RESUMO
Objetivo: o objetivo deste artigo foi investigar os modos pelos quais o organizar-com a natureza é mobilizado nas ecologias das práticas de conservação/preservação em unidades de conservação (UCs) brasileiras.
Marco teórico: nos inspiramos em Donna Haraway e Isabelle Stengers para propor uma perspectiva de organizar que borra as fronteiras da cisão natureza-cultura. Nessa inspiração, ao entendermos que todo organizar é um organizar-com, implicando necessariamente práticas de composições, e que há modos de organizar que engendram modos de existências mais que humanos e atritos entre mundos diversos, propomos a noção de organizar-com a natureza como ferramenta analítico-conceitual para a compreensão das ecologias das práticas de conservação/preservação nas UCs.
Método: o corpo empírico foi produzido a partir de entrevistas semiestruturadas com pessoas que trabalham diretamente com as práticas de conservação/preservação em diferentes UCs brasileiras, e analisado qualitativamente em diálogo com levantamentos bibliográficos e documentais.
Resultados: o organizar-com a natureza nas UCs é mobilizado no coexistir de vidas mais que humanas nas ecologias das práticas de conservação/preservação. Nessas ecologias, os atritos entre mundos produzem zonas de entrecapturas e restrições, cujos desdobramentos estão intimamente implicados nas relações de pertencimento aos territórios.
Conclusões: este artigo contribui para o campo dos estudos organizacionais ao discutir modos pelos quais os processos organizativos são (re)produzidos em devir-com, nas redes de relações que emergem dos atritos de ecologias de práticas voltadas para a conservação/preservação ambiental. Por fim, discutimos as implicações cosmopolíticas de nosso estudo para as complexidades que envolvem a gestão das UCs.
Palavras-chave:
organizar; devir-com; natureza; ecologia das práticas; unidades de conservação
ABSTRACT
Objective: this article aims to investigate the ways in which organizing-with nature is mobilized within the ecologies of conservation/preservation practices in Brazilian conservation units (CUs).
Theoretical approach: drawing inspiration from Donna Haraway and Isabelle Stengers, we propose a perspective on organizing that blurs the boundaries of the nature-culture divide. Guided by the understanding that all organizing is inherently organizing-with - necessarily involving practices of composition - and that certain modes of organizing give rise to more-than-human modes of existence and frictions between diverse worlds, we introduce the notion of organizing-with nature as an analytical-conceptual tool for understanding the ecologies of conservation/preservation practices within CUs.
Method: the empirical body of the study was constructed through semi-structured interviews with individuals directly involved in conservation/preservation work in Brazilian CUs. The data were analyzed qualitatively in dialogue with literature reviews and documentary research.
Results: organizing-with nature in CUs is mobilized through the coexistence of more-than-human life forms within the ecologies of conservation/preservation practices. In these ecologies, the frictions between worlds generate zones of mutual capture and constraint, whose outcomes are deeply entangled with relationships of territorial belonging.
Conclusions: this article contributes to the field of organizational studies by discussing how organizing processes are (re)produced in becoming-with, within the relational networks that emerge from the frictions among ecologies of conservation/preservation practices. Finally, we explore the cosmopolitical implications of our study for addressing the complexities involved in the management of conservation units.
Keywords:
organizing; becoming-with; nature; ecologies of practices; conservation units
INTRODUÇÃO
A possibilidade do Antropoceno, que descreve uma nova época geológica caracterizada pela influência predominante das atividades humanas sobre o planeta, é respaldada por uma série de dados científicos que evidenciam mudanças significativas nos sistemas terrestres (Rockström et al., 2023; Steffen & Crutzen, 2007). Um dos aspectos mais notáveis dessa nova época é o aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pela aceleração das mudanças climáticas. Dados da National Aeronautics and Space Administration (NASA, 2023) mostram que, desde o início da Revolução Industrial, as concentrações de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera aumentaram de 280 ppm para mais de 415 ppm, um crescimento sem precedentes na história recente da Terra. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change [IPCC]) demonstra que a temperatura média global aumentou em cerca de 1,1 °C acima dos níveis pré-industriais (IPCC, 2021). A cada ano, o planeta perde aproximadamente 10 milhões de hectares de florestas, e a União Internacional para a Conservação da Natureza (International Union for Conservation of Nature [IUCN], 2021) estima que cerca de 1 milhão de espécies de animais e plantas estão atualmente em risco de extinção.
Todos esses dados ilustram que a crescente pressão humana sobre o planeta após a consolidação do mundo industrial, caracterizada por mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas, torna as unidades de conservação (UCs) essenciais no Antropoceno. Esses territórios desempenham um papel fundamental na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e servem como espaços de conservação/preservação da biodiversidade (Lei n. 9.985, 2000; WWF Brasil, 2023). O Brasil possui uma rede de UCs que é considerada uma das maiores do mundo, abrigando cerca de 20% das espécies da fauna e da flora de todo o planeta, distribuídas em ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica (WWF Brasil, 2023). De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), cerca de 30% do território brasileiro é composto por UCs (Lei n. 9.985, 2000). Essas áreas protegidas não só asseguram a conservação/preservação da biodiversidade, mas também são cruciais para o bem-estar das comunidades locais, ao promoverem a sustentabilidade econômica e social.
A gestão das UCs se configura por meio de práticas organizativas cujo objetivo principal é a conservação/preservação da biodiversidade, envolvendo ações de educação ambiental, pesquisas, fiscalização, visitações (turismo), monitoramento de espécies, etc. (Lei n. 9.985, 2000). São processos (co)construídos na constante interação cotidiana entre as pessoas e a natureza, exigindo modelos democráticos de governança ambiental que se diferenciam dos modelos clássicos já institucionalizados na área da gestão (Stürmer & Serva, 2024). Entendemos que, por essas características, que forçam um constante tensionamento de ideias pouco questionadas sobre as relações entre os processos organizativos e o que se convenciona chamar de natureza, olhar para essas organizações possibilita problematizar os silenciamentos teóricos e empíricos impostos às agências mais que humanas nos estudos organizacionais (Fantinel, 2020; Good & Thorpe, 2020; Wright et al., 2018), bem como ampliar conhecimentos e perspectivas acerca das práticas de conservação/preservação ambiental. Trata-se de saberes e práticas que são reproduzidos nas UCs (Steinhardt et al., 2022), mas que ainda permanecem pouco explorados nos estudos organizacionais (Matarazzo & Serva, 2021; Stürmer & Serva, 2024).
Considerando a emergência, no campo da administração, de (re)imaginar soluções ecológicas diante dos desafios do Antropoceno (Banerjee & Arjaliès, 2021; De Cock et al., 2021), abrem-se possibilidades para rompermos com o pensamento moderno ocidental que instrumentaliza a natureza nos saberes e fazeres relacionados à gestão e às organizações (Good & Thorpe, 2020). Foi por meio da ação humana organizada, ou seja, por meio de processos organizativos, que produzimos a possibilidade do Antropoceno (Figueiredo et al., 2020). Contudo, direcionamos nosso olhar neste artigo para longe das grandes corporações produtoras de catástrofes e desastres-crimes e nos aproximamos da importância de estudarmos modos de organizar que tensionam, a todo momento, os saberes e fazeres administrativos sustentados por crenças na separabilidade entre humano e natureza (Leite & Fantinel, 2024; Roux-Rosier et al., 2018). Trata-se de um organizar-com que borra essas fronteiras, pois, aqui, olhamos para as UCs.
Nosso objetivo neste artigo é investigar os modos pelos quais o organizar-com a natureza é mobilizado nas ecologias das práticas de conservação/preservação em UCs brasileiras. Nos alinhamos com a perspectiva de que as práticas de gestão e organização são resultado de imbricamentos transitórios, de práticas relacionais que articulam agências mais que humanas em arranjos materiais situados (Gherardi & Laasch, 2022). Para contribuir com essa abordagem, nos inspiramos no conceito de devir-com proposto pela bióloga e filósofa Donna Haraway, que propõe uma visão de mundo em que humanos não são entidades isoladas, mas, ao contrário, estão em constante devir-com, transformando-se em relação com os outros seres, em redes complexas de interdependência que definem as ecologias e as relações entre diferentes formas de vida (Haraway, 2023). Nessa inspiração, desenvolvemos o organizar-com a natureza como uma abordagem que permite ampliar os entendimentos das relações entre os processos organizativos e as agências mais que humanas, em relações de devir-com imbricadas em ecologias de práticas situadas.
Ao nos alinharmos com a ecologia das práticas, buscamos compreender o organizar-com a natureza nas UCs a partir da leitura de campos dinâmicos e complexos, onde diferentes práticas interagem de forma situacional e contingente, dando forma a realidades que se constroem coletivamente, produzindo zonas de entrecapturas e restrições (Stengers, 2005). Assim, a ecologia das práticas nos permitiu entender as dinâmicas socioambientais em torno da conservação/preservação ambiental nas UCs, a partir de uma lente de análise que revelou as relações entre os diferentes modos de produzir pertencimento no território (e.g., comunidades humanas, água, flora, fauna, instituições, leis, artefatos, etc.). A pesquisa, que faz parte de uma etapa de um projeto maior focada nas interações dos processos organizativos com as agências da natureza, articula entrevistas semiestruturadas, levantamentos bibliográficos e documentos em sua composição empírica. Como estratégia de análise dos dados, utilizamos a abordagem de codificação qualitativa, tendo em vista seu potencial para descrição densa de fenômenos sociais complexos e multifacetados (Corbin & Strauss, 1990).
