um campo informacional saturado por narrativas concorrentes.
A imprensa tradicional, que outrora organizava uma narrativa pública relativamente coesa, encontra-se hoje articulada a um ecossistema midiático disperso e heterogêneo. Nesse novo regime de mediação, a autoridade epistêmica é disputada por uma multiplicidade de atores – como as agências de verificação, influenciadores digitais, algoritmos de recomendação, jornalistas de dados, fóruns participativos e comunidades de conhecimento autônomas. Mesmo a ciência, historicamente sustentada por disciplinas estabilizadas, instituições reconhecidas e pares consagrados, reaparece sob formas mais móveis e horizontais. Projetos de ciência cidadã, plataformas de open science, coletivos autônomos de especialistas e movimentos científicos ativistas buscam responder a exigências crescentes por transparência, participação e responsividade social.
O direito, por sua vez, vê suas prerrogativas clássicas redistribuídas entre mecanismos de moderação algorítmica, regtechs, iniciativas cívicas de responsabilização digital e fóruns informais de arbitragem. Aquilo que antes era decidido em tribunais, passa, cada vez mais, a ser negociado em ambientes mediados por termos de uso, protocolos de plataforma e regimes híbridos de governança automatizada.
Nesse regime de mediação distribuída e descentrada, uma lição central da obra de Boltanski permanece atual: a crítica só conserva seu potencial emancipador quando vinculada a instâncias minimamente confiáveis de validação pública. A diferença entre crítica democrática e negacionismo não reside na disposição de questionar – ambos partem do gesto de suspeitar –, mas na capacidade de ancorar essa contestação em critérios compartilháveis de justificação, capazes de sustentar um horizonte comum de argumentação. Tais critérios, ainda que reconfigurados, permanecem historicamente ligados a instituições como a ciência, o jornalismo, o direito e a educação. Como sugeriu William James (1907, p. 97), “a verdade vive, por assim dizer, a crédito. Nossos pensamentos e crenças ‘circulam’ enquanto nada os desafia, assim como as notas bancárias circulam enquanto ninguém as recusa”, o que, em termos sociológicos, implica um reconhecimento público, institucional e relacional, sedimentado em práticas e estruturas duráveis de confiança.
Nesse sentido, o desafio contemporâneo não é eliminar o dissenso, mas organizá-lo de modo institucionalmente viável. A pós-modernidade reflexiva, longe de representar uma liberação irrestrita da crítica, evidencia os riscos de sua autorreferencialidade quando desconectada de formas reconhecíveis de validação coletiva (Beck, Giddens e Lash, 1994). Ainda que a ciência, a imprensa profissional e o sistema judiciário enfrentem hoje crises de legitimidade e adaptação, elas continuam oferecendo, sob formas redesenhadas, parâmetros indispensáveis para distinguir o dissenso legítimo da desinformação corrosiva, assim como o pensamento crítico do delírio conspiratório.
Enquanto a pós-modernidade, pode ser definida como um regime marcado pela dispersão informacional, pela fragmentação dos referenciais comuns e pela multiplicação dos regimes de enunciação, gerando uma hipercrítica difusa, por vezes cínica e impotente (cf. Lyotard, 1979; Bauman, 2000), a pós-modernidade reflexiva, como aqui propomos, designa um momento posterior, no qual se tornam visíveis os efeitos colaterais desse mesmo processo. Trata-se da passagem do entusiasmo com a descentralização comunicacional para uma consciência mais crítica sobre seus limites. A transição do momento massa para o momento rede foi, por diversos autores, inicialmente celebrada como forma de emancipação (cf. Castells, [1996] 2009): a crítica parecia, enfim, liberta dos antigos monopólios de legitimação – da racionalidade instrumental da ciência (cf. Habermas, 1970), do moralismo burocrático do Estado e do poder concentrado da imprensa tradicional (cf. Chomsky e Herman, 1997). No entanto, à luz dos efeitos perversos que se tornaram cada vez mais visíveis – colapso dos referenciais partilhados (cf. Harsin, 2015), manipulação sistemática da dúvida (cf. McIntyre, 2018) e erosão da confiança pública (cf. O’Neil, 2016) –, essa libertação passou a ser problematizada. A ascensão da extrema direita em diferentes contextos nacionais, frequentemente articulada à desinformação, ao revisionismo histórico e à corrosão das instâncias tradicionais de validação, tornou-se um dos sintomas mais evidentes dessa inflexão (cf. Davies, 2018; Brown, 2019).
