Open-access O quefazer da Psicologia Social Latino-Americana no coração das questões ambientais

The praxis of Latin American Social Psychology at the heart of environmental issues

La praxis de la Psychologie Sociale Latino-Américaine au cœur des questions environnementales

El quefazer de la Psicología Social Latinoamericana en el centro de las cuestiones ambientales

Resumo

Este artigo tem como objetivo reconstituir o quefazer da Psicologia Social Latino-Americana (PSLA) a partir das dimensões estética, ontológica e ética de uma práxis psicossocial da libertação. Em diálogo com a ontologia do ser social de György Lukács e a Psicologia da Libertação de Ignacio Martín-Baró, sustenta-se que a PSLA constitui um projeto ontológico articulado ao pensamento crítico latino-americano. Defende-se que a interseccionalidade, quando incorporada pela PSLA, opera como um dispositivo psicossocial de mediação entre a particularidade latino-americana e a universalidade do gênero humano. O percurso metodológico articula duas dimensões analíticas: (i) reconstituição do quefazer da PSLA; (ii) análise da interseccionalidade como dispositivo psicossocial. Com isso, recupera-se a dialética legalidade/sensibilidade no núcleo ontológico do projeto de libertação da PSLA em face do complexo modernidade/colonialidade.

Palavras-chave:
psicologia social latino-americana; ontologia do ser social; interseccionalidade; decolonialidade; questões ambientais

Abstract

This article aims to reconstruct the praxis of Latin American Social Psychology (LASP) through the aesthetic, ontological, and ethical dimensions of a psychosocial praxis of liberation. In dialogue with György Lukács’s ontology of social being and Ignacio Martín-Baró’s Psychology of Liberation, it argues that LASP constitutes an ontological project articulated with Latin American critical thought. It posits that intersectionality, when incorporated into LASP, operates as a psychosocial dispositif mediating between Latin American particularity and the universality of the human genus. The methodological path articulates two analytical dimensions: (i) the reconstruction of the praxis of LASP; and (ii) the analysis of intersectionality as a psychosocial dispositif. Through this approach, the dialectic between legality and sensibility is recovered at the ontological core of LASP’s project of liberation in the face of the modernity/coloniality complex.

Keywords:
Latin American social psychology; ontology of social being; intersectionality; decoloniality; environmental issues

Résumé

Cet article vise à reconstituer la praxis de la Psychologie Sociale Latino-Américaine (PSLA) à partir des dimensions esthétique, ontologique et éthique d’une praxis psychosociale de la libération. En dialogue avec l’ontologie de l’être social de György Lukács et la Psychologie de la Libération d’Ignacio Martín-Baró, il est soutenu que la PSLA constitue un projet ontologique articulé à la pensée critique latino-américaine. Il est défendu que l’intersectionnalité, lorsqu’elle est intégrée à la PSLA, opère comme un dispositif psychosocial de médiation entre la particularité latino-américaine et l’universalité du genre humain. Le parcours méthodologique articule deux dimensions analytiques : (i) la reconstitution du quefazer de la PSLA ; (ii) l’analyse de l’intersectionnalité comme dispositif psychosocial. Ce faisant, est récupérée la dialectique légalité/sensibilité au cœur ontologique du projet de libération de la PSLA, face au complexe modernité/colonialité.

Mots-Clés :
psychologie sociale latino-américaine; ontologie de l’être social; intersectionnalité; décolonialité; questions environnementales

Resumen

Este artículo tiene como objetivo reconstruir el quefazer de la Psicología Social Latinoamericana (PSLA) a partir de las dimensiones estética, ontológica y ética de una praxis psicosocial de la liberación. En diálogo con la ontología del ser social de György Lukács y de la psicología de la liberación de Ignacio Martín-Baró, se sostiene que la PSLA constituye un proyecto ontológico articulado con el pensamiento crítico latinoamericano. Se defiende que la interseccionalidad cuando es incorporada por la PSLA opera como un dispositivo psicosocial de mediación entre la particularidad latinoamericana y la universalidad del género humano. El recorrido metodológico articula dos dimensiones analíticas: la reconstrucción del quefazer de la PSLA; y el análisis de la interseccionalidad como dispositivo psicosocial. Así, se recupera la dialéctica legalidad/sensibilidad en el núcleo ontológico del proyecto de liberación de la PSLA frente al complejo modernidad/colonialidad.

Palabras clave:
psicología social latinoamericana; ontología del ser social; interseccionalidad; decolonialidad; cuestiones ambientales