A relevância deste artigo está em disputar (cosmo)politicamente a noção de organizar, discutindo-a não a partir da centralidade do humano, mas nas teias simbióticas com outras formas de vida (Haraway, 2023). Caminhamos na direção de um necessário (re)pensar ontológico com o próprio conceito de organizar diante do Antropoceno (Good & Thorpe, 2020). Desenvolvemos aqui um organizar-com a natureza que reconheça que vidas mais que humanas se entrelaçam, se reproduzem, coabitam, estão em relações de devir-com (Haraway, 2023). Contribuímos para o campo dos estudos organizacionais ao discutir modos pelos quais os processos organizativos são (re)produzidos em devir-com, nas redes de relações que emergem dos atritos de ecologias de práticas voltadas para a construção de relações sustentáveis entre as pessoas, organizações e a natureza (Good & Thorpe, 2020; Wright et al., 2018). Por fim, discutimos as implicações de nosso estudo para as complexidades que envolvem a gestão das UCs (Stürmer & Serva, 2024), em especial para os tensionamentos que envolvem as relações com as comunidades tradicionais (Rodríguez Cáceres, 2023; Seixas et al., 2020; Silva, 2019).
ORGANIZAR-COM A NATUREZA E AS ECOLOGIAS DAS PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO/CONSERVAÇÃO
O presente artigo parte de uma perspectiva processual/relacional do fenômeno organizativo (Gherardi & Laasch, 2022), focada nos processos substantivos que se encontram em permanente construção e que compõem o organizar (Sandberg & Tsoukas, 2015; Weick, 2012), em vez das leituras superficiais que compreendem as organizações como entidades estáveis e homogêneas, quando, ao contrário, são instáveis e heterogêneas (Czarniawska, 2008). Baseado na ontologia do vir a ser, o organizar desloca o entendimento de um estudo da organização como um ponto de partida (realidade a priori) para compreendê-lo como um campo processual/relacional, envolvendo diferentes agências distribuídas. Isto é, a prática organizativa é resultado de um imbricamento transitório de pessoas, regras, leis, artefatos, tecnologias, etc. (Alcadipani & Tureta, 2009; Duarte & Alcadipani, 2016).
Com esse movimento, ampliamos nossas lentes teóricas e estudamos o organizar como processo e produto que imbrica agências mais que humanas, algo ainda muito pouco explorado nos estudos organizacionais (Leite & Fantinel, 2024). Assim, buscamos evidenciar os processos organizativos que são produzidos nas relações entre humanos e outros animais, bem como outros seres vivos, artefatos técnicos, paisagens e ecossistemas que emergem como campos de interações dinâmicas e coevolutivas, com os quais podemos aprender sobre o organizar. A literatura no campo já vem evidenciando isso ao discutir fenômenos organizativos a partir das relações entre humanos e animais (Doré & Michalon, 2017; Fantinel, 2020; Sage et al., 2016), ou mesmo nas relações entre humanos e geologias (Jensen & Sandström, 2020).
Nos inspiramos no devir-com (Haraway, 2023) para pensarmos o organizar nas UCs como uma tessitura de encontros contingentes em que humanos, animais, plantas e territórios coconstroem realidades em contínuos devires imbricados. O devir-com, por meio de seu foco na coprodução de mundos através de encontros multiespecíficos (para além de um olhar focado apenas na espécie humana), nos permite enxergar o organizar como uma rede de práticas relacionais: por exemplo, gestos cotidianos de gestão (como o monitoramento de espécies ou a mediação de conflitos) só existem porque humanos, outros seres vivos, artefatos e territórios se imbricam coletivamente nesses processos, isto é, nas relações de organizar-com a natureza.
Para a elaboração de um quadro teórico que desse conta de analisar essas práticas nas quais o organizar-com a natureza nas UCs se constitui, recorremos à ecologia das práticas de Stengers (2005). Seu enfoque nos mostra como toda prática é simultaneamente produtora e produto de uma ecologia específica, ou seja, um conjunto de condições materiais, saberes e forças políticas que a tornam possível. Nas UCs, por exemplo, a prática de ‘fiscalização ambiental’ não é um ato isolado: ela emerge de uma ecologia que inclui legislações, tecnologias de monitoramento, comportamentos de espécies ameaçadas e as práticas humanas que são produzidas no entorno e no interior de determinados territórios. Do mesmo modo, essa prática modifica a ecologia em que ocorre (criando novas rotas de animais, ajustes em normas legais, construção de novos planos de manejo ambiental, etc.).
Aqui, a ecologia das práticas revela seu caráter cosmopolítico: as tensões nas UCs (como conflitos entre comunidades tradicionais e políticas de conservação/preservação, por exemplo) acontecem no atrito de mundos; não se trata, portanto, de uma simples atividade de negociação em torno da produção de um comum, mas da produção de zonas que colocam em risco as relações de pertencimento em determinado território, nos modos de habitar determinada prática. Ao descrevê-las, não apenas expomos o organizar-com a natureza em ação, mas também questionamos o que e quem está em jogo nessas ecologias. Nesse sentido, entendemos que todo organizar é, sempre, um organizar-com, embora nem todas as agências estejam completamente visíveis (Good & Thorpe, 2020; Wright et al., 2018). Daí resulta nossa noção, perspectiva conceitual, de um organizar-com isso que convencionamos chamar de ‘natureza’, nessa proposição cosmopolítica.
Essa perspectiva nos força a abandonar a ilusão do ‘gestor neutro’ ou da ‘conservação/preservação como um simples ato de controle’, uma vez que, nas teias do devir-com, até os protocolos mais burocráticos das UCs são práticas em composição com ventos, sementes, micélios e protestos (Haraway, 2023; Tsing, 2018). Se o organizar é um vir a ser que inclui agências mais que humanas (Wright et al., 2018), esse vir a ser pode ser compreendido nessas ecologias de práticas de forma situada, nessas tentativas precárias de mediação entre mundos em atrito. O organizar-com a natureza que desenvolvemos parte de uma lente simbiótica para o estudo das teias em que vidas humanas e não humanas se entrelaçam, se reproduzem, (co)evoluem, (co)habitam, estão em relações de devir-com (Haraway, 2023). Assumimos aqui uma perspectiva cosmopolítica para pensar a partir de outros pensamentos para a produção de perspectivas outras, com ecologias de práticas que se entrecruzam (Stengers, 2015), ao incrementar ao vir a ser ontológico da perspectiva do organizar (Duarte & Alcadipani, 2016; Tsoukas & Chia, 2002) uma dimensão acerca da natureza da vida que ainda lhe falta (Wright et al., 2018).
Tomamos a ecologia das práticas, em Stengers (2005), como uma lente analítica para compreender como práticas diversas - sejam científicas, políticas, de gestão ou de sobrevivência - se constituem e se transformam em meio a ecologias materiais e de saberes. A ecologia das práticas nos convida a observar como toda prática é simultaneamente produtora e produto de um ambiente específico: um conjunto de condições materiais, relações de força e modos de conhecimento que a tornam possível e, ao mesmo tempo, a limitam. Práticas produzem entrecapturas (conexões mútuas entre agências e suas respectivas modificações) e restrições (limites que surgem dessas conexões e que colocam em risco o pertencimento) umas às outras, o que revela como práticas distintas estabelecem relações de mútua modulação, efetivamente reconfigurando os termos de sua existência por meio de encontros muitas vezes conflituosos (Stengers, 2005). Essas capturas recíprocas não seguem uma lógica de determinação causal unidirecional, mas sim de interferência complexa, na qual cada prática, ao mesmo tempo, estabelece condições de possibilidade para outras práticas (normas de conservação criam parâmetros para pesquisas científicas em UCs), impõe limites materiais (o comportamento migratório de certas espécies exóticas coloca em risco outros modos de habitar o território) ou gera efeitos inesperados através do atrito (protocolos de fiscalização podem estimular novas rotas de caça ilegal).
Nas ecologias das práticas nas UCs, saberes tradicionais e protocolos científicos podem colidir, produzindo híbridos inesperados; artefatos técnicos podem alterar modos de vida animais, o que, por sua vez, pode exigir ajustes nos próprios protocolos de pesquisa; legislações ambientais podem criar zonas de exclusão que, paradoxalmente, intensificam conflitos fundiários. Nesse sentido, como podemos ver, essas entrecapturas não são necessariamente harmoniosas: ao mesmo tempo que produzem possibilidades, também podem produzir exclusões violentas. Essas ecologias friccionam práticas que conseguem se impor como ‘obrigatórias’ (como laudos técnicos sobre licenciamento ambiental), práticas que comumente são marginalizadas (a exemplo de modos tradicionais de manejo), enquanto composições improvisadas podem emergir nos interstícios dessas ecologias. A extração de minério em um território, por exemplo, não é um ato isolado, mas uma prática que emerge de uma ecologia particular (leis de mercado, tecnologias de perfuração, demandas globais, etc.) e que, por sua vez, redefine radicalmente a ecologia e o pertencimento onde se insere, restringindo ou inviabilizando outras práticas, como agricultura tradicional ou rituais indígenas (Blaser & Cadena, 2018). Como produzir política, então, nesses tempos marcados pelo que Isabelle Stengers chama de ‘escolhas infernais’? Como pensar a política em que a hegemonia capitalista discursa entre destinar a população à fome e à pobreza ou ceder à mineração, à monocultura, ao agronegócio?
