Open-access Desenvolvimento Sustentável e o Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB)

RESUMO

Objetivo:  o debate em torno do tema do desenvolvimento sustentável tem pautado a agenda de governos, universidades, mercado e organizações não estatais, entre outros, há bastante tempo. Contudo, seus efeitos ainda não alcançaram os resultados esperados na promoção da qualidade de vida, com inclusão social, garantia de condições dignas de trabalho e redução das desigualdades, em especial de grupos historicamente marginalizados e vulneráveis, como as mulheres. Este estudo tem como objetivo geral identificar se o MMIB tem relevância e alinhamento com o desenvolvimento sustentável por seus membros participantes.

Marco teórico:  para a consecução dos objetivos, fez-se uso dos conceitos de desenvolvimento sustentável e bioeconomia.

Método:  com uma pesquisa exploratória descritiva e uma abordagem qualitativa, apoiada na técnica de entrevista e aplicação de questionário.

Resultado:  os resultados apontam que o movimento é constituído majoritariamente por mulheres e empreendedoras, fazendo uso dos recursos naturais e das capacidades dinâmicas em suas atividades de renda. No MMIB, tem-se em estágio inicial uma pequena cadeia de bioeconomia.

Conclusões:  a contribuição deste trabalho é que se identificou um movimento na Amazônia que, de forma simples, aplica os conceitos de desenvolvimento sustentável e bioeconomia, sendo reconhecido por seus pares.

Palavras-chave:
bioeconomia; desenvolvimento sustentável; empreendedorismo; recursos naturais

ABSTRACT

Objective:  the debate surrounding the topic of sustainable development has been shaping the agendas of governments, universities, the market, and non-state organizations, among others, for quite some time. However, its effects have yet to achieve the expected outcomes in promoting quality of life, social inclusion, ensuring decent working conditions, and reducing inequalities, especially for historically marginalized and vulnerable groups, such as women. This study aims to identify whether the MMIB is relevant and aligned with sustainable development for its participating members.

Theoretical approach:  to achieve these objectives, concepts of sustainable development and bioeconomy were employed.

Method:  using exploratory descriptive research and a qualitative approach, supported by interviews and questionnaires.

Result:  the results indicate that the movement is composed mainly of women and entrepreneurs who utilize natural resources and dynamic capabilities in their income-generating activities. Within the MMIB, there is an initial stage of a small bioeconomy chain.

Conclusions:  the contribution of this study lies in identifying a movement in the Amazon that, in a simple manner, applies the concepts of sustainable development and bioeconomy, earning recognition from its peers.

Keywords:
bioeconomy; sustainable development; entrepreneurship; natural resources

INTRODUÇÃO

Os recursos naturais da Amazônia, em especial os florestais, constituem meios de sobrevivência e oportunidade de trabalho para os povos da região que buscam uma fonte de renda. Dentre as atividades desenvolvidas com o uso dos recursos naturais da floresta está a produção de bioartesanatos e biojoias, uma atividade econômica que possibilita o empreendedorismo feminino na região, especialmente nas ilhas de Belém.

De acordo com Martins et al. (2023), mulheres empreendedoras da região do Marajó (ilhas pertencentes ao estado do Pará) veem seus negócios como instrumentos de emancipação financeira e empoderamento pessoal. Contudo, para uma gestão mais eficaz e um crescimento sustentável, é necessário superar barreiras como preconceitos sociais, aprimorar a expertise em gestão e garantir maior apoio financeiro e institucional.

O Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB) nasceu no ano de 2002 na Ilha de Cotijuba e agrega associados de outras ilhas - Nova, Jutuba, Paquetá e Urubuoca, consideradas áreas de proteção ambiental (APA) na região de Belém, capital do Pará. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), Cotijuba é a terceira maior ilha da região, com uma área de 15,8071 km² e uma população estimada de 6.456 habitantes.

Segundo Guerra e Mesquita (2020), o MMIB originou-se de um descontentamento de um grupo de mulheres que faziam parte do Grupo das Mulheres da Associação de Produtores da Ilha de Cotijuba (GM-APIC), fundado em 1998. Tal descontentamento dava-se pelo fato de sofrerem atitudes discriminatórias por parte de diretores do sexo masculino.

Por meio do MMIB, mulheres da Ilha de Cotijuba e de outras ilhas próximas à capital Belém organizaram-se em uma associação para empreender, transformando os produtos da floresta em bioeconomia, como fonte de renda, inclusão e empoderamento feminino, fortalecendo o mercado local.

Segundo Marques (2019), o MMIB enfrentou desafios como dinamizar a produção associativa e lidar com a invisibilidade do trabalho doméstico e produtivo das mulheres. A nova organização passou a incluir mulheres, homens e jovens de várias ilhas ao redor de Belém, focando igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável. Para Marques (2019), o MMIB obteve sucesso desenvolvendo diversos projetos, como o Projeto de Inclusão Digital, a Escola Ribeirinha de Negócios e a Campanha Empodera Meninas e Meninos.

O que motiva o presente estudo é que o MMIB representa um importante movimento de justiça de gênero e responsabilidade socioambiental na Amazônia, além de promover a participação ativa das mulheres nas dinâmicas econômicas e sociais da região ribeirinha de Belém, fortalecendo suas vozes e demandas.

Logo, o presente trabalho tem a seguinte questão-problema: O MMIB é um movimento relevante para o empreendedorismo com desenvolvimento sustentável na região das ilhas de Belém?

O objetivo principal deste trabalho é identificar se o MMIB tem relevância para os seus membros associados. Como objetivos específicos, busca-se identificar e caracterizar os membros participantes, assim como identificar se o MMIB está alinhado com o desenvolvimento sustentável.

Para a consecução dos objetivos, fez-se uso de uma abordagem qualitativa descritiva, apoiada pelas técnicas de coleta de dados, entrevista e levantamento tipo survey, e da estatística descritiva.

O trabalho encontra-se estruturado em uma introdução, seguida do referencial teórico apoiado em desenvolvimento sustentável, bioeconomia e teoria dos recursos naturais.

