Resumo
Heloisa Alberto Torres (1895-1977) é uma personagem extensamente citada nas conversas de corredor das instituições nas quais a antropologia vem construindo a sua história e quase nunca citada em notas de pé de página. Qual foi, afinal, a contribuição desta personagem para a nossa história? Tento aqui começar a responder a esta pergunta, num ensaio que pretende ser também um estímulo aos jovens pesquisadores para visitarem nossos arquivos e ampliarem alguns dos indícios de que esta é uma história com um número muito maior de personagens do que estamos acostumados a considerar.
Antropologia brasileira; história da antropologia; gênero; Museu Nacional
Abstract
Heloisa Alberto Torres (1895-1977) is widely recognized in corridor talk as an important persona in the tradition of the history of our discipline but hardly mentioned in our academic work. Did she really contributed to the building up of Anthropology in Brazil? In an attempt to answer this question, I hope also to persuade young investigators to do research in the few archives we have left and to pursuit many other personae we usually do not take as part of our history.
Brazilian anthropology; history of anthropology; genre; Museu Nacional
Dona Heloisa e a pesquisa de campo
Mariza Corrêa
Unicamp
RESUMO: Heloisa Alberto Torres (1895-1977) é uma personagem extensamente citada nas conversas de corredor das instituições nas quais a antropologia vem construindo a sua história e quase nunca citada em notas de pé de página. Qual foi, afinal, a contribuição desta personagem para a nossa história? Tento aqui começar a responder a esta pergunta, num ensaio que pretende ser também um estímulo aos jovens pesquisadores para visitarem nossos arquivos e ampliarem alguns dos indícios de que esta é uma história com um número muito maior de personagens do que estamos acostumados a considerar.
PALAVRAS-CHAVE: Antropologia brasileira, história da antropologia, gênero, Museu Nacional.
Itaboraí, a cerca de quarenta quilômetros de Niterói, terra natal do teatrólogo João Caetano e do romancista Joaquim Manuel de Macedo ¾ mas não do político e intelectual Alberto Torres, que nasceu em seus arredores ¾ foi o lugar escolhido por Heloisa e Maria (Marieta) Alberto Torres para viverem seus últimos anos de vida1. A casa que ambas compraram, e doaram ao Serviço do Patrimônio Histórico, é descrita nos guias locais como um "típico sobrado do século XVIII" e, depois de ter ficado anos fechada, foi reaberta em 1995 como Casa de Cultura Heloisa Alberto Torres, quase vinte anos depois de sua morte, em 1977 e, apropriadamente, no centenário de seu nascimento.
Heloisa Alberto Torres publicou muito pouco sobre as experiências de sua tão longa vida. Ingressou no Museu Nacional como auxiliar de Roquette-Pinto aos 23 anos, logo após a morte do pai, e tornou-se efetiva através de concurso prestado em 1925 2. Logo no ano seguinte foi eleita chefe interina da Seção de Antropologia e Etnografia e chefe efetiva desde 1931; foi vice-diretora do Museu de 1935 a 1937 e diretora de 1938 a 1955: não foram apenas "dezessete anos de vida consumidos pela administração", como diz Castro Faria (1978), mas quase trinta só no Museu Nacional3.
Sua presença no cenário antropológico brasileiro foi marcante não apenas pelos atos administrativos que realizou, ou pelos trabalhos acadêmicos que deixou de realizar, mas pelo seu empenho na formação de jovens pesquisadores através da experiência da pesquisa de campo e no desenvolvimento da etnologia. Heloisa nunca sistematizou esta atuação, ou refletiu sobre ela em trabalhos publicados: mas ela aparece com clareza no que talvez seja o melhor de sua produção ¾ sua correspondência com colegas e com jovens etnólogos cujas carreiras ajudou a animar. Era como se, para ela, o trabalho de campo se esgotasse em si mesmo ¾ nunca chegou a publicar um relato de sua viagem à Ilha de Marajó, primeira pesquisa de campo que fez e, apesar de seu entusiasmo sobre a última, no Arraial do Cabo, também dela não deixou qualquer trabalho publicado4. Sua extensíssima produção não publicada revela, no entanto, um investimento enorme de energia nos bastidores da pesquisa de campo ¾ fosse através da correspondência que mantinha com colegas ou agências de financiamento de pesquisa, fosse através de projetos e relatórios de pesquisa ou da orientação que dava aos jovens pesquisadores.
Mais ou menos na mesma época em que, em São Paulo, a influência norte-americana parecia estar se consolidando nas ciências sociais através dos estudos sócio-antropológicos de comunidade, feitos principalmente por pesquisadores da Escola Livre de Sociologia e Política, no Rio, tal influência chegou através de gestões de dona Heloisa. Castro Faria menciona sua "intensa correspondência" com Franz Boas, Ralph Linton, Paul Rivet, Alfred Métraux e Charles Wagley recorda que "usando seu prestígio e ampla rede de amizades", dona Heloisa guiava os pesquisadores visitantes "através da intrincada burocracia, que exigia o registro de estrangeiros e uma permissão especial para realizar expedições científicas no país, além de vários outros documentos oficiais."5 (Wagley,1988). Wagley diz também que "A Universidade de Columbia mantinha um acordo informal com o Museu Nacional do Rio de Janeiro para co-patrocinar estudos etnológicos no Brasil." No âmbito deste acordo vieram para cá o próprio Wagley, William Lipkind, Buell Quain e Ruth Landes, primeiro, e depois James e Virginia Watson, Yolanda e Robert Murphy, entre outros. Nenhum deles ficou muito tempo no Museu, mas Heloisa tentava aproveitar-se de sua estadia para treinar pesquisadores jovens. Numa carta de 1938, ela explica o seu plano a Buell Quain:
"Fiz algumas modificações no meu plano de curso do Museu. Pensei em transferir para um pouco mais tarde o curso de lingüística e adotar imediatamente um programa mais prático e que, segundo me parece, corresponde melhor às necessidades mais prementes do meu país. Para isso desejaria poder contar com o senhor e o Wagley. Durante o período de permanência no Museu, cada um se ocuparia uma hora por dia de um grupo de cinco pessoas para instrução etnológica de caráter essencialmente prático e faria os seus estudos pessoais e redação de pesquisas, durante o resto do tempo. Organizaríamos um plano de pesquisa sistemática de campo; cada qual, ao sair, levaria consigo um aluno. Espero que, com três anos de trabalho, nós teríamos talvez formado pelo menos uns três trabalhadores bons. O Sr. vai ficar surpreendido com a facilidade que o brasileiro tem para aprender. (...)
