Open-access Promoção de um estilo de vida ativo e saudável em usuários da Atenção Primária à Saúde no Brasil: um estudo do Programa VAMOS com base na ferramenta RE-AIM

RESUMO

Objetivo:  Foi avaliar a adoção, o alcance e a efetividade do Programa Vida Ativa Melhorando a Saúde (VAMOS, versão 2.0) implantado na Atenção Primária à Saúde de diferentes regiões do Brasil.

Métodos:  Trata-se de uma intervenção comunitária composta por 12 encontros conduzidos por profissionais de saúde, com avaliações realizadas no baseline e pós-intervenção. Resultado: A taxa de adoção pelos profissionais foi de 72,7% (n = 8). O alcance das estratégias de recrutamento foi de 0,34% (n = 231), o alcance da intervenção foi de 61% (n = 141) e a taxa de retenção dos participantes foi de 75,8% (n = 107). Observou-se aumento no tempo dedicado à atividade física total, redução do comportamento sedentário, melhora no consumo de alimentos saudáveis, redução da circunferência da cintura e aumento da percepção positiva de qualidade de vida (p < 0,05).

Conclusão:  O Programa VAMOS apresentou taxas elevadas de adoção e alcance, além de efetividade na promoção de mu-danças positivas em atividade física, alimentação saudável, medidas corporais e percepção positiva da qualidade de vida, evidenciando seu potencial como estratégia de promoção da saúde na Atenção Primária.

Palavras-chave:
Saúde pública; Promoção da saúde; Estilo de vida; Comportamento.

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the adoption, reach, and effectiveness of the Active Life Improving Health Program (Programa Vida Ativa Melhorando a Saúde - VAMOS, version 2.0) implemented in Primary Health Care across different regions of Brazil.

Methods:  This community-based intervention con-sisted of 12 sessions conducted by health professionals, with assessments performed at baseline and post-intervention.

Results:  The adoption rate among professionals was 72.7% (n = 8). The reach of the recruitment strategies was 0.34% (n = 231), the intervention reach was 61.0% (n = 141), and the participant retention rate was 75.8% (n = 107). Increases were observed in total physical activity time, reductions in sedentary behavior, improvements in healthy food consumption, decreases in waist circumference, and enhanced perceived quality of life (p < 0.05).

Conclusion:  The VAMOS Program demonstrated high adoption and reach rates, as well as effectiveness in promoting positive changes in physical activity, healthy eating, body measurements, and perceived quality of life, highlighting its potential as a health promotion strategy within Primary Health Care.

Keywords:
Public health; Health promotion; Lifestyle; Behavior.

Introdução

As doenças e agravos não transmissíveis têm afetado aproximadamente 70% da população mundial1. Entre os fatores de risco comportamentais modificáveis, destacam-se a inatividade física e alimentação inadequa-da, que constituem as principais causas associadas às doenças e agravos não transmissíveis2. Em decorrência disso, políticas públicas têm direcionado esforços para promover mudanças no estilo de vida, com ênfase no incentivo à promoção da atividade física e ao consumo de alimentos saudáveis3. No entanto, no Brasil, 37% da população adulta não atingem níveis adequados de atividade física, e 78,6% não consomem a quantidade mínima de frutas e hortaliças recomendada pela Orga-nização Mundial da Saúde4.

Intervenções no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) têm recebido prioridade nas agendas de promoção da saúde. Neste contexto, diversas metas têm sido estabelecidas, incluindo o desenvolvimento de programas comunitários voltados à promoção da ati-vidade física e da alimentação saudável3,5. A literatura aponta que aproximadamente 54% desses programas abordam essas duas temáticas6, no entanto, há dificul-dades em quantificar o impacto dessas intervenções na saúde pública. Tal limitação, ocorre, sobretudo, devido à insuficiência de informações relativas à avaliação de fatores considerados essenciais, como a adoção dessas intervenções pelos profissionais da saúde, o alcance das ações na população-alvo e a efetividade dos programas7.

