Open-access O caso Naoki: uma perspectiva entre a pulsão de apoderamento e a teoria do apego

The Naoki case: a perspective between the drive for mastery and Attachment Theory

Le cas Naoki: une perspective entre la pulsion d’emprise et la théorie de l’attachement

El caso Naoki: una perspectiva entre la pulsión de apoderamiento y la teoría del apego

Resumo:

Este artigo discute a “pulsão de apoderamento” (Bemächtigungstrieb), utilizada por Freud, e analisa suas semelhanças e diferenças em relação à Teoria do Apego, de Bowlby. A demonstração é feita no caso de uma criança autista, Naoki Higashida, em seu livro autobiográfico O que me faz pular. Primeiramente, aproximamos o apego à expressão do apoderamento; em seguida, examinamos a distinção dessa pulsão, e, por último, expomos os aspectos dessa força pulsional numa condição psicopatológica. Assim, destacaremos o aparelho de apoderamento no autismo sob o signo da estereotipia, cuja função é estabelecer a ordem psíquica. Este é operado essencialmente na voz, seu objeto de apropriação/rejeição. No caso de Naoki, isso se manifesta na formulação “nós olhamos a voz”. Por fim, sublinharemos o traço patogênico do apoderar-se, bem como a invenção feita pela criança no trânsito do “se fazer para si” ao “se fazer para o outro” no laço social.

Palavras-chave:
apoderamento; apego; autismo; psicanálise; pulsão

Abstract:

This article discusses the “drive for mastery” (Bemächtigungstrieb) as used by Freud, analyzing its similarities and differences with Bowlby’s Attachment Theory. The demonstration is based on the case of an autistic child, Naoki Higashida, using his autobiographical book The Reason I Jump. First, we draw a parallel between attachment and the expression of mastery; next, we examine the distinction of this drive; and finally, we highlight the aspects of this drive force in a psychopathological condition. In this development, we emphasize the presence of the apparatus of mastery in autism, marked by stereotypy, whose function is to establish psychic order. This apparatus operates primarily through the voice, its object of appropriation/rejection. In Naoki’s case, this is expressed in the formulation “we look at the voice.” Lastly, we underline the pathogenic aspect of mastery, as well as the child’s invention in the transition from “being for oneself” to “being for the other” in the social bond.

Keywords:
attachment; autism; drive; mastery; psychoanalysis; pulsion.

Résumé:

Cet article discute la notion de « pulsion d’emprise » (Bemächtigungstrieb), utilisée pour Freud, en analysant ses similitudes et différences par rapport à la Théorie de l’attachement de Bowlby. La démonstration est effectuée à partir du cas d’un enfant autiste, Naoki Higashida, à travers son livre autobiographiqueSais-tu pourquoi je saute ?. Tout d’abord, nous rapprochons l’attachement de l’expression de l’emprise ; ensuite, nous examinons la distinction de cette pulsion ; enfin, nous exposons les aspects de cette force pulsionnelle dans une condition psychopathologique. Dans ce développement, nous mettons en évidence de l’appareil d’emprise dans l’autisme sous le signe de la stéréotypie, dont la fonction est d’établir l’ordre psychique. Cet appareil fonctionne essentiellement à travers la voix, objet d’appropriation/rejet. Dans le cas de Naoki, cela se manifeste par la formulation « nous regardons la voix ». Enfin, nous soulignons le trait pathogène de l’emprise, ainsi que l’invention faite par l’enfant dans le passage de « se faire pour soi » à « se faire pour l’autre » dans le lien social.

Mots-clés:
attachement; autisme; emprise; psychanalyse; pulsion.

Resumen:

Este artículo discute la “pulsión de apoderamiento” (Bemächtigungstrieb) utilizada por Freud y analiza sus similitudes y diferencias en relación con la teoría del apego, de Bowlby. La demostración se realiza a partir del caso de un niño autista, Naoki Higashida, mediante su libro autobiográficoLa razón por la que salto. Primero, aproximamos el apego a la expresión del apoderamiento; luego, examinamos la distinción de esta pulsión; y, por último, exponemos los aspectos de esta fuerza pulsional en una condición psicopatológica. Así, destacamos del aparato de apoderamiento en el autismo bajo el signo de la estereotipia, cuya función es establecer el orden psíquico. Este aparato opera esencialmente en la voz, su objeto de apropiación/rechazo. En el caso de Naoki, esto se manifiesta en la formulación “nosotros miramos la voz”. Finalmente, subrayamos el rasgo patogénico del apoderarse, así como la invención hecha por el niño en el tránsito de “hacerse para sí mismo” a “hacerse para el otro” en el lazo social.

Palabras clave:
apoderamiento; apego; autismo; psicoanálisis; pulsión.

Introdução

Este artigo retoma a discussão em torno da pulsão de apoderamento (Bemächtigungstrieb), buscando articulá-la criticamente à Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby na década de 1960. A proposta se estrutura em dois eixos principais: de um lado, examinam-se as convergências entre os dois modelos, considerando a hipótese de que o apego pode ser compreendido como uma modalidade de apoderamento; de outro, destaca-se a distinção fundamental entre ambos, especialmente no que tange à dinâmica da pulsão.

Como ilustração teórico-clínica, recorre-se ao relato autobiográfico de Naoki Higashida, jovem autista autor da obra Jiheishō no boku ga tobihaneru riyū (2007), publicada no Brasil sob o título O que me faz pular (2014).

Ressalte-se que a pulsão, aqui evocada, refere-se ao Trieb freudiano - termo que, historicamente, oscilou entre as traduções de instinto e pulsão. Optamos pela nomenclatura pulsão, sem, contudo, ingressar no debate epistemológico sobre tal binarismo tradutório, que excede os limites desta contribuição.

