RESUMO
Objetivos: o artigo examina as transformações no espaço social dos reitores de instituições de ensino superior da região Sudeste do Brasil entre 1990 e 2019.
Marco teórico: com base na abordagem sociológica de Pierre Bourdieu, analisa-se a distribuição de capitais e as relações de poder entre esses dirigentes universitários, assumindo que sua configuração expressa mudanças mais amplas na estrutura e na dinâmica do campo universitário brasileiro.
Método: a pesquisa combina abordagens qualitativa e quantitativa. Os dados sobre trajetórias acadêmicas, profissionais e institucionais dos reitores foram coletados em currículos Lattes e fontes complementares, sendo posteriormente categorizados e analisados por meio da técnica de análise de correspondências múltiplas (ACM).
Resultados: identificou-se um espaço estruturado por duas oposições principais: uma entre um polo associado ao capital científico e outro ligado ao capital político e econômico; outra entre agentes das áreas biológicas e da saúde, especialmente medicina, e agentes das engenharias, ciências exatas e humanidades. Ao longo do período analisado, observa-se crescente valorização do capital científico, sobretudo nas universidades públicas.
Conclusões: os resultados relativizam diagnósticos sobre perda homogênea da autonomia universitária e mercantilização do ensino superior, apontando uma reconfiguração marcada pela polarização entre instituições privadas, mais orientadas por capitais político-econômicos, e universidades públicas, nas quais critérios científico-acadêmicos ganham centralidade na legitimação dos dirigentes.
Palavras-chave:
instituições de ensino superior; elite; administradores educacionais; Bourdieu
ABSTRACT
Objective: this article examines transformations in the social space of presidents and rectors of higher education institutions in Southeast Brazil between 1990 and 2019.
Theoretical approach: drawing on Pierre Bourdieu’s sociology, the study analyzes the distribution of capital and power relations among these university leaders, assuming that their configuration reflects broader changes in the structure and dynamics of the Brazilian university field.
Method: the research combines qualitative and quantitative approaches. Data on academic, professional, and institutional trajectories of university deans were collected from Lattes CVs curriculaand complementary sources, then analyzed through multiple correspondence analysis (MCA).
Results: the findings reveal a space structured by two main oppositions: between a pole associated with higher volumes of scientific capital and another linked to political and economic capital; the other contrasting between agents from biological and health sciences, especially medicine, with and those from engineering, exact STEM sciences, and the humanities. Over the analyzed period, scientific capital became increasingly valued, particularly in public universities.
Conclusion: the results qualify dominant interpretations of declining university autonomy and higher education commodification. Rather than indicating a homogeneous weakening of the academic field, the findings point to a reconfiguration marked by polarization between private institutions, more oriented toward political-economic capital, and public universities, where scientific-academic criteria increasingly legitimize university leaders.
Keywords:
higher education institutions; elite; educational administrators; Bourdieu
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, diversos pesquisadores brasileiros buscaram compreender as transformações do seu campo de atuação. Dentre as constatações dessas análises, destacam-se o avanço de tendências privatizantes associadas à expansão do mercado de educação superior (Almeida, 2008; Carvalho, 2013; Costa, 2018; Oliveira, 2017), a difusão do gerencialismo na administração acadêmica (Carlotto, 2014), a expansão das vagas no ensino superior regular e tecnológico (Carlotto, 2021; Silva, 2019), a adoção de políticas de inclusão de grupos sociais historicamente excluídos do acesso ao ensino superior e a relacionada diversificação do perfil estudantil (Catani et al., 2006; Silva, 2023), a crescente internacionalização das universidades (Azevedo et al., 2017; Farias et al., 2020), a expansão da educação a distância (Mendonça et al., 2019; Trevisol & Toledo, 2021), dentre outras transformações inter-relacionadas.
As pesquisas existentes deram pouca atenção a um agente que concentra capacidade de influência nas organizações do campo: os reitores e/ou presidentes das instituições de ensino superior. A compreensão dos perfis desses agentes oferece importantes indicações sobre a efetividade do poder legítimo nessas organizações. Nas universidades públicas, os reitores são eleitos pela comunidade acadêmica, que expressa sua predileção acerca de certos perfis em relação a outros nos processos eleitorais. Nas instituições privadas, o poder de escolha desses dirigentes universitários tende a ser mais concentrado nos grupos controladores das empresas ou na base de associados com direito a voto das associações ou fundações, refletindo a visão hegemônica desses grupos, que deve ser aceita pelos demais componentes da organização.
Apesar da ampla produção sobre as transformações recentes do ensino superior brasileiro, a maior parte dos estudos tem privilegiado a análise de políticas públicas, da expansão institucional, da mercantilização do setor e das mudanças nas condições de trabalho docente. Comparativamente, pouca atenção tem sido dedicada às elites dirigentes que ocupam posições centrais na governança universitária, responsáveis por mediar as relações entre Estado, mercado e comunidade acadêmica. A análise desses agentes é particularmente relevante porque seus perfis, trajetórias e capitais tendem a expressar as formas legítimas de exercício do poder em cada segmento do campo universitário, bem como as hierarquias e clivagens que o estruturam.
O propósito desta pesquisa é analisar as transformações no espaço social dos reitores de instituições de ensino superior da região Sudeste do Brasil entre 1990 e 2019. A pesquisa fundamenta-se na abordagem sociológica de Pierre Bourdieu, investigando a dinâmica do campo universitário com base na análise comparativa das trajetórias e dos capitais dos reitores. As formas de capital do campo acadêmico descritas por Bourdieu (2017)são tomadas como importantes referências para a análise. A fim de comparar sistematicamente o perfil dos reitores ao longo do período de análise, recorre-se à análise de correspondências múltiplas (ACM), uma técnica estatística relacional compatível com a concepção teórica de Bourdieu e que possibilita modelar o perfil e as formas de poder dos reitores em termos de suas posições relativas em um espaço cartográfico (Lebaron, 2009).
