Open-access O não dito nas etnografias sobre brasileiros na Irlanda: eufemismos e deslocamentos de raça

RESUMO

O objetivo deste artigo é destacar algumas consequências do embaralhamento de ordens raciais diferentes nos processos migratórios brasileiros. Focado na experiência de brasileiros na Irlanda, a partir de dados de uma etnografia conduzida na primeira metade de 2022, o texto é construído a partir de uma perspectiva comparativa com duas outras situações de “embaralhamento de ordens raciais” que envolvem, em um dos casos, os imigrantes brasileiros no Porto no ano de 2000, e, em outro, os refugiados no Brasil ao longo da última década. Esses dois conjuntos de pesquisa são articulados para exemplificar como as migrações impactam ordens raciais diversas e são por elas impactadas, com implicações na vida cotidiana dos imigrantes. Assim, num processo gradual, vamos construir o argumento de como os imigrantes brasileiros hoje em dia são descritos na bibliografia sobre o tema sem uma preocupação com as questões raciais. Isso implica deixar de perceber um contraste marcante entre a experiência de brasileiros com visto de trabalho e visto de estudante, com destaque para uma inversão racial na esfera do mercado de trabalho, que tende a favorecer os imigrantes pretos e pardos com visto de trabalho em relação aos imigrantes com visto de estudo, em geral brancos e com formação maior em anos de estudo.

PALAVRAS-CHAVE:
Emigração brasileira; ordens raciais; Irlanda; mercado de trabalho

ABSTRACT

This article explores the impact of different racial orders on Brazilian migratory processes. It focuses on the experiences of Brazilians in Ireland, based on data from an ethnography conducted in the first half of 2022. The text compares this situation with two other instances of “shuffling of racial orders”: Brazilian immigrants in Porto in 2000 and refugees in Brazil over the last decade. These three sets of research exemplify how migration is influenced by and impacts different racial orders, with significant implications for the daily lives of immigrants. The article argues that existing literature on Brazilian immigrants in Ireland fails to recognise a marked contrast between the experiences of those with work visas and those with student visas, with a racial inversion in the labour market that tends to favour black Brazilian immigrants with work visas over white immigrants with study visas who often have more years of schooling.

KEYWORDS:
Brazilian migration; racial orders; Ireland; labour market

Introdução

O objetivo deste artigo é destacar algumas consequências do embaralhamento de diferentes ordens raciais nos processos migratórios brasileiros. Focado na experiência de brasileiros na Irlanda, a partir de dados de uma etnografia conduzida na primeira metade de 2022, o texto é construído a partir de uma perspectiva comparativa com duas outras situações de “embaralhamento de ordens raciais” que envolvem, em um dos casos, os imigrantes brasileiros no Porto no ano de 2000, e, em outro, os refugiados no Brasil ao longo da última década. Esses dois conjuntos de pesquisa são articulados para exemplificar como as migrações impactam ordens raciais diversas e são por elas impactadas, com implicações na vida cotidiana dos imigrantes. Assim, num processo gradual, vamos construir o argumento de como os imigrantes brasileiros hoje em dia são descritos na bibliografia sobre o tema sem uma preocupação com as questões raciais. Isso implica deixar de perceber um contraste marcante entre a experiência de brasileiros com visto de trabalho e visto de estudante, com destaque para uma inversão racial na esfera do mercado de trabalho, que tende a favorecer os imigrantes pretos e pardos com visto de trabalho em relação aos imigrantes com visto de estudo, em geral brancos e com formação maior em anos de estudo.

1. Os brasileiros no Porto

Minha pesquisa de doutorado foi um trabalho sobre imigrantes brasileiros em Portugal (Machado, 2009). Naquele momento, na virada do século XX para o XXI, por exemplo, os brasileiros ainda não eram a principal população imigrante em Portugal. Nos últimos quinze anos, entretanto, a comunidade brasileira passou a ser a maior comunidade imigrante nesse país. De todas as discussões deste trabalho, destaco especificamente uma questão que é bastante importante e que tem similitudes com as experiências de brasileiros na Irlanda hoje em dia. No trabalho de campo entre os brasileiros no Porto, pode-se dizer que havia sistemas raciais entrecruzados. Todos os sistemas sociais produzem ordens e hierarquias raciais (Grosfoguel; Georas, 2000; Machado, 2004) e todos que os experimentam têm introjetado dispositivos de entendimento das relações a partir de apreensões sobre categorias raciais, a maior parte das vezes de forma inconsciente (Guimarães, 2008).

Em Portugal a sociedade desenvolve suas próprias ordens raciais. Há variações dentro do Estado português em relação aos locais onde você vive, mas é possível uma generalização dessas ordens raciais, que são constituídas a partir de uma história imperial portuguesa (Castelo, 1998). A imigração brasileira operava com imaginações raciais da sua própria experiência no Brasil, ao passo que os imigrantes encontraram outras ordens raciais em Portugal. Há, portanto, o cruzamento entre essas diferentes ordens raciais.

A tese buscou analisar essa interceção entre diferentes ordens raciais: aquelas que eram produzidas pelos imigrantes e aquelas que eram nativas do estado português. Assim, o trabalho procurou estudar as configurações das hierarquias raciais das populações portuguesas, entendendo a constituição das ordens raciais. Uma grande fonte das imaginações sobre as ordens raciais em Portugal tem a ver com a história imperial, especialmente com a do terceiro Império, aquele que aconteceu nos séculos XIX e XX na África. Ou seja, a história do Império em Moçambique, São Tomé, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola, no qual a partir da década de 1950 determinadas construções raciais brasileiras, especialmente intelectuais, têm um impacto muito grande: falamos da teoria da miscigenação do Gilberto Freyre.

A democracia racial foi incorporada pelo estado português salazarista como uma espécie de justificativa para a dominação imperial portuguesa na África (Alexandre; Dias, 1998). A ideia era que Portugal ia fazer com a África aquilo que tinha feito com o Brasil. O Brasil era uma espécie de evidência do “sucesso colonial” português e aparecia como um “irmão mais velho” dos africanos. A ideia era que os africanos “naturalmente” caminhariam no sentido brasileiro em função da colonização portuguesa (Rosas, 2001; Pinto, 2009).

