RESUMO
O objetivo do estudo foi investigar a trajetória esportiva de atletas destaques do handebol que continuaram jogando da categoria infantil até a adulta e analisar a influência dos agentes sociais no processo de permanência no esporte. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com análise documental e entrevistas com seis atletas destaques no Paraná entre 2013-2019. A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo. Identificamos que o apoio da família foi essencial para a entrada, continuidade e transições, juntamente com os treinadores, que foram cruciais para a continuidade no esporte e a melhoria do desempenho, e os vínculos com colegas e o reconhecimento do desempenho foram fatores determinantes nas trajetórias esportivas dos atletas destaques no handebol.
Palavras-chave:
Esporte; Agentes sociais; Handebol; Desenvolvimento do atleta
ABSTRACT
This study aimed to investigate the sports trajectory of standout handball athletes who continued playing from youth to adulthood and to analyse the influence of social agents on their retention in sport. It is a qualitative study, based on document analysis and interviews with six athletes from Paraná (2013–2019). Data were analysed using content analysis. Results indicate that family support was essential for entry, continuity, and transitions in sport. Coaches played a key role in performance and retention. Peer bonds and recognition of performance were also decisive in shaping athletes’ sporting paths.
Keywords:
Sport; Social agents; Handball; Athlete development
RESUMEN
El objetivo del estudio fue investigar la trayectoria deportiva de atletas destacados de balonmano que siguieron compitiendo desde la categoría infantil hasta la adulta y analizar la influencia de agentes sociales en la permanencia en el deporte. Se trata de una investigación cualitativa, con análisis documental y entrevistas a seis atletas de Paraná entre 2013 y 2019. El análisis de datos se realizó mediante análisis de contenido. Los resultados indican que el apoyo familiar fue esencial para la entrada, continuidad y transiciones, así como la actuación de los entrenadores, fundamentales para el rendimiento y permanencia. Los vínculos con compañeros y el reconocimiento también fueron determinantes.
Palabras-clave:
Deporte; Agentes sociales; Balonmano; Desarrollo del atleta
INTRODUÇÃO
Os fatores sociais abrangem uma variedade de elementos que surgem das interações entre duas ou mais pessoas, cujas relações podem influenciar indivíduos ou comunidades (Rosa, 2004; Sampaio e Andery, 2010). Ao envolver jovens no esporte, é essencial considerar os fatores que influenciam as trajetórias dos atletas a partir de uma perspectiva multidimensional, que inclui três elementos básicos: a participação em atividades (treinos e jogos), a criação de vínculos (interação entre pessoas) e um ambiente específico e adequado para o desenvolvimento esportivo. A interação entre esses elementos influencia a experiência esportiva, com consequências a longo prazo (Wylleman et al., 2004; Fraser-Thomas et al., 2008; Ford et al., 2011).
Estudos recentes sobre jovens atletas de handebol, basquete e voleibol brasileiros indicam que o suporte social - especialmente aquele oferecido por familiares, treinadores e colegas - exerce influência significativa na trajetória esportiva, variando conforme a etapa de desenvolvimento (Lima et al., 2023; Maciel et al., 2025; Santos Mendes et al., 2017). Esses estudos mostram que o papel dos familiares é predominante nas fases iniciais, enquanto treinadores e pares ganham maior relevância a partir da adolescência.
Fatores pessoais e relacionais, como o tipo de vínculo estabelecido entre atletas, técnicos, familiares e o próprio ambiente de prática, são determinantes para o envolvimento, permanência, motivação e suporte ao longo da formação esportiva (Lima et al., 2023; Wylleman et al., 2004). Esses elementos impactam diretamente o início, a continuidade ou o abandono da prática (Hancock e Côté, 2014), influenciando o treinamento, as transições e as dinâmicas sociais vivenciadas no cotidiano esportivo (Beneli, 2018).
Inicialmente, a família desempenha um papel fundamental no processo de engajamento no esporte, atuando como um agente chave ao incentivar a participação do indivíduo no processo de desenvolvimento esportivo (Mendonça et al., 2009; Dias, 2015; Lima, 2018; Andres e Goellner, 2018). Outra contribuição significativa está relacionada ao suporte financeiro, onde a família cobre as despesas que surgem ao longo da trajetória esportiva do atleta (Dias, 2015). Também são cruciais no fornecimento de suporte psicológico durante momentos críticos, como períodos de desmotivação ou lesão (Dias, 2015).
O treinador também é um elemento essencial no processo de desenvolvimento esportivo. Geralmente responsável pelo desenvolvimento do treinamento físico, técnico e tático (Brandão e Carchan, 2010), além de motivar e analisar o progresso atlético dos atletas (Sarrazin et al., 2002). O perfil do treinador e a forma como ele interage com o atleta são vistos como determinantes para o futuro do atleta, pois uma interação que promove autonomia torna a prática esportiva mais prazerosa e leve, o que tende a motivar os atletas a permanecerem no esporte (Brandão e Carchan, 2010).
Durante o processo de treinamento, é comum que treinadores depositem maiores expectativas em atletas considerados talentosos, oferecendo-lhes mais atenção, orientações e tempo de jogo. Esse favorecimento, aliado às ações e expectativas de pais e técnicos, influencia diretamente a motivação dos jovens atletas, afetando sua permanência ou abandono da modalidade. Tais atitudes moldam as percepções dos próprios atletas sobre suas capacidades e oportunidades no esporte, caracterizando o chamado Efeito Pigmalião (Krahenbühl e Leonardo, 2020; Joch, 2005; Hancock et al., 2013; Lemez et al., 2014).
Portanto, compreender as condições que podem favorecer o crescimento individual do atleta e influenciar sua trajetória e carreira esportiva, especialmente fatores relacionados ao modelo bioecológico, tem ganhado relevância significativa na literatura atual devido ao reconhecimento de que o desenvolvimento e o desempenho do atleta são influenciados por uma variedade de fatores além das habilidades físicas e técnicas (Souza et al., 2022).
