Open-access Em qual Matrix Você Quer Viver?

Ainda me lembro como se fosse hoje do espanto que senti ao ver Neo despertando pela primeira vez de seu sono em um mundo dominado por máquinas superinteligentes, no qual a única função humana era… funcionar como bateria.

Figura 1
Linha do tempo de filmes sobre ‘futuros possíveis’.

A arte nos ensina muito. Entre criações extraordinárias, mundos utópicos e futuros assustadores, o tempo foi passando e chegamos a 2025. Já ultrapassamos, em cronologia, os ‘futuros’ de Blade Runner e De Volta para o Futuro II, entre muitos outros.

Mais interessante que isso é pensar que as evoluções tecnológicas já tornaram possíveis muitas utopias… e distopias. Biotecnologia, nanotecnologia, inteligência artificial e robótica já nos permitem prever o comportamento das pessoas, interagir com robôs que se parecem e se comportam como humanos, ser quem quisermos em mundos virtuais, terceirizar a busca de informações e a tomada de decisão…

A Tabela 1 resume um pouco dessa conexão entre arte e futuro, apresentando alguns filmes emblemáticos que tratam de futuros que já ultrapassamos (ou estamos prestes a ultrapassar) cronologicamente.

Tabela 1
Enredos sobre ‘Futuros Possíveis’ e o que imaginaram.

Apesar de tecnologias fascinantes e efeitos visuais de tirar o fôlego, o que nos cativa nessas histórias são as relações, os dilemas e as emoções humanas. A relação de Marty e Doc, Sarah e John Connor, Neo, Trinity e Morpheus…

Escolhi começar falando dessa ideia dos futuros superados porque vivemos numa época em que a tecnologia avança em ritmo acelerado - como vimos, por vezes mais rápido do que a própria arte foi capaz de prever. Mas, em meio a tantas inovações, é importante lembrar que a tecnologia só faz sentido se ajudar o ser humano a ser melhor. Nem a arte, nem a ciência desejam futuros em que os seres humanos se tornem obsoletos, reduzidos a engrenagens ou meras baterias de um sistema.

Lindebaum (2025), em seu mais recente editorial para o Academy of Management Learning and Education, pergunta-se se há alguma esperança de um futuro melhor para nosso planeta (e para nós), dada a magnitude e a multitude de desafios que enfrentamos. Eu me solidarizo com sua ideia de que ensinar a ter esperança é primordial. Mas, para construirmos futuros reais e não distópicos, a discussão que precisamos travar hoje não é apenas tecnológica - é, sobretudo, ética. É sobre que futuro queremos habitar. É sobre qual humanidade queremos preservar e fortalecer.

Isto tem a ver com decisões objetivas sobre o que queremos pesquisar e como vamos pesquisar. Trabalhos recentes nos ajudam a compreender o impacto das decisões dos pesquisadores sobre avanços conceituais importantes em campos emergentes da administração.

Por exemplo, Lee et al. (2021) mostraram que a produção científica relacionada à sustentabilidade cresceu drasticamente nas últimas duas décadas. Estudos bibliométricos e bases de dados indicam uma tendência exponencial de alta no número de artigos sobre sustentabilidade, acompanhando a maior conscientização ambiental e os esforços globais de desenvolvimento sustentável (como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU).

Van Bommel et al. (2024) abordaram a evolução das pesquisas em diversidade e inclusão. É interessante destacar que os trabalhos acadêmicos sobre ambos os temas abordam o crescimento do interesse e das pesquisas, mas também mostram zonas pouco exploradas, que constituem desafios e oportunidades de pesquisas futuras. De fato, não é preciso refletir muito para compreender que ainda precisamos avançar bastante tanto em teorizações quanto em práticas para resolver os gigantescos problemas que ambas as temáticas nos apresentam. Ignorá-las seria tão somente tapar o sol com a peneira.

Figura 2
Evolução de trabalhos no tema sustentabilidade.

Figura 3
Publicações sobre diversidade e inclusão na literatura de administração e negócios, numa escala log(10).

Apesar de avanços positivos em ambas as frentes, se perdermos nossa capacidade de decidir o que queremos pesquisar e ensinar, o mundo certamente se tornará mais pobre, menos diverso… e nós teremos ficado mais parecidos com robôs.

Aqui no Brasil, seguimos entendendo que a academia é o lugar do debate franco e aberto. Que ciência se constrói desafiando paradigmas vigentes com rigor e embasamento. Que a investigação científica se torna mais forte a partir da crítica construtiva dos pares. Que a pesquisa engajada tem o compromisso de ajudar a resolver os problemas do mundo.

O papel da RAC nesse contexto é muito claro. Temos como missão contribuir na discussão dos dilemas da contemporaneidade, propiciando o avanço científico para atingimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Este foi um ajuste de escopo promovido por meu antecessor, professor Marcelo Bispo (Bispo, 2024), do qual muito nos orgulhamos. Publicamos uma revista substantiva e relevante, que aplica os princípios da pesquisa engajada na promoção de um mundo melhor.