REFERENCIAL TEÓRICO

O aporte teórico do trabalho se dá pelo desenvolvimento sustentável, bioeconomia e a teoria baseada em recursos e capacidades.

Desenvolvimento sustentável

O desenvolvimento sustentável é um conceito que ganhou destaque nas últimas décadas, à medida que o mundo enfrenta desafios ambientais e sociais cada vez mais complexos, conceito esse oriundo de muitos esforços da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos países que se fazem representar nas questões ambientais.

De acordo com a ONU (2023), o desenvolvimento sustentável é um conceito que se refere a um desenvolvimento que atende às necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade de atender às necessidades das futuras gerações.

Logo, é uma abordagem holística para promover o progresso econômico, social e ambiental, com o objetivo de atender às necessidades das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades (Brundtland, 1987).

O desenvolvimento sustentável é fundamentado em três pilares interconectados, de acordo com o Relatório Brundtland (1987) e a Agenda 2030 da ONU (ONU, 2023): (1) Desenvolvimento Econômico, (2) Equidade Social e (3) Proteção Ambiental.

Para Feil e Schreiber (2017), o desenvolvimento sustentável é uma abordagem de longo prazo destinada a aprimorar a qualidade de vida da sociedade. Essa abordagem requer a consideração integrada de aspectos ambientais, sociais e econômicos, especialmente atentando para as restrições ambientais resultantes da exploração contínua e duradoura dos recursos naturais.

Para Medaglia et al. (2021), as metas do desenvolvimento sustentável contemplam não apenas o impacto ambiental, mas também as dimensões econômicas, sociais e institucionais. Dessa maneira, a internacionalização de soluções é mais completa, atendendo a demandas globais de sustentabilidade espalhadas por diversas escalas e contextos, de acordo com Jayabalasingham et al. (2019).

Martins et al. (2024) colaboram com essa abordagem, descrevendo que o conceito de desenvolvimento sustentável implica a compreensão de que é essencial adotar uma abordagem multidisciplinar e analítica para compreender a necessidade de considerar o ciclo natural e o tempo, a fim de evitar a exaustão dos recursos naturais.

Sachs (2008) aborda a necessidade de um desenvolvimento que seja inclusivo e que promova o trabalho decente para todos. Ele enfatiza que o desenvolvimento sustentável não pode ser alcançado sem considerar a inclusão social e a garantia de condições dignas de trabalho. Logo, o desenvolvimento econômico deve ser acompanhado por políticas que promovam a inclusão social, reduzindo as desigualdades e garantindo que todos os segmentos da população se beneficiem do crescimento econômico.

Sachs (2008) ainda destaca a importância de criar oportunidades para grupos marginalizados, incluindo mulheres, jovens e comunidades rurais, assim como o uso de recursos naturais e o processo de educação e capacitação da mão de obra inclusiva.

Para Sachs (2008), a inclusão social pelo trabalho decente é um objetivo alcançável e necessário para o desenvolvimento sustentável. Ele defende que, através de políticas públicas bem articuladas e esforços colaborativos, é possível superar os obstáculos e criar oportunidades que garantam trabalho digno e inclusão social para todos. Enfatiza que o trabalho decente é um componente crucial para a erradicação da pobreza e a promoção da justiça social.

Para Canto et al. (2020), os problemas socioambientais amazônicos são conflitos estabelecidos entre diferentes grupos sociais, que se guiam por perspectivas distintas ao tentarem se apropriar e utilizar os recursos naturais, o que compromete a efetividade da preservação e da manutenção do desenvolvimento sustentável. Esses conflitos explicitam a complexidade que representa a gestão territorial na região, que se encontra sob o regime de uma série de interesses diversos referentes à apropriação das florestas, dos rios e de outros recursos, que ameaça a conservação e o equilíbrio socioambiental (Canto et al., 2020).

O presente trabalho vai ao encontro de evidenciar como uma parcela de uma comunidade amazônica se associa e faz uso dos recursos naturais. No MMIB, talvez exista uma possibilidade de essas comunidades das ilhas que fazem parte do MMIB estarem caminhando em direção ao desenvolvimento sustentável defendido pela ONU (ONU, 2023), Sachs (2008), Feil e Schreiber (2017), Medaglia et al. (2021) e Martins et al. (2024), onde se têm presentes os aspectos ambientais, sociais e econômicos.

A seguir, apresenta-se um breve tópico sobre o conceito de bioeconomia e o seu impacto nos aspectos ambiental, social e econômico.

Bioeconomia

Entende-se que a bioeconomia seja um novo paradigma de desenvolvimento sustentável, integrando o uso de recursos biológicos renováveis com inovações tecnológicas para promover o uso mais eficiente de recursos, menos nocivos ao meio ambiente.

A bioeconomia é uma ciência que busca o desenvolvimento econômico de forma sustentável, ou da forma mais sustentável/compatível possível com o crescimento econômico. Nicholas Georgescu-Roegen foi um dos primeiros a notar a relação entre a economia e a biologia; ele chamou atenção para a insustentabilidade do crescimento, pois notou que os recursos naturais disponíveis para a exploração na Terra não seriam compatíveis com o padrão que estava se estabelecendo (Georgescu-Roegen, 1971).

A visão de Georgescu-Roegen (1971) pode ter fundamentado o conceito da Global Bioeconomy Summit (2015), onde se tem o entendimento de que a bioeconomia é “… a produção, utilização e conservação de recursos biológicos, incluindo conhecimento relacionado, ciência, tecnologia e inovação, para fornecer informações, produtos, processos e serviços em todos os setores econômicos visando a uma economia sustentável”.

Na visão de Dias e Carvalho (2017), o crescimento mundial da bioeconomia e as oportunidades associadas estão relacionados ao aumento da população e ao seu envelhecimento, à renda per capita, à necessidade de ampliação da oferta de alimentos, saúde, energia e água potável, bem como às questões que envolvem as mudanças climáticas. Isto é, Dias e Carvalho (2017) apontam a relação da bioeconomia com as dimensões da sustentabilidade: ambiental, social e econômica.

