Open-access A cara da ciência política no Brasil: arranjos institucionais, impacto acadêmico e desigualdades de gênero

Resumo:

Quem faz Ciência Política no Brasil e como os arranjos institucionais do campo se associam aos padrões de impacto acadêmico? Embora a literatura tenha explorado sua formação tardia e a influência de matrizes externas, ainda se sabe pouco sobre como essas dinâmicas se expressam hoje nas trajetórias, agendas e formas de reconhecimento acadêmico. O artigo analisa os preditores institucionais do impacto na pós-graduação em Ciência Política, com foco específico nas assimetrias de gênero que atravessam a organização interna da disciplina. A pesquisa usa base original usando como fonte Lattes e Google Scholar, combinando estatísticas descritivas, modelagem de tópicos e regressões com pareamento para estimar os preditores institucionais, formativos e temáticos sobre diferentes métricas de impacto. Os principais resultados mostram que, em modelos com controle de condições institucionais, formativas e temáticas, as diferenças de impacto entre homens e mulheres tornam-se amplamente mitigadas, permanecendo significativas apenas nas métricas mais sensíveis à produtividade contínua. Isso sugere que as assimetrias de gênero decorrem menos do desempenho individual e mais de desigualdades de oportunidades e escolhas métricas. Ao demonstrar que o impacto acadêmico é significativamente vinculado a arranjos institucionais que operam de modo desigual, o artigo qualifica o debate sobre gênero na disciplina e indica que a expansão recente da área, embora relevante, não foi suficiente para transformar de maneira substantiva seus padrões históricos de estratificação.

Palavras-chave:
Ciência Política brasileira; elites acadêmicas; assimetrias institucionais; gênero; impacto acadêmico; redes de formação

Abstract:

Who produces political science in Brazil, and how are the field’s institutional arrangements associated with patterns of scholarly impact? Although prior research has examined the discipline’s late institutionalization and the influence of external intellectual traditions, comparatively little is known about how these forces are currently reflected in career trajectories, research agendas, and forms of academic recognition. This article investigates the institutional predictors of scholarly impact among faculty in Brazilian graduate programs in political science, with particular attention to the gendered asymmetries that shape the discipline’s internal organization. The analysis draws on an original dataset compiled from Lattes and Google Scholar, combining descriptive statistics, topic modeling, and matched regression techniques to estimate the effects of institutional, training-related, and thematic factors across multiple impact measures. The results indicate that, once these dimensions are accounted for, gender differences in scholarly impact are substantially reduced, remaining statistically significant only for indicators more sensitive to sustained productivity. Taken together, these findings suggest that observed disparities are less a function of individual performance than of unequal access to opportunities and metric-specific dynamics. By showing that academic impact is closely linked to institutional arrangements that operate unevenly across individuals, the article advances the debate on gender within the discipline and underscores that its recent expansion, while consequential, has not been sufficient to meaningfully disrupt historically stratified patterns.

Keywords:
Brazilian political science; academic elites; institutional asymmetries; gender; scholarly impact; training networks

Embora a literatura tenha elucidado os processos históricos que moldaram a Ciência Política no Brasil, de formação tardia e dependente de influências externas à consolidação de redes de elite nos principais centros, ainda sabemos pouco sobre como os arranjos institucionais contemporâneos estão associados a padrões de reconhecimento e impacto na disciplina. Permanece pouco explorado como desigualdades no acesso a posições estratégicas, redes de formação e oportunidades profissionais estão associados a assimetrias de visibilidade e prestígio, especialmente relacionadas ao gênero.

Este artigo parte da inquietação sobre quanto o campo, ampliado e diversificado nas últimas décadas, ainda é atravessado por mecanismos de concentração e hierarquização. Quem faz Ciência Política no Brasil hoje? Até que ponto variações institucionais, como o tipo de programa, a posição nas redes de formação e a inserção em centros de maior prestígio, estão associados aos padrões de impacto acadêmico? E, nesse cenário, até que ponto as assimetrias de gênero observadas na disciplina decorrem de diferenças de desempenho ou, antes, de desigualdades nas condições institucionais de acesso, permanência e progressão na carreira?

Refletir sobre essas hierarquias também implica reconhecer o caráter arriscado de estudar o próprio espaço de inserção. Pesquisar elites acadêmicas é, acima de tudo, um exercício de exposição. Como lembra Bourdieu (1988), investigar o campo em que se está exige atravessar o espelho e encarar o desconforto de ver, com frieza estatística, os mecanismos que sustentam o próprio prestígio (ou sua ausência). É uma tarefa ingrata, pois desfaz a ilusão do mérito puro, desnuda hierarquias travestidas de excelência e mostra que, sob a retórica da neutralidade, o jogo acadêmico é profundamente social. Nessa chave reflexiva, fazer “ciência política dos cientistas políticos” é brincar com fogo, mas também recusar o conforto da indiferença. Em última instância, é um gesto de estímulo à autoavaliação coletiva que, se não rende popularidade, ao menos oferece perguntas e evidências valiosas a quem busca um campo mais plural, equitativo e guiado pelo esforço e igualdade de oportunidades, não pelas heranças.

Essa reflexão ganha densidade quando situada na história da disciplina. A consolidação da Ciência Política no Brasil foi marcada por institucionalização tardia e intensa influência de modelos estrangeiros, sobretudo o norte-americano (Forjaz, 1997; Keinert; Silva, 2010; Leite, 2015, 2016a, 2016b). A Fundação Ford teve papel decisivo nesse movimento, financiando bolsas e programas de pós-graduação que estabeleceram um padrão disciplinar orientado pela pesquisa empírica e pela valorização de critérios técnicos de excelência (Amorim, 2021; Canêdo, 2018). Essa “modernização” redefiniu o cânone da área, favorecendo abordagens comportamentalistas, institucionalistas e quantitativas e relegando a posições periféricas tradições teóricas ou societais (Leite, 2015; Lessa, 2011). Paralelamente, a concentração inicial de poder acadêmico em poucos centros consolidou redes endógenas de prestígio e reprodução de elites intelectuais (Marenco, 2014; Tavares; Oliveira, 2016). Mais recentemente, pesquisas têm mostrado que essas hierarquias também atravessam dimensões de gênero, marcadas pela invisibilização das contribuições de pesquisadoras nas narrativas sobre a história da disciplina (Almeida; Hollanda, 2020; Candido, 2023).

O artigo analisa como arranjos institucionais estão associados a padrões de reconhecimento na disciplina, com foco nas desigualdades de gênero no acesso a posições estratégicas e circuitos de prestígio. A análise apoia-se em base de dados original, elaborada manualmente entre setembro e outubro de 2025, reunindo informações de 946 docentes permanentes de programas de pós-graduação reconhecidos pela CAPES em Ciência Política, Administração, Sociologia, História e Interdisciplinar. As informações foram obtidas nas plataformas Lattes e Google Scholar, permitindo integrar variáveis sobre formação, trajetória profissional, vínculos institucionais, redes de orientação e indicadores de impacto acadêmico. O Lattes foi usado como fonte principal por sua ampla cobertura e padronização nacional, enquanto o Google Scholar complementou ao oferecer métricas bibliométricas de visibilidade e produtividade.

Metodologicamente, o artigo combina distintas estratégias analíticas em três etapas. Na primeira, realizaram-se análises descritivas para traçar o perfil e a distribuição institucional e de gênero dos docentes dos programas de pós-graduação, além de reconstruir as redes de formação e orientação que estruturam o campo. Na segunda, aplicou-se modelagem de tópicos (STM) aos currículos Lattes para identificar os principais eixos temáticos da produção e estimar, via regressões lineares, os fatores associados à especialização temática. Por fim, examinaram-se os preditores institucionais do impacto acadêmico com regressão múltipla e pareamento por escore de propensão, incorporando variáveis institucionais, formativas e demográficas. Essa combinação de métodos possibilitou uma leitura integrada da estrutura e dos mecanismos que definem a Ciência Política brasileira contemporânea.