Não pretendo implantar (está reconhecendo?) ninguém no meu país; desejo apenas que meus amigos me ajudem no desenvolvimento de estudos etnológicos."6
As inúmeras fotos da época, em que dona Heloisa aparece com pesquisadores norte-americanos que passavam pelo Museu, ilustram sua centralidade, que derivava tanto de sua posição institucional quanto de seu poder de acionar aquela ampla rede social referida por Wagley. Ilustram também a "troca de guarda" nas influências sofridas pelo país durante e logo após a Segunda Guerra, influências que igualmente se expressariam na antropologia como uma disciplina que começava a se constituir. A primeira influência é registrada pela linguagem: tanto Wagley como dona Heloisa falam, no início dos anos 40, em antropologistas (anthropologists) como os praticantes desta disciplina, sinalizando a influência do inglês e da relação com os norte-americanos, que passavam a ser mais presentes do que os franceses na vida intelectual do país. Numa entrevista com o presidente Vargas, a recém- eleita diretora do Museu menciona o alto número de antropólogos empregados pelo governo norte-americano, mobilizados pelo esforço de guerra, e acrescenta: "uma vez terminado esse conflito todos os antropologistas ansiosos voltarão seus olhos para o Brasil, único ponto da terra cuja população primitiva, ou grande parte, ainda estará intacta em seus costumes e estado de cultura, tornando-se assim um valioso e inigualável campo de estudos e pesquisas." E sugeriu que fosse criada a carreira de antropologista e antropologista-auxiliar, sendo autorizada pelo presidente a elaborar um anteprojeto sobre o assunto7. Alguns antropólogos certamente voltaram os olhos para o Brasil, entre eles Charles Wagley que registra um dos primeiros encontros, no campo, de um antropólogo treinado com os jovens que Heloisa enviava para aprenderem com ele.
"Então, uma manhã, ouvimos um tiro de pistola. Um pouco mais tarde apareceram três brasileiros estranhos. Eram apenas três jovens ¾ Eduardo Galvão, Rubens Meanda e Nelson Teixeira. Vinham do Museu Nacional, enviados por Heloisa Alberto Torres. Traziam cartas, revistas, notícias da guerra na Europa e uma garrafa de uísque. Suspeitei primeiro que fossem espiões, enviados para me fiscalizar e ao meu trabalho. Depois percebi que eram estudantes principiantes de antropologia. Eles traziam pouca coisa para trocar, mas sua presença nos trouxe a todos de novo à vida."8 (Wagley, 1988). Juventude e animação transpareciam também nas cartas trocadas pelos três aspirantes a antropólogos entre si, na época, em algumas fotos de campo ou em recortes de jornais, mostrando que todos defendiam com ardor a causa indígena na volta de suas expedições a lugares longínquos para onde dona Heloisa os mandava, acompanhando-os de longe com um misto de autoridade e afeto. Ambos estão bem expressos num telegrama seu aos pesquisadores, em 1942: "Reitero ordem máximo cuidado medicação preventiva malária ponto abraços afetuosos ponto Heloisa." Que as relações com a diretora do Museu eram afetuosas/autoritárias são testemunhas também a suspeita inicial de Wagley à chegada dos jovens ao campo, as cartas afetuosas dela aos três (telefonando para a mãe de Galvão antes de escrever, ou passando um "pito" em Nelson Teixeira, por não se comunicar com a família), ou respeitosas de James Watson, um comentário de Wagley e uma curiosa alteração na dedicatória de seu livro com Galvão.
O comentário de Wagley é brincalhão mas revelador. Numa carta a Galvão, depois de dizer que antecipava a chegada dele aos Estados Unidos com "uma certa satisfação sádica" pelas dificuldades que ele teria com o idioma, o que seria a sua "vingança", acrescentava: "Em seguida quero ver Heloisa servida de uma dose da gíria estudantil e nova-iorquina ¾ então meus longos anos de frustração serão aliviados"9. As cartas de Eduardo Galvão na época mostram tanto a evolução de suas relações com dona Heloisa quanto a de seu aprendizado10. Primeiro com Wagley: "Wagley vae trabalhando ao mesmo tempo que nos orienta, de vez em quando passa uma revista nos cadernos e distribue alguns pitos. Iniciou agora uma série de leading questions que organiza e distribui por nós de modo a completarmos o material que vamos conseguindo." Depois com Watson: "O sistema de trabalho de Watson é bastante diferente daquele de Wagley, primeiro formulam-se os problemas para então investigá-los. Sem isso será quasi impossível (na opinião dele) fazer antropologia social, porquanto após o trabalho já não (há) mais possibilidade de resolver problemas, ter-se-á simplesmente um estudo extensivo e, não, intensivo como o Watson se propõe a fazer." Watson distinguia etnologia ("histórica") de antropologia social ("científica")."Chegamos à conclusão," diz Galvão com ironia, "que para tornar os inquéritos em antropologia social é suficiente antepor-lhes explicitamente os problemas requeridos." Galvão achava o método, que envolvia a formulação prévia de questionários exaustivos e justificativa das questões a estudar, "um tanto complicado e menos eficiente do que o de Wagley". Descrevendo Watson e sua esposa Virginia como muito formais e desconfiados, dizia dele: "Ele ainda não compreendeu a necessidade social do `lero-lero'." E encerra: "Saudades dos futuros `antropólogos sociais'"11.