A estratégia analítica adotada é similar à utilizada por Hey (2007). Mas, enquanto a autora se concentrou na análise dos docentes em geral e da sua produção científica, nos concentramos nos agentes ocupando o topo da estrutura administrativa das universidades. Como indicam autores como Fligstein (1990) e Bourdieu (2005), a avaliação dos perfis das elites organizacionais pode ser chave para revelar mudanças na dinâmica das organizações e dos campos nos quais elas estão inseridas. Tendo em vista a existência de hierarquias estruturadas nas organizações, suas trajetórias, posições e disposições sociais tendem a refletir as concepções de gestão predominantes nesses coletivos em determinados períodos históricos.
Os resultados da análise indicam uma crescente importância dos capitais e disposições mais estritamente científicos nas estruturas de domínio universitário, o que indica um crescimento da autonomia do campo acadêmico em relação a outros segmentos do campo do poder. Essa verificação problematiza a indicação de muitos dos estudos acerca da perda de autonomia universitária em decorrência da crescente influência do poder econômico e de processos de mercantilização do ensino superior nas últimas décadas (Almeida, 2008; Carvalho, 2013; Costa, 2018; Oliveira, 2017). Verifica-se que a abertura a entrantes do setor privado desde os anos 1990 é, de certa forma, contraposta pelo crescimento da autonomia científica das universidades públicas. A combinação desses processos pode resultar em uma crescente polarização do campo, dividido entre o poder econômico e político, concentrado nos grupos privados, e o poder científico, associado às universidades públicas.
REVISÃO DA LITERATURA
A abordagem do sociólogo francês Pierre Bourdieu tem inspirado uma série de trabalhos acadêmicos nas mais diversas áreas do conhecimento. A noção de campo ocupa um papel de destaque nessa perspectiva e tem sido utilizada para explicar uma diversidade de espaços sociais. Bourdieu (2008) entendia o campo como um espaço composto por um conjunto de posições distintas e coexistentes, determinadas pela posse de diferentes espécies de capital. Trata-se de um conjunto de relações circunscritas de poder, nas quais agentes com diferentes visões lutam para definir as concepções dominantes, que tendem a se ‘naturalizar’, tornando as disputas desiguais (Bourdieu & Wacquant, 1992). Os agentes dominantes atuam para preservar as configurações de forças presentes, sendo beneficiados pelas convenções existentes. Os dominados tendem a atuar para contestá-las, contrapondo as visões prevalecentes (Bourdieu & Wacquant, 1992; Sapiro, 2020).
Nesse ‘jogo’, os agentes contam com diferentes recursos competitivos - ou espécies de capital, sendo que a ideia de campo só pode ser compreendida quando relacionada à de capital (Candido et al., 2017; Machado-da-Silva et al., 2010; Misoczky, 2003). Na perspectiva de Bourdieu, há diferentes espécies de capital atuantes no campo e que se apresentam de três formas principais: o capital econômico, o capital cultural e o capital social (Bourdieu, 2005, 2008, 2017). O campo também é um local de tomadas de posição, que ocorrem por meio do habitus - os sistemas de disposições e esquemas socialmente adquiridos pelos agentes que estruturam suas percepções e apreciações e que atuam como princípios que organizam a ação (Bourdieu & Wacquant, 1992). A vivência de uma série de experiências ao longo de sua trajetória em determinado espaço social faz com que os indivíduos incorporem a estrutura e a posição social, moldando sua percepção do mundo.
A dinâmica dos diferentes campos é relativamente autônoma, o que favorece a reprodução das relações de dominação. Entretanto, os espaços se interconectam no que Bourdieu chama de campo do poder, um campo específico formado pelos dominantes dos vários campos em que se disputa a configuração das ideologias dominantes e se divide o trabalho de dominação social (Bourdieu, 1996). Nesse, os agentes detentores das várias modalidades de capital competem pela supremacia, definindo as taxas de conversão entre diferentes formas de poder (Bourdieu, 2008).
Dentre os vários estudos empíricos desenvolvidos por Bourdieu, alguns se dedicaram ao que ele chama de campo acadêmico. Em A nobreza do Estado: escola de elites no campo do poder, Bourdieu (1996) investigou o campo do ensino superior francês entre as décadas de 1960 e 1980 e demonstrou os mecanismos de reprodução das elites através das instituições de ensino superior. Entretanto, foi em Homo academicus que transmitiu mais claramente sua visão sobre as relações de poder e disputa que ocorrem nas instituições de ensino superior. Nessa obra, o autor analisou o sistema universitário francês durante as décadas de 1950 a 1970. O estudo aborda as posições relativas das instituições de ensino superior, as forças que competem pela dominação do campo e as estratégias de acumulação de capital empregadas.
Bourdieu (2017) define o campo acadêmico como um espaço concebido por um conjunto de poderes universitários que podem ser mais ou menos eficientes de acordo com as relações no campo do poder. De um lado estão os capitais temporais ou políticos, relacionados à ocupação de cargos de poder nas estruturas de gestão universitária e em outras instituições do campo do ensino superior. Do outro lado estão as formas de poder atemporais, associadas ao prestígio científico, obtido pelo reconhecimento pelos pares e por instituições acadêmicas consagradas.
Muitas pesquisas têm sido publicadas a partir da noção de campo universitário empregada por Bourdieu. Entre os temas mais frequentes está o da relação entre a classe social e o acesso ao ensino superior (Bathmaker et al., 2013; Jin & Ball, 2020; Reay et al., 2009; Silva, 2019), o da liderança acadêmica e governança (Floyd & Preston, 2019; Floyd, 2011; Rowlands, 2013, 2017), e as relações de conflito (Collyer, 2014).