Para Mejias (2019) e Dias e Carvalho (2017), o Brasil, em razão do domínio dos processos agroindustriais relacionados à bioenergia, aliados às suas aptidões agrícolas e em função de sua extensão territorial e da tecnologia desenvolvida para os trópicos, configura-se como um dos principais atores desse novo cenário.

Willerding et al. (2020), embora abordem a bioeconomia no estado do Amazonas, destacam a necessidade de explorar as riquezas naturais da floresta de forma sustentável, alinhando-as com as demandas do mercado e as oportunidades tecnológicas. A bioeconomia emerge como uma alternativa promissora para diversificar a economia do estado e garantir sua resiliência futura.

Homma (2022) deixa claro que existem, de certa forma, duas bioeconomias: a velha e a nova. A ‘velha’ bioeconomia já é conhecida e deu sua grande contribuição para a humanidade, e continua dando, como o álcool combustível, vinho, aguardente, queijos, iogurtes, borracha, chocolate etc.

Fazer uma ‘nova’ bioeconomia a partir da coleta extrativa, cujos estoques são limitados, dispersos, com baixa produtividade da mão de obra e da terra, características inerentes a cada produto quanto à coleta, beneficiamento, transporte, entre outros, constitui uma grande limitação (Homma, 2022).

Logo, para Homma (2022), no aspecto da limitação, soma-se a questão da escala, cuja produção nem sempre atende às dimensões do mercado, quanto ao preço e à qualidade. Em outras palavras, a sociedade ou as comunidades devem ficar atentas a fatores que podem influenciar o modo de se fazer bioeconomia.

Homma (2022) ainda cita como exemplo o caso do guaraná e de outras culturas, cuja produção veio declinando ao longo dos anos. A despeito da grande ênfase na bioeconomia, a maioria dos produtos da coleta extrativa gera baixa renda e somente por alguns meses durante o ano. Há necessidade de combinar outras atividades para garantir um fluxo de renda mensal adequado, fazer plantios e não depender de transferências governamentais.

Tal proposição ou crítica de Homma (2022) sobre as restrições de uso dos recursos naturais também é evidenciada no trabalho de Vivien et al. (2019). O MMIB, de certa forma, faz uso do conceito de bioeconomia, a partir do momento em que gera para o mercado consumidor produtos acabados, como o bioartesanato e a biojoia, a partir de recursos naturais.

Para o referido trabalho, considerar-se-á bioartesanato como um produto oriundo da atividade manual com recursos naturais, que tem como produto final um bem que serve para decorar ou ornamentar uma casa, enfeitar uma caneta, um vidro de perfume, outros objetos etc. (Brasil, 2012).

As peças oriundas do bioartesanato podem ter composição de diversos tipos de materiais, como, por exemplo: barro, papelão, madeira, sementes e folhas da floresta. Na Figura 1, apresenta-se um exemplo de bioartesanato, cujo nome ou identificação é um vaso, cujo material de composição é o papelão, que passou por um processo de tratamento.

Figura 1
Exemplo de um bioartesanato (um tipo de vaso)

A biojoia é um produto oriundo da atividade manual com recursos naturais que tem como produto final um bem que serve para ser usado pelo homem, como um adereço ou adorno no corpo, como. por exemplo: colar, pulseira, brincos etc. (Brasil, 2012).

As peças oriundas da biojoia podem ter composição de diversos tipos de materiais, como, por exemplo: sementes de frutos, folhas, escamas de peixes, raízes de plantas, além de alguns outros materiais que possam dar segurança e usabilidade ao adereço, como o fecho de arame de um colar ou brinco. Na Figura 2, tem-se uma biojoia, que é um conjunto de colar e brincos, onde há sementes secas do fruto açaí fazendo parte do adereço.

Figura 2
Exemplo de uma biojoia (um tipo de colar e brinco)

Para complementar a bioeconomia gerada pela floresta, a seguir apresenta-se a teoria baseada em recursos e capacidades.

Teoria baseada em recursos e capacidades

A visão baseada em recursos (VBR) surgiu como uma das várias explicações importantes das diferenças persistentes de desempenho das empresas no campo da gestão estratégica.

A visão baseada em recursos, como qualquer teoria, baseia-se no trabalho teórico anterior no desenvolvimento de suas previsões e prescrições. No caso da VBR, importantes considerações teóricas prévias a originaram, vindo de pelo menos quatro fontes: (1) estudo tradicional de competências distintivas; (2) economia ricardiana; (3) economia penrosiana; e (4) estudo das implicações antitruste da economia (Barney & Arikan, 2001).

Talvez a primeira publicação baseada em recursos no campo da gestão estratégica identificada como tal tenha sido a de Wernerfelt (1984).

Wernerfelt (1984) tentou desenvolver uma teoria de vantagem competitiva baseada nos recursos que uma empresa desenvolve ou adquire para implementar a estratégia de mercado de produtos como complemento.

Essa abordagem para desenvolver uma teoria da vantagem competitiva supõe que o portfólio de posições de mercado de produtos que uma empresa assume se reflete no portfólio de recursos que ela controla. A competição entre as posições de mercado de produtos detidas pelas empresas também pode ser entendida como a competição entre as posições de recursos detidas pelas empresas (Barney & Arikan, 2001).

Partindo dessa perspectiva, Barney e Hesterly (2007)apresentam um modelo que propõe a análise dos recursos da empresa e seu potencial competitivo a partir de quatro questões (valor, raridade, imitabilidade e organização - VRIO), no qual um recurso, para ser capaz de gerar vantagens competitivas, deve possuir quatro características: ser raro (no sentido de escasso entre os concorrentes atuais e potenciais), valioso (capaz de prover à firma condições de explorar oportunidades e/ou reduzir ou neutralizar ameaças), imperfeitamente imitável ou ter alto custo de imitação e ser insubstituível ou não possuir substitutos estratégicos equivalentes.

