RESUMO
Objetivo: Analisar a relação entre a participação em grupos de atividade física e a rede de suporte social de pessoas idosas.
Métodos: Trata-se de um estudo observacional, transversal e quanti-qua-litativo, realizado no ano de 2024, com pessoas idosas participantes de grupos de atividade física. Participaram do estudo 25 pessoas idosas (71,0 ± 5,1 anos de idade), sendo 80% mulheres, as quais responderam um questionário sociodemográfico, participaram de uma entrevista semiestruturada sobre o funcionamento do programa de atividade física, sobre os benefícios e motivos de participação, foram avaliados pelo Diagrama de Escolta, para avaliação da estrutura e função da rede de suporte social.
Resultados: Em torno de 38% da rede de suporte social dos participantes eram membros do grupo de atividade física, sendo em média três membros para cada participante. Em torno de 90% dos vínculos da rede dos membros do grupo são de amizade. A categoria “construção e fortalecimen-to de vínculos” foi citada como principal motivação de participação e benefícios do programa (60%). Os participantes do programa de atividade física foram citados nos três níveis da rede de suporte social estabelecidos pelo Diagrama de Escolta, sendo 28,1%, 33,3% e 66,7% no primeiro, segundo e terceiro nível, respectivamente. Em torno de 10% citaram como contato de emergência os participan-tes do grupo e 5% o professor do programa.
Conclusão: A estrutura e função de rede de suporte social de participantes de atividade física contam significativamente com membros do grupo em relação à quantidade e qualidade das relações e de apoio.
Palavras-chave:
Suporte social; Pessoas idosas; Atividade física; Programas; Relações interpessoais.
ABSTRACT
Objective: To analyze the relationship between participation in physical activity groups and the social support network of older people.
Methods: This was an observational, cross-sectional, quantitative and qualitative study, carried out in 2024, with older people participating in physical activity groups. The study included 25 older people (71.0 ± 5.1), 80% of whom were women, who answered a socio-demographic questionnaire, took part in a semi-structured interview about how the physical activity program worked and the benefits and reasons for taking part, and were assessed using the Escort Di-agram to evaluate the structure and function of their social support network.
Results: Approximately 38% of the participants’ social support networks were members of the physical activity group, with an average of three members for each participant. Around 90% of the bonds in the group members’ network were classified as friendships. The category “building and strengthening bonds” was cited as the main motivation for the participation in and benefits of the program (60%). Activity Physical Program participants were mentioned at all three levels of the social support network established by the Escort Diagram, with values of 28.1%, 33.3%, and 66.7% at the first, second and third levels, respectively. Around 10% cited the group participants as their emergency contact and 5% cited the program teacher.
Conclusion: The structure and function of the social support network of physical activity participants relies significantly on group members in terms of the quantity and quality of relationships and support.
Keywords:
Social support; Elderly; Physical activity; Program; Interpersonal relationship.
Introdução
A família é tradicionalmente a principal fonte de suporte social de pessoas idosas. Mesmo diante da signifi-cativa redução no número de membros nas famílias nos últimos anos, esse núcleo continua a desempenhar um papel de responsabilização, seguida do Estado. Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde1 propõe a “participação” como pilar para o envelhecimento ati-vo, sugerindo que atividades sociais ou grupais podem atenuar sentimentos de exclusão, solidão e redução de vínculos familiares, além de possibilitar a construção de novas relações sociais por meio de diferentes mecanismos emocionais2. O suporte social não se restringe apenas às interações individuais, mas engloba também fatores como o contexto familiar, comunitário e social, que podem influenciar a saúde e a longevidade de ma-neira ampla3.
A perspectiva de comunidade como família esten-dida, a complexidade dos laços e interações sociais, formam uma rede de suporte mais ampla, chamada de Comboio4. Este conceito tem ênfase no modelo Lifes-pan de Baltes5, que desenvolveu a perspectiva do ciclo de vida, enfatizando que o desenvolvimento ocorre ao longo de toda a vida, considerando as experiências es-pecíficas e individuais das pessoas idosas. Esta rede tem um papel fundamental na manutenção dos cuidados contínuos, da independência e autonomia. A ampliação dessas relações sociais é essencial, pois contribui para o aumento da autoestima, autonomia, reconhecimento e sensação de pertencimento, promovendo uma rede de suporte social mais genuína6, 7.