Do ponto de vista teórico, o artigo delimita o campo conceitual da pulsão de apoderamento em Freud (1905/2016; 1920/2020), a fim de esclarecer os fundamentos que a distinguem da Teoria do Apego. A análise proposta se desenvolve inicialmente tratando os pontos teóricos, primeiro sobre o apego e depois o apoderamento, para depois serem apontados no relato Naoki Higashida.

O debate busca discutir a diferenciação entre os conceitos, com base na formulação freudiana da pulsão de apoderamento, a qual desenvolvemos em três tempos fundamentais: “fazer pegar”, “fazer-se pegado” e “fazer-se pegar” - estrutura que permitirá delimitar a especificidade de seu funcionamento no campo psicopatológico.

Com vistas a sustentar a análise, torna-se necessário delimitar conceitualmente os termos centrais do estudo. Segundo Bowlby (1969, p. 78), o apego é definido como um vínculo cujo objetivo é “manter a proximidade da pessoa de referência”. Já a pulsão de apoderamento, conforme a formulação original de Freud (1905/2016; 1920/2020), é caracterizada como uma pulsão não sexual, uma espécie de potência atuante na organização pré-genital da vida psíquica, e como um “impulso para apoderar-se” (Freud, 1905/2016, p. 124; 1920/2020, p. 186).

Cabe destacar, ainda, a contribuição pioneira de Grunberger (1959), que verteu o termo para o francês como pulsion d’emprise, compreendendo-o como o ímpeto voltado à apropriação do objeto. Nessa linha, Gillibert (1982) a qualifica como a “pulsão das pulsões”, devido à sua precedência ontológica; paralelamente, Dorey (1986) a define como o vetor essencial para a instauração de relações de poder. Em contrapartida, Sédat (2009) propõe uma leitura distinta: para ele, o movimento não visa ao controle ou à destruição, mas à superação de estados de desprazer. Por fim, White (2010) retoma a dimensão da conquista, caracterizando-a como um impulso intrínseco à busca pelo poder.

Do apego ao apoderamento: aproximações e semelhanças

A Teoria do Apego (TA), sistematizada por John Bowlby a partir da década de 1960, emerge de um diálogo crítico com a psicanálise, visando revisar e expandir pressupostos clássicos mediante evidências empíricas sobre os vínculos precoces. Em sua trilogia fundamental, Bowlby reitera que seu projeto não visava à ruptura, mas à reconstrução teórica da psicanálise sob bases científicas interdisciplinares - integrando o estudo sistemático do comportamento e dos sistemas motivacionais. Assim, o apego consolida-se na intersecção entre a tradição psicanalítica e as ciências do desenvolvimento.

Segundo Bowlby (1969, 1973, 1980, 1988), o vínculo de apego constitui uma estratégia adaptativa central do Homo sapiens, sendo considerado tão fundamental quanto a necessidade de subsistência (Bowlby, 1980). A Teoria do Apego consolidou-se por meio da observação das interações entre a criança e suas figuras de cuidado, com ênfase nos estudos de Bowlby e Robertson (1952) e Ainsworth e Bowlby (1991). A partir do refinamento metodológico da “Situação Estranha” (Ainsworth & Wittig, 1969), a construção teórica ganhou solidez ao classificar as respostas infantis em três padrões clássicos: o apego seguro, o apego inseguro-ansioso (ou ambivalente) e o apego inseguro-evitativo.

A validação empírica teve como uma das principais fontes a “Situação estranha”, um experimento realizado em ambiente controlado e com contingências específicas. Crianças entre 12 e 18 meses eram separadas temporariamente de suas mães e, em seguida, expostas à presença de pessoas desconhecidas. Posteriormente, observava-se o reencontro da criança com a mãe, momento no qual eram analisadas suas reações afetivas e comportamentais. A experiência referia-se ao seguinte processo:

inicialmente, o bebê permanece com a mãe; b) em seguida, a pessoa não familiar ingressa no ambiente; posteriormente, a mãe se retira e o bebê permanece com o estranho; a mãe retorna ao local e a pessoa não familiar sai do ambiente; dando sequência ao experimento, a mãe se retira e o bebê permanece sozinho; f) posteriormente, o estranho retorna; g) por fim, a mãe volta ao local e a pessoa não familiar se retira do ambiente. (Ainsworth & Wittig, 1969, p. 115)

Com base nestes registros, os autores estabeleceram condições mínimas para que o apego acontecesse: seriam habilidades afetivas e repertórios de comportamentos de apego por parte do cuidador/mãe, como sorrir, manter a frequência do toque, insistir na aproximação corporal. Assim, para Bowlby (1969, 1973) e Ainsworth e Bowlby (1991) o apego passa a ser concebido com um mecanismo básico e necessário aos seres humanos, produzido em um sistema de controle homeostático.

Na formulação do apego seguro, aquele que se estabelece nos primórdios da vida psíquica, Ainsworth e Bowlby (1991), defendem que é imprescindível a presença de um cuidador que ofereça ao bebê uma base segura, estável e responsiva, a partir da qual ele possa explorar o ambiente, tocar, agarrar e interagir com o mundo. Tal configuração possibilita o fortalecimento da ligação afetiva e a constituição de um vínculo sólido. Neste contexto, destaca-se o papel da sonoridade, em especial da voz, como um sinal relacional que media o campo entre o bebê e o ambiente.