Esses discursos tiveram bastante impacto e de certa forma moldaram uma consciência portuguesa, já que foram massivamente divulgados em textos escolares e em propagandas imperiais (Castelo, 1998; Vale de Almeida, 2005). As pessoas aprendiam essa história de que o Brasil era um exemplo para a África, e isso incorporava uma hierarquia racial, uma ideia de que você tinha brancos europeus portugueses, negros africanos e o Brasil como um interposto entre os dois grupos. Brasil mestiço, o Brasil miscigenado (Pinto, 2009). Era assim que se imaginava uma ordem racial em Portugal, bastante específica sobre os brasileiros, que tinham um lugar naquele contexto.

Quando os brasileiros chegaram como imigrantes, eles foram incorporados à sociedade, ao mercado de trabalho português, a partir dessa ideia1. Junto com essa imaginação racial há uma série de preconceitos e estereótipos sobre o brasileiro que analisei em outro momento (Machado, 2009), mas a ideia de que o brasileiro era especialmente feliz, alegre, simpático e servil vai ter implicações, por exemplo, na imaginação da prostituição de mulheres brasileiras, que traz muito sofrimento para brasileiras que estão migrando para Portugal (Pontes, 2004), ou ainda em outros contextos de imigração brasileira (Piscitelli, 2007). Mas essa imaginação de uma espécie de alegria natural do brasileiro o conduzia a empregos; ou seja, a ideia de que brasileiro era especialmente adequado para ser um atendente de loja, garçom etc. A sugestão de que ele portava uma simpatia natural terminava por criar um mercado de trabalho baseado em estereótipos e em ordens raciais.

Para o empregador português, é preciso destacar, esse brasileiro ideal era um brasileiro mestiço, imaginado a partir das ordens culturais portuguesas (Machado, 2004). Os imigrantes brasileiros conseguiam, naquele momento e naquelas circunstâncias, emprego mais facilmente. Essa variação entre as ordens raciais produziu uma dinâmica que chegou a garantir lugares de poder dentro da comunidade brasileira para brasileiros pardos e pretos, já que começaram a ter mais influência numa esfera de convivência que brasileiros brancos2. Isso causava uma série de tensões, porque de certa forma os brasileiros pardos em Portugal naquele momento estavam desafiando as próprias hierarquias raciais brasileiras (que sempre privilegiam os brancos).

Isso produzia uma série de efeitos na experiência dos brasileiros, inclusive numa disposição para inverter determinadas ordens vistas como “naturais” e a possibilidade de pessoas pardas e pretas terem mais influência na comunidade, o que não aconteceria tão facilmente no Brasil. O trabalho descreveu esse processo, que foi chamado de “inversões hierárquicas” e incluía também uma espécie de subordinação ativa a esses preconceitos portugueses, porque eles garantiam lugares de trabalho para alguns brasileiros preferencialmente, naquele contexto em Portugal. Podemos afirmar que há ordens raciais que estão se cruzando na experiência migratória e que esse cruzamento produz efeitos inesperados.

É uma perspectiva etnográfica que permite entender um pouco as nuances desse processo e também possibilita dizer alguma coisa sobre migração e raça. Ou seja, a ideia de que a imigração sempre coloca em xeque determinadas ordens raciais e produz efeitos inesperados também propiciou uma reflexão mais crítica sobre algumas categorias que as Ciências Sociais usam para pensar as migrações, especificamente as categorias de etnicidade, que têm valor muito grande e continuam tendo muita importância (Machado, 2011). Mas quando se olhava para dentro da comunidade brasileira, a noção de etnicidade dificultava ver os meandros de poder que se estabeleciam entre os brasileiros. Como uma categoria política de definição, de certa forma, a etnicidade dificultava ou tornava enevoado o entendimento das relações de poder entre os brasileiros imigrantes, e o trabalho foi entender essas relações entre imigrantes3.

2. Refugiados no Brasil

Vamos agora fazer um corte e saltar quinze anos adiante. O exemplo anterior nos permite entender como as relações sociais são influenciadas por ordens raciais diferentes no contexto migratório. Passemos para um conjunto de pesquisas que o Laboratório de Estudos Migratórios em São Carlos (LEM) desenvolveu sobre Refúgio no Brasil (Machado, 2020). Esse projeto teve início em 2016 e terminou em 2021. Foi produzida uma série de trabalhos, teses e dissertações sobre refugiados no Brasil, especialmente na cidade de São Paulo4.

A grande conclusão dos diversos trabalhos sobre refúgio tem a ver com o fato de que a experiência dos refugiados no Brasil é modulada pelas ordens raciais brasileiras. O que significa que, do ponto de vista dos imigrantes - especialmente dos refugiados negros que vieram de vários países da África, mas também de imigrantes haitianos, majoritariamente negros cuja experiência é muito similar à dos refugiados africanos -, a experiência do refúgio é descrita como “refúgio negro” no Brasil (Branco Pereira, 2018). Ou seja, eles articulam a ideia de que havia um refúgio negro contraposto a um refúgio branco e o exemplo do refúgio branco dado por essas pessoas era o refúgio de sírios, por exemplo. Isso porque, dentro das ordens raciais brasileiras, os sírios são considerados brancos ou vistos como brancos. Obviamente, isso tem a ver com a história da imigração sírio-libanesa para o Brasil (Truzzi, 1997; Lesser, 2001), e quando se estuda o refúgio sírio no Brasil hoje em dia é preciso falar sobre a história de migração sírio-libanesa para o Brasil desde o final do século XIX.