Escrevendo de São Paulo, na véspera de partirem para uma "field trip" em Goiás, James Watson, que estava acompanhado de sua esposa Virginia, consulta dona Heloisa sobre como orientar os jovens pesquisadores:
"(..) a questão é a seguinte: a vontade da Senhora. Se quiser que eu faça sugestão ou empreste a mão de vez em quando para guiar ou Galvão ou Teixeira, ou melhor, só para indicar a variedade de pensamento que existe e que eu conheço num assunto marcado, muito bem. (..) Eu acho que há bastante trabalho para todos nós, dentro do tempo indicado, concentrar completamente no assunto da economia. Isso não quer dizer que a gente vai negligenciando o resto, pois segundo o ponto de vista funcionalista, qualquer parte se liga com o resto da cultura, numa maneira ou outra. (..) O que eu quero aprender, então, é se a Senhora quer uma direção unificada, um `emphasis' particular, um fim, que toca primeiramente os problemas da organização econômica, que foi meu plano original, mas com observações bastante amplas sobre outros aspectos da cultura, indicando porém que estes outros aspectos da cultura não foram o maior fim desta `field trip'. Parece que há bastante precedência para este tipo de estudo, aliás, que isso talvez representa uma das maiores tendências da antropologia atual. Mas, enfim, estou de vontade fazer só o que a Senhora quiser neste respeito."12
O português arrevesado de Watson não esconde que ele tinha um projeto bem definido, mas que estava disposto a ajudar os jovens brasileiros em sua aprendizagem, como Heloisa queria. O que ela confirma em outra carta:
"Gostei de duas notícias: de que o Watson se presta com satisfação a ensinar e que a saúde é muito boa. Os outros pequenos detalhes são poeira de estrada; o importante é chegar ao fim."13
Alguns desses jovens foram até o fim; outros ficaram pelo caminho. Depois de alguns anos dessa aprendizagem, Eduardo Galvão estava pronto para obter seu doutorado em Columbia, onde foi o primeiro PhD formado sob a orientação de Charles Wagley e provavelmente o primeiro brasileiro a obter este título em antropologia14. Seus dois companheiros de pesquisa tomaram outros rumos, apesar de terem participado de pelo menos uma terceira experiência de campo, entre os Tenetehara. No prefácio à edição brasileira de seu livro sobre este grupo indígena, Wagley e Galvão os mencionam pela última vez: "Nelson Teixeira e Rubens Meanda não puderam participar da preparação dos dados de campo para publicação. Eles colocaram todas as notas à nossa disposição e leram longos trechos deste relato. Desejamos agradecer-lhes por sua íntima colaboração e dar-lhes o crédito devido por suas precisas observações de campo."15
O antropólogo mais velho ¾ Wagley tinha 32 anos e Galvão 24 na época dessa pesquisa ¾ cumpria à risca o prometido à dona Heloisa, fazendo sugestões detalhadas ao jovem antes de Galvão retornar ao campo:
"Recém terminei de escrever o rascunho da primeira parte do ciclo de Vida, a partir do texto tentativo de Rubens e das notas de campo. Reorganizei inteiramente o material: ele ficou mais ou menos assim ¾ Casamento, Estabilidade do Casamento, Divórcio, Viúvas, Tabus pré e pós natal, Nascimento, Cuidados com o bebê, Infância, Puberdade. Acho que o trecho que Rubens entitulou Doenças-Morte (do qual você tem uma cópia) deveria ser inserido na parte sobre Religião.(...) Por favor, reescreva o trecho Doenças-Morte. Ele está vago e redundante, etc. Enfatize a economia, claro, e obtenha bom material. Deve ser o capítulo mais fraco. Leve junto alguns livros para inspirar-se sobre questões importantes ¾ você pode até levar aquele grande clássico sobre a Guatemala. Estou datilografando o que escrevi e o mandarei a você no campo ¾ dentro de um mês. Leia cuidadosamente e reescreva parágrafos ¾ sugiro numerar os parágrafos (temporariamente) à la Nimuendaju para que não se perca a continuidade ¾ reescreva acrescentando material novo. Deixe os mitos comigo ¾ assim poderei trabalhar sobre eles."16 (Wagley e Galvão, 1961).
Além de mostrar a organização de uma monografia antropológica na época, as sugestões revelam também um pouco do clima de parceria que tinha se estabelecido entre eles. Ambos dedicaram a versão em inglês do livro, de 1949, à dona Heloisa mas, quando saiu em português, em 1961, com dois apêndices novos de Galvão, ele foi dedicado a Nelson Teixeira, já falecido. As dificuldades que Galvão enfrentou para obter licença do Museu Nacional para fazer o curso de doutorado em Columbia podem responder em parte ao porque desta alteração, mas seria preciso saber mais a respeito da nova relação entre dona Heloisa, então no Conselho Nacional de Proteção aos Índios, e Eduardo Galvão que, ao voltar dos Estados Unidos, fora trabalhar no Serviço de Proteção aos Índios com Darcy Ribeiro, para entender melhor suas posições em instituições que estavam estruturalmente em confronto17.
Confronto é uma palavra que poderia sintetizar boa parte da atuação de Heloisa no mundo intelectual de sua época: portadora de um nome importante neste mundo, ela ocupou inúmeras posições politicamente importantes, a maioria vinculada diretamente à disciplina à qual dedicou o melhor de seus esforços, outras apenas indiretamente: todas, no entanto a colocavam no centro do palco numa época em que poucas mulheres lá estavam. A fotografia dela como delegada do Brasil numa reunião da UNESCO, única mulher numa fieira de homens, é tanto emblemática de sua importância, como mostra que o cenário internacional não era muito diferente do nosso. Tais posições eram disputadas e, a julgar pelas que ocupou, Heloisa era uma hábil jogadora. Duas das disputas nas quais ela se envolveu merecem ser avaliadas aqui porque ilustram também disputas mais amplas no campo do saber: a disputa pela direção do Museu Nacional, que a envolveu num conflito público com alguns de seus naturalistas e a disputa pela cátedra de Arthur Ramos. Na primeira, dona Heloisa saiu vencedora; a segunda, ela perdeu.
