RESUMO
Objetivo: Analisar os efeitos de uma intervenção nas aulas de Educação Física sobre funções cogniti-vas em adolescentes.
Métodos: Ensaio comunitário randomizado de base escolar, no qual três grupos de escolas de tempo integral foram expostos a situações de intervenção: (A) escolas com duas aulas extras de Educação Física por semana; (B) escolas com ações de treinamento e engajamento dos professores dessa disciplina; (C) escolas com a união das estratégias A e B; e (D) um grupo de escolas controle. Foram avaliados 1.027 estudantes do Ensino Médio de Pernambuco. A atenção foi medida pelo Teste d2 e as funções executivas pelo Teste Wisconsin de Classificação de Cartas. As diferenças de mudança entre os grupos foram analisadas usando regressão multinível linear de efeitos mistos para medidas repetidas.
Resultados: Houve aumento nas médias de atenção e redução nas médias da baixa flexibilidade cognitiva em todos os grupos avaliados, no entanto, análises ajustadas mostraram que não houve efeitos significativos de nenhuma das estratégias sobre a atenção dos adolescentes. Após estratificação por sexo, foram observados efeitos nas funções executivas das moças que parti-ciparam da intervenção C (β = -1,70, IC 95% -3,10: -0,29).
Conclusão: A combinação de ações em aulas de Educação Física é efetiva na melhoria das funções executivas em meninas.
Palavras-chave:
Educação Física; Atenção; Função executiva; Adolescente.
ABSTRACT
Objective: To analyze the effects of an intervention with Physical Education classes on cognitive functions in adolescents.
Methods: School-based randomized community trial, in which three groups of full-time schools were exposed to interventions: (A) schools with two extra Physical Ed-ucation classes per week; (B) schools with workshop with the Physical Education teachers; (C) schools with a combination of strategies A and B; and (D) control group. A total of 1,027 high school students from Pernambuco were evaluated. Attention was measured by the d2 Test, and ex-ecutive functions by the Wisconsin Card Sorting Test. Differences in change between groups were analyzed using mixed-effects linear multilevel regression for repeated measures.
Results: An increase in the averages of attention and a reduction in the averages of low cognitive flexibility were observed in all evaluated groups; however, the adjusted analyses showed no significant effects of any of the strategies on the adolescents’ attention. After stratification by biological sex, effects were observed in the executive functions of the girls who participated in intervention C (β = -1.70, CI95% -3.10: -0.29).
Conclusion: The combination of actions in Physical Education classes is effective in improv-ing executive functions in girls.
Keywords:
Physical Education; Attention; Executive function; Adolescent.
Introdução
A adolescência é uma fase em que ocorrem alterações significativas no desenvolvimento funcional e estru-tural do cérebro; nela, a densidade máxima da subs-tância cinzenta é atingida e a alta plasticidade permite influências ambientais para exercer efeitos nos circui-tos corticais, tornando o desenvolvimento intelectual e emocional possível1. Nessa fase, acontecem as modifi-cações na interação social, o aumento de experimenta-ções e o desenvolvimento cognitivo que irão colaborar na aquisição de habilidades necessárias à sobrevivência e à independência na fase adulta2. Portanto, é impor-tante que o adolescente disponha de meios que contri-buam com seu desenvolvimento, e a prática de ativida-de física pode constituir-se em um caminho para isso3.
Uma forma de promover a atividade física em ado-lescentes é através das aulas de Educação Física (EF) na escola. Elas têm se mostrado efetivas no aumento dos níveis de atividade física4, no desenvolvimento da aptidão física5, na redução do índice de massa corpo-ral6, na redução do risco de doenças cardiovasculares7 e na melhoria da competência motora8, além de terem efeitos positivos sobre a cognição dos estudantes9,10.
