Open-access Pesquisa: relevância social, cooperação e abertura a aprendizagem

IV TEMA - PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO

Pesquisa: relevância social, cooperação e abertura a aprendizagem

Anna Maria Campos

EBAP/FGV

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como motivação básica redirecionar a pesquisa em administração, tomando mais efetiva sua contribuição ao desenvolvimento. Propõe-se uma estratégia de pesquisa que procura reorientar o esforço acadêmico para o entendimento de problemas e a melhoria de condições sociais através da aproximação e do comprometimento dos pesquisadores com as comunidades pesquisadas.

Tal preocupação não é nova e tem inspirado nos últimos anos o trabalho da autora junto aos mestrandos e junto à comunidade anpadiana. Em 1979 eram apresentadas criticas à tradição positivista em pesquisa vigente nas ciências sociais e defendida a necessidade de se repensá-la em benefício da relevância prática.1 Em 1982, no mesmo fórum da Anpad, foi feita a defesa de uma estratégia alternativa e revisionista.2 Por outro lado, esta preocupação não é exclusiva da autora. Dentro da mesma linha e afinadas com os mesmos propósitos, estão as propostas de Ruchelman3 e Fals-Borda;4 mais longe no tempo, a proposta de Wright Mills para um "artesanato intelectual",5 as contribuições da teoria crítica e as propostas de pesquisa-ação. Mais próximas no espaço as considerações de "qualidade de vida" já feitas por Hamburger.6

Este trabalho não traz, portanto, uma proposta inovadora. Procura apenas reforçar uma velha mensagem e suscitar mais uma vez o debate em torno de sua aplicação ao contexto dos programas de pós-graduação em administração. A insistência deve ser entendida como sinal de comprometimento da autora com a idéia defendida e, mais ainda, como o desejo de difundi-la junto à comunidade acadêmica.

No desenvolvimento do trabalho são articuladas as bases da alternativa proposta e suas vantagens. A seguir são apresentadas algumas dificuldades à sua implementação. Finalmente, se traz a experiência de aplicação da proposta a nível do ensino de metodologia de pesquisa na EBAP.

2. BASES DA ESTRATÉGIA ALTERNATIVA PROPOSTA E SUAS VANTAGENS

Dos pontos básicos em que se fundamenta a proposta, ressalta em primeiro lugar a busca de relevância do trabalho de pesquisa social, entendida como relevante a pesquisa que contribua para a definição e o alcance de objetivos de desenvolvimento compatíveis com o bemestar individual e coletivo, para entendimento da realidade sócio-econômica, política e institucional em transformação. Essa busca de relevância orienta a preocupação com as relações entre teoria social e prática social e leva à fusão entre o interesse científico e o interesse social. Neste sentido, a pesquisa em administração estaria necessariamente na categoria de pesquisa aplicada. O grande desafio da pesquisa em administração pública seria a produção e/ou organização e reorganização do conhecimento com vistas ao aperfeiçoamento da ação governamental, à interpretação das necessidades a serem atendidas e á busca de respostas mais adequadas e inovadoras às clientelas.

Como segundo ponto, é contestada a neutralidade do pesquisador e ressaltados o seu compromisso social e político, as dimensões morais e ideológicas da sua participação. Recomenda-se ao pesquisador a preocupação em identificar a quem o seu trabalho beneficia, a que interesse serve, que valores orientam e são fortalecidos pelo resultado do seu esforço.

Associada à noção revista de compromisso viria a redefinição de objetividade. Em pesquisa social o pesquisador é ele mesmo uma variável importante. Suas suposições a respeito da natureza humana, da natureza da realidade em estudo, do conhecimento, entre outras, influenciam a definição dos problemas, a escolha do método, a maneira de interpretar os dados. Objetividade em pesquisa social implica estar consciente e alerta para o impacto da inevitável subjetividade do observador sobre os fenômenos estudados. Requer que o pesquisador reconheça e faça conhecidos os condicionamentos do ambiente a que esteve exposto (social, académico e profissional), sua orientação ideológica, sua moldura de valores, seus sentimentos e inquietudes. Requer ainda que seus vieses sejam claramente enunciados aos consumidores do seu trabalho. No desenvolvimento do projeto a nova estratégia repudia a distancia emocional e defende um envolvimento na ação.