No Brasil, o tema tem sido trabalhado em diferentes perspectivas. Catani (2011) definiu o campo universitário brasileiro como
... aparato institucional assegurado pelo Estado brasileiro, que garante a produção, circulação (e mesmo o consumo) de bens simbólicos que lhe são inerentes, envolvendo o conjunto das instituições de educação superior públicas e privadas, em seus mais variados níveis, formatos e natureza, as agências financiadoras e de fomento à pesquisa, nacionais e estaduais; os órgãos estatais de avaliação de políticas educacionais; o(s) setor(es) do Ministério da Educação dedicado(s) à educação superior e de institutos de pesquisa com a mesma finalidade; os setores ou câmaras dos Conselhos de Educação em distintos níveis; as associações e entidades de classe (CRUB, ANDIFES, ANDES/SN, ABMES, ANUP, ABRUC, ANAMEC, ANAFI, SEMESP, etc.) e as comissões governamentais (pp. 198-199).
Outros trabalhos nacionais pesquisaram sobre o espaço das produções científicas (Barata et al., 2014; Caregnato et al., 2016; Cock et al., 2018; Hey, 2007; Setton, 1999). O trabalho de Hey (2007) mapeia a estrutura da produção acadêmica no ensino superior brasileiro entre 1975 e 2000, demonstrando polarizações significativas. A primeira polarização observada pela autora está entre as trajetórias acadêmicas realizadas no Brasil e no exterior. A segunda revela a diferença entre pesquisadores com maior capital político e prestígio acadêmico e aqueles com menor acesso a esses recursos. A autora utiliza o conceito de campo de Bourdieu para explicar como essas dinâmicas estruturam a produção acadêmica no Brasil. O uso da análise de correspondências múltiplas permitiu que ela mapeasse o espaço acadêmico, mostrando como diferentes formas de capital - político, científico e cultural - são distribuídas entre os agentes. Nesse espaço, os pesquisadores com maior capital acadêmico têm a capacidade de influenciar políticas públicas e moldar a agenda acadêmica, enquanto aqueles com menor capital acadêmico encontram-se em posições subordinadas, com menos influência sobre o campo.
Um aspecto importante da análise de Hey (2007) é como ela revela a relação entre o campo acadêmico e o campo do poder. Os pesquisadores em posições dominantes, aqueles com capital político e prestígio científico, desempenham papéis importantes em instituições políticas e na formulação de políticas educacionais. Isso demonstra a homologia entre o campo acadêmico e o campo do poder no Brasil, que facilita que os agentes com certos capitais naveguem entre esses espaços, ampliando sua influência.
Em geral, os estudos existentes que se baseiam em Bourdieu investigam a dinâmica do campo acadêmico a partir da análise dos perfis docentes e da produção científica. Poucos enfatizam a compreensão das estruturas de poder internas das organizações universitárias. Uma exceção é a análise de Carlotto (2014), que abordou transformações no interior da USP, investigando a ascensão do discurso gerencial em uma organização dominante do campo.
Bourdieu também não se concentrou no estudo das organizações, ainda que seus conceitos tenham alta relevância para compreender essas dinâmicas. Emirbayer e Johnson (2008) destacam as diversas vantagens da aplicação dos conceitos de Bourdieu ao estudo das organizações. Candido et al. (2017) criticam o uso da noção de campo no institucionalismo sociológico nos estudos organizacionais, indicando a importância que o retorno a Bourdieu pode ter para revigorar essa área de estudos. Ocasio et al. (2020) apontam o potencial da noção de capital para explicar as fontes de poder nessas instituições. Hallet e Gougherty (2018) exploram como os conceitos de habitus e capital cultural podem ser usados para compreender a ação no interior desses coletivos. Por fim, Fitzsimmons e Callan (2020) argumentam que a noção de campo é uma ferramenta poderosa para entender as dinâmicas de acesso a cargos de liderança.
Em As estruturas sociais da economia, Bourdieu (2005) nos dá pistas de como seus conceitos podem ser utilizados para compreender a dinâmica organizacional. O autor propõe aqui que as próprias organizações podem ser analisadas como campos, nos quais agentes, com diferentes capitais e interesses, competem pelo poder de tomar decisões e definir o rumo da instituição. Em linha com o autor, Fligstein e McAdam (2012) sugerem que as organizações burocráticas são um tipo de campo particularmente estruturado, com regras objetivadas e estruturas formais que ordenam a ação dos agentes. A análise empírica de Fligstein (1990) demonstra como o perfil e a trajetória dos indivíduos que ocupam o topo dessas estruturas organizacionais tendem a refletir as relações de poder prevalecentes no interior das organizações e nos campos em geral.
Em síntese, a noção de campo, articulada aos conceitos de capital e habitus, permite compreender o espaço universitário como uma arena de disputas estruturadas, na qual diferentes formas de autoridade são continuamente produzidas, legitimadas e contestadas. Essa perspectiva relacional afasta leituras homogêneas ou deterministas sobre as transformações do ensino superior, possibilitando apreender como dinâmicas internas ao campo acadêmico interagem com pressões oriundas do Estado e do mercado. Ao mobilizar esse arcabouço teórico para analisar os perfis e trajetórias das elites dirigentes universitárias, o presente estudo dialoga com trabalhos que enfatizam a centralidade do capital científico na estruturação do campo acadêmico, mas avança ao deslocar a análise para os dirigentes máximos das organizações.
