Open-access “Seja Ativo”: contradições na parceria entre Federação Internacional de Futebol e Organização Mundial da Saúde

RESUMO

Da parceria entre a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022, foi lançada a campanha Be Active (“Seja Ativo”), que busca incentivar a prática de atividades físicas, especialmente entre crianças e adolescentes. Mesmo que as instituições de grande porte tenham papel importante na disseminação de ações em saúde, o presente texto traz reflexões sobre as contradições quanto aos seus compromissos com a proteção à saúde, que são motivadas, sobretudo, por aspectos econômicos. A principal delas está no contraste entre as relações históricas entre a FIFA e as indústrias de commodities insalubres, que patrocinam seus megaeventos há mais de 50 anos e os esforços da OMS em recomendar a formulação de políticas mais assertivas para pro-teger crianças e adolescentes dos impactos do marketing alimentar, bem como seu apoio ao debate sobre os determinantes comerciais da saúde. O texto também traz reflexões sobre questões de outros domínios, como o étnico-racial e o político. Por fim, a partir destes pontos de contradição quanto aos compromissos da FIFA e da OMS em relação a proteção à saúde, que são permeadas, sobretudo, por prerrogativas econômicas, cabe indicar, sob o enfoque da promoção da atividade física, e, por consequência, da saúde, que esta parceria não se sustenta, recomendando-se que a OMS se afaste de entidades que, em suas práticas, não prezam pela saúde e equidade.

Palavras-chave:
Educação em saúde; Organização Mundial da Saúde; Conflito de interesses; Futebol.

ABSTRACT

In 2022, the partnership between the Fédération Internationale de Football Association (FIFA) and the World Health Organization (WHO) launched the “Be Active” campaign, which seeks to encourage physical activity, especially among children and adolescents. While large institutions play an important role in disseminating health initiatives, this text reflects on the contradictions regard-ing their commitments to health protection, which are primarily driven by economic factors. The main contradiction lies in the contrast between FIFA’s historical relationship with the unhealthy commodity industries that have sponsored its mega-events for over 50 years, and the WHO’s efforts to recommend more assertive policies to protect children and adolescents from the impacts of food marketing, as well as its support for the debate on the commercial determinants of health. The text also reflects on issues in other domains, such as ethnicity, race, and politics. Finally, based on these points of contradiction regarding the commitments of FIFA and WHO to health protection, which are primarily driven by economic prerogatives, it is worth noting, from the perspective of promoting physical activity and, consequently, health, that this partnership is unsustainable. It is recommended that the WHO distance itself from entities that, in their practices, do not prioritize health and equity.

Keywords:
Health Education; World Health Organization; Conflict of interest; Soccer.

Da parceria entre a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022, foi lançada a campanha Be Active (“Seja Ati-vo”), com a finalidade de incentivar a prática de ativida-des físicas, especialmente entre crianças e adolescentes1. Mesmo reconhecendo o importante papel das institui-ções de grande porte em campanhas desta natureza, o presente texto traz reflexões sobre as contradições quanto aos seus compromissos com a proteção à saúde, que são motivadas, sobretudo, por aspectos econômicos.

De início, cabe posicionar o futebol como um fenô-meno multidimensional, que envolve, para além do âm-bito esportivo, elementos culturais, sociais, econômicos e políticos2. Esta complexidade justifica, em boa parte, a forte influência dos megaeventos da FIFA em escala global, que se conferem como ótimas oportunidades para a divulgação de mensagens e marcas. Na Copa do Mundo de Clubes masculinos (CMC), ocorrida nos Estados Unidos da América entre junho e julho de 2025, mensagens da Be Active, como “Kids need to be active for 60 minutes per day” (“As crianças precisam ser ativas por 60 minutos por dia”) e “Get moving. Stay ac-tive. Play football” (“Movimente-se. Mantenha-se ativo. Jogue futebol”) foram recorrentemente veiculadas nas placas de publicidade de todas as 63 partidas.

Contudo, por trás da aparente preocupação, a parceria entre a FIFA e a OMS é permeada por contra-dições, em que as intencionalidades dos discursos de proteção à saúde divergem das ações institucionais, re-fletindo questões, sobretudo, de ordem econômica. A principal delas está no contraste entre as relações his-tóricas entre a FIFA e as indústrias de commodities in-salubres (e.g., cujos principais produtos causam danos significativos à saúde, como bebidas açucaradas, tabaco, álcool e alimentos ultraprocessados)3, que patrocinam seus megaeventos há mais de 50 anos, e os esforços da OMS em recomendar a formulação de políticas mais assertivas para proteger crianças e adolescentes dos im-pactos do marketing alimentar4.