Este estudo está ancorado na perspectiva do modelo bioecológico do desenvolvimento humano, que compreende o desenvolvimento como resultado das interações progressivamente mais complexas entre o indivíduo e os múltiplos sistemas que compõem seu ambiente. Tais sistemas são organizados em níveis concêntricos - microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema - que se inter-relacionam de maneira dinâmica ao longo do tempo, conforme aprofundado na noção de cronosistema (Bronfenbrenner e Morris, 2006).
No entanto, reconhecendo que este artigo deriva de uma pesquisa mais ampla, optamos por apresentar um recorte específico centrado no microssistema, nível que diz respeito às relações interpessoais diretas estabelecidas pelos jovens atletas com seus principais agentes sociais, como familiares, treinadores e colegas. Essa delimitação analítica encontra respaldo na literatura que identifica o microssistema como o espaço primário de desenvolvimento e socialização de crianças e adolescentes (Bronfenbrenner e Morris, 2006; Elder et al., 2024), especialmente em contextos esportivos marcados por vínculos afetivos e práticas cotidianas de convivência. Ao focar no microssistema, estudos com atletas das categorias de base evidenciam que a qualidade das relações imediatas — como apoio emocional, informacional e tangível — pode diferenciar trajetórias esportivas promissoras daquelas marcadas por abandono precoce (Maciel et al., 2025; Santos Mendes et al., 2017). Assim, embora o modelo bioecológico informe teoricamente o desenho mais amplo da pesquisa, o foco deste artigo é compreender como as experiências vividas nos ambientes de interação imediata contribuem para a permanência de jovens atletas de destaque na trajetória esportiva.
Apesar do crescente número de estudos sobre suporte social na formação esportiva, a maioria das investigações utiliza métodos quantitativos e concentra-se em esportes de maior visibilidade, como futebol, vôlei e basquete (Maciel et al., 2021). A revisão sistemática desses autores aponta a escassez de abordagens qualitativas centradas na escuta dos próprios atletas, sobretudo em contextos regionais menos explorados.
Além disso, o handebol permanece relativamente marginalizado nas agendas de pesquisa sobre socialização esportiva, especialmente no que se refere às trajetórias de atletas de destaque que se mantêm ativos no esporte competitivo ao longo do tempo. Estudos anteriores com atletas de voleibol e basquetebol (Santos Mendes et al., 2017; Maciel et al., 2025) apontam a importância das interações sociais como fator decisivo para a permanência ou abandono da prática esportiva, mas ainda são escassos os trabalhos que exploram essas dinâmicas no handebol sob uma abordagem compreensiva e situada.
A trajetória esportiva dos atletas é marcada por subjetividades, e compreender o impacto das interações sociais em sua permanência no esporte permite reflexões importantes para aprimorar a gestão esportiva e fortalecer o suporte oferecido aos jovens talentos. Com base nisso, este estudo tem como objetivo investigar a trajetória esportiva dos atletas destaques que permaneceram jogando da categoria de base até a categoria adulta, especificamente, analisar a influência dos agentes sociais na retenção de atletas de destaque no handebol, buscando compreender o papel da família, dos treinadores e dos vínculos entre pares na trajetória esportiva de jovens atletas de handebol.
MÉTODOS
Este é um estudo qualitativo, descritivo e exploratório (Yin, 2016; Gil, 2008), que busca compreender as condições de vida dos participantes a partir de fatores contextuais, sociais, institucionais e ambientais. Baseia-se na observação, registro e descrição de um fenômeno específico relacionado ao problema investigado. Além disso, possui caráter retrospectivo, ao analisar eventos passados até um ponto de interesse definido no presente (Gil, 2008).
Iniciamos com uma pesquisa documental (Marconi e Lakatos, 2017) dividida em duas fases: uma quantitativa e outra qualitativa. Para a fase quantitativa deste estudo, acessamos o site oficial da Liga de Handebol do Paraná (LHPR) e coletamos dados de 936 relatórios de partidas, 40 rankings de destaques (SR) e 40 rankings de artilheiros (TSR) do Campeonato Estadual de Handebol do Paraná para as categorias sub-14, sub-16 e sub-18, tanto masculino quanto feminino, entre os anos de 2013 e 2019.
Para compor a amostra qualitativa, foram incluídos atletas de ambos os sexos que se destacaram no Campeonato Paranaense de Handebol entre 2013 e 2019; ocuparam as 13 primeiras colocações no RD (ranking de destaque) ao menos uma vez em cada categoria de base (sub-14, sub-16 e sub-18); realizaram a transição da categoria sub-18 para a categoria adulta; permanecem em atividade na categoria adulta, no Brasil ou exterior até a data de coleta de dados desse estudo.
Com base nos resultados apresentados na fase quantitativa e para conhecer o processo de continuidade no esporte entre os atletas destaques, identificamos 19 atletas que atenderam aos critérios do nosso estudo, sendo 11 homens e oito mulheres. No entanto, desse grupo, seis atletas (três homens e três mulheres) haviam abandonado o esporte, e três atletas (dois homens e uma mulher) não puderam ser localizados. Dez atletas ativos no esporte foram convidados a participar do estudo, mas quatro atletas (três homens e uma mulher) recusaram-se a participar. No final, seis atletas foram incluídos e participaram do estudo. Assim, a seleção da amostra foi intencional, com base nos perfis dos participantes, visando analisar o fenômeno em profundidade (Fontanella et al., 2008).
A Figura 1 representa o processo de seleção da amostra.
No total, a entrevista semiestruturada consistiu em 37 questões, das quais cerca de dez estavam relacionadas ao ambiente e aos agentes sociais (família, treinadores e amigos). As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas para análise dos dados. Ressaltamos que o questionário foi estruturado por meio de quatro blocos de questões, sendo eles: a) caracterização; b) agentes sociais e ambiente; c) desempenho esportivo; d) aspirações e transições.
A construção do roteiro foi orientada pela literatura sobre socialização esportiva e desenvolvimento de talentos, especialmente no que tange ao suporte social e aos fatores psicossociais associados à trajetória esportiva. O roteiro passou por um processo de validação de conteúdo com dois especialistas da área da Pedagogia do Esporte, que avaliaram a clareza, pertinência e coerência dos itens com os objetivos do estudo. Posteriormente, foi conduzido um estudo piloto com dois atletas com perfil semelhante ao da amostra principal, o que possibilitou ajustes na redação e organização das perguntas.
