Open-access IV Simpósio de Neurociência do Exercício Físico: Avanços e Perspectivas

Este editorial tem o objetivo de apresentar o IV Simpósio de Neurociência do Exercício Físico, realizado nos dias 24 e 25 de junho de 2024, no instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a coordenação da Profª. Drª. Andrea Deslandes. O evento teve como objetivo promover um encontro nacional de divulgação de pesquisa científica, programas de intervenção, debates, intercâmbio e disseminação de conhecimentos gerais sobre Neurociência do Exercício Físico, contando com a participação de reconhecidos pesquisadores(as) de 16 Instituições de Ensino Superior do Brasil, mais de 500 participantes e 54 trabalhos apresentados. Estes representaram todas as macrorregiões do Brasil, fortalecendo a nucleação, o impacto social, e a formação de recursos humanos qualificados no âmbito da Pós-graduação.

O evento considerou aspectos de inovação e tecnologia, com abordagens de temas translacionais e apresentação de modelos de pesquisa que buscam a solução de problemas através da neurociência da atividade física. O evento, gratuito e híbrido, foi marco do lançamento do primeiro curso de extensão EaD gratuito sobre Neurociência do Exercício Físico e de dois encontros: 1) o II Encontro da Rede Nacional de Neurociência e Atividade Física (ReNAF), uma rede de pesquisadores criada em 2022 que tem por objetivo divulgar e fortalecer as ações de pesquisa, ensino e extensão nesta área1 e 2) o I Encontro de pesquisadores brasileiros do The UNIversity student LIFEstyle and Mental health (UNILIFE-M), um estudo de coorte prospectivo de estilo de vida e saúde mental em estudante universitário, com a divulgação de resultados inéditos desta rede que conta com 11 Universidades do Brasil e mais de 60 centros no mundo2. O evento contou com o apoio do Edital PAEP/CAPES, da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS), da Rede Sul-Americana de Atividade Física e Comportamento Sedentário (SAPASEN) e da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE).

É apresentado a seguir um resumo dos 26 temas abordados nas seis mesas temáticas do evento. As mesas serviram como um fórum de discussão sobre os avanços e direcionamentos da área de atividade física, exercício físico e esporte sob a perspectiva das neurociências.

Relação entre músculo e cérebro

A primeira mesa temática discutiu os mecanismos neurobiológicos da atividade física e seus efeitos no cérebro, alinhados ao conceito de expossoma e saúde cerebral. A alta demanda metabólica do cérebro o torna vulnerável a fatores endógenos e exógenos, com o exercício físico desempenhando um papel importante na modulação de vias moleculares, melhorando a função cerebral e a plasticidade neural. O exercício estimula a produção de moléculas sinalizadoras, como o fator neurotrófico derivado do cérebro (brain-derived neurotrophic factor - BDNF), essencial para a plasticidade sináptica e sobrevivência neuronal, além de regular enzimas antioxidantes via fator nuclear eritroide 2-relacionado ao fator 2 (NRF2). O lactato e a irisina também contribuem para a saúde cerebral ao estimular o BDNF e NRF2. O sistema endocanabinoide, ativado pelo exercício, ajuda a modular a dor, inflamação e humor, contribuindo para o bem-estar pós-exercício. O exercício físico tem papel importante na prevenção de doenças neurodegenerativas, destacando-se por sua capacidade de mitigar o estresse oxidativo e promover a resiliência neural.

Atividade física e desempenho cognitivo

A segunda mesa tratou do impacto da atividade física no desempenho cognitivo ao longo da vida, mostrando evidências de melhorias nas funções executivas, como controle inibitório e flexibilidade cognitiva, desde a infância até a velhice. A atividade física também pode melhorar a consolidação da memória, especialmente após o aprendizado. O projeto Erguer/Aracaju mostrou como a integração de movimento em salas de aula pode potencializar o aprendizado e o desempenho cognitivo em estudantes. Intervenções que combinam coordenação motora e desafios cognitivos são especialmente eficazes para melhorar funções executivas e prevenir declínios cognitivos em pessoas idosas.