Os resultados revelam que o impacto acadêmico na Ciência Política brasileira é significativamente vinculado a estruturas institucionais que operam de forma desigual. O desempenho feminino mostra-se equivalente ao masculino quando comparadas trajetórias com condições institucionais, formativas e temáticas semelhantes. As diferenças concentram-se em métricas ligadas à produtividade contínua, como o índice i10, sugerindo que as desigualdades de gênero resultam menos de desempenho individual e mais de desigualdades no acesso a oportunidades institucionais e nos critérios de avaliação científica. Ademais, os achados evidenciam que o principal fator associado à assimetria de gênero é a diferença de oportunidades na inserção institucional em programas de maior prestígio no campo.

Ao mesmo tempo, a expansão territorial e institucional da Ciência Política brasileira diversificou o perfil dos programas e das trajetórias docentes, sem, contudo, romper com os mecanismos históricos de concentração e hierarquização. As evidências indicam que a reprodução das elites acadêmicas permanece ancorada em poucos polos formadores e que as redes de orientação continuam a exercer papel decisivo na definição do prestígio e no acesso a posições centrais dentro do campo. Paralelamente, a estrutura temática da disciplina continua segmentada entre abordagens teóricas e analíticas, embora se observe a consolidação de uma vertente aplicada em expansão. As métricas de impacto acadêmico, por sua vez, continuam condicionadas por fatores institucionais, regionais e de gênero, indicando que a recente expansão reconfigurou, mas ainda não superou, as hierarquias históricas que moldam o campo.

O artigo mostra que o impacto acadêmico é fortemente vinculado a arranjos institucionais assimétricos, qualificando o debate sobre desigualdade de gênero e estratificação na disciplina. Apesar da expansão recente da área, os mecanismos históricos que sustentam suas hierarquias permanecem, em grande medida, vivos. Reunir e sistematizar essas informações em uma base ampla e comparável é, por si só, uma contribuição significativa: oferece um retrato coletivo inédito de quem faz Ciência Política no país e promove um debate mais transparente sobre como torná-la mais diversa, equilibrada e coerente com o ideal de valorização do esforço, igualdade de oportunidades e pluralidade.

A estrutura do artigo reflete essa análise abrangente. A primeira seção revisita os processos históricos e disputas intelectuais que moldaram a formação da Ciência Política brasileira, ressaltando a influência internacional, a centralidade dos programas de pós-graduação e as hierarquias temático-metodológicas que configuraram o campo. Na sequência, apresentam-se os dados e procedimentos metodológicos que sustentam a investigação empírica, elaborada a partir da integração de informações do Lattes e do Google Scholar. A terceira parte reúne as análises descritivas e inferenciais, examinando as dimensões territoriais, de gênero, formativas, temáticas e de impacto acadêmico. Por fim, a conclusão sintetiza os principais resultados e discute suas implicações para o entendimento da estrutura e dinâmica da Ciência Política no Brasil contemporâneo.

As heranças da Ciência Política no Brasil

Emergência histórica e influência internacional

A Ciência Política brasileira consolidou-se tardiamente em comparação às demais ciências sociais, estruturando-se apenas no final dos anos 1960, com a criação dos programas de pós-graduação da UFMG (1967) e do Iuperj (1969) (Canêdo, 2018; Farah, 2016; Forjaz, 1997; Keinert; Silva, 2010; Leite, 2010, 2015; Oliveira et al., 2021). Esses centros afirmaram a política como objeto autônomo de investigação, rompendo com o juridicismo e com a hegemonia sociológica paulista de matriz francesa e marxista (Forjaz, 1997).

A consolidação da disciplina deu-se no âmbito da pós-graduação, em contraste com outros países latino-americanos, onde o processo se iniciou na graduação (Oliveira et al., 2021). Essa orientação voltada à pesquisa produziu efeitos duradouros: o primeiro curso de bacharelado foi criado apenas em 1989, na UnB, o que retardou a profissionalização e a difusão territorial da área (Braga, 2023). Dessa forma, os programas de pós-graduação assumiram papel estratégico na formação de quadros, na consolidação de normas acadêmicas e na constituição de uma comunidade epistêmica (Lessa, 2011).

O fortalecimento desses programas esteve profundamente ligado aos fluxos transnacionais de ideias e recursos, em especial à atuação da Fundação Ford, que tinha como principal objetivo difundir o modelo norte-americano de democracia liberal (Amorim, 2021; Braga, 2023; Canêdo, 2018; Farah, 2016; Forjaz, 1997; Keinert; Silva, 2010; Oliveira et al., 2021). A fundação financiou bolsas de estudo nos Estados Unidos (Canêdo, 2018; Forjaz, 1997), apoiou centros de pós-graduação e estimulou redes internacionais durante a Guerra Fria (Amorim, 2021; Canêdo, 2018). Durante a segunda metade do século XX, concentrou esforços na formação de elites acadêmicas tecnicamente qualificadas, porém socialmente periféricas, preparadas para atuar como mediadoras entre ciência e Estado (Amorim, 2021).

Esse fomento consolidou o modelo comportamentalista e institucionalista de matriz norte-americana, promovendo a difusão de métodos quantitativos, o afastamento das abordagens normativas e a valorização da formação técnica. A “modernização disciplinar” daí resultante incorporou novos objetos de estudo e estabeleceu critérios entendidos como mais rigorosos de excelência acadêmica (Leite, 2016a; Lessa, 2011; Maglia; Peres, 2019). Parte da literatura critica o uso do modelo norte-americano como padrão normativo para avaliar a Ciência Política, pois isso pode obscurecer as especificidades históricas e institucionais da disciplina na América Latina (Baquero; Noguera; Ortiz, 2019).

Disputas intelectuais e tradições disciplinares

A emergência da Ciência Política brasileira foi marcada pela influência de modelos estrangeiros e pela criação tardia de instituições formativas. As disputas intelectuais posteriores definiram como essas referências seriam apropriadas e reinterpretadas no contexto nacional, delineando tradições disciplinares que moldam a identidade e as hierarquias internas do campo. A literatura identifica três linhagens: uma vertente humanística, ensaística e literária, hegemônica até os anos 1960 (Leite, 2015; Lessa, 2011; Lynch, 2017); uma tradição societal, vinculada à sociologia paulista (Forjaz, 1997; Leite, 2016a, 2016b); e uma perspectiva politológico-científica, associada ao eixo UFMG-Iuperj e ao modelo norte-americano (Leite, 2016b). Esta última, amparada por financiamento internacional (Leite, 2016b), consolidou-se com a hierarquização de critérios científicos e a institucionalização da disciplina (Canêdo, 2018; Leite, 2015, 2016a, 2016b), redefinindo métodos e objetos de análise (Lessa, 2011).

Essas disputas deram origem a linhas de contestação duradouras: empírico vs. teórico (Leite, 2015, 2017; Sainz; Silva; Codato, 2022), politicista vs. societal (Leite, 2010) e quantitativo vs. qualitativo (Leite, 2015, 2016a). A disciplina consolidou-se como um campo hierarquizado, no qual as abordagens politológico-quantitativas ocupam o polo dominante, enquanto as tradições humanísticas e societais permanecem em posições periféricas (Canêdo, 2018; Leite, 2015, 2016a, 2016b).