Uma abertura cosmopolítica à indeterminação pode ser apresentada para reativar as zonas de experiência devastadas pelo capitalismo e pela modernidade (Pignarre & Stengers, 2013). Ela pressupõe uma abertura radical entre mundos, em que se produz uma ação do desconhecido. Fazer política cosmicamente, fazer cosmopolítica, implica essa abertura à possibilidade do aparecimento de novas exigências e novas decisões, que vão surgir a partir da abertura a novos existentes que possam vir a fazer reivindicações (como a ação política demandando a demarcação de terras indígenas), ou resistir a nossas ações (como plantas que insistem em crescer em áreas não designadas a elas), ou ainda recusar-se a agir como esperado (como uma onça que se aproxima de uma comunidade humana). O cosmos, mais do que um modo específico de intervir, implica essa abertura à indeterminação, sem saber de antemão que modos de existência podem intervir, mas ainda assim estar aberto a eles (Stengers, 2018).
Tal abertura ganha urgência radical em um planeta onde as crises ecológicas revelam, cotidianamente, os limites políticos da dicotomia natureza/cultura (Latour, 2020). Nas zonas de ruína do Antropoceno (Tsing, 2018, 2021), humanos e não humanos são compelidos, por necessidade material, a reinventar suas sobrevivências em práticas que desafiam os scripts modernos. É nestas (re)conexões improvisadas, nestes devires-com entre espécies, terras e saberes, que Haraway (2023) defende a formação de parentescos em teias, conexões em fios de barbante, seja pela vida, pela arte, pela ciência ou pela política. Parcerias improváveis, pensar com outros pensamentos, em artes de sobreviver, no devir-com humanos-cogumelos (Tsing, 2018), no devir-com humanos-animais (Haraway, 2021), no devir-com humanos-rios (Krenak, 2022). São estórias que permitem conectar outras estórias para além das tristes narrativas antropocêntricas (Haraway, 2023), imaginários que permitem pensar novos futuros (Krenak, 2022).
Neste emaranhado de fios que misturam tessituras antigas e recentes, caminhamos na emergência de investigar organizares-com como alternativas aos ontoepistemicídios da natureza na administração (Wright et al., 2018). A dicotomia entre natureza e cultura, que é a marca que sustenta o pensamento moderno, produziu as crises ecológicas e, portanto, não pode ser a sua solução (Banerjee & Arjaliès, 2021; Ergene et al., 2021). As estórias que conectamos para compor com esses saberes são aquelas que emergem das práticas de preservação/conservação emaranhadas nas UCs (Rodríguez Cáceres, 2023; Steinhardt et al., 2022), cujos desdobramentos em estudos organizacionais foram muito timidamente explorados (Matarazzo & Sales, 2021; Stürmer & Serva, 2024). É nestes entrelugares, onde os fios do barbante se enroscam e se refazem (Haraway, 2023), que a cosmopolítica de Stengers (2018) encontra sua materialidade enquanto desafio cotidiano de compor mundos onde múltiplas formas de vida possam florescer sem reproduzir as violências do projeto moderno.
MÉTODO
Em atenção ao objetivo deste artigo, a análise do organizar parte do pressuposto de que os processos organizativos são heterogêneos e transitórios, abrindo-se espaço para o estudo daqueles que acontecem em suas interações com as agências mais que humanas (Fantinel, 2020). A abordagem do organizar coaduna com abordagens e métodos qualitativos de pesquisa (Czarniawska, 2008). Partindo-se da perspectiva do organizar (Duarte & Alcadipani, 2016), neste estudo buscamos a interligação entre os diferentes processos organizativos imbricados a partir das falas de nossos interlocutores em campo, das ontologias relacionais (Good & Thorpe, 2020) emaranhadas nas agências: de pessoas, das águas, da fauna, da flora, do clima, de arranjos materiais.
Em nosso percurso empírico, entrevistamos pessoas que trabalham diretamente com práticas de preservação/conservação em diferentes UCs. Em termos de seleção, o primeiro autor, que já atuou em pesquisas da área de conservação/preservação ambiental, buscou, entre seus contatos de trabalho, indicações de possíveis pessoas a serem entrevistadas. Posteriormente, essas pessoas foram indicando outras que possuíam o perfil de seleção, em conformidade com a abordagem de seleção por conveniência da técnica de snowball sampling (Coleman, 1958). Buscamos diversificar o perfil dos respondentes, tendo em vista conhecer diferentes visões acerca do organizar-com a natureza e das ecologias das práticas. Sendo assim, as pessoas que entrevistamos trabalham em diferentes atividades relacionadas à conservação/preservação nas UCs, a exemplo das práticas de fiscalização, monitoramento de espécies, ecoturismo, educação ambiental e gestão, que podem ser observadas na Tabela 1.
As entrevistas foram realizadas nos meses de maio e junho de 2023. Foi adotado, nesta pesquisa, um modelo de entrevistas semiestruturadas, que segue roteiros preestabelecidos, mas que permanece aberto para os assuntos que emergem das relações intersubjetivas (Fontana & Frey, 2011). Para a construção do roteiro, utilizamos dois blocos de perguntas. No primeiro, exploramos as informações gerais sobre as pessoas e sobre sua função organizacional, bem como uma síntese das potências e dos desafios enfrentados pela UC. Este bloco permitiu conhecer as principais atividades de contato com a natureza que existem no cotidiano organizacional, bem como os principais desafios associados à conservação/preservação da biodiversidade. O segundo bloco, ‘organizar-com a natureza no cotidiano de trabalho nas UCs’, possui um foco mais direcionado para a resposta ao problema de pesquisa. Nesta parte do roteiro, em cada pergunta, o entrevistador pediu para as pessoas contarem exemplos práticos. A ideia foi criar um ambiente em que a pessoa entrevistada contasse histórias que nos permitissem entender os elementos simbólicos/materiais que atravessam o problema de pesquisa proposto (Fontana & Frey, 2011). Em concomitância à realização das entrevistas, realizamos um levantamento bibliográfico de artigos que investigam os processos organizativos das UCs brasileiras, bem como mapeamos os principais marcos regulatórios, com o objetivo de dialogar com as entrevistas em nosso percurso analítico.
Como estratégia de análise dos dados, utilizamos a abordagem de codificação, tendo em vista seu potencial para descrição densa de fenômenos sociais complexos em pesquisas qualitativas (Corbin & Strauss, 1990). Essa abordagem possui como uma de suas raízes o interacionismo simbólico e parte do pressuposto de que os fenômenos sociais estão em constante movimento, o que dialoga com a abordagem do organizar-com adotada nesta pesquisa. A codificação permitiu explorar os diferentes processos de organizar-com a natureza nas UCs como unidades de análise, possibilitando a construção de quadros teóricos capazes de explicar as aproximações e distanciamentos entre os processos, bem como as diferentes condições de suas (re)produções - movimento que se encontra no cerne da análise por codificação (Corbin & Strauss, 1990; Glaser & Strauss, 2006).
A análise foi sustentada, então, em três grandes passos: (1) codificação aberta; (2) codificação axial; e (3) codificação seletiva (Corbin & Strauss, 1990). Em relação ao primeiro, realizado pelo primeiro autor, o processo de análise foi iniciado a partir de leituras extensivas de todo o corpo empírico. Em seguida, buscando colocar em evidência os processos de organizar-com a natureza, os dois autores criaram rótulos conceituais com base na agência dos elementos naturais. Nesta etapa, em que os eventos/ações/interações são comparados em termos de similaridades e diferenças (Corbin & Strauss, 1990), construímos 27 rótulos conceituais. Os principais envolvem o organizar-com os elementos naturais em torno: da produção de afetos e conflitos; das influências do capitalismo; das influências do Estado e das políticas públicas; das práticas de educação; do cotidiano de organizar-com; do organizar-com dos saberes tradicionais e científicos; dos conflitos com as comunidades tradicionais; das agências sociomateriais; e das interfaces entre o organizar-com e as práticas de turismo. Destacamos também os principais processos que foram rotulados: fiscalizar, pesquisar, pescar, caçar, gerir, plantar, educar, conscientizar, praticar o turismo.
Após a criação dos rótulos e sua organização em uma planilha do Microsoft Excel, fizemos a construção de memos (notas) para cada rótulo. O objetivo foi, a partir do método de comparação constante (Glaser & Strauss, 2006), traçar um quadro analítico dos processos de organizar-com, com foco em estabelecer as aproximações e diferenças para construir as categorias em torno dos fenômenos em análise. Em cada memo, foram construídos resumos dos principais pontos de análise que emergiram dos dados empíricos, bem como os entrelaçamentos entre os rótulos em termos de possibilidades teóricas. Essa etapa permitiu fazer o último passo da codificação aberta: a construção das categorias e subcategorias.