Recentemente, García-Hermoso et al.11 verificaram os efeitos de intervenções destinadas a otimizar a quan-tidade e a qualidade das aulas de EF sobre a cognição e o desempenho acadêmico de crianças e adolescentes. Os resultados demonstraram que intervenções com base na qualidade (aumentar a participação nas ativi-dades físicas durante as aulas) melhoraram a cognição e o desempenho acadêmico dos estudantes. Quanto às intervenções baseadas na quantidade ou combinadas (qualidade e quantidade), os autores afirmam que os achados devem ser interpretados com cautela, pois o número de estudos é pequeno; no entanto, seus resulta-dos são, geralmente, positivos.
Apesar dos efeitos benéficos que as aulas de EF podem proporcionar aos estudantes, escolas têm enfren-tado dificuldades em alocar tempo para elas. No Bra-sil, embora a carga horária dos estudantes tenha sido ampliada de 800 para 1.000 horas anuais obrigatórias, as aulas de EF foram reduzidas em alguns estados bra-sileiros12. Essa redução não só é equivocada, mas pode constituir-se em prejuízos à formação do adolescente e na promoção de atividade física e saúde, especialmen-te porque essas aulas podem ser a única oportunidade para a prática de atividade física nessa fase.
Estudos internacionais10,11 indicam que as aulas de EF podem ter efeitos positivos sobre a cognição dos estudantes, no entanto, é preciso entender quais in-tervenções podem ser desenvolvidas no contexto das escolas públicas brasileiras, uma vez que diferenças culturais, socioeconômicas, curriculares e estruturais podem gerar resultados distintos, o que torna essencial avaliar como as aulas de EF impactam a cognição dos estudantes nas condições reais do país. Os resultados obtidos a partir deste estudo podem gerar dados cientí-ficos nacionais para justificar investimentos, estruturar currículos que valorizem a EF e capacitar professores com base em evidências.
Sendo assim, o objetivo deste estudo foi analisar a efetividade de uma intervenção de base escolar, com foco em ações relacionadas às aulas de EF, na melhoria de funções cognitivas em adolescentes estudantes do Ensino Médio.
Métodos
Este estudo é um ensaio comunitário randomizado de base escolar, com delineamento fatorial, e faz parte de um projeto denominado SACODE (Intervenção para Redução do Comportamento Sedentário e Melhoria da Função Cognitiva a partir das aulas de EF) no qual três grupos de escolas foram submetidos às intervenções e um grupo foi acompanhado na condição controle.
O Projeto SACODE foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Parecer Nº 1.577.906 de 07/06/2016) e está registrado na Pla-taforma de Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (RBR-88tgky).
A população-alvo foi composta por adolescentes estudantes do Ensino Médio, regularmente matricu-lados em unidades públicas denominadas Escolas de Referência em Ensino Médio que funcionam em ho-rário integral (9 aulas de 50 minutos diariamente). Por razões logísticas e operacionais definidas com a Secre-taria de Educação, as atividades previstas no plano de intervenção do Projeto SACODE foram desenvolvidas apenas nas escolas que fazem parte da Gerência Regio-nal de Educação Vale do Capibaribe, que é composta por 16 municípios e 11 deles possuíam uma Escola de Referência em Ensino Médio considerada elegível para participar do estudo.
Para fins de sorteio, as 11 Escolas de Referência em Ensino Médio foram classificadas em grupos conside-rando: a) espaços físicos para as aulas de EF (cobertos ou descobertos); b) número de professores de EF; c) número de turmas; e, d) média de estudantes por tur-ma. Ao final, obtiveram-se três agrupamentos de escolas com características homogêneas entre si, sendo dois com quatro escolas e um com três. Posteriormente, procedeu-se ao sorteio das escolas de cada agrupamen-to para a condição controle e para as condições expe-rimentais previstas. Como no terceiro agrupamento havia somente três escolas, uma das condições expe-rimentais não seria contemplada. Após o sorteio das escolas do primeiro agrupamento para cada uma das condições, realizou-se o sorteio das escolas do agrupa-mento 2 e, por fim, do agrupamento 3.
Um total de 1.474 estudantes do primeiro ano do Ensino Médio foi convidado a participar do estudo, mas foram incluídos apenas aqueles autorizados pelos pais ou responsáveis legais, resultando em 1.290 ado-lescentes com idade média de 14,9 anos (±1,0 ano). Decidiu-se tornar elegíveis apenas os estudantes do primeiro ano devido à intenção de conduzir uma ava-liação de acompanhamento (follow-up) um ano após o fim da intervenção.