Em 1939, visitando dona Heloisa e o Museu Nacional, Alfred Métraux registra em seu diário que o prédio "ménace ruine"; dois anos depois Heloisa obtém verba do governo federal para os consertos do edifício e parte dele fica fechado ao público. As obras interferem também no andamento do trabalho em alguns setores e serão o principal motivo de queixa de alguns naturalistas no momento em que a crise se torna pública com a questão da eleição no Museu18. Em seu depoimento no processo aberto pela reitoria da Universidade do Brasil, Heloisa vai dizer que a hostilidade anterior de alguns de seus colegas era "discreta e intermitente", nunca tendo impedido "manifestações de cortesia" e que "nunca o trabalho no Museu se ressentiu desse movimento". Mas o aviso do ministro da educação, "tornou naturalmente mais viva e apaixonada a aludida campanha cuja acrimônia pode ser verificada documentadamente pela entrevista concedida, na véspera da eleição, pelo naturalista Newton Dias dos Santos no vespertino Diário da Noite."19
O Museu Nacional esteve vinculado ao Ministério da Agricultura até 1930, quando passou ao Ministério da Educação e Saúde. Em 1937, com a criação da Universidade do Brasil, ficou ligado a ela, até 1941, quando voltou ao Ministério da Educação e Saúde até 1945, tendo, desde então, retornado ao âmbito da Universidade do Brasil, depois Federal do Rio de Janeiro. Em 1945, no contexto das eleições gerais no país, o ministro da educação enviou um aviso ao Museu para realizar eleições para a direção. Heloisa pediu um representante do ministério para conduzir o processo e, não tendo recebido resposta, decidiu não presidir a eleição, para mostrar sua isenção. Apesar disso, o processo eleitoral foi conturbado. Além da entrevista mencionada por ela, dada na véspera da eleição por um dos chefes de seção do Museu, no dia da eleição, a mesa que ela indicara para presidi-la foi contestada e, na confusão que se seguiu, foram feitas duas atas da eleição: uma com os incidentes do dia e outra apenas com os resultados que foram enviados ao ministério.
Na sua entrevista, Newton Dias dos Santos, chefe da Seção de Zoologia, acusava Heloisa de ter perdido peças do Megatherium, um antepassado da preguiça, que fora desmontado para mudar de sala; de descuido com os sarcófagos das múmias, que estariam danificados, e de vários outros descuidos com o material do Museu. A página de jornal com a entrevista foi afixada nas escadarias do Museu no dia da eleição. Neste dia, um dos indicados por Heloisa para compor a mesa eleitoral recusou-se a fazê-lo e dois de seus opositores tentaram impugnar a mesa, dizendo que ela não merecia a confiança da "assembléia soberana". Um dos integrantes da mesa, José Cândido de Carvalho, sentiu-se "gravemente injuriado" por suas palavras e esbofeteou Newton Dias dos Santos. O fato foi registrado numa ata separada e, tendo prosseguido a eleição, o resultado foi o seguinte: Othon Leonardos, 21 votos, Heloisa Alberto Torres, 11, Antenor Leitão de Carvalho, 1, José de Araujo Lacerda Feio, 1, Newton Dias dos Santos, 1. Othon Leonardos chegou a ser nomeado por decreto presidencial, em fevereiro de 1946, mas, como a data era posterior ao decreto que reintegrava o Museu à Universidade, a nomeação ficou sem efeito20.
Os jornais continuaram, no entanto, a tratar do caso durante o resto do ano e a publicidade das acusações à diretora do Museu fez com que a Universidade abrisse um processo administrativo para esclarecê-las21. As acusações feitas pelos naturalistas no processo são de várias ordens, desde a falta de armários para a guarda das coleções ("Não seria melhor comprar armários que cortinas e outros enfeites?"), passando pela cozinha, pequena para o almoço de todos ("Se houvesse boa vontade da diretora...") e pelo uso do livro-ponto, até o estado dos sarcófagos das múmias e o desmonte do Megatherium. Heloisa prepara um longo documento em que responde cuidadosamente a cada uma das questões, nos casos mais sérios, incluindo a avaliação de especialistas, de Alberto Childe, sobre os sarcófagos e de Llewelyn Ivor Price sobre o Megatério, em outros, com uma ponta de ironia. Sobre o livro-ponto, diz que era uma recomendação dos próprios funcionários: "Parecem ter mudado de opinião."22 Sua conclusão é ríspida: "Faltaram, em auxílio à obra empreendida pelo Diretor do Museu, por parte de alguns espírito de compreensão da fase inconfortável de trabalho que era inevitável atravessar e sobretudo faltaram-lhe chefes, que dirigissem cada um dos setores de atividades em que se dividia o Museu."
Heloisa certamente contrariou interesses individuais ao não autorizar o pedido de comissionamento de alguns dos naturalistas que a criticavam, pedido feito um pouco antes da crise; mas ela é também institucional e aponta tanto para a redefinição do lugar dos museus no cenário educacional brasileiro quanto para a diferenciação da Antropologia em relação às suas vizinhas (Geologia, Botânica e Zoologia) no Museu Nacional. Uma das críticas feitas à diretora era que ela não reunia a Congregação. Heloisa responde dizendo que a estruturação da carreira de naturalista, por lei de 1936, extinguira a carreira de professor no Museu e que, segundo o ministério, só professores podiam ter assento na Congregação. Quando assumiu a direção do Museu, apenas dois naturalistas, além dela mesma, eram professores concursados, Roquette Pinto e Jorge Padberg Drankpol, e ambos estavam afastados. A centralização do sistema educacional, iniciada pela reforma Francisco Campos em 1931; a extinção da carreira de professor nos museus; a desacumulação de cargos, tornada obrigatória na Constituição de 1937, e o papel central atribuído às Faculdades de Filosofia como núcleos de irradiação do saber, desde 1934 em São Paulo e de 1939 no Rio de Janeiro, começavam a deslocar os museus de ciências naturais da posição central que eles até então ocupavam23.