A literatura científica aponta que atividades em grupos para pessoas idosas aumentam a convivência e a interação social7. No entanto, a qualidade, o significado e a intensidade destes vínculos criados, bem como o quanto de fato esta interação em pares é capaz de afetar positivamente a estrutura e a função da rede de suporte social das pessoas idosas participantes destes grupos, ainda é pouco estudada. O conhecimento destas in-formações pode aprimorar programas já existentes ou contribuir para a implementação de novas propostas de estratégias para aumento de rede de suporte social, o que poderia, inclusive, gerar economia de gastos com cuidados a médio e longo prazo.
Pesquisas anteriores destacam que o suporte social pode incentivar a prática de atividade física (AF)8, mas poucos estudos relatam a relação inversa entre estas va-riáveis. Um estudo investigou como integrantes de um grupo de caminhada sênior interagiam e se motivaram durante o exercício físico, contudo, não foi analisado se essa interação social foi suficiente para criação de vínculo e apoio social além do momento de AF9. Um estudo brasileiro propôs uma intervenção de AF grupal com idosos hipertensos, e por meio de uma entrevista semiestruturada, identificou que os participantes criam sentimento de pertencimento ao grupo10, porém, não foi apontado se esses vínculos são incorporados na rede de suporte social da pessoa idosa.
Além da escassez de estudos que explorem o fortalecimento das relações sociais dentro dos programas de AF com instrumentos específicos de suporte social, pouco se sabe sobre a intensidade e a complexidade desse suporte social. Um estudo realizado na Malásia, utilizou o Índice de Apoio Social de Duke para anali-sar o suporte subjetivo, instrumental, interação social e rede social em uma investigação de análise de nível de AF de mulheres idosas residentes de uma comunidade rural, contudo, a amostra não participava de um grupo de AF11. Portanto, estudos mistos que utilizem instru-mentos específicos de rede de suporte social entre par-ticipantes de grupos de AF direcionados para pessoas idosas é importante.
Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar a relação entre a participação em grupos de AF, a estrutura e a função dos relacionamentos na rede de suporte social de pessoas idosas. Além de preencher la-cunas científicas sobre a profundidade, complexidade e os efeitos de longo prazo dessas interações sociais, os resultados podem ter implicações práticas para o desenvolvimento de políticas de intervenção eficazes, ajustadas às mudanças relacionadas ao envelhecimento.
Métodos
Trata-se de um estudo observacional, transversal, de abordagem quanti-qualitativo, realizado no município de São Carlos, São Paulo, no ano de 2024. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos (CAAE: 74281623.10000.5504). A presente investiga-ção foi inicialmente apresentada aos gestores das Secreta-rias de Saúde, Educação, Cidadania e Assistência Social e Esporte do município, responsáveis pelos equipamen-tos que oferecem grupos de AF e esporte adaptado para solicitar autorização da coleta de dados nos locais.
A população-alvo deste estudo foi pessoas com 60 anos ou mais, participantes de grupos de AF e espor-te adaptado, oferecidos em equipamentos de saúde, educação, assistência social e esporte do referido mu-nicípio. Em relação aos critérios de inclusão para os equipamentos, a AF grupal deveria ser oferecida há pelo menos dois anos, e que atendessem pessoas idosas independentes e semi dependentes. No que tange os critérios de inclusão das pessoas idosas, eles deveriam participar do grupo há dois anos ou mais e ter frequên-cia de participação acima de 75% mensais, conforme lista de presença apresentada pelo professor respon-sável pelas atividades. Foram excluídas pessoas idosas com dificuldades de audição que comprometessem a coleta de dados. Em relação aos critérios de inclusão do professor responsável pela AF grupal, foram incluídos profissionais com pelo menos 2 anos de condução do grupo, e foram excluídos professores substitutos.