As categorias construídas foram: (a) organizar-com a flora e a terra; (b) organizar-com animais; (c) organizar-com a água. Em termos de análises, ao relacionar os memos, foi possível perceber as proximidades dos processos de organizar-com em torno dos elementos naturais destacados nos rótulos. Para ilustrar o procedimento, vamos utilizar o movimento que realizamos para chegar à categoria ‘organizar-com animais’. Os memos dos rótulos ‘saber tradicional x organizar-com animais’, ‘saber científico x organizar-com animais’ e ‘sociomaterialidade x organizar-com animais’, em suas interações e proximidades, permitiram a construção da subcategoria ‘o cotidiano de organizar-com animais’. O mesmo procedimento foi realizado para chegar à subcategoria ‘educação, conscientização e afetos no organizar-com animais’, a partir dos rótulos que envolviam a arte, a educação e as produções de afetos no organizar-com. Seguimos o mesmo procedimento para a construção das demais categorias. Os memos também foram fundamentais para o segundo passo das análises: a codificação axial (Corbin & Strauss, 1990).
Seguindo o método de comparação constante (Glaser & Strauss, 2006), foi possível estabelecer as relações entre as categorias construídas. A primeira relação acontece pela própria constituição do fenômeno em análise, ou seja, embora em categorias distintas, terra, flora, animais e água constituem ecossistemas interligados e ecologias de práticas. As demais relações entre categorias foram construídas assumindo como fio condutor os atravessamentos das subcategorias. Por exemplo, a produção de afetos no organizar-com a natureza emergiu nas três categorias. Assim, foi possível destacar que, embora se trate de elementos distintos, os afetos atravessam as relações de devir-com entre humanos, terra, flora, fauna e água. O mesmo aconteceu com o papel do turismo no organizar-com a natureza em todas as UCs em análise. Ao todo, foram construídas seis notas de análise entre as categorias.
No último passo de análise - codificação seletiva -, que tem por objetivo sintetizar o argumento central (Corbin & Strauss, 1990), evidenciamos como as categorias (organizar-com a flora e a terra, organizar-com animais, organizar-com a água) estão articuladas com o argumento central do estudo. Em linhas gerais, nesta etapa, foi possível construir a análise de que, nas UCs, as condições de relação entre humanos e natureza são perpassadas pelo coexistir, ou seja, as agências mais que humanas são produzidas em diferentes processos de devir-com articulados nas práticas de conservação/preservação. Além disso, esses processos se entrelaçam em ecologias de práticas que produzem zonas de entrecapturas e restrições, cujos desdobramentos apresentamos nos próximos tópicos.
APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS: UM BREVE PANORAMA DOS DILEMAS DAS UCS BRASILEIRAS
A literatura sobre UCs trata o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, criado em 1872, como marco na instauração das áreas de proteção da natureza em todo o mundo (Diegues, 2003). Ainda que espaços ditos ‘naturais’, protegidos para a contemplação humana, façam parte da história muito antes da delimitação do Parque Nacional de Yellowstone (Villas Boas & Mattos, 2021), o modelo desenvolvido em solo americano serviu de referência para a criação das áreas na América Latina, onde se concentram as maiores proporções de áreas protegidas do planeta (Canto-Silva & Silva, 2017; Diegues, 2003). O paradigma que circunscreveu a criação das primeiras UCs no Brasil acompanhou o modelo moderno norte-americano, cuja base foi o preservacionismo (Diegues, 2003).
Os modelos preservacionistas invisibilizam a história e as maneiras de produzir o mundo das comunidades tradicionais, que residem e resistem há bastante tempo com a natureza nas áreas demarcadas para a preservação (Brito, 2008). Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, marisqueiras, pomeranos, entre tantas outras comunidades tradicionais espalhadas pelo Brasil, são forçados a modificar suas maneiras de viver pela vertente preservacionista (Silva, 2019). Representado pelo poder tecnicista do Estado moderno, o modelo preservacionista considera que essas populações representam ameaças para a biodiversidade local, enxergando-as, portanto, como indesejáveis nessas paisagens (Arruda, 1999). Trata-se de uma visão que não reconhece a centralidade da participação dessas mesmas comunidades para a biodiversidade, pelo não reconhecimento de seus saberes e de suas práticas ancestrais, ao mesmo tempo em que se reproduz uma perspectiva de que as UCs são espaços naturais que servem para a perpetuação do sistema capitalista (Brito, 2008; Diegues, 2003; Rodríguez Cáceres, 2023).
A história e a gestão das UCs no Brasil, portanto, são perpassadas por diversos conflitos que atravessam a demarcação das áreas naturais e as populações tradicionais que residem nessas áreas, justamente pelas sobreposições de interesses (políticos e privados; humanos e mais que humanos) que se articulam em meio a esses embates (Seixas et al., 2020). No desenrolar das histórias que marcam os conflitos nas UCs em solo brasileiro, é preciso destacar o papel da resistência organizada das comunidades tradicionais diante da perspectiva preservacionista, que se materializa, por exemplo, na criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) - pela Lei n. 9.985 (2000) -, um instrumento político que é resultado de intensas lutas históricas produzidas por vozes indígenas, quilombolas, seringueiras, ribeirinhas, caiçaras, etc. (Prado et al., 2020; Rodríguez Cáceres, 2023; Seixas et al., 2020).
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei n. 9.985, 2000), assim como seu decreto complementar (Decreto n. 4.340, 2002), surgiu como resultado de diferentes pontos de vista e perspectivas relacionadas à preservação ambiental, às múltiplas maneiras de se estabelecer relações entre culturas e naturezas e à necessidade de desenvolvimento sustentável dessas áreas (Diegues, 2003; Seixas et al., 2020). É importante ressaltar o papel crucial que a criação do SNUC representou para a implementação das UCs no Brasil, pois ele padronizou os modelos de gestão e ampliou as possibilidades de criação de áreas preservadas em todo o país (Matarazzo & Sales, 2021).
Em face dos diversos conflitos que envolvem o histórico da preservação da natureza em solo brasileiro, atualmente existem dois grandes grupos de categorias de UCs definidos nos termos do SNUC: proteção integral (PI) - modelo preservacionista -, cujo objetivo principal é a preservação total e que impõe restrições severas quanto ao manejo humano em seu território; e uso sustentável (US) - modelo conservacionista -, que promove a utilização adequada dos recursos naturais em harmonia com as comunidades locais e suas diferentes maneiras de viver com a natureza nesses espaços (Lei n. 9.985, 2000). A possibilidade de modelos de uso sustentável expressa a conciliação entre a proteção da natureza e o aproveitamento econômico e social das áreas protegidas (Brito, 2008). Atualmente, pode-se destacar que os principais processos organizativos produzidos nas UCs em meio às duas classificações são: (a) o turismo, (b) a educação ambiental, (c) a pesquisa e (d) a fiscalização, pois, segundo o SNUC, essas são atividades centrais para as UCs (Lei n. 9.985, 2000). Além desses processos, direcionamos nossos olhares para outros que emergiram das entrevistas, apresentados a seguir.
Organizar-com a natureza nas UCs
No derradeiro pôr do Sol
A natureza vem cantar
Dê meia-volta você, ah
Vamos fazer outros planos (sayonara, saravá, saravá)
Juntos (sayonara, saravá, saravá)
(Dança de Airumã, por BaianaSystem)
Antes de iniciar a apresentação das entrevistas, é preciso destacar a estratégia de escrita adotada. Embora tratadas como categorias distintas no processo de codificação, optamos por escrever o texto a partir das notas de relações que estabelecemos entre as categorias no processo de codificação axial, pois elas foram fundamentais para a construção do argumento central de nosso estudo. Assim, acreditamos que o encadeamento das ideias a partir das notas de relações entre categorias permitirá uma leitura mais orgânica e coesa no sentido dos caminhos pelos quais construímos nosso argumento e nossas discussões. Além disso, buscamos também uma escrita mais condizente com a ideia de devir-com, para demonstrar os emaranhamentos das agências mais que humanas e as zonas que emergem dos atritos das ecologias das práticas de conservação/preservação.
Conforme apresentado no tópico de metodologia, as pessoas entrevistadas trabalham em diferentes atividades de conservação/preservação nas UCs. E1, E2 e E3 realizam suas atividades na Floresta Amazônica. Pesquisar, monitorar, fiscalizar, conscientizar e guiar turistas estão entre as suas principais práticas em uma floresta que assume uma dinâmica ecológica peculiar. A Floresta Amazônica sofre grande influência do regime das águas e, durante alguns períodos do ano, fica submersa. Essa característica da região, somada às diretrizes de conservação/preservação, faz com que as atividades dessas pessoas possuam interação “total e completa” (E2) com a natureza. Além disso, as forças da natureza determinam como serão os processos de organizar-com. Por exemplo, pesquisar na floresta requer a sensibilidade de saber que o planejamento do dia pode sofrer interferências das agências naturais.
É uma característica da região, o tempo muda muito rapidamente. Então está maior sol, vamos lá? Em cinco minutos vem um vento, uma nuvemzona preta chegando. Em 15 minutos tá um pé d’água, um vento do caramba! Aí o próprio rio começa a fazer onda, a galera aqui chama de “panzeiro”. Aí fica perigoso. Começa a cair árvore! Parece um caos assim. E aí, eventualmente, a gente acaba mudando os planos por conta disso (E1).