Depois da randomização e avaliação inicial realiza-das no início do ano letivo, uma escola da intervenção C desistiu de participar do estudo, resultando na perda de 90 adolescentes. Ao final da intervenção, computa-das as perdas e recusas, foram analisados 1.027 adoles-centes, aproximadamente 85% dos que participaram da avaliação na linha de base (Figura 1).
O tamanho amostral a priori foi determinado atra-vés do G*Power, considerando a família de testes F com análise de variância para medidas repetidas. O delineamento foi definido considerando as avaliações pré e pós-intervenção e as quatro condições do estudo (uma condição controle e três grupos de intervenção). O poder estatístico foi definido em 90% e o erro alfa em 0,05, estimando-se detectar como significativos ta-manhos de efeito de 0,20 ou superiores e assumindo que as variáveis sob análise têm coeficiente de tracking aproximado de 0,25. Com base nestes parâmetros, es-timou-se a necessidade de uma amostra mínima com 100 casos por grupo. Considerando que seria empre-gada amostragem por conglomerados, este tamanho amostral inicial foi duplicado (deff = 2).
Intervenção
A intervenção foi realizada de abril a outubro de 2017, com um intervalo de três semanas no mês de julho, correspondente ao recesso escolar. As ações consistiram em: A - Aumentar o número de aulas de EF; B - Rea-lizar ações de treinamento e engajamento de professo-res desta disciplina; C - Combinação A+B.
Na intervenção A, as escolas aumentaram o número de duas para quatro aulas de EF semanais, com duração de 50 minutos cada. As aulas extras foram incluídas em qualquer horário do dia escolar, sendo distribuídas de acordo com a realidade de cada escola e ministradas pelo professor de EF, que também tinha autonomia na organização dos conteúdos.
A intervenção B consistiu na oferta de ações de treinamento e engajamento para os professores de EF. Foi realizado um curso de atualização profissional de 120 horas, sendo 30 delas divididas em 6 momentos presenciais. Cada encontro era estruturado em duas partes, na primeira, tratava-se de temas relacionados à saúde e aos desfechos avaliados no projeto, como ativi-dade física, comportamento sedentário, aptidão física, funcionamento do cérebro adolescente, saúde mental, relacionamentos e isolamento social e qualidade do sono. Na segunda parte eram abordados conteúdos di-dático-pedagógicos: EF no Ensino Médio, elaboração de objetivos, seleção de conteúdos, estratégias meto-dológicas, avaliação, motivação de professores e alu-nos. Em cada encontro, os professores receberam um material de apoio com textos relacionados aos temas, sendo eles definidos pelos pesquisadores responsáveis pelo projeto e ministrados por membros de um grupo de pesquisa, mestres ou doutores, com experiência no conteúdo abordado.
As demais horas foram destinadas à realização de projetos de ação comunitária desenvolvidos pelos profes-sores de EF em conjunto com os estudantes das turmas do primeiro ano de suas escolas. Os resultados desses projetos foram socializados no último encontro do grupo. Na intervenção C, as escolas receberam a combinação das estratégias A e B.
Medidas
A avaliação pré-intervenção foi realizada em março e a pós-intervenção em novembro de 2017, na própria escola. Todas as medidas foram coletadas por uma equipe treina-da e formada por estudantes de mestrado ou doutorado.
Os elementos da cognição aferidos foram a atenção e as funções executivas. Para a atenção, utilizou-se o Teste d213, um instrumento que avalia a atenção visual concentrada e a capacidade de concentração sob um estresse induzido por um tempo de conclusão. Ele é válido para utilização com adolescentes brasileiros pelo Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos (SA-TEPSI). O tempo total de realização do teste é de 8 minutos, incluindo as instruções. A aplicação foi feita coletivamente, na sala de aula, seguindo as orientações do manual. Nas análises foi utilizada a média do resul-tado líquido do teste, que é uma variável numérica com desfecho positivo, ou seja, quanto maior o número de letras “d” marcadas corretamente, melhor o desempe-nho no teste.