Introdução

Este artigo busca responder a uma pergunta central: como tem se desenvolvido o quefazer da Psicologia Social Latino-Americana (PSLA) na interseccionalidade das questões ambientais contemporâneas? A hipótese sustenta uma práxis estética, ontológica e ética de interseccionalidade psicossocial, ao desvelar como subjetividades, identidades e diferenças compreendem particularidades específicas latino-americanas em face do complexo modernidade/colonialidade. Optamos em realizar um diálogo entre autores como Lukács (1966; 2012; 2018) e Martin-Baró (1986; 1996; 1998; 2022a; 2022b), buscando descrever as dimensões estética, ontológica e ética que constituem o quefazer psicossocial da PSLA. O objetivo específico, por sua vez, visa analisar como o quefazer da PSLA se operacionaliza mediante a interseccionalidade de subjetividades, identidades e diferenças que constituem particularidades histórico-ambientais no contexto da América Latina. Para a realização dos objetivos propostos, o percurso metodológico deste artigo articula duas dimensões de análise: (i) reconstituição do quefazer da PSLA e (ii) análise da interseccionalidade como dispositivo psicossocial. Essas duas dimensões orientam o trabalho analítico em direção ao projeto de libertação da PSLA. Mediante esse quadro metodológico, visamos reconstituir o quefazer na recepção estética da vida cotidiana, inserida no contexto das identidades negadas do continente, desde a expansão dos regimes de colonialidade que fundem capitalismo e racialização (Quijano, 2005; Quijano & Wallerstein, 1992). O quefazer da PSLA nasce no terreno histórico-estrutural do capitalismo dependente latino-americano. Mas, para contextualizá-lo no campo do materialismo histórico-dialético, iniciamos esse percurso retomando em Lukács (1966; 2018) a problematização estética da cotidianidade e os fundamentos ontológicos da totalidade do sujeito histórico. Em seguida, avançamos nos trabalhos de Ignacio Martin-Baró (1996; 1998; 2022a; 2022b) e suas contribuições para a tradição de pesquisa em Psicologia Social Latino-Americana (Borda 2015; Cuellar, 2017; Guzzo & Lacerda Jr., 2022; Jacó-Vilela, Rocha, & Mancebo, 2003; Lane & Codo, 1989; Lira, 2010; Montero, 2022; Oropeza, 2016). Nesse trânsito, recuperamos as tradições da libertação que marcam o marxismo latino-americano, realizando um deslocamento ontológico e epistêmico no estado da arte da PSLA, que nos leva ao coração das questões ambientais contemporâneas desde o Sul Global.

Reconstituição das dimensões estética, ontológica e ética do quefazer da PSLA

O quefazer da PSLA origina-se do conteúdo contraditório da vida cotidiana nas três dimensões do ser: social, estética, ontológica e ética (Lukács, 2012; 2018; 1966), que correspondem às três categorias de objetividade do sujeito histórico: particularidade, singularidade e universalidade (Lukács, 2012). Lukács desenvolveu esse amplo programa de estética, ética e ontologia ao longo da década de 1960, deixando a Ética como um projeto inacabado. Pensava que, concluída a Estética, retomaria a Ética do ser social (Netto, 2012), mas antes teria que passar pela ontologia. Precisava de uma noção de sujeito capaz de sustentar a ética materialista do ser social. “A ontologia seria assim a introdução à ética” (Netto, 2012, p. 11). No âmbito ontológico do ser social, destaca-se a importância que Lukács (2012) confere à categoria de reflexo para pensar a vida cotidiana desde a estética e mediada pela categoria de particularidade (Lukács, 1966; 2018). Nesse sentido, a reflexão estética de base dialética origina-se da própria reconstrução do mundo dos reflexos. Este é o caráter peculiar da categoria de reflexo estético em Lukács (1966; 2018), em que “. . . o movimento para a particularidade é o conclusivo” (Lukács, 2018, p. 153). As “. . . categorias de singularidade, particularidade e universalidade . . . estão entre si, objetivamente, numa constante relação dialética” (p. 152). No entanto, “. . . aparecem sempre superadas na particularidade” (p. 153). Segundo Lukács (2018), é pela particularidade (reflexão estética) que se ampliam os limites da universalidade (ontologia) e da singularidade (ética). Por isso, diz Lukács (2018), é decisivo o movimento no conteúdo do singular, que atua como nexo mediador para a superação dos modos de reflexo construídos no interior das particularidades objetivadas.

Destaca-se, ainda, o modo como Lukács (2012) retorna à teoria do conhecimento de base marxiana e leninista, recuperando a complexidade das mediações culturais do ser social para além do marxismo vulgar e mecânico entre base e superestrutura como simples derivações da base econômica da história. O que Lukács (2012) propõe, em contrapartida, é recuperar o fundamento ontológico do metabolismo sociedade-natureza como totalidade dialética, na qual base e superestrutura se articulam no interior da totalidade articulada das esferas culturais da existência. No entanto, enquanto Lukács (2012) reconhece as contradições históricas como parte do movimento desigual da totalidade social, o pensamento crítico latino-americano explicita como tais desigualdades são atravessadas por regimes de colonialidade, isto é, pela imposição epistêmica e pela impostação estética que silencia particularidades históricas no domínio da aesthesis. Nessa perspectiva, a PSLA não apenas dialoga com o materialismo histórico-dialético, mas o desloca no campo do marxismo latino-americano, atravessado por colonialidades e resistências. Assim, nessa ontologia dialética do ser social, a particularidade latino-americana ganha forma de singularidade epistêmica na configuração da totalidade histórico-ambiental do nosso continente.

Desse modo, o quefazer da Psicologia Social Latino-Americana busca o sentido teleológico do cotidiano em um movimento que vai da estética ao ontológico e à ética; e, do ponto de vista metodológico, corresponde a um percurso que vai do materialismo histórico-dialético ao marxismo latino-americano. Desse modo, conceituamos a teleologia do cotidiano em um diálogo original com Lukács (2012) e Martin-Baró (2022). Se György Lukács nos fornece o fundamento ontológico do ser social para pensarmos a práxis no cotidiano, Ignacio Martin-Baró, inserido na tradição do pensamento crítico latino-americano, delimita um cotidiano de libertação inscrito na totalidade histórico-ambiental dos povos periféricos submetidos aos regimes de colonialidade.