Na prática, isso quer dizer que as ordens raciais brasileiras incorporam mais facilmente as populações sírias, porque elas de certa forma fazem sentido para os brasileiros, especialmente em estados como São Paulo, onde se come comida árabe habitualmente (Carneiro da Silva, 2019). A comida árabe é parte do cotidiano na maior parte do Estado de São Paulo e em vários estados do país. Isso não é só uma curiosidade, pois quer dizer também que esses refugiados sírios, vistos como brancos, que vieram para o Brasil tinham mais facilidade de encontrar um nicho de mercado de trabalho. A maior parte deles trabalhava com comida árabe de alguma forma. Ou produzem comida árabe para vender, ou abrem restaurantes de comida árabe ou, ainda, trabalham em cozinhas de restaurantes árabes já consolidados no Brasil (Marchini, 2021). A ideia é que determinadas imaginações raciais implicam também espaços de mercado de trabalho por conta da história que elas foram desenvolvendo, ao passo que os refugiados negros enfrentam uma outra história.

O que acontece com os refugiados do Congo, por exemplo, é que na experiência de vida no Brasil eles estão imediatamente associados à experiência da população negra brasileira (Oliveira, 2020; Almeida, 2021; Branco Pereira, 2021). Portanto, a experiência do refúgio negro é uma referência de segregação espacial, social e racial. Uma parte considerável daquelas pessoas que foram interlocutoras da pesquisa iam morar nas periferias de São Paulo em bairros majoritariamente negros, vivendo a experiência de segregação dessas populações negras, adicionada ao fato de serem, além de negros, estrangeiros (Machado; Pardue, 2020). O fato de que alguns não dominam o português de forma competente e têm dificuldade de se comunicar produz uma camada excedente de discriminação, além daquelas a que os negros brasileiros já estão constantemente submetidos5.

Portanto, o que destaco, comparando as pesquisas sobre o refúgio de sírios e o de africanos, é que a experiência do refúgio dos negros é marcada pela exclusão social radical, e tal exclusão radical é determinante no fato de que essas pessoas muitas vezes não conseguem ficar no Brasil. Isso significa que tentam sair do país porque a experiência e o mecanismo de gerenciamento do atendimento ao Refúgio são tão excludentes que eles acabam não tendo alternativa, além de fugir do Brasil para buscar uma remigração onde possam ter uma experiência menos segregatícia (Almeida, 2021).

Na pesquisa de doutorado de Alexandra Almeida (2021), ela acompanhou um grupo de mulheres refugiadas negras que foram alocadas numa instituição de São Paulo. Mais ou menos vinte mulheres ficaram nessa instituição durante seis meses, que era o prazo de permanência autorizado. Após esse período, Alexandra foi acompanhando a vida dessas mulheres, que falavam francês, mas algumas também falavam português, e elas acabaram tendo relações entre si porque tiveram uma convivência intensa enquanto estavam nessa instituição. Alexandra acompanhou essas pessoas, todas negras e mulheres. Mas, depois de dois anos, nenhuma delas estava no Brasil, foram todas para outros países, como Chile, França, Portugal. Elas conseguiram deixar o Brasil, como se o país fosse um entreposto de fuga. Quem é refugiado negro no Brasil vive uma espécie de intolerância e impermeabilidade da sociedade brasileira à experiência dessas pessoas. O Brasil é um país extremamente agressivo e não hospitaleiro em relação a essa população, por isso os refugiados são muito explícitos em marcar a diferença entre um refugiado branco e um refugiado negro no Brasil (Machado, 2018).

Nós vimos experiências brutais de discriminação como este exemplo narrado por Almeida: parte da etnografia foi realizada numa ONG que prestava auxílio com verbas do governo às populações refugiadas. Em certo momento, uma dessas mulheres estava numa situação muito difícil: tinha uma criança pequena, precisava de auxílio e não tinha dinheiro nem para comprar fralda. Almeida tentou organizar uma espécie de coleta de material de assistência para essa mulher, e a instituição na qual ela trabalhava como voluntária negou ajuda, afirmando que não era assistencialista. Almeida deveria fazer aquela campanha de ajuda sozinha, o que ela de fato fez. Contudo, a mesma instituição que não se dizia assistencialista, uma semana depois, organizou uma atividade de assistência social para uma família síria que estava em situações parecidas. Esse é um pequeno exemplo de como as próprias instituições encarregadas do contato com essas populações carregam hierarquias raciais tão fortes que produzem discriminação de forma sistemática.

Essa é uma história rápida sobre cinco anos de pesquisa que o LEM desenvolveu sobre o Refúgio no Brasil. Nessas histórias vimos as profundas marcas na vida das pessoas, produzidas pelas diferentes ordens raciais com as quais elas se encontram. Os refugiados negros no Brasil se deparam com uma ordem racial que eles não conheciam, assim como os brasileiros se deparavam com as ordens raciais que eles desconheciam em Portugal.

3. Brasileiros na Irlanda

Passemos agora ao tema central do artigo, os imigrantes brasileiros na Irlanda, atualmente. A razão para a escolha da imigração na Irlanda é o fato de que, de 2016 para cá, o movimento de brasileiros para o exterior aumentou brutalmente. Se tínhamos já uma história de emigração intensa desde o final da década de 1980 até por volta de 2005 (Assis; Sazaki, 2001; Machado, 2015; Feldman-Bianco, 2016; Feldman-Bianco et al., 2020), mais ou menos depois no governo Lula, com o desenvolvimento social e o aumento do PIB brasileiro, essa emigração brasileira caiu e houve até um movimento de retorno de pessoas que estavam no exterior (Assis; Campos, 2009; Cavalcanti; Parella, 2012; Nunan; Peixoto, 2012; Fernandes; Castro, 2013). Entretanto, mais ou menos a partir de 2016, coincidentemente depois que a Dilma foi tirada do poder, as condições sociais começam a deteriorar. Após o golpe de 2016 (Ribeiro, 2016), elas pioraram ainda mais e houve um movimento brutal de brasileiros para o exterior que não conseguimos quantificar exatamente, mas existem alguns indícios.