A partir da obra de Luc Boltanski, compreendemos que a crítica não é um gesto exterior à ordem social, nem uma força puramente negativa: trata-se de uma prática imanente, enraizada no cotidiano, nutrida por tensões e ambivalências e constitutiva da vida democrática. A questão contemporânea já não é, portanto, “se” devemos criticar – como nos marcos da modernidade heroica –, mas “como” sustentar criticamente formas compartilhadas de validação que preservem a pluralidade e o dissenso, sem renunciar às condições mínimas de inteligibilidade comum (cf. Shapin, 1994; Shalin, 1992). Diferente da crítica cínica ou corrosiva, que se limita a desmontar sem reconstruir, a crítica potencialmente emancipadora, nesse novo regime, exige não a negação da complexidade, mas sua organização: ela deve ser capaz de reconstruir, mesmo que de forma precária e experimental, as bases relacionais e institucionais da confiança pública.
Em suma, a hipótese aqui defendida é que a pós-modernidade reflexiva impõe uma dupla exigência: por um lado, uma humildade epistêmica, que reconheça os limites da razão e a impossibilidade de qualquer retorno autoritário a verdades absolutas; por outro, uma ousadia institucional, voltada à reinvenção dos dispositivos que tornam possível novas formas de validação pública. Em um mundo plural, fragmentado e saturado de crítica, a crítica que se pretende emancipadora precisa aprender a habitar o mundo que ela própria ajudou a desnudar – com uma ética da coabitação institucional, que sustente a divergência sem implodir os vínculos compartilhados. Trata-se, portanto, de reconfigurar os fundamentos da confiança, não pela supressão do dissenso, mas pela construção de circuitos legítimos de veridicção, capazes de sustentar a crítica bem fundamentada em instituições reconhecíveis, que a impeçam de ser reduzida ao niilismo, ao ceticismo corrosivo ou à desintegração da esfera pública.
8. Conclusão
Este artigo reconstruiu três momentos decisivos da sociologia de Luc Boltanski, tomando-os como fio condutor para compreender as transformações da crítica nas sociedades modernas e contemporâneas. Em “L’amour et la justice comme compétences” (Boltanski, 1990a), a crítica aparece como competência ordinária, distribuída de forma desigual, mas presente no cotidiano dos atores, indicando que o questionamento e a justificação não são prerrogativas exclusivas da sociologia, mas práticas imanentes à vida social. Em “Énigmes et complots” (Boltanski, 2012), esse diagnóstico é complementado por uma genealogia das instituições modernas de estabilização da realidade, mostrando como o direito, a imprensa, a ciência e a polícia funcionaram historicamente como operadores capazes de canalizar a suspeita e transformar dúvidas difusas em investigações reconhecíveis e legitimadas. Já em “Qu’est-ce que l’actualité politique?” (Boltanski e Esquerre, 2022), escrito com Arnaud Esquerre, Boltanski descreve o enfraquecimento desses dispositivos em um espaço público marcado pela proliferação das plataformas digitais, pela fragmentação dos critérios de validação e pela saturação de disputas narrativas. Em conjunto, esses três momentos revelam uma trajetória que vai da valorização das competências críticas à constatação da instabilidade contemporânea, evidenciando a centralidade, mas também a ambivalência da crítica como prática social.