Como terceiro püar da proposta, um novo conceito e uma nova atitude diante do conhecimento. Valoriza-se igualmente o conhecimento obtido através da educação formal e no dominio da ciencia e o conhecimento informal, a sabedoria acumulada pela vivencia, a experiencia das situações práticas, procurando combinar diferentes perspectivas, desde a própria definição de problemas de pesquisa. Reconhece-se que há algo mais além da observação sensorial na experiência humana e que isso também pode ser acrescentado ao estoque de conhecimento.

No processo de busca e interpretação dos dados, não só o que é testável é importante. Por isso devem-se combinar metodologias objetivas e.subjetivas na aproximação da realidade focalizada.

Outro ponto básico da proposta diz respeito ao caráter colaborativo e participativo da pesquisa social. Tal participação, no entanto, não deve ter uma abordagem previdenciária ou paternalista por parte dos pesquisadores que detêm a competência teórica e metodológica. Antes de tudo, requer a "demolição" da superioridade atribuída ou assumida pelos que detêm tais competências. De acordo com a proposta, menor nível educacional ou falta de domínio das técnicas não significam incompetência, nem para identificar problemas nem para buscar soluções. O caráter colaborativo só é realmente alcançado se estabelecida uma interação igualitária entre "cientistas" e "leigos". Essa interação favorece a combinação de diferentes competências, incorporando recursos valiosos não alcançados pelas práticas tradicionais de pesquisa e ainda propicia a transferência aos novos parceiros de técnicas simples que lhes garantiriam condições de esforço continuado e auto-sustentado mesmo após o "final" dos projetos.7

A proposta pretende, portanto, que o manancial de competências à disposição da pesquisa social seja enriquecido pela cooperação entre os que detêm o conhecimento científico e os que detêm o conhecimento informal, pela fertilização entre competências em teoria e métodos e competências geradas a partir da prática. Deve ficar bem claro que não se propõe abrir mão nem desconsiderar conceitos e teorias gerados no contexto acadêmico. Apenas reconhece-se à ciência social um caráter não absoluto e sim cultural. As teorias podem servir para facilitar a aproximação de situações específicas, mas não como idéias rígidas. Até mesmo as teorias desenvolvidas a partir de outras realidades podem ser úteis. Devem ser usadas, porém, de forma não-dogmática, dandose a devida consideração à dimensão histórica e cultural.8

O esforço de pesquisa orientado por esta estratégia alternativa pode parecer pouco ambicioso de acordo com os padrões vigentes na comunidade científica, pois não alimentaria a formulação de generalizações teóricas universais. Entretanto, na medida em que se valoriza o entendimento de situações específicas e a busca de respostas adequadas a cada situação, é inegável a sua ambição de contribuir para um novo nível de prática, fundamentado numa compreensão mais completa da realidade social e mais sensível ás condições específicas das comunidades-clientes da administração. Por outro lado, caberá sempre aos cientistas sociais a tarefa de reflexão, integração e articulação entre o particular e o geral.

Ainda que a maior parte das vantagens tenha sido de alguma forma apresentada na defesa de seus pontos básicos, há que se acrescentar a abertura das possibilidades de aprendizagem e ainda o caráter bilateral dessa aprendizagem. A nova concepção e a nova atitude diante do conhecimento levam a uma situação em que todos sabem e todos podem aprender uns com os outros. A compreensão da realidade resulta de um contato direto e aberto entre pesquisador e pesquisandos e o conhecimento gerado dessa interação cooperativa resulta mais completo do que se baseado unicamente na visão do pesquisador.

A possibilidade de aprendizagem é aberta ao longo de todo o processo e não apenas ao final. O projeto de pesquisa em si é "orgânico". Ele fornece uma orientação inicial; é propositadamente incompleto, deve ser reajustado e readequado ao longo da própria execução. Isso é bem diferente da prática vigente, onde projetos "fechados" só permitem que a aprendizagem ocorra ao final do processo.

Muitas críticas são feitas à universidade pelo seu distanciamento da realidade e pela inutilidade prática do conhecimento. Na nova estratégia, esse problema seria sanado na medida em que se aceita uma redefinição do saber social e se procede a uma nova conjugação de saberes no desenvolvimento de pesquisas voltadas a contribuir para um novo nível de prática, para uma teoria social adequada ao contexto .cultural, capaz de entender e atender as diversidades e as peculiaridades locais. No caso específico da pesquisa e da prática de administração pública, a universidade agiria como agente facilitador da aproximação entre agências governamentais e suas clientelas, contribuindo para o aperfeiçoamento dos processos de identificação de problemas, geração e escolha de alternativas de ação e de avaliação de políticas e programas.