Essa hierarquia epistemológica e institucional reflete-se na própria organização temática da produção. A literatura mostra que a Ciência Política brasileira se estrutura em núcleos bem definidos, com ênfase em instituições políticas (partidos, eleições, Legislativo e Executivo), políticas públicas, comportamento político, economia política e teoria normativa (Braga, 2023; Leite, 2017; Sainz; Silva; Codato, 2022). A maioria dessas agendas vincula-se à tradição norte-americana. Mapeamentos recentes de redes temáticas confirmam essa tendência e identificam cinco clusters principais: Estado e Relações Internacionais, Partidos e Eleições, Teoria Política, Atores Sociais e Políticas Públicas e Instituições (Sainz et al., 2024).

Há correspondência entre temas e estilos metodológicos predominantes: estudos sobre partidos e eleições recorrem a métodos quantitativos e formulação de hipóteses; a teoria política privilegia abordagens interpretativas; e as pesquisas em políticas públicas utilizam majoritariamente estudos de caso (Sainz; Silva; Codato, 2022). Essa configuração manteve-se estável entre 2013 e 2020, indicando maturidade disciplinar, embora persistam lacunas, como a sub-representação de estudos sobre protestos, esfera pública e participação direta (Tavares; Oliveira, 2016).

O (?) cientista político brasileiro: hegemonias e a questão de gênero

As seções anteriores mostraram que a Ciência Política brasileira se estruturou sob influências estrangeiras, disputas intelectuais e hierarquias temático-metodológicas. O passo seguinte é compreender como esses legados se refletem no perfil dos próprios cientistas políticos. As dinâmicas de formação e consagração que marcaram a institucionalização da disciplina ainda definem quem ocupa posições de prestígio e visibilidade. Investigar a composição da área - suas hegemonias institucionais, redes de formação e desigualdades de gênero - permite entender como a história do campo molda as trajetórias atuais.

Os dados revelam alta concentração institucional e baixa endogenia (Marenco, 2014; Tavares; Oliveira, 2016): em 2012, apenas 7,2% dos docentes haviam se formado na própria área, enquanto quase metade possuía doutorado em outras disciplinas. Um número restrito de instituições - UFMG, Iuperj, USP e UnB - permanece central nas redes de orientação (Marenco, 2014). Estudos recentes mostram que a formação do corpo docente permanece concentrada nos polos fundadores da disciplina, contribuindo para a reprodução de hierarquias institucionais no campo (Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019). As linhagens intelectuais, longe de neutras, serviram para legitimar projetos acadêmico-políticos específicos, como discutido anteriormente sobre as expectativas associadas a atuação da Fundação Ford (Keinert; Silva, 2010).

Esse processo também afetou a composição social da área. Pesquisas recentes evidenciam a invisibilização das mulheres nas narrativas históricas (Almeida; Hollanda, 2020; Candido, 2023): obras de referência, como Forjaz (1997) e Keinert e Silva (2010), tendem a marginalizar suas contribuições. No entanto, estudos indicam que elas estiveram presentes desde os primórdios da pós-graduação e chegaram a representar a maioria em algumas turmas, com desempenho acadêmico destacado (Candido, 2023).

Pesquisas biográficas mais recentes evidenciam o papel fundamental de pesquisadoras pioneiras na criação da ANPOCS, da ABCP e de diversas redes de pesquisa, apesar das barreiras estruturais enfrentadas, como o machismo, a divisão desigual do trabalho e as dificuldades de conciliar maternidade e carreira. Essas assimetrias permanecem visíveis nas taxas de participação, nas redes de orientação e nos indicadores bibliométricos (Almeida; Hollanda, 2020; Candido; Feres Júnior; Campos, 2019; Rocha-Carpiuc; Madeira, 2019).

Em síntese, a literatura indica que a Ciência Política brasileira é um campo historicamente situado, marcado por influências internacionais, disputas internas, redes formativas e hierarquias que estruturam tanto suas instituições quanto as desigualdades de gênero e regionais - uma área simultaneamente diversificada e fortemente estratificada.

Quem faz Ciência Política no Brasil hoje?

A literatura sobre a formação da Ciência Política no Brasil descreve os processos históricos que moldaram a disciplina. Como visto, a emergência tardia da área, sua institucionalização centrada na pós-graduação e a incorporação seletiva de modelos norte-americanos configuraram um campo profundamente hierarquizado, em que certos estilos de pesquisa e instituições assumiram posições hegemônicas.

Ainda são raros diagnósticos empíricos abrangentes sobre como determinados arranjos institucionais, como o tipo de programa, o prestígio institucional e as redes de formação, estruturam padrões de reconhecimento e impacto na Ciência Política. Mapear posições centrais no campo, bem como trajetórias associadas a níveis mais elevados de impacto, é fundamental para avaliar se a expansão recente da área produziu mudanças substantivas ou apenas reconfigurou suas hierarquias.

Essa questão torna-se particularmente relevante quando considerada sob a perspectiva das desigualdades de gênero. Embora existam evidências de disparidades na presença feminina, nas redes de orientação e no acesso a posições de maior prestígio (Almeida; Hollanda, 2020; Candido, 2023; Candido; Feres Júnior; Campos, 2019; Rocha-Carpiuc; Madeira, 2019), ainda não está claro se tais diferenças refletem variações de desempenho acadêmico ou desigualdades nas condições institucionais de inserção e progressão na carreira.

Além disso, embora a relevância histórica de centros como UFMG, Iuperj, USP e UnB nas redes de formação da disciplina seja amplamente reconhecida, ainda carecemos de diagnósticos atualizados que revelem como essas hierarquias se manifestam nas trajetórias contemporâneas do corpo docente. A expansão da pós-graduação a partir dos anos 2000 redefiniu a paisagem acadêmica, mas ainda é incerto em que medida os novos programas se articulam às redes consolidadas ou desenvolvem padrões próprios de formação e inserção profissional. Evidências indicam que a reprodução institucional da área ainda é marcada pela centralidade de programas fundadores na formação de doutores e docentes, apesar da expansão recente do sistema (Marenco, 2019; Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019).

Divisões entre tradições intelectuais e a segmentação temática da produção compõem o pano de fundo das dinâmicas institucionais do campo. A literatura evidencia divisões persistentes entre tradições intelectuais, politicista vs. societal, quantitativa vs. qualitativa, empírica vs. teórica, que moldaram hierarquias epistemológicas no campo (Leite, 2015, 2016a; Sainz; Silva; Codato, 2022). Contudo, ainda são escassas as investigações empíricas que analisam como essas disputas se traduzem nas trajetórias formativas, nas redes acadêmicas e nos padrões de impacto, bem como se determinadas linhagens intelectuais ocupam posições mais centrais e prestigiadas na estrutura disciplinar.

Essas lacunas reforçam a necessidade de uma análise abrangente e sistemática, que articule perspectivas históricas a dados empíricos atualizados sobre a estrutura do campo. Embora haja avanços no mapeamento da internacionalização e das redes de publicação da Ciência Política brasileira, ainda são raras as análises que relacionam esses processos às hierarquias institucionais da disciplina (Madeira, 2024). Este estudo busca suprir essa ausência ao mapear o perfil do corpo docente da pós-graduação em Ciência Política no Brasil, examinando formações, inserções institucionais, áreas de especialização e impacto acadêmico por meio de estatísticas descritivas, análise de redes e modelos de regressão.

A investigação examina se padrões de formação e inserção institucional reproduzem hierarquias históricas, como redes de formação estruturam prestígio acadêmico, quais fatores se associam ao impacto científico e se desigualdades de gênero refletem diferenças de desempenho ou de acesso a posições valorizadas.

Dados e metodologia

Os dados e procedimentos analíticos apresentados nesta seção são expostos de forma sintética, em razão da variedade de técnicas empregadas. Uma descrição mais detalhada, acompanhada de análises complementares, encontra-se no apêndice metodológico. A estratégia empírica analisa como dimensões institucionais, tipo de programa, redes de formação e especialização temática, associam-se aos padrões de impacto acadêmico na Ciência Política brasileira, com foco nas assimetrias de gênero.