Os professores responsáveis pelas atividades físi-cas foram contatados inicialmente para apresentação da pesquisa e convidar verbalmente os participantes. Aqueles que manifestaram interesse marcaram dia e horário para a coleta de dados, realizada em uma sala reservada no próprio local das atividades, de forma in-dividual. Antes da coleta formal, foi conduzido um tes-te piloto com cinco idosos em uma unidade de saúde da atenção básica. Esse procedimento permitiu testar a compreensão das perguntas e ajustar os instrumentos de coleta de dados. O encontro para coleta de dados era iniciado com a apresentação do Termo de Consen-timento Livre e Esclarecido, o qual foi lido e assinado pelo participante.
Em seguida, foram aplicados os seguintes instrumentos:
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Questionário de dados sociodemográficos, com-posto por questões sobre idade, escolaridade, estado civil, com quem mora, renda individual, renda fami-liar, profissão e aposentadoria;
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Questionário sobre participação em grupos de prática de AF, investigou aspectos como tempo de participação, frequência semanal, participação em eventos sociais, viagens, passeios turísticos do grupo, participação em atividades durante a pande-mia. Também avaliou o funcionamento das aulas, incluindo a frequência semanal oferecida, duração da aula, uso de estratégias lúdicas nas aulas, caracte-rística do professor/líder do grupo (formação pro-fissional), atividades de socialização durante e fora das aulas;
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Diagrama de Escolta, criado por Antonucci e Akiyama12 e adaptado por Paula-Couto13, considera va-riáveis como proximidade, tipo de relação, frequên-cia de contato e suporte emocional ou instrumental oferecido.
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Entrevista semiestruturada, para compreender a visão dos participantes sobre a criação de vínculos com outros alunos(as) do mesmo grupo, questio-nando motivos para permanecer no grupo, benefí-cios da participação, mudança percebida nas rela-ções sociais após ingressar no grupo, confiança em outros membros do grupo e contato de emergência. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio para posterior transcrição e análise.
Os dados quantitativos, referentes às características sociodemográficas, foram armazenados e tabulados em planilhas do Microsoft Excel, sendo analisados em ter-mos de frequência absoluta e relativa. Os dados quali-tativos, provenientes das entrevistas semiestruturadas, foram transcritos pelo aplicativo Transkriptor e revi-sados manualmente pela pesquisadora, além de serem salvos em nuvem, no qual os participantes foram codifi-cados com a sigla do equipamento que frequentam, por exemplo, USF, CCI, UATI, complementada por uma numeração e pelo ano da pesquisa, como USF 01/24, CCI 01/24, UATI 01/24 e assim por diante. Para apre-sentação dos resultados qualitativos, será apresentada a sigla do equipamento, a numeração, o gênero e a idade.
A análise qualitativa seguiu o método de análise de conteúdo de Bardin14, organizado em três etapas: (i) Pré-análise: Seleção criteriosa dos documentos re-levantes para garantir a consistência das informações; (ii) Exploração do Material: Identificação inicial de subcategorias, posteriormente agrupadas em categorias amplas, permitindo uma visão estruturada dos dados; (iii) Tratamento dos Resultados: Categorização e in-terpretação dos dados para responder às questões de pesquisa, utilizando o critério de saturação para asse-gurar representatividade.
As respostas foram agrupadas em duas categorias principais: Motivos e Benefícios de Participação no Programa. Cada categoria foi subdividida em subca-tegorias identificadas durante a análise. Para comple-mentar a abordagem qualitativa, as categorias foram descritas em termos de frequência absoluta e relativa. Discrepâncias nas interpretações foram resolvidas por meio de revisão colaborativa entre os pesquisadores. Quando necessário, múltiplas categorias foram atri-buídas a uma mesma resposta para captar nuances sem comprometer a complexidade dos relatos.
Resultados
Caracterização da população
Os resultados revelaram que a maioria dos participantes eram do gênero feminino (80%). Quanto à faixa etária, mais da metade das pessoas idosas tinha entre 70 e 79 anos (56%) e 40% possuíam ensino superior completo. Além disso, foi observado que 56% dos participantes residiam com seus cônjuges. Em relação à renda indi-vidual, 44% declararam receber mais de dois saláriosmínimos. Quanto à atividade ocupacional, 28% ainda atuavam como profissionais liberais, enquanto a grande maioria (76%) já se encontrava aposentada.