Na verdade, essa estratégia alternativa de pesquisa, como parte de uma proposta mais ampla de um modelo alternativo de planejamento, propiciaria inúmeras revisões nos procedimentos de política e administração públicas.9

3. DIFICULDADES PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA PROPOSTA

Neste item serão identificadas as dificuldades para o estabelecimento de uma relação de cooperação e intercâmbio entre a administração pública como campo de conhecimento e a administração pública como campo de exercício profissional, com vistas ao aperfeiçoamento da prática, ao desenvolvimento da teoria e, em última análise, ao melhor atendimento das clientelas-alvo. Serão ainda tentativamente explorados alguns caminhos para que o esforço de pesquisa passe a contribuir para o atendimento de necessidades práticas e para a produção de um conhecimento relevante.

Não se pretendeu esgotar as dificuldades nem as formas de contorná-las. Ao contrário, espera-se que a discussão das idéias apresentadas estimule a identificação de outras não antecipadas, bem como sugestões para contomar tais dificuldades.

A implementação da estratégia alternativa de pesquisa proposta suscita, antes de tudo, uma série de revisões na atuação das universidades e das organizações da administração pública, sem as quais não será possível a institucionalização das oportunidades de intercâmbio de experiências e conhecimentos entre acadêmicos e profissionais da administração pública. A pesquisa orientada para problemas sociais deve ter por suporte a experiência compartilhada e a combinação de saberes entre pesquisadores e praticantes. A sensibilidade dos pesquisadores para questões relevantes supõe uma vivência ou familiaridade com as condições da realidade social que os cerca.

Não são muitas as oportunidades institucionalizadas de intercâmbio de experiências e saberes entre acadêmicos e praticantes nem é freqüente a realização de trabalhos conjuntos.

O clima do relacionamento entre as partes - quando existente - está longe daquele ideal de cooperação e respeito mútuo. É antes um clima de desconfiança;as relações propiciadas pelas experiências de consultoria não se dão num clima igualitário e aberto à aprendizagem. Na maior parte das intervenções de consultoria, o consultor chega muito mais para ensinar do que para aprender e o consultado, descrente daquele saber "de fora", pouco ou nada dele se beneficia.

As barreiras ao estabelecimento da interação cooperativa e igualitária são encontradas tanto nas organizações prestadoras de serviços públicos como nas organizações educacionais.10

É fácil vender a idéia de que é necessário ampliar a participação de professores e alunos nas organizações públicas e nas comunidades em geral. É menos fácil criar e manter mecanismos formais de incentivo ou, pelo menos, remover os desestímulos a tal participação. Sem estímulos formais não será possível atrair para a universidade a contribuição de profissionais e clientes da administração pública nem se conseguirá a participação mais intensa dos professores e estudantes no cenário onde nascem e se confrontam demandas e nas organizações' que supostamente as atenderiam. Como exemplo de obstáculo coloca-se a ausência de mecanismos formais de permuta, por tempo determinado, entre praticantes e professores de administração pública. Tanto o poder executivo como o poder legislativo poderiam intercambiar recursos humanos com a universidade, sem ônus para qualquer das partes e com amplo potencial de benefícios para os indivíduos permutados, para as organizações permutantes e para suas clientelas. Além da institucionalização de programas de intercâmbio entre universidades e o governo federal, com governos estaduais e locais, haveria que se adequar os sistemas de incentivos e recompensas de forma a não trazer aos participantes do intercâmbio nenhuma perda (para o salário ou para a carreira). Pelo contrário, o interesse pessoal pelas oportunidades de intercâmbio deveria ser estimulado pelo sistema de recompensas institucionais.

Os critérios de decisão para alocação de recursos a pojetos de pesquisa - quer pela universidade quer pelas organizações públicas de fomento à pesquisa - deveriam ser revistos tendo em vista cobrar dos pesquisadores maior relevância,11 maior clareza da importância do seu projeto para o entendimento e/ou solução de problemas e menor clareza e antecipação de técnicas e instrumentos a serem utilizados. Os projetos de natureza exploratória, descritiva ou analítica, ainda que menos estruturados, podem ser mais ricos como oportunidade de aprendizagem do que os testes de hipóteses e os experimentos controlados.