MÉTODO
A pesquisa abrangeu instituições de ensino superior localizadas na região Sudeste do Brasil que possuem, no mínimo, dois cursos de pós-graduação avaliados pela CAPES com nota superior a quatro, de forma a abordar instituições que se destacam tanto em ensino quanto em pesquisa. A existência de programas de pós-graduação bem avaliados foi considerada um indicador da realização intensiva de pesquisas nessas instituições, um fator altamente distintivo do campo universitário (Bourdieu, 2017), propiciando que o estudo abordasse a elite universitária da região Sudeste do país. Em linha com a abordagem sociológica de Bourdieu, considera-se que essas instituições concentram poder no campo, influenciando sua estrutura como um todo. As instituições analisadas são listadas na Tabela 1.
Os dirigentes que ocuparam os cargos máximos dessas organizações no período de 1990 a 2019 foram considerados na análise, abrangendo três décadas nas quais o campo universitário no Brasil passou por importantes transformações. Um total de 150 agentes foi abordado, sendo 113 deles de instituições públicas e 37 de instituições privadas.
A pesquisa combinou as abordagens qualitativa e quantitativa. Inicialmente, conduziu-se uma análise prosopográfica da trajetória dos dirigentes selecionados. A prosopografia é o estudo comparado das trajetórias e características dos membros de um grupo social (Broady, 2002; Stone, 2011). Ela envolveu o levantamento de dados dos currículos Lattes dos dirigentes, complementados com outros dados públicos, como os provenientes do perfil do LinkedIn.
A análise de trajetória visou à identificação de seus capitais acumulados. Essas propriedades foram definidas dedutivamente, considerando as formas de capital do campo acadêmico identificadas por Bourdieu (2017), e indutivamente, considerando as informações disponíveis. Para avaliar cada uma das formas de capital, definidas conceitualmente, foi definido um conjunto de variáveis de análise, apresentadas na primeira coluna das tabelas a seguir. Os dados acerca dessas variáveis, levantados para cada agente, foram categorizados de acordo com a segunda coluna das tabelas. Para viabilizar a análise dos dados por meio da ACM, cada categoria precisou apresentar representatividade mínima de 5%, o que é um requisito estatístico para a aplicação dessa forma de análise de dados. Além de sistematizar as variáveis de análise e categorias usadas para classificar os agentes, as tabelas também apresentam as frequências de ocorrência das categorias em nossa amostra nas três décadas de análise e os códigos utilizados para a elaboração dos gráficos da ACM.
O primeiro conjunto de variáveis é apresentado na Tabela 2 e se relaciona ao capital escolar e à identificação dos agentes. Essas variáveis e categorias capturam, portanto, as propriedades relacionadas à formação dos reitores analisados.
O capital científico é outra forma de poder identificada por Bourdieu (2017), referindo-se à inserção e posição dos agentes no campo científico. As variáveis apresentadas na Tabela 3 foram utilizadas para caracterizar esse capital.
Por fim, os capitais políticos, econômicos e de poder universitário dos agentes também foram considerados na análise. Nesse caso, avaliou-se a trajetória dos agentes considerando a sua inserção em cargos de poder no Estado, em organizações de classe, em empresas e em cargos administrativos nas universidades. As variáveis usadas e os dados relativos à sua frequência são apresentados na Tabela 4.
O resultado da análise prosopográfica consistiu em uma planilha composta pelos agentes nas linhas e as variáveis nas colunas, sendo preenchida com as categorias apresentadas. Os dados levantados foram então analisados por meio da análise de correspondências múltiplas. Essa técnica quantitativa possibilita compreender a relação entre diversas variáveis categóricas interdependentes por meio da redução da dimensionalidade e projeção em um plano geométrico. Isso é feito por meio da representação algébrica da relação entre as frequências das categorias, posicionando-as ao longo de fatores dispostos em múltiplas dimensões (Abdi & Valentin, 2007; Lebaron, 2009; Le Roux & Rouanet, 2010).
Para lidar com a ausência de dados sobre a trajetória dos agentes, recorreu-se à técnica da ACM específica. Nesse tipo de ACM, busca-se reduzir o peso de variáveis faltantes ou que podem estar correlacionadas com outras categorias (Le Roux & Rouanet, 2010; Rossier, 2019). Conforme destaca Rossier (2019), essa técnica estrutura uma ACM principal a partir de variáveis ativas, em que os dados faltantes são inseridos como elementos passivos. Outras variáveis são identificadas como suplementares, de modo a não ter peso na significância da variância dos dados, o que contribui para incrementar a explicação com variáveis adicionais, a partir das oposições de categorias, sem impacto na estrutura de correspondências das variáveis ativas. Para a elaboração da ACM, utilizou-se o software RStudio, por meio do pacote ‘Soc.Ca’ (Larsen, 2022). A Tabela 5 identifica as variáveis consideradas ativas e as suplementares em nossa análise.
RESULTADOS
A ACM resulta em dois tipos de gráficos relacionados. O primeiro é o gráfico de propriedades, que posiciona as categorias de acordo com sua ocorrência em um plano geométrico. As propriedades que ocorrem simultaneamente são representadas no gráfico em posições relativamente próximas, e as que não coocorrem se distanciam nos planos. Ao mesmo tempo, as propriedades com maior frequência tendem a se posicionar no centro do gráfico, enquanto as mais raras são posicionadas em suas extremidades. Tendo em vista que os capitais mais efetivos são, por definição, mais raros, as posições extremas tendem a ser representativas do poder dos agentes.
Na Figura 1, apresentamos o gráfico de propriedades ativas da ACM. Dado o grande número de indivíduos, variáveis e propriedades analisados, a viabilização da visualização do posicionamento das categorias demandou que a figura fosse legendada com base nos códigos das Tabelas 2, 3 e 4, apresentados na seção anterior. Essas categorias estão dispersas ao longo de dois eixos que capturam a estrutura do espaço social, possibilitando situar os agentes com trajetórias e perfis distintos.