Pesquisas desenvolvidas pelo Observatório das imigrações em Brasília, coordenadas por Leonardo Cavalcanti, indicam que cerca de 2,5 milhões de brasileiros saíram do país entre 2010 e 2019 e não voltaram (A. T. Oliveira, 2019). O número de brasileiros em Portugal, por exemplo, em 2021 subiu para 204.694 pessoas (SEF/GEPF, 2022: 41), ao passo que, em 2016, esse número era de 85.456 (SEF/GEPF, 2017: 13); ou seja, um aumento de 239% num espaço de seis anos. Essas duas informações nos dão uma dimensão da recente emigração brasileira: os dados da Polícia Federal utilizados por Oliveira indicam a saída de mais de 2 milhões de brasileiros (até 2019). Os dados estatísticos dos brasileiros documentados em Portugal são um exemplo concreto desse aumento (que se repete em outros países) e não considera os indocumentados. Quer dizer, o número é ainda maior. Temos números muito altos de saída de brasileiros para o exterior, o que nos permite dizer que essa movimentação atual é maior do que aquela anterior a 2016, e ela vai ter efeitos demográficos na história brasileira.

Esse aumento expressivo da emigração brasileira é sentido em todos os destinos tradicionais, como Portugal, Estados Unidos, Japão etc. Mas ele tem se estendido também para outros lugares onde a presença de brasileiros não era tão significativa ou mesmo inexistente. A Irlanda é um exemplo de caso onde a presença dos brasileiros não era tão significativa, mas vem vivendo um aumento significativo. A opção de pesquisa foi analisar esses países “seminovidades”, como é o caso dos brasileiros na Irlanda. Brasileiros começaram a chegar à Irlanda mais ou menos em 2000, portanto já se tem uma historiografia dessa população (Maher; Cawley, 2015; Marrow, 2013; McGrath, 2010; McGrath; Murray, 2009, entre outros). No censo irlandês de 2016, Cawley (2018: 40) demonstra que havia 13640 brasileiros documentados na Irlanda. Não parece ser um número expressivo, mas, já naquele ano, os brasileiros eram a quinta população mais significativa de imigrantes na Irlanda. O censo de 2022 demonstra um aumento geral da população de imigrantes brasileiros, para 395566. A embaixada brasileira de Dublin estimava em 70 mil o número de brasileiros no país em 2021 (MRE, 2022).

Em 2022, a Irlanda lançou um processo extraordinário de legalização de imigrantes, e dos 8311 pedidos (dos quais 97% foram aceitos), 1504 foram realizados por brasileiros (Murray, 2022), a nacionalidade com maior número de solicitações atendidas (seguidos por paquistaneses, chineses e outros). Considerando que o critério para a legalização era provar que já estavam na Irlanda ao menos nos quatro últimos anos (Heylin; Triandafyllidou, 2023), pode-se ver a relevância crescente da imigração brasileira na Irlanda nos últimos anos. Se os brasileiros são uma população relativamente nova na Irlanda, esses números indicam como nos últimos anos a proporção dos imigrantes brasileiros aumentou significativamente e continua crescendo, já que muita gente chegou ao país a partir de 2022, como atesta o trabalho de campo.

A partir de uma perspectiva comparativa sobre esse cenário da nova emigração brasileira, avaliamos a bibliografia sobre brasileiros na Irlanda. Nesses textos há uma distinção básica, especialmente a partir da década de 2010: é a ideia de que na Irlanda há brasileiros trabalhadores e brasileiros estudantes (Farias, 2022; M. C. da Silva, 2019; Soares, 2014). Atualmente há várias categorias de visto na Irlanda, mas os brasileiros recorrem principalmente aos vistos de trabalho e de estudo. São os dois vistos principais utilizados pelos brasileiros para ficar na Irlanda documentadamente. Não estamos lidando, portanto, com os não documentados.

O visto de trabalho é chamado de “Stamp 1”, que é a “estampa”, como os brasileiros dizem. Esse visto é uma autorização para trabalho e oferece alguns direitos básicos garantidos. É um visto que tem que ser renovado a cada dois anos, mas depende de um contrato de trabalho que só pode ser concedido após a autorização do estado ao empregador irlandês. Esse visto de trabalho é controlado pelo estado, que escolhe algumas categorias para permitir a concessão do contrato de trabalho.

Outro método de entrar legalmente é conseguir um visto de estudo. Quando se consegue esse visto, é preciso, obrigatoriamente, estudar na Irlanda, obviamente. Podem ser estudos de inglês ou no ensino técnico ou superior. O visto permite a estadia durante um tempo específico: se for um curso de inglês, o prazo de estadia máximo é dois anos. Se for para ensino técnico ou superior, o visto pode se estender até sete anos. Com o visto de estudo pode-se trabalhar 20 horas semanais (meio período).

De certa forma, a população brasileira está distribuída, em termos de estatuto migratório, principalmente nestes dois vistos. Há outros vistos de trabalho que facultam mais direitos, como o stamp 4, e brasileiros com dupla nacionalidade (sendo uma delas da União Europeia) acessam esse visto. Alguns brasileiros que estão há mais de cinco anos na Irlanda conseguem também passar do stamp 1 para o 4, mas os dois são vistos de trabalho. Em termos de brasileiros não documentados, basicamente são os que entram como turistas, passam noventa dias, e continuam no país de forma não documentada.

3.1 Estudantes x trabalhadores

A bibliografia estabelece grandes contrastes entre essas duas populações: estudantes x trabalhadores. Os estudantes têm maior formação, e os trabalhadores têm menos anos de estudo. (Murray, 2006; Soares, 2014; Dalsin, 2016; Silva, 2016; Cawley, 2018). Os estudantes supostamente têm maior renda média que os trabalhadores, além de se concentrarem mais em Dublin e outras poucas cidades maiores (como Cork e Limerick), ao passo que os trabalhadores estão mais no interior do país, especialmente nas indústrias frigoríficas de abate de animais.