O tempo de envolvimento dos participantes nos grupos de AF e esporte adaptado variou, com 60% dos participantes integrando os grupos entre 2 e 9 anos. Além disso, 55% dos participantes relataram frequên-cia regular de duas vezes por semana. As atividades extrapolam as aulas regulares, com 60% participando de encontros sociais e 65% envolvidos em eventos e comemorações oferecidos pelos grupos.
Em emergências, a maioria indicou familiares como contato principal (80%), seguidos por amigos do grupo de AF (10%). Além disso, 5% mencionaram os profes-sores do grupo de AF e esporte adaptado como contato de emergência.
Caracterização das aulas e dos professores
Os dados mostraram que a maioria dos professores que conduzem os grupos de AF e esporte adaptado são ma-joritariamente profissionais de Educação Física (60%), seguidos por Fisioterapeutas (40%). A maioria dos professores possuía entre 10 e 20 anos de experiência na área (80%). As aulas incluíam, principalmente, exer-cícios de alongamento (86%) e treinos de força (57%), realizados duas vezes por semana, com duração média de uma hora. Estratégias de interação oferecidas pelos professores incluíram debates (71,4%), eventos sociais e culturais (42,8%), e atividades voltadas ao fortaleci-mento de vínculos (14,3%).
Motivos e benefícios de participação
Três categorias principais se destacaram, tanto na in-vestigação sobre a motivação para participar dos gru-pos de AF e esporte adaptado quanto na identificação dos benefícios percebidos, a saber: construção e forta-lecimento de vínculos, melhoria da capacidade física e melhora da qualidade de vida e saúde mental. A seguir, as categorias são discutidas, ressaltando suas nuances nos dois contextos:
Construção e fortalecimento de vínculos
A busca por interação social e acolhimento foi um fator importante para ingressar nos grupos de AF. Muitos participantes relataram o desejo de reduzir a solidão e criar amizades:
“[...] as amizades, a gente festeja muito, a gente pas-seia” (UATI 07, M, 76 anos).
“[...] pelo carinho, pela amizade” (SEME 07, M, 70 anos).
Além da motivação inicial, os participantes reco-nheceram que os grupos contribuíram para fortalecer laços de amizade e promover interações significativas. A convivência nos grupos ajudou a criar um ambiente de apoio e companheirismo:
“[...] a gente troca ideia, conversa, não fica muito sozinha, né?” (CRI VLP 04, F, 70 anos).
“[...] ter relação com o ser humano, amizade” (UATI 08, M, 73 anos).
Melhoria da capacidade física
Os participantes apontaram a busca pela prevenção de agravos relacionados ao envelhecimento e a melhora da saúde como principais razões para aderir aos grupos de AF. Os relatos destacam o medo de quedas, o desejo de manter a funcionalidade e a percepção de que a prática regular é essencial:
“[...] foi o medo de cair de novo, de se machucar, de ficar inválida numa cama, né?” (USF SF 03, F, 70 anos).
“[...] o corpo pede, sabe? A atividade, e se sente me-lhor quando faz atividade” (USF ST 04, F, 64 anos).
A prática de AF foi percebida como essencial para manter ou melhorar a funcionalidade física e prevenir doenças. Os participantes enfatizaram atividades como alongamento e fortalecimento muscular como funda-mentais:
“[...] o alongamento foi muito importante para colocar o fluido para circular” (CRI VLP 05, F, 75 anos).
“[...] fico atento para a questão de manter uma ati-vidade física melhor possível” (SEME 07, M, 70 anos).
Melhora da qualidade de vida e saúde mental
A procura por equilíbrio emocional e a melhora do bem-estar psicológico foi destacada como uma das razões para integrar os grupos de AF. Alguns partici-pantes relataram que a atividade funcionava como uma válvula de escape para lidar com problemas pessoais:
“[...] faz bem para o psicológico” (USF RT 03, F, 70 anos).