A voz, portanto, emerge como elemento privilegiado na articulação entre apego e apoderamento, conceitos aqui considerados em suas zonas de interseção. O choro, o gemido e as vocalizações espontâneas emitidas pelo bebê são exemplos paradigmáticos dessa mediação sonora: constituem manifestações que sustentam tanto o vínculo quanto a possibilidade de apropriação simbólica do outro e do mundo. Desse modo, a vocalização inicial se apresenta como o suporte expressivo de um apoderamento inaugural, ainda não diferenciado do gesto de apegar-se.

Sob outra perspectiva, Anzieu (1989) valida o apego como campo de interesse psicanalítico por conter manifestações pulsionais observáveis. Ao dialogar com Bowlby, aproxima o impulso de apego à pulsão de agarramento de Hermann, tratando ambos como operadores legítimos na investigação da constituição subjetiva primária. Vinculando o apego às pulsões de vida, Anzieu (1989) ainda destaca sua independência da oralidade - como uma pulsão primária não sexual - sustentada por cinco condutas basais no vínculo mãe-bebê: sucção, abraço, choro, riso e acompanhamento.

As relações entre o apego e a dinâmica pulsional continuam a provocar debates relevantes no campo psicanalítico contemporâneo. Estudos como os de Geyskens (2008) e Robin (2020) propõem uma releitura da função do apego com base na perspectiva de Hermann, que cunhou o conceito de pulsion d’agrippement (“pulsão de agarrar”). Embora esse conceito tenha pontos de contato com a pulsion d’emprise (“pulsão de apoderamento”), é importante destacar, como faz este estudo, que há distinções teóricas relevantes entre eles. Enquanto a pulsão de agarrar remete à manutenção do vínculo e da segurança, a pulsão de apoderamento - tal como proposta por Freud - diz respeito a um movimento organizador de apropriação subjetiva do mundo e do outro.

Depreende-se que o apego configura-se como uma atividade originária do psiquismo, tese que ressoa - sob prismas distintos - tanto na metapsicologia freudiana quanto na teoria de Bowlby. Embora divirjam metodologicamente, ambos convergem ao reconhecer o papel fundante da ligação afetiva, oferecendo subsídios essenciais para a compreensão dos mecanismos constitutivos primordiais.

Uma releitura da pulsão de apoderamento: a distinção em relação ao apego

Dando continuidade à análise, propõe-se um reposicionamento conceitual da pulsão de apoderamento, compreendendo-a como uma força não sexual que opera na organização psíquica da vida pré-genital. Tal acepção ancora-se tanto nas contribuições da tradição francesa, já mencionada, quanto nas teorizações de Trevisan e Vivès (2024) e Trevisan, Vivès e Maesso (2025). Esses autores sustentam que a referida pulsão exerce uma função primordialmente criadora e estruturante, constituindo-se como um dos eixos fundamentais para a constituição da subjetividade.

Essa formulação tem como origem os apontamentos presentes nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Freud, 1905/2016), e é posteriormente expandida em “Além do princípio de prazer” (Freud, 1920/2020), especialmente na célebre análise do jogo do Fort-Da.

Nesse contexto, Freud observa o jogo do carretel protagonizado por seu neto como uma forma de elaboração psíquica da ausência e do retorno da mãe. O gesto repetitivo de lançar e puxar o objeto simboliza o controle sobre a partida da figura materna. Nessa cena, Freud atribui especificamente o trabalho da pulsão de apoderamento: “Esse esforço poderia ser atribuído à pulsão de apoderamento (Bemächtigungstrieb), que ocorre independentemente de a lembrança em si ser prazerosa ou não” (Freud, 1920/2020, p. 128).

A partir daí, Freud argumenta que o jogo infantil expressa dois movimentos psíquicos centrais: por um lado, uma conquista cultural, e, por outro, uma renúncia pulsional, ambos mediados por uma função simbólica. Ao encenar o desaparecimento e a reaparição do objeto - “encenação com os objetos que estavam ao seu alcance” (Freud, 1920/2020, p. 129) - o menino não apenas representa a perda, mas opera ativamente sobre o vínculo, indicando a presença de um trabalho subjetivo de apropriação, perda e restauração.

A interseção entre as formulações de Freud (1915/2014; 1920/2020) e Bowlby (1969; 1988) reside na força motriz de agarrar, tomar, manipular e restituir o objeto. Seja na análise do Fort-Da ou nas observações da “Situação Estranha” (Ainsworth & Wittig, 1969), o foco incide sobre a capacidade do sujeito de manejar o laço afetivo. Mais do que um padrão de comportamento, o que está em jogo é o funcionamento de um aparato psíquico primordial voltado à organização da ausência e à sustentação da relação objetal.

Torna-se essencial estabelecer esta distinção metapsicológica: enquanto o apego se caracteriza como um sistema adaptativo voltado à regulação afetiva, a pulsão de apoderamento define-se como um ímpeto pulsional estruturante. De natureza não sexual - e, portanto, não erógena -, tal pulsão atua na constituição do sujeito como condição primordial para o manejo da realidade experienciada (Freud, 1905/2016; Trevisan & Vivès, 2024). Em suma, enquanto o apego visa atender à necessidade de segurança, o apoderamento responde à exigência de organização do campo perceptual e representativo.

A importância dessa diferenciação, especialmente no que tange à independência da pulsão de apoderamento diante do campo erógeno, foi registrada pelo próprio Freud (1915/2020), ao afirmar:

A pulsão de amor dirigida aos objetos requer um complemento da pulsão de apoderamento, se alguma vez ela quiser se apropriar de seu objeto. A dificuldade de isolar as duas pulsões em suas manifestações é o que, por tanto tempo, impediu de reconhecê-las. (Freud, 1915/2020, p. 435)

Expressões como “se ela quiser se apropriar” e a mencionada “dificuldade de isolar” as manifestações pulsionais revelam o embaraço estrutural em reconhecer a autonomia da pulsão de apoderamento. Nossa hipótese é que a Teoria do Apego, conforme proposta por Bowlby (1969, 1980), surge como uma resposta parcial ao impasse freudiano, ao oferecer um modelo observável e sistemático de apreensão do objeto - ainda que operando em um registro distinto da metapsicologia freudiana.