O Programa Vida Ativa Melhorando a Saúde - VAMOS (versão 2.0) é uma intervenção comunitária voltada à promoção de um estilo de vida ativo e saudá-vel. Sua abordagem fundamenta-se na educação como elemento central para mudança de comportamento, com ênfase nas práticas de atividade física e alimen-tação saudável8. Sua efetividade já foi comprovada em diferentes contextos9-11. No entanto, o processo de ado-ção organizacional, o recrutamento da população-alvo e alcance da intervenção ainda carecem de investigação no âmbito da APS, dado que esses fatores influenciam diretamente na efetividade do programa.

Desta forma, o objetivo deste estudo foi avaliar as dimensões da ferramenta RE-AIM12: adoção, alcance e efetividade, considerando a implantação do Programa VAMOS (versão 2.0) na APS de diferentes regiões do Brasil.

Métodos

Trata-se de um estudo de intervenção comunitária desenvolvido entre 2017-2019 em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de diferentes regiões do Brasil. O proje-to foi aprovado previamente pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (parecer nº 1.394.492, protocolo nº 475075/2012-9), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina.

O protocolo de intervenção - Programa VAMOS (versão 2.0) - foi direcionado para adultos e idosos, sem aplicação de critérios de exclusão pelos multiplicadores ou da equipe responsável pela condução do estudo. A intervenção consistiu em 12 encontros presenciais rea-lizados de forma semanal ou quinzenal, ao longo de três a cinco meses, com acompanhamento de manu-tenção após 12 meses do término da intervenção8. O programa baseou-se na metodologia de educação em saúde e foi conduzido por um profissional da saúde (multiplicador), previamente capacitado por meio do “Treinamento On-line para Multiplicadores do Pro-grama VAMOS”13.

O multiplicador que aceita implantar o programa em seu local de trabalho recebe gratuitamente o mate-rial didático (12 cadernos com conteúdo sobre ativida-de física e alimentação saudável) e o material de divul-gação (cartazes, flyers, cartões de visita) para convidar a comunidade. Para a implantação do VAMOS, foram encaminhados convites para 44 profissionais da saúde, certificados pelo treinamento on-line, que atuavam na APS em diferentes regiões do país. Esses profissionais foram capacitados durante a formação on-line e, após avaliação e aprovação, certificados como multiplicado-res do Programa VAMOS13. Após o aceite do convite por parte do profissional, os materiais de divulgação fo-ram enviados. Em todos os locais, utilizou-se o mesmo período para divulgação da intervenção (15-30 dias) e as mesmas estratégias: fixação de cartazes nas UBS e em locais da comunidade, convite verbal aos usuários realizados pelos profissionais das equipes de saúde, en-trega de cartões de visita durante as consultas e distri-buição de flyers pelos agentes comunitários de saúde em centros comunitários, igrejas e visitas domiciliares.

O monitoramento da intervenção foi realizado à distância pela equipe de pesquisa do VAMOS direta-mente com os multiplicadores. A comunicação entre pesquisadores e multiplicadores ocorreu por meio de contato telefônico e e-mail. Para a coleta dos dados re-ferentes as características dos participantes no baseline e no pós-intervenção, os multiplicadores receberam um vídeo explicativo sobre o preenchimento dos for-mulários on-line (Google Forms®). Todos os multipli-cadores e participantes do estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido após a leitura do documento.

Para estimar o impacto na saúde pública, o progra-ma VAMOS utiliza a ferramenta RE-AIM, que avalia as ações em cinco dimensões: adoção, alcance, efetivi-dade, implementação e manutenção da intervenção7. Neste estudo foram analisadas a adoção organizacional, o alcance e a efetividade do programa.

A adoção refere-se a uma medida em nível orga-nizacional de participação, que considera o número absoluto, relativo e a representatividade dos locais e/ ou profissionais interessados em implementar uma in-tervenção, em comparação com os elegíveis. A taxa de adoção dos profissionais foi obtida pela divisão do nú-mero de profissionais que ofertaram a intervenção pelo número de profissionais elegíveis, multiplicada por 100.