Além da água, os animais não humanos (onças, peixes, formigas, etc.) e espécies de vegetação também produzem o organizar-com a natureza nas UCs amazônicas. De maneira semelhante, a força da água (maré) e o período em que as baleias se deslocam até Abrolhos (BA) para reprodução e amamentação afetam o cotidiano de E5, que pesquisa e educa com essas espécies. O clima, a água, o geossítio (dunas de areia), entre diversos outros elementos, estão emaranhados no cotidiano de E4 e E6 nos parques estaduais no Espírito Santo (ES). “A gente também interage com o meio abiótico, o gel, a geoconservação, a paisagem, o relevo, a água. E no dia a dia é isso.” O que queremos destacar aqui é que, embora se trate de atividades e territórios diferentes, fica evidente a composição com as agências mais que humanas para a produção das ecologias das práticas de conservação/preservação nas UCs em análise, bem como a centralidade dos saberes tradicionais para a constituição dessas ecologias.
As UCs são espaços de preservação/conservação criados em áreas onde existem comunidades residindo há bastante tempo (Lei n. 9.985, 2000). Essas comunidades aprenderam a viver com a região ao longo de sua história. Por isso, dominam um conhecimento adquirido pela vida, pela experiência, pelo pertencimento ao território (Diegues, 2003). A centralidade desses saberes está presente na previsão das marés com a lua, na previsão das chuvas com as árvores e com o sol, no conhecimento sobre o comportamento dos animais, na construção dos caminhos para entrar na floresta, entre diversos outros organizares-com. “E o nativo, ele não sabe o conhecimento científico, não detém essa informação. Mas ele vivencia” (E4). Eles sabem as famílias de plantas, as famílias de animais, estar com as águas e com a floresta; eles sabem justamente pelo viver em relação de devir-com (Haraway, 2023) a natureza. E2, o “pai da mata”, descendente dos povos originários, nos oferece um exemplo sobre esses saberes ancestrais:
Aqui nós sabemos localizar quando estamos perdido no meio da floresta. … Nós sabemos identificar através das árvores, porque aqui na Amazônia a maioria é chuva. Então a parte do norte na árvore, ela é muito interessante que ela sempre está molhada, sempre ela está cheia ali de leguminosas. E a parte do sul ela fica seca. Então, pela árvore nós tem esse grande conhecimento, entendeu? (E2).
Além do localizar com a árvore, destacamos o conhecimento dos povos quilombolas, que ajuda a estabelecer as diretrizes de manejo de incêndio; essas pessoas “usam o fogo a seu favor” (E6) e “nos possibilitam criar práticas de prevenção nos períodos de seca”, sendo essas práticas fundamentais para a construção das estratégias de prevenção e contenção do fogo. Em Itaúnas (ES), os “engenheiros da caça” (autodenominação das pessoas) usam o vento para sentir o cheiro das espécies, auxiliando no trabalho de fiscalização ambiental (E4); sem eles, esse processo praticamente “não seria possível”. Na Amazônia, o conhecimento tradicional com as formigas auxilia na produção de repelentes naturais e sustentáveis (E2), bem como permite a aproximação dos pesquisadores com as onças na floresta.
Em síntese, o organizar-com a natureza mobiliza saberes (tradicionais e científicos) que ora se chocam, ora se complementam, ou seja, produzem as entrecapturas no atrito entre mundos das ecologias das práticas (Stengers, 2005). O exemplo abaixo ilustra uma situação que corrobora esse argumento:
Essa questão das onças subirem nas árvores e viverem lá durante meses. Quando meu chefe, que começou esse projeto aqui, conversando com a galera local, eles já falavam isso: quando tá cheio as onças sobem nas árvores e vivem lá. E aí a galera da ciência: “Não! Quando enche, as onças devem nadar e ir para terra firme!”. Aí a gente foi lá, capturou, botou o colar, e a primeira onça monitorada ficou em cima das árvores e não saiu dali. Segunda, a mesma coisa. Terceira, a mesma coisa. Décima, décima quinta! (E1).
O excerto anterior faz menção a uma situação em que os saberes tradicionais e científicos sobre os hábitos das onças na floresta entraram em atrito: afinal, elas poderiam ou não viver nas copas das árvores durante os períodos de cheia? Nesses cenários, como evidencia a entrevista, a tecnologia pode assumir um papel conciliador nessas construções de conhecimento com a natureza. O projeto no Instituto Mamirauá hoje faz o estudo do comportamento das onças utilizando uma composição desses diferentes tipos de saberes. E1 menciona que esses encontros permitem saber “onde a onça tá andando, o tamanho da área de vida, o tipo de habitat que ela prefere, se tem uma área que ela tem mais afinidade, se tem uma área que ela tá evitando; tudo isso, a longo prazo, ajuda a tomar decisões sobre a conservação da espécie”.
O encontro desses saberes também possibilitou a reconstituição da restinga em Itaúnas (ES) com a utilização de uma espécie daninha nas dunas (geossítio), em uma composição de saberes tradicionais e científicos, nos quais os analistas do parque, em um primeiro momento, duvidaram que essa composição pudesse dar certo. Por outro lado, as espécies exóticas, consideradas invasoras de ecossistemas por não serem originárias dele, produzem zonas de restrição, na medida em que impedem a reprodução de outras espécies no território para sua própria proliferação. É o caso das acácias e do bagre-africano no Espírito Santo (ES) e do javali nas UCs amazônicas, cujos desdobramentos se centram na construção de planejamentos estratégicos de controle de reprodução dessas espécies. Isto é, nos encontros dessas ecologias de práticas mais que humanas, as estratégias de conservação/preservação precisam criar novas rotas, a ponto de ser definida a necessidade de supressão das acácias no Parque Estadual de Itaúnas (ES) - Unidade de PI (E4 e E6). Por outro lado, a própria agência das espécies perpetua práticas para a conservação/preservação no território.
“A compreensão audiovisual, ela tem sido cada vez mais valorizada nessa questão da ciência. Começo a enxergar mais esse movimento dos projetos que estão evoluindo as condições, estão evoluindo com as espécies” (E5). Para monitorar o comportamento de onças e baleias, por exemplo, câmeras fotográficas, computadores e GPS estão entre as agências sociomateriais que permitem a produção de um conhecimento que não seja separado das espécies, do mar, do rio, da terra ou da natureza. Além disso, ferramentas digitais vêm sendo adotadas para produção da conscientização e da educação ambiental. Na Amazônia, diversas produções audiovisuais vêm sendo utilizadas como estratégia para mostrar à população brasileira a riqueza da diversidade dos povos que lá habitam, o que teve como consequência uma maior reaproximação da comunidade local com as onças por meio do turismo de base comunitária, em que os nativos da região assumem o protagonismo das práticas dos empreendimentos.
No caso do arquipélago de Abrolhos (BA), E5, atualmente, tem dedicado esforços para produções audiovisuais que permitam, mesmo à distância, um contato mais próximo das pessoas com a riqueza de vida que lá existe. “Uma das ferramentas que a gente utiliza, que aí é uma questão mais de tecnologias, por exemplo, é a realidade virtual. Essa imagem que você vê, que é uma ferramenta de sensibilização.” Todas as pessoas que participaram desta pesquisa, cada uma a partir de contextos e atividades específicas, evidenciaram a importância dos afetos para a produção de conscientização acerca da conservação/preservação da natureza. Entretanto, o organizar-com a natureza nas UCs em análise também é perpassado por conflitos e atritos entre mundos que envolvem as ecologias das práticas de preservação/conservação.
Afetos e conflitos no organizar-com a natureza nas UCs
O organizar-com a natureza nas UCs mobiliza práticas de composição afetivas, práticas de cuidado multiespécies (Haraway, 2021). Relações de ‘amor’ com o pirarucu, com a castanha, com o açaí, com a onça, com a floresta, com o rio, com a cachoeira foram relatadas pelas pessoas que entrevistamos. “Você pega um cara, um senhor de 60 anos, super saudável, com uma cabeça ótima, e dizendo, assim, falando: eu tenho o maior orgulho de falar que eu sou açaizeiro” (E3). Essas relações de ‘amor’ são produzidas no organizar-com a natureza, em diferentes processos, tais como pesquisar, plantar, pescar, caçar, fiscalizar e guiar turistas. São ecologias de práticas que se produzem nessas zonas de entrecapturas e restrições, nos atritos entre diferentes formas de habitar e pertencer a cada prática (Stengers, 2005). E5, no momento da entrevista, emocionou-se bastante ao descrever um dia de realização de pesquisa em Abrolhos (BA), perpassado por uma relação de amor e alteridade com os animais; devir-com (Haraway, 2023).
Não adianta você chegar lá e ter a imagem mais incrível, quando você está molestando o bicho. Uma coisa que a gente não faria conosco … Então, a gente chega, consegue uma posição e fica ali duas, três horas deitada no chão e vê coisas incríveis. Vai aprendendo o tempo todo. … Porque a minha agência naquele momento era totalmente estranha. … Eu vou guardar para sempre na minha memória, cada baleia, cada encontro, cada local natural protegido, que tem uma natureza selvagem, que tem uma atmosfera, e que me encheu de esperança, me encheu de sentido, e isso é uma coisa que eu vou guardar para sempre! [a entrevistada chorou nesse momento] (E5).