Essa leitura sustenta que o apego pode expressar, de forma isolada, aspectos específicos da pulsão de apoderamento, especialmente em configurações clínicas em que o impulso para domar e o vínculo com o objeto encontram-se tensionados.

Por sua vez, Bowlby (1973; 1988) também identifica a fragilidade corporal como o fundamento da busca pelo outro - ou seja, como o vetor biológico do vínculo. Embora ambos os autores abordem o corpo como instância fundante, seus modelos divergem: em Freud, trata-se de uma dinâmica pulsional que opera na fronteira entre o somático e o psíquico, precedendo a diferenciação entre Eu e Outro; em Bowlby, a constituição do vínculo é tributária da presença real do objeto e das condições ambientais.

Ilustração clínica: o caso Naoki

A ilustração clínica baseia-se na obra autobiográfica de Naoki Higashida, jovem japonês nascido em 1992 e diagnosticado com autismo não verbal aos seis anos. Com o auxílio de sua mãe e de sua professora, Naoki desenvolveu um método de comunicação por meio de uma prancha de alfabetização (um teclado de papelão), o que lhe permitiu traduzir sua vivência subjetiva em palavras. A obra O que me faz pular (Higashida, 2014) oferece um material clínico fecundo para a articulação entre pulsão de apoderamento, apego e o funcionamento autista.

Inicialmente, a análise explora a incidência da voz e da linguagem, observando a expressão da pulsão de apoderamento em sua relação com o mundo. A vocalização - gemidos, murmúrios, ruídos repetitivos - revela-se como o objeto privilegiado tanto da apropriação quanto da rejeição. É pela via da voz que o sujeito autista busca organizar seu mundo interno e estabelecer uma lógica de presença.

O segundo bloco enfoca o corpo como aparelho de apoderamento (Bemächtigungsapparat). Com base na lógica de Freud (1915/2014), propomos a leitura dos três tempos da pulsão de apoderamento no autismo:

  1. Fazer pegar - ato inaugural sobre o mundo/objeto externo;

  2. Fazer-se pegado - o uso do próprio corpo tomado como objeto;

  3. Fazer-se pegar - o corpo posto em condição de objeto para o outro.

No caso de Naoki, observa-se a predominância dos dois primeiros tempos e uma fragilidade no terceiro, que é fundamental para o trânsito ao laço social. Essa disfunção evidencia-se na dificuldade do sujeito em se oferecer ao olhar ou à escuta do outro, ainda que disponha de recursos simbólicos complexos para nomear sua experiência. Com base nesse estudo, torna-se possível afirmar que, no autismo, o apego manifesta-se em sua vertente patológica - o que Higashida (2014, p. 78) descreve como “aquilo que não funciona direito”. Contudo, o esforço de Naoki em inventar uma via de mediação demonstra uma solução singular, na tentativa de transitar do “fazer-se para si” ao “fazer-se para o Outro”.

A voz objeto (a)pegado e a ausência do apoderar-se

Nosso exame fundamenta-se na proposição singular de Naoki Higashida: a ideia de que, segundo ele, os autistas precisam “olhar a voz”. A partir dessa afirmação, formulamos a lógica do olhar a voz como uma estratégia de apreensão subjetiva. Essa formulação, ainda que expressa em linguagem não teórica, revela-se extremamente fecunda para a psicanálise ao ilustrar variações da pulsão de apoderamento - especificamente em seu primeiro tempo, o fazer pegar.

A voz demonstra o apoderamento porque, no início da vida, o som emitido por quem exerce a função de cuidado não é apenas um estímulo auditivo, mas um objeto primordial que o infans tenta “capturar” e organizar. A reação do bebê em responder à voz ou em se deixar guiar por ela revela uma decisão psíquica de apropriação desse objeto sonoro. Ao “pegar” a voz do outro, a criança inaugura sua capacidade de intervir na realidade, ela se apodera deste objeto para balizar de sua própria presença no mundo.

Conforme apontam Vivès e Orrado (2021), a voz pode ser compreendida como um objeto intermediário que permite à criança mediar sua relação com o outro, prescindindo de uma relação direta ou especular - frequentemente invasiva no autismo. Em outras palavras, o que está em jogo é a lógica do olhar a voz, que promove uma articulação necessária entre a sensorialidade bruta e a atividade pulsional.

A voz no autismo pode ser considerada o primum movens do apoderamento. Sob a perspectiva de Lacan (1964/2008), que situa a voz na intersecção entre o sadismo e o masoquismo - oscilando entre as posições ativa e passiva -, afirma-se que: “há alguma coisa na voz que se especifica mais topologicamente, uma vez que em parte alguma o sujeito fica mais interessado no Outro do que através desse objeto a” (p. 250). É imprescindível assinalar que esse empréstimo teórico tem um uso delimitado: a extração do conceito de voz em Lacan justifica-se por sua caracterização como objeto pulsional fundamental, o que corrobora a compreensão da autonomia da pulsão de apoderamento e suas variações no manejo do mundo.

Embora o arcabouço lacaniano não seja o eixo central deste estudo, sua contribuição é pontual e precisa: a voz, como objeto pulsional autônomo, desempenha um papel crucial no funcionamento psíquico originário. Ela torna-se, assim, um operador clínico de relevância para pensar os deslocamentos e impasses da pulsão de apoderamento no autismo.