Para avaliar o alcance do programa, foram calcula-das três taxas distintas. Considerando os participantes do estudo, foi calculada uma taxa referente às estraté-gias de recrutamento da intervenção, obtida pela divi-são do número de usuários que manifestaram interesse em participar da intervenção pelo número de usuários potencialmente elegíveis (expostos à divulgação), multiplicado por 100.

O alcance da intervenção, por sua vez, constitui uma medida em nível individual de participação, que leva em conta o número absoluto, relativo e a represen-tatividade dos indivíduos que aceitaram participar em comparação com os elegíveis. A taxa de alcance foi ob-tida pela divisão do número de usuários que iniciaram a intervenção pelo número de elegíveis, multiplicado por 100. Além disso, foi calculada a taxa de retenção dos participantes, correspondente à divisão do número de usuários que concluíram a intervenção pelo número de usuários que a iniciaram, multiplicada por 100.

A efetividade refere-se a uma medida em nível indi-vidual e avalia o impacto da intervenção sobre os des-fechos primários analisados. Neste estudo, as variáveis foram examinadas a partir das avaliações realizadas no baseline e no pós-intervenção. Os participantes foram avaliados por meio de um questionário14 desenvolvido especificamente para avaliar os marcadores primários (nível de atividade física e comportamento alimentar) e os marcadores secundários (circunferência da cintura e percepção da qualidade de vida) do Programa VA-MOS.

O nível de atividade física foi mensurado pelo “International Physical Activity Questionnaire - IPAQ”, versão curta15, que estima o tempo despendido (minu-tos/semana) em comportamento sedentário e em ati-vidade física total (soma das atividades realizadas de intensidade moderada e vigorosa).

O comportamento alimentar foi avaliado por 12 questões extraídas do inquérito “Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por In-quérito Telefônico”4. Para análise, foi gerado um escore geral de alimentação saudável a partir da soma dos ali-mentos, variando de zero a cinco pontos, em que os es-cores mais altos indicam comportamentos alimentares mais saudáveis. As respostas consideram a frequência de consumo de determinados alimentos, categorizadas em: “nunca; quase nunca; 1 a 2 dias por semana; 3 a 4 dias por semana; 5 a 6 dias por semana; todos os dias” (incluindo sábado e domingo).

A circunferência da cintura foi aferida com fita mé-trica inelástica, com precisão de 0,1 cm, posicionada entre o ponto médio da última costela e a crista ilía-ca, seguindo o protocolo da International Society for the Advancement of Kinanthropometry16.

A percepção da qualidade de vida foi analisada pela questão “Considerando as duas últimas semanas, como você avaliaria a sua qualidade de vida?” extraída do questionário WHOQOL BREF17. As opções de resposta foram “muito ruim”, “ruim”, “nem ruim nem boa”, “boa” e “muito boa”. A partir disso, calculou-se o percentual de participantes com qualidade de vida negativa (muito ruim ou ruim) ou positiva (nem ruim nem boa, boa e muito boa).

Na análise descritiva, as variáveis contínuas foram expressas em média e desvio padrão, enquanto as ca-tegóricas foram apresentadas em frequência absoluta e relativa. Na análise inferencial, a distribuição dos dados foi verificada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Para a comparação dos dados do baseline e do pós-inter-venção, aplicaram-se o teste t de Student para amos-tras pareadas e o teste de Wilcoxon. Adotou-se nível de significância de 5% em todas as análises. Os dados foram analisados no software Statistical Package for the Social Science (SPSS®), versão 22.0 e a variável quali-dade de vida foi analisada pelo software MedCalc®, versão on-line. Todas as análises foram conduzidas por protocolo, ou seja, considerando apenas os participan-tes avaliados nos dois momentos do estudo (baseline e pós-intervenção).