“[...] aí eu voltei de novo, porque eu vi que alguma coisa não tava legal” (CRI VLP 03, F, 73 anos).
Os participantes observaram uma melhoria signi-ficativa na qualidade de vida e no bem-estar mental após ingressar nos grupos, relatando uma redução no estresse e na sensação de isolamento:
“[...] eu tenho depressão, foi ótimo” (UATI 01, F, 70 anos).
“[...] acaba servindo pra mim como uma espécie de...terapia” (SEME 07, M, 70 anos).
Estrutura e a função das relações
Em torno de 38% da rede de suporte social dos partici-pantes são de membros do grupo de AF, sendo citado em média três membros do grupo de AF para cada um par-ticipante. Os resultados do Diagrama de Escolta foram organizados em três círculos de proximidade. No Círculo 1 (mais próximo), os participantes indicaram os familia-res (58,4%) e participantes do grupo de AF (28,1%). Já no Círculo 2 (intermediário) foram indicados familiares (43,2%) e integrantes do grupo de AF (33,3%). No Cír-culo 3 (mais distante) evidenciou-se maior concentração de integrantes do grupo de AF (66,7%).
Sobre as características das pessoas pertencentes à rede de suporte social dos participantes, os resultados mostram que a maioria tem entre 60 e 80 anos (55,1%), com predominância feminina (87%). Em relação aos vínculos, 66,7% relatam entre 1 e 9 anos de convivên-cia, marcados por proximidade geográfica, com 62,3% morando a menos de uma hora de distância. Em re-lação à frequência de contato, 50,7% mantêm intera-ções diárias. A maioria dos vínculos são definidos como amizade (89,9%), laços familiares (2,9%) ou relações professor-aluno (7,2%).
Em relação à funcionalidade da rede de suporte social, 97,1% dos participantes relataram ser respeitados, 91,3% indicaram que são tranquilizados e estimulados, 89,9% se sentem seguros para confidenciar, 87,0% sentem que podem ser cuidado em situação de doença, e 91,3% podem conversar quando está triste, nervoso ou deprimido. A importância da reciprocidade reflete-se no bem-estar emocional das pessoas idosas, pois a rede de suporte social é um fator protetivo importante, es-pecialmente durante o processo de envelhecimento.
Discussão
Os achados demonstram como a participação em grupos de AF se relaciona positivamente à função e es-trutura da rede de suporte social das pessoas idosas, refletindo diretamente nos objetivos deste estudo de investigar os benefícios das interações sociais. Os resul-tados evidenciam a centralidade dos laços de amizade e a frequência das interações como elementos funda-mentais para o bem-estar físico, emocional e psicoló-gico10. Assim, a confiança expressa pelos participantes em solicitar ajuda, observada neste estudo, sugere que os grupos de AF atuam como um ambiente de suporte emocional e instrumental, protegendo contra os efeitos negativos associados à falta de apoio social.
Essa contribuição é relevante ao campo do envelhe-cimento saudável, ao corroborar que os grupos de AF e esporte adaptado atuam como importantes espaços de convivência e fortalecimento de vínculos, oferecen-do um modelo intersetorial capaz de integrar saúde, assistência social e lazer15. Dessa forma, os resultados agregam novas perspectivas ao conhecimento científico, reforçando a importância de políticas públicas que fo-mentem o envelhecimento saudável e ativo por meio de estratégias de suporte social com grupos de convivência.
Os resultados deste estudo dialogam com a Teoria da Seletividade Socioemocional, segundo a qual as pessoas idosas tendem a priorizar vínculos mais significativos e afetivos à medida que percebem o tempo como um re-curso finito16,17. Os achados também mostraram que, em-bora familiares ainda desempenhem um papel relevante no primeiro círculo de proximidade, os amigos e os par-ticipantes dos grupos de AF emergem como elementos centrais nos círculos intermediários e mais distantes16,17.