A partir desse percurso, avancei uma proposição teórica própria: a noção de pós-modernidade reflexiva. Essa categoria pretende designar o regime atual da crítica, no qual a multiplicação de controvérsias convive com a consciência crescente de seus paradoxos e limites. Inspirada no cruzamento entre duas tradições diagnósticas – a pós-moderna, que enfatiza a fragmentação dos regimes de verdade, e a modernidade reflexiva, que sublinha a autorreferencialidade crescente das instituições modernas –, a ideia de pós-modernidade reflexiva desloca o foco da desconstrução para a reconstrução das condições de crítica. Trata-se de reconhecer, de um lado, a impossibilidade de restaurar monopólios centralizados de veridicção e, de outro, a necessidade de inventar dispositivos capazes de sustentar juízos razoáveis em contextos de dissenso e pluralismo. Esse movimento não equivale a um retorno nostálgico ao universalismo clássico, mas a uma aposta na criação de circuitos experimentais e situados de validação pública, que mantenham aberto o espaço democrático, sem dissolver completamente os vínculos comuns de referência.
A contribuição de Boltanski, relida à luz desse argumento, consiste em mostrar que a crítica não é exterior à ordem social, mas um de seus motores centrais e permanentes. O desafio contemporâneo não está, portanto, em escolher entre crítica ou estabilidade, mas em compreender como essas duas dimensões podem ser articuladas em um regime social que reconhece o conflito e a incerteza como constitutivos. A sociologia, nesse horizonte, deve ser capaz de mapear os modos pelos quais a crítica é exercida, os dispositivos que buscam organizá-la e as tensões que emergem de sua dispersão. Mais do que denunciar ou legitimar, trata-se de explicitar as condições sociais que permitem que a crítica preserve sua potência emancipadora, ao mesmo tempo em que sustenta uma base mínima de inteligibilidade e partilha democrática. A pós-modernidade reflexiva, enquanto chave diagnóstica, oferece um vocabulário para pensar essa tarefa, convidando-nos a analisar empiricamente os circuitos de veridicção emergentes e a avaliar suas potencialidades e limites diante da fragmentação contemporânea.
-
1
Agradeço particularmente a Marina Haddad Tovolli, Bruno Reinhardt, Gustavo Bezerra e Pedro Grunewald pelas leituras atentas e pelas contribuições que muito enriqueceram este artigo. Agradeço igualmente aos pareceristas anônimos da revista e aos colegas do GT de Teoria Social da ANPOCS, onde apresentei um primeiro esboço das ideias aqui desenvolvidas, e a Paulo Henrique Cassimiro, pelo convite para uma aula que me permitiu aprofundar essa discussão. Naturalmente, assumo integralmente a responsabilidade por eventuais imprecisões que permaneçam.
-
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
Referências
- ARCHER, Margaret. Making our way through the world: Human reflexivity and social mobility. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
- BAUMAN, Zygmunt. Liquid Modernity Cambridge: Polity Press, 2000.
- BECK, Ulrich. Risk Society: Towards a New Modernity. Londres: Sage, 1992.
- BECK, Ulrich. World Risk Society Cambridge: Polity Press, 1999.
- BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Reflexive Modernization: Politics, Tradition and Aesthetics in the Modern Social Order. Cambridge: Polity Press, 1994.
- BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. The Social Construction of Reality: A Treatise in the Sociology of Knowledge. Nova Iorque: Anchor Books, 1966.
- BOLTANSKI, Luc. L’amour et la justice comme compétences: Trois essais de sociologie de l’action. Paris: Métailié, 1990a.
- BOLTANSKI, Luc. Sociologie critique et sociologie de la critique. Cahiers du Centre de Recherches Historiques, n. 31, p. 37-52, 1990b.
- BOLTANSKI, Luc. De la critique: Précis de sociologie de l’émancipation. Paris: Gallimard, 2009.
- BOLTANSKI, Luc. Énigmes et complots: Une enquête à propos d’enquêtes. Paris: Gallimard, 2012.
- BOLTANSKI, Luc; CLAVERIE, Elisabeth. Du monde social en tant que scène d’un procès. In: OFFENSTADT, Nicolas; VAN DAMME, Stéphane. (org.) Affaires, scandales et grandes causes: De Socrate à Pinochet. Paris: Stock, 2007. p. 395–452. (Collection Les Essais).