Outras críticas feitas a Heloisa sugerem que suas iniciativas de explicitar a separação que começava a se dar entre a antropologia e suas vizinhas no Museu não foram bem recebidas. Uma delas dizia respeito à criação de séries separadas de publicações para a Antropologia, a Botânica, a Geologia e a Zoologia ¾ ao que ela responde com as exigências de especialização, já que as instituições com as quais o Museu intercambiava publicações nem sempre se interessavam pelo conjunto destas áreas. Pascoal Leme, o encarregado de editar essas novas publicações foi também atacado pelos opositores de Heloisa, que o acusavam de exercer censura sobre os manuscritos e de "comunista"24. Mas outra era mais específica e expressava um desacordo sobre o que seria legítimo expor na vitrine da ciência do país que era o Museu. A certa altura do rol de acusações que fazia à diretora, Othon Leonardos, falando da Exposição dos Centenários, em Portugal, em 1940, diz que "os mostruários enviados por Dona Heloisa a Lisboa, chegaram a ser arrumados no pavilhão brasileiro mas não foram exibidos ao público porque a Comissão julgou deprimente apresentar o Brasil como um país de negros e macumbas", citando os membros da comissão organizadora nominalmente (Augusto de Lima Junior, Gustavo Barrozo, Guy de Hollanda e Ernesto Street) como fontes de confirmação. A resposta de Heloisa foi incisiva:
"Há um ponto que merece réplica, acima de todos: O Museu Nacional, solicitado a apresentar aspectos etnográficos da população brasileira, não poderia, a bem da verdade científica, esconder o elemento negro da nossa população, elemento a que tanto deve o país. O conceito de superioridade de raça ¾ que tal omissão denunciaria ¾ é anticientífico e... para os grandes apregoadores de doutrinas liberais (o que o senhor Othon Leonardos afeta de ser) é antidemocrático. O negro existe, tem sido explorado, trabalha, contribuindo de modo decisivo para o progresso do país e tem que aparecer em qualquer certame que envolva aspecto científico antropológico onde quer que o Brasil se faça representar."25
Esgotadas as críticas à administração de Heloisa, seus opositores começam a expor seus preconceitos de raça e de gênero. O documento produzido para a reunião do Conselho Universitário na qual a questão seria decidida é onde finalmente o conflito entre diretor e diretora se manifesta26. Pedindo ao Conselho "a graça" de um interventor no Museu, os signatários acusam Heloisa de "asfixiar a ciência", "manejar como fantoches os cientistas" e abrir caminho "para a peor e mais intolerável das prepotências: a prepotência feminina, instaurando um regimem de matriarcado e perseguição aos que lhe caem no desagrado."27 E, mais adiante, apelam para a hombridade do Conselho: "A situação não é mais para contemporizações ou afetividades. É muito tarde para assim pensar. O caso atual do Museu está acima das amizades e dos pontos de vista pessoais. O Egrégio Conselho Universitário é composto de homens livres, diretores, pensadores, cientistas, educadores, juristas, etc." Ironicamente, depois de terem atribuído os elementos de afetividade ao universo semântico feminino, por oposição ao masculino, livre dessas injunções, os signatários do documento fazem o que em sua lógica seria um elogio à Heloisa: "Todavia, não faltou quem tivesse a coragem de lhe advertir sobre o futuro, mas sempre declarou que não se interessava por rumores."28 Talvez por isso a carta anteriormente citada, escrita para a comissão, não tenha sido afinal enviada, já que nela os partidários de Heloisa utilizavam argumentos do mesmo tipo dos usados aqui, isto é, que denunciavam o seu opositor, colocando-o numa posição simétrica e inversa, por ser pouco masculino ¾ assim como Heloisa era, aparentemente, muito feminina para ocupar a posição que ocupava29. Isto é, ambos os grupos em conflito parecem concordar em que o perigo estava na poluição das fronteiras entre o masculino e o feminino, pela ocupação de lugares socialmente, explícita ou implicitamente, destinados a uma destas categorias, mas não à outra30. Que a disputa era reconhecida na época pelos personagens do campo intelectual, fica claro também na apreciação de dois de seus contemporâneos ilustres que, um, tentou apropriá-la para a categoria masculino; o outro, ironizou a categoria feminina. Afrânio Peixoto, num cartão de agradecimento, com timbre da Academia Brasileira de Letras, ilustra a tentativa de apropriação: "Não me enganou o instinto, quando pensei que o Museu devia estar entregue a homem ¾ mais que homem é uma mulher e senhora-sábio, pois que V.Excia. não é outra coisa." Herbert Baldus, agradecendo a boa acolhida que teve no Rio, é mais irônico e parece aludir à situação do Museu no ano em que lá esteve: "Fiquei encantado com a doce ginecocracia (cf. esse termo no Dicionário de Etnologia e Sociologia de Baldus e Willems), e quase me veiu a vontade de tornar-me um de seus súditos. Acho, porém, mais conveniente, ficar aqui na qualidade de seu representante diplomático e esperar a sua visita em abril."31
Na segunda disputa importante em que se envolveu, Heloisa enfrentaria o outro antropólogo que tinha o mesmo estatuto que ela no cenário carioca: Arthur Ramos. No primeiro caso, Heloisa mostrou que, apesar de mulher, era a mais forte nas circunstâncias; as circunstâncias serão diferentes no segundo caso, no qual outra mulher parecia ser a sua opositora.
Segundo Castro Faria, Heloisa foi indicada por Gilberto Freyre para substituí-lo na cátedra de antropologia da Universidade do Distrito Federal, criada em 1935 e que teve vida curta, encerrando suas atividades três anos depois. No mesmo departamento, Arthur Ramos ocupava a cátedra de psicologia. No âmbito da disputa política pelo controle da educação superior no país, foi criada a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e, em novembro de 1939, Ramos foi indicado para ocupar a cátedra de Antropologia e Etnografia32. Uma oposição análoga a que os contemporâneos liam em São Paulo nas relações entre a Escola de Sociologia e Política e a Faculdade de Filosofia pode, a partir daí, ser lida nas relações entre o Museu e a nova faculdade33.
A Faculdade passou a ser o centro de atuação de Arthur Ramos, provavelmente o antropólogo mais importante na cena nacional naquele momento e que fundou, junto à cadeira que regia, a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia (1941-1949) por onde circularam quase todos os antropólogos que visitaram o país e muitos pesquisadores nacionais34.
Sua viagem aos Estados Unidos, as relações acadêmicas que lá estabeleceu, em 1941, e as posições públicas que assumiu durante o Estado Novo, fosse na defesa da luta dos negros pela cidadania, fosse contra o nazifascismo que tomava conta de parte da Europa, lhe deram a partir daí uma posição tão central na política da disciplina quanto a ocupada por Heloisa até então.
A convivência de ambos parecia no entanto pacífica, a julgar por dois exemplos, citados por Azeredo: uma carta de Heloisa a Arthur Ramos, em 1941, oferecendo-lhe uma oportunidade de cooperação entre as duas instituições e outra, do mesmo ano, propondo a realização do Primeiro Congresso Brasileiro de Antropologia.