Os(as) voluntários(as) que aderiram à proposta agendaram uma entrevista semiestruturada, que ocorreu via Google Meet após o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE. Esta pesquisa faz parte de um projeto integrado aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Goiás, CAAE n° 99590718.9.0000.5083, número do parecer: 3.007.424.
As entrevistas foram realizadas gravadas com autorização dos participantes e, posteriormente, transcritas integralmente pelo primeiro autor, sem o uso de softwares automáticos. O tempo médio de cada entrevista foi de 50 minutos. Após a realização das entrevistas, foram mantidos contatos pontuais via aplicativo WhatsApp para esclarecimento de dúvidas e complementação de informações, sempre respeitando os princípios éticos de confidencialidade e consentimento. As transcrições foram então devolvidas aos respectivos participantes para validação dos conteúdos, garantindo a fidelidade das informações e o respeito aos sentidos atribuídos pelos atletas às suas narrativas.
A análise das entrevistas foi realizada por dois pesquisadores por meio da análise de conteúdo, seguindo três etapas principais: a) estabelecimento de uma pré-exploração do material; b) codificação e categorização do material; c) interpretação dos dados obtidos (Bardin, 2011). Na etapa de categorização, optamos por atribuir uma etiqueta para cada pergunta do questionário, deste modo, cada etiqueta se tornou uma categoria. Ao todo, foram 36 etiquetas oriundas das próprias questões e quatro etiquetas surgiram posteriormente através dos discursos dos atletas. A ideia em seguir está dinâmica se baseou na intenção dos pesquisadores em explorarem cada discurso de maneira aprofundada. Após agruparmos os dados que apresentaram maior frequência e relevância, finalizamos a nossa análise por meio de interpretações e inferências.
Assim, a categorização dos dados seguiu uma abordagem mista, combinando procedimentos dedutivos e indutivos (Bardin, 2011). Inicialmente, algumas categorias foram previamente orientadas pelos eixos temáticos do roteiro de entrevista (família, treinadores e colegas), configurando uma delimitação teórica inicial. Contudo, ao longo do processo analítico, novas regularidades emergiram a partir da leitura exaustiva do material, o que permitiu refinar e aprofundar as categorias com base nos dados empíricos. Essa combinação de referenciais prévios e emergência de sentidos possibilitou uma análise mais sensível às especificidades das trajetórias narradas pelos participantes.
Consideramos que a amostra e o volume de informações obtidas foram suficientes para responder aos objetivos do estudo, uma vez que os dados revelaram recorrências e regularidades nas falas dos participantes. Assim, adotamos o critério de saturação informacional, conforme sugerido por Fontanella et al. (2008), entendendo que novos participantes provavelmente não trariam informações substancialmente distintas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os fatores sociais abrangem uma ampla gama de elementos resultantes das interações entre uma ou mais pessoas, cujas interações podem impactar indivíduos ou comunidades. Nesse contexto, exploramos o incentivo inicial para ingressar no esporte, as pessoas importantes ao longo da trajetória esportiva, o papel do apoio familiar e as dinâmicas interpessoais entre treinador e atleta, bem como entre o atleta e seus pares. Também abordamos questões relacionadas à percepção do desempenho por parte da família, do treinador e de outros indivíduos, além dos efeitos sociais manifestados.
A análise dos relatos revelou a manifestação de três efeitos (sociais e psicossociais) clássicos no contexto esportivo: o Efeito Matheus, e os de profecia autorrealizável - os efeitos Pigmalião e Galatéia. O Efeito Pigmalião, conforme descrito por Rosenthal e Jacobson (1968), refere-se à influência das expectativas de figuras de autoridade — como treinadores ou familiares — sobre o desempenho de um indivíduo. Quando um agente social demonstra acreditar no potencial de um atleta, este tende a internalizar essas expectativas, o que pode resultar em melhor desempenho. Já o Efeito Galatéia está relacionado à autopercepção: ocorre quando o próprio atleta desenvolve crenças positivas sobre sua capacidade, o que afeta diretamente sua motivação e rendimento (Hancock et al., 2013). Por fim, o Efeito Mateus, inspirado na parábola bíblica e amplamente debatido nas ciências do esporte, indica que atletas percebidos como mais talentosos costumam receber mais oportunidades, atenção e reconhecimento — o que acentua desigualdades iniciais de desempenho e potencializa ainda mais as vantagens dos considerados “destaques” (Hancock et al., 2013).
Essa perspectiva está alinhada com o paradigma sociocultural que postula que as escolhas comportamentais de um indivíduo são impactadas pela interação dinâmica entre uma rede complexa de fatores individuais, sociais e ambientais em vários níveis (intrapessoal, interpessoal, organizacional/institucional, comunitário e político). Nesse caso, o nível interpessoal inclui as redes sociais formais e informais do indivíduo e os sistemas de suporte social, incluindo família, colegas e o treinador (Elder et al., 2024). Diante do exposto, e para abordar um de nossos objetivos específicos, desenvolvemos três grandes categorias denominadas “Família”, “Treinadores” e “Relação com Equipes e Amigos”.
A Figura 2 apresenta a rede de interações sociais que influenciaram a permanência de atletas de handebol destacados(as) do Paraná entre as categorias infantil e adulta, organizadas em torno do incentivo inicial recebido. No diagrama, cada círculo preto representa um(a) atleta participante (Atena, Apolo, Afrodite, Hermes, Dionísio e Hera), enquanto as setas e linhas tracejadas indicam as conexões estabelecidas com diferentes agentes e fatores de influência. O conjunto da figura ilustra como vínculos positivos com familiares, treinadores e colegas, aliados ao reconhecimento do desempenho, configuraram-se como elementos centrais nas trajetórias de continuidade esportiva desses atletas.
Rede de interações sociais e percepções de apoio que influenciaram a permanência de atletas de handebol destacados(as) do Paraná. Fonte: Os autores.