A primeira coisa que se percebe é que esses trabalhadores com stamp 1 são pardos e pretos, ao passo que os estudantes são mais brancos. A possibilidade dessa percepção deveu-se também à dinâmica do meu trabalho de campo, que permitiu que eu visitasse muitos lugares na Irlanda, tanto no interior como em Dublin, acessando um número muito grande de imigrantes com visto de trabalho e de estudo. Viajando com um imigrante que trabalhava como entregador de produtos brasileiros para outros brasileiros, pude visitar conterrâneos em todo o país (de norte a sul). Como as etnografias sobre os brasileiros na Irlanda tendem a se concentrar num lugar (no começo do século, nas cidades do interior, mais recentemente, em Dublin), é mais difícil perceber esse contraste evidente, que a dinâmica particular da etnografia deixou clara.

A biografia nunca fala em raça - os vários surveys não apresentam a categoria raça, por exemplo -, mas é óbvio que há uma distinção racial. No entanto, do ponto de vista irlandês, essa diferença não existe, já que todos os brasileiros são racializados da mesma forma, como não brancos, independentemente de suas cores. Autores como Lentin (2007) e O’Connell (2018) defendem a ideia de que a imigração na Irlanda é racializada, independentemente dos fenótipos. Atualmente os imigrantes são 12% da população irlandesa7, e esse gradual aumento da população estrangeira vem marcando uma nova forma de racialização, segundo Lentin (2007) e Lentin e McVeigh (2006).

Em 2004, os irlandeses votaram num referendo a favor da retirada dos direitos de cidadania pelo nascimento na Irlanda - jus solis - para quem não tivesse ao menos um dos pais irlandeses ou com cidadania irlandesa (Lentin, 2007). Uma maioria de 80% votou pela retirada da regra que vigia desde 1922. Lentin e Goldberg argumentam que essa é uma política racial, que traduz o desenvolvimento de um estado onde nação e raça se interligam para a formação de um estado racista (Goldberg, 2002) e onde a biopolítica e as tecnologias de controle e regulação da imigração e refúgio ordenam a construção (tanto prática como discursiva) da alteridade irlandesa. Esse é um processo de branqueamento dos irlandeses, em contraposição ao crescente número de imigrantes.

A prática do Estado irlandês, como evidencia o referendo, é o de ver nos não irlandeses alteridades inadequadas para a cidadania, usando uma legislação claramente racista para criminalizar, regular e controlar os imigrantes (Lentin 2007: 614). Embora haja um discurso hegemônico da Irlanda como um país aberto, cosmopolita, multicultural, a realidade oferece uma realidade de ultraexploração capitalista, um nacionalismo excludente e uma xenofobia crescente (Loyal, 2011). Assim, para Lentin, o processo de racialização da imigração na Irlanda transforma todos os imigrantes em negros, como forma de definição dos próprios irlandeses como brancos.

Uma parte dos autores que tratam dos brasileiros na Irlanda são irlandeses ou irlandesas que não distinguem essas duas populações - trabalhadores e estudantes - com base em suas próprias percepções raciais. Mas o marcante, do meu ponto de vista, é que também os autores/as brasileiros/as não discutem raça, mas apenas etnicidade, que tende a ser estendida igualmente a todos os brasileiros, como uma “minoria étnica”. O foco raramente percebia as divisões internas à comunidade brasileira e as evidentes questões raciais presentes neste contexto.

Essa postura, entretanto, é usual no campo das migrações, especialmente por conta do predomínio das categorias de etnicidade e identidade (ou identidade étnica) (Seyferth, 1986). Como uma categoria de mobilização política (de Oliveira Filho, 1999; Athias, 2018), a etnicidade tem sido articulada como ferramenta de reivindicação de direitos e, nesse sentido, não pretende nem pode olhar para as diferenças “intraétnicas”8. Como categoria, ela é pensada para os contextos de “fricção interétnica” (de Oliveira, 1994), não para uma análise crítica das diversidades internas às totalidades que o conceito define. Essa análise crítica ao conceito de etnicidade começou a ser articulada em Machado (2009) e ganha um formato mais sistemático na elaboração do conceito de “diferencialidade”9 (Machado, 2011), com forte inspiração ingoldiana (Ingold, 2007).

O resultado dessas leituras tradicionais da bibliografia sobre os brasileiros na Irlanda é que todas as análises que se fazem das populações de estudantes são de certa forma mais favoráveis do que aquelas que se fazem das populações trabalhadoras: eles têm mais anos de estudo, em geral com curso superior etc. Mas podemos afirmar que essa perspectiva é uma política de racialização inconsciente ou não explícita. É por isso que essas formas de produção de racialização sequer são percebidas. O que nos chamou a atenção, após a experiência de campo, é como é possível falar de brasileiros na Irlanda com essa distinção - estudantes versus trabalhadores - sem tocar na questão racial.

O fato óbvio é o seguinte: as pessoas de classe média brasileira conseguem o visto de estudante porque, para acessá-lo, é preciso pagar uma escola, e mais, há que pagar o curso inteiro antes de pisar no país. O que é, obviamente, caro. Além disso, é necessário ter em conta 3 mil euros, a serem comprovados pelo Estado. É inegável que é necessário um rendimento maior para conseguir acessar o visto de estudante. As pessoas que vão com o visto de trabalho têm, em geral, a passagem paga e são recrutadas por empregadores irlandeses direto do Brasil para o chão de fábrica na Irlanda. Há um contraste efetivo entre pessoas de classe média e média baixa mais brancas, que são as que recorrem ao visto de estudante, e pessoas de classes baixas mais pretas e pardas, que são os trabalhadores com visto de trabalho.

3.2 Comparando as experiências

A avaliação da bibliografia é sempre mais favorável a um grupo do que a outro, como se esse grupo de estudantes fosse melhor para a Irlanda do que o grupo dos trabalhadores. No entanto, isso é apenas parte da história. Quando se analisa a experiência de vida das populações com visto de estudante e com visto de trabalho stamp 1, observa-se que a vida das pessoas com visto de estudante é muito mais traumática e difícil do que a experiência das pessoas com visto de trabalho, da perspectiva do mercado de trabalho. O portador de visto de trabalho já é um privilegiado pelo Estado desde o começo, já que apenas algumas profissões são permitidas no stamp 1: o Estado controla, com autorizações de contratação, quais são os mercados de trabalho acessíveis para os trabalhadores extraeuropeus da UE. Esse contrato de trabalho que gera o visto de trabalho tem que ser, portanto, anteriormente aprovado pelo Estado. No caso dos brasileiros, especialmente os trabalhadores do mercado dos frigoríficos irlandês, temos uma situação especial. A Irlanda é a maior produtora de carne dentro da Europa, tendo várias plantas de frigoríficos, e quem trabalha nessas plantas são basicamente estrangeiros, mas especialmente os brasileiros.