Essa redistribuição dos laços sociais reflete não ape-nas uma redução natural e quantitativa das redes com o envelhecimento, mas uma ressignificação qualitativa das relações, na qual a convivência proporcionada pe-los grupos de AF se torna um espaço de acolhimento, motivação, suporte emocional e social, ao passo que proporcionam conforto e segurança em momentos difíceis18. Em um cenário de envelhecimento popula-cional, esses resultados destacam a importância de se investir em programas que fomentem vínculos sociais afetivos e de qualidade19.
A proximidade e a frequência de contato emergem como elementos essenciais para fortalecer vínculos so-ciais, oferecendo suporte emocional e prático que impacta diretamente a saúde mental e a funcionalidade física das pessoas idosas. Esse contato regular, observa-do neste estudo, não apenas reduz o isolamento social, um fator crítico para o risco de depressão e declínio cognitivo20, mas também proporciona um ambiente favorável à construção de interações significativas que estimulam o engajamento e a autoestima. Além disso, a convivência constante e o apoio mútuo entre os partici-pantes dos grupos de AF podem atuar como uma rede protetiva, promovendo resiliência emocional e melho-rando a capacidade de enfrentar desafios do cotidiano, como perdas familiares ou limitações funcionais21.
Do ponto de vista físico, a presença frequente em atividades coletivas tende a aumentar a adesão a práti-cas regulares de exercício físico, com impactos positivos sobre a funcionalidade, mobilidade e independência das pessoas idosas22. Esses achados ressaltam a neces-sidade de intervenções futuras que incentivem pro-gramas intersetoriais de convivência e AF, garantindo espaços que estimulem a regularidade das interações e consolidem redes de apoio sólidas, especialmente em contextos de vulnerabilidades23.
As categorias identificadas por meio da análise qualitativa foram encontradas tanto na investigação da motivação quanto dos benefícios. Essa convergên-cia sugere que as expectativas dos participantes ao in-gressar nos grupos foram amplamente atendidas, o que pode explicar o alto nível de engajamento e a frequência regular de comparecimento. Esses dados quantitativos reforçam a importância de compreender os objetivos dos participantes para garantir o sucesso, a aderência e a continuidade dos programas.
Os integrantes desses grupos ocupam uma posição significativa na rede de suporte social dos participantes, com destaque na predominância de vínculos de ami-zade e interações diárias. Além disso, os participantes indicaram que membros do grupo são seus contatos em casos de emergência, o que reforça uma relação para além da amizade, consolidada na confiança. A amplia-ção de vínculos, evidenciada pelo diagrama de escolta, foi corroborada pelos relatos qualitativos, que desta-cam o papel das amizades e do acolhimento como fa-tores-chave para a redução do isolamento e da solidão. Estudos indicam que o suporte social está associado a uma melhor adaptação à velhice, impactando positiva-mente a saúde física e mental24-26.
Os benefícios percebidos em termos de qualidade de vida e saúde mental destacam a importância dos gru-pos de AF como espaços de cuidado integral. Segundo os relatos, a prática de AF foi vista como uma forma de terapia, contribuindo para o bem-estar psicológico, es-pecialmente relevante para os participantes que vivem sozinhos e podem ser mais suscetíveis ao isolamento social27-29. No contexto deste estudo, as interações so-ciais promovidas pelos grupos de AF e esporte adapta-do podem ser vistas como análogas a essas atividades, funcionando como um espaço de engajamento ativo e fortalecimento de laços interpessoais.
Conforme apontado pelo presente estudo, as ativi-dades físicas grupais são oferecidas em equipamentos de saúde, assistência social, educação e esporte, con-templando todas as regiões do município, cenário esse que se alinha ao que se preconizam as diretrizes de Aging In Place30, que defende a importância de se enve-lhecer no local e usufruir das potências da comunidade, promovendo, a partir de colaborações multissetoriais e interdisciplinares.
Essa estratégia promove a convivência entre pessoas idosas, garantindo inclusão social, autonomia e a sus-tentabilidade da rede de apoio, fatores que contribuem para o envelhecimento saudável - especialmente para aqueles em situação de vulnerabilidade. Nesse sentido, o desenvolvimento de ambientes de apoio próximos às moradias é crucial, pois permite que os idosos mante-nham suas habilidades funcionais em seus ambientes de convívio, facilitando o acesso a recursos fundamen-tais para sua qualidade de vida.