Verifica-se que o espaço social mapeado se divide em torno de duas oposições principais, associadas aos eixos. As categorias que se distribuem ao longo do eixo horizontal separam os agentes com maior poder e prestígio científico dos agentes com maiores investimentos políticos e econômicos, explicando uma parte substancial da variância do espaço (44%). Isso significa que essa dimensão é a mais estruturante de nossa análise, capturando a maior parte da heterogeneidade dos perfis e da divisão de poder entre os agentes estudados. Isso porque, em análises baseadas em variáveis categóricas, a taxa modificada da inércia expressa a proporção da dispersão da nuvem de modalidades associada a uma determinada oposição estrutural (Le Roux & Rouanet, 2010, pp. 38-39).
Os agentes com maior prestígio científico estão concentrados do lado esquerdo da Figura 1, sendo que as propriedades com contribuição acima da média, localizadas em posições mais extremadas do gráfico, são a condecoração com prêmios de mérito científico (Mer_Cien: s), alto ou médio número de artigos indexados na Web of Science publicados (Art_JCR: alto; Art_JCR: médio), número de projetos de pesquisa com financiamento alto ou médio (Fin_Pesq: 6a14; Fin_Pesq: 15mais), graduação em engenharia e exatas (Grad: Eng) e doutorado na área de ciências exatas e da terra (AreaDout: Ex.Te).
Os agentes com maiores investimentos políticos e econômicos se concentram do lado direito do gráfico, e as propriedades que os definem são não ter doutorado (AreaDout: n; Local_Dout: n), não ter artigos publicados em periódicos indexados na Web of Science (Art_JCR: zero), ter se graduado em instituições particulares (InstGrad: Part) e/ou em cursos da área de ciências sociais (Grad: Sociais) e ter ocupado cargos de direção em empresas (Cargo_Emp: s).
As categorias que se distribuem ao longo do eixo vertical explicam 17% da variância e dividem os agentes de acordo com aspectos do capital científico, ligados sobretudo às suas áreas de formação. O poder temporal relacionado com a vinculação sindical e pela passagem por cargos no Estado também se mostrou chave na definição desse eixo.
Na parte de cima concentram-se os agentes com formação nas áreas de ciências biológicas e da saúde, destacando-se a graduação em medicina e outras áreas da saúde (Grad: MedSaude) e o doutorado na área de ciências biológicas (AreaDout: Bio). Também associados a essa área do gráfico, mas em uma posição bem marcada horizontalmente, estão os agentes que não possuem doutorado (AreaDout: n; Local_Dout: n).
As propriedades associadas à formação dos agentes que se destacam na parte de baixo do gráfico são a graduação em engenharia (Grad: Eng), doutorado em engenharia ou em ciências sociais aplicadas (Area_Dout: Eng; Area_Dout: Soc.Apli) e o doutorado no exterior (Dout: Ext). Entretanto, o doutorado nas áreas de agrárias (AreaDout: Agra) e literatura, letras e artes (AreaDout: Lit.L.A) também está associado a esse polo. Outra propriedade que distingue esses agentes é que eles já ocuparam cargos em sindicatos (Cargos_Sind: s) e em secretarias ou ministérios de governos (CgMinSec: s), o que denota significativo engajamento político.
O segundo tipo de gráfico resultante da ACM é o de indivíduos, que posiciona os agentes na estrutura verificada no gráfico de propriedades, possibilitando identificar diferentes perfis e os agentes com maior e menor poder. Na Figura 2, apresentamos os indivíduos posicionados nos quadrantes do plano cartesiano. Os reitores estão identificados com o nome da instituição que dirigiram e o ano de sua eleição. Considerando as duas dimensões da ACM, é possível traçar o perfil dos agentes posicionados nos diferentes quadrantes do gráfico. Esses perfis, em geral, estão associados às extremidades do gráfico, transformando-se na medida em que as posições se aproximam do centro.
No quadrante superior esquerdo encontram-se reitores com formação na área de saúde e biológicas, com destaque para os médicos, que possuem carreiras científicas de destaque e baixo capital político e econômico. Trata-se, portanto, de um perfil relativamente estrito de cientista que acabou alçado à condição de dirigente universitário. Em posição de destaque nessa área do gráfico encontra-se Fernando Ferreira Costa, reitor da Unicamp que assumiu o cargo em 2009. Ele é graduado em medicina pela Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, onde também fez mestrado e doutorado, especializando-se na área de hematologia. Fez pós-doutorado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Quando eleito, já havia recebido prêmios da Ordem Nacional do Mérito Científico e era membro da Academia Brasileira de Ciências. Possuía mais de 260 artigos publicados em periódicos da Web of Science, era do corpo editorial de diversos periódicos também indexados nessa base e bolsista de produtividade do CNPq.
No quadrante inferior esquerdo concentram-se reitores com formação nas áreas de engenharia e ciências agrárias, com carreira científica de destaque, ainda que com impacto e reconhecimento menores do que os do quadrante de cima, e com capital político ligado à atuação sindical. Trata-se de cientistas destacados e também engajados socialmente. Ricardo Luiz Louro Berbara, reitor da UFRRJ em 2017, ilustra bem o perfil prevalecente nesse quadrante. Ele é graduado e tem mestrado em agronomia pela UFRRJ e doutorado em biologia do solo pela Universidade de Dundee, na Escócia. Fez pós-doutorado na Universidade de Aveiro, em Portugal. Quando assumiu o cargo, tinha 57 artigos publicados em periódicos indexados na Web of Science. Tinha desenvolvido 26 projetos de pesquisa com financiamento e era bolsista de produtividade do CNPq, tendo ocupado ainda cargo de poder científico no CNPq entre 2011 e 2013. Foi presidente do sindicato dos docentes da UFRRJ e integrante do conselho fiscal no Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras. Reeleito para mandato entre 2021-2024, o reitor acabou não sendo empossado pelo então presidente Jair Bolsonaro.