Resultados

Adoção

Foram convidados 44 profissionais da saúde, certifica-dos pelo treinamento on-line, para implantar o progra-ma VAMOS. Destes, 23 não retornaram aos e-mails e 10 não aceitaram por diferentes motivos: afastamento de maternidade (n = 1), férias e/ou desligamento do serviço (n = 7) ou impossibilidade em razão de outras atividades da agenda na UBS (n = 2). No total, 11 pro-fissionais demonstraram interesse em implantar a intervenção na UBS onde estavam vinculados. Após o envio dos materiais de divulgação, oito profissionais da saúde efetivamente implantaram o programa, corres-pondendo a uma taxa de adoção de 72,7%.

O VAMOS foi implantado em municípios da re-gião Sul (n = 4), Sudeste (n = 2) e Nordeste (n = 2). Entre os oito municípios, três eram considerados de pequeno porte (2.617 a 3.527 habitantes), dois de mé-dio porte (12.609 a 62.263 habitantes), e três de grande porte (138.572 a 157.743 habitantes). Os profissionais de saúde eram das áreas da Educação Física (n = 4), Psicologia (n = 2), Nutrição (n=1) e Fisioterapia (n=1), com tempo médio de atuação na APS de 3,5 anos (DP = 2,0). A maioria eram mulheres (62,5%; n = 5), casados (62,5%; n = 5), com média de idade de 36,5 anos (DP = 5,5) e renda entre 5 e 10 salários-mínimos (62,5%; n = 5).

Alcance

A população-alvo do estudo compreendeu usuários de oito UBS (n = 66.706). A taxa de alcance das estraté-gias de recrutamento foi de 0,34% (n = 231). Destes, 141 iniciaram o programa, resultando em uma taxa de alcance da intervenção de 61%. Ao final da interven-ção, a retenção foi de 75,8% (n = 107) (Figura 1).

Figura 1
Taxas de recrutamento, alcance e retenção dos participantes do Programa VAMOS (versão 2.0) na Atenção Primária à Saúde, Brasil, 2019.

Dos 107 participantes do programa, a maior pro-porção foi de mulheres (93,4%; n = 100), na faixa etá-ria entre 18 a 40 anos (42,9%; n = 46), da cor parda (48,6%; n = 52), casadas (54,2%; n = 58), ensino médio completo (31,7%; n = 34), baixa renda (de 1 a 2 salá-rios-mínimos) (34,5%; n = 37) e economicamente ati-vos (35,1%; n = 38).

Efetividade

A Tabela 1 apresenta os dados da avaliação no baseli-ne e no pós-intervenção em cada UBS, considerando os marcadores do Programa VAMOS. De forma geral, observou-se aumento estatisticamente significante no tempo despendido em atividade física total, redução no tempo total de comportamento sedentário, melho-ra no consumo de alimentos saudáveis, diminuição da circunferência da cintura e melhora na percepção da qualidade de vida (p < 0,05).

Tabela 1
Efetividade do Programa VAMOS (versão 2.0) na Atenção Primária à Saúde (n = 103), Brasil, 2019.

Em relação à atividade física, participantes de sete UBS aumentaram o tempo total de prática. A mé-dia semanal passou de 1.105,9 minutos/semana (DP = 1.239,8) no baseline para 1.351,2 minutos/semana (DP = 1.455,5), no pós-intervenção, representando um aumento de 22,3 %. Em quatro UBS (UBS 1, UBS 6, UBS 7 e UBS 8), 50% dos participantes aumentaram o tempo total despendido em comportamento sedentá-rio, embora sem significância estatística. Considerando a média geral, o tempo em comportamento sedentário reduziu de 492,8 minutos/semana (DP = 268,0) para 482,0 minutos/semana (DP = 247,4).

No que se refere ao comportamento alimentar, ve-rificou-se melhora estatisticamente significativa nas escolhas alimentares em pelo menos 75% dos parti-cipantes das UBS. O escore de alimentação saudável aumentou de 31,7 pontos (DP = 6,5) no baseline para 34,1 pontos (DP = 5,3) no pós-intervenção.