Nessa perspectiva, as três dimensões da práxis da PSLA - estética, ontológica e ética - reportam às práticas de independência nos países da América Latina, numa fase simultânea à formação das ciências sociais modernas europeias, representadas por nomes como José Martí, Francisco Bilbao, Simón Bolívar, José María Torres Caicedo, José Enrique Rodó, entre outros nacionalistas-protagonistas do continente. Daí, temos uma história de lutas anticoloniais sobre questões não resolvidas até os dias de hoje, como anticolonialismo, anti-imperialismo, genocídio, epistemicídio e a questão da identidade continental construída pela articulação histórica entre capitalismo e racialização (Quijano, 2005). Nesse complexo, forma-se o campo originário do ser social latino-americano em sua forma não apenas contraditória, mas fraturada. Trata-se de uma fratura ontológica inscrita desde a origem do complexo modernidade/colonialidade, que constitui as particularidades histórico-ambientais de nossa região.

Em sua tese de doutorado de 1979, defendida na Universidade de Chicago sob o título Household Density and Crowding in Lower-Class Salvadorans (Densidade e aglomeração domiciliar em salvadorenhos de classe baixa), Ignacio Martín-Baró desloca o fenômeno sociológico da superlotação habitacional como dado ambiental, compreendendo-o como forma histórica de produção de subjetividade nas classes populares. Esse deslocamento origina a estrutura do seu trabalho e a busca pelo objeto da psicologia social que vai acompanhar toda sua vida. No entanto, o Baró de 1979 ainda expressa a psicologia social norte-americana; sua tese de doutorado permanece ancorada nesse referencial, anterior à guinada política que o transformaria em pensador crítico latino-americano. Com o retorno a El Salvador, em 1980, dá-se o choque entre a violência estrutural latino-americana e as ciências sociais estadunidenses ainda presentes em sua formação. Sendo assim, cabe observar nos trabalhos críticos que emergem desde então, Para uma Psicologia da Libertação (2022a), Desafios e Perspectivas da Psicologia Latino-Americana (2022b), Hacia una psicología de la liberación (1986), El papel del psicólogo en el contexto centroamericano (1996), o papel da revolução no projeto de libertação da obra baroniana. Trata-se de distinção epistemológica fundamental que caracteriza o pensamento crítico latino-americano em suas diferentes formas (Romo, 2020). Do ponto de vista historiográfico, Martin-Baró aproxima-se muito mais de Paulo Freire do que de Ernesto Guevara, por exemplo. Essa aproximação configura a posição epistemológica da concepção de revolução em seu projeto de libertação. Como sinaliza Andrés Donoso Romo (2020), se a revolução freireana já é a educação libertadora em ação, em Guevara a educação é um estágio posterior à revolução inevitavelmente armada. Essa diferenciação exige situar o projeto de libertação baroniano nas epistemologias do Sul. Com efeito, não por acaso, a tradição marxista não aparece por citação em sua obra, mas por método. Martín-Baró pensa desde Marx, e não através de Marx. Inserido na tradição da pedagogia da libertação, busca as comunidades de base, evitando tanto o psicologismo norte-americano quanto o marxismo dogmático da esquerda armada salvadorenha. Em seu texto, O papel do psicólogo, Martin-Baró (1996) aborda o tema da guerra, fundante da PSLA (Cuellar, 2017; Oropeza, 2016), em que viviam quase todos os países da região, acompanhados de “. . . graves tensões sociais, agudas restrições econômicas para a maior parte da população e violentas fraturas no seio da sociedade” (Romo, 2020, p. 55). Um período marcado por aceleração econômica dependente, urbanização e crescimento demográfico, mas que vai aparecer para Martin-Baró de modo radicalizado, desde a sua primeira abordagem sobre a questão da superlotação habitacional em sua tese. Quando escreve sobre a guerra civil em El Salvador, situa como um “caso paradigmático, mas não a exceção” (Martin-Baró, 1996, p. 11), referindo-se ao imperialismo de Washington sobre todo o bloco da América Latina. No entanto, chega a questão ainda mais fundamental, ironizando a explicação econômica do capitalismo dependente para a pobreza de nossos países (Martin-Baró, 1996), quando estamos de fato diante de uma fratura na própria identidade e autonomia dos povos. Aqui o autor descreve a fratura ontológica no campo da subjetividade, que abre outra dimensão do objeto da Psicologia Social Latino-Americana, ligada ao sofrimento psíquico como material ontológico imanente à totalidade histórico-ambiental de nosso continente. Nesse sentido, gesta-se o quefazer da PSLA, nas bases dos “. . . processos subjetivos que sustentam e viabilizam estruturas injustas” (Martin-Baró, 1996, p. 22). Nessa chave de leitura, Eliete Wolff (2022) destaca a importância de Marx para a teoria da libertação, que representou para as classes subalternas uma fonte de reflexão crítica e uma prática de recuperação do conteúdo historicamente negado, “. . . uma nova práxis psicológica, que permitiria não apenas conhecer a realidade, mas também potencializar o negado pelo ordenamento social” (Wolff, 2022, p. 116).