Base de dados: Lattes e Google Scholar

A base de dados foi construída manualmente entre 26 de setembro e 24 de outubro de 2025, a partir das plataformas Lattes e Google Scholar, reunindo informações de 946 docentes permanentes de programas de pós-graduação reconhecidos pela CAPES, com doutorado e vínculo ativo em cursos de Ciência Política ou áreas correlatas.

O Lattes, principal registro público da trajetória acadêmica no Brasil desde 1999, criado pelo CNPq, oferece cobertura abrangente e padronizada que permite mapear formação, vínculos e redes de orientação, sendo amplamente usado em diagnósticos sobre a ciência nacional (Mena-Chalco; Cesar Junior, 2009; Mugnaini; Jannuzzi; Quoniam, 2004; Sidone; Haddad; Mena-Chalco, 2016) e em estudos sobre elites acadêmicas (Leite, 2016a; Marenco, 2014).

O Google Scholar complementou o Lattes com indicadores de impacto e visibilidade científica. Apesar de limitações conhecidas, sua ampla cobertura e sensibilidade à produção em português tornam-no especialmente útil para analisar campos periféricos (Harzing; Alakangas, 2016; Orduna-Malea et al., 2015), já que seus índices (h e i10) correlacionam-se com métricas tradicionais e captam melhor a produção nacional e regional (Martín-Martín et al., 2018). Assim, a combinação das duas fontes fornece um retrato mais completo e contextualizado da Ciência Política brasileira, integrando dimensões institucionais, formativas e bibliométricas.

Critério de seleção dos programas

O ponto de partida foi a área de avaliação “Ciência Política e Relações Internacionais” da CAPES, da qual se selecionaram apenas os programas de Ciência Política e Políticas Públicas, excluindo os de Relações Internacionais por constituírem subárea com trajetória e redes próprias.

Incluíram-se também programas da área de Sociologia, especificamente os de Ciências Sociais, Sociologia Política e Sociologia e Ciência Política, devido à ancoragem histórica de uma das linhagens formativas da disciplina (Forjaz, 1997; Leite, 2016a, 2016b). Nesses casos, consideraram-se apenas docentes com formação ou atuação consolidada em subáreas da Ciência Política, excluindo pesquisadores de outras tradições teóricas.

Foram ainda incorporados programas de Administração, particularmente os de Administração Pública e Governo, que compõem o “Campo de Públicas”. Esse campo, cuja trajetória evoluiu da origem tecnoburocrática à consolidação interdisciplinar, estreitou o diálogo com a Ciência Política e fortaleceu a análise de políticas públicas, notadamente nos programas da FGV (Farah, 2018). Seguindo essa perspectiva, também se incluíram programas interdisciplinares da CAPES voltados às Políticas Públicas, permitindo captar a diversidade de abordagens que compõem o campo.

Por fim, o programa vinculado ao CPDOC da FGV foi incluído, ainda que classificado como de História, devido à sua relevância histórica e contemporânea na difusão de métodos empíricos e na consolidação da Ciência Política brasileira.

O estudo adota um critério ampliado de seleção que, embora reduza a comparabilidade direta com abordagens mais restritivas, permite representar com maior fidelidade a comunidade de cientistas políticos no Brasil. Ao incluir docentes vinculados a áreas como Ciências Sociais, Sociologia Política, Administração Pública e Políticas Públicas que desenvolvem atuação substantiva na disciplina, a estratégia busca evitar a sub-representação de segmentos relevantes e captar de forma mais adequada a diversidade institucional que caracteriza o campo.

Estrutura da base e integração dos dados

Do Lattes foram coletadas informações sobre o perfil formativo, institucional e demográfico dos docentes, área CAPES, tipo e nome do programa, estado, universidade, nota CAPES, áreas de interesse, sexo (codificado pelo autor), dados do doutorado (título, instituição, país, ano) e do orientador (nome e sexo), além das áreas de concentração autorrelatadas. Esses dados permitiram reconstruir redes de formação e orientação, identificar padrões de endogenia e analisar assimetrias de gênero e concentração regional. A coleta manual garantiu maior consistência e comparabilidade diante da heterogeneidade dos currículos.

Do Google Scholar extraíram-se indicadores de impacto e visibilidade, total de citações, citações no último quinquênio e índices h e i10 (gerais e recentes), posteriormente integrados às informações do Lattes para examinar como fatores formativos e institucionais influenciam o reconhecimento e a centralidade dos pesquisadores nas redes científicas.

Estratégias analíticas

Estrutura institucional e perfil da docência

A primeira etapa, de caráter exploratório, descreve a estrutura da Ciência Política brasileira a partir do perfil do corpo docente, com estatísticas sobre distribuição institucional, gênero e trajetórias formativas. Essas análises servem de contexto para o exame posterior das hierarquias institucionais e do impacto acadêmico.

Estrutura temática da produção científica

A segunda etapa buscou mapear os principais eixos temáticos que estruturam a produção científica e as áreas de atuação dos docentes dos programas de pós-graduação em Ciência Política no Brasil. Para isso, aplicou-se Structural Topic Modeling (STM) (Grimmer; Roberts; Stewart, 2022) aos resumos e áreas de interesse dos currículos Lattes, após pré-tratamento linguístico com normalização, remoção de stopwords, stemming e tokenização. O corpus final foi convertido em matriz termo-documento, dividido em dez tópicos (K = 10), incorporando variáveis de prevalência relacionadas à instituição e ao ano de doutorado para captar variações interinstitucionais e geracionais.

Os tópicos identificados - Direito; Comportamento e Instituições; Saúde e Meio Ambiente; Administração e Gestão Pública; História do Pensamento Político; Ciências Sociais; Educação; Economia Política; Teoria Democrática e Participação; e Relações Internacionais - sintetizam a agenda contemporânea da área com base nas autodescrições.

As proporções médias de cada tema por programa foram representadas em um heatmap, permitindo comparar especializações institucionais e identificar núcleos de pesquisa. Em seguida, modelos lineares múltiplos relacionaram a prevalência dos tópicos ao tipo de programa, região, nota CAPES, sexo do docente e do orientador, país e ano do doutorado.

A combinação entre modelagem de tópicos e regressão linear possibilitou mapear a distribuição dos temas predominantes da Ciência Política no Brasil e evidenciar os condicionantes institucionais e sociais que moldam suas hierarquias e especializações.

Preditores institucionais do impacto acadêmico

A etapa final analisou os padrões de impacto acadêmico entre docentes dos programas de pós-graduação, articulando dimensões institucionais, temáticas e demográficas, com o objetivo de verificar como diferenças estruturais - tipo de programa, região, gênero, origem formativa e especialização - se refletem em distintos níveis de visibilidade científica.

Os indicadores de impacto extraídos do Google Scholar incluíram total de citações, citações no último quinquênio e índices h e i10 (gerais e quinquenais). Para assegurar comparabilidade entre gerações, as citações e o i10 foram normalizados pelo tempo de carreira, enquanto o h-index foi mantido em sua forma original.

Com base nessas métricas, estimaram-se regressões lineares múltiplas, relacionando o impacto acadêmico a características estruturais (tipo, nota CAPES e região), atributos individuais (sexo, país e ano do doutorado, sexo do orientador) e tópicos temáticos identificados pelo STM.

Adicionalmente, aplicou-se Propensity Score Matching para isolar o efeito do gênero, comparando docentes com perfis equivalentes em formação, programa e trajetória. Os resultados padronizados, expressos em desvios-padrão, evidenciaram os contrastes de impacto entre diferentes métricas.