Estilo de vida, neurociência e saúde cerebral

A mesa temática sobre estilo de vida discutiu como fatores ambientais influenciam a saúde cerebral. Dieta, qualidade de sono, estresse e atividade física moldam características individuais através da interação entre genes e ambiente, modificando a expressão gênica por meio de alterações epigenéticas. A vida moderna, com suas exigências contínuas, tem provocado alterações no estilo de vida, como no padrão de sono e ritmo circadiano, resultando em débito crônico de sono, que promove alterações no humore impactos negativos no desempenho físico e cognitivo. Além disso, dietas ricas em ultraprocessados aumentam o risco de transtornos mentais, enquanto dietas anti-inflamatórias reduzem sintomas depressivos. A prática de mindfulness e aterramento foram destacadas como estratégias eficazes para prevenir a sobrecarga do estresse. A necessidade de políticas públicas que promovam um estilo de vida saudável foi enfatizada, destacando a urgência de intervenções acessíveis e equitativas.

Atividade física na prevenção e tratamento de doenças do sistema nervoso central

O papel da atividade física na promoção da saúde cerebral e prevenção e tratamento de transtornos mentais e doenças do sistema nervoso central recebeu destaque em duas mesas temáticas do evento. Além da promoção de saúde cerebral, a atividade física se apresenta como uma estratégia adicional ao tratamento farmacológico para muitas condições neuropsiquiátricas altamente incapacitantes, prevalentes e com grande impacto econômico e social, como as doenças neurológicas, em especial Alzheimer, Parkinson e outras demências. O exercício físico se mostra um fator protetor contra doenças neuropsiquiátricas, sendo fundamental na redução de incapacidade funcional e melhora da saúde mental. Atividades que combinam estímulos físicos e cognitivos, como dança e exergames, são promissoras para pessoas idosas com demências ou declínio cognitivo. O exercício também é eficaz na prevenção de recaídas em transtornos por uso de substâncias, promovendo bem-estar psicológico e físico. Resultados promissores foram apresentados em modelos de traumatismo cranioencefálico e exercício físico. Em pacientes com epilepsia, por exemplo, o exercício pode reduzir a frequência e a gravidade das crises, melhorar o humor e a qualidade de vida.

Neurociência do esporte

A preparação psicológica de atletas é importante para melhorar o desempenho e manter a saúde mental, especialmente em ambientes de alta pressão e exposição midiática, e foi destaque na mesa Neurociência do Esporte. A Psicologia do Esporte tem integrado neurotecnologias avançadas para avaliação, intervenção e treinamento mental de atletas de alto rendimento. Os conceitos de paradesporto e esporte paralímpico também foram tema do evento, dada a importância da produção científica para o sucesso esportivo. Foram discutidos as barreiras e os facilitadores do treinamento esportivo de pessoas com deficiência física, visual e intelectual, e como os aspectos comportamentais fazem parte do processo de desenvolvimento do atleta com deficiência. As evidências indicam que atletas paralímpicos apresentam baixos níveis de autoaceitação e propósito de vida quando comparados a atletas olímpicos. Além disso, níveis relativamente elevados de ansiedade, depressão e dor são frequentemente observados em atletas paralímpicos.

A mesa de Neurociência do Esporte abordou ainda a interação entre o esporte e o ambiente na saúde cerebral. O conceito de “Blue Mind” explora a neurociência dos esportes ao ar livre e a imersão na natureza, destacando inúmeros benefícios psicológicos, cognitivos e fisiológicos. Entre os principais benefícios psicológicos, a exposição a espaços verdes e azuis tem mostrado reduzir significativamente os níveis de ansiedade e estresse, promover relaxamento, recuperar mentalmente e melhorar o humor. Do ponto de vista cognitivo, a imersão na natureza pode induzir um estado de atenção plena, beneficiando a saúde cognitiva, embora mais pesquisas sejam necessárias para confirmar esses efeitos.