As funções executivas foram avaliadas por meio da versão computadorizada do Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (Wisconsin Card Sorting Test - WCST), rodada no programa Insquist 5, ambos obtidos no site https://www.millisecond.com. É um instrumento internacionalmente reconhecido, conside-rado padrão-ouro na avaliação dessas funções14, válido para adolescentes brasileiros pelo SATEPSI. O teste foi aplicado com cinco estudantes por vez e nenhuma orientação era dada em relação às regras de categori-zação das cartas, mas um breve texto aparecia na tela que antecedia o início do teste informando como sele-cioná-las. Nas análises foi utilizada a média dos erros perseverativos, que indicam baixa flexibilidade cogni-tiva, uma função considerada como aspecto central do funcionamento executivo15.
Além dessas variáveis, outras foram utilizadas para verificar diferenças entre os grupos. A atividade física foi avaliada a partir das respostas às questões: “Duran-te uma semana típica (normal), em quantos dias você faz atividades físicas que, somadas, totalizem pelo me-nos 60 minutos por dia?” e “Nos últimos sete dias, em quantos dias você fez atividades físicas que, somadas, totalizaram pelo menos 60 minutos por dia?”. As res-postas foram somadas e divididas por dois para dar o escore final utilizado nas análises.
A aptidão cardiorrespiratória foi medida com o teste Progressive Aerobic Cardiovascular Endurance Run (PACER). O resultado foi dado com base no último estágio completado e o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) foi predito pela fórmula: VO2max= distância (em metros) x 0,0084+36,416.
Na avaliação da qualidade do sono foi utilizado o Questionário Índice de Qualidade do Sono de Pitts-burgh17, que verifica a qualidade e perturbação do sono no período de um mês. Este instrumento foi validado e traduzido para a língua portuguesa por Bertolazi18. Ele é constituído por 19 questões, agrupadas em sete componentes com escores de zero (nenhuma dificul-dade) a três (dificuldade grave). As pontuações desses componentes são somadas para atingir um escore total de 0 a 21, e indicam que quanto maior o número, pior é a qualidade do sono.
A presença de sintomas depressivos foi obtida pela escala Center for Epidemiologic Studies Depression Sca-le19, composta de 20 itens relacionados à frequência de sintomas vividos na semana anterior à aplicação do instrumento. A pontuação varia de 0 a 60. O ponto de corte para a presença de sintomas depressivos é > 16 pontos. Nas análises foi utilizada a presença ou ausên-cia desses sintomas.
A medida da circunferência da cintura foi obtida com uma fita métrica inextensível no nível da cicatriz umbilical até 0,5 centímetros mais próximo. Duas me-dições eram realizadas e, quando a diferença entre elas era maior que um centímetro, realizava-se uma terceira medida. O resultado foi dado em mediana.
Foram analisados os fatores de confusão: idade, ba-seline e escolaridade materna. O sexo foi considerado uma variável moderadora.
Análise de dados
Os dados foram analisados no STATA 14 para Win-dows. A análise descritiva incluiu medidas de tendên-cia central (média) e de dispersão (desvio padrão). O valor da variação das estimativas dos escores dos testes cognitivos foi avaliado por meio do delta. Para variáveis em escala nominal ou ordinal, utilizou-se a distribui-ção de frequência. Comparações entre médias foram realizadas através do teste t ou da análise de variância. A análise bivariada entre variáveis qualitativas foi efe-tuada através do teste Qui-quadrado. Para comparação das médias entre os grupos de alocação no baseline, foi utilizado o teste ANOVA para um fator.
As diferenças de mudança entre os grupos foram analisadas usando regressão multinível linear de efeitos mistos para medidas repetidas com três níveis hierár-quicos. As análises foram ajustadas por idade, escolari-dade materna, presença de quadra na escola e baseline e estratificadas por sexo. O nível 1 correspondeu aos alunos, incluindo variáveis individuais como sexo, ida-de e indicadores cognitivos. O nível 2 representou as turmas, enquanto o nível 3 foi composto pelas escolas, que englobaram variáveis relacionadas à intervenção e às características institucionais.