As práticas afetivas também são mobilizadas para criar a conscientização das pessoas que participam do organizar-com a natureza. As entrevistas indicam que a arte, a educação e o turismo são possíveis caminhos para intermediar essas (re)significações. “Eu acredito muito que o sentimento é uma chave, uma portinha para deixar a pessoa suscetível a olhar para o mundo, para a expansão de ideias” (E5); chave que pode ser aberta com a poesia, com a fotografia, com o documentário, conforme relatam as pessoas entrevistadas. A educação com a natureza também pode ser observada nos processos de organizar-com. E4 e E6 destacam a importância dos programas de educação ambiental nos parques estaduais (ES). “A gente trabalha principalmente com as crianças, ele vem trabalhando ela até ela se tornar um adulto, que ela entende a conscientização” (E4). O programa de voluntariado também vem sendo considerado uma prática relevante para a conscientização, pois, no contato com a natureza, a pessoa urbana no projeto começa “a interagir, começa a participar de um projeto de recuperação, por que planta uma árvore” (E6) e ‘desperta’ para a necessidade de conservação/preservação.
O turismo no organizar-com a natureza também é mobilizado para afetar, pois é visto por órgãos como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como um impulsionador da conscientização ambiental (Fróes & Moreira, 2024). Por exemplo, E1 destacou que um turismo de observação de onças vem sendo utilizado na Amazônia para a preservação das onças-pintadas, e E5 relata que o mesmo movimento vem sendo feito em Abrolhos (BA) com as baleias. A ideia é criar um ‘turismo de consciência’, no lugar de um turismo ‘predatório’. E6 relata um organizar-com a natureza semelhante nas montanhas capixabas: “a todo momento a gente está interagindo, chamando a atenção com o campo, chamando a atenção para o como essas unidades de conservação produzem água, que é importante para a vida delas”; e E2, com as formigas na Floresta Amazônica: “aqui nós temos essa formiga natural e é muito interessante preservar ela, entendeu? Por quê? Porque ela tem vários benefícios, tanto pra saúde ou até pra fazer um ritual”. Por outro lado, o turismo também pode apresentar riscos.
Em Itaúnas (ES), a virada de ano, que mobiliza milhares de pessoas para o vilarejo (Iema, 2007), coloca em risco o geossítio pela enorme quantidade de lixo produzido (E4 e E6). A caça e a pesca esportiva colocam em risco a preservação de várias espécies na floresta amazônica (E1, E2 e E3). O grande dilema para a gestão das UCs reside em equilibrar a atividade turística: por um lado, ela deixa renda na comunidade local; por outro, configura-se como um risco para a preservação/conservação (Bedim, 2007). Além do turismo, foi possível identificar outras relações de conflito que atravessam o organizar-com a natureza nas UCs. Esses conflitos são produzidos, em grande parte, pela falta de políticas públicas e pelo avanço da ideologia neoliberal no contexto das comunidades tradicionais (Diegues, 2003; Rodríguez Cáceres, 2023).
A falta de recursos e investimentos públicos leva as comunidades a explorarem de maneira indevida a natureza. A caça predatória se apresenta como um desafio para a conservação/preservação, de acordo com E4 e E3. A própria legislação das UCs acaba se tornando catalisadora para a produção de conflitos, uma vez que, se a UC é caracterizada por ser de PI, os manejos da natureza são, em grande parte, proibidos no território (Lei n. 9.985, 2000). Essas comunidades, que vivem nesses espaços há bastante tempo, acabam ficando ‘estranguladas’ (E4) por não possuírem alternativa de renda. Somado a isso, o Estado também não oferece condições de vida para essas populações, ‘porque o recurso é pouco’, falta condição de vida para essas pessoas (E3). A consequência é que muitos que vivem em comunidades tradicionais, e que possuem papel central na conservação/preservação da natureza, optam por migrar da região (E1 e E5). Ou ainda, outros tantos que decidem ficar acabam por assumir uma ideologia neoliberal de exploração, cedendo ao “sistema capitalista mesmo, da coisa do agro, vão botar boi dentro da reserva, isso chegou já, não adianta a gente negar isso” (E3). Assim, a conservação/preservação da natureza nessas unidades acaba sendo colocada em risco justamente por quem possui maior potencial de organizar-com e devir-com ela. Na próxima seção, discutimos as implicações dessas questões.
DISCUSSÕES: IMPLICAÇÕES TEÓRICAS E PRÁTICAS
Como revelam os achados desta pesquisa, o organizar da preservação/conservação da biodiversidade nas UCs não é um empreendimento exclusivamente humano, mas um fazer-com múltiplos atores mais que humanos, orgânicos e inorgânicos, interligados em ecologias de práticas. Territórios, leis, marés, plantas, animais e saberes locais são partes constitutivas de uma ecologia de práticas em constante devir-com. Nessas entrecapturas, emergem restrições: a fauna e a flora desviam-se das expectativas, as marés reescrevem os planos, os protocolos de gestão são tensionados por outros modos de saber. Longe de serem obstáculos, essas limitações são guias que mostram como podemos agir e o que devemos levar em conta em cada situação. A ecologia das práticas de conservação/preservação nas UCs mostra a importância de aprendermos a trabalhar com essas dinâmicas, não contra elas. O importante aqui não é dominar as dinâmicas, mas aprender a ser afetado por elas, a compor com elas (Stengers, 2023).
Assim, como parte dos nossos objetivos neste estudo, desenvolvemos um diagrama que se esforça para captar a complexidade dessas relações e a partir do qual organizamos nossas análises. O diagrama serve como ferramenta analítica para identificar pontos de fricção e composição nas UCs, que chamamos, na nomenclatura de Stengers (2005), de zonas de restrições e entrecapturas. Com ele, oferecemos um mapa para navegar pelas complexidades que serão discutidas a seguir. Ele serve como guia para identificar tanto os padrões recorrentes quanto as singularidades que emergem em cada contexto específico de conservação/preservação. O que pode parecer caótico à primeira vista revela, através deste modelo, uma ordem relacional, na qual cada elemento, ao impor seus limites e possibilidades, participa ativamente da construção cotidiana da ecologia das práticas de conservação/preservação. A discussão que se segue explora esses cruzamentos, usando dados empíricos para ilustrar como as ecologias dessas práticas se materializam no cotidiano das UCs.
Em linhas gerais, o processo de codificação seletiva nos permitiu chegar ao argumento central de que o organizar-com a natureza nas UCs é mobilizado no coexistir de vidas mais que humanas nas ecologias das práticas de conservação/preservação. Nessas ecologias, os atritos entre mundos produzem zonas de entrecapturas e restrições, cujos desdobramentos estão intimamente implicados nas relações de pertencimento aos territórios. Os relatos apresentados evidenciam como pesquisar, monitorar, fiscalizar, conscientizar, fazer ativismo, educar, guiar turistas, etc. são processos (co)produzidos por agências mais que humanas, isto é, em composições de organizar-com. Nesse sentido, este estudo contribui para o campo ao demonstrar a centralidade dessas agências para as práticas de organizar articuladas na sustentabilidade ambiental, algo ainda incipiente nos estudos organizacionais (Good & Thorpe, 2020; Leite & Fantinel, 2024; Wright et al., 2018). Ademais, é preciso destacar que os organizares-com mobilizam saberes tradicionais para suas produções, justamente porque esses saberes ancestrais (Krenak, 2022) são produzidos em relações devir-com (Haraway, 2023) que atravessam o tempo e resistem aos imperativos da modernidade e do capitalismo.
Na ecologia das práticas de organizar-com a natureza nas UCs, constitui-se uma trama complexa em que zonas de entrecapturas constantemente negociam com camadas de restrições materiais, políticas e ontoepistemológicas. Essa dinâmica mostra o argumento de que toda prática só existe enquanto resposta ativa às restrições que a constituem, sejam os regimes de fogo tradicional que desafiam as temporalidades burocráticas, sejam os comportamentos animais que subvertem os protocolos científicos de monitoramento. Nas comunidades tradicionais, como se viu, saberes ancestrais de manejo do fogo e leitura dos ecossistemas entram em tensão com a legislação ambiental, com o planejamento estratégico de conservação/preservação, que frequentemente ignora as temporalidades próprias dos ciclos ecológicos. Essa dinâmica revela que essas restrições, longe de serem meros obstáculos, atuam como forças cosmopolíticas que reconfiguram continuamente as ecologias das práticas de preservação/conservação.
O capitalismo neoliberal emerge em nossa análise como uma espécie de restrição estruturante, uma força que não apenas limita, mas reconfigura radicalmente o próprio campo do possível nessas práticas de conservação/preservação, impondo escolhas infernais (preservar sem condições dignas de vida ou destruir para sobreviver) às comunidades tradicionais e as relações de pertencimento ao território. Paradoxalmente, a própria legislação e políticas estatais podem também acabar restringindo o manejo tradicional e acelerar processos de degradação. Nos interstícios, porém, emergem entrecapturas: pesquisadores aprendendo com comunidades a interpretar os sinais das plantas e dos animais; turismo de base comunitária construindo parentescos multiespecíficos; e calendários ecológicos tradicionais desafiando a rigidez dos cronogramas institucionais.
As chamadas ‘espécies invasoras’, ou ‘espécies exóticas’, operam em nossa análise também como restrições nessas ecologias. Normalmente vistas como problemas a serem eliminados, tensionam e forçam cientistas e comunidades a repensarem juntos os critérios de conservação/preservação, especialmente pelo fato de que suas agências colocam em risco os modos de existir e pertencer no território. Da mesma forma, o comportamento imprevisível de animais como as onças, que se recusam a seguir os modelos científicos preestabelecidos, torna visível a insuficiência das abordagens convencionais de monitoramento já institucionalizadas na prática científica. Nesses atritos entre mundos diversos, nas ecologias das práticas, os saberes tradicionais revelam-se não como alternativas à ciência, mas como entrecapturas que explicitam o devir-com como condição ontoepistêmica fundamental na ecologia das práticas das UCs. Quando um conhecedor tradicional interpreta os sinais das onças ou lê os indicadores ecológicos para prever mudanças climáticas, ele se engaja numa prática viva que responde ativamente às restrições específicas daquele ecossistema.