Adesão ao exercício físico

Apesar dos bem estabelecidos benefícios do exercício físico, a adesão permanece um desafio. Fatores emocionais, afetivos e motivacionais desempenham um papel importante na adoção de um estilo de vida ativo.A criação de ambientes de exercício agradáveis e que ofereçam suporte social pode aumentar a adesão, assim como programas que incorporam feedback positivo, recompensas e estratégias extrínsecas são mais eficazes. Achados da neurociência comportamental e da Teoria Unificada da Atividade Física indicam o papel dos elementos essenciais da atividade física (sentir, explorar, transformar e conectar-se) na regulação emocional e motivacional, favorecendo a adesão ao exercício. A promoção do letramento corporal também foi destacada como essencial para incentivar a prática de atividade física ao longo da vida. A Teoria da Autodeterminação pode contribuir para a compreensão de fatores de motivação intrínseca para a adesão à prática de atividade física, e os profissionais da saúde podem promover suporte para as necessidades de competência, autonomia e vínculo durante o exercício. Ademais, a Teoria Afetiva Reflexiva tenta explicar o comportamento de ativo com base em dois processos, sendo um automático e outro reflexivo. Porém, apesar de décadas de literatura evidenciando a relação entre exercício físico e respostas afetivas, o entendimento sobre os mecanismos que explicam essa relação ainda precisam de melhor investigação.

Considerações finais

O IV Simpósio de Neurociência do Exercício Físico evidenciou a crescente importância das neurociências para compreender os efeitos do exercício físico na saúde mental e cognitiva. As discussões abrangeram desde aspectos moleculares até implicações práticas para a saúde pública, destacando a necessidade de uma abordagem interdisciplinar. As perspectivas futuras incluem aprofundar as pesquisas sobre os mecanismos neurobiológicos dos benefícios do exercício, desenvolver intervenções personalizadas, aumentar a apreciação dos aspectos comportamentais do exercício e promover políticas públicas que incentivem a prática de atividade física em todas as faixas etárias.

A continuidade de eventos com essa característica e a manutenção de redes de colaboração no Brasil são essenciais para promover a troca de conhecimentos, fortalecer parcerias, desenvolver estratégias de formação e capacitação de profissionais e impulsionar pesquisas inovadoras.

Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo

Para a elaboração desse manuscrito foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT para a realização da seguinte atividade: auxílio na revisão de concordância e incoerências gramaticais. Os autores declaram que todo o material derivado de tal processo foi revisado e os autores assumem total responsabilidade por todo o conteúdo do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais

Os conteúdos já estão disponíveis no momento da publicação do artigo.

Referências bibliográficas

  • 1 Bento-Torres NV, Bento-Torres JB, Deslandes AC, Netto CA, Royes LF, Schuch F, et al. Formation of the Brazilian Network for Research and Training inNeuroscience and Physical Activity: a meeting report. Adv Physiol Educ. 2023;47(3):589-92. doi: https://doi:10.1152/advan.00060.2023
    » https://10.1152/advan.00060.2023
  • 2 Schuch FB, Waclawovsky AJ, Tornquist D, et al. The UNIversity students’ LIFEstyle behaviors and Mental health cohort (UNILIFE-M): Study protocol of a multicenter, prospective cohort study. PREPRINT. 2024 Jan 16. doi: https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-3794023/v1
    » https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-3794023/v1

Editado por

Avaliação dos pareceristas

Autoria

Avaliador A

Anônimo

Formato

  • O artigo atende às regras de preparação de manuscritos para submissão à Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde?

    Em parte

  • Em relação aos aspectos formais, o manuscrito está bem estruturado, contendo as seções: introdução, métodos, resultados e discussão (conclusão como parte da discussão)?