As análises não seguiram o princípio de intenção de tratar (intention-to-treat), uma vez que o objetivo do estudo foi avaliar os efeitos observados entre os par-ticipantes com dados completos. A qualidade do ajus-te dos modelos foi avaliada por meio dos critérios de informação de Akaike (AIC) e Bayesiano (BIC), bem como pelo coeficiente de correlação intraclasse (ICC), que indica a fração da variância atribuída às diferenças entre escolas e turmas. Os valores de ICC encontra-dos foram baixos (igual ou inferiores a 0,10), sugerindo pouca variação entre escolas e turmas. O nível de signi-ficância foi estabelecido em p <0,05.
Análises referentes aos adolescentes que participaram da intervenção e os que desistiram podem ser en-contradas em Lima et al.20.
Resultados
Entre os 1.027 adolescentes incluídos neste estudo, 585 (57%) eram do sexo feminino, com idade média de 15,5 ± 1,0 anos. Não houve diferenças significativas entre os que permaneceram na intervenção e os que desistiram20. Os motivos das perdas podem ser encon-trados na Figura 1.
Quando estratificados por grupos, foram observa-das, na linha de base, características semelhantes quan-to às variáveis: sexo, escolaridade materna, qualidade do sono, atividade física e circunferência da cintura. No entanto, houve diferença estatisticamente significativa nas variáveis sintomas depressivos (p < 0,001) e aptidão cardiorrespiratória (p < 0,001) (Tabela 1).
Características demográficas e variáveis de saúde de estudantes incluídos na linha de base do projeto, estratificados por grupo de alocação, Pernambuco, Brasil, 2017.
Resultados do teste d2 para avaliação da atenção indicaram que houve aumento na média do resultado líquido em todos os grupos, sendo maior entre os es-tudantes da intervenção B. Esses aumentos foram de 25,3% no grupo controle e 22,2%, 29,7% e 24,2%, nas intervenções A, B e C, respectivamente. Quando estra-tificado por sexo, observou-se aumento nas médias do resultado líquido entre estudantes de todos os grupos (Figura 2). Porém, análises ajustadas por escolaridade materna, idade, presença de quadra na escola e linha de base mostraram que não houve efeitos significativos de nenhuma das estratégias sobre a atenção dos adoles-centes (Tabela 2).
Comparação da média dos escores dos testes cognitivos entre os grupos em adolescentes participantes do projeto, estratificado por sexo, Pernambuco, Brasil, 2017.
Estimativas das médias marginais dos resultados líquidos em adolescentes por grupo do Projeto: a) sexo masculino; b) sexo feminino, Pernambuco, Brasil, 2017.
Com relação às funções executivas, os resultados do WCST demonstraram que houve redução nas médias dos erros perseverativos em todos os grupos, mas essa redução foi maior entre os estudantes que participaram da intervenção A. As reduções foram de 10,2% no gru-po controle e 19,1%, 16,1% e 15,8%, nas intervenções A, B e C, respectivamente.
Quando a amostra foi estratificada por sexo, obser-vou-se, entre estudantes do sexo masculino, redução nas médias de erros perseverativos em todos os grupos. De modo similar, também foi observada redução nessas médias entre estudantes do sexo feminino das interven-ções A, B e C; no entanto, houve um discreto aumento entre as adolescentes do grupo controle (Figura 3).
Estimativas das médias marginais do erro perseverativos em adolescentes por grupo do Projeto: a) sexo masculino; b) sexo feminino, Pernambuco, Brasil, 2017.
Análises ajustadas por escolaridade materna, idade, presença de quadra na escola e linha de base demons-traram que não houve diferença significativa nos resul-tados das funções executivas e da atenção em nenhum dos grupos de intervenção em relação ao grupo con-trole entre estudantes do sexo masculino. No entanto, entre estudantes do sexo feminino, não foi observada diferença significativa nos grupos de intervenção A e B, porém, nas que participaram da intervenção C foi identificada uma redução de aproximadamente 1,7 na média de erros perseverativos quando comparadas ao grupo controle (Tabela 2).
