Open-access Sublimação pelo Eu e sublimação no Eu: nuances do encontro em análise

Sublimation by the Self and sublimation into the Self: nuances of the clinic encounter

Sublimation par le Soi et sublimation dans le Soi : nuances de la reencontre clinique

Sublimación por el Yo y sublimación en el Yo: matices del encuentro clínico

Resumo

Este artigo trata do conceito de sublimação em sua relação com a instância do Eu e sua capacidade de agenciamento da transformação promovida pela análise. A tese central é que existem sublimações pelo Eu e sublimações no Eu. Para além da concepção clássica da sublimação como destino pulsional, como propôs Freud e, mais tarde, Laplanche, introduzimos a ideia de “eu sublimado”, do psicanalista francês Jean Guillaumin. O objetivo consiste em apontar para a sublimação como fenômeno presente no acontecimento transferencial mediado pelo encontro com uma alteridade primordial, expandindo-se, portanto, a ideia da sublimação ligada à produção cultural socialmente reconhecida. Para isso, apresentamos uma breve teorização sobre a formação do Eu e do material sublimado, diferenciando a sublimação no modelo do recalque e no modelo do trauma, para, assim, articular o conceito à transferência. A proposta final é que a observação dessa nuance auxilia o traçado da direção do tratamento.

Palavras-chave:
sublimação; Eu; psicanálise; transferência; clínica

Abstract

This article discusses the concept of sublimation in its relationship with the instance of the Self and its capacity to agency the transformation promoted by analysis. The central thesis is that there are sublimations by the Self and sublimations into the Self. Besides the classic conception of sublimation as a drive destiny, as proposed by Freud and, later, Laplanche, I introduce the idea of “sublimated self” elaborated by the French psychoanalyst Jean Guillaumin. The objective is to point to sublimation as a phenomenon present in the transference event mediated by the encounter with a primordial otherness, therefore expanding the idea of sublimation linked to socially recognized cultural production. To this end, I present a brief theorization about the formation of the Self and the sublimated material, differentiating sublimation in the repression model and the trauma model, to articulate the concept with that of transference. The final proposal is that observing this nuance helps planning treatment.

Keywords:
sublimation; Ego; psychoanalysis; transference; clinic

Résumé

L’article discuteb du concept de sublimation dans sa relation avec l’instance du Soi et sa capacité à agir sur la transformation promue par l’analyse. La thèse centrale est qu’il existe des sublimations par le Soi et des sublimations dans le Soi. Outre la conception classique de la sublimation comme destin pulsionnel, telle que proposée par Freud et, plus tard, Laplanche, j’introduis l’idée de “soi sublime” du psychanalyste français Jean Guillaumin. L’objectif est de comprendre la sublimation comme un phénomène présent dans l’événement de transfert médié par la rencontre avec une altérité primordiale, élargissant ainsi l’idée de sublimation liée à une production culturelle socialement reconnue. À cette fin, je présente une brève théorisation sur la formation du Soi et du matériau sublimé, en différenciant la sublimation dans le modèle de répression et le modèle de traumatisme, afin de l’articuler au concept de transfert. La dernière proposition est que l’observation de cette nuance aide à tracer la direction du traitement.

Mots-clés :
sublimation; Soi; psychanalyse; transfert; clinique

Resumen

Este artículo aborda el concepto de sublimación en su relación con la instancia del Yo y su capacidad de agenciar la transformación promovida por el análisis. La tesis central es que existen sublimaciones por el Yo y sublimaciones en el Yo. Además de la concepción clásica de la sublimación como destino pulsional propuesta por Freud y, posteriormente, Laplanche, introduzco la idea de “yo sublimado”, del psicoanalista francés Jean Guillaumin. El objetivo es señalar la sublimación como fenómeno presente en el evento de transferencia mediado por el encuentro con una alteridad primordial, ampliando así la idea de sublimación vinculada a la producción cultural socialmente reconocida. Para eso, presento una breve teorización sobre la formación del Yo y el material sublimado, diferenciando la sublimación en el modelo de represión y el modelo de trauma, con el fin de articular el concepto a la transferencia. La propuesta final es que observar este matiz ayuda a trazar la dirección del tratamiento.