Para além dos produtos destas indústrias de commodities insalubres, que são diretamente associados ao aumento do risco de doenças crônicas que constituem a maior carga de morbimortalidade em nível global e à maior parte da mortalidade precoce5, a OMS tam-bém denuncia práticas comerciais destas insdústrias4, que aumentam a demanda e o consumo de produtos, e, dessa forma, se posicionam como um tema signifi-cativo no debate sobre os determinantes comerciais da saúde, cujos impactos podem amplificar os danos e de-sigualdades em saúde no nível global3.

Na contramão do movimento que culminou na elaboração de uma política antitabagista, que, dentre os avanços, prevê a restrição de propaganda e consumo nos estádios de futebol, a FIFA aceita a veiculação de marcas de indústrias de bebidas açucaradas e alcoólicas, que, por sua vez, aproximam-se dos megaeventos fute-bolísticos não apenas visando a disseminação das suas marcas em grande escala, mas também ao que é co-nhecido como sportswashing (“lavagem da imagem pelo esporte”) aproveitando-se de toda mobilização positiva da sociedade quanto ao fenômeno esportivo1. Da mes-ma forma, mesmo que não seja objetivo do presente texto - mas tema pertinente para futura análise - também vale indicar a presença das casas de apostas nos megaeventos da FIFA, tal como observado na CMC. É uma contradição central permitir que estas empresas patrocinem esportes que são os seus principais objetos de aposta e, além disso, vale destacar as apostas esporti-vas como um fenômeno crescente, que está associado à diferentes indicadores negativos de saúde6.

Mesmo com a intensificação da pressão de acadê-micos7 e dos movimentos sociais para que a FIFA rom-pa relações com as indústrias de commodities insalubres, mais especificamente de bebidas açucaradas e alcoóli-cas, a partir de campanhas mundiais, como a “Kick Big Soda Out” (“Tirem o Refrigerante de Campo”), sua re-tirada dos megaeventos esportivos parece não ser uma tarefa simples, considerando-se o poderio econômico que lhes possibilita atingir as altas cotas de patrocínio propostas pela principal entidade futebolística. Por ou-tro lado, as referidas milionárias cotas desvelam mais uma importante contradição relacionada ao aspecto econômico, uma vez que a FIFA se posiciona, em esta-tuto, como uma organização sem fins lucrativos8.

Complementarmente, as indústrias de commodities insalubres também exercem forte lobby junto aos to-madores de decisão governamentais, o que lhes permite um elevado grau de interferência em políticas relacio-nadas. No Brasil, por exemplo, resgata-se o Projeto de Lei 4.910, apresentado em abril de 2016, que tinha como objetivo regular a propaganda de bebidas com alto teor de açúcar em competições esportivas nacio-nais. Sendo alvo de emendas e críticas, o projeto foi retirado pelo autor em agosto de 2017. O posiciona-mento desfavorável do Comitê Olímpico do Brasil ao Projeto de Lei9 é um indicativo da dificuldade em se afastar essas indústrias dos megaeventos esportivos.

Além da questão econômica, a CMC também traz consigo uma contradição na temática antirracista. Em-bora a FIFA tenha a campanha No Discrimination10 (“Sem Discriminação”), que culminou na criação e adoção de protocolos antirracistas, a tentativa de ali-nhamento político-econômico com os Estados Unidos da América pode ter sido um fator impeditivo à veicu-lação destes materiais nas partidas do torneio11. E este não é um alinhamento pontual, uma vez que os Esta-dos Unidos da América (em parceria com seus pares norte-americanos, Canadá e México) também sedia-rão jogos da Copa do Mundo de seleções masculinas, em 2026. Por outro lado, na linha de proteção à saúde, a OMS ao compreender que raça/cor se constituem como determinantes da saúde, traz forte mensagem antirracista sobre equidade em saúde12.