As análises realizadas nesse artigo são associativas. Embora os modelos identifiquem fatores ligados ao impacto acadêmico, o caráter transversal dos dados impede inferências causais. Assim, os resultados indicam associações entre características institucionais, trajetórias formativas e desempenho.

Resultados

Estrutura institucional e perfil da docência

A análise descritiva busca delinear os contornos estruturais da Ciência Política brasileira contemporânea, explorando em especial duas dimensões inter-relacionadas: composição de gênero e redes de formação acadêmica. Em conjunto, esses elementos evidenciam o entrelaçamento entre concentração institucional, assimetrias e legados históricos na reprodução das elites científicas da disciplina. A institucionalização da área ocorreu com forte centralização em poucos polos formadores e redes acadêmicas relativamente fechadas (Forjaz, 1997; Leite, 2015; Marenco, 2014).

As análises detalhadas da distribuição territorial do corpo docente são apresentadas no Apêndice Metodológico. Os dados mostram persistência de assimetrias regionais, com concentração de docentes em polos historicamente consolidados, reflexo da concentração da infraestrutura científica em poucos centros (Sidone; Haddad; Mena-Chalco, 2016). Apesar da expansão recente da pós-graduação, os polos tradicionais ainda mantêm forte capacidade de difusão institucional e simbólica (Marenco, 2014).

A dimensão de gênero revela transformação gradual, ainda incompleta. As mulheres representam 42,2% do corpo docente, avanço significativo, embora ainda sem paridade. O crescimento acompanha a maior presença feminina nas ciências sociais brasileiras, embora persistam desigualdades no acesso a posições acadêmicas de maior prestígio (Almeida; Hollanda, 2020; Candido, 2023). As disparidades variam conforme o subcampo analisado (Gráfico 1).

Nos programas de Ciência Política, as mulheres são 35,8% do total, proporção que cai para 28,2% em Administração Pública. Em contraste, os programas de Políticas Públicas têm equilíbrio quase completo (50,2%), e o CPDOC, maioria feminina (52,9%). Esses contrastes revelam a segmentação da disciplina: subcampos próximos dos núcleos politológico e tecnoburocrático tradicionais mantêm estruturas de gênero mais desiguais, enquanto áreas interdisciplinares e aplicadas tendem a ser mais inclusivas. Subáreas associadas às redes históricas de formação e às posições de maior prestígio institucional permanecem mais masculinizadas (Candido; Feres Júnior; Campos, 2019).

Gráfico 1
Proporção de docentes do sexo feminino por tipo de programa

O Gráfico 2 analisa a homofilia de gênero nas redes de orientação acadêmica. Homens têm 62,8% de chance de terem sido orientados por outros homens, enquanto entre as mulheres a taxa é de 46,7%, diferença de aproximadamente 16 pontos percentuais. Como 69,2% dos docentes foram orientados por homens, o padrão reflete a herança de uma estrutura formativa historicamente masculina.

Redes de formação reproduzem hierarquias acadêmicas ao estruturar circuitos institucionais de socialização profissional, pelos quais também se configuram desigualdades de gênero (Marenco, 2014; Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019). Embora avanços recentes e a presença crescente de orientadoras indiquem mudanças positivas, o predomínio masculino na mentoria ainda limita o acesso das pesquisadoras a redes de prestígio e capital simbólico.

Gráfico 2
Probabilidade predita de ter tido orientador homem, por sexo do docente

A evolução histórica reforça essa interpretação. O Gráfico 3 mostra que, até o início dos anos 1980, a presença feminina era muito mais rara. A partir dos anos 2000, observa-se crescimento contínuo, com médias próximas de 40% e picos recentes acima de 60%. Esse avanço acompanha a expansão institucional da área e a criação de novos programas, que se tornaram importantes portas de entrada para as novas gerações de pesquisadoras.

A presença feminina na Ciência Política brasileira existe desde o início da pós-graduação, mas tornou-se mais visível nas últimas décadas com a expansão do sistema (Candido, 2023). Ainda assim, a trajetória revela o peso das barreiras históricas e a persistência de desigualdades no acesso a posições de prestígio.

Gráfico 3
Evolução da proporção de docentes mulheres por ano de conclusão do doutorado

Dependências de trajetória institucionais e de gênero aparecem nas trajetórias formativas (ver apêndice metodológico): predominam doutorados em Ciência Política, seguidos por Sociologia e Ciências Sociais, refletindo a consolidação da área e sua herança interdisciplinar, além de formações em outras áreas, sobretudo entre gerações mais antigas (Forjaz, 1997; Leite, 2015).

O Gráfico 4 mostra a estrutura das redes de formação acadêmica, evidenciando forte concentração em torno de um núcleo histórico de instituições. A USP foi de longe a que formou mais docentes ativos (18,1%), seguida por Unicamp (8%), UFRJ (6,5%), UFRGS (6,2%) e o antigo Iuperj (5%). Juntas, essas cinco universidades formaram quase metade do corpo docente em atividade. Esse padrão evidencia a centralidade de um número restrito de instituições na formação das elites acadêmicas da disciplina (Marenco, 2014; Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019).

Entre os orientadores mais proeminentes destacam-se Fabiano Guilherme Mendes Santos, Maria Regina Soares de Lima, Marcelo Gantus Jasmin e Marcus Faria Figueiredo, que expressam o legado histórico do Iuperj, além de Maria Hermínia Tavares de Almeida e Argelina Cheibub Figueiredo, associadas à hegemonia paulista e às duas principais instituições, USP e Unicamp. Conjuntamente, esses nomes simbolizam a continuidade de redes de prestígio e autoridade intelectual no campo. A recorrência desses orientadores nas redes de formação evidencia o papel das linhagens acadêmicas na reprodução de capital científico e reconhecimento institucional (Marenco, 2014).

Embora em menor número, instituições estrangeiras como a London School of Economics (LSE), University of California, Oxford, EHESS e MIT reafirmam o papel duradouro da formação internacional na legitimação das elites acadêmicas. A internacionalização, particularmente por meio de formação nos Estados Unidos e na Europa, desempenhou papel central na consolidação da disciplina no Brasil (Amorim, 2021; Forjaz, 1997). O caso de Adam Przeworski, identificado na rede como orientador de figuras centrais da Ciência Política brasileira, especificamente Fernando Limongi, Argelina Figueiredo e Carlos Pereira, exemplifica como essas conexões transnacionais se entrelaçam às dinâmicas domésticas de prestígio e reprodução intelectual.

As redes de orientação contribuem para reproduzir desigualdades de gênero: apesar do aumento da participação feminina, posições centrais de orientação em programas prestigiados permaneceram majoritariamente masculinas, prolongando assimetrias nas redes de prestígio acadêmico (Almeida; Hollanda, 2020; Rocha-Carpiuc; Madeira, 2019).

Gráfico 4
Principais redes e instituições formadoras

Em conjunto, as análises descritivas revelam um campo em transformação, ainda profundamente marcado pela concentração institucional, segmentação de gênero e heranças formativas hierarquizadas. A expansão recente da área promoveu certa diversificação institucional, sem eliminar os mecanismos históricos de estratificação que estruturam a disciplina (Forjaz, 1997; Leite, 2015; Marenco, 2014).

Apesar da expansão territorial e do avanço feminino, a reprodução das elites acadêmicas segue ancorada em poucos polos e redes de prestígio que conectam gerações de pesquisadores. O campo revela, assim, uma combinação de diversificação gradual e continuidade estrutural, que constitui o pano de fundo das dinâmicas contemporâneas de reconhecimento e impacto acadêmico examinadas nas seções seguintes.

Estrutura temática da produção científica

A análise das áreas de atuação revela como as assimetrias históricas e institucionais discutidas anteriormente se refletem na estrutura temática da produção em Ciência Política no Brasil. A formação da disciplina foi marcada por disputas entre tradições intelectuais e estilos metodológicos que contribuíram para organizar sua agenda de pesquisa (Leite, 2015, 2016a; Sainz; Silva; Codato, 2022).