Palabras clave:
sublimación; Yo; psicoanálisis; transferencia; clínica

“que raio de dor é essa que quanto mais dói mais sai sol?”

(Paulo Leminski)

Introdução

No livro O Eu sublimado: psicanálise da criatividade, Jean Guillaumin (1998) trabalha com a articulação entre processo sublimatório e reparação narcísica, promovida pela experiência de análise. O autor questiona a ideia de saída sublimatória como “resolutiva” para o conflito pulsional, já que tal saída necessitaria de uma autonomia da instância do Eu para ocorrer, condição que nem sempre se apresenta no início de uma análise. A ideia de um “Eu sublimado” indica que a sublimação pode ter como meta o próprio estranhamento e arrebatamento1 da estrutura narcísica do sujeito, fazendo advir daí sua potência de mudança.

Esta proposta se relaciona com os estudos pós-freudianos sobre a sublimação a partir do percurso teórico de Freud. Jean Laplanche (1989) é um dos principais estudiosos nesse âmbito, ao desdobrar, na teorização freudiana, a importância da alteridade no processo sublimatório. Com a ideia de que a formação do Eu acontece mediante o investimento pulsional de um outro, Laplanche propõe a existência de uma sublimação desde a origem, à medida que a constituição psíquica ocorre num processo contínuo de tradução das marcas deste encontro primordial.

Uma experiência de análise, com efeito, é marcada por uma disposição para encontrar, no sentido plural da palavra. Há o encontro factual: o espaço físico (ou virtual, se levarmos em conta as transformações trazidas pelo cenário pós-pandêmico). Há o encontro subjetivo, em que o sujeito reencontra suas histórias em versões anteriores e futuras de si, num trânsito entre passado, presente e futuro. E há, também, o encontro semântico, a partir da busca por sentido, por mais parcial e transitório que seja.

Com os princípios fundamentais da associação livre e da atenção flutuante, a cena analítica visa reproduzir, atualizar e, possivelmente, reparar marcas desse encontro primordial em torno do qual o sujeito se constituiu psiquicamente. Toca, portanto, em um processo sublimatório fundamental: a formação do Eu. Deste modo, propomos a importância da avaliação clínica sobre as particularidades das sublimações que cada paciente vai fazendo na vida e em si como guia na direção do tratamento. Vamos iniciar desenvolvendo alguns pontos relacionados à formação do Eu como superfície e como território.

O Eu como terreno

Antes de abordarmos brevemente as variáveis da sublimação na teoria psicanalítica, convém dizer que estamos tratando do Eu em seu sentido de inacabamento, como instância em permanente negociação com a alteridade. Em 1923, Freud indica que o Eu consiste, sobretudo, numa superfície corporal, tela onde se representam as imagens do corpo e dos ideais. Por essa razão, apresenta também papel regulador da economia psíquica do sujeito, fundamental no jogo de forças entre Id e Superego.

Além disso, trata-se de uma superfície composta de restos de vivências primitivas com a alteridade, a partir da premissa de que o Eu é um “precipitado de objetos abandonados” (Freud, 1923/2006). Esse processo de identificação se dá em simultâneo com a relação de diferenciação e reconhecimento pelo outro, na qual se apresentam ao sujeito suas mais nobres aspirações e suas mais dolorosas vivências. Portanto, na superfície desse terreno, na qual o sujeito se reconhece e se estranha, a sublimação está presente em seu sentido mais básico, à medida que o Eu só existe ao passo que internaliza seus objetos e transforma suas pulsões.

Com efeito, a experiência da perda desempenha papel fundamental no processo de identificação e formação do Eu, podendo ocorrer em variadas nuances de intensidade. As perdas estruturantes - ou traumas estruturantes, na visão de Ferenczi - como o desmame e a situação edípica, implicam a transformação da meta pulsional, convocando o psiquismo a investir sua libido em novas experiências de satisfação. No entanto, as transformações da meta pulsional não incidem apenas na libido, mas no próprio território do Eu, ao passo que o Eu pode ser tomado como objeto de amor (Freud, 1914/2006). Trata-se da “nova ação psíquica”, a da constituição narcísica, que ocorre na realização do trajeto que vai do abandono do Eu Ideal à formação do Ideal de Eu. Esse trajeto introduz o psiquismo na cultura a partir da percepção da diferença.