Ainda no que diz respeito à voz, Lacan (1964/2008), Laurent (2014), Maleval (2017) e Vivès e Orrado (2021, 2023) ratificam seu valor de objeto primordial, desdobrando suas manifestações na pulsão invocante, operação pela qual o sujeito autista pode construir sua mediação com o mundo. Embora a articulação exaustiva entre as elaborações da escola francesa e a Teoria do Apego (TA) de Bowlby escape ao escopo deste trabalho, a delimitação do emprego da voz aqui estabelecida permite-nos retomar a análise do caso Naoki sob uma nova luz.

Retomando o caso clínico de Naoki, observamos que sua obra autobiográfica é composta de 58 perguntas e respostas, das quais pelo menos 15 tocam diretamente na questão da voz. Tais relatos oferecem um material de densidade ímpar para analisar os efeitos da pulsão de apoderamento - especificamente em sua vertente de fixação ao objeto, que tende a comprometer a plasticidade do laço social e o trânsito no campo do Outro. Uma dessas perguntas - “Por que você não faz contato visual quando está falando?” - é especialmente reveladora. Naoki responde:

Na verdade, olhamos para a voz da outra pessoa. As vozes não são coisas visíveis, mas tentamos ouvir a outra pessoa com todos os nossos órgãos do sentido. Quando estamos completamente concentrados em entender o que você fala, nosso sentido da visão sai um pouco do ar. Se alguém não consegue discernir o que vê, é o mesmo que não ver nada. (Higashida, 2014, p. 54)

A formulação apresentada por Naoki permite entrever uma organização sensório-pulsional de notável complexidade, a qual se afasta significativamente dos padrões intersubjetivos neurotípicos. A voz, nesse contexto, se configura como um objeto de captura e apropriação - instrumento fundamental para o manejo do excesso sensorial e para a mediação com o real.

Trata-se, portanto, de uma operação compreendida à luz da formação do aparelho de apoderamento (Bemächtigungsapparat), que é o muscular, tal como delineada por Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905/2016) e aprofundada em “Além do princípio do prazer” (1920/2020). A hipótese que aqui sustentamos é que o processo de “olhar a voz” representa uma realização pulsional que se ancora no primeiro tempo da pulsão de apoderamento - o fazer pegar -, evidenciando um esforço ativo de apropriação do objeto para conferir contorno ao que, de outro modo, permaneceria como puro caos sensorial.

Tal apropriação da voz como objeto pulsional encontra novo respaldo em outra passagem significativa do livro, na qual Naoki responde à pergunta: Por que as pessoas com autismo falam tão alto e de forma estranha?” (Higashida, 2014, p. 29). Sua resposta evidencia uma função da voz: ela atua modulando os excessos da experiência sensorial e oferecendo um ponto de apoio ao corpo.

Por meio desse relato, postula-se que, no autismo, a voz prescinde da primazia do código linguístico ou da pragmática comunicacional para assumir uma função originária: a de objeto de ancoragem e organização pulsional. Sob a ótica metapsicológica, a voz circunscreve a operação da pulsão de apoderamento, funcionando como um suporte ao qual o sujeito recorre para, via captura ou emissão, agenciar uma espécie de equilíbrio. Observemos a fala de Naoki:

Quando uso minha voz estranha, não é algo que faço de propósito. Com certeza existem momentos em que acho o som da minha voz reconfortante . . . . Mas a voz que não consigo controlar é diferente. Ela escapa de mim sem querer, é como se fosse um reflexo. (Higashida, 2014, p. 29)

A relação entre pulsão e voz, evidenciada no caso de Naoki, não constitui uma particularidade isolada, mas revela um modo estruturante de inscrição subjetiva no autismo. Para corroborar essa perspectiva, destaca-se um fragmento da experiência clínica relatada por Vivès e Orrado (2023) em sua intervenção com Thomas, um menino de 9 anos:

Decidimos, assim, produzir sons sem endereçá-los a ele, sem solicitá-lo. É somente a partir desse momento que, pouco a pouco, ele presta atenção ao que fazemos, voltando-se a nós, lançando olhares furtivos em nossa direção e solicitando que repetíssemos os sons de novo. Aqui, Thomas começa a entrar em relação com o instrumento, utilizando-nos como mediador. Ainda que se recuse a pegar o instrumento, ele agora se levanta para mudar de lugar, deambulando e se balançando ao ritmo de nossas improvisações. (Vivès & Orrado, 2023, p. 3)

Note-se que, à semelhança de Naoki, Thomas não toma o outro enquanto alteridade subjetiva, mas captura o objeto som. Ao repeti-lo de modo iterativo - isto é, em uma repetição de igualdade contínua e sem variação simbólica -, o sujeito opera um restabelecimento do poder sobre o mundo e sobre o próprio corpo. Retornando ao relato de Naoki, ele é novamente interrogado sobre a natureza dessas estranhas repetições sonoras, ao que nos esclarece:

a grande exceção, porém, são aquelas palavras e frases que nos são familiares. Repeti-las é muito divertido. É como um jogo de bola. Ao contrário das palavras que nos mandam dizer, repetir perguntas que já conhecemos se torna um prazer - é como brincar com sons e ritmos. (Higashida, 2014, p. 30)

Considera-se que Naoki se inclina àquilo que pode reconhecer - ao familiar que lhe serve de fonte de prazer e segurança. O poder que Naoki exerce no polo ativo da pulsão revela a estratégia de construção de um lugar no mundo, onde a voz e o som figuram como seus objetos primordiais.