Deveria ser dado maior apoio aos projetos que abrem espaço para a troca de conhecimentos e experiências, para os que prometem maior impacto sobre as condições da comunidade pesquisada.

A universidade poderia ser ainda melhor aproveitada,na tarefa de avaliação de políticas públicas, sem que isso implicasse perda da sua autonomia e do seu papel crítico.

São muito precárias as disposições - quer por parte das escolas quer do setor público - para a criarão de estágios orientados para estudantes de pós-graduação, dando-lhes oportunidades de explorar a realidade social e identificar temas relevantes em tomo dos quais desenvolveriam suas monografias de mestrado.12

Caberia às escolas não só a orientação dessas experiências como o reconhecimento de tal esforço pela concessão de créditos. Caberia às organizações o uso e desenvolvimento adequado das competências dos estagiários.

Reconhece-se que este é um caminho difícil e que a experiência semelhante a nível de graduação nunca foi bem-sucedida por falhas de ambas as partes. A assimilação de profissionais e membros da comunidade pela universidade nas atividades de ensino e pesquisa também não tem sido devidamente explorada, quer pelas próprias barreiras formais impostas pelo sistema,13 quer pela natureza episódica dessa cooperação.

Mesmo convivendo com essas limitações, há um espaço nos programas de pós-graduação que deve ser avidamente aproveitado para que os esforços de pesquisa desenvolvidos pelos mestrandos em suas monografias sejam consoantes com os. ideais de relevância aqui defendidos.

A nível do ensino de metodologia de pesquisa, cabe um redirecionamento no sentido de estimular desde cedo o interesse dos estudantes em desenvolver projetos que se enquadrem na proposta de relevância e a atitude cooperativa na busca e geração de conhecimento.

No próximo item será examinada a experiência da autora junto aos mestrandos da EBAP nos últimos três anos. A experiência dos dois anos anteriores, dentro desta mesma linha, foi apresentada em outro trabalho.14

4. EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE METODOLOGIA DE PESQUISA NO MESTRADO DA EBAP

O ensino de metodologia de pesquisa no mestrado da EBAP tem procurado incorporar, dentro das limitações vigentes, as orientações da estratégia alternativa proposta. Procura-se, sobretudo, voltar o trabalho de pesquisa para problemas sentidos pelo mestrando. A competência em identificar, selecionar problemas carentes de entendimento ou solução e de traduzi-los em questões de pesquisa é considerada mais importante do que o virtuosismo metodológico.

Em se tratando de uma disciplina com quatro créditos, com um trimestre de duração, optou-se por enfatizar os quês, por quês e para quês da pesquisa, sem por isso descuidar dos comos. Entende-se também que o trabalho de formar o pesquisador não se inicia, nem tampouco se completa, ao longo do trimestre15.

Os encontros em classe e as atividades extraclasse são planejados de forma a desenvolver um conjunto de competências traduzidas nos objetivos da disciplina. Embora não se possa estabelecer uma relação um-a-um entre atividades e objetivos, algumas atividades voltam-se mais predominantemente para um certo grupo de objetivos.

A primeira parte do curso - aproximadamente um terço do tempo - é dedicada a leituras de textos selecionados, tarefas escritas sobre as leituras, debates em classe e, eventualmente, exposições. Nessa primeira parte procura-se levar os mestrandos a: a) conhecer e avaliar dimensões de pesquisa social e seu potencial de contribuição a um melhor atendimento das necessidades sociais; b) explorar, discutir e avaliar diferentes estratégias de pesquisa em ciências sociais e em administração pública; c) aumentar o conhecimento sobre o método científico, explorando suas possibilidades e limitações na pesquisa social em geral e na administração pública em particular; d) refletir sobre o papel e as responsabilidades do pesquisador perante a sociedade e perante a comunidade académica; e) conhecer as potencialidades da pesquisa-ação para o estudo e a prática de administração pública.