Na primeira carta, Heloisa reafirma sua ênfase no trabalho de campo como treinamento necessário do antropólogo:
"Apresenta-se agora uma oportunidade feliz de reiterar-lhe o oferecimento ¾ feito no dia da instalação dos cursos da Universidade do Brasil ¾ de cooperação entre o Museu Nacional e a sua cadeira de Antropologia. Está trabalhando conosco o Dr. Charles Wagley, da Universidade de Columbia, que deu início à instrução de alguns rapazes, em etnologia. Afim de que esses trabalhos tenham maior repercussão, pareceu-nos conveniente, ao Dr. Wagley e a mim consultá-lo sobre o interesse que teriam alunos da Universidade em freqüentar essas aulas. Devido a certas condições de instalação de trabalho e ao método de ensino adotado, sou forçada a limitar o número de alunos a serem admitidos no curso. Sua duração será de cerca de três meses, findos os quais alguns rapazes deverão seguir para o campo com o Dr. Wagley."
Tal cooperação, segundo o pesquisador que analisou a documentação, parece não ter se concretizado. No fim do mesmo ano, Heloisa escreve a segunda carta:
"O projeto de promover o Primeiro Congresso Brasileiro de Antropologia para comemorar a reabertura do Museu Nacional (meados de 1943) foi recebido pelo Governo com a máxima simpatia. Eu não tinha querido dar nenhum passo nesse sentido antes de conhecer o pensamento das autoridades. Agora recebi ordem para organizar com urgência o plano; afim de obter seu concurso nesse trabalho, venho convidá-lo para um pequeno jantar a ter lugar depois de amanhã, 12 de novembro, às 20 horas no restaurante Santos Dumont."
Não sabemos se o jantar se realizou mas este empreendimento, iniciado por Heloisa, levaria mais de dez anos para se concretizar: somente em 1948 o Ministro da Educação e Saúde, Clemente Mariani, designou, através de portaria, uma comissão para organizar o Primeiro Congresso Brasileiro de Antropologia. Ignorando possíveis tensões locais, eram designados para compor a comissão Alvaro Fróes da Fonseca, Edgar Roquette-Pinto, Arthur Ramos e Heloisa Alberto Torres. A comissão se reuniu em fevereiro de 1948 ¾ sem a presença de Heloisa e de Ramos, ambos representados por Castro Faria que já tinha feito um documento sugerindo à diretora do Museu os parâmetros da reunião35. Ela foi, afinal, realizada no Museu Nacional, em 1953, sob a presidência de Herbert Baldus e ali nasceu a idéia da criação da ABA, Associação Brasileira de Antropologia, concretizada dois anos depois na Bahia.
As relações entre ambos se tornaram mais tensas no início de 1946, quando Arthur Ramos defendeu sua tese de livre docência, "A organização dual entre os índios brasileiros", para ocupar formalmente a cátedra que regia. Dona Heloisa fazia parte da banca, da qual participaram também Faria Góis e Fróes da Fonseca e, segundo Costa Pinto:
"O Ramos jamais perdoou Heloisa (...) o fato dela haver feito ironia com um erro de tradução do Ramos, que confundiu log race com dog race, e disse que isso era um esporte favorito dos índios, quando na verdade o índio só conheceu cachorro muito depois, trazido pelos europeus. A corrida era arrastando um toro de madeira (log), e há enorme diferença entre toro e totó."36
Quarenta anos depois Castro Faria ainda recordava a anedota, uma das mais recorrentes da história da antropologia dessa época, em seu depoimento na UnB. No contexto das disputas de então, o depoimento de Castro Faria pode ser lido também como a defesa de um grupo e de seus objetivos, o do Museu, contra outro, o da Faculdade, seja na desqualificação do conhecimento etnológico de Arthur Ramos, que ele definia como produtor de um conhecimento, literalmente, "de cátedra" sobre o negro brasileiro, seja na crítica à sua orientação teórica.
Referindo-se à Introdução à antropologia brasileira de Ramos, Castro Faria afirma: "Esse compêndio tornou-se o veículo, por excelência, do culturalismo da antropologia norte-americana". E, discutindo o programa da cadeira da Faculdade, publicado por ocasião do edital de concurso para substituir Arthur Ramos, a dmite a troca da palavra etnografia, oficial, por etnologia, como ocorrera no edital, mas adverte: "Chamar de `antropologia cultural', cujos novos métodos o professor dizia seguir, isso seria impossível." A conclusão é clara: "Tal quadro mostra que, na realidade, o ensino de Antropologia nas Faculdades de Filosofia não oferecia condições para a formação de antropólogos."37
O conflito expresso por aquela anedota vai assim muito além de um mero "facciosismo" entre duas instituições ¾ uma de ensino, outra de pesquisa ¾ e mostra que as relações tensas entre a diretora do Museu e o catedrático da Faculdade de Filosofia definiam também os termos de uma disputa interna ao campo da disciplina: seu objeto, seu método de pesquisa e sua "identidade social", isto é, o sítio institucional da nova disciplina38.
Em 1949, quando Arthur Ramos aceitou o convite para dirigir o Departamento de Ciências Sociais da UNESCO, as relações entre eles atingiram um ponto crítico, ao tornar-se pública a disputa pela interinidade da cátedra ¾ entre Heloisa e a assistente de Ramos, Marina Vasconcelos39.
Heloisa escreveu a Arthur Ramos, avisando-o de sua intenção de candidatar-se para substituí-lo em sua ausência: "Não quis, portanto, em face dos compromissos provavelmente assumidos por V.S. colocá-lo em atitude negativa à minha aspiração, posição essa que poderia resultar em constrangimento para V.S. dada a cordialidade de relações que, desde 1930, sempre existiram entre nós. É com prazer que as relembro, reavivadas que foram por ocasião de seu concurso em que tive a honra de figurar como examinadora e ainda recentemente quando juntos planejamos o futuro Congresso Brasileiro de Antropologia."