Nesse sentido, José Carlos Mariátegui (1982) compreende a libertação como processo histórico de reapropriação das forças essenciais humanas negadas pela força colonial do capital. O sociólogo peruano interpreta as lutas indígenas, camponesas e de libertação do povo negro oprimido a partir da luta de classes. Em seu texto, O problema das raças na América Latina, acentua o papel do marxismo no continente para a libertação dos povos, na medida em que faz a crítica ao imperialismo da raça branca sobre os povos colonizados indígenas e negros escravizados. Segundo Mariatégui (1982), a consciência de classe supera as fronteiras raciais colocadas entre esses grupos étnicos, no que identificou uma fragmentação racial característica do continente. Dessa forma, destaca-se a articulação de três lutas anticoloniais fundamentais na América Latina, a luta de classes, a luta indígena e a luta dos povos escravizados. Assim, observa-se na especificidade dos países latino-americanos uma singularidade periférica e epistêmica em que a luta de classes se entrelaça com as lutas anticoloniais contemporâneas. Contudo, se em Mariátegui a emancipação surge como tarefa coletiva das classes oprimidas, em Martín-Baró ela se traduz na dimensão subjetiva da libertação, que exige tomada de consciência histórica e o processo crítico de desideologização, ambos constitutivos da PSLA.

Nesse sentido, a especificidade do projeto de libertação baroniano ganha uma característica própria que o faz avançar em relação a Freire a partir de seu método da desideologização da consciência. Seus fundamentos dialogam, em termos metodológicos, com a crítica da ideologia em Althusser, com a noção de hegemonia em Gramsci e com a crítica marcusiana da racionalidade repressiva, compondo uma práxis orientada para (i) a recuperação da memória histórica; (ii) a desideologização do senso comum e da experiência cotidiana; e (iii) a potencialização das virtudes populares (Martín-Baró, 2022a). A partir daí, forma-se um diálogo possível entre Lukács (2012) e Martín-Baró (2022a), bem como uma articulação entre materialismo histórico-dialético e epistemologias do Sul. Enquanto Lukács analisa o reflexo como forma de consciência imediata que necessita de mediação histórico-social para se tornar crítica, Martín-Baró trabalha com a necessidade de romper o “imediato psicológico” não pensado, ligado à experiência de opressão (Martín-Baró, 2022). Em ambos, a passagem da imediaticidade à consciência crítica constitui o núcleo ético da práxis. Segundo Oropeza (2016), o método baroniano de desideologização aproxima-se da crítica da ideologia em Althusser, especialmente ao compreender que as estruturas de dominação operam por meio de formas naturalizadas de consciência. Contudo, sua busca por uma perspectiva emancipatória o leva além do estruturalismo althusseriano. Oropeza (2016) observa a tentativa de diálogo com a via gramsciana, mas, tampouco, se mostrou suficiente, talvez, pelas mesmas razões presentes nas críticas de Althusser e Balibar (1969) à concepção gramsciana de hegemonia voltada para as classes subalternas. Assim, diante “. . . da institucionalização de uma determinada ideologia e da configuração repressiva de campos vitais, assistimos a uma redução positivista da possibilidade cultural como terreno de realização humana, e caímos na unidimensionalidade opressiva de que Marcuse falou” (Martin-Baró, 1998, p. 56). Conforme interpreta Oropeza (2016), a concepção baroniana de revolução deriva diretamente da proposta marcusiana de construção de uma nova sensibilidade (Marcuse, 1969), o que permite compreender por que a experiência estética do cotidiano se constitui como a primeira dimensão práxica da PSLA.

Então, vale retomar o modo como Herbert Marcuse (1969), em Essay of Liberation, afirma a libertação como uma transformação da sensibilidade humana, culminando na emergência de um novo ethos estético. Nesse recorte, escreve o autor: “As forças guerrilheiras na América Latina parecem ser animadas por esse mesmo impulso subversivo: a libertação” (p. 7). Nesse sentido, acrescenta: “O termo ‘estética’, em sua dupla conotação de ‘pertencente aos sentidos’ e ‘pertencente à arte’, pode servir para designar a qualidade do processo criativo produtivo em um ambiente de liberdade” (Marcuse, 1969, p. 22). Dessa forma, tanto Marcuse (1969) quanto Lukács (1966; 2018) buscam as formas históricas de sensorialidade, na medida em que o sensível não é natural ou fixo, mas produzido pelas relações sociais e passível de reconfiguração. Nos termos de Marcuse, a “. . . nova Sensibilidade tornou-se uma força política” (Marcuse, 1969, p. 21). Como ele mesmo afirma: “Além do nível fisiológico, as exigências da sensibilidade se desenvolvem como histórica . . . ” (Marcuse, 1969, p. 30). A questão fundamental, portanto, é que a libertação torna-se uma necessidade vital, biológica (Marcuse, 1969), e a expressão de uma nova sensibilidade contra a dominação. Nesse quadro, Marcuse (1969) retira a ideia de revolução do continuum da repressão e a coloca na dimensão da libertação. Essa constatação contribui para compreendermos por que Martín-Baró aplica essa perspectiva ao estado da arte da Psicologia Social Latino-Americana (PSLA), expressa na forma de uma Psicologia da Libertação, que começa pela libertação da própria psicologia. Trata-se de uma crítica aguda ao modelo norte-americano de psicologia centrado no individualismo metodológico, que produz estudos de indivíduos e grupos afastados de suas realidades históricas concretas.