Família
Nossas análises mostram que, em relação ao incentivo inicial para ingressar no esporte, a família desempenhou um papel fundamental no envolvimento dos atletas em atividades esportivas. Apolo e Afrodite mencionaram que sua iniciação no esporte ocorreu exclusivamente por meio do incentivo familiar. Atena, Hermes e Hera também mencionaram suas famílias, mas acrescentaram o envolvimento do treinador.
Cara, minha família sempre foi muito envolvida com esportes, especialmente handebol. Meu pai jogou desde muito jovem [...]. E então, ele começou sua carreira como treinador muito jovem, por volta dos 19/21 anos, mais ou menos, ele estava entrando no mundo do treinamento. [...] Do lado da família do meu pai, seu irmão, meu tio, também jogou, e do lado da minha mãe, tenho dois tios que, sabe, jogavam por diversão, sabe? Eles não seguiram carreira ou algo assim, mas tiveram contato com o esporte, sabiam o que era esporte (Apolo).
Em termos gerais, a ação da família desempenha um papel decisivo no processo de integração ao esporte, confirmando os argumentos apresentados na literatura (Mendonça et al., 2009; Dias, 2015; Lima, 2018; Andres e Goellner, 2018; Lima et al., 2023). O testemunho de Apolo destaca a influência de uma história familiar no esporte, mencionando que seu pai e alguns tios também foram atletas. Strandbu, Bakken e Stefansen (2020) demonstram a importância da cultura esportiva familiar para a participação esportiva durante a adolescência, concluindo que essa presença familiar pode aumentar as expectativas de envolvimento dos jovens.
Os pais, por meio de seus comportamentos e crenças, estão entre os principais agentes que influenciam a participação esportiva de seus filhos, pois geralmente fornecem a principal estrutura de suporte para as decisões na trajetória esportiva de um jovem atleta (Elder et al., 2024), especialmente durante a infância e a adolescência, o que pode ter impactos variados nos resultados de desenvolvimento dos jovens atletas (Telzer et al., 2018). Nesse sentido, investigar como os comportamentos dos pais estão associados aos resultados e à continuidade dos jovens atletas em diferentes níveis esportivos é relevante para compreender quais relações são centrais para esse envolvimento, com ênfase em sua influência no desenvolvimento psicossocial dos jovens durante sua trajetória esportiva (Domingues e Gonçalves, 2013; Holt et al., 2008).
Em nosso estudo, os atletas foram questionados sobre o envolvimento e o apoio da família, e, unanimamente, todos afirmaram que receberam total apoio.
Minha família não tem conexão com esportes, nunca teve, nenhum dos meus antecessores, mas não vou negar que tudo isso só foi possível por causa deles. Não que minha família tenha um padrão de vida excepcional, mas eles nunca deixaram de apoiar minhas decisões, sabe? [...]. Eles sempre me apoiaram. Eles nunca deixaram de me apoiar em nenhum momento, e cara, isso é a coisa mais importante, sabe? Eu sei que muitas pessoas acabam desistindo porque não têm esse apoio em casa, mas foi fundamental para mim (Dionísio).
Os pais frequentemente fornecem a principal estrutura de suporte para as decisões de um jovem atleta em relação à participação esportiva (Elder et al., 2024). O envolvimento da família tem sido reconhecido como um fator essencial na construção de uma trajetória esportiva bem-sucedida, devido à sua capacidade de oferecer incentivo e suporte para a continuidade da participação esportiva (Andres e Goellner, 2018; Lima et al., 2023). Durante as entrevistas, todos os participantes enfatizaram que só conseguiram alcançar seus objetivos graças ao apoio da família. Mesmo durante as transições e mudanças de cidade, todos os familiares acreditaram e apoiaram seus filhos e filhas.
Um aspecto interessante do relato de Apolo é a semelhança entre sua trajetória esportiva e a de seu irmão, que é jogador de handebol em um clube europeu de destaque e membro da Seleção Brasileira. Ambos se destacaram no Paraná, mudaram-se para São Paulo para jogar pelo time do Pinheiros e posteriormente foram transferidos para a Europa (Apolo no momento da entrevista atuava na França).
O apoio da família pode estar relacionado ao sucesso e destaque do atleta, embora esse contexto dependa de vários fatores (Andres e Goellner, 2018). Em muitos casos, à medida que o atleta se destaca e alcança sucesso no esporte, a família tende a intensificar seu apoio, seja pela compreensão do potencial do filho, seja pelas expectativas depositadas nele.
Ao questionar os atletas sobre as pessoas importantes em suas trajetórias esportivas, Atena, Apolo, Hermes, Hera e Afrodite destacaram o treinador como uma figura central, no entanto, Apolo, Hera e Afrodite também mencionaram a família como um elemento significativo ao longo de suas carreiras esportivas.
[...] meu pai, minha mãe e minha prima - minha prima também atuou como uma mediadora, e tenho muito orgulho dela porque ela ainda está forte em sua carreira profissional (Afrodite).
Observamos que o reconhecimento da família como uma figura significativa está ligado à segunda investigação, na qual todos os atletas mencionaram o comprometimento e o apoio de suas famílias. Outro aspecto intrigante é a perspectiva da família sobre o desempenho individual dos atletas. Nesse contexto, notamos que todos os pais expressaram admiração e orgulho pelas habilidades de seus filhos na quadra.
Cara... Nós nunca realmente conversamos muito sobre isso na quadra, principalmente porque meu pai nunca foi alguém que facilmente cedesse, sabe? Sim, ele me parabenizava, assim como também me pressionava bastante porque ele entendia o jogo. Então, em casa, eu sempre recebia mais dicas e opiniões do que elogios ou críticas, sabe? 'Você pode fazer isso, e vai dar nisso, ou você pode fazer aquilo, e vai dar naquilo.' É uma pergunta difícil, eu nunca parei para pensar sobre isso dessa forma, mas talvez no fundo, eu via e sentia que ele sabia que eu estava um pouco acima da média, e isso ficou evidente com o tempo porque, no final das competições, eu sempre estava entre os artilheiros, entre os destaques. Então, acho que não era tanto sobre eles dizerem isso, mas eu sentia muito (Apolo).