O Gráfico 5 mostra a especialização temática dos programas de pós-graduação, indicando a proporção média de associação de cada PPG aos dez tópicos principais identificados pelo STM. O padrão geral confirma um campo diverso e segmentado, em que distintas tradições formativas - política, societal e tecnoburocrática - moldam a distribuição de temas e agendas de pesquisa.

Nos programas de Ciência Política, predomina o tópico Comportamento e Instituições, que estrutura o eixo central de PPGs consolidados como DCP-USP (36,6%), PPGCP-UFMG (29,5%), PPGCP-UnB (34,3%) e PPGCP-UFPE (42,7%). Essa concentração reafirma a hegemonia das abordagens institucionalistas e comportamentais, herdeiras do modelo norte-americano de modernização disciplinar, marcado pela ênfase empírica e pelo uso de métodos quantitativos.

A consolidação da Ciência Política no Brasil ocorreu em torno dessas abordagens, que se tornaram centrais na definição dos critérios de prestígio acadêmico da disciplina (Forjaz, 1997; Leite, 2016a; Lessa, 2011). Assim, o núcleo “politológico” da área mantém o prestígio historicamente acumulado por essas linhagens, consolidado pela formação concentrada nas instituições mais antigas.

Nos programas de Administração Pública e Governo, especificamente DPAP-IDP (45,7%), FGV-EAESP (42,3%) e FGV-EBAPE (44,5%), observa-se forte especialização em Administração e Gestão Pública, alinhada ao perfil aplicado do chamado Campo de Públicas. Esse eixo, surgido da intersecção entre a Ciência Política e a gestão estatal, reflete a influência da FGV e do IDP na formação de quadros técnicos e na consolidação de uma agenda voltada à eficiência administrativa e à avaliação de políticas.

A consolidação institucional do Campo de Públicas ampliou o diálogo entre a Ciência Política e áreas aplicadas de análise de políticas públicas (Farah, 2018). Essa tendência reflete o padrão regional já observado: o predomínio do eixo Brasília-São Paulo-Rio, centros de poder político e burocrático que ainda concentram o capital institucional e científico da área.

Em contraste, programas como PPED-UFRJ (43,0%) e PERPP-UESC (62,2%) destacam-se pela ênfase em Economia Política, consolidando um núcleo mais restrito, porém tradicional, de pesquisa sobre desenvolvimento e desigualdade. A economia política constitui um dos eixos clássicos da produção nacional, frequentemente associado a debates sobre desenvolvimento, Estado e desigualdade (Braga, 2023; Sainz et al., 2024). A continuidade desse perfil mostra como certas tradições intelectuais preservam vitalidade mesmo fora dos grandes centros, articulando-se a contextos regionais específicos.

O tópico Teoria Democrática e Participação está entre os mais difundidos, orientando programas como PGCS-UFES (46,3%), PPGCS-UFRN (40,3%), PPGCS-UFBA (42,2%) e PPGCS-UNESP-Marília (40,3%). Essa ampla presença reflete a vitalidade das tradições interpretativas, qualitativas e normativas, ligadas às linhagens societal e teórico-crítica, que ainda disputam espaço com o eixo institucionalista-comportamental.

A Ciência Política brasileira estruturou-se historicamente em torno da tensão entre tradições empiristas de inspiração norte-americana e vertentes teóricas ou societais vinculadas às ciências sociais nacionais (Leite, 2015; Sainz; Silva; Codato, 2022). Exemplo emblemático dessa tensão é o PPGCP-UnB, estruturado em dois eixos claramente segmentados em torno dessa disputa: Política e Instituições e Democracia e Sociedade.

O FGV-CPDOC, por sua vez, tem perfil singular, com 40,9% de associação ao tópico História do Pensamento Político. Essa ênfase confirma sua natureza híbrida e reforça o papel histórico - curiosamente também autoimplicado - do CPDOC como ponte entre tradições empíricas e interpretativas, articulando a análise política atual à recuperação de matrizes históricas e conceituais. A pluralidade temática e metodológica constitui uma característica duradoura da Ciência Política brasileira (Braga, 2023; Sainz et al., 2024).

Em síntese, o panorama temático indica que, embora a Ciência Política brasileira tenha ampliado seu escopo, o campo permanece estruturado em núcleos dominantes - Comportamento e Instituições, Teoria Democrática e Participação, e Administração e Gestão Pública - que refletem e atualizam as hierarquias formativas discutidas anteriormente.

A expansão institucional da área reconfigurou, sem eliminar, suas divisões históricas, preservando a centralidade de determinados estilos de pesquisa e tradições formativas (Leite, 2015; Marenco, 2014). Destaca-se, nesse contexto, a consolidação da área de Administração e Gestão Pública como um terceiro e autônomo eixo dentro da arena temática da disciplina.

Gráfico 5
Principais tópicos de pesquisa por programa de pós-graduação

O Gráfico 6 complementa o diagnóstico ao identificar fatores que condicionam a especialização temática dos docentes, articulando dimensões institucionais, regionais e individuais. O tipo de programa é o principal preditor das variações temáticas: docentes de Políticas Públicas e Administração Pública concentram-se em agendas aplicadas, como Administração e Gestão Pública e Economia Política, enquanto os de Ciência Política preservam maior aderência às agendas clássicas de inspiração norte-americana, sobretudo Comportamento e Instituições. Os programas de Ciências Sociais enfatizam Teoria Democrática e Participação e Educação, articulando perspectivas normativas e empíricas e preservando vínculos intelectuais mais próximos das tradições interpretativas nacionais. Essa divisão institucional reafirma a segmentação do campo entre polos analíticos, teóricos e aplicados.

As diferenças regionais também aparecem, ainda que de forma localizada. A região Sul, por exemplo, apresenta maior concentração de produção em Teoria Democrática e Participação. No plano individual, gênero e orientação acadêmica revelam divisões significativas. Homens tendem a se concentrar em temas como Teoria Democrática e Participação e em agendas associadas à Economia Política, enquanto docentes orientadas por mulheres mostram maior presença em áreas sociais e educacionais, como Ciências Sociais, Saúde e Meio Ambiente e Educação. Esses padrões refletem as assimetrias das redes formativas e de acesso ao prestígio discutidas anteriormente, indicando que as hierarquias temáticas também são atravessadas por dinâmicas de gênero.

O ano de doutoramento evidencia tendências geracionais: docentes mais jovens envolvem-se mais com Direito, Administração Pública e Relações Internacionais, indicando o avanço de agendas voltadas à governança, regulação e políticas públicas, que simbolizam tanto a expansão recente do campo quanto sua crescente interseção institucional.

Gráfico 6
Preditores da especialização temática da produção docente

Em síntese, a distribuição temática da Ciência Política brasileira segue fortemente condicionada por origens institucionais e trajetórias socioprofissionais, combinando continuidades históricas com novas formas de especialização e segmentação. Essa configuração complexa e hierarquizada fornece o pano de fundo para entender, na próxima seção, como esses diferenciais de posição e perfil se refletem nos padrões de impacto acadêmico.

Preditores institucionais do impacto acadêmico

Os resultados do Gráfico 7 revelam padrão consistente de hierarquização institucional e temática do impacto acadêmico, mesmo após controlar o tempo de carreira. O campo da Ciência Política no Brasil estruturou-se historicamente em torno de polos institucionais hierarquizados e redes formativas altamente concentradas (Forjaz, 1997; Leite, 2015; Marenco, 2014). O padrão confirma que os mecanismos de assimetria discutidos - concentração regional, segmentação institucional e assimetrias de gênero - não se restringem à composição do corpo docente, mas também moldam os retornos simbólicos e bibliométricos da produção científica.