Na perspectiva baroniana, a psicologia social é uma forma de história, que deve articular uma práxis psicológica comprometida com a formação da consciência social a partir de uma consciência de classe (Lane & Codo, 1989). Isto é: “Na medida em que o processo é grupal . . . , ele tende a caracterizar o desenvolvimento de uma consciência de classe, quando o grupo se percebe inserido no processo de produção material de sua vida e percebe as contradições geradas historicamente” (p. 17). Entre essas contradições fundamentais da vida cotidiana, com ênfase na história dos países latino-americanos, Elizabeth Lira (2010) descreve o problema crucial do trauma psicossocial e da impunidade. Com efeito, entramos no campo da memória histórica em interface com a psicologia social, em uma prática metodológica de processos terapêuticos e social-democráticos (Lira, 2010, p. 27). Ou seja, implica um “. . . processamento social do sofrimento e da violência na esfera cultural, reconhecendo que isso aconteceu entre nós e que queremos que nunca mais aconteça” (p. 28); “. . . e que a memória política preserve seu nome e sua história como elementos indispensáveis para sustentar uma memória democrática que garanta o respeito e a dignidade das pessoas em todos os momentos e em todas as circunstâncias, agora e no futuro próximo” (p. 28). Como escreve Martin-Baró (1996): “Por isso, as perguntas críticas que os psicólogos devem se formular a respeito do caráter de sua atividade e, portanto, a respeito do papel que está desempenhando na sociedade, não devem centrar-se tanto no onde, mas no a partir de quem. . . ” (p. 22). Em outras palavras, “. . . quais são as consequências históricas concretas que essa atividade está produzindo (?)” (p. 22). Martin-Baró (1996) esclarece: “Não é provável e, talvez, nem sequer possível, que alcancemos uma compreensão adequada dos problemas mais profundos que atingem as maiorias populares se não nos colocamos, ainda que hermeneuticamente, em sua perspectiva histórica” (p. 23); “. . . em que a realização de alguns não requeira a negação dos outros, em que o interesse de poucos não exija a desumanização de todos” (p. 23). Nesse sentido, Maritza Montero (2022) coloca a pergunta disparadora: “Quais são as origens psicossociais das situações de desigualdade e de opressão?” (p. 92).

Essa é uma pergunta que liga a Psicologia Social Latino-Americana (PSLA) ao materialismo histórico-dialético. Como escreve Orlado Fals Borda (2015), o método deriva do marxismo. Assim, a PSLA restaura a práxis psicossocial com os elementos da teoria crítica que Marx e Engels desenvolveram, retomados por outros cientistas sociais, como os membros da Escola de Frankfurt, e pelo marxismo renovado, que vem da Hungria com Georg Lukács, e, mais recentemente, com os estudos decoloniais. Nesse sentido, a partir das relações com o materialismo histórico à luz das práticas de libertação, a PSLA recupera o vínculo com o método dialético e com a noção de totalidade, apreendida em uma análise de interseccionalidade psicossocial de operadores coloniais, tais como raça, classe, gênero, território (centro-periferia/urbano-rural), que se entrelaçam em nossas experiências particulares cotidianas. Assim, a mesma libertação que a Psicanálise gerou na reconstituição histórica de subjetividades individuais, a PSLA busca nas particularidades históricas latino-americanas, marcadas pelo trauma, pela injustiça, quando já não resta mais nem a indignação ou a revolta (Cuellar, 2017). Por exemplo, diz Martin-Baró (1998): “Frantz Fanon, que acompanhou os processos de libertação do povo argelino como psiquiatra, foi capaz de compreender as profundezas alcançadas pela colonização na estrutura somato-psíquica do colonizado” (p. 95); “. . . ancorando-se em seus músculos como tensão reprimida e em suas mentes como uma culpa presumida que bloqueia seus impulsos libertadores” (p. 95).

Nessa perspectiva, situa-se a dimensão estética do quefazer psicológico da Psicologia Social Latino-Americana com ênfase na recuperação da memória histórica negada e reprimida. Nesse panorama, as três dimensões do quefazer da PSLA formam um dispositivo de formação do ser social inserido no território da libertação. Isso significa que a reflexão histórica de base dialética reconstrói o mundo dos reflexos, ao voltar ao mundo concreto e ao cotidiano para transformá-lo. Essa é a perspectiva fundamental do reflexo estético em Lukács (1966; 2018) e, a partir dos sistemas de libertação de Marcuse e Martin-Baró, se concretiza como dimensão práxica do quefazer da PSLA.

Interseccionalidade como dispositivo psicossocial na PSLA

Se a primeira seção procurou reconstituir o fundamento ontológico da PSLA, procuramos agora articular as três dimensões práxicas - estética, ontológica e ética - às realidades concretas latino-americanas por meio do dispositivo psicossocial da interseccionalidade. Enquanto categoria operacional, e não objeto temático, a interseccionalidade torna visível, na plataforma do cotidiano, as particularidades histórico-ambientais da América Latina. Dessa forma, trata-se de um dispositivo ontológico capaz de desvelar a diversidade epistemológica da Psicologia Social (Silva, 2024) em face do complexo modernidade/colonialidade. Nesse sentido, o quefazer da PSLA se operacionaliza nas intersecções entre raça, classe, gênero, território, etnia, sexualidade, região, que configuram particularidades específicas. Mantém-se, assim, o fundamento ontológico da objetividade do ser social (Lukács, 2012), no qual tais particularidades atuam como nexo entre singularidade e universalidade. Então, incorporada pela PSLA, a interseccionalidade psicossocial assume precisamente essa função mediadora, introduzindo a categoria de subjetividade histórica no coração das questões ambientais.