É algo que ninguém esperava, certo? Nem eu, porque foi algo que simplesmente aconteceu do nada; eu apenas comecei a praticar o esporte. E com isso, comecei a me destacar, e é algo de que todos têm orgulho, algo que ninguém da família realmente esperava (Hera).
Apolo, tendo familiares envolvidos no esporte, enfrentou uma situação em que seu pai oferecia mais sugestões do que elogios, o que está alinhado com as descobertas do estudo de Strandbu et al. (2020). Esses autores destacaram que esse tipo de interação é comum entre famílias conectadas ao esporte, ligada à presença de pressão normativa. O cerne dessa discussão está nos aspectos positivos e negativos dessa pressão; por um lado, ela pode aumentar a participação das crianças no esporte, mas, por outro, essa pressão excessiva, juntamente com as expectativas, pode levar o atleta a abandonar o esporte (Strandbu et al., 2020).
As dinâmicas familiares, marcadas por sugestões constantes, expectativas e reconhecimentos, refletem a complexidade das influências sociais no esporte. Como apontado por Maciel et al. (2021), a família exerce papel ambivalente na trajetória esportiva dos jovens, podendo atuar como promotora de suporte ou como fonte de pressão. Os autores destacam que o apoio familiar é essencial para o ingresso e permanência no esporte, mas que sua eficácia depende da forma como é percebido pelo atleta. Quando o envolvimento familiar ultrapassa os limites do incentivo e se transforma em cobrança normativa, pode gerar efeitos psicológicos adversos, como ansiedade, desmotivação ou até abandono esportivo. Assim, os relatos de Apolo, Atena e Afrodite ilustram como o apoio familiar, embora fundamental, precisa ser equilibrado para não comprometer o desenvolvimento esportivo e emocional dos jovens atletas.
Em relação às expectativas, por meio das respostas fornecidas, também observamos a manifestação de um efeito psicossocial importante, o Efeito Pigmalião. Atena e Afrodite enfatizaram que as percepções de suas famílias superaram as expectativas, reconhecendo um desempenho superior à realidade. Como destacado por Hancock et al. (2013), as expectativas impostas por agentes externos podem influenciar o comportamento do atleta na quadra. De fato, a predominância desse efeito é comumente associada às expectativas do treinador; no entanto, entre nossos participantes, as expectativas dos familiares também estavam presentes.
Eles são realmente meus maiores fãs; às vezes acho que eles até acreditam que eu sou mais do que realmente sou. Sempre ajudando muito (Atena).
Os pais desempenham um papel central e indispensável no desenvolvimento atlético dos filhos. Além do suporte emocional, os familiares formam a base de suporte financeiro e logístico necessária para a participação esportiva. Altos níveis de elogios e compreensão dos pais podem estar associados ao desenvolvimento de trajetórias promissoras em atletas de elite (Wuerth et al., 2004). Assim, o envolvimento ativo dos pais e irmãos cria um ambiente positivo que nutre a determinação e a motivação dos atletas, servindo como preparação essencial para lidar com os desafios inerentes a uma carreira esportiva.
De acordo com Mossman et al. (2021), o impacto dos principais influenciadores (pais, treinadores, colegas, amigos) varia à medida que os jovens atletas avançam na vida. A família se mostra como a primeira e principal influência social, mas com o início da adolescência, a influência dos colegas se torna mais significativa. No entanto, os treinadores desempenham um papel importante ao longo da adolescência, pois são responsáveis por estruturar o ambiente (Opstoel et al., 2020). Corroboram com os resultados encontrados na revisão de Maciel et al. (2021), ao evidenciar que os três principais agentes sociais (família, treinadores e colegas) exercem influências distintas e complementares na trajetória esportiva dos jovens atletas. A família, como agente mais abrangente, foi responsável por prover os três tipos de apoio (emocional, informativo e tangível), sendo essencial para o ingresso e permanência no esporte.
Nessa categoria observamos que a família é quem proporciona o incentivo inicial e estrutura para a participação esportiva. O reconhecimento dos familiares sobre o desempenho, bem como as expectativas depositadas sobre os atletas são fatores que aparecem relacionados com a auto expectativa dos atletas destaques desse estudo.
Treinadores
Todos os atletas participantes do estudo mencionaram a importância do treinador como uma pessoa chave no processo de iniciação esportiva e manutenção da participação no esporte. Dionísio mencionou que o convite para ingressar no projeto esportivo de sua cidade veio por meio de seu treinador. Da mesma forma, Atena, Hermes e Hera também destacaram a importância do treinador em fornecer esse acesso inicial ao esporte.
Foi o Professor quem me ensinou e foi meu treinador até os 17 anos. E meus pais sempre me apoiaram no esporte. Mas quem me ensinou lá, sempre me incentivou a ser atleta, foi o Professor (Hermes).
Muitos fatores são identificados como importantes para a participação sustentada e prazerosa dos jovens no esporte, incluindo a diversão, a oportunidade de jogar independentemente do nível de habilidade, as interações positivas com o treinador e a equipe, e ser recompensado por esforços significativos (Brooks et al., 2018). Como mencionado anteriormente, tanto os treinadores quanto a família têm a capacidade de fornecer o convite inicial para que os jovens atletas comecem no esporte.
Em relação às relações interpessoais com os treinadores, observamos que Apolo, Hermes, Hera, Dionísio e Afrodite relataram manter um bom relacionamento com seus treinadores.
Foi muito bom. [...] E ele trata os atletas como seus próprios filhos, até nos chama de 'filho', e nós o chamamos de 'pai', então foi um relacionamento muito próximo e muito bom (Hermes).
Então, sempre há algumas discussões, alguns mal-entendidos, certo? Porque é difícil conviver com alguém todos os dias. E ainda mais no esporte, especialmente quando os ânimos estão exaltados e as emoções estão à flor da pele. Então, às vezes temos alguns desentendimentos, mas sabemos que é tudo para o bem de cada um, e sempre conseguimos crescer juntos (Afrodite).
Apenas Atena mencionou um relacionamento onde há possíveis desentendimentos; no entanto, ela enfatiza que seu treinador é extremamente importante em seu desenvolvimento no esporte. Os outros voluntários discutiram ter uma amizade que vai além da quadra, criando um relacionamento familiar que contribuiu significativamente para seu desenvolvimento pessoal.