    Sim

  • A linguagem é adequada, o texto é claro, preciso e objetivo?

    Sim

  • Foi observado algum indício de Plágio no manuscrito?

    Não

Sugestões/comentários

  • O manuscrito é excelente e foi muito bem redigido. O documento encontra-se com mais 1500 palavras (atualmente 1623). Acredito que a decisão de solicitar a redução no número de palavras seja mais editorial do que minha como revisor.

Comentários ao autor

  • Parabéns pelo excelente manuscrito e pelo simpósio que foi realizado. Tendo experiência na realização de simpósios internacionais, imagino o tamanho do esforço envolvido para a realização do presente trabalho. O documento está muito bem redigido e incluo em anexo pequenos comentários pontuais que podem ser resolvidos facilmente. Por exemplo, os autores mencionam que “o Brasil está entre os cinco países com maior prevalência de transtornos depressivos”; contudo, isso seria a nível mundial, América Latina, etc.?

  • Afora isso, observei que a maioria dos parágrafos seguem uma estrutura de apresentar o tópico da mesa, seus principais achados e as “lições” e perspectivas resultantes dos trabalhos expostos. Assim, fiz a sugestão de manter esse padrão para todas as mesas/parágrafos.

  • A primeira referência precisa ter o DOI acrescido. A segunda referência trata-se de um preprint, e o site da revista não possui um formato especifico para esse tipo. Ela foi estruturada semelhante a um artigo publicado em periódico tendo o periódico substituído pela palavra PREPRINT. Caso esse seja o formato correto, eu sugiro remover o “Avaliable at” e deixar o endereço DOI, seguindo as normas de artigos publicados em periódicos. Ou, caso seja citado como “Outros documentos”, trocar para “Disponível em: <https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-3794023/v1> [2024 Novembro].

Comentário no arquivo do Avaliador:

  • 1º. parágrafo, última linha: Fantástico. Seria possível mencionar também o número total de participantes?

  • No tema “Atividade Física e Desempenho Cognitivo”; última linha: Sugiro reestruturar a frase, pois, acho que o tema declínio cognitivo não se refere a crianças.

  • No tema “Atividade Física na Prevenção e Tratamento de Doenças do Sistema Nervoso Central”; 8ª. Linha: Do mundo? Da América Latina?

  • No tema “Atividade Física na Prevenção e Tratamento de Doenças do Sistema Nervoso Central; 10ª. Linha: O que seria essa incapacidade? Seria dentro do contexto de absenteísmo? Sugiro adicionar mais contexto para a frase.

  • No tema “Atividade Física na Prevenção e Tratamento de Doenças do Sistema Nervoso Central”; última linha: O tópico esta fantástico e muito interessante, em especial por resumir tantos assuntos distintos os principais achados discutidos pela mesa. As outras mesas sempre terminam com o “take-away”, a mensagem central/conclusão da discussão da mesa. Talvez pela diversidade de temas tenha sido difícil aqui, mas, se possível acho que ficaria interessante um último trecho mais geral e conclusivo como nos outros parágrafos.

  • No tema “Neurociência do Esporte”; 2º. Parágrafo, última linha: Semelhante ao meu comentário sobre o parágrafo da mesa “Atividade Física na Prevenção e Tratamento de Doenças do Sistema Nervoso Central”, acho que seria interessante um trecho final conclusivo semelhante ao feito para as outras mesas, por exemplo, o último trecho relativo a “Neurociência do Esporte”.

Parecer final (decisão)

  • Pequenas revisões necessárias

  • recomendação: minor-revision

Histórico

  • Parecer recebido em
    28 Dez 2024

Avaliação dos pareceristas

Autoria

Avaliador B

Não autorizou a publicação do parecer

  • recomendação: no

Histórico

  • Parecer recebido em
    28 Dez 2024

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Nov 2024
  • Revisado
    17 Nov 2024
  • Aceito
    28 Dez 2024
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