No intuito de expor as vias de satisfação da criança e, por conseguinte, as manifestações pulsionais, destaca-se um dado fundamental concernente ao regime corporal ensimesmado: o segundo tempo do apoderamento, o fazer-se pegado. Neste estágio, revela-se o funcionamento do corpo como sujeito e objeto simultaneamente - uma operação de retorno sobre si mesmo. Quando questionado sobre o prazer que encontra no ato de girar, Naoki responde:

Só de olhar alguma coisa rodopiar, nos enchemos de alegria profunda durante o tempo em que ficamos ali admirando aquele movimento perfeito e regular. É sempre igual, cada vez que fazemos isso. Coisas constantes nos confortam, e existe beleza nelas. (Higashida, 2014, p. 115)

Essa descrição revela a montagem do prazer na experiência autista, caracterizada pela busca da continuidade, do ritmo e da constância, elementos que sustentam uma ordem sem intervalos. Esse processo fica evidente na afirmação de Naoki de que “enfileirar as coisas é uma grande diversão, ver a água correr é muito legal” (Higashida, 2014, p. 115), demonstrando a ação do aparelho corpóreo no sentido de fazer o mundo servir a si mesmo, ou à sua própria interpretação da realidade.

A narrativa do garoto avança, aprofundando essa tendência à preservação da constância nas relações com os objetos e com o ambiente, evitando a imprevisibilidade. Tal condição permeia até mesmo atividades simples, como assistir televisão, em que Naoki prefere filmes com enredos previsíveis porque “é mais fácil saber o que vai acontecer em seguida. Isso nos permite ficar mais relaxados e envolvidos” (Higashida, 2014, p. 123).

Assim, o impulso da criança direciona-se para aquilo que conserva a continuidade do seu mundo e sua forma particular de lidar com a realidade. Higashida (2014) descreve o prazer vinculado à prática da conservação do conhecido, elucidando a função da estereotipia enquanto mecanismo regulatório. Cabe esclarecer que o conceito de estereotipia aqui adotado é aquele empregado por Vivès e Orrado (2021), para os quais ela representa:

uma forma de criar um objeto que anule o mundo. A pessoa autista opera aqui um duplo movimento: separar-se do mundo externo, vivido como incompreensível e fonte de angústia, e abrir-se para um mundo interno infinito. Assim, esse duplo movimento visa criar uma borda simultaneamente separadora e protetora. (p. 78)

Tais aspectos revelam com rigor a diferença do apego e do apoderamento, precisamente em sua forma segura. O argumento é dado por Higashida (2014), ao responder à questão: “O que causa seu descontrole e ataques de pânico?”. Ele diz: “Ataques de pânico podem ser deflagrados por várias causas, mas, mesmo que você crie um ambiente ideal, livre de todo o estresse que costuma afligir determinada pessoa, nós ainda teremos ataques de vez em quando” (p. 163).

A partir daí, sublinha-se que não se trata de condições ideais ou de estímulos corretos/normatizados, mas da oferta de outra ordem, da aposta, do convite ao jogo em parceria, em que dois vão continuar fazendo dois. Em complemento à meta do apoderamento, Higashida (2014) revela aquilo que lhe dá prazer: “a natureza, pois ela está sempre lá para nos envolver de forma gentil: brilhando, se agitando, borbulhando e farfalhando” (p 138). Segundo ele, “a natureza me acalma quando estou furioso, e ri comigo quando estou feliz” (p. 139). Numa poética própria, Naoki narra os efeitos do encontro da concretude material da realidade, em seu objeto contínuo: “ela está sempre lá, me acompanha” (p. 140).

Refinando nossa articulação, compreende-se que a ausência do terceiro tempo do apoderamento - o “fazer-se pegar” pela alteridade - impõe ao sujeito o uso da voz como ferramenta de fabricação do suporte necessário à sua posição no mundo. Por outro lado, a rigidez do apoderamento em seu estado patológico revela-se no sofrimento diante de qualquer interrupção. Para Naoki, a descontinuidade das atividades não é apenas um incômodo, mas uma pane vivenciada como “um choque” (Higashida, 2014, p. 130), evidenciando o curto-circuito psíquico que ocorre quando o domínio sobre o objeto é subtraído.

Nisto reside o efeito patológico refletido no corpo, a objetalização do som, da voz, o que pode ser encontrado no choro e na agressão de si. Sobretudo pelo fato de a voz ser um de seus recursos mais potentes para fazer limite à invasão do mundo sobre si, isto é, por seu poder de ser construída como uma estratégia para “se fazer pegar” pelo outro.

A condição patológica do apoderamento emerge, portanto, da ausência de apassivação. No autismo, a estereotipia surge como um dispositivo compensatório - um aparelho de apoderamento que visa garantir uma ordem interna diante do caos. Conforme Penot (2001), a apassivação é uma inscrição corporal que permite ao sujeito “deixar-se ser” para o outro. No autismo, contudo, o que se observa é a máxima do “fazer-se para si”, e não para o Outro. Dada a fragilidade no terceiro tempo da pulsão (o fazer-se pegar), o efeito resultante é o hiperinvestimento do primeiro tempo (o fazer pegar), que se traduz em um fazer estereotipado e rítmico. A incidência dessa lógica é nítida na resposta de Naoki à questão: “Por que você se incomoda tanto quando comete pequenos erros?” (Higashida, 2014, p. 72). A resposta é longa, mas merece a transcrição:

Quando percebo que fiz algo errado, minha mente trava. Eu choro, grito, faço um escândalo e não consigo mais pensar em nada com clareza. Não importa que o erro tenha sido pequeno; para mim é uma catástrofe, como se o céu e a terra tivessem trocado de lugar. Por exemplo, quando encho um copo com água. Não suporto derramar uma gota sequer . . ., controlar minhas emoções em tais situações é quase impossível para mim. Depois que erro, a consciência começa a crescer como se fosse tsunami. E aí, como as árvores e casas destruídas pela onda gigantesca, eu fico devastado pelo choque. Naquele momento me sinto engolido e não consigo distinguir a reação certa da errada. Tudo o que sei é que preciso escapar daquela situação o quanto antes para não me afogar. E faço o que puder para fugir, chorar, gritar, atirar coisas, até mesmo espernear e me bater. (Higashida, 2014, p. 73)

O extrato dessa confissão permite deduções precisas. Primeiramente, o erro é interpretado como uma descontinuidade catastrófica que produz desordem e caos; diante disso, o sujeito recorre à força muscular do próprio corpo como tentativa desesperada de restaurar a ordem (o segundo tempo, fazer-se pegado), o que frequentemente se manifesta como autoagressão ou crises de pânico. Em segundo lugar, emerge o temor de “ser engolido” - modo análogo ao descrito por Freud (1905/2016) ao referir-se ao “ser comido”. Esse ponto expõe a ausência do terceiro tempo do apoderamento, o “fazer-se pegar”, estágio no qual seria tecido o fundamento da apassivação. Na inexistência desse tempo, qualquer contato com a alteridade é experienciado como uma ameaça letal à integridade do eu.

Refinando esse raciocínio, compreende-se que, para o Outro ocupar um lugar que não seja pressentido como invasivo, faz-se necessária uma operação fundamental: o trânsito do “fazer pegar” e do “fazer-se pegado” ao “fazer-se pegar pelo outro”. É precisamente essa passagem ao terceiro tempo que se encontra comprometida no autismo. Em suma, o sujeito não consegue oferecer-se como objeto ao mundo, pois não dispõe dos recursos psíquicos para suportar a passividade constitutiva.

No autismo, por razões que a clínica ainda investiga, a ponte de acesso à apassivação não se efetivou. Como efeito, revela-se uma dificuldade estrutural na construção do laço social. Assim, resta ao sujeito a impossibilidade de “fazer-se para o outro”, restabelecendo seu precário equilíbrio por meio de um hiperinvestimento no primeiro tempo - o “fazer pegar” -, em que o apoderamento, tal como observado no apego, manifesta-se como uma tentativa incessante de domínio sobre a realidade.

Convém esclarecer que o aspecto apassivante reside no trabalho da pulsão de apoderamento operado sobre o próprio corpo para oferecê-lo ao Outro; trata-se de uma estratégia para sustentar uma posição na existência. No autismo, a atividade de “fazer-se pegar” pelo outro - ou de destinar a si para além de si mesmo - exige uma construção artificial de laço, como bem observa Laurent (2014) em suas considerações sobre a clínica.

Diante dos argumentos expostos, compreendemos tais processos como ilustrações da manifestação patológica do apoderamento. Entretanto, isso não implica que o sujeito esteja condenado a essa posição; significa, antes, que é preciso apostar em um trabalho de apropriação que sirva de ponte de acesso ao mundo, a partir de uma posição que não seja experienciada como ameaça. Encaminhando-nos para as conclusões deste estudo, destacamos uma última interrogação crucial: “Por que você pula?”. Naoki nos responde:

na verdade, minha necessidade de ser engolido pela imensidão lá em cima é suficiente para estremecer meu coração. Quando estou pulando, posso sentir melhor as partes do meu corpo - as pernas saltando, as mãos batendo - e isso me faz muito, muito bem”. (Higashida, 2014, p. 87).

Qual, porém, seria a diferença entre o “ser engolido” pelo pular e aquele que desencadeia o sofrimento? Por meio da releitura da pulsão de apoderamento, é possível pensar que o salto possui, para Naoki, uma interpretação subjetiva: ele escolhe o momento de ser capturado por essa sensação. Esta é uma resposta hipotética à pergunta que intitula sua obra: pular é, no fundo, a possibilidade de exercer uma escolha, de comunicar e de compartilhar um estado de ser sob o seu próprio domínio.

Naoki evidencia a incidência da patologia do apoderamento diretamente em seu corpo ao relatar sua posição diante da alteridade. Quando indagado se detesta ser tocado, ele esclarece que, para um autista, o toque de outrem representa o controle de um terceiro sobre um corpo “que nem mesmo o dono é capaz de controlar direito” (Higashida, 2014, p. 90).

De modo semelhante, ao ser questionado sobre o motivo de mover braços e pernas de forma errática, Naoki descreve o impasse do apoderamento: “não tenho uma sensação clara do lugar exato onde eles se prendem ao meu corpo . . . , é como se meus membros fossem um rabo de sereia escorregadio” (p. 120). Trata-se da descrição precisa de um corpo que falha em se consolidar como objeto de si mesmo (segundo tempo), exigindo um esforço contínuo para “amarrar” os próprios membros por meio do movimento.

Higashida (2014, p. 125) prossegue relatando que crianças autistas carecem de noção de distância, desconhecendo “quanto precisam esticar os próprios braços para pegar um objeto”, e admite que sua conexão no sentido do tato “não deve funcionar direito”. Essa relação particular com a própria imagem revela os efeitos da ausência do “fazer-se pegar” pelo Outro, manifestando-se em uma espacialidade afetada por uma ressonância embaraçada dos limites, como se a fronteira entre o corpo e o objeto fosse uma lacuna desconhecida.