Dutra et al. (2023) observaram que a prática esportiva desempenha um papel essencial no desenvolvimento humano dos participantes, proporcionando não apenas benefícios físicos, mas também o desenvolvimento de habilidades sociais, disciplina e responsabilidade. Assim, consideramos que o vínculo formativo pode estar relacionado ao senso de pertencimento ao ambiente esportivo, em vez de estar exclusivamente ligado ao treinador. Por meio das práticas esportivas, e dependendo das relações estabelecidas no ambiente esportivo, é possível aprender valores como resiliência, determinação e respeito, contribuindo para a formação do caráter e valores sociais.
A presença de um bom relacionamento entre treinador e atleta tem sido destacada na literatura como algo positivo, precisamente pela capacidade do treinador de influenciar significativamente o desempenho, o desenvolvimento e a experiência esportiva do atleta (Sarrazin et al., 2002; Mageau e Vallerand, 2003; Jowett, 2017). Assim, o treinador pode promover um clima motivacional que transmite aos atletas a possibilidade de melhorar suas habilidades por meio da dedicação ao treinamento (Gomez-Lopez et al., 2019; Mossman et al., 2021).
De acordo com Maciel et al. (2021) os treinadores emergem como figuras centrais na adolescência, oferecendo suporte emocional e informativo que contribui para a estruturação do ambiente esportivo e o desenvolvimento técnico dos atletas.
Ao perguntar aos participantes sobre as pessoas importantes em suas trajetórias esportivas, descobrimos que Atena, Apolo, Hermes, Hera e Afrodite apontaram o treinador como um componente chave. Os participantes mencionaram seus treinadores por nomes específicos, expressando profunda gratidão pelas lições oferecidas ao longo dos anos. Essas lições foram consideradas essenciais e decisivas para as carreiras esportivas dos atletas.
Outro exemplo onde notamos imensa gratidão do atleta em relação ao seu treinador ocorreu quando Dionísio percebeu que seu treinador era a única pessoa que acreditava em seu potencial para crescer no esporte. A confiança depositada pelo treinador, em contraste com o descrédito de outras pessoas do convívio do atleta, foi decisiva para que Dionísio também passasse a acreditar em si mesmo. Essa relação ilustra de maneira exemplar a articulação entre os efeitos Pigmalião (expectativa do outro sobre o desempenho) e Galatéia (autopercepção positiva fomentada por essa expectativa), ou seja, o detalhe significativo está na expectativa do treinador, combinada com uma mudança de autopercepção do atleta, caracteriza os efeitos Pigmalião e Galatéia (Hancock et al., 2013; Rosenthal e Jacobson, 1968).
Quando todos diziam que não daria certo, que não ia acontecer, que você estava perdendo tempo com esse garoto, ele acreditou em mim, e eu também acreditei em suas palavras, sabe? (Dionísio).
Dionísio mencionou que, apesar de não se perceber como tendo uma predisposição natural para o esporte, ele acreditou nas expectativas de seu treinador, o que permitiu que ele crescesse ao longo dos anos. Esse efeito é frequentemente associado a atletas percebidos como mais talentosos (Hancock et al., 2013). No entanto, no caso de Dionísio, o fator decisivo pode ter sido sua altura.
Em relação à percepção do treinador sobre o desempenho do atleta na quadra, identificamos duas situações predominantes. A primeira foi apresentada por Atena e Afrodite, onde o treinador geralmente não dava muitos elogios, mas elas acreditavam que ele estava satisfeito com seu desempenho. A segunda foi relatada por Apolo, Hermes, Hera e Dionísio, onde o treinador reconhecia o bom desempenho do atleta e respondia com maiores expectativas e demandas.
Então, acho que ele não expressa muito, mas acredito que ele está feliz com meu desempenho (Atena).
Meu treinador sempre, desde que eu tinha 12 ou 13 anos, via e dizia que eu tinha potencial, me disse para continuar, que eu tinha uma inteligência de tomada de decisão diferente de outros atletas. Ele me apoiou, me disse para me manter focado [...] Ele sempre reconheceu isso assim (Hermes).
Cheuczuck et al. (2016) investigaram a relação entre o vínculo treinador-atleta e a orientação de objetivos no desempenho de jogadores de vôlei, descobrindo que atletas destacados recebiam mais orientações e instruções voltadas para o desenvolvimento esportivo. Essa situação cria uma vantagem para os chamados atletas “destaques” e uma desvantagem para os atletas “não-destaques”, resultando no fenômeno social conhecido como “Efeito Mateus” (Hancock et al., 2013). No handebol, esse efeito aparece frequentemente em oportunidades de prática em contextos competitivos, como o tempo disponibilizado pelos treinadores a cada atleta nas partidas oficiais (Krahenbühl e Leonardo, 2020).
No contexto esportivo, o Efeito Mateus revela uma dualidade: enquanto o sucesso inicial pode resultar de vantagens no desenvolvimento motor, ele também reforça desigualdades, limitando o surgimento de novos talentos. Por isso, é fundamental que os treinadores priorizem a equidade, valorizando o potencial de todos os atletas, independentemente de suas condições iniciais. No presente estudo, focado em atletas de destaque, esse efeito se manifesta de forma positiva, refletido na alta percepção de reconhecimento por parte dos treinadores.
As atitudes, crenças e comportamentos dos treinadores, assim como os dos pais, podem ter um impacto significativo no comportamento de participação esportiva de crianças e jovens em programas esportivos. Portanto, é importante manter um ambiente de aprendizagem focado na melhoria saudável e equilibrada, adequado para o desenvolvimento de habilidades para a vida e para o alcance do desempenho esperado e possível (Mossman et al., 2021; Elder et al., 2024).
Logo, observamos que o treinador exerce influência significativa nos momentos de ingresso e continuidade como também para o bom desempenho esportivo, uma vez que os atletas relatam que o vínculo de confiança, reconhecimento e apoio foram fundamentais para permanecerem no esporte e se reconhecerem como talentosos.