Essas indústrias começaram a contratar brasileiros a partir de Anápolis em Goiânia por uma série de eventos fortuitos (Murray, 2006; Silva, 2011), e esse processo se transformou num grande fluxo de brasileiros para trabalhar nos frigoríficos irlandeses. O trabalho no interior dessas plantas é extremamente agressivo e brutal, e os irlandeses não querem atuar nesses postos de trabalho, que são ocupados por brasileiros e outros estrangeiros, da mesma forma como imigrantes no Brasil estão ocupando os espaços de trabalho nos frigoríficos brasileiros. No sul do Brasil, por exemplo, imigrantes muçulmanos variados vão trabalhar em abates específicos de exportação para países islâmicos, em condições de trabalho insalubres (de Padua Bosi, 2019; Lopez, 2019; Granada et al., 2021).

Mas os imigrantes brasileiros na Irlanda têm o direito de trabalho garantido com o visto de trabalho (stamp 1). Eles podem trabalhar 40 horas e têm direito a pelo menos duas políticas sociais importantes no estado irlandês: podem receber um recurso a mais por filho e podem pedir um complemento de renda se não conseguem pagar o aluguel - porque o aluguel na Irlanda é extremamente caro (Fahey et al., 2019). Outra questão essencial é que esses trabalhadores podem computar o tempo que passam sob o visto 1 nas contas para futuras legalizações. Para um processo de aquisição de cidadania irlandesa, é preciso estar cinco anos sob um regime de documentação que conte, ao menos, para começar um pedido de nacionalidade irlandesa. Com cinco anos sob o regime do visto 1, o imigrante tem o direito de solicitar essa naturalização.

É preciso levar em conta que nem tudo é favorável: o visto tem problemas sérios em termos de precarização de trabalho. O imigrante depende daquele contrato de trabalho para permanecer no país, e se o empregador retira o contrato de trabalho, o trabalhador perde o registro imediatamente e tem que voltar para o Brasil. Isso significa uma dependência brutal do imigrante ao empregador, que leva, obviamente, no mundo capitalista, a uma exploração do trabalho absurda. É muito comum que os contratos estabeleçam termos que serão sistematicamente descumpridos pelos contratadores, sempre em prejuízo dos trabalhadores: recebem menos que o combinado, moram em condições muito mais precárias que as anunciadas etc.

Porém, os imigrantes não têm muita possibilidade de reclamar, porque perder o contrato de trabalho significa perder todas as condições que permitem a estadia na Irlanda. O stamp 1 é lido pelos brasileiros como uma espécie de “escravidão temporária”. Durante esses cinco anos, eles podem ficar em situações difíceis, mas, ainda assim, têm acesso a alguns recursos básicos do estado irlandês e, se atravessarem esses anos, vão conseguir transformar o visto de trabalho stamp 1 em outro visto de trabalho, o stamp 4, que garante mais direitos por não depender exclusivamente de um contrato de trabalho. Sob o stamp 4 o trabalhador é livre para mudar de emprego, o que altera toda a condição de negociação com os patrões.

Durante a vigência do visto 1, entretanto, o tipo de relação entre empregador e empregado é caracterizado como uma “hiperdependência” (Zou, 2015; Rojas Coppari, 2019) em uma situação econômica que podemos chamar de hiperprecária, seguindo Lewis et al. (2015a). Nessa categoria encontramos, de forma geral, os trabalhadores brasileiros não qualificados, em especial aqueles ligados a dois nichos de trabalho mais facilmente mapeáveis: os trabalhadores de frigoríficos e os treinadores e/ou peões em fazendas de criação, domesticação e treinamento de cavalos, em geral relacionados ao popular esporte de corridas de cavalos, sustentado por uma grande indústria de lojas de apostas na Irlanda.

Esses são predominantemente homens, que tinham já alguma especialização no Brasil e são contratados especificamente para essas profissões, recebendo salários abaixo da média para trabalhadores nacionais na mesma profissão. Ou, melhor dizendo, são aqueles trabalhadores dispostos a trabalhar pelos valores pagos por essas indústrias, que estão abaixo da média, considerando as dificuldades e mesmo riscos laborais. Silva (2011: 171) fez um survey entre funcionários das fábricas de carne num evento de futebol (times de brasileiros de diferentes frigoríficos), e identificou a média de cinco anos de escolaridade para esses trabalhadores.

Esses são os trabalhadores mais visíveis na bibliografia sobre a imigração na Irlanda, especialmente por serem encontrados facilmente nas fábricas de carne e nas fazendas de cavalos, que em geral se concentram em cidades do interior da Irlanda, produzindo uma dispersão dos brasileiros por todo o país, mas em pequenas localidades onde é relativamente fácil encontrá-los. São também considerados os pioneiros da imigração brasileira na Irlanda.

Falamos aqui de brasileiros com formação escolar precária, em geral sem o ensino médio. Esses trabalhadores têm muita dificuldade em falar inglês, têm pouca capacidade de interagir com a sociedade irlandesa sem ajuda de intérpretes. Essa situação, aliada às regras do visto, que impedem a mudança de trabalho, gera o que poderíamos chamar de trabalhadores vulneráveis a toda sorte de exploração: seja por parte dos empregadores, por parte de outros brasileiros mais experientes, seja por parte do próprio Estado, na dificuldade que impõe para o acesso a serviços.