O quadrante superior direito reúne um grupo de reitores com baixíssimo capital científico. O fato de não terem doutorado é a propriedade mais importante que os distingue, sobretudo quando sua formação e atuação se concentram na área de saúde e biológicas, associada às regiões superiores do gráfico. Destaca-se aqui a posição de João Carlos Di Genio, fundador e reitor da UNIP em 1988. Trata-se de um médico formado na USP, sem mestrado e doutorado e sem ao menos cadastro na plataforma Lattes, que se tornou um grande empresário da educação fundamental e superior e também da área de comunicação e da pecuária no Brasil. Os agentes desse quadrante em posições mais abaixo e à direita tendem a ter formação na área de ciências sociais e maior experiência em cargos de gestão empresarial. Um exemplo é Dalton Pastore, presidente da ESPM em 2017, que é formado em comunicação social pela Universidade Anhembi Morumbi e, antes de se tornar reitor, acumulou experiência de gestão de empresas do setor de publicidade e mídia e fundou uma das maiores agências de publicidade do país, além de ter acumulado capital político pela participação em diversas associações empresariais.
Por fim, o quadrante inferior direito concentra agentes com graduação em instituições particulares e em áreas das ciências sociais e doutorado em áreas dominadas do campo científico, incluindo as humanidades, as ciências sociais aplicadas e as áreas de literatura, letras e artes. Eles foram dirigentes, sobretudo, de instituições particulares. Esses docentes não publicam em periódicos indexados na Web of Science. Alguns deles possuíam publicações em periódicos nacionais indexados em bases menos seletivas e influentes no campo científico. Também possuem poucos projetos de pesquisa financiados. Por outro lado, possuem maior poder político e econômico, associado sobretudo à ocupação de cargos em empresas, ao engajamento em associações empresariais, dentro ou fora do setor educacional, e à ocupação de cargos no Estado. Marcos de Barros Lisboa, presidente do Insper em 2015, ilustra bem o perfil desses agentes. Trata-se de um economista graduado pela UFRJ e com doutorado em economia pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Foi docente da Universidade de Stanford e da Fundação Getulio Vargas. Deixou a academia para assumir o cargo de secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005, na gestão de Antônio Palocci, no primeiro governo Lula. Antes de dirigir o Insper, em 2015, foi presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (2005-2006) e diretor executivo e vice-presidente do Itaú Unibanco (2006-2013).
A Figura 3 apresenta o mapa das propriedades relacionadas às variáveis suplementares na análise. Essas propriedades não foram incluídas no cálculo da ACM por razões estatísticas ou por se tratarem de variáveis independentes de nossa análise. As propriedades associadas a duas variáveis independentes são particularmente relevantes. A primeira é o tipo de instituição de ensino superior dirigida pelos agentes analisados (Código IES). A segunda são os períodos em que esses dirigentes assumiram seus cargos (Período).
Verifica-se no gráfico que os reitores que assumiram seus cargos na década de 1990 (Período: dec1990) estão concentrados no quadrante superior esquerdo do gráfico. Essa localização indica uma relativa predominância de um perfil de dirigentes com baixo capital científico e com formações associadas às áreas biológicas e saúde. Em um contexto em que o número de doutores no país era significativamente menor, constata-se que o capital científico era menos relevante para a ascensão ao cargo de reitor, o que sugere que as nomeações eram mais influenciadas por fatores políticos e econômicos.
Em contraste, os reitores que assumiram na década de 2010 (Período: dec2010) concentram-se no lado inferior esquerdo. Esse grupo apresenta uma combinação mais equilibrada de capitais científicos e temporais, possuindo formações mais ligadas às engenharias, boa produção científica e maior engajamento sindical. Esse deslocamento denota uma mudança no perfil de liderança nas instituições, com um aumento no valor atribuído à combinação de habilidades acadêmicas e político-gerenciais.
Outra variável relevante para a análise é a localização dos reitores ou presidentes de diferentes tipos de IES. A análise revela um padrão claro na localização dos dirigentes de universidades e faculdades particulares (IES: FP) e confessionais (IES: UC), concentrados do lado direito do gráfico. Isso indica que esses dirigentes tendem a possuir menos capital científico e prestígio acadêmico, refletindo a maior orientação ao mercado dessas instituições. Enquanto os dirigentes de faculdades confessionais estão em posições mais centralizadas verticalmente, os das faculdades particulares são mais comumente localizados na parte inferior do gráfico, o que indica que é mais comum que tenham doutorado e indica que eles possuem maior poder político e econômico.
Os dirigentes das universidades públicas federais (IES: UF) e estaduais (IES: UE) estão distribuídos por todos os quadrantes, o que indica uma maior diversidade de perfis. Entretanto, elas tendem a valorizar muito mais os capitais científicos do que as instituições privadas. Essa valorização é mais acentuada nas universidades estaduais, posicionadas mais à esquerda na Figura 3 do que as federais. Ainda que, ao longo do tempo, a influência dos reitores com formação mais ligada às engenharias, com doutorado no exterior e com engajamento sindical venha aumentando, verifica-se que, no período analisado, o perfil mais estritamente científico e ligado às áreas de saúde e biológicas foi levemente predominante nessas instituições, visto que essas propriedades se encontram na parte inferior do quadrante superior esquerdo.
DISCUSSÕES
A análise realizada demonstra uma transformação significativa no perfil dos dirigentes das instituições de ensino superior públicas ao longo das últimas décadas. Na distribuição dos agentes no espaço dos dirigentes entre 1990 e 2019, destaca-se uma polaridade clara entre dois grupos distintos: de um lado, os dirigentes com maior acúmulo de capital científico e prestígio acadêmico; de outro, aqueles com menor capital científico, mas com trajetórias ligadas ao poder político e econômico.