Outro marcador utilizado no programa é a medida da circunferência da cintura. Em 75% das UBS houve redução após a intervenção. A média passou de 90,4 centímetros no baseline para 88,6 centímetros no pós-intervenção, representando uma diminuição de 2%, ainda que discreta, porém um efeito positivo.

Por fim, na percepção da qualidade de vida, obser-vou-se melhora em 87,5% das UBS. O percentual de participantes que relataram qualidade de vida positiva aumentou de 61,2% (n = 63) no baseline para 80,6% (n = 83) no pós-intervenção, correspondendo a um au-mento de 19,4% nos participantes do VAMOS.

Discussão

A implementação do Programa VAMOS demonstrou resultados positivos nas três dimensões avaliadas. Na adoção, dos 44 profissionais de saúde convidados, oito efetivamente implantaram a intervenção, resultando em uma taxa de 72,7%, distribuídos em diferentes re-giões do país e com diversidade de formações. Quanto ao alcance, o programa envolveu usuários de oito UBS, atingindo 231 interessados, dos quais 141 iniciaram e 107 concluíram a intervenção (retenção de 75,8%), com predominância de mulheres, pardas, casadas, de baixa renda e escolaridade média. Na dimensão da efetividade, observaram-se ganhos significativos, in-cluindo aumento do tempo de atividade física, redução do comportamento sedentário, melhora nas escolhas alimentares, diminuição da circunferência da cintura e melhora da percepção positiva da qualidade de vida, indicando impacto relevante tanto em marcadores ob-jetivos quanto subjetivos de saúde.

Adoção

As informações sobre a taxa de adoção e as caracterís-ticas das organizações que concordaram em implantar uma intervenção são fundamentais, pois influenciam diretamente o processo de implementação, especial-mente quando se trata de diferentes contextos7. A li-teratura não apresenta consenso quanto aos pontos de corte para uma boa taxa de adoção, sendo que essa dimensão depende da realidade local. Estudos de in-tervenções comunitárias que utilizaram o modelo REAIM encontraram taxas de adoção organizacional variando entre 28%18 e 100%19.

Além disso, a quantidade de itens reportados so-bre essa dimensão pode diferir significativamente. Em uma revisão sistemática, apenas 25% dos estudos apresentaram dados relacionados à adoção, sendo os itens mais reportados nos artigos: descrição do público-alvo (57%); critérios de inclusão e exclusão (17%); descri-ção do local da intervenção (33%); taxa de participação (15%) e método utilizado nos estudos (9%)20. Outra re-visão sistemática que avaliou programas de mudança de comportamento no Brasil indicou que apenas 17% dos estudos relataram elementos da adoção, 37% descreve-ram a equipe e 23% detalharam o local da intervenção6.

No presente estudo, não houve interesse em im-plantar o Programa VAMOS por profissionais de saúde das regiões Norte e Centro-Oeste. Na região Norte, não foi certificado nenhum multiplicador, enquanto na região Centro-Oeste, nenhum dos dois profissionais certificados adotou o programa. Os principais motivos relatados pelos profissionais foram a falta de disponibi-lidade para implantar a intervenção e falta de apoio da gestão/equipe de saúde.

O desenvolvimento de ações na APS depende do engajamento da gestão, das equipes de saúde e da in-fraestrutura disponível. O modelo lógico do programa prevê a sua inserção em diferentes contextos8 e oferece um treinamento on-line gratuito, destinado a capacitar profissionais da saúde de qualquer UBS do país. Essa formação funciona como ferramenta de facilitação, permitindo o desenvolvimento de ações de promo-ção da saúde em diferentes regiões e contextos, além de apoiar a formação continuada dos profissionais de saúde e fortalecer a implementação de estratégias que promovem a promoção da saúde pública21.

Dados de monitoramento do Ministério da Saúde indicam que a maioria das ações na APS concentrase nas regiões Nordeste (35,8%), Sudeste (31,2%) e Sul (19%), enquanto as regiões Norte e Centro-Oes-te apresentam os menores percentuais, entre 6 e 8%22. Assim, estratégias especificas envolvendo gestores e profissionais de saúde destas regiões são necessárias para ampliar a implementação de ações inovadoras de promoção à saúde.