Os recursos, por sua vez, devem ser manipulados pelos agentes (empresas, pessoas etc.), e, portanto, surge a pergunta: Esses agentes apresentam capacidades ou habilidades para manipular os recursos para obter vantagem competitiva? Para responder a esse tipo de questionamento, faz-se necessário abordar as capacidades dinâmicas.

As capacidades dinâmicas são vistas como um conjunto de comportamentos, habilidades, rotinas, processos e mecanismos de aprendizagem e governança do conhecimento, focados em mudança e inovação. Desde a proposta original de Teece et al. (1997), o conceito evoluiu significativamente, resultando em uma variedade de definições e controvérsias sobre seus componentes e condicionantes.

Capacidades dinâmicas são baseadas em mecanismos de aprendizagem que permitem a evolução constante do conhecimento organizacional e uma dedicação sistemática aos processos de melhorias (Teece et al., 1997). Conforme definido por Helfat et al. (2007), capacidade dinâmica é a capacidade de uma organização criar, estender ou modificar sua base de recursos propositadamente.

Segundo Helfat et al. (2007), o conceito de capacidade dinâmica inclui três funções: (a) identificação de necessidades ou oportunidades de mudança; (b) formulação de respostas adequadas para essas necessidades ou oportunidades; e (c) desenvolvimento de cursos de ação.

No texto de Helfat et al. (2007), observa-se que nem todas as capacidades dinâmicas servem às três funções. Existem capacidades dinâmicas que servem para propósitos diferentes. Helfat et al. (2007) colocam também que as capacidades dinâmicas suportam duas funções principais com relação à base de recursos de uma organização: (a) busca, seleção e criação de recursos; e (b) implantação dos recursos.

Para o presente estudo, leva-se em consideração o conceito de Helfat et al. (2007), em que algumas capacidades dinâmicas, por exemplo, permitem que a empresa entre em um novo negócio e estenda sua base de negócios. Outras capacidades ajudam a empresa a criar novos produtos e processos de produção. Finalmente, existem capacidades dinâmicas relacionadas à capacidade dos gestores em tornar a empresa mais lucrativa e a fazê-la crescer de forma consistente.

Entende-se, dessa forma, que o MMIB e os seus associados, fazendo uso dos recursos naturais e com as suas respectivas capacidades dinâmicas, de alguma forma promovem uma vantagem competitiva na região.

METODOLOGIA

Esquema interpretativo

O presente trabalho tem um esquema interpretativo dedutivo, onde se parte de uma base teórica que dialoga com o respectivo objeto de estudo.

Abordagem de pesquisa

A abordagem utilizada foi a qualitativa, de natureza exploratória e descritiva. Para Miguel et al. (2012), na abordagem qualitativa, a realidade subjetiva dos indivíduos envolvidos na pesquisa é considerada relevante e contribui para o desenvolvimento da pesquisa. A preocupação é obter informações sobre a perspectiva dos indivíduos, bem como interpretar o ambiente em que a problemática acontece.

Em Rudio (1986), tem-se o entendimento da pesquisa descritiva como um conjunto de conceitos para descrever determinado fenômeno, onde se deseja conhecer a sua natureza, sua composição e os processos que o constituem ou nele se realizam.

Uma pesquisa descritiva visa descobrir e observar fenômenos existentes, situações presentes e eventos, procurando descrevê-los, classificá-los, compará-los, interpretá-los e avaliá-los com o objetivo de aclarar situações para idealizar futuros planos e decisões (Martins, 2012).

Método(s) de pesquisa

O método adotado foi o estudo de campo. Miguel et al. (2012) salientam que o método de pesquisa mais apropriado para uma pesquisa qualitativa é o estudo de campo.

Técnica(s) de pesquisa

As técnicas para levantamento de dados empregadas na presente pesquisa foram a entrevista e a aplicação de um questionário composto de perguntas abertas e fechadas. Os resultados foram gerados a partir do uso da estatística descritiva com apoio do Microsoft Excel. A seguir, nas fases da pesquisa, serão detalhados o processo da entrevista e a composição e aplicação do questionário.

Ambiente de estudo, população e amostra

O Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB) foi o ambiente de estudo da presente pesquisa. O MMIB, de acordo com a atual coordenadora-presidente, apresenta registrados 131 associados, entre homens e mulheres. Logo, para o referido estudo, levou-se em consideração, para a pesquisa, a população de 131 associados, e quatro diretoras participaram da entrevista.

A pesquisa deu-se em quatro fases, conforme demonstra a Figura 3.

Figura 3
Fases da pesquisa.

Na fase 1, ocorreu uma visita em fevereiro de 2024 à sede do MMIB na Ilha de Cotijuba, com característica exploratória para posterior definição dos métodos de coleta de dados.

Nessa visita, foi feita uma reunião com as diretoras do MMIB, no número de quatro mulheres, com o objetivo de entrevistá-las e conhecer a estrutura física da sede. Para a entrevista, não foi elaborado nenhum tipo de roteiro ou questionário. Os entrevistados ficaram livres para falar, e os entrevistadores, à medida que as dúvidas ou curiosidades surgiam, questionaram as diretoras participantes.

Na fase 2, fez-se a análise da entrevista e desenhou-se como o MMIB estava estruturado, quais os projetos em andamento e quais os produtos gerados pelo movimento. Por fim, identificaram-se as variáveis que poderiam ser estudadas e que pudessem fazer parte do questionário de pesquisa a ser aplicado aos associados do MMIB.

Na fase 3, elaborou-se o questionário de perguntas, que se transformou no instrumento de coleta de dados para ser aplicado aos membros participantes do MMIB. O questionário foi composto de 24 perguntas, sendo oito perguntas abertas e 16 perguntas fechadas. Das 16 perguntas fechadas, quatro perguntas continham uma escala Likert, conforme segue: 1 (não é nada importante), 2 (às vezes importante), 3 (moderado), 4 (importante) e 5 (muito importante). A escala serviu para representar o grau de importância que o MMIB tem para os associados, e o grau de sustentabilidade ambiental, social e econômica que o MMIB representa para os associados.