Logo, a formação do Eu não se realiza sem que alteridade e erotismo estejam presentes e possibilitem que o sujeito transforme o investimento que recebeu de um outro em investimento que produzirá em si, no caminho que envolve desenvolvimento corporal, idealizações e perdas. Por essa razão, Laplanche (1989) propõe que o Eu se forma mediante uma sublimação originária - na esteira do que Freud propôs como a ação do narcisismo, em 1914. Portanto, se admitimos que o Eu não consiste apenas num agente de sublimações, mas em um material sublimado em si mesmo, como observar essas nuances nas análises, para além das produções com destino cultural2? Qual a contribuição que a observação do mecanismo sublimatório pode ter na direção do tratamento de cada paciente? Para seguirmos adiante, convém sublinhar a utilidade dessa observação tanto nos casos marcados pelo retorno do recalcado como nos casos marcados pela repetição do trauma. Vejamos algumas considerações sobre a teorização a respeito da materialidade da sublimação na dimensão do aparelho psíquico.

O material sublimado

Na teorização clássica, a sublimação é considerada uma transformação pulsional que possui uma origem e um destino - por isso foi chamada por Freud em 1915 de um dos destinos da pulsão. A origem reside na alteridade: um material patogênico que tanto pode ser o retorno do recalcado quanto um evento traumático - mesmo porque ambos estão intimamente relacionados na articulação entre a primeira e a segunda teoria das pulsões de Freud (1905/2006; 1920/2006). A título esquemático, verificamos que: no primeiro caso, a sublimação seria um material que escapou ao recalque, ou seja, que permaneceu na memória consciente já com alguma transfiguração em si mesmo e que, por isso, compele o Ideal de Eu a buscar meios para expressá-lo. No segundo caso, teríamos a transformação do vivido traumático - carente de palavras - em atos de erotização. Para Freud (1920/2006), essa seria a função da pulsão de vida. Para Laplanche (2015), esse seria o trabalho tradutor do aparelho psíquico: da memória traumática à história de vida.

O recalque, com efeito, consiste num destino pulsional que vai se traduzindo ao longo da vida, com apoio na fantasia e na elaboração onírica. Como um dos destinos fundantes do psiquismo, ele sustenta a economia pulsional, possibilitando investimentos e contrainvestimentos eróticos. Já as defesas utilizadas no trauma, em geral, suscitam cadeias de repetição com força mais disruptiva do que as produções do inconsciente recalcado e mais ambivalentes, porque, por um lado, o material traumático está eternamente presente; por outro, jamais está, haja vista a inviabilidade da rememoração consciente. Por essa razão, na obra freudiana, a teoria do trauma não é apresentada como um destino pulsional, mas como um modo de defesa do Eu contra o colapso interno que o acometeria no caso do contato direto com a vivência geradora do trauma. Assim, a dor, a somatização e os atos aparecem na clínica como indícios de uma experiência que, simultaneamente, é excessiva e silenciosa (Fortes, 2012; Birman, 2013/2020).

Nem sempre sabemos se o que se apresenta na análise, seja pelo que o paciente diz e faz ou pelo que nós sentimos e vivenciamos para além de suas palavras ou atos, tem origem na angústia provocada pelo recalque ou no desamparo diante do trauma. Temos, sim, algumas pistas, por meio do veículo por onde o material se apresenta: se é pelo sonho e, por sua vez, se é de repetição ou não; se é pelo corpo que adoece ou que representa e apresenta algo na análise; se é pela intensidade dos afetos dirigidos à figura de cuidado no fenômeno transferencial. São modos de o sujeito se apresentar na sessão e que o convocam narcisicamente, em virtude de o encontro analítico guardar, em si, as características de um encontro primordial, como dissemos acima. Em outras palavras, convoca o contato com a “fonte” da formação narcísica, que é corporal (Freud, 1923/2006).