Portanto, a adoção organizacional é uma dimensão central para potencializar intervenções comunitárias, aumentar o alcance populacional e ampliar o impacto maior na saúde pública7.

Alcance

Conhecer o alcance de um programa é fundamental para compreender como uma intervenção pode ser aprimorada a fim de aumentar o número de pessoas contempladas7. Uma revisão sistemática de estudos in-ternacionais revelou que 89% deles apresentaram in-formações sobre esta dimensão23. Na América Latina, outra revisão identificou que aproximadamente 90% dos estudos relataram dados sobre o alcance20. No con-texto nacional, de acordo com a revisão citada7, 61% dos 26 estudos avaliados incluíram informações sobre o alcance, sendo os itens mais descritos: população-alvo (96%), método de identificação (64%) e taxa de parti-cipação (38%).

Um estudo realizado na região Sul do Brasil, envol-vendo 146 municípios, investigou o alcance de inter-venções de atividade física na saúde pública. Os resulta-dos apontaram que 56,8% dos municípios registraram menos de 100 usuários nas intervenções de atividade física, 13,7% tiveram entre 100 e 199 usuários, 17,8% tiveram entre 200 a 400 pessoas, e somente 6,2% rela-taram mais de 500 participantes. A média de alcance foi de 3,8%24. Diferentemente desses estudos, o presen-te estudo apresentou três taxas de alcance, destacando não apenas a população que participou do estudo de intervenção, mas também as taxas de alcance das es-tratégias utilizadas de recrutamento da população-alvo.

Assim como ocorre com a dimensão da adoção, o alcance é influenciado por diferentes contextos. Em-bora não haja consenso na literatura quanto aos crité-rios ideais de alcance, a ferramenta RE-AIM orienta o planejamento e a condução das ações na saúde pública. Para que os resultados sejam positivos, é necessário que a organização contemple todas as dimensões do REAIM, uma vez que é essencial para a efetividade e a sustentabilidade de uma intervenção7.

Efetividade

Com relação à efetividade, embora seja possível que as pessoas alterem hábitos de atividade física, aumentan-do os níveis diários, há dificuldade em reduzir o com-portamento sedentário23. De forma geral, pesquisas que utilizaram protocolos semelhantes apresentaram resul-tados consistentes. Mesmo com aumento do nível e do tempo dedicados à atividade física, os participantes do programa VAMOS tendem a aumentar principalmen-te os níveis de atividades leves em suas rotinas, com redução mínima do comportamento sedentário9,11.

A literatura aponta o comportamento sedentário como um fator de risco à saúde, independentemente da prática de atividade física. Revisão sistemática de-monstrou forte associação entre o tempo sentado e a mortalidade por todas as causas em adultos, mesmo entre as pessoas fisicamente ativas25.

Com relação ao comportamento alimentar, estu-dos anteriores11,26, que utilizaram os protocolos seme-lhantes, ainda que com estratégias de implementação diferenciadas, observaram resultados consistentes na população de adultos e idosos. O programa VAMOS baseia-se no “Guia Alimentar para a População Brasileira”, abordando aspectos que vão desde a escolha até o preparo dos alimentos mais saudáveis, incentivando maior consumo de frutas e verduras e alimentos in na-tura ou minimamente processados ao mesmo tempo em que reduz o consumo de alimentos processados e ultraprocessados. Os dados deste estudo corroboram os achados anteriores9,27, mostrando aumento no consu-mo de alimentos in natura e água, e redução no consu-mo de sal, açúcar e óleo.

Políticas e programas voltados à alimentação saudável da população brasileira têm sido implementados no Brasil, com mais de 70% das ações realizadas no Siste-ma Único de Saúde28. Para a atividade física, observouse um aumento de 1,9 vezes nos polos do Programa de Academia Saúde entre 2015 (856) e 2017 (1.664)22, reforçando estratégias que buscam desenvolver com-petências individuais, promover ações coletivas e criar ambientes alimentares diversos e saudáveis29.