Além dessas operações, Naoki formaliza seus modos singulares de apropriação do mundo através do apego. No autismo, o apego manifesta-se em uma vertente de dependência pela continuidade; é disso que Naoki sofre: a necessidade de que o ambiente e os objetos permaneçam idênticos. Quando questionado sobre a rigidez alimentar - “Por que vocês são tão exigentes com a comida?” -, sua resposta é elucidativa: “Para algumas pessoas com autismo, só aqueles alimentos que elas já consideram comida de verdade têm algum gosto” (p. 101). Tal posicionamento revela a incorporação do conhecido como baliza de prazer: para Naoki, a repetição alimentar não é apenas nutrição, mas uma estratégia para encontrar estabilidade e prazer em um mundo de outra forma imprevisível.

Caminhando para a conclusão, é imperativo destacar que o apego, por si só, não é suficiente para elucidar a complexidade da subjetividade no autismo. Embora sua presença seja indiscutível, torna-se necessário um elemento de outra ordem: o apoderamento. Essa concepção encontra respaldo na própria afirmação de Naoki: “A repetição é sempre uma garantia de alegria para o autista. . . . quando você está num lugar novo e desconhecido, também não fica aliviado ao encontrar um rosto familiar e amistoso?” (Higashida, 2014, p. 121). Aqui, o “rosto familiar” não é apenas uma figura de apego, mas um objeto já dominado, já apoderado, que protege o sujeito da invasão do desconhecido.

Diferentemente da iteração - que é a repetição do mesmo para garantir a ordem -, a apassivação implica uma criação que depende do “fazer-se para o outro”. Trata-se de uma invenção necessariamente imprevisível, visto que não há garantias de como essa oferta será recebida - o exato oposto da segurança em que o autista busca se situar.

Contudo, embora as articulações apontem para a patologia do apoderamento, enfatizamos a capacidade do sujeito de construir outras mediações. No caso de Naoki, o tornar-se escritor permitiu o alargamento de seu horizonte existencial: pela prancha de letras, ele pôde transformar seu corpo “escorregadio” em um corpo que poderia ser tomado, de algum modo, sem que com isso fosse invadido. Vejamos seu pedido:

Por favor, não nos julguem apenas pela aparência. Não sei por que não conseguimos nos comunicar de forma adequada. Mas não é por não querermos falar - é porque não podemos, e sofremos por causa disso. Sozinhos, não há nada que possamos fazer quanto a esse problema [ênfase adicionada], e houve uma época em que eu imaginava a razão do Eu que não fala ter nascido. Mas, tendo começado a me comunicar por texto [ênfase adicionada], agora sou capaz de me expressar através de alfabeto e de um computador, e, por poder compartilhar [ênfase adicionada] o que sinto, percebo que eu também existo neste mundo como um ser humano. (Higashida, 2014, p. 48)

Do material ofertado por Naoki, sublinhamos três dimensões fundamentais em que o apoderamento se produz, ainda que sob condições singulares. A primeira, ao admitir que “sozinho não é possível”, assinala a exigência de uma parceria que respeite sua economia subjetiva: ele não pode, de forma direta, “fazer-se para o outro”, mas pode construir algo com o outro. A segunda, a de “poder se comunicar”, indica o domínio exercido sobre o objeto da linguagem - o alfabeto e o computador. Essa apropriação permitiu uma abertura inédita na relação com a alteridade, operando como um modo de “fazer-se ouvir”. Assim como Naoki “olha a voz”, ele agora exige que o Outro olhe para sua escrita; a letra torna-se o suporte onde a voz pode finalmente ser capturada.

Em termos metapsicológicos, Naoki serve-se do outro quando interpreta que este utiliza sua própria lógica - aquela que aceita a voz mediada pelo olhar. Afinal, em sua condição de escritor, ele convoca o Outro a contemplar sua voz materializada no papel. Por fim, a terceira dimensão reside no “poder para compartilhar”: este é o portal para o lugar do humano em sua fase de compartilhamento. Aqui, uma marca subjetiva emerge, apaziguando os fazeres mediadores e transformando o isolamento da iteração em uma forma possível de laço social.

Para concluir

Em síntese, a articulação proposta demonstra que a pulsão de apoderamento e a Teoria do Apego convergem nas atividades de preensão e apropriação do mundo/objeto, núcleos de contacto centrais entre Freud e Bowlby. Contudo, as abordagens divergem na sua gênese: enquanto a perspectiva bowlbyana fundamenta o apego em condições filogenéticos e desenvolvimentistas, a leitura sobre a pulsão de apoderamento a situa como uma operação psíquica de ordenação da experiência originária com a realidade material.

Em suma, a contribuição central reside na compreensão do apego como uma expressão fenomenológica desse apoderamento, especialmente quando o sujeito busca manejar a desordem sensorial através da captura de objetos primordiais. A lógica do “olhar a voz”, formulada por Naoki Higashida, revela-se um dispositivo clínico precioso: ela demonstra o primeiro tempo da pulsão - o fazer pegar - em que a voz é tratada como um objeto de apropriação para balizar a presença do sujeito no mundo.

Tal perspectiva instrumentaliza uma práxis que respeita a economia subjetiva do autista, permitindo que o psicanalista opere como um artesão na sustentação do tratamento. Ao acolher o modo singular como o sujeito “pega” a voz, o clínico pode oferecer o suporte necessário para que a criança transite do isolamento da estereotipia para a invenção de um laço social. Esse agenciamento ético visa possibilitar que o sujeito, para além do ato defensivo frente à realidade invasiva, consiga construir o seu fazer-se pegar - o terceiro tempo da pulsão que inaugura a apassivação e permite uma habitação possível na alteridade.

Declaração de disponibilidade de dados:

Os conjuntos de dados analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

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Editado por

  • Editor responsável:
    Antônio Euzébios Filho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Fev 2026
  • Aceito
    23 Abr 2026
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