Discussão
Até onde se sabe, este é o primeiro estudo realizado no Brasil que buscou analisar o efeito de uma intervenção com foco em modificações nas aulas de EF sobre a me-lhoria de funções cognitivas em estudantes do Ensino Médio de escolas de tempo integral. Os resultados de-monstram que não houve efeitos significativos de ne-nhuma das estratégias sobre a atenção dos participantes, mas foram observados efeitos nas funções executivas das adolescentes que participaram da intervenção C.
Assim como neste estudo, outras pesquisas também não encontraram efeitos de intervenções realizadas em aulas de EF sobre a atenção. Por exemplo, Gall et al.21 relataram que não houve efeito de um programa de in-tervenção de vinte semanas sobre a atenção dos parti-cipantes (8-13 anos). As atividades as quais o grupo de intervenção foi exposto foram: duas aulas de EF por semana, uma aula semanal de dança e intervalos ati-vos em sala de aula incorporados ao currículo escolar. No estudo conduzido por Ericsson22 foi observado que uma intervenção (cinco aulas de EF e uma de treina-mento motor) realizada ao longo de três anos não apre-sentou efeitos sobre a atenção em crianças.
Provavelmente, alguns aspectos como intensidade, duração e tipo de atividade física realizada, precisam ser considerados quando se planeja uma intervenção que busca melhorar a atenção de estudantes, pois es-tudos que consideraram essas variáveis demonstraram efeitos de apenas uma seção aguda de atividade física sobre a atenção de crianças e adolescentes. Além disso, esses efeitos puderam ser percebidos logo após a con-clusão da atividade ou podiam durar alguns minutos após o final da seção23,24.
Quanto às funções executivas, não houve diferença significativa nos resultados em nenhum dos grupos de intervenção em relação ao grupo controle entre estudan-tes do sexo masculino. No entanto, entre as adolescentes que participaram da intervenção C foi identificada uma redução de aproximadamente 1,7 na média de erros perseverativos quando comparadas ao grupo controle.
A razão pela qual estudantes do sexo feminino ob-tiveram melhores resultados que os do sexo masculino não é clara e deve ser investigada em estudos futuros. Isso pode ter ocorrido porque o sexo feminino inicia a puberdade antes do masculino e a exposição aos hor-mônios sexuais influencia o desenvolvimento cerebral25. Um estudo conduzido por Mertens et al.26 mostrou que, durante a memória de trabalho, níveis mais altos de testosterona se relacionam com mais desativação no córtex cingulado anterior em mulheres mais jovens (<19 anos) e associam-se com aumento de ativação no giro pré-central em homens, independentemente da idade. Isso indica que o impacto hormonal sobre as ati-vidades do cérebro pode variar por sexo e idade.
Neste estudo, somente a intervenção que combinou duas estratégias (Oferta semanal de duas aulas extras de EF + treinamento e engajamento de professores) foi efetiva em melhorar as funções executivas em adoles-centes quando comparada ao grupo controle. Isso su-gere que apenas dobrar o número de aulas de EF por semana não é suficiente para produzir efeitos sobre funções executivas. Estes resultados estão alinhados aos apresentados por Ardoy et al.10, que demonstraram que o aumento do número de aulas de EF por semana não apresentou efeitos sobre o desempenho cognitivo de adolescentes, no entanto, quando o aumento do vo-lume das aulas foi associado ao aumento da intensidade das atividades físicas praticadas nelas, o efeito sobre o desempenho cognitivo foi significativo.
Neste estudo não foi verificada a intensidade das atividades físicas praticadas durante as aulas, porém, o treinamento dos professores pode ter contribuído para que eles realizassem alterações na maneira de mi-nistrá-las, pois, os resultados da avaliação de processo demonstraram que 98,5% dos participantes da inter-venção C afirmaram que as aulas de EF foram mais ativas (40% - pouco mais ativas; 43,1% - mais ativas; e, 15,4% - muito mais ativas) durante o semestre em que a intervenção estava sendo desenvolvida em sua escola.