Os pontos fortes deste estudo se referem à combinação de métodos qualitativos e quantitativos, o que permite uma compreensão holística dos benefícios per-cebidos, das motivações e dos fatores contextuais que influenciam o engajamento nos grupos. A utilização do Diagrama de Escolta é um avanço metodológico, por evidenciar a estrutura e a funcionalidade da rede de su-porte social dos participantes, destacando como as in-terações nos grupos de AF e esporte adaptado desem-penham papel central no fortalecimento de vínculos afetivos e no combate ao isolamento social. Além disso, os dados baseados em auto relatos podem refletir per-cepções subjetivas e exigem maior aprofundamento em estudos futuros com metodologias complementares.
O presente estudo apresenta algumas limitações. O perfil sociodemográfico da amostra é relativamente homogêneo, composta majoritariamente por mulhe-res, com alto nível de escolaridade, e renda superior a dois salários-mínimos, limitando a generalização dos resultados, devido às características homogêneas e ao tamanho da amostra. Outra limitação significativa diz respeito ao foco em grupos localizados em equipamen-tos públicos e instituições urbanas específicas. Embora válidos, esses contextos excluem experiências de pes-soas idosas residentes em áreas rurais, periféricas ou regiões com infraestrutura pública deficiente, onde o acesso a programas de AF é frequentemente limitado. Por fim, auto relatos podem refletir vieses, uma vez que os participantes tendem a enfatizar aspectos positivos da experiência, influenciados por dinâmicas sociais ou pela busca de validação pessoal.
Futuras pesquisas devem ampliar a diversidade da amostra, incluindo pessoas idosas de diferentes gêne-ros, níveis socioeconômicos e contextos geográficos, permitindo uma compreensão mais abrangente dos im-pactos dos grupos de AF em realidades variadas. Novas investigações devem considerar a implementação de intervenções adaptadas, como programas itinerantes, parcerias com organizações locais ou formatos híbridos que combinam encontros presenciais e virtuais. Além disso, estudos que analisem a rede de suporte social an-tes e após a participação em programas de AF a longo prazo podem contribuir na área.
Como conclusão, os resultados deste estudo evidenciam que a participação em grupos de AF vai além dos benefícios físicos, contribuindo para o fortalecimento e estrutura e a função das redes de suporte social das pes-soas idosas, promovendo o fortalecimento de vínculos significativos. Além disso, os achados indicam elemen-tos de um modelo de programa de AF em grupo que atende as necessidades biopsicossociais de pessoas mais velhas, como as atividades serem presenciais, em grupo, com um professor liderando, e que, além de atividades físicas, oferece momentos de debates, passeios, eventos sociais e culturais, e atividades voltadas ao fortaleci-mento de vínculos, conforme relato dos participantes.
Esses elementos podem inspirar implicações práticas para o desenvolvimento de políticas de promoção da prática de AF grupal, a serem implementadas em outras localidades, serviços públicos e privados, assim como componentes a serem incorporados em estudos de intervenção com pessoas idosas da comunidade, com foco na multidimensionalidade do envelhecimen-to. Também, poderão auxiliar na formulação e refor-mulação de programas com objetivo de promoção de AF, estabelecendo intervenções multissetoriais e inter-disciplinares, e fortalecendo o debate sobre a impor-tância de espaços, projetos e programas que fomentam a criação de vínculos e consolidação de novas conexões na rede de suporte social.
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Financiamento
Esta pesquisa foi apoiada pelo Projeto de Extensão parceria en tre o Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos e o Ministério da Saúde.
Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo
Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial para elaboração do manuscrito.
Agradecimentos
Projeto de Extensão parceria entre o Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos e o Ministério da Saúde.
Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Editor Chefe
Átila Alexandre Trapé Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.
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Editor Associado
Emerson Sebastião University of Illinois Urbana-Champaign, Urbana, Estados Unidos.