Em sua resposta, Arthur Ramos foi extremamente direto: não haveria vacância da cátedra, e sim um simples afastamento; sua assistente nada pleiteara e sua indicação fora feita pelo catedrático. "E mesmo que a minha ausência temporária possa ser interpretada como vacância, há normas éticas, sempre respeitadas por aqueles que se dedicam à vida universitária, para o acesso aquelas posições que os conduzirão aos postos do professorado. O contrário disso seria a subversão completa dessas normas e um desestímulo à carreira de professor." Lembrando que Marina era sua assistente há nove anos e que seus planos no exterior, apoiados pelo Ministro da Educação, o reitor da Universidade e o diretor da Faculdade, dependiam de uma continuidade do programa por ele iniciado, Arthur Ramos conclui afirmando que Heloisa "não é membro do corpo docente da Universidade, não sendo livre-docente." "V.S. é diretor técnico-administrativo de um Museu, que requer de sua capacidade as suas melhores energias, o seu maior devotamento e até, por lei, o seu tempo integral." Ao tentar desqualificar sua pretensão de assumir uma cadeira como docente, além de reforçar a distinção entre a Faculdade e o Museu, Arthur Ramos parecia também ver em Heloisa uma representante do que considerava a velha antropologia, ou "ciência de museu".40
Arthur Ramos morreu em Paris ¾ como seu mestre Nina Rodrigues, tornando mais lúgubre essa disputa prévia de sua cátedra ¾ sem saber o desfecho da história41 que o preocupou até o final da vida, como mostra Azeredo e, embora sua assistente tenha, afinal, se tornado sua substituta como ele queria, os interesses que Heloisa representava foram, a longo prazo, vitoriosos no campo da antropologia: a pesquisa de campo é o modo de acesso privilegiado à profissão, a etnologia teve um papel muito mais central do que a "etnografia do negro" na constituição da disciplina em moldes contemporâneos e, ao contrário de Arthur Ramos, Heloisa teve êxito na formação profissional de pelo menos um dos vários jovens que estimulou a seguir a carreira de antropólogo.
Enquanto a questão não se decidia, Heloisa parece ter hesitado sobre o trabalho a apresentar para o concurso à cátedra de Ramos: entre seus papéis no Museu Nacional há parte de um trabalho datilografado, já com página de rosto, onde se lê: "Tese apresentada para concurso à cátedra de antropologia e etnografia da Faculdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, 1950".
O trabalho tem por título Observações antropométricas e é uma retomada dos dados de uma pesquisa feita em 1922, no contexto de uma pesquisa mais ampla de Roquette-Pinto sobre a população brasileira. Das 700 fichas antropométricas dessa pesquisa, Heloisa se propunha a analisar 184, todas de mulheres entre 19 e 24 anos, "domésticas, empregadas de escritórios, de lojas, oficinas ou fábricas do Rio de Janeiro"42. Na introdução, Heloisa mostra um interesse que infelizmente não desenvolveu em nenhum trabalho, mas que aparece em quase todos os seus textos. Diz ela: "O número de observações pode parecer pequeno; mas quando se atenta para a escassez de informações existentes sobre antropometria de mulheres no Brasil, ele avulta e assume proporções que o torna merecedor de maior interesse. A pobreza de conhecimento sobre o assunto reveste de maior relevo a documentação em causa."43 Queixando-se da "tarefa árdua" que foi entrevistar aquelas moças, já que elas "furtavam-se a observações sob alegações de uma série intérmina de preconceitos, ora de origem supersticiosa, ora de pretensa ordem moral", Heloisa tentava, quase trinta anos depois da realização da pesquisa, recuperar os objetivos da proposta de Roquette-Pinto: "verificar o grau de expressão de cada traço racial em uma população heterogênea racialmente falando". Apesar de toda uma discussão metodológica sobre a qualidade dos dados, das fichas e gráficos que acompanham o texto, ele foi deixado inacabado, talvez porque, ao contrário de Roquette-Pinto, Heloisa não tenha mais conseguido encontrar uma "lógica racial" nesses dados. Como ela diz, à certa altura, "a média da idade púbere pouco difere no grupo negróide e caucasóide". Já havia uma incompatibilidade entre a ciência aprendida por ela na juventude e os novos ares da antropologia ¾ como ela mesma dissera ao defender sua escolha do que apresentar na exposição em Lisboa. A sua definição do grupo com o qual trabalhara já é inteiramente distinta das definições de Roquette-Pinto: ela define as moças entrevistadas como "um grupo homogêneo pela sua autonomia financeira."44
Talvez por isso Heloisa tenha se decidido a elaborar outra tese para o concurso, esta acabada, impressa de acordo com o regulamento e também trazendo na capa a inscrição: Tese apresentada ao concurso para provimento da cadeira de Antropologia e Etnografia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, 1950. Intitulada Alguns aspectos da indumentária da crioula baiana, sua apresentação é mais incisiva, já nas primeiras palavras da introdução:
"O presente trabalho abrange parte de um tema de pesquisa que, há alguns anos, prende nossa atenção. Numa sociedade como a nossa, formada por colonização, algumas dezenas de anos de independência política não chegaram a apagar a orientação econômico-social que proporcionou ao regime patriarcal sua mais ampla e pacífica expansão. Nesse regime, a mulher nasceu, cresceu e ¾ com exclusão da professora ¾ passou a vida limitada a um mundo tão alheio aos interesses da cultura, da inteligência e do espírito, como estranho ao campo da atividade social direta."
Depois de citar alguns "tipos culturais femininos", como a fazendeira, a comerciante, a rendeira, Heloisa diz que a crioula baiana "pela prática de várias e complexas atividades e pelo exercício de funções reconhecidas como masculinas pela sociedade, desenvolveu uma feição própria, original e definida."
A partir de suas entrevistas com 22 mulheres, entre 40 e 94 anos (cuja "solícita e leal atenção" ela elogia, o que parece opô-las às entrevistadas da outra pesquisa), Heloisa vai analisar os usos do pano da costa pelas baianas. Sua atenção, no entanto, se detém mais no detalhe técnico da tecelagem dos panos ¾ cor, textura, tipo de tear ou de fio utilizado ¾ ao fazer a análise; a apresentação do uso deles, no cotidiano, em festas ou cerimônias religiosas, fica por conta das belas fotografias anexadas ao trabalho45. É interessante que, embora hesitante sobre o trabalho a levar ao concurso, Heloisa tenha pensado em dois trabalhos que, pelo tema, estavam, ambos, na órbita do interesse de Arthur Ramos ¾ o do estudo do negro brasileiro, e não em algum tópico em que pudesse utilizar os estudos etnológicos patrocinados ou estimulados pelo Museu. E que, nos dois casos, tenha pensado ¾ no que seria a formulação contemporânea do problema ¾ na relação entre raça e gênero.