Essa polarização reflete-se também no campo das áreas do conhecimento. Conforme revelado pelas figuras e pela análise de ACM, os dirigentes oriundos de áreas científicas e profissionais dominantes no campo científico, notavelmente a medicina e as engenharias, tendem a se posicionar nos quadrantes que indicam maior acúmulo de capital científico, especialmente em termos de publicações em periódicos de alto impacto, prêmios acadêmicos e internacionalização. Em contraste, as áreas de ciências humanas e sociais, notadamente profissões associadas às ciências sociais aplicadas, ocupam os quadrantes de menor prestígio científico e maior concentração de recursos políticos e econômicos.
Os achados permitem problematizar a indicação de muitos dos estudos acerca da perda de autonomia no campo nas últimas décadas em decorrência da crescente influência do poder econômico em seu interior (Almeida, 2008; Carvalho, 2013; Costa, 2018; Oliveira, 2017). Eles revelam que a difusão e o crescimento dos grupos privados desde os anos 1990 são contrapostos pelo crescimento da autonomia científica das universidades públicas. Observa-se uma crescente divisão entre o poder econômico e político, concentrado nos grupos privados, e o poder científico, associado às universidades públicas.
Esse processo tem sido acompanhado por uma crescente influência dos engenheiros na administração das universidades públicas. A constatação se alinha com o indicado por Carlotto (2014) e Barata et al. (2014), que apontam que o crescimento da centralidade desses profissionais no campo acadêmico é impulsionado por um paradigma tecnológico que favorece a inovação e a produção científica de alto impacto. A análise também demonstra que essa ascensão dos engenheiros e de outros dirigentes de áreas técnicas está diretamente relacionada ao aumento dos investimentos governamentais em áreas tidas como estratégicas para o desenvolvimento tecnológico do país. Programas de fomento à inovação tecnológica, à pesquisa aplicada e à cooperação universidade-empresa, promovidos por agências federais e estaduais de financiamento, favoreceram trajetórias acadêmicas associadas às engenharias e às ciências exatas. De modo semelhante, políticas voltadas ao fortalecimento do sistema de saúde, à pesquisa biomédica e à formação de recursos humanos em saúde pública contribuíram para a centralidade da medicina e das áreas biológicas no campo acadêmico. Essas políticas não apenas ampliaram oportunidades de financiamento e reconhecimento científico, como também reforçaram a legitimidade desses perfis para a ocupação de posições de liderança universitária.
As transformações observadas no campo dos dirigentes de IESs públicas, com uma estratégia mais frequente de acúmulo de capital científico, sugerem que a cultura de produção científica pode estar se tornando uma doxa, ou seja, uma verdade coletiva aceita como óbvia no campo universitário. Engenheiros, em particular, conseguiram combinar as duas formas de poder identificadas por Bourdieu (2006): o poder temporal (político) e o poder atemporal (prestígio), conquistado por meio de atividades científicas de alto impacto, como publicações em periódicos prestigiosos e o reconhecimento acadêmico internacional.
A pesquisa revela ainda que os dirigentes de IESs públicas acumularam poder temporal por meio da ocupação de cargos de direção dentro da própria instituição e pela ocupação de cargos em sindicatos. Esse fator pode explicar por que os dirigentes da década de 2010 estão posicionados nos quadrantes que indicam um acúmulo moderado de capital científico. Conforme argumenta Bourdieu (2017),
o poder propriamente universitário só pode ser acumulado e mantido à custa de um gasto constante, e importante de tempo... a aquisição e o exercício de um poder administrativo no campo universitário - o de decano ou reitor, por exemplo - tendem a comprometer a acumulação de autoridade científica, e reciprocamente (p. 132).
Essa transformação no perfil dos dirigentes pode estar relacionada ao aumento da autonomia na escolha dos reitores das universidades públicas a partir do final da década de 1980, quando as eleições passaram a ser realizadas pela comunidade acadêmica. Esse processo trouxe uma nova estratégia de acumulação de poder, que agora combina o acúmulo de cargos administrativos e sindicais com a valorização do capital científico, um recurso simbólico poderoso dentro das universidades e específico do campo acadêmico.
As mudanças rumo a um perfil mais científico também podem estar relacionadas a estratégias de subversão do poder dominante, como as disputas eleitorais para reitoria, que têm dado maior poder aos docentes na escolha de seus líderes. Nos últimos anos, observou-se também uma luta pela paridade no processo eleitoral nas universidades públicas, com a reivindicação de maior participação de outros grupos historicamente dominados, como estudantes e técnicos administrativos, nas decisões institucionais.
Outro fator relevante são as exigências impostas pela CAPES após a sanção da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) na década de 1990, que valorizaram a produção acadêmica, conforme argumentam Sguissardi e Silva (2009). Essas mudanças impactaram diretamente as universidades, especialmente as públicas, e provocaram uma crescente demanda por pesquisas aplicadas. As agências de financiamento passaram a desempenhar um papel central na estruturação do campo universitário brasileiro, aumentando a pressão por publicações internacionais (Silva, 2017).
Uma hipótese para a transformação no perfil dos dirigentes é que a publicação acadêmica passou a ser naturalizada e reproduzida, sendo incorporada gradualmente ao habitus dos agentes das IESs públicas, tornando-se um pré-requisito implícito para a escolha de reitores. A predileção por agentes com maior capital científico pode não ser conscientemente calculada, constituindo-se como uma disposição internalizada pelos agentes. O Estado, por meio de seus agentes e frações das elites de poder, pode ter induzido o funcionamento desse espaço ao estabelecer políticas para o ensino superior, demonstrando que, embora as universidades tenham autonomia, elas mantêm uma relação de interdependência com o campo do poder.