Colegas de equipe e amigos
Dadas as diversas necessidades do dia a dia de um atleta, é essencial ter o apoio de pessoas próximas, o que frequentemente inclui colegas de equipe e outros amigos. De acordo com estudos de Cho et al. (2020), vínculos positivos com esses indivíduos são benéficos para a saúde mental dos atletas, especialmente porque podem fornecer motivação e suporte emocional durante momentos de alta pressão. Em termos gerais, todos os participantes relataram ter uma interação positiva com seus colegas de equipe e outros.
Acho que me dou bem com todos; consigo me socializar bem em um grupo, e isso também reflete na quadra. Acho que a comunicação é boa, sempre valiosa. E tenho bons relacionamentos tanto com meus colegas de equipe quanto em outros relacionamentos também (Atena).
Cara, foi muito bom também. Eu era uma pessoa muito tímida, introvertida desde criança, e consegui desenvolver meu lado social graças ao esporte. Então, foi algo muito bom para eu fazer mais amigos, me sentir menos tímido em falar com as pessoas, em me expressar, então essa parte também foi sempre muito boa (Hermes).
Embora a pergunta específica tenha sido direcionada a todos os membros do círculo social, exceto familiares e a equipe técnica, todos os participantes focaram especificamente em seus relacionamentos com os colegas de equipe. Para Atena e Dionísio, cultivar vínculos positivos com esses indivíduos específicos leva a uma maior coesão da equipe na quadra, o que influencia positivamente o desempenho da equipe durante as competições.
Correia e Silvério (2012) destacaram a importância do ambiente social no esporte, observando que bons relacionamentos entre os membros da equipe têm um impacto direto na motivação e no desempenho da equipe. A capacidade de enfrentar os desafios do esporte, estabelecer metas compartilhadas e criar um bom ambiente para o desenvolvimento da equipe pode resultar nos fortes relacionamentos entre os atletas (Correia e Silvério, 2012), o que está alinhado com nossas conclusões. Essa sinergia enfatiza a importância de criar um ambiente social saudável, fundamentado na intenção de promover o desenvolvimento esportivo e o prazer da prática.
No contexto esportivo, os colegas de equipe constituem um importante agente de apoio, sendo predominantemente associados ao suporte emocional, à construção de laços de amizade e à promoção de sentimentos de aceitação, fatores que contribuem para a motivação e o comprometimento dos atletas. Por outro lado, interações marcadas por críticas excessivas e por um clima motivacional centrado no ego podem intensificar rivalidades internas e favorecer o surgimento de sintomas de burnout. Apesar dessas possíveis implicações negativas, a literatura indica que, de maneira geral, a influência dos colegas é majoritariamente percebida como positiva no desenvolvimento esportivo (Maciel et al., 2021).
Ao perguntar aos participantes sobre as pessoas importantes ao longo de suas trajetórias esportivas, Dionísio mencionou um colega de equipe do clube.
Um grande amigo, hoje em dia, ele é um 'parceiro' muito próximo, nos conhecemos e jogamos juntos nos últimos anos aqui em Cascavel [...] Cara, para mim, essa foi a amizade mais forte que tive em todos os meus anos de handebol, porque quando eu jogava pelo Cascavel, mas ainda morava na minha cidade natal, toda vez que eu vinha para Cascavel, eu ficava na casa dele. Tipo, ele me recebia da melhor maneira possível, e cara, criamos um vínculo enorme - não consigo nem explicar o sentimento que temos um pelo outro (Dionísio).
Receber o apoio de um colega de equipe não apenas traz benefícios econômicos, mas também proporciona um ambiente de solidariedade e parceria que pode influenciar positivamente o desempenho atlético e as experiências.
As declarações dos jogadores sobre como as pessoas percebem seu desempenho revelaram uma ampla gama de pontos de vista. Atena, Apolo, Hermes, Hera e Afrodite receberam elogios constantes desde o início de suas carreiras. Por outro lado, a experiência de Dionísio revelou que as pessoas inicialmente duvidavam de seu potencial. Hera destaca que seu desempenho pode servir como um exemplo para aqueles ao seu redor. Essas diferentes abordagens demonstram a variedade de experiências e interpretações que os atletas encontram quando se trata do reconhecimento de seu desempenho esportivo por parte daqueles ao seu redor.
Hoje, acho que no esporte, para muitos atletas, até para meus colegas de equipe, acredito que sou um modelo para eles (Hera).
Bem, é que meus amigos, todos sempre foram muito desconfiados, eu sempre me destacava muito na minha categoria [...] porque eu realmente treinava com os mais velhos, então quando cheguei na minha faixa etária, me destaquei mais. Então, várias pessoas vinham e diziam que eu era o melhor, que eu era algo mais e tudo isso [...] Então sempre havia uma 'marca Afrodite individualmente porque Afrodite é boa', e assim por diante (Afrodite).
Quando considerado um destaque individual, os atletas são reconhecidos e enfrentam a responsabilidade de influenciar o resultado das partidas desde os estágios iniciais de suas carreiras. Os elogios e reconhecimentos vindos dos colegas de equipe se relacionam com o Efeito Galatéia (Hancock et al., 2013) ao influenciarem diretamente a autopercepção e a confiança do atleta em suas próprias capacidades. Esse efeito ocorre quando o indivíduo passa a acreditar em seu potencial e desempenho, moldando suas ações a partir dessa crença interna. Assim, quando o ambiente social — especialmente os companheiros de equipe — reforça positivamente o valor e a habilidade do atleta, isso fortalece sua autoeficácia, o que pode resultar em maior comprometimento, desempenho e permanência no esporte.
Adicionalmente, a questão da inspiração se torna inevitável, pois os atletas se destacam e se tornam modelos para seus colegas de equipe. O relatório do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de 2022 destaca a importância de jovens atletas se inspirarem em seus pares, especialmente aqueles nos estágios de desenvolvimento atlético conhecidos como “competir e vencer” (18 a 25 anos) e “vencer e inspirar” (22 a 40 anos), como uma forma de encorajar novos participantes e manter os próprios atletas motivados em sua prática (COB, 2022).