Agora comparemos essa situação com os estudantes brasileiros na Irlanda. Como estudantes, os brasileiros mais brancos de classe média e média baixa que obtêm o visto podem trabalhar 20 horas, e só essas 20 horas. Como muitos conseguem os recursos para retirar o visto com muita dificuldade, precisam trabalhar para se sustentar enquanto cursam as aulas. São sempre trabalhos com salários muito abaixo da média dos salários precários pagos para imigrantes na Irlanda, já que eles são vistos como pessoas que estão trabalhando para complementar a renda (Gilmartin et al., 2021). O estado modela categorias de gerenciamento da imigração que produzem precariedade do trabalho (Machado, 2012). O trabalho do estudante é ainda mais precário do que o trabalho daquele imigrante que tem o visto de trabalho.

Os brasileiros que vão para estudar - aqui não estamos contando o fenômeno importante mas fugaz do programa Ciência sem Fronteiras da presidenta Dilma (2011-2017) (Almeida Dutra; de Azevedo 2016; O’Neill et al., 2021) - em geral estão em busca de um melhor inglês e também eventualmente de uma oportunidade de outra vida, como imigrantes. Alguns também vão para cursar o ensino superior, apesar dos custos relativamente altos do ponto de vista de quem vem de uma economia com a moeda muito fraca, como tem sido o real após o golpe na presidenta Dilma. Mas a maioria expressiva vai para estudar inglês, matriculando-se em escolas que são credenciadas pelo governo irlandês. Para renovar um curso que dura oito meses, é preciso passar nas provas que ele oferece e seguir a um nível mais avançado; mas, se o aluno não passar, não pode renovar o visto. Isso abriu espaço para escolas que se transformaram em balcões de negócios e deram margem a várias denúncias ao longo dos anos. Brasileiros chegaram a ser vítimas de escolas dessa natureza, que, muito frequentemente, fechavam de uma hora para outra sem ressarcir os alunos.

Os brasileiros que chegam nessas condições tendem a ser pessoas de classe média, muitas já com curso superior, outras com ensino técnico ou ensino médio. A maioria ocupa postos de trabalho como babás, cuidadoras em geral, entregadores de aplicativos, atendentes de lojas variadas (lojas de departamentos, postos de gasolina, cafés, restaurantes etc.). Em geral as funções exercidas estão abaixo da formação original desses brasileiros, que têm dificuldade para achar empregos nas suas respectivas áreas de formação no esquema de 20 horas.

Dado o caráter temporário do visto 2, os brasileiros nessa situação precisam avançar numa busca urgente por alternativas para permanecerem na Irlanda. Uma forma possível é avançar nos estudos, tentando cursar algum curso técnico voltado ao mercado de trabalho, com duração de cerca de dois ou três anos, estendendo o prazo de permanência legal no país. Certas pessoas seguem esse caminho, com alguma especialização em cursos relativamente baratos que elas podem pagar com o trabalho de 20 horas (mas essa alternativa sempre implica uma vida muito regrada e com dificuldades financeiras). Mas também, em muitos casos, o que acontece é que simplesmente os brasileiros passam à indocumentação. Ou seja, o tempo do visto 2 expira, todavia os estudantes não deixam o país, passando a ser imigrantes não documentados. O visto 2 é inegavelmente o começo da história de muitos dos brasileiros que hoje se encontram na indocumentação. Como afirma Ruhs (2003), o sistema de vistos irlandês opera com entradas baseadas em empregos e também com entradas não baseadas em emprego (como a estampa 2). Entretanto, a entrada dos estudantes tem sido usada para ocupar vagas num mercado de trabalho que poderia ser ocupado por imigrantes trabalhadores (com o esquema de 20 horas semanais). Assim, aumentou a participação de estudantes num mercado de trabalho associado antes aos imigrantes não qualificados, só que em regimes ainda mais inseguros e precários (Gilmartin; Rojas Coppari; Phelan, 2016).

O trabalho dos imigrantes sob o visto de estudo é muito precário, e as experiências de vida dessas pessoas são muito dramáticas: elas não conseguem pagar as contas com os recursos que levantam com esse trabalho; isso resulta que moram em situações muito precárias, com muitas pessoas numa casa só. Passam por situações muito difíceis em função das condições de exploração do trabalho e do custo para manter o visto válido. Essa é uma situação que favorece muitos empregadores a continuarem pagando salários bem baixos. O visto de estudo é usado pelos empregadores irlandeses para suprir o mercado de trabalho ultraprecarizado com salários muito baixos (Machado, 2023).

Para além disso, é preciso constatar que os estudantes não aproveitam o tempo que eles passam sob o visto 2, no sentido de uma futura naturalização. O visto de estudo não conta tempo para os processos de naturalização; só quando o imigrante muda para um outro visto, com regimes mais estáveis, é que ele vai produzir uma experiência que legitima - depois de mais cinco anos - um pedido de naturalização. Assim, podemos ver que a experiência de brasileiros mais brancos de classe média baixa e classe média no mercado de trabalho é mais precária que a de brasileiros mais pretos e pardos que estão empregados no mercado da carne irlandesa. Entretanto, a bibliografia não mostra esse contraste, apenas informa a formação das pessoas e indica que algumas delas são muito mais qualificadas. Não se aponta que a experiência de vida dos estudantes na Irlanda, no que tange aos recursos monetários, é mais difícil que a dos imigrantes mais pretos e pardos: temos uma contradição entre pessoas com uma formação maior e visto de estudo numa situação mais precária do que as pessoas que não tem tanta formação. Os trabalhadores dos frigoríficos em geral não têm ensino médio completo, por exemplo, mas têm salários fixos de 40 horas e acesso a alguns direitos que os estudantes mais brancos não possuem.

Considerações Finais

Podemos considerar que a experiência migratória produz uma inversão na experiência de vida dos brasileiros na Irlanda, no que se refere ao acesso ao mercado de trabalho, e essa inversão é caracteristicamente racializada. Entretanto, a bibliografia não atenta para isso, porque também ela é em si cega às ordens raciais, em geral por conta de arcabouços teóricos que evitam a diferença interna aos grupos imigrantes. Ao estudar imigração, é importante atentar para os regimes de racialização que são contrastados na experiência migratória, porque eles evidenciam alguma coisa tanto sobre os imigrantes, como sobre os países que recebem essas presenças que desafiam e tensionam ordens raciais estabelecidas.