A circunferência da cintura está associada direta-mente ao consumo alimentar e ao comportamento sedentário, sendo uma medida central para avaliar o risco de doenças cardiovasculares da síndrome meta-bólica30. No contexto do programa VAMOS, os des-fechos secundários, como a circunferência da cintura, são avaliados para monitorar efeitos da intervenção e apoiar os profissionais de saúde no acompanhamento do risco cardiovascular.

Por fim, a percepção da qualidade de vida, embora subjetiva e influenciada por vários fatores externos, é utilizada como parâmetro para avaliar os efeitos adver-sos e o impacto das intervenções em saúde pública7. No estudo11, que aplicou o mesmo protocolo em usuá-rios da APS de Belo Horizonte, observou-se aumento aproximado de 20% na percepção da qualidade de vida.

O programa VAMOS estimula a autoconfiança e a autonomia de seus participantes, promovendo mudan-ças no estilo de vida e, como consequência direta, me-lhorias na qualidade de vida. Este marcador constitui um resultado relevante da intervenção, especialmente sob a perspectiva da saúde pública, por fornecer uma avaliação crítica do impacto do programa20.

Embora a literatura enfoque predominantemente a efetividade dos programas, considerando a proba-bilidade do sucesso da implementação, é igualmente essencial avaliar os resultados relacionados a outras di-mensões, fundamentais para a sustentabilidade dessas intervenções e replicação em diferentes contextos31. A ferramenta RE-AIM tem demonstrado aplicabilidade para avaliar intervenções em múltiplas realidades, permitindo a projeção dos efeitos sobre todos os envol-vidos no programa, desde os agentes multiplicadores até os participantes, bem como sobre os benefícios das ações implementadas.

Apesar de inédito, por apresentar um protocolo adaptável e contemplar populações de diferentes re-giões do país, o estudo apresenta algumas limitações. Entre elas, destacam-se a ausência de coleta de dados qualitativos junto aos gestores, multiplicadores e par-ticipantes do programa, a inexistência de grupo con-trole para comparar a efetividade e a falta de medidas objetivas para avaliar a atividade física. Esses fatores poderiam qualificar ainda mais as análises, reforçando o potencial do programa VAMOS 2.0 como estraté-gia promissora de promoção da saúde na realidade da Atenção Primária brasileira.

Algumas lacunas permanecem, como a não participação das regiões Norte e Centro-Oeste e a baixa adesão do público masculino ao Programa VAMOS. Embora relevantes, essas questões não foram aborda-das nas dimensões analisadas neste estudo.

Podemos concluir no presente estudo, que o Pro-grama apresentou taxas elevadas nas dimensões de adoção e alcance, além de efetividade na promoção de mudanças positivas em atividade física, alimentação saudável, medidas corporais e percepção da qualidade de vida. Assim, o Programa VAMOS (versão 2.0) pro-porcionou alterações nos marcadores avaliados, refle-tindo diretamente na melhoria da condição de saúde dos participantes, demonstrando potencial para ser in-corporado como estratégia de promoção da saúde em diferentes cenários da Atenção Primária.

  • Financiamento
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES).

Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo

Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial para elaboração do manuscrito.

Agradecimentos

À Secretaria Municipal de Saúde dos municípios pela colaboração na implementação do Programa VAMOS nas Unidades Básicas de Saúde. Aos gestores, aos profissionais das equipes de saúde, aos multiplicadores e aos usuários da APS envolvidos nesse estudo.

Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

  • Editor Chefe
    Átila Alexandre Trapé Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.
  • Editora de Seção
    Maria Cecilia Marinho Tenório University of Illinois Urbana-Champaign, Illinois, Estados Unidos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    31 Jan 2025
  • Revisado
    25 Abr 2025
  • Aceito
    06 Nov 2025
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