São formas de teorização sobre os sintomas que, na prática, vemos muitas vezes aglomerados numa só ação ou enunciado, que se repete por longos períodos, ou numa intensidade contratransferencial que dificulta a precisão da origem. Por exemplo: as compulsões, que por um lado estão intensamente ligadas ao trauma - excesso de intensidade versus incapacidade de representar - e que geram, por outro lado, a culpa ligada ao ato compulsivo, que já estaria ligada à presença da castração e à tentativa de inscrição num processo secundário. Ou seja, a dor traumática que origina a compulsão e a tentativa psíquica de historicizá-la podem coexistir, ainda que com mecanismos rudimentares. Com qual parte optamos por trabalhar e por quê? É justamente aí que a sublimação nos auxilia. Lembremos que, na visão freudiana, a origem do produto sublimado adviria dessas duas possibilidades: recalque e trauma. Abordemos essas nuances.

Recalque e sublimação pelo Eu

A teorização sobre a sublimação, em Freud, inicia associada ao modelo do recalque, apesar das diversas referências ao inacabamento do conceito pelo próprio autor e das mudanças que ele empreendeu ao tema, como veremos adiante. Todavia, neste início teórico, a sublimação aparece como mecanismo que permite a deserotização da pulsão ligada à representação patogênica e o consequente investimento da intensidade na realidade externa, mudando a meta pulsional. Por essa razão, é chamada de desvio.

No entanto, alguns autores pós-freudianos (principalmente Lacan e Laplanche) questionam e desenvolvem a ideia de que a sublimação seria um destino pulsional deserotizante, questão que foi pouco trabalhada por Freud e muito desenvolvida por Laplanche. No terceiro volume de Problemáticas, por exemplo, ele defende que, ainda que ocorra a deserotização pulsional, há algo na pulsão que nunca perde seu caráter erótico, pois essa deserotização implicaria num desligamento, característico de estados psíquicos mortificados. E, segundo a tese do autor, quando há sublimação, não é este o caso.

A transferência se insinua nesse ponto: na visão laplancheana, a sublimação não deserotiza, mas produz uma transferência da intensidade pulsional (represada no Eu) para um objeto externo, podendo ser o mais variado, não apenas a obra de arte. Nessa transferência, o erotismo não poderia, afinal, estar ausente, uma vez que se trataria de um investimento na vida. Sendo a relação transferencial, aliás, um campo propício para essa vitalização, a sublimação se marcaria, sobretudo, no modo como o sujeito se apresenta em análise. Pequenos detalhes, grandes figurações como: uma paciente que considera que não teve tempo suficiente com a mãe e que, em todo final de sessão, diz: “acabou meu tempo, né?”. Outra que tenta, por meio de intervenções cirúrgicas, livrar-se de parte de seu corpo e deixa, escrupulosamente, um copo d’água pela metade antes de ir embora do consultório. Esses pequenos atos, assim como construções de projetos de vida, ou mesmo de produções artísticas, apresentam em análise as transformações pulsionais que o sujeito vai tentando fazer no próprio ambiente analítico, sob o olhar do outro. A observação desse trânsito pulsional seria necessária, então, para que possamos compreender, como analistas, em que solo estamos pisando.

As sublimações feitas pelo Eu são, portanto, todas essas grandes e pequenas transformações em que podemos observar um Eu que se coloca como agente de apostas no mundo externo, capaz de suportar alguma passividade perante seus ideais. Oferece um campo interpretativo mais consistente ao(à) analista, que pode se colocar como leitor(a)/intérprete dessas manifestações. Se o material sublimável tem uma correspondência com o que escapou ao recalque, nesses casos, um caminho de análise possível seria o do reconhecimento da importância dessa transformação para que o sujeito possa reconhecer, em si, seus limites e desejos. Afinal, como afirma Monique David-Ménard (2014), numa perspectiva deleuziana, “o que um tratamento psicanalítico faz é exatamente transformar um sintoma que impede de viver em estilo de vida e de pensamento” (p. 65).

A incidência do trauma na clínica nem sempre permite uma leitura linear sobre o curso da elaboração psíquica e da relação transferencial, sendo marcada por situações de maior estranheza, ambivalência e irrupções de dimensão atuantes. Nem por isso os processos sublimatórios estão ausentes. Pelo contrário, pelo caráter altamente figurativo dos estados psíquicos assolados pelo trauma é que a sublimação pode alcançar potencial significativo de transformação em análise. Para compreendermos melhor essa via de trabalho, vamos retomar as bases dessa teorização no que diz respeito à articulação entre sublimação e trauma.