A biopolítica descrita por Foucault (2010) oferece inicialmente um modelo para compreender os modos de produção de subjetividades nas sociedades ocidentais, centrado nas dinâmicas do laissez-faire, do mercado livre e da governamentalidade neoliberal. Contudo, trata-se de uma análise conduzida a partir do centro do sistema-mundo, inscrita na figura do “intelectual específico” (Foucault, 1984), que ilumina determinadas lutas, mas permanece limitada diante das formações histórico-coloniais do Sul Global. A genealogia foucaultiana evidencia a produção moderna de subjetividades, mas não alcança a fratura ontológica própria das sociedades marcadas pela colonialidade. É precisamente nesse ponto que o dispositivo da interseccionalidade, tal como apropriado pela PSLA, desloca o eixo foucaultiano e adentra o campo epistêmico da transmodernidade, nos termos de Enrique Dussel. Aqui, a formação de subjetividades é compreendida a partir das assimetrias coloniais, das culturas periféricas e das fronteiras geopolíticas do conhecimento, permitindo à PSLA analisar a articulação entre opressões e diferenças como expressão da particularidade histórica latino-americana.

Nessa perspectiva, a interseccionalidade opera como passagem práxica entre a ontologia do ser social e a análise psicossocial concreta, articulando as três dimensões do quefazer, estética, ontológica e ética, na leitura crítica das realidades concretas latino-americanas, tais como a luta pela terra, o enfrentamento da insegurança alimentar, a defesa de uma educação pública de boa qualidade, de um sistema de saúde qualificado e de um direito público descolonizado. São enfrentamentos históricos que persistem desde a colonização das Américas e que marcam a trajetória de praticamente todos os países latino-americanos. Nesses termos, enquanto parte da tradição sociológica buscou compreender o ambiental a partir de modelos gerais de sociedade, modernização, desenvolvimento sustentável, governança, cidadania, a PSLA recoloca a problemática ambiental como questão ontológica do ser social. Isso significa uma diferenciação com a concepção ecológica de meio ambiente. É nesse sentido que a ontologia do ser social formulada por Lukács (2012) oferece a base para pensar as questões ambientais contemporâneas como um complexo histórico-social, no qual particularidade, singularidade e universalidade constituem a objetividade de constituição do sujeito histórico.

Nesse sentido, a noção de fratura ontológica deve ser compreendida como ruptura das mediações particulares que articulam o cotidiano às determinações mais amplas da formação cultural do gênero humano. Na América Latina, tal fratura é produzida pela colonialidade, que bloqueia a mediação particular necessária para que a experiência singular se eleve à universalidade humana, interrompendo o processo histórico pelo qual a particularidade se forma como expressão concreta do ser social. Esse bloqueio assume formas históricas de dominação que organizam tanto a relação com o território quanto a produção de subjetividades, como demonstram as análises de Martín-Baró sobre identidade negada, dependência estrutural e destruição da memória histórica (Martín-Baró, 1986; 1996; 2022a).

Por sua vez, mediante o dispositivo psicossocial da interseccionalidade, torna-se possível compreender os modos de organização metabólica da vida cotidiana e seus processos de subjetivação a partir dos operadores de raça, classe, gênero e território, que definem os processos psicossociais de branquitude, racismo estrutural, racismo institucional (Segato, 2011; Cavalleiro, 2001), racismo ambiental (Ferdinand, 2022). Do mesmo modo, Mignolo (2020) identifica nessas formas de opressão, que incidem sobre corpos marcados pela racialidade e pela colonialidade, a “. . . fratura entre modernidade e colonialidade na narrativa do sistema-mundo moderno/colonial” (p. 205).

Nesse quadro, insurgem movimentos teleológicos de libertação em que a sensibilidade desempenha um papel central na práxis latino-americana. A dimensão estética do ser social, como propõe Lukács (1966; 2018), constitui a esfera particular de mediação entre a imediaticidade do cotidiano e a reflexão histórica. Quando essa ontologia do cotidiano é retomada a partir de Martín-Baró, isto é, desde seu deslocamento epistemológico enraizado nas experiências dos povos latino-americanos, revela-se um campo psicossocial na particularidade histórica de nosso continente. Trata-se de um campo de forças em que a subjetividade se fratura pela ação da colonialidade. Ao mesmo tempo, encontra na teleologia do cotidiano as condições para sua própria recomposição sob a forma de novos modos de metabolismo decolonial, isto é, formas coletivas de resistência territorial diante do projeto ocidental-capitalista de expropriação, guerra e morte. Por isso, quando movimentos indígenas, quilombolas, camponeses, ribeirinhos e moradores das periferias urbanas defendem seus territórios, essas lutas reorganizam formas de memória e de sensibilidade capazes de confrontar a unidimensionalidade denunciada por Marcuse (1991), recuperando sensibilidades destruídas pela racionalidade instrumental dominante. Nessa chave, a interseccionalidade opera como dispositivo particular de análise da categoria do reflexo social, permitindo apreender a produção de subjetividades no interior dos complexos histórico-ambientais que estruturam a vida cotidiana dos povos latino-americanos. Dessa forma, a dimensão estética do quefazer da PSLA conecta a subjetividade a um campo de disputa entre colonialidade e libertação. Não se trata de um deslocamento metodológico, mas de um fundamento ontológico do ser social, e a PSLA é o campo capaz de explicar a produção do sujeito histórico a partir das fraturas e emergências que constituem a América Latina.