Destacam-se os ganhos associados aos programas de Administração Pública, cujos coeficientes são positivos e significativos em todas as métricas, indicando ambiente mais favorável à visibilidade bibliométrica, que pode se dar devido ao forte incentivo a publicações internacionais dado pelas instituições associadas a esse tipo de programa. A consolidação do chamado Campo de Públicas ocorreu como um espaço institucional marcado por orientação aplicada e crescente inserção internacional da produção científica brasileira (Farah, 2018).

A qualidade institucional, medida pela nota CAPES, é um dos preditores mais robustos do impacto, sugerindo retroalimentação entre excelência avaliada e produtividade: programas melhor avaliados atraem docentes mais produtivos, cuja produção reforça sua posição hierárquica. A ciência brasileira apresenta forte concentração de recursos, prestígio e produtividade em um número restrito de centros acadêmicos consolidados (Sidone; Haddad; Mena-Chalco, 2016). A localização regional reitera as desigualdades estruturais da ciência brasileira: docentes do Nordeste e do Norte e, em menor medida, do Sul, exibem desempenho inferior nas seis métricas analisadas quando comparados aos do Sudeste, reflexo das históricas concentrações de recursos e infraestrutura acadêmica.

No plano individual, surgem diferenciais de prestígio e formação. Homens mantêm vantagem significativa em métricas cumulativas, sobretudo nas que privilegiam volume de produção, com destaque para a métrica i10, enquanto doutores formados nos EUA apresentam ganhos expressivos, especialmente em Citações/ano e h. A internacionalização, especialmente por meio da formação nos Estados Unidos, desempenhou papel central na constituição das elites acadêmicas da Ciência Política brasileira (Amorim, 2021; Forjaz, 1997).

O sexo do orientador não apresentou efeito consistente, sugerindo que parte do capital simbólico das redes de mentoria tende a se diluir quando controlados outros fatores estruturais. As redes de orientação constituem um mecanismo relevante na reprodução das hierarquias acadêmicas da disciplina (Marenco, 2014; Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019), o que indica que seus efeitos podem manifestar-se de forma indireta, por meio do acesso desigual a posições institucionais de maior prestígio.

O ano de titulação associa-se negativamente às métricas cumulativas, refletindo, como esperado, a menor produção acumulada nas coortes mais jovens. O achado reforça a importância do controle temporal, pois, mesmo após sua inclusão, o ano de titulação segue influenciando significativamente o desempenho acadêmico por fatores além do mero acúmulo de produção.

Os efeitos temáticos confirmam a segmentação do campo. Saúde e Meio Ambiente concentram os maiores incrementos em todas as métricas, coerentes com o padrão das ciências da saúde ligado a produções mais sintéticas e a um maior volume. Destacam-se também Administração e Gestão Pública e Comportamento e Instituições, reforçando a vantagem de agendas empíricas e de maior inserção internacional. Agendas empírico-institucionalistas e de políticas públicas ocupam posição central na organização temática da Ciência Política brasileira (Braga, 2023; Leite, 2017; Sainz et al., 2024).

Em síntese, três eixos estruturam o impacto:

  1. o capital institucional, expresso pelo tipo, nota CAPES e localização do programa;

  2. perfil individual, sobretudo gênero e formação no exterior; e

  3. a especialização temática, que favorece linhas aplicadas e empíricas.

Esses eixos refletem a centralidade de alguns polos formadores, a hierarquização institucional e a segmentação temática que caracterizam a estrutura histórica do campo disciplinar (Forjaz, 1997; Leite, 2015; Marenco, 2014). As métricas quinquenais repetem o padrão, indicando que tais desigualdades resultam não só da senioridade, mas de diferenciais estruturais de produtividade e inserção que persistem no curto prazo.

Gráfico 7
Preditores institucionais, individuais e temáticos do impacto acadêmico

A análise dos modelos lineares aplicados à amostra pareada entre homens e mulheres parecidos revela um quadro mais complexo do que aquele frequentemente descrito pela literatura sobre desigualdades de gênero na academia (Gráfico 8). Diferentemente da expectativa amplamente difundida de que mulheres apresentariam impacto sistematicamente inferior, os resultados indicam que, quando comparados em condições institucionais, formativas e temáticas equivalentes, a maioria das diferenças é significativamente mitigada, e as que persistem concentram-se em indicadores especialmente sensíveis às pressões por produtividade contínua.

Após o pareamento por tipo e região do programa, nota CAPES, país e ano de obtenção do doutorado, sexo do orientador e especialização temática, as diferenças estatisticamente significativas concentram-se em apenas três métricas: Citações/ano (+16,25; p = 0,019), i10/ano (+0,25; p = 0,006) e i10/ano nos últimos cinco anos (+2,32; p = 0,046). Nos demais indicadores, especificamente Cit/ano nos últimos cinco anos, h-index e h-index nos últimos 5 anos, as diferenças não atingem significância estatística, embora os coeficientes permaneçam positivos para os homens.

Esses resultados indicam que as mulheres não apresentam desempenho inferior em impacto acumulado, mas que as assimetrias se manifestam sobretudo nas dimensões associadas ao acumulo de produções, justamente aquelas que tendem a penalizar quem enfrenta sobrecargas externas, como a dupla jornada e a distribuição desigual das tarefas de cuidado. Desigualdades de gênero na ciência decorrem menos de diferenças de desempenho e mais de condições estruturais desiguais de produção e progressão na carreira acadêmica (Almeida; Hollanda, 2020; Rocha-Carpiuc; Madeira, 2019).

Gráfico 8
Efeito padronizado de ser mulher sobre métricas de impacto acadêmico

Esses resultados desafiam uma premissa quase indiscutível de que mulheres teriam menos impacto acadêmico. Quando o campo se encontra institucionalmente equilibrado, as diferenças deixam de ser estatisticamente robustas. Contudo, nos indicadores que exigem ritmo contínuo de publicação, especialmente o índice i10, que é altamente sensível ao volume de publicações e à autocitação e não distingue muito entre trabalhos de alto e médio impacto, as desvantagens femininas reaparecem, refletindo não apenas restrições de tempo, mas também provavelmente dinâmicas de reconhecimento e acesso desigual a redes de coautoria e visibilidade internacional. Como observa Fox e Nikivincze (2021), a academia permanece estruturada em torno de um “modelo de produtividade masculina”, que pressupõe dedicação exclusiva e ignora a diversidade das trajetórias profissionais e familiares.

A análise do Gráfico 9 indica que a assimetria de gênero se concentra nas posições institucionais de maior prestígio, ocupadas com maior frequência por homens. Esse padrão sugere que métricas frequentemente associadas ao “mérito” acadêmico refletem, em parte considerável, desigualdades na distribuição de oportunidades institucionais. Além disso, a homofilia observada nas redes de orientação contribui para reforçar circuitos de prestígio predominantemente masculinos, reproduzindo hierarquias já consolidadas no campo disciplinar (Candido, 2023; Candido; Feres Júnior; Campos, 2019; Marenco, 2014; Sarmento; Rezende; Santos Júnior, 2019).

Gráfico 9
Preditores institucionais, formativos e temáticos da probabilidade de exclusão no pareamento (“privilégio masculino”)

No contexto da Ciência Política brasileira, esses resultados convergem com a tese central do artigo: a expansão e diversificação do campo não produziram uma ruptura efetiva com seus mecanismos históricos de hierarquização. O mérito segue sendo avaliado por métricas que muitas vezes privilegiam perfis de dedicação integral, ainda predominantemente masculinos, e discursos seguem sendo difundidos como verdades sem o devido respaldo empírico.