Nos outros dois terços do programa desenvolvem-se tarefas e atividades voltadas predominantemente para: a) desenvolver uma atitude cooperativa entre pesquisadores, entre pesquisadores e administradores, entre pesquisadores e pesquisandos; b) desenvolver a capacidade de aplicar teorias e métodos no entendimento e solução de problemas práticos; c) explorar oportunidades de aplicação da pesquisa-ação; d) identificar as principais etapas do processo de pesquisa social e sua aplicação à administração pública; e) desenvolver habilidades de elaborar, apresentar e julgar projetos de pesquisa de interesse da administração pública.

Nessa etapa, que explora enfaticamente a dimensão cooperativa, os alunos são levados a desempenhar o duplo papel de pesquisadores, pela elaboração de um projeto de pesquisa individual e de apoiadores dos esforços de pesquisa dos colegas em atividades de grupo. As reuniões em classe são usadas para relato de experiências e elucidação de dúvidas. A consulta aos professores da escola é estimulada e a busca de bibliografia relevante para a substância do projeto é parte essencial do esforço.

O ponto de partida dessa fase é a escolha de um problema e sua delimitação, tendo em mente um limite temporal de execução entre seis e 12 meses. Desde a escolha tentativa do problema o aluno deve preparar-se para justificar a escolha, seja em termos de importância para uma organização ou para uma comunidade, seja em termos da contribuição ao desenvolvimento de sua competência profissional. A idéia é que ninguém parta para um projeto sem ter bastante claro o problema que o orienta ou inspira; que haja uma preocupação com a relevância do trabalho e, mais ainda, que cada aluno seja capaz de articular uma justificativa consciente para o investimento de recursos em tomo do projeto proposto.

Essas propostas são discutidas a nível de grupo de apoio e da classe (incluindo a professora), focalizando os aspectos de relevância e viabilidade.

Segue-se a identificação da(s) modalidade(s) de pesquisa mais adequada(s) à natureza do problema, a busca de literatura relevante e a escolha de um referencial teórico adequado ao problema. O processo de troca entre a "comunidade de pesquisadores" que se instala no grupo é muito estimulado. A partir daí, o aluno, apoiado pelo inventário de competências próprias, do grupo e da escola, parte para a versão preliminar do seu projeto, que constitui outra tarefa. Essa versão é apresentada ao grupo de apoio, que tem como tarefa apresentar comentários aos projetos examinados.

A tarefa final consiste no aperfeiçoamento da versão preliminar incorporando os comentários dos "consultores".

Com pequenas adaptações, a partir da própria reação dos alunos, a disciplina tem-se desenvolvido neste formato nos três últimos anos (1981-83). A EBAP não pretende vender o seu modelo de ensino de metodologia, dado que essa é uma experiência ainda em teste e que requer ela mesma um esforço de avaliação dos seus resultados. Não há ainda como afirmar que a experiência fez diferença em termos da produção de monografias.16 Há, no entanto, um sentido compartilhado de que se tem conseguido desmistificar a pesquisa, desvinculando o aspecto de relevância do de complexidade. Alguns projetos desenvolvidos na disciplina, com alguns refinamentos, têm originado projetos de monografia. Quanto menos não seja, a aprendizagem favorecida pela disciplina e a vivência de elaboração e discussão de projetos gera uma experiência essencial ao trabalho de pesquisa para a monografia.

5. CONCLUSÃO

Quem apresenta propostas tem por obrigação tentar implementá-las. Dadas as próprias características da proposta (cooperação e abertura â aprendizagem) as tentativas de implementação devem ser compartilhadas. Da troca de experiências - bem ou mesmo malsucedidas - resultará o aperfeiçoamento das ações de pesquisa e a aproximação gradual da sonhada relevância.

Com essa motivação foi produzido este trabalho. Dada a ambição dos objetivos da proposta, não se pensou alcançá-los, mas avançar na sua busca, mesmo sabendo que a tarefa é mterminável. Sempre haverá o que aprender, o que trocar, sobre o que refletir.