Os colegas de equipe e os membros da equipe desempenham um papel importante no contexto social e emocional do atleta. A dinâmica de uma equipe proporciona companheirismo, suporte mútuo e uma rede de relacionamentos que transcende o ambiente do jogo. A interação com outros membros da equipe promove o desenvolvimento de habilidades sociais, como cooperação, empatia e respeito. A coesão e o espírito de equipe promovem um ambiente positivo, que não apenas melhora o desempenho coletivo, mas também fortalece a mentalidade individual dos atletas. As experiências compartilhadas em viagens, vitórias, derrotas e desafios criam laços duradouros, transformando colegas de equipe em amigos importantes na jornada esportiva e pessoal.
Nesse sentido, podemos ver que o apoio e as interações com a família, treinadores e colegas foram majoritariamente positivas para os atletas que se destacaram nos campeonatos juvenis. Isso sugere que o ambiente para aqueles que se destacam é frequentemente uma força motriz para que continuem no esporte e se envolvam na melhoria de seu desempenho atlético.
CONCLUSÃO
Com base nos resultados analisados, esta pesquisa trouxe evidências de que o sucesso e a permanência de atletas de destaque no handebol estão diretamente relacionados a um ambiente interpessoal positivo, e à qualidade das interações no microssistema esportivo, em especial com familiares, treinadores e colegas de equipe. As experiências narradas revelam que o apoio emocional, o reconhecimento de potencial e a construção de vínculos significativos atuam como pilares fundamentais da trajetória esportiva, contribuindo para a motivação, o engajamento e o sentimento de pertencimento dos atletas.
A família, com seu suporte emocional e logístico, é frequentemente o pilar inicial e contínuo que possibilita a participação esportiva. Esse apoio é importante tanto no começo quanto na continuidade da prática esportiva, ajudando a criar um ambiente favorável para o desenvolvimento das habilidades e da capacidade de enfrentar desafios.
Os treinadores desempenham um papel que vai além do desenvolvimento técnico, pois o relacionamento positivo e de confiança entre treinador e atleta pode ser decisivo para o sucesso e o crescimento pessoal e profissional dos atletas. No entanto, é importante que essa relação seja equilibrada para evitar pressões excessivas e minimizar o risco de abandono do esporte. Os colegas de equipe e amigos também são fundamentais no reconhecimento do desempenho e suporte na participação esportiva.
Nesse processo, identificaram-se efeitos psicossociais relevantes. O Efeito Pigmalião apareceu na forma de expectativas positivas dos adultos sobre o desempenho dos atletas, enquanto o Efeito Galatéia foi evidenciado na autoconfiança que os jovens desenvolveram a partir desse reconhecimento. Também foram observadas manifestações do Efeito Mateus, em que os atletas mais destacados receberam maior investimento e oportunidades por parte dos treinadores. Curiosamente, tal favorecimento, geralmente entendido como uma forma de assimetria, foi percebido positivamente pelos participantes, uma vez que impulsionou seu desempenho e sentimento de valorização.
Apesar das contribuições desta pesquisa, alguns limites precisam ser reconhecidos. Embora os atletas participantes deste estudo ainda estejam em plena atividade competitiva, reconhecemos que os sentidos atribuídos às suas trajetórias são, em alguma medida, atravessados por reconstruções subjetivas e simbólicas. Mesmo vivências recentes são continuamente ressignificadas à luz do presente, da posição ocupada atualmente pelos sujeitos e das expectativas projetadas para o futuro. Como indicam autores como Ricoeur (2007), lembrar é também interpretar, e toda narrativa autobiográfica carrega marcas do tempo vivido e do tempo que se vive. Assim, sugerimos que estudos futuros comparem as experiências de atletas em diferentes momentos do ciclo esportivo, incluindo aqueles em fase de transição, início ou encerramento da carreira, a fim de aprofundar a compreensão sobre os múltiplos sentidos atribuídos à permanência no esporte.
Além disso, a amostra restrita a seis atletas representa uma limitação importante, decorrente da dificuldade de localizar outros atletas de destaque que atendessem aos critérios do estudo. Além disso, houve obstáculos significativos para ampliar a abrangência da investigação devido à escassez de dados sistematizados por parte das federações estaduais de handebol e, especialmente, da Confederação Brasileira de Handebol, que não disponibiliza informações acessíveis sobre a trajetória dos atletas, mesmo daqueles que integram seleções nacionais. Essa ausência de dados dificulta análises mais amplas e comparações entre diferentes contextos regionais, limitando a generalização dos resultados para outros estados do país ou para o conjunto de atletas que chegam à elite do handebol brasileiro.
No campo das implicações práticas, os achados reforçam a necessidade de que os treinadores estejam atentos às formas como distribuem expectativas e atenções, adotando estratégias que estimulem a autonomia e reconheçam os diferentes ritmos de desenvolvimento. Para os gestores esportivos, recomenda-se a construção de ambientes que valorizem a escuta e o cuidado com a trajetória individual de cada atleta, promovendo políticas e práticas formativas mais equitativas e sensíveis às especificidades dos contextos locais.
Por fim, o presente estudo reafirma a importância dos agentes sociais na sustentação de percursos esportivos longevos e bem-sucedidos. Ao evidenciar a centralidade das relações no cotidiano dos atletas, contribui para ampliar o olhar sobre os fatores que favorecem a permanência no esporte e oferece subsídios para o fortalecimento de ações pedagógicas, institucionais e políticas voltadas à formação integral de jovens atletas.
Estudar esse tema se mostrou essencial para compreender melhor os fatores que influenciam a permanência dos jovens no esporte, especialmente daqueles que se destacam. A pesquisa desenvolvida permitiu identificar aspectos que podem reduzir os riscos de abandono, destacando a importância dos agentes sociais que influenciam significativamente a inserção e permanência no esporte.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos atletas que participaram voluntariamente da pesquisa, contribuindo com seus relatos e experiências. Ao programa de mestrado em Educação Física da Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás pelo apoio acadêmico.
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FINANCIAMENTO
Esse trabalho não obteve apoio financeiro de bolsa ou projeto financiado.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Não se aplica.
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Editado por
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Editores:
Christiane Garcia Macedo, Fernando Resende Cavalcante, Jhennifer Luiza Machado Pimenta.
Não se aplica.