Diante disso, no campo da Psicologia Social Latino-Americana, evita-se que a interseccionalidade seja reduzida a um tema de transversalidade, e sim comprometida com a justiça e a transformação social (Silva, 2024). Mais especificamente, articula a luta de classes, as lutas indígenas e as lutas dos povos racializados por regimes de colonialidade. Assim, não se trata de uma perspectiva metodológica, que tende a naturalizar os operadores ao produzir leituras sobre identidades e diferenças no paradigma pós-moderno de transversalidade. É nesse ponto que a ontologia do ser social específico latino-americano se desdobra nas três dimensões práxicas da PSLA. Por essa razão, ao convergir práxis psicossocial e interseccionalidade, desvela-se a disputa entre colonialidade e libertação no coração das questões ambientais contemporâneas.

Essa disputa entre colonialidade e libertação, revelada pelo dispositivo psicossocial da interseccionalidade, enfrentada, no interior da PSLA, por meio das três dimensões práxicas, estética, ontológica e ética, explicita o próprio objeto da práxis - a dialética legalidade/sensibilidade. Trata-se aqui de uma inflexão ontológica a partir da interseccionalidade. Ou seja, a práxis psicossocial se move em uma antinomia estrutural entre condições de legalidade ontológica e formas de sensibilidade estética. Lukács (2012), em sua Ontologia do Ser Social, coloca a dialética entre legalidade e sensibilidade no plano da práxis, ao refletir que a esfera social da arte não pode ser explicada como simples derivação da esfera econômica da existência, como tende a ocorrer com o direito, enquanto esfera orientada à universalidade formal, uma das mais importantes esferas mediadoras do ser social. No entanto, como analisa Lukács (2012), o próprio direito, orientado à universalidade, manifesta a incongruência estrutural da legalidade ontológica da condição humana. No caso da arte, orientada à singularidade, mas capturada por estéticas coloniais do ilustrismo europeu, torna-se esfera mediadora de resistência na América Latina, abrindo um campo ontológico de disputa frente aos regimes de colonialidade. Nessa perspectiva, coloca-se a dialética legalidade/sensibilidade, que aciona os campos do Direito e da Arte como constitutivos da totalidade do ser social objetivado culturalmente. Nesse sentido, enquanto objeto da práxis psicossocial, a dialética legalidade/sensibilidade mostra a fratura que temos observado nas particularidades históricas da América Latina. Não se trata de contradições inerentes à própria dialética marxiana, mas do bloqueio da dialética quando contraditoriedades ontológicas transformam-se em oposições históricas (Lukács, 2012).

Desde tragédias ambientais anunciadas por empresas multinacionais colonialistas em nosso parque industrial, expressão específica do capitalismo dependente, observa-se a materialização de uma distorção ontológica na vida cotidiana. Essa distorção se expressa também nas questões recorrentes de licenciamento ambiental e direito ambiental, sempre a reboque dos planos de desenvolvimento nacional e da ideologia de integração de um Brasil reduzido à esfera econômica, crescendo de forma dependente do capital externo e reproduzindo desigualdades estruturais, uma questão clássica, por exemplo, na história da educação. Essa dialética torna-se particularmente visível quando observamos experiências históricas concretas de planejamento e legalidade no capitalismo dependente brasileiro. Quando Celso Furtado dirigiu o plano diretor da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) (1959-1961), chegou a declarar: “. . . se é para repetir o passado, não aceitaria a direção desse órgão” (Furtado citado por Barboza & Ribas, 2019, p. 156). O plano tinha como objetivo combater à seca no Nordeste, enfrentar o subdesenvolvimento estrutural na região, articular industrialização, estrutura agrária e planejamento regional. “O necessário é criar uma economia adaptada à região e, portanto, à seca” (Barboza & Ribas, 2021, p. 285). O fato é que o plano diretor da Sudene tornou-se incompatível com os interesses políticos das classes dominantes nordestinas. Tentando transformar um passado cristalizado em rígidas estruturas econômicas, Celso Furtado enfrentou a tirania de ferro da ditadura militar e a velha oligarquia agrária do nordeste, o que levou ao seu afastamento e à posterior extinção da Sudene. Aqui, se expõe a fratura dialética que compõe o tecido do que estamos denominando neste artigo de particularidade histórico-ambiental do ser social latino-americano e ilustra como uma contradição ontológica vira oposição histórica. Em casos como esse, em que estamos falando de justiça ambiental, desenvolvimento nacional e violação de direitos, entramos inevitavelmente no campo do Direito, que tem lastros com a política do Estado Mínimo e das regras neoliberais do mercado livre sobre a sociedade. Mas, no caso da arte, enquanto modalidades de estéticas, que vão da criação da obra à ação revolucionária, estamos falando de singularidades que realizam movimentos de resistência mediados por particularidades histórico-ambientais.