O questionário foi criado no Google Forms (por ser uma plataforma de livre acesso), e foi gerado um link de acesso, que foi compartilhado no grupo de WhatsApp do MMIB. O formulário ficou disponível durante duas semanas (entre maio e junho de 2024), para que os membros do MMIB pudessem respondê-lo. Do total de 131 membros (associados do MMIB - moradores da Ilha de Cotijuba e outras ilhas próximas), obteve-se um sucesso de 47 retornos (questionários preenchidos), o que representa 35,87% da população.

Na fase 4, fez-se a análise dos dados com o apoio da estatística descritiva e o aporte do referencial teórico. Para a elaboração das estatísticas e das figuras, fez-se uso do Microsoft Excel.

RESULTADOS

Para a análise dos resultados, optou-se por uma divisão. Na primeira parte, são descritos os principais resultados encontrados na entrevista com as diretoras do MMIB. Na segunda parte, revelam-se os resultados estatísticos descritivos com relação aos membros associados do MMIB.

Análise da entrevista com a diretoria do MMIB

Durante a entrevista com a diretoria do MMIB, em fevereiro de 2024, evidenciaram-se a origem e o tempo de existência do MMIB, comprovando os estudos de Marques (2019) e Guerra e Mesquita (2020). Isto é, o movimento teve origem em 2002, a partir de uma dissidência da Associação dos Produtores da Ilha de Cotijuba (APIC).

Atualmente, o movimento é composto por 131 associados, e a maioria dos associados é da própria Ilha de Cotijuba. No entanto, existem participantes de outras ilhas, que por motivo de distância e de transporte, pouco frequentam o MMIB presencialmente.

O principal meio de comunicação dos membros é o grupo de WhatsApp, facilitando a divulgação de: eventos, agenda de reuniões, deliberações tomadas nas reuniões etc.

Na Figura 4, apresenta-se a infraestrutura do MMIB, composta por: salão de reuniões; área destinada à transformação de recursos naturais em materiais de bioartesanato (tanques de lavagem, fornos, secagem etc.); viveiro; cozinha; biblioteca; sala de informática; e um pequeno espaço que serve como loja para a venda de produtos originários do MMIB e dos associados.

Figura 4
Infraestrutura do MMIB - Cotijuba Pará.

Ainda sobre a infraestrutura, a água é de poço artesiano e a energia elétrica na ilha é fornecida pela empresa Equatorial Energia, com uma estação termelétrica, mas que a partir de novembro de 2024 passa a ser interligada ao Sistema Nacional de Energia via cabo submarino.

Marques (2019) identificou, entre 1998 e 2018, os principais atores envolvidos com projetos com o MMIB, conforme a Tabela 1.

Tabela 1
Mapeamento de atores sociais que já estiveram envolvidos em projetos conjuntos com o Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (1998-2018).

No período em que foi realizada a presente pesquisa (fevereiro a junho de 2024), as diretoras relataram os seguintes projetos que estão em andamento pelo MMIB:

  • (a) Projeto da farinha, que conta com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa).

  • (b) Projeto Trilha de Turismo, que tem apoio do Instituto Federal do Pará (IFPA).

  • (c) Projeto da apicultura (mel), com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

  • (d) Projeto de beneficiamento de coco, pupunha, tucumã e banana, assim como a extração de óleo, cujo colaborador é o Centro de Ensino Superior do Pará (Cesupa) disseminando pesquisas e técnicas.

  • (e) O MMIB comercializa com a empresa Natura óleos, sementes e caroços de castanha, tucumã, andiroba etc.

  • (f) Projeto de criação de bioartesanato, cuja iniciativa é própria, e no momento não conta com apoio de terceiros.

Nesse último projeto, criação de bioartesanato, por se tratar de um projeto próprio do MMIB e totalmente integrado com a bioeconomia, vale o destaque.

Na Figura 6, observa-se que a cadeia do bioartesanato gerado pelo MMIB começa com o fornecedor da matéria-prima, que são os próprios associados ou parentes desses associados do MMIB, que colaboram com a entrega de caroços de açaí, folhas de ajirú, caroços de tucumã e outros materiais da natureza, havendo até matéria-prima do estado do Amazonas.

Quando a matéria-prima coletada chega às dependências do MMIB, acontece o processo de transformação (realizado pelos associados), onde o caroço do açaí e do tucumã, as folhas do ajirú e outros materiais passam por estágios diferentes de processamento. Por exemplo, o caroço do açaí passa pelos processos de secagem, furação e polimento. A folha do ajirú passa pelo processo de lavagem, secagem e corte.

Dependendo do recurso natural (matéria-prima), têm-se processos de transformação diferentes, com o uso da luz do sol, com os tanques disponíveis para a lavagem ou o tingimento natural de folhas etc., até chegar ao produto final ou acabado, que se denomina bioartesanato e biojoia. Tais processos diferenciados se alinham com a proposta de Barney e Arikan (2021), podendo gerar uma vantagem competitiva em termos de produto local.

Na Figura 5, presencia-se o conceito de Georgescu-Roegen (1971) de bioeconomia, a inclusão social com o uso da mão de obra dos associados (em sua maioria, mulheres) e a aplicação do desenvolvimento sustentável, gerando renda, defendido por Sachs (2008) para a diminuição das desigualdades.

Figura 5
Diagrama de parte da cadeia produtiva de bioartesanato - MMIB

No processo de transformação, evidenciam-se também processos diferenciados (como, por exemplo, o uso de tingimento natural de folhas), que só aquela comunidade detém, fortalecendo a teoria dos recursos e capacidades elencados por Helfat et al. (2007).

Considerando o modelo proposto por Barney e Hesterly (2007), supõe-se que o MMIB, em sua forma constituída e de gestão associativa, enquadra-se no respectivo modelo, ao fazer uso de recursos naturais que são escassos, apresentam valor econômico e competitivo, têm processos difíceis de imitar (artesanais) e resultam em produtos acabados de origem natural diferenciados.