- BOLTANSKI, Luc; ESQUERRE, Arnaud. Qu’est-ce que l’actualité politique? Paris: Gallimard, 2022.
- BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude; CHAMBOREDON, Jean-Claude. O ofício de sociólogo: Metodologia da pesquisa científica. Tradução: Luciano Cavalcanti. Petrópolis: Vozes, 2007.
- BROWN, Wendy. In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West. Nova Iorque: Columbia University Press, 2019.
- CASTELLS, Manuel. The rise of the network society 2a edição. Oxford: Blackwell, [1996] 2009.
- CESARINO, Letícia. O Mundo do Avesso: Verdade e Política no Bolsonarismo. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
- CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. Nova Iorque: Pantheon Books, 1988.
-
CORRÊA, Diogo Silva. Da sociedade crítica à pós-modernidade reflexiva: Luc Boltanski e as metamorfoses da crítica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 40, n. 118, p. 1-30, 2016. DOI: https://doi.org/10.xxxx/rbcs.v40n118.xxx
» https://doi.org/10.xxxx/rbcs.v40n118.xxx -
CORRÊA, Diogo Silva. Novos rumos da teoria social a partir de três gestos da sociologia. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 36, n. 105, p. 1-20, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/3610505/2020.
» https://doi.org/10.1590/3610505/2020 -
HARSIN, Jayson. Regimes of posttruth, postpolitics, and attention economies. Communication, Culture & Critique, [s.l.], v. 8, n. 2, p. 1-7, fev., 2015. DOI: https://doi.org/10.1111/cccr.12097.
» https://doi.org/10.1111/cccr.12097 - GARFINKEL, Harold. Studies in ethnomethodology Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1967.
- GERBAUDO, Paolo. The Digital Party: Political Organisation and Online Democracy. Londres: Pluto Press, 2018.
- GIDDENS, Anthony. Modernity and self-identity: Self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press, 1991.
- DAVIES, William. Nervous States: How Feeling Took Over the World. Londres: Jonathan Cape, 2018.
- HABERMAS, Jürgen. Science and Technology as “Ideology”. In: HABERMAS, Jürgen. Toward a Rational Society: Student Protest, Science, and Politics. Boston: Beacon Press, 1970, p. 237-265.
- JAMES, William. Pragmatism: A New Name for Some Old Ways of Thinking. Nova Iorque: Longmans, Green and Co., 1907.
- JENKINS, Henry. Cultura da convergência São Paulo: Aleph, 2009.
- LYOTARD, Jean-François. La condition postmoderne: Rapport sur le savoir. Paris: Éditions de Minuit, 1979.
- MCINTYRE, Lee. Post-Truth Cambridge: MIT Press, 2018.
- O’NEIL, Cathy. Weapons of Math Destruction: How Big Data Increases Inequality and Threatens Democracy. Nova Iorque: Crown Publishing Group, 2016.
- PARISER, Eli. O filtro invisível: O que a internet está escondendo de você. Tradução: Cristina Yamagami. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
- SHALIN, Dmitri N. Critical Theory and the Pragmatist Challenge. American Journal of Sociology, v. 98, n. 2, p. 237–279, 1992.
- SHAPIN, Steven. A Social History of Truth: Civility and Science in Seventeenth-Century England. Chicago: University of Chicago Press, 1994.
- SUSEN, Simon. Is there such a thing as a 'pragmatic critique'? Luc Boltanski’s sociology of critique between pragmatism and sociology of knowledge. European Journal of Social Theory, v. 17, n. 4, p. 503–530, 2014.
- SUNSTEIN, Cass R. #Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media. Princeton: Princeton University Press, 2017.
- THEVENOT, Laurent; BOLTANSKI, Luc. De la justification: Les économies de la grandeur. Paris: Gallimard, 1991.
- WALZER, Michael. Interpretation and social criticism Cambridge: Harvard University Press, 1987.
- ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução: George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
Editado por
-
Editor Responsável:
João Maia
-
Editora Associada:
Mariana Barreto
os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