Apesar da expansão institucional recente, os mecanismos históricos de concentração e reprodução de elites continuam a estruturar o reconhecimento acadêmico na área (Forjaz, 1997; Leite, 2015; Marenco, 2014). O pareamento, ao eliminar vieses de composição, evidencia que a desigualdade de gênero não reside no desempenho em si, mas na forma como o campo valoriza e recompensa determinados padrões de carreira e produtividade.

Considerações finais

Este artigo investigou quem compõe a Ciência Política no Brasil contemporâneo e em que medida os arranjos institucionais do campo continuam a moldar seus mecanismos de concentração e hierarquização. Com o objetivo de examinar como distintas posições institucionais se relacionam com padrões de reconhecimento acadêmico, especialmente no que se refere às assimetrias de gênero, o estudo reuniu uma base inédita de 946 docentes da pós-graduação, construída a partir das plataformas Lattes e Google Scholar. A combinação de análises descritivas, modelagem de tópicos e regressões com pareamento possibilitou examinar como gênero, região, tipo de programa e trajetória formativa se articulam na definição do prestígio acadêmico.

Os resultados indicam que a expansão da área não foi suficiente para eliminar assimetrias estruturais (Forjaz, 1997; Leite, 2015, 2016a; Marenco, 2014). A reprodução das elites acadêmicas permanece concentrada em poucos polos formadores, sustentada por redes de orientação que reforçam a endogenia e a exclusividade institucional. Persistem também assimetrias regionais e de gênero (Almeida; Hollanda, 2020; Candido, 2023), evidenciando uma distribuição desigual de capital simbólico e de visibilidade no campo.

Parte dessas assimetrias decorre das redes de orientação, historicamente dominadas por homens, que reproduzem circuitos de prestígio predominantemente masculinos. Embora a participação feminina tenha crescido, a formação de novas linhagens acadêmicas é gradual. Outro dado relevante não avaliado nesse artigo, mas evidenciado pela literatura, é um segundo corte interseccional que evidencia a persistência também da sub-representação de pesquisadores não brancos nas posições de maior prestígio (Candido; Feres Júnior; Campos, 2019).

A análise pareada entre homens e mulheres revela um quadro interpretativo mais complexo. Quando controladas as condições institucionais, formativas e temáticas, as diferenças de impacto tornam-se amplamente mitigadas, exceto nas métricas mais sensíveis ao volume de produção, como o índice i10. Esse resultado indica que as desigualdades de gênero não decorrem de menor desempenho, mas das próprias regras de avaliação, que favorecem ritmos contínuos de publicação e dedicação exclusiva, condições menos acessíveis às mulheres devido, sobretudo, à sobrecarga de trabalho e às responsabilidades de cuidado. Ademais, análises complementares mostram que o principal fator associado à assimetria de gênero não reside em características individuais, mas na desigualdade de acesso a posições em programas de maior prestígio no campo (Gráfico 9).

Esses resultados desafiam a noção de que as mulheres impactam menos. Quando as condições são equiparadas, boa parte das diferenças deixam de ser significativas, concentrando-se nos indicadores ligados a volume. Dessa forma, o sistema de consagração baseado em métricas cumulativas tende a reproduzir desigualdades sob a aparência de neutralidade. Ainda assim, há sinais de mudança: o avanço feminino, a interiorização da pós-graduação e o fortalecimento de eixos interdisciplinares indicam crescente diversificação. A equivalência de desempenho em contextos equilibrados reforça que a desigualdade é contingente e, portanto, pode ser atacada. A coexistência entre herança e renovação revela um campo em transição, que ainda carrega traços de origem, mas se mostra mais reflexivo e receptivo a novas concepções de excelência.

Embora apresente um retrato abrangente e inédito do campo, este estudo possui limitações que merecem reconhecimento. A principal delas é a ausência de dados sobre raça, variável autodeclarada e praticamente inexistente na maioria dos currículos Lattes, o que impossibilita explorar uma dimensão central das desigualdades acadêmicas, amplamente documentada em estudos recentes sobre a composição racial da elite da disciplina no Brasil (Campos; Candido, 2023; Candido; Feres Júnior; Campos, 2019; Ribeiro, 2019). A seleção dos programas baseou-se em critérios teórico-históricos específicos (Farah, 2016; Forjaz, 1997; Leite, 2016a), coerentes com a literatura, embora outras configurações institucionais pudessem gerar resultados distintos. O uso do Google Scholar, ainda que sujeito a vieses de cobertura, mostrou-se o mais apropriado para contextos periféricos, dada sua sensibilidade à produção em português e a aplicação uniforme dos critérios (Harzing; Alakangas, 2016; Martín-Martín et al., 2018), mas outras abordagens podem ser exploradas. Não foram incluídas as redes de coautoria e publicações, cuja análise poderia aprofundar a compreensão das dinâmicas de colaboração e circulação de prestígio (Marenco, 2014). Outro limite decorre do uso das autodescrições de áreas no Lattes, que expressam percepções de pertencimento mais do que o conteúdo efetivo das produções. Por fim, a data de conclusão do doutorado foi empregada como proxy de trajetória, métrica imperfeita, mas suficiente para captar efeitos geracionais.

Essas limitações apontam caminhos promissores para pesquisas futuras. A incorporação de variáveis raciais é fundamental para compreender as desigualdades interseccionais que estruturam a academia brasileira. A análise das redes de coautoria pode revelar os mecanismos de colaboração e circulação de prestígio entre subcampos e gerações, enquanto a comparação entre as autodeclarações do Lattes e o conteúdo efetivo das produções permitiria testar a robustez dos resultados com diferentes bases bibliométricas. O uso de técnicas de aprendizado de máquina, por sua vez, tende a aumentar a precisão na análise textual e pode refinar o mapeamento dos vínculos entre pesquisadores, instituições e áreas de atuação e deverá ser aplicado em trabalhos futuros por esse autor. Por fim, estudos longitudinais centrados nas trajetórias de formação e impacto podem capturar dinâmicas de mobilidade e mudança geracional, contribuindo para uma agenda capaz de acompanhar a evolução e a diversificação da Ciência Política brasileira.

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os conjuntos de dados gerados e analisados durante o presente estudo estão disponíveis no: https://github.com/lucasamorimcp/caraCPBrasil
  • Declaração de uso de IA
    1. Nome e versão da ferramenta de IA utilizada: ChatGPT 5.3;

    2. Data e horário das consultas: realizadas em diferentes momentos ao longo dos meses de setembro e outubro de 2025;

    3. Finalidade de uso: a ferramenta foi empregada predominantemente para aprimoramento da redação, com foco em correções gramaticais, ajustes de concordância e redução de repetições lexicais. Adicionalmente, foram realizadas consultas pontuais mediante a inserção de trechos de código próprios, com o objetivo de obter sugestões voltadas ao aprimoramento da visualização e do estilo de gráficos em padrão adequado à publicação científica. A ferramenta não foi utilizada para análise de dados ou geração de resultados;

    4. Escopo da revisão: o texto completo foi revisado por IA de forma incremental ao longo do processo de elaboração do artigo, em diferentes etapas de sua redação, para as finalidades descritas no item (c);

    5. Responsabilidade autoral: todas as decisões analíticas, interpretações substantivas, escolhas metodológicas e conclusões apresentadas no manuscrito são de inteira responsabilidade do autor, não tendo a ferramenta de IA contribuído para análises, julgamentos críticos ou decisões de natureza acadêmica.

Editado por

  • Editoras
    Debora Rezende de Almeida
    Rebecca Neaera Abers

Disponibilidade de dados

Os conjuntos de dados gerados e analisados durante o presente estudo estão disponíveis no: https://github.com/lucasamorimcp/caraCPBrasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Nov 2025
  • Aceito
    19 Mar 2026
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