Logo, com base na teoria baseada em recursos, o MMIB é uma associação ou um movimento de mulheres com vantagem competitiva sustentável na região, embora com suas limitações de escala de produção, limitação essa advertida nos estudos de Homma (2022).

A seguir, apresentam-se os principais resultados obtidos com as respostas dos associados do MMIB.

Análise dos associados do MMIB

Dos 131 associados do MMIB, obteve-se com sucesso 47 respondentes, o que corresponde a 35,87% da população considerada para estudo. Desses 47 respondentes, 78,72% são do sexo feminino e 21,28% do sexo masculino. Logo, esse resultado reforça o próprio nome do MMIB e os estudos de Marques (2019). O tempo médio de participação dos associados do sexo feminino é de 12,27 anos, e para os do sexo masculino é de 17,40 anos.

Na Figura 6, tem-se que 91,49% dos associados respondentes residem na Ilha de Cotijuba, e 8,51% na cidade de Belém. Das mulheres participantes, 94,59% residem em Cotijuba, e dos homens participantes, 80% residem em Cotijuba. Vale destacar que existem associados que residem em outras ilhas próximas a Cotijuba, que fazem parte do MMIB e que, por algum motivo, não responderam ao questionário.

Figura 6
Localidade dos associados do MMIB.

Acredita-se que, com esses números, uma parcela significativa dos associados do MMIB está próxima da sede, o que pode facilitar a gestão.

Na Figura 7, nota-se que 53,19% dos respondentes encontram-se na faixa de renda abaixo de um salário mínimo. Comparando os sexos na mesma faixa de renda, 50% dos homens e 54,05% das mulheres se enquadram nessa faixa. Isto é, a média ficou bem próxima, tanto para os respondentes totais quanto para os homens e as mulheres.

Figura 7
Faixa de renda dos associados do MMIB.

Ainda na Figura 7, a segunda faixa de renda com o maior grau de participação é a de três a cinco salários mínimos, com 40,43% do total geral dos respondentes. A média de homens e mulheres que se enquadram nessa respectiva faixa é de 40%.

Vale destacar também, na Figura 7, que a faixa acima de cinco salários mínimos, com o total geral de apenas 4,26%, é composta só por mulheres, correspondendo a 5,41% das mulheres participantes da pesquisa. A faixa de um a três salários mínimos, com o total geral de 2,13%, é composta só por homens, representando 10% do total de homens participantes.

Quanto à escolaridade dos associados participantes da pesquisa, observa-se na Figura 8 que 46,81% dos respondentes enquadram-se na faixa de 2º grau completo, e 14,89% apresentam curso superior. Comparando o total de mulheres e de homens em relação à escolaridade, as mulheres se sobressaem, principalmente na faixa de curso superior completo, onde 18,92% do total das mulheres apresentam curso superior, enquanto o total dos homens é de 0%.

Figura 8
Faixa de escolaridade dos associados do MMIB.

Dos 47 associados participantes da pesquisa, 65,96% responderam serem empreendedores. Desses empreendedores, 80,65% são mulheres, e 19,35% são homens (ver Figura 9).

Figura 9
Associados empreendedores do MMIB

Assim como destacado por Sachs (2008), o desenvolvimento sustentável tem a importância de criar oportunidades para grupos marginalizados, incluindo mulheres, jovens e comunidades rurais, bem como o uso de recursos naturais, além do processo de educação e capacitação da mão de obra inclusiva.

Na Tabela 2, verifica-se que a maior participação de empreendedores está na faixa de 2º grau completo, com 41,94%, e em curso superior completo, com participação de 16,13%. No entanto, há empreendedores em todas as faixas de escolaridade, o que mais uma vez fortalece o discurso de Sachs (2008), de que a inclusão social pelo trabalho decente é um objetivo alcançável e necessário para o desenvolvimento sustentável e que, por meio dos esforços colaborativos, é possível superar os obstáculos e criar oportunidades que garantam trabalho digno e inclusão social para todos.

Tabela 2
Faixa de escolaridade dos associados empreendedores do MMIB.

Os que responderam que são empreendedores (31 dos respondentes) tiveram que informar qual é a atividade que praticam. Após a compilação dos dados, chegou-se ao número de 14 atividades, que estão listadas na Tabela 2.

Na Tabela 3, podem-se destacar algumas atividades na coluna total geral, como: a agricultura e o turismo, com 19,35% de participação; e a de bar e restaurante e a de pousada, com 12,90% de participação em cada uma das atividades. Já na coluna ‘feminino’, destaca-se a atividade de bar e restaurante, com participação de 16%, e a atividade de pousada, com 16% de participação entre as mulheres, enquanto o artesanato de biojoia aparece com 12% de participação. Na coluna ‘masculino’, o destaque fica para a atividade de agricultura e turismo, com 50% de participação entre os homens.

Tabela 3
Atividades empreendedoras exercidas pelos associados do MMIB.

Os dados confirmam que o MMIB apresenta uma característica de fomentar o empreendedorismo, embora a bioeconomia esteja, talvez, em um estágio inicial. Os resultados da pesquisa fortalecem as ideias dos estudos de Homma (2022), O que se quer dizer é que os recursos são limitados - matéria-prima, processo produtivo ou mão de obra - logo, aumentar a escala de produção de bioeconomia que for, é uma restrição de mercado, em função dessa limitação dos recursos.

Os associados empreendedores (31 respondentes), quando questionados se fazem uso de recursos naturais em suas atividades empreendedoras, 64,52% apontaram que sim, e 35,48% que não fazem uso (ver Figura 10).

Figura 10
Associados empreendedores que fazem uso de recurso natural nas atividades.

Na Figura 10, entre os associados que disseram que fazem uso de recurso natural (64,52%), a maioria, 80%, são mulheres. Nota-se que a maior participação empreendedora, alinhada com os conceitos da bioeconomia no MMIB, é de mulheres.