Referências bibliográficas

  • 11 Seminário sobre o Ensino de Pesquisa nos Programas de Pós-Graduação em Administração. Porto Alegre, Anpad.maio 1979.
  • Ver: 'Vieira, P. R. & Campos, A. M. Em busca de uma metodologia de pesquisa relevante para a administração pública. Revista de Administração Pública, 14(3):101-10, jul./set. 1980.
  • 3 Ruchelman, L. Managing change through action-research: the role of the university. The Bureaucrat, Winter 1978.
  • 5 Mills, C. W. A imaginação sociológica. 4. ed. Rio de Janeiro, Zahar. 1975.
  • 6 Hamburger, P. L. Considerações sobre "qualidade de vida" no processo decisório: impacto sobre as entidades públicas e privadas. Revista de Administração de Empresas, 15(2), mar./abr. 1975.
  • 8 Sobre isso já nos falava Guerreiro Ramos ao propor a "redução sociológica" como estratégia na busca de soluções para atender realidades concretas peculiares sem abrir mão do que foi conquistado pêlo esforço universal na ciência social (Guerreiro Ramos, A. A redução sociológica. Rio de Janeiro, MEC/Iseb, 1958).
  • 9 Campos, A. M. Um novo modelo de planejamento para uma nova estratégia de desenvolvimento. Revista de Administração Pública 14(3):27-45, jul./set. 1980.
  • 1
    Seminário sobre o Ensino de Pesquisa nos Programas de Pós-Graduação em Administração. Porto Alegre, Anpad.maio 1979. Ver: 'Vieira, P. R. & Campos, A. M. Em busca de uma metodologia de pesquisa relevante para a administração pública.
    Revista de Administração Pública, 14(3):101-10, jul./set. 1980.
  • 2
    II Seminário de Pesquisa em Administração. Painel sobre Alternativas Políticas e Metodologias paia a Pesquisa em Administração. Porto Alegre, Anpad, junho 1982.
  • 3
    Ruchelman, L. Managing change through action-research: the role of the university.
    The Bureaucrat, Winter 1978.
  • 4
    Fals-Borda, O. The challenge of action-tesearch. In:
    Development: seeds of change. DID, 1981. 1.
  • 5
    Mills, C. W.
    A imaginação sociológica. 4. ed. Rio de Janeiro, Zahar. 1975.
  • 6
    Hamburger, P. L. Considerações sobre "qualidade de vida" no processo decisório: impacto sobre as entidades públicas e privadas.
    Revista de Administração de Empresas, 15(2), mar./abr. 1975.
  • 7
    Dentro dessa tônica colaborativa seria revista a condição de "objeto" de pesquisa atribuída aos membros da comunidade/ organização focalizada nos esforços de pesquisa.
  • 8
    Sobre isso já nos falava Guerreiro Ramos ao propor a "redução sociológica" como estratégia na busca de soluções para atender realidades concretas peculiares sem abrir mão do que foi conquistado pêlo esforço universal na ciência social (Guerreiro Ramos, A.
    A redução sociológica. Rio de Janeiro, MEC/Iseb, 1958).
  • 9
    Campos, A. M. Um novo modelo de planejamento para uma nova estratégia de desenvolvimento.
    Revista de Administração Pública 14(3):27-45, jul./set. 1980. Como modelo tentava-se integrar o planejamento central e a participação da comunidade na administração pública para o desenvolvimento, intensificando as oportunidades de aprendizagem e transformação sociais.
  • 10
    É possível que essas barreiras sejam menos fortes nas relações entre as escolas de administração de empresas e as empresas do que entre as escolas de administração pública e organizações públicas.
  • 11
    Os projetos de pesquisa tradicionalmente defendem a relevância teórica, o potencial de contribuição à construção de teorias, não necessariamente a contribuição ao aperfeiçoamento da prática.
  • 12
    Coerente com esta proposta, a Anpad apresentou um projeto à Semor em 1979; da formulação do projeto participou a autora. Desnecessário dizer que o projeto não recebeu resposta.
  • 13
    Entre elas, a exigência de titulação, refletindo a crença institucionalizada na superioridade do conhecimento formal.
  • 14
    Vieira, P. R. & Campos, A. M.
    op. cit.
  • 15
    Assume-se que os alunos em seus cursos de graduação tenham tomado conhecimento dos métodos e técnicas convencionais de pesquisa. Fornecem-se antecipadamente uma bibliografia e uma listagem desses tópicos, para fins de nivelamento. Não há intenção de esgotar os objetivos definidos para o curso. Ao contrário, procura-se deslanchar um processo que ganhe continuidade e auto-sustentação após o final do curso.
  • 16
    A maior parte das pessoas que passaram pela nova orientação não teve ainda seus prazos esgotados para apresentar monografia.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      25 Jun 2013
    • Data do Fascículo
      Dez 1984
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