Trauma e sublimação no Eu

Como dito anteriormente, a ideia da sublimação como destino deserotizado é revista pelo próprio Freud quando reformula a teoria do trauma, momento em que ele a repensa como destino pulsional. De deserotização, a sublimação passa a significar a revitalização da pulsão de morte a partir da criação de novos objetos de investimento e sua consequente inscrição na pulsão de vida. Cabe dizer que essa reformulação ocorre, principalmente, como consequência da introdução do conceito de narcisismo na obra freudiana, como veremos brevemente a seguir.

Não se trataria, portanto, de uma retirada de libido de um objeto original para um novo objeto, mas uma fundação de um novo objeto no qual investir. Ocorre que é difícil imaginar, como indica Jean Guillaumin (1998), a fundação de um novo objeto sem que ocorra também a fundação de um novo Eu - ou uma parte sua anterior à do presente -, de modo que o Eu traumatizado pode ser visto, sobretudo, como um Eu sublimado - que retorna ao ponto das identificações primitivas garantidoras de um bem-estar psíquico.

Para Guillaumin, a sublimação no Eu se dá nesses casos em que o Eu se assemelha ao nível do Eu corporal, num movimento de regressão, razão pela qual a necessidade do olhar do outro é de fundamental importância. Nesse contexto, M’Uzan (1977/2019) afirma que, muitas vezes, recebemos esses casos em análise compreendendo a “fragilidade” narcísica em questão, percebendo seu movimento regressivo, mas deixamos de perceber o movimento progressivo das tentativas do Eu de se reparar, procurando, no passado, uma espécie de “oásis” de vitalização. Com efeito, a ideia de “fragilidade” pode ser questionada quando falamos de um Eu com potência suficiente para declarar o apagamento de si, resistindo a exigências externas e visando a uma reconstrução. M’Uzan aprofunda ainda mais essa proposta, dizendo que são casos que exigem e se beneficiam de um estado de “indiferenciação provisória” com o(a) analista, buscando um acontecimento que possibilite o surgimento de uma nova fonte de investimento pulsional (M’Uzan, 1977/2019).

Nesse mesmo contexto, Guillaumin fala de um processo de autocriação que se dá em nível projetivo e de mecanismos psíquicos primitivos, mas vigorosos no sentido da transformação e da figuração. Ele fornece alguns exemplos, como os casos em que domina a sedução por manifestações do duplo - um sujeito permanentemente “confundido” com um outro, e que convocaria o Eu a fundar em si uma alteridade. Além disso, ele também menciona a questão da repetição do mesmo - que, em análise, ganharia potência transformadora a partir de uma intervenção que vise a transformar a repetição do mesmo em repetição do diferente.

Para esses autores, as transformações a nível corporal que observamos nesses casos ultrapassam o campo da interpretação clássica centrada na representação, convocando um trabalho de análise centrado na recepção. Isso não quer dizer um olhar neutro, mas um olhar estético e criativo - no qual ambos possam permitir-se ocupar a posição de observador a partir de suas próprias estranhezas e arriscar-se nelas para trabalhar.

A sublimação do Eu seria, então, uma transformação pulsional na qual o psiquismo busca um destino não para o excesso, mas para o vazio. Ou, em outras palavras, um destino pulsional no qual a dimensão “pulsional” clama pelo olhar do outro para tomar forma. O caminho seria contrário ao deserotizante, já que o sujeito vai à análise buscando, sobretudo, uma relação vitalizadora que o auxilie a erotizar seus novos objetos de investimento, a começar pelo próprio Eu. Trata-se de uma sublimação no Eu, então, lembrando que, se a fundação de novos objetos necessita da fundação de um novo Eu, a fundação desse novo Eu necessita de uma relação erótica com um outro.