O MMIB, em conjunto com outras parcerias (instituições), como informado na primeira parte desta seção, oferece aos seus associados diversos cursos, palestras e reuniões de caráter diverso: educativos, profissionais, de lazer etc.

A Figura 11 apresenta o grau de participação dos associados nos eventos proporcionados pelo MMIB. Dos respondentes, 93,62% apontaram que participam dos eventos no MMIB, sendo que, entre os homens, essa participação é de 80% e, entre as mulheres, é de 97,30%.

Figura 11
Participação dos associados nos eventos do MMIB.

Quando questionados sobre o grau de importância do MMIB para a sociedade ou para as ilhas abrangidas pela associação, tem-se um elevado grau de importância de 91,30%, conforme demonstrado na Figura 12.

Figura 12
Grau de importância do MMIB percebido pelos associados.

Além do grau de importância, 100% dos associados responderam que ocorreu, de alguma forma, uma melhoria, seja na vida pessoal, seja na atividade de renda que exercem. Isto é, quando os associados, na sua maioria mulheres, apresentam uma alta participação nos eventos proporcionados pelo MMIB, melhoria na vida ou na atividade empreendedora, e apontam muita importância para a respectiva associação, acredita-se que o MMIB representa o empoderamento feminino, assim como serve como meio de desenvolvimento sustentável local.

Os associados foram questionados se as atividades do MMIB são sustentáveis ambientalmente, socialmente e economicamente. As respostas obtidas foram: 100% dos respondentes acreditam que o MMIB apresenta práticas ambientais; 100% dos respondentes acreditam que o MMIB apresenta práticas sociais; e 95,74% acreditam que o MMIB apresenta práticas econômicas. Logo, na percepção dos associados, o MMIB apresenta práticas ambientais, sociais e econômicas alinhadas com o desenvolvimento sustentável.

Quanto ao grau de sustentabilidade praticado pelo MMIB, percebido pelos associados, com relação às dimensões ambientais, sociais e econômicas, na Figura 13, os associados apontaram que as três dimensões são muito importantes, com destaque para a dimensão social e econômica, com 78,72% e 70,21%, respectivamente.

Figura 13
Grau de sustentabilidade (ambiental, social e econômica) - do MMIB.

Na dimensão ambiental, os associados do MMIB convergem com as abordagens da ONU (ONU, 2023), Feil e Schreiber (2017) e Sachs (2008), buscando a preservação do meio ambiente, não sob uma concepção individualista, mas de forma coletiva, assegurando a criação de condições que tornem viável a vida no planeta Terra, nesse caso, na região das ilhas de Belém.

Na dimensão social, nota-se que no MMIB procura-se a maior equidade na distribuição da renda, de tal forma que possam ocorrer melhorias nos direitos e nas condições dos associados (Sachs, 2008) e, consequentemente, que haja a ampliação da homogeneidade social, bem como a criação de oportunidades de emprego que garantam qualidade de vida e igualdade no acesso aos recursos, coadunando com a abordagem do desenvolvimento sustentável da ONU (ONU, 2023), Sachs (2008), Feil e Schreiber (2017), Medaglia et al. (2021) e Martins et al. (2024).

Na dimensão econômica, tem-se a possibilidade de alocação e gestão mais eficientes dos recursos naturais, onde há o condão de asseverar a finitude dos recursos naturais implementados pela teoria baseada em recursos abordada por Helfat et al. (2007) e, por conseguinte, buscar a sua preservação para que seja possível permitir às gerações presentes e futuras as condições ideais para sua sobrevivência, conforme implementado pela ONU (ONU, 2023).

Com base nos resultados apresentados na Figura 13, acredita-se que o MMIB vem ao encontro do pensamento de Sachs (2008), onde a dimensão social pode ser o pilar mais forte entre as demais dimensões, uma vez que promove o desenvolvimento includente, trabalho decente para todos, políticas de sustentabilidade, renda, educação e capacitação.

Na Tabela 4, têm-se os principais tipos de cursos que os associados gostariam de fazer, caso tivessem a oportunidade de cursar. Os respondentes puderam optar por mais de um curso.

Tabela 4
Cursos desejados pelos associados do MMIB.

O destaque na Tabela 4 é para os cursos de gastronomia, informática e administração, que juntos representam 67,74% da demanda. A gastronomia surge em primeiro plano, talvez por ser uma atividade que complementa as atividades de bar e restaurante e de pousada, que juntas representam 35,48% das atividades exercidas pelos associados (ver Tabela 3).

Os cursos de informática, administração e contabilidade aparecem logo em seguida, talvez pela necessidade ou vontade, dos associados, de melhorar na gestão dos seus negócios. Isto é, esses resultados coadunam com os estudos de Martins et al. (2023) feitos na ilha do Marajó, em que os autores afirmam que existem barreiras a serem superadas pelas mulheres empreendedoras, como a gestão do negócio, e, nesse caso, o MMIB, e os negócios dos próprios associados.

Ao final do questionário, os associados tinham a opção de deixar um comentário em relação ao MMIB. Dos 47 respondentes, 35 (ou 74,47%) dos associados deixaram comentários. Seguem alguns dos comentários:

“O MMIB acrescenta muito na minha vida não só me fazendo sair da rotina, mas como pessoa também. Tenho um carinho imenso.”

“O MMIB é um grupo importantíssimo pela capacidade de mobilização e gestão democrática envolvendo os moradores das ilhas de Belém, merecendo, por isso, todo o nosso apoio!”

“O MMIB me agregou a muitas coisas, abriu meus horizontes.”

“Obrigada, MMIB, por ser tão necessário para a comunidade.”

“O MMIB é de grande importância para a nossa comunidade, referência para muitos estudantes e faz com que nós mulheres tenhamos orgulho de ser mmibianas, levando geração de renda, capacitando mulheres, homens, jovens e crianças para estar em sociedade.”