E, como último ponto de contradição, também se questiona o apoio da OMS à uma instituição que pos-sui um conturbado histórico em outras esferas, como nos casos de corrupção13 e aproximações com regimes teocráticos, que buscam, a partir do sportswashing, des-viar a atenção do número de acidentes e mortes en-volvendo trabalhadores migrantes, da corrupção, das políticas discriminatórias contra a comunidade LGB-TQIA+ e dos danos ambientais14. A OMS vem sendo alvo de críticas por incorporar valores neoliberais, que comprometem sua credibilidade, já que acaba por ficar, de algum modo, refém dos interesses de seus parceiros, que nem sempre estão alinhados à visões e práticas fo-cadas no bem público15.

Por fim, a partir destes pontos de contradição quanto aos compromissos da FIFA e da OMS em relação a proteção à saúde, que são permeadas, sobretudo, por prerrogativas econômicas, cabe indicar, sob o enfoque da promoção da atividade física, e, por consequência, da saúde, que esta parceria deveria ser repensada, reco-mendando-se que a OMS se afaste de entidades que, em suas práticas, não prezam pela saúde e equidade.

Declaração quanto ao uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de escrita do artigo

Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial para elaboração do manuscrito.

Preprint

O manuscrito foi publicado anteriormente como pré-impressão.

Nome do servidor de Preprints: Scielo Preprints

DOI do Preprint: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints. 12626

Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Referências bibliográficas

Editado por

  • Editor Chefe
    Atila Alexandre Trapé Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
  • Editor Associado
    Debora Bernardo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo, São Paulo, Brasil.

Avaliador A:

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Avaliador A:

  • Foi observado algum indício de Plágio no manus-crito?

    Não

  • Os autores forneceram esclarecimentos sobre os procedimentos éticos adotados para a realização da pesquisa?

    Em partes

Comentários ao autor

Prezados(as), Como estão?

  • A proposta do texto é interessante e original. Con-tudo, entendo que é necessário refletir um pouco sobre os elementos apresentados e repensar os obje-tivos. Muitos tópicos foram incrementados, porém senti falta de um seguimento lógico e cadencial. Ainda, senti falta de um caminho metodológico que delimita o ensaio teórico.

  • Deixei alguns comentários com o intuito de auxiliar na reflexão crítica do texto e potencializá-lo.

  • Abraços!

Comentários no texto:

Título:

  • Linha 4: Sugiro repensar se vale a pena deixar as duas siglas FIFA e OMS ou colocar por extenso. Quando se apontam convergências e divergências, seria em que área ou domínio? Ao longo do texto percebe-se que são relacionadas aos fatores e alguns determinantes em saúde. Porém, entendo que po-deria já estar delimitado no título.

Resumo/Abstract:

  • Página 1, linha 12: Sugiro utilizar o termo em português e incluir mais uma frase para conceituar o que é a campanha “Seja ativo”.

  • Página 1, linha 12-14: O objetivo está amplo na parceria em si entre as duas instituições. E ao longo do texto, isso está refletido também. Sugiro refor-mular o objetivo com base no texto e em algumas das relações estabelecidas entre as partes. Talvez se delimitar um pouco mais, o texto consiga apontar elementos que cumpram esse objetivo.

  • Página 1, linha 18: Visualizo que aqui seja um fa-tor principal deste texto. Determinantes comerciais e sociais em saúde e como isso está envolvido na campanha Be Active, que estimula um estilo de vida mais ativo e saudável e como é divergente do fo-mento e da presença dessas indústrias ao redor dos ambientes esportivos.

  • Página 1, linha 19: Outros pontos e outras prerroga-tivas. Sugiro que o objetivo seja mais sólido em seu objetivo, no arcabouço metodológico e em sua con-clusão. Da forma como está, me parece que fica vago.

  • Página 1, linha 20: Essa parte também reflete o tex-to estendido. Deixo para os autores refletirem: O texto visa abordar a atividade física, o estilo de vida ativo e saudável, as condicionalidades em saúde, os determinantes sociais ou comerciais em saúde ou a equidade? Não que estejam segregados nas relações socioculturais, porém no texto isso se mistura e se confunde e, ao mesmo tempo, não fica evidente a mensagem que o texto quer emergir.

Corpo do texto

  • Página 2, linha 1: Sugiro iniciar o texto introduzin-do o que é o Be Active.

  • Página 2, linha 12: Sugiro também conceituar e dar exemplos.

Parecer final (decisão)

  • Revisões substanciais necessárias.

  • recomendação de revisão por pares: aceito

Histórico

  • review-report-received
    29 Dez 2025

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

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