A série Black Mirror/Espejo Negro, criada por Pedro Lasch (2007) para o Museo Universitario Arte Contemporáneo (MUAC), na Cidade do México, expressa a dialética legalidade/sensibilidade mediada pelo dispositivo da interseccionalidade. Recorremos, então, à ilustração do problema em questão. O artista mexicano radicado nos Estados Unidos constrói uma obra que intersecciona arte e política, desafiando a universalização eurocêntrica de mundo.

Figura 1
Black Mirror

Na Figura 1, esculturas pré-colombianas dialogam com a projeção de pinturas renascentistas europeias. À frente, duas figuras ameríndias em pedra, matéria bruta que remete à terra e à memória ancestral. Ao fundo, projeções sombrias de figuras renascentistas, entre elas a cena de um homem europeu segurando uma criança, evocam o humanismo cristão e a universalização do Renascimento. Nesse contraste, as esculturas ameríndias afirmam uma presença histórica silenciada pela colonialidade, enquanto a pintura projeta a medida antropocêntrica e cristã do mundo moderno. Esse confronto é estético, ontológico e ético-político. De um lado, a materialidade das esculturas inscreve uma ontologia do ser social ligada à natureza, pedra, terra, corpo. De outro, as imagens renascentistas representam a idealização cristã-europeia, marco da colonialidade. O resultado é um espaço estético atravessado pela denúncia da violência colonial e, simultaneamente, pela afirmação de hermenêuticas decoloniais. Assim, a obra de Lasch realiza, no campo artístico, aquilo que buscamos no plano teórico deste artigo, um diálogo tenso, mas fecundo, entre o materialismo histórico e as epistemes do Sul.

Assim, enquanto Lukács reconhece as contradições históricas como parte do movimento desigual da totalidade social, a obra de Pedro Lasch explicita como essas desigualdades são atravessadas pela colonialidade, que silencia particularidades históricas no domínio da aesthesis. Nessa perspectiva, sua arte revela a estética como um campo ontológico de resistências. Por conseguinte, da criação da obra de arte à ação revolucionária, estamos diante da singularidade estética de uma práxis psicossocial. A questão que se coloca é como essa singularidade se inscreve no núcleo ontológico da PSLA, a saber, nos campos da educação, da cultura, da arte e das comunidades. Nesse ponto, a reflexão de Boaventura de Sousa Santos (2002) contribui com essa práxis psicossocial da PSLA, ao indicar que, no interior da modernidade, dois princípios resistiram à colonização simultânea do mercado e da ciência moderna: o princípio da participação e o princípio da solidariedade. Como afirma o autor, são formas de conhecimento que “. . . progridem do colonialismo para a solidariedade” e que se mantêm abertas ao caos como potência criadora de uma ordem emancipatória (Santos, 2002, p. 330). Ao retomar o princípio da comunidade como uma das “representações inacabadas da modernidade”, fundado nas ideias de solidariedade, participação e no princípio estético, Santos (2002) aponta para a tensão ontológica entre direito, política e estética, que reverbera neste artigo. Segundo Boaventura, nesse campo de tensão, impõe-se a exigência de uma rearticulação do direito com a política e a revolução. Precisamente nessa rearticulação, reaparece a dialética legalidade/sensibilidade na práxis da PSLA, que se inscreve no coração das questões ambientais e no núcleo ontológico de produção do sujeito histórico em contextos de colonialidade e libertação.

Considerações finais

Este artigo teve como objetivo reconstituir o quefazer da Psicologia Social Latino-Americana a partir das dimensões estética, ontológica e ética de uma práxis psicossocial da libertação. Ao retomar a ontologia do ser social em Lukács e colocá-la em diálogo com a Psicologia da Libertação de Ignacio Martín-Baró, buscou-se demonstrar que a PSLA constitui um projeto ontológico do ser social articulado ao pensamento crítico latino-americano. Nesse percurso, argumentou-se que a interseccionalidade opera como um dispositivo psicossocial que cumpre uma função de particularidade ontológica, mediando singularidade e universalidade na análise concreta da vida cotidiana latino-americana. Essa mediação permite apreender a totalidade histórico-ambiental em suas fraturas, revelando como raça, classe, gênero, território e etnia se articulam na produção de subjetividades atravessadas pela colonialidade e pelo capitalismo dependente. A partir desse deslocamento, a dialética legalidade/sensibilidade afirma-se como práxis da PSLA diante de uma totalidade do gênero humano fraturada entre as esferas do Direito e da Arte desde o desencantamento weberiano da modernidade. Com efeito, recuperar o método dialético significa restaurar a legalidade ontológica da estética na formação da práxis da PSLA, que se origina, por sua vez, do cotidiano concreto dos povos latino-americanos. Nessa dimensão do tempo histórico, ao convergir ontologia e interseccionalidade, na exterioridade do complexo da colonialidade, a Psicologia Social Latino-Americana formula seu quefazer no coração das questões ambientais contemporâneas. Dessa forma, buscamos, neste artigo, restituir o sentido ontológico da práxis psicossocial, reinscrevendo a particularidade histórica do ser social latino-americano no projeto de libertação da PSLA.

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  • Editor responsável:
    Antônio Euzébios Filho

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Out 2025
  • Aceito
    14 Dez 2025
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