Após um tratamento dos comentários, e com o auxílio do software Iramuteq, chegou-se a um conjunto de 181 palavras e um total de ocorrências de 306 vezes, com suas respectivas frequências, apresentando alguns destaques, como: a palavra ‘MMIB’, que teve 8,50% de frequência; a palavra ‘muito’, com 3,93% de frequência; e a palavra ‘mulher’, com 3,59% de frequência. Após esse levantamento de dados, gerou-se a Figura 14, em que se pode observar de maneira geral as principais palavras, sendo que as palavras de maior tamanho apresentam as maiores frequências.

Figura 14
Nuvem de palavras dos comentários dos associados do MMIB.

Sendo assim, nota-se que os associados reafirmam, por meio dos comentários, os resultados anteriores expostos, considerando o MMIB como uma importante fonte de associação na Ilha de Cotijuba e demais ilhas próximas abrangidas.

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos com a entrevista da diretoria do MMIB permitiram identificar os novos projetos e parceiros com que o movimento está envolvido, além de comprovar alguns outros resultados já apontados nos trabalhos de Marques (2019) e Guerra e Mesquita (2020). Outro destaque se dá no processo da bioeconomia iniciada pelo respectivo movimento, que, de maneira tímida, como dito anteriormente, é um pequeno passo global, mas uma grande iniciativa local, inserindo os recursos naturais e as capacidades dinâmicas, como diferenciais no trabalho, seja do bioartesanato, seja da biojoia.

Ainda com relação à direção do MMIB, enxerga-se que existe por parte dos seus membros diretores a necessidade de se aprimorarem na gestão do movimento, seja com relação à parte administrativa, seja no sentido de proporcionar novas ações ou projetos de renda que envolvam os associados de maneira geral. Entende-se que a inclusão de novas políticas públicas na Ilha de Cotijuba e demais ilhas abrangidas pela associação poderia facilitar ou melhorar o desenvolvimento da ação do MMIB.

Nos resultados dos associados que participaram respondendo à pesquisa, observa-se certa maturidade na questão do desenvolvimento sustentável praticado pelo MMIB. As três dimensões estudadas (ambiental, social e econômica) obtiveram um alto grau de percepção. O destaque entre as dimensões ficou com a social, em que se pode notar o empreendedorismo feminino, a inclusão, o trabalho decente e a redução das desigualdades, fortalecendo o discurso de Sachs (2008).

Outra particularidade dos associados empreendedores respondentes que surge na presente pesquisa é o uso dos recursos naturais, de forma a aproveitar a diversidade natural que compõe a Ilha de Cotijuba. Além disso, esses associados apresentam uma forte vontade ou necessidade de participar de determinados cursos, principalmente na área administrativa e da gastronomia. São indícios de que os membros do movimento estão em crescimento intelectual, e o MMIB, com as suas dificuldades, tenta diminuir tal deficiência fazendo as parcerias com instituições educacionais ou ONGs para a oferta de minicursos.

De forma qualitativa, caracterizaram-se os associados membros do MMIB, e ficou evidente e claro que os associados visualizam o MMIB alinhado com o desenvolvimento sustentável, sendo de suma importância para a comunidade da Ilha de Cotijuba.

Respondendo ao problema de pesquisa, a maioria dos associados do movimento MMIB são mulheres, e inspiram o empreendedorismo feminino sustentável. É um movimento muito forte no sentido de significado para os seus respectivos associados, o que pôde ser comprovado pelos números e pelos comentários relatados e descritos no presente trabalho.

Pode-se inferir que o MMIB vem contribuindo com o empoderamento feminino nas ilhas, evidenciando práticas e experiências que possibilitam aprendizagens coletivas no interior da Amazônia, em sua maioria invisibilizadas, mas que contribuem de maneira significativa para a inclusão social, econômica e o bem-viver das mulheres.

A pesquisa apresentou algumas limitações, como, por exemplo, o tempo de interação com a diretoria do MMIB e o tempo em que o questionário ficou disponível para os associados responderem, uma vez que o sinal de internet nas ilhas é instável.

Quanto à contribuição do trabalho, identificou-se um movimento na Amazônia, que, de forma simples, aplica os conceitos do desenvolvimento sustentável e da bioeconomia, de maneira que é reconhecido pelos seus pares. Além disso, pode se tornar uma fonte muito rica de pesquisa científica para acompanhamento ou comparações com outros tipos de movimentos ou associações situados na região.

Como foi uma pesquisa exploratória e descritiva, nos resultados da entrevista, identificou-se uma cadeia da bioeconomia e, como futuras pesquisas ou incursões científicas, sugere-se um estudo que possa se aprofundar no estudo da respectiva cadeia, no sentido de detalhar alguns dos elos, mensurando os custos de produção ou os custos das transações da respectiva cadeia.

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  • Financiamento
    Os autores informaram que não houve suporte financeiro para a realização deste trabalho.
  • Verificação de Plágio
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  • Disponibilidade dos Dados
    Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:
    Araujo, Dinaldo Nascimento; Barros, Jones Nogueira, 2025, "Replication Data for: Sustainable Development and the Women’s Movement of the Belém Islands published by RAC-Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1. https://doi.org/10.7910/DVN/UAPIQI
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  • Como citar:
    Araujo, D. N., & Barros, J. N. (2024). Desenvolvimento sustentável e o Movimento das Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB). Revista de Administração Contemporânea, 28(6), e240175. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2024240175.por
  • Classificação JEL:
    Q e Q01
  • Relatório de Revisão por Pares:
    A disponibilização do Relatório de Revisão por Pares não foi autorizada pelos revisores.

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Disponibilidade de dados

Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:

Araujo, Dinaldo Nascimento; Barros, Jones Nogueira, 2025, "Replication Data for: Sustainable Development and the Women’s Movement of the Belém Islands published by RAC-Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1. https://doi.org/10.7910/DVN/UAPIQI

A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    12 Jul 2024
  • Revisado
    06 Nov 2024
  • Aceito
    10 Dez 2024
  • Publicado
    22 Jan 2025
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