Na RAC, acreditamos que um futuro verdadeiramente inovador, sustentável, diverso e inclusivo nasce da liberdade acadêmica. Nasce do respeito às diferenças, do debate sério, da pesquisa rigorosa e engajada. É o encontro - e, às vezes, o choque - entre visões de mundo distintas que amplia nossa capacidade de enxergar além das fronteiras do que já conhecemos.

Como dizia George Bernard Shaw: “The reasonable man adapts himself to the world; the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man”. Ou seja, o progresso não nasce da conformidade, mas da coragem de questionar, de imaginar e de transformar.

A arte, a história e a ciência já nos ensinaram há muito tempo: o totalitarismo e o autoritarismo não são soluções para os dilemas humanos - são armadilhas. Por isso, seria muito bom deixar para o passado tensões típicas do século XX, que se supunham superadas, para concentrar nossa energia nos debates e perguntas de pesquisa que realmente importam para a humanidade. Há questões novas demais, importantes demais, para a gente aceitar retrocessos que nos impedem de avançar no que interessa. A lista a seguir está longe de ser exaustiva, mas traz alguns exemplos de reflexões atuais que gostaria de ver na revista:

  • Se já sabemos que as melhores ideias nascem do conflito entre visões diferentes, como tornar essa tensão mais produtiva?

  • Como ensinar nossos alunos a lidarem com a ambiguidade e o conflito? A colaborarem em times diversos? A ‘coopetirem’ num mundo que cada vez mais exige isso deles?

  • Como gerenciar as tensões entre resultados de curto e longo prazo, sabendo que, se não entregar hoje, a organização pode não sobreviver para chegar ao futuro almejado?

  • Na mesma linha, como lidar com os escopos de decisão estreitos (investidores, clientes) e amplos (sociedade), sabendo da responsabilidade da organização com todos, mas sabendo também que priorização e trade-offs constituem a essência da estratégia?

  • Como equilibrar as tensões entre mérito e inclusão? Como ajudar as pessoas e os profissionais a se tornarem as melhores versões possíveis de si mesmos, equilibrando a vontade de evoluir com a consciência do quanto podemos e queremos contribuir?

  • Como nos livrar de uma vez por todas do mito do líder super-herói, permitindo que pessoas em posição de autoridade exerçam sua humanidade e vulnerabilidade, se sabemos que o ser humano sempre necessitou de histórias e heróis inspiradores?

Não tenho respostas para estas perguntas, mas será muito gratificante ver nossos pesquisadores, professores e alunos se debruçando sobre elas - mergulhando em centenas de artigos e elaborando milhares de perguntas de pesquisa, até encontrarem aquela que faz seus olhos brilharem.

É nas tensões que residem as respostas. Os desafios adaptativos que se impõem a nós são complexos, muitas vezes difíceis de enxergar… certamente difíceis de resolver. Não têm respostas certas e absolutas, não terão soluções únicas que se apliquem a todos os casos, não serão resolvidos rapidamente, não eliminarão as tensões humanas.

Então, qual o caminho? Há esperança?

Acredito que sim. Mas, assim como em Matrix, a pílula vermelha não oferece uma saída fácil. Mas oferece a liberdade.

Liberdade para debater com abertura, com respeito. Liberdade para construir pontes entre perspectivas diferentes - não para que vença quem grita mais alto, mas para que possamos, juntos, ver mais longe.

É essa liberdade que queremos cultivar.

É este futuro que queremos construir.

Referências bibliográficas

  • Bispo, M. S. (2024). O que queremos publicar na Revista de Administração Contemporânea. Revista de Administração Contemporânea, 28(2), e240101. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2024240101
    » https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2024240101
  • Lee, J. H., Wood, J., & Kim, J. (2021). Tracing the trends in sustainability and social media research using topic modeling. Sustainability, 13, 1269. https://doi.org/10.3390/su13031269
    » https://doi.org/10.3390/su13031269
  • Lindebaum, D. (2025). Hope. Academy of Management Learning & Education. https://doi.org/10.5465/amle.2025.0145
    » https://doi.org/10.5465/amle.2025.0145
  • Van Bommel, H. M., Hubers, F. & Maas, K. E. H. (2024). Prominent themes and blind spots in diversity and inclusion literature: A bibliometric analysis. Journal of Business Ethics, 192, 487-499. https://doi.org/10.1007/s10551-023-05522-w
    » https://doi.org/10.1007/s10551-023-05522-w
  • Financiamento
    A autora informou que não houve suporte financeiro para a realização deste trabalho.
  • Verificação de Plágio
    A RAC mantém a prática de submeter todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, mediante o emprego de ferramentas específicas, e.g.: iThenticate.
  • Disponibilidade dos Dados
    A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
  • Como citar:
    Chimenti, P. (2025). Em qual Matrix você quer viver?. Revista de Administração Contemporânea, 29(2), e250153. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2025250153.por

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Disponibilidade de dados

A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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