Essa dinâmica está em consonância com o estudo de Hey (2007), que também aponta a importância do capital acadêmico para a ascensão a posições de liderança. A autora demonstra que pesquisadores com maior capital acadêmico, expresso pela produção científica e prestígio acadêmico, são os que ocupam posições de destaque e têm maior capacidade de moldar a agenda acadêmica e influenciar políticas educacionais. Assim, o estudo reforça os achados da autora, evidenciando que, nas universidades públicas, a posse de capital científico tem importância crescente na definição dos reitores.
Essas transformações, entretanto, são restritas às universidades públicas, sendo que não foram observadas grandes transformações no perfil dos agentes das IESs privadas. De modo geral, os reitores e presidentes dessas instituições têm trajetórias que lhes permitiram acumular capital de poder temporal, como cargos políticos, de gestão em empresas ou em outras universidades. Isso pode estar relacionado ao aumento da competição entre universidades privadas, que cada vez mais adotam práticas do setor empresarial em busca de competitividade, lucro e ‘clientes’ (Carvalho, 2013; Oliveira, 2017).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo examinou as transformações no espaço social dos reitores de instituições de ensino superior da região Sudeste do Brasil entre 1990 e 2019, revelando transformações significativas no perfil dos dirigentes máximos das universidades públicas, que se diferenciam dos das IESs particulares. Do ponto de vista prático-analítico, os resultados contribuem para a compreensão dos critérios implícitos que orientam a legitimação das lideranças universitárias, especialmente nas instituições públicas, oferecendo subsídios para o debate sobre modelos de governança, processos eleitorais internos e formação de quadros dirigentes no ensino superior. Do ponto de vista teórico, o artigo contribui para os estudos organizacionais e sobre ensino superior ao demonstrar o potencial da abordagem relacional de Pierre Bourdieu para a análise da governança universitária, deslocando o foco das políticas educacionais ou da produção científica isoladamente para as elites dirigentes que ocupam posições centrais de decisão. Ao articular prosopografia e análise de correspondências múltiplas, o estudo evidencia como diferentes formas de capital estruturam o acesso e a legitimação do poder universitário, oferecendo uma leitura relacional das transformações do campo acadêmico brasileiro.
O estudo teve três limitações principais. Primeiro, ele envolveu dificuldades em captar o capital de poder político dos agentes, uma vez que essas informações nem sempre estão disponíveis ou facilmente acessíveis por meio da plataforma Lattes, exigindo uma análise biográfica mais profunda dos dirigentes. Uma segunda limitação está associada a problemas na disposição e atualização dos dados do Lattes, o que pode interferir na precisão das análises. Por fim, nossa amostra envolveu um número relativamente baixo de dirigentes de instituições privadas. Isso reflete escolhas do desenho da pesquisa, que enfatizou instituições de ensino superior com certa intensidade em pesquisa, e também a maior disponibilidade e padronização de informações sobre trajetórias acadêmicas no setor público. De qualquer forma, o baixo número de dirigentes restringe a possibilidade de generalizações acerca das dinâmicas de poder e legitimação das organizações particulares.
Futuras pesquisas podem ampliar a discussão proposta neste artigo ao explorar outros contextos regionais do país, permitindo avaliar em que medida as dinâmicas observadas no Sudeste se reproduzem ou se diferenciam em outras regiões do país. Estudos comparativos entre universidades federais, estaduais e privadas, bem como análises que incorporem outras instâncias da governança universitária - como conselhos superiores, pró-reitorias e órgãos reguladores -, podem aprofundar a compreensão das disputas pelo poder e das formas contemporâneas de legitimação da autoridade universitária no campo acadêmico brasileiro. Investigações que enfoquem de maneira mais direta o campo do poder universitário também são promissoras, ao permitir examinar as disputas internas às instituições e suas interações com órgãos reguladores, como o MEC e a CAPES, contribuindo para uma leitura mais histórica e relacional das transformações do ensino superior. Por fim, seria relevante desenvolver pesquisas voltadas a aprofundar a compreensão da influência de certos perfis profissionais na gestão das universidades públicas, notadamente os engenheiros e os médicos.
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Verificação de Plágio
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Financiamento
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Disponibilidade dos Dados
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:Freitas, R. de. Candido, S. E. A., & Gonçalves, G. E., 2026, "Replication Data for: Transformations in the Social Space of the Deans of Universities in the Southeast of Brazil published by Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1.A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.
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Como citar:
Freitas, R., Candido, S. E. A., & Gonçalves, G. E. (2026). As transformações no espaço social de reitores de Universidades do Sudeste Brasileiro. Revista de Administração Contemporânea, 30(3), e250364. https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2026250364.por
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Classificação JEL:
J23
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Relatório de Revisão por Pares:
A disponibilização do Relatório de Revisão por Pares não foi autorizada pelos revisores
Editado por
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Editora-chefe:
Paula Chimenti (Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPEAD, Brasil) https://orcid.org/0000-0002-6492-4072
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Editora Associada:
Elisa Ichikawa (Universidade Estadual de Maringá, Brasil) https://orcid.org/0000-0001-7096-7653
Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Harvard Dataverse:
Freitas, R. de. Candido, S. E. A., & Gonçalves, G. E., 2026, "Replication Data for: Transformations in the Social Space of the Deans of Universities in the Southeast of Brazil published by Revista de Administração Contemporânea", Harvard Dataverse, V1.
https://doi.org/10.7910/DVN/FHIH5Z
A RAC incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.





Fonte: Elaborado pelos autores.
Fonte: Elaborado pelos autores.
Fonte: Elaborada pelos autores.