O turismo, na análise que produzimos, exemplifica dramaticamente a ecologia das práticas em tensão e ação. Em nossos achados de campo, o turismo de base comunitária, conectado aos agentes mais que humanos e ritmos do território, emergiu frequentemente em oposição ao turismo de massa, de comoditização da natureza e voltado para perpetuação da lógica neoliberal a partir de grandes empreendimentos e da ‘ideologia do progresso’. Essa dualidade manifesta o núcleo da cosmopolítica nas UCs: toda prática de conservação/preservação é necessariamente uma negociação precária entre mundos em atrito, onde as soluções nunca são definitivas, mas precisam ser constantemente recriadas nas relações entre humanos, leis, animais, plantas, territórios, fenômenos climáticos, etc.
Os saberes tradicionais, como: saber se localizar e fazer imersões na floresta com as árvores; saber o comportamento dos rios e das marés com a lua, o vento e o sol; saber localizar os animais pelo cheiro, encarnam o que Haraway (2023) conceitua como devir-com: práticas cognitivas e simbólico-materiais que só existem na medida em que se entrelaçam com as agências mais que humanas no território. Neles, humanos aprendem a pensar-com os ventos, a escutar-com os rios e a planejar-com os ciclos reprodutivos das espécies. A persistência desses saberes nas UCs, apesar de séculos de marginalização sob o rótulo colonial de ‘selvageria’ (Krenak, 2022), desafia os fundamentos antropocêntricos da gestão ambiental e permite a produção de outros imaginários para o fazer organizacional (Banerjee & Arjaliès, 2021; Wright et al., 2018), outras possibilidades de construções de mundos e produção de conhecimentos (Haraway, 2023).
Paradoxalmente, como mostra Diegues (2003), as políticas públicas continuam tratando essas comunidades como ameaças à biodiversidade, reproduzindo a violência ontoepistêmica que separa conhecimento científico de conhecimento ecológico tradicional, justamente quando a crise socioambiental que vivemos demanda possibilidades relacionais (Wright et al., 2018). Nesse sentido, cada ato de orientação pelos astros ou previsão pelo comportamento de animais representa não só uma tecnologia ancestral, mas um ato de resistência cosmopolítica (Stengers, 2018) contra a simplificação capitalista dos ecossistemas à luz dos preceitos da racionalidade moderna. Os relatos das pessoas que entrevistamos evidenciam a centralidade desses saberes tradicionais para o cotidiano de gestão e organização nas UCs.
Entendemos que a noção de organizar-com a natureza oferece um marco transformador para o pensamento administrativo, deslocando-o de uma lógica de controle para uma epistemologia relacional capaz de compor com saberes e fazeres que tradicionalmente não dialogam com nossas teorias e conceitos. Essa perspectiva revela que as UCs funcionam como laboratórios vivos de cosmopolíticas em ação, em que conhecimentos científicos e tradicionais se recombinam em novas configurações ontoepistêmicas. O caso paradigmático das onças no Instituto Mamirauá (AM) ilustra essa dinâmica: quando os pesquisadores abandonaram seus modelos preditivos e se abriram aos saberes locais sobre o comportamento animal durante as cheias, não apenas corrigiram equívocos científicos, mas cocriaram uma nova metodologia de monitoramento, uma ciência em devir-com as espécies (Haraway, 2023). O encontro cosmopolítico entre ecologias de práticas (Stengers, 2018), que envolveu a abertura para a produção do possível, demonstrou as possibilidades que emergem entre as práticas científicas e as práticas ancestrais, cujos resultados foram positivos nas relações humanos-onças. A composição desses saberes com os científicos pode auxiliar na construção de uma ciência que ‘evolui com as espécies’, diferente do que acontece no status quo administrativo (Marquesan & Figueiredo, 2018), produtor do Antropoceno e que instrumentaliza a chamada natureza para os interesses de alguns poucos humanos (De Cock et al., 2021).
A educação, a arte, o turismo, combinados às agências tecnológicas, quando mediados por uma abordagem relacional, podem potencializar as conscientizações e (re)significações acerca da importância da conservação/preservação disso que entendemos como natureza. Desses vetores emergem parentescos (Haraway, 2023), ontologias multiespecíficas (Tsing, 2018) em que estudantes, pesquisadores, turistas, etc. (re)significam a importância das naturezas em suas vidas ao organizar-com ela no aqui e agora (Good & Thorpe, 2020). Nesse sentido, as UCs deixam de ser simplesmente ‘espaços protegidos’ e assumem papel relevante para reaproximar o humano de sua constituição natural pela via da produção de afetações. Os relatos mostram que o turismo, por um lado, impulsiona a conservação ao gerar renda para as comunidades; por outro, a depender do tipo de turismo praticado, é uma ameaça para às relações de pertencimento ao território (Bedim, 2007). Em contraste à ‘pesca esportiva’, nossa pesquisa demonstra a riqueza do florescer da vida no encontro humanos-onças-pintadas sustentado no turismo de base comunitária. Num cenário de catástrofes antropocêntricas, faz sentido nos voltarmos à produção de cosmopolíticas, alternativas pensadas com outros pensamentos (Stengers, 2015), como os que acontecem no organizar-com a natureza nas UCs analisadas.
Além disso, os relatos permitem afirmar que a falta de geração de renda nas comunidades tradicionais acaba por produzir uma série de ‘alternativas infernais’ (Pignarre & Stengers, 2013), situações concebidas e direcionadas de forma a não permitir escolha além da resignação. São escolhas em que ambas as alternativas são danosas: desmatar a floresta ou passar fome, por exemplo. Essas alternativas infernais são naturalizadas no imaginário das populações por meio da crença e contínua repetição (por parte do poder público, da mídia, de outros tantos atores relevantes na hegemonia capitalista) de que o acesso a bens e serviços para uma vida digna, ou a obtenção de oportunidades econômicas, dá-se única e exclusivamente mediante a exploração comercial da floresta. São a materialização das relações de poder desiguais em sociedades capitalistas e neoliberais, em que a lógica empreendedora sobrepõe as experiências coletivas de viver e pertencer (Krenak, 2022).
A proposta de UCs de PI, ao estabelecer uma rigidez normativa que proíbe qualquer forma de uso tradicional dos recursos, cria um paradoxo: justamente aquelas comunidades cujos saberes e práticas de devir-com (Haraway, 2023) sustentaram a biodiversidade por gerações (Arruda, 1999) são agora penalizadas em nome da preservação. Isso, aliado à falta de acesso a bens e serviços necessários para a manutenção dessas populações, faz com que essas comunidades, que são fundamentais para a manutenção da biodiversidade, fiquem ‘estranguladas’. A consequência disso é que a caça, o uso inadequado da água, o desmatamento para a construção de pastos, entre outros organizares-com, tornem-se as alternativas infernais para essas pessoas. Os relatos também indicam que a falta de políticas públicas acarreta grandes desafios para a gestão das UCs. Nesse ínterim, o Estado emerge como uma figura importante, que pode realizar investimentos em políticas públicas que estimulem a preservação/conservação pelo fortalecimento das comunidades tradicionais (Diegues, 2003), como demonstrado pela potência do turismo de base comunitária. Caso contrário, a preservação/conservação da natureza nessas UCs acaba sendo colocada em risco justamente por quem possui maior potência de organizar e devir-com ela (Haraway, 2023).
Cada vez mais, as comunidades das UCs vêm substituindo a agricultura familiar como prática econômica central para a construção de empreendimentos voltados para o turismo ambiental e a gastronomia (Rodríguez Cáceres, 2023). Uma das consequências dessas transformações é que as áreas de amortecimento - entorno da área delimitada para conservação/preservação (Lei n. 9.985, 2000) - se tornam alvo da especulação imobiliária (Silva, 2019). As comunidades tradicionais acabam sendo forçadas a se retirar da comunidade e a se deslocar para as periferias urbanas, justamente porque não conseguem acompanhar o alto movimento inflacionário decorrente dessas transformações (Diegues, 2003).
Os relatos mostram que cada vez mais as novas gerações dessas comunidades deslocam-se para uma vida urbana, o que representa não apenas uma mudança demográfica, mas uma ruptura ontoepistêmica. Saberes tradicionais, tecidos em séculos de devir-com os ecossistemas, estão sendo progressivamente apagados pela dupla pressão do neoliberalismo e da gestão ambiental colonial. Na perspectiva da ecologia das práticas, esse êxodo configura uma ruptura nos regimes de atenção e resposta aos imperativos ecológicos que sustentam as práticas de conservação/preservação. A deterioração dos saberes tradicionais representa assim o colapso de toda uma ecologia de práticas, em que se perde a própria capacidade de cultivar os modos de atenção necessários para responder às zonas de atritos e negociações específicas de cada ecossistema. Essa erosão cognitiva, além de uma perda cultural, significa uma ameaça à própria capacidade de reinventar modelos organizacionais frente à crise ecológica (Banerjee & Arjaliès, 2021; Wright et al., 2018). É justamente quando é mais evidente a necessidade de ampliarmos mecanismos de gestão compartilhada (Stürmer & Serva, 2024) que as condições materiais para sua reprodução se tornam insustentáveis.