Existem dificuldades em realizar comparações destes resultados com os apresentados em outras pesquisas, tendo em vista a carência de estudos que avaliaram o efeito da combinação do aumento de aulas de EF e o treinamento de professores sobre funções executivas em adolescentes. Contudo, a literatura tem apontado que a oferta de aulas extra dessa disciplina tem efeitos po-sitivos sobre o desempenho acadêmico em crianças e adolescentes27 e outras estratégias de intervenção con-duzidas nessas aulas têm sido efetivas na melhoria de funções executivas em crianças28,29. Ademais, uma inter-venção que envolveu algum tipo de treinamento de pro-fessores associado a outras estratégias (inserção de ativi-dade física em pequenos intervalos, em tarefas escolares de várias disciplinas e em lições de casa) também foi efetiva na melhoria de funções executivas em criança30.
Embora neste estudo a oferta de aulas extras de EF ou o treinamento de professores não tenha sido sufi-ciente para produzir efeitos sobre a atenção de adoles-centes, a intervenção com a combinação de ações pro-duziu efeitos sobre as funções executivas de estudantes do sexo feminino, demonstrando resultados promis-sores e indicando que devem ser realizados esforços para implementar políticas públicas que garantam pelo menos três aulas de EF semanais que priorizem o mo-vimento e sejam inseridas nas propostas curriculares de estados, municípios e escolas. É necessário também criar programas de formação continuada para profes-sores dessa disciplina através de parcerias com Institui-ções de Ensino Superior, a fim de lhes proporcionar a ampliação do repertório pedagógico.
Também é importante considerar algumas limitações na interpretação dos resultados. Destaca-se que não foram realizadas avaliações sobre as atividades de-senvolvidas nas aulas de EF. Apesar dos resultados da avaliação de processo indicarem que a maioria das aulas eram práticas, não foram colhidas informações a res-peito do tipo, intensidade e duração das atividades físi-cas realizadas. Além disso, embora estudantes do sexo feminino tenham apresentado efeitos positivos nas funções executivas em apenas seis meses de interven-ção, talvez uma investigação com prazo maior pudesse ser efetiva em melhorar essas funções também entre os do sexo masculino, bem como apresentar efeito das estratégias avaliadas isoladamente.
Apesar dessas limitações, existem potencialidades neste estudo que precisam ser destacadas. Destaca-se a abrangência regional, pois foi realizado em todas as escolas de tempo integral de uma Gerência Regional de Educação. O estudo foi conduzido em dez escolas si-tuadas em dez municípios, representando características socioculturais e de desenvolvimento distintas. Trata-se de um estudo randomizado realizado no contexto real, sem interferência do pesquisador, em que os professores tiveram liberdade de desenvolver suas aulas de acordo com a realidade da escola e as características de seus estudantes, o que representa a valorização da validade externa e replicação da intervenção para outras escolas. Por fim, vale ressaltar que o projeto se constitui em uma intervenção inovadora, simples, de baixo custo e viável para ser reproduzida em outras escolas, desde que conte com o apoio dos agentes envolvidos como a secretaria de educação e os gestores das instituições de ensino, bem como com a vontade dos professores e estudantes de participar.
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Financiamento
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPQ (N: 428203/2016-7 e 310586/2016-0); Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (N:88881.159230/2017-01); Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco - FACEPE (BCT 0233-4.09/17 e BFP0029-4.09/16)
Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo
Os autores não utilizaram de ferramentas de inteligência artificial para elaboração do manuscrito.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), à Coordenação de Aperfei-çoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) pela concessão de auxílio financeiro ou bolsas de es-tudo para desenvolvimento do projeto.
Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais
Após a publicação, os dados estarão disponíveis mediante solici-tação aos autores.
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Editado por
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Editor Chefe
Raphael Ritti-Dias Universidade Nove de Julho, São Paulo, São Paulo, Brasil.
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Editor de Seção
Valter Cordeiro Barbosa Filho Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil.