Neste trabalho, de certo modo, Heloisa retomava um interesse de pesquisa que já aparecia em seu primeiro trabalho, sobre a cerâmica de Marajó, no qual dizia: "A técnica é educativa". Mas seu interesse pela parte técnica da cerâmica, também lá não a impediu de interessar-se pelas mulheres. As observações vêm bem ao final do trabalho:
"No curso de trabalhos da natureza dos que venho fazendo atravessam-se momentos de intensa emoção.
Sempre havia sido para mim motivo de orgulho considerar que, na região da América em que só mulheres são oleiras, tinha-se desenvolvido na cerâmica a arte mais rica, sóbria e vigorosa.
Objetavam-me alguns senhores ¾ que, sim, seriam mulheres as oleiras mas que tratando-se de arte aplicada a fins religiosos, no momento da decoração certamente passaria a tarefa ao sacerdote. Certo. Nada a replicar.
O encontro em cronistas de descrição do fabrico da cerâmica e da sua ornamentação exclusivamente feita por mulheres no litoral sul do Brasil, veio despertar em mim novas esperanças de que a mulher, também em Marajó, tivesse sido a executora dos ornatos. Mas agora, em face de tudo o que acabamos de passar em revista, forçoso é reconhecer que a arte se desenvolveu nas mãos do homem a quem competem, em geral, os trabalhos de trançados.
Se, na realidade, tal se deu, não se pode atribuir ao homem a responsabilidade completa da arte que criou; ele sofreu, por assim dizer, um certo constrangimento imposto pela matéria prima que concorreu para imprimir mais seguramente a sua expressão artística. Não foi completamente por culpa própria que atingiu a tamanho resultado.
Por sua vez a mulher, quando lhe coube passar a seu campo de atividade a arte desenvolvida que o homem criara, mostrou-se à altura do companheiro e, mais previdente do que ele, soube imprimir em matéria durável a perpetuação duma cultura forte."46
Não sabemos quem seriam aqueles senhores mas, das oleiras às "crioulas baianas", passando pela pesquisa não publicada sobre as jovens trabalhadoras urbanas, vemos um tímido mas persistente interesse que, infelizmente, Heloisa não desenvolveu. Provavelmente também nunca saberemos quem seria a "talentosa jovem" que ela pretendia iniciar na pesquisa de campo na década de cinqüenta, em sua última pesquisa que, se não rendeu nenhum trabalho escrito, deu origem a um filme internacionalmente premiado47.
É pouco provável que Heloisa fosse considerada uma feminista pelas suas contemporâneas que o eram ¾ e há evidência em seu arquivo de pelo menos uma desavença entre elas e a diretora do Museu48. Mas a imprensa inicialmente a considerou parte do movimento feminista e a apresentou, nos anos 20, como tal, em matérias com títulos do tipo "Uma victoria do feminismo" ou "Lugar à cultura e à intelligencia da Mulher!", todas elas ilustradas com uma foto em que Heloisa parece uma atriz do cinema mudo, com grandes olheiras. Todas as matérias, no entanto, aludiam a seu famoso pai. Um pouco mais adiante, nos anos 30, ela aparece no contexto da propaganda pela paz, como membro do Comitê de propaganda e luta contra a guerra, entre nomes como os de Nise da Silveira, Eugênia Álvaro Moreira, Maria Lacerda de Moura, Itália Fausta e, desde aí, sempre no contexto de reportagens sobre "mulheres ilustres". Aos poucos o nome de seu pai deixa de ser mencionado e ela será um dos nomes sugeridos, para o Ministério de Educação, num projeto de governo "feminista" do jornalista Mozart Lobo, cujos ministérios seriam todos ocupados por mulheres (Berta Lutz, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Carmen Portinho, Carlota Pereira de Queiroz eram outras) e por Carlos Drummond de Andrade na crônica "Oitenta mulheres na Academia", onde ridiculariza a proibição da entrada de mulheres na Academia Brasileira de Letras, e apresenta os nomes de mulheres que lhe parecem merecer tal honra; será entrevistada, com Rachel de Queiroz e Lucia Benedetti, a propósito de uma pesquisa que teria demonstrado ser a mulher o "sexo forte"; entrevistada por Eneida sobre sua carreira, e freqüentemente citada por Drummond em suas crônicas ¾ até se transformar em exemplo na coluna "Mulheres de ontem e de hoje", aos sessenta anos49. De senhorinha, passando a senhorita, ou mademoiselle, como a chamava Dina Lévi-Strauss nas duas cartas que lhe escreveu, a dona (doña, como grifava Métraux), Heloisa Alberto Torres foi uma presença constante no noticiário carioca dos anos 20 aos anos 50 e terá sido um modelo importante para muitas jovens nesse período em que as mulheres começavam a freqüentar a universidade em nosso país. No âmbito da sua disciplina, nenhum antropólogo brasileiro de sua geração se empenhou tanto em assentar os alicerces da pesquisa de campo entre nós. Seu empenho não foi em vão: quando Roberto Cardoso de Oliveira retomou as expedições de campo com jovens candidatos a antropólogos na década de 60, no mesmo Museu Nacional, e estabeleceu uma parceria com outro jovem antropólogo que vinha dos Estados Unidos, David Maybury -Lewis, iniciativas que dariam origem ao Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, retomava também uma tradição da casa.
Notas
Bibliografia
ABSTRACT: Heloisa Alberto Torres (1895-1977) is widely recognized in corridor talk as an important persona in the tradition of the history of our discipline but hardly mentioned in our academic work. Did she really contributed to the building up of Anthropology in Brazil? In an attempt to answer this question, I hope also to persuade young investigators to do research in the few archives we have left and to pursuit many other personae we usually do not take as part of our history.
KEY WORDS: Brazilian anthropology, history of anthropology, genre, Museu Nacional.
Aceito para publicação em novembro de 1996.
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