A ecologia das práticas (Stengers, 2005) nos convida a compreender as UCs como arenas cosmopolíticas em que múltiplas racionalidades ecológicas se confrontam e se recombinam. O que propomos aqui é um olhar cosmopolítico que permita a abertura entre mundos, para a exposição daquilo que eles nutrem e excluem, de modo que o Estado possa efetivamente ser capaz de promover uma gestão sustentável dessas áreas (Brito, 2008). Dito de outra maneira, defendemos a proposição de cosmopolíticas, de uma gestão compartilhada diplomática, que reconheça o quanto suas práticas produzem entrecapturas e restrições às relações de pertencimento aos territórios. Desse modo, o eixo central da cosmopolítica nas UCs mostra-se como um processo contínuo de negociação precária, um fazer compartilhado que demanda reconhecer os limites do controle humano.
A conservação/preservação se revelam como práticas em constante transformação, continuamente reconfiguradas nas dinâmicas entre agentes mais que humanos, entre normativas institucionais e fenômenos ecológicos imprevisíveis. Longe de soluções definitivas, o que emerge são arranjos experimentais, nos quais cada restrição deve ser levada em conta para repensar coletivamente as possibilidades de coexistência. Nas UCs, como em todos os ecossistemas ameaçados, o desafio fundamental reside na capacidade de reconstruir modos de existência, não a partir de perspectivas de dominação, mas através de uma atenção sensível às complexas redes de interdependência que sustentam essas ecologias de práticas. A cosmopolítica assim se configura como uma prática cotidiana de responsabilidade relacional, em que o essencial é manter a possibilidade de que a vida, em toda sua diversidade, possa seguir tecendo suas próprias condições de existência, com ou sem nossa intervenção.
CONCLUSÃO
Neste artigo, a partir do devir-com de Donna Haraway e da ecologia das práticas de Isabelle Stengers, demonstramos como o organizar-com a natureza nas UCs é mobilizado no coexistir de vidas mais que humanas nas ecologias das práticas de conservação/preservação. Nessas ecologias, os atritos entre mundos produzem zonas de entrecapturas e restrições, cujos desdobramentos estão intimamente implicados nas relações de pertencimento aos territórios. Evidenciamos como o organizar-com emerge da capacidade de responder de forma atenta às restrições específicas impostas por cada arranjo situado, em que as práticas de gestão se inserem numa ecologia de práticas necessariamente situada, parcial e relacional.
Nossa análise evidencia organizadores-com que recusam a ficção moderna da cisão natureza-cultura, em favor de um engajamento com as ecologias de práticas que sempre já as entrelaçaram. Ao seguir os rastros dessas práticas nas UCs, damos atenção àquilo que o pensamento dominante sistematicamente desqualifica: os saberes que só existem na medida em que respondem, com precisão e cuidado, às exigências singulares impostas por cada ecossistema. Nas UCs, o organizar-com é múltiplo: com comunidades tradicionais, com espécies monitoradas, com os próprios ritmos do território. Organizar-com de forma a cultivar a capacidade de resposta às múltiplas vozes, humanas ou não, que compõem o mundo.
Os achados desta pesquisa evidenciam que disputar (cosmo)politicamente o organizar exige, antes de tudo, reconhecê-lo como campo de negociação em tensão, entre mundos em conflito. Não se trata, portanto, de buscar consensos ou mediações harmônicas, mas de assumir o caráter de fricção desses encontros, e de reconfiguração contínua entre práticas mais que humanas. A cosmopolítica que defendemos se materializa em três gestos fundamentais: a recusa das alternativas infernais; a valorização das zonas de entrecapturas; e a criação de modos de governança relacional.
Recusar as ‘alternativas infernais’ impostas pelo neoliberalismo implica criar espaços em que outras perguntas possam emergir, perguntas que nasçam da escuta atenta às restrições impostas pelas próprias ecologias que buscamos conservar. Valorizar as zonas de entrecapturas significa reconhecê-las como espaços privilegiados de reinvenção prática. No caso das UCs, quando protocolos científicos aprendem com saberes tradicionais, quando planos de manejo se curvam aos ritmos das marés, ou quando políticas públicas incorporam os regimes de atenção das comunidades locais, estamos testemunhando a emergência de um organizar-com que pode resistir às simplificações modernistas. Por fim, criar modos de governança relacional passa por produzir práticas de gestão radicalmente baseadas na escuta ativa. Trata-se de substituir os modelos tradicionais de gestão, centralizados, rígidos e antropocêntricos, por práticas organizativas que institucionalizam a resposta às vozes do ecossistema. Nesse sentido, é bom lembrar que as UCs aparecem como microcosmos de uma disputa maior: a que opõe, de um lado, a fantasia de controle que marcou a gestão moderna dos territórios e, de outro, o reconhecimento cosmopolítico de ser parte de ecologias sempre em devir-com. Essa oposição não se revela apenas nas UCs, mas também nas outras formas organizativas.
Por isso, queremos que nossa proposta do organizar-com não se restrinja às UCs, pois entendemos que ela oferece possibilidades para a gestão em diversos outros contextos institucionais, substituindo modelos centrados na hierarquia e no controle por práticas administrativas baseadas em negociação contínua com agentes mais que humanos. Implicaria, por exemplo, o desenvolvimento de planos de logística e produção que internalizem as restrições impostas por cadeias ecológicas (como escassez de água ou comportamentos de espécies afetadas), convertendo relatórios de sustentabilidade em ferramentas de escuta ativa aos territórios onde operam. Já no setor público, por exemplo, poderia demandar orçamentos e políticas que não apenas tolerem, mas dependam de ajustes contínuos frente a fenômenos climáticos, movimentos sociais e outras agências não humanas.
Com essa análise, mostramos de maneira concreta a possibilidade de questionar a clássica cisão natureza-cultura, propondo uma abordagem que acolha o que habitualmente é silenciado, mas que pode, assim, contribuir para a construção de novas possibilidades de vida. Esperamos que o organizar-com, e em especial o organizar-com a natureza, possam contribuir para o campo da administração e dos estudos organizacionais com um engajamento com saberes e existências que não se limitam aos nossos próprios, embora essas ainda apareçam muito timidamente em nossas teorias. Nosso intuito é que essa e outras iniciativas possam engajar tais campos do conhecimento na prática de uma política cósmica com uma disposição para lidar com a indeterminação, reativando zonas de experiência em direção não ao provável, mas sim ao possível (Stengers, 2018).
Reconhecemos, no entanto, que, apesar de nossos esforços para incluir no trabalho as agências da natureza no organizar-com, ao limitarmos nossa pesquisa a entrevistas e documentos, corremos o risco de continuar silenciando muitas outras vozes. Nesse sentido, sugerimos para estudos futuros a aplicação de metodologias imersivas que permitam maior intimidade com a natureza, a exemplo da etnografia multiespécies (Kirksey & Helmreich, 2010). O convite que fazemos é para que nós, pesquisadoras(es) das organizações, permaneçamos no incômodo de pensarmos alternativas no Antropoceno. Agroecologias, permaculturas, ativismos ecológicos, quilombos, aldeias, são fenômenos que podem contribuir com a construção de novos imaginários para o campo. Em outras palavras, deixamos um convite para tecermos fios de barbantes em devir-com, permanecendo com as urgências de um planeta em ruínas (Haraway, 2023).
Agradecimentos
Agradecemos às vidas mais-que-humanas que participaram, direta ou indiretamente, da composição desta pesquisa.
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Financiamento
Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de apoio financeiro para a realização desta pesquisa.
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Método de Revisão por Pares
Este conteúdo foi avaliado utilizando o processo de revisão por pares duplo-cego (double-blind peer-review). A divulgação das informações dos pareceristas constantes na primeira página e do Relatório de Revisão por Pares (Peer Review Report) é feita somente após a conclusão do processo avaliativo, e com o consentimento voluntário dos respectivos pareceristas e autores.
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Verificação de Plágio
A RAC mantém a prática de submeter todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, mediante o emprego de ferramentas específicas, e.g.: iThenticate.
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Disponibilidade dos Dados
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:Cabacine, Filipe; Fantinel, Letícia, 2025, "Replication Data for: Organizing-with Nature: A Study on the Ecologies of Practices in Brazilian Conservation Units published by RAC-Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1.A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
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Como citar:
Cabacine, F., & Fantinel, L. D. (2025). Organizar-com a natureza: Um estudo com as ecologias das práticas nas unidades de conservação brasileiras. Revista de Administração Contemporânea, 29(5), e240350. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2025240350.por
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Classificação JEL:
M21
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Relatório de Revisão por Pares:
A disponibilização do Relatório de Revisão por Pares não foi autorizada pelos revisores.
Editado por
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Editora-chefe:
Paula Chimenti (Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPEAD, Brasil) https://orcid.org/0000-0002-6492-4072
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Editora associada:
Denize Grzybovski (Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Brasil) https://orcid.org/0000-0003-3798-1810
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:
Cabacine, Filipe; Fantinel, Letícia, 2025, "Replication Data for: Organizing-with Nature: A Study on the Ecologies of Practices in Brazilian Conservation Units published by RAC-Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1.
https://doi.org/10.7910/DVN/N5SGGL
A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.



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Fonte: Elaborado pelos autores.