Os brasileiros na Irlanda vivem basicamente experiências distintas, a depender do visto que utilizam. Mas a pesquisa indica que o resultado dessa diferença altera, em alguma dimensão, a ordem dos efeitos das ordens raciais no Brasil. Se no Brasil essas ordens tendem a produzir exclusão e opressão sistemática para pretos e pardos - e, dentro desses grupos, mais exclusão para mulheres e LGBTQIA+ (Gonzalez et al., 2021) -, na Irlanda, os imigrantes pretos e pardos estavam numa situação econômica mais estável, produzindo uma vida comunitária mais densa. Os estudantes estavam experimentando uma precariedade que, muitas vezes, era inédita na vida desses brasileiros. Regimes de trabalho e estudo muito intensos, poucos recursos, moradias insalubres, falta de direitos básicos etc.

Essa inversão estrutural das vulnerabilidades econômicas de brancos versus pretos e pardos era sentida com certa ironia pelas populações tradicionalmente discriminadas no Brasil, ao passo que não era percebida pelos estudantes brancos como uma alteração da ordem racial brasileira: para eles, aquela era uma situação derivada das dificuldades naturais da emigração, não tendo relação aparente com raça. Esse desconhecimento seletivo permitia que mantivessem um discurso heroico sobre as próprias qualidades enquanto indivíduos de “sucesso” na vida de imigrante. Ou seja, as próprias ordens raciais brasileiras impediam essa população de enxergar uma inversão racial causada pelos regramentos migratórios irlandeses.

Os casos dos brasileiros em Portugal e dos refugiados e imigrantes negros no Brasil, que vimos nas duas primeiras partes do texto, ilustram também outras histórias de embaralhamento de ordens raciais e seus efeitos. No caso dos brasileiros em Portugal, produzindo autênticas inversões raciais que privilegiavam imigrantes pretos e pardos no mercado de trabalho. No caso dos imigrantes e refugiados negros no Brasil, o que vimos foi uma espécie de armadilha racial, na qual os imigrantes são “aceitos” apenas para viverem uma exclusão radical na vida cotidiana. Essa exclusão radical acaba por levá-los a remigrações: eles são praticamente obrigados a fugir do Brasil devido aos regimes extremos de exclusão a que são submetidos.

Esses dois casos nos ajudam a pensar a experiência dos brasileiros na Irlanda (e, na verdade, em qualquer experiência migratória). Mas olhando para os casos que envolvem as ordens raciais brasileiras, seja com os imigrantes no exterior, seja com os estrangeiros no Brasil, podemos ter mais elementos para perceber como a vida dos brasileiros na Irlanda é afetada pelo atravessamento e embaralhamento das ordens raciais. Além disso, essas descrições apontam para como esses processos produzem diferenças entre grupos, como o caso dos brasileiros em Portugal e na Irlanda. Transformações das ordens raciais produzem efeitos inesperados na vida de imigrantes. Os imigrantes também tensionam as ordens raciais das suas próprias comunidades, produzindo diferenças e deslocamentos de poder entre os brasileiros em vários contextos nacionais.

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  • 1
    Aqui me refiro à experiência dos brasileiros no Porto, em 2000. Posteriormente, as experiências da imigração brasileira em Portugal se diversificaram bastante, como indicamos em outros trabalhos (Machado; Reis, 2007; Machado; Almeida; Reis, 2009).
  • 2
    Usamos aqui as categorias de classificação racial utilizadas pelo IBGE.
  • 3
    Importante destacar que neste texto falo de diferenças internas às populações imigrantes com base nas ordens raciais, mas elas não são tudo o que se tem para dizer sobre diferenciações no seio das comunidades imigrantes. Uma análise que foque na categoria de gênero certamente produzirá outros desenhos de exclusão marcados por essas interseccionalidades. Sobre o tema, ver Piscitelli, 2008; Neves et al., 2016; Gomes, 2018; Morais et al., 2021, entre outros. Neste texto não exploro essas possibilidades, entretanto.
  • 4
  • 5
    Nesse parágrafo utilizamos as classificações êmicas dessa população refugiada, que se caracteriza como “negra” e não como “preta ou parda”. Ver o trabalho de Branco-Pereira, 2021.
  • 6
  • 7
  • 8
    Para uma discussão mais sistemática sobre o conceito de etnicidade, ver Villar, 2004.
  • 9
    A partir das metáforas telecelares de Ingold (2007), da ideia de “linha”, pensamos os processos de produção de diferenças em famílias de emigrantes em Governador Valadares e entre descendentes de japoneses no Brasil. Verificamos que a diferencialidade é um conceito útil para pensarmos a intensa produção de diferenças entre um conjunto de pessoas que, usando outro conceito, compartilhariam algo como uma “etnicidade ou identidade coletiva”. Verificamos etnograficamente que “etnicidade” e “identidade” não dão conta de entender a produção intensa de diferenças entre grupos que esses próprios conceitos tendem a construir a priori. Trabalhar sem o contorno, sem o limite e a fronteira nos permitiu identificar coletivos mais fluídos, influenciados por dinâmicas comuns de experiência de vida: de vida compartilhada e de produção de uma moralidade comum, de um conjunto de valores, de hábitos coletivos, construção de corpos etc. Para pensar isso que chamamos de diferenças infinitesimais, usamos a ideia de entrelaçamento: linhas soltas que se juntam em emaranhados, dentro de emaranhados. As diferencialidades aparecem como o conceito para descrever esse processo infinitesimal de produção de diferenças, apoiado nas metáforas tecelares de Ingold: novelos, emaranhados, linhas etc.
  • Financiamento:
    Pesquisa financiada pela Fapesp, processo 20/03242-9.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    14 Ago 2023
  • Aceito
    03 Maio 2024
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