Os autores que mencionamos acima falam desse processo de sublimação no Eu como um trabalho que, em análise, tem potencial terapêutico se encararmos este material clínico como se estivéssemos diante de um objeto estético. Dele pouco sabemos, mas somos capazes de afetação, sublinhando na leitura clínica mais o caráter de estrangeirismo do inconsciente do que seu determinismo - ambos pilares da obra freudiana. Na cena clínica, essa procura funcionaria como uma intervenção de para-excitação que visa ao estabelecimento de novos signos de percepção capazes de transformação em energia psíquica. Em outras palavras, em novos pensáveis.

Lembremos que o “objeto estético” consiste num objeto - neste caso, o Eu - como um questionador do que surge de si, mas cuja potência encontra-se na recepção pelo outro e cuja função é a da diferenciação:

[o objeto estético] acena e interroga isso que dele emana imediatamente mas se refere a outros que não ele, anterior e exterior a ele, tende pelo trabalho das pulsões que lhe atravessa por assim dizer ele mesmo, a restituir ou a reencontrar com mais verdade em um dentro de si, este outro autêntico de si, dificilmente discernível em princípio. (Guillaumin, 1998, p. 3)

Estaríamos, portanto, num terreno constituído pela intersubjetividade da dupla analítica, à medida que entra em cena o domínio das percepções inconscientes (Coelho Junior, 1999). Esse trabalho exige do(a) analista que se deixe conduzir não só pela atenção flutuante e pela contratransferência, mas também por sua passividade narcísica e, consequentemente, pelas estranhezas atuantes na sessão. M’Uzan (1977/2019) inclui nesse panorama clínico os casos marcados pelo ato e pela dor, já que o ato não está ligado necessariamente a um passado inscrito. Ele próprio pode ser um ato de inscrição.

Sabemos que a transferência se apresenta como ferramenta valiosa na condução de análises nas quais impera a dimensão do trauma: atuações mortíferas, compulsão a repetir de forma imperativa, psicossomatizações, entre outras figuras. Nesses casos, o(a) analista encontra-se frente a estados de fragmentação e indiferenciação psíquica, os quais, como dito anteriormente, compõem o processo de sublimação originária e botam em cena um Eu aberto à alteridade. Antes de concluirmos, vamos articular esses fenômenos clínicos à transferência.

Transferência, sublimação e vitalidade

Na prática clínica, vemos que tanto a origem como o destino do material sublimado consistem numa mesma coisa (ou um mesmo núcleo): a origem é a dor, seja de lembrar o que fora esquecido, seja de tornar pensável. O destino é a transformação perceptiva sobre essa dor numa nova percepção sobre a qual o sujeito possa não apenas pensar, mas também desfrutar de uma autoapreciação em relação às suas produções como sujeito, bem como da apreensão pelo outro. O sujeito olha para suas produções, que lhe olham de volta, de maneira que o encontro analítico cria as condições de análise e é criado por elas (Guillaumin, 1998).

A sublimação trata deste processo em sentido amplo, pois consiste num destino pulsional que prioriza essa alteridade em relação a outros destinos, pois não segue a linha do recalque propriamente dito, nem retorna sobre o Eu, nem se transforma no oposto (Freud, 1915/2006). Trata-se, sobretudo, de um retorno do Eu a estágios anteriores de sua constituição, com objetivos de reparação a partir do endereçamento pulsional a um novo objeto. Nesse aspecto, podemos assemelhar o processo sublimatório ao processo transferencial.

Em 1912, em “A dinâmica da transferência”, Freud observa que cada um que frequenta seu consultório possui um modo característico de conduzir suas relações amorosas, o que lhe permite arriscar-se a tomar essa forma particular de condução do sentimento de amor como ferramenta de trabalho e de escuta. Por essa razão, situa o(a) analista como receptor(a) do investimento libidinal que ficou mantido em estado de espera, como uma das séries na qual o paciente inclui o investimento a ser transferido. O jogo de forças se dá, então, entre a oportunidade de reeditar o complexo patogênico e a necessidade de resistir ao tratamento, uma vez que a libido que ficou represada em estados anteriores do desenvolvimento psíquico resiste a ser liberada. Desse modo, o paciente mostra, na própria relação transferencial, como esse processo ocorreu e as vias para encontrar uma reparação possível (Freud, 1912/2006).

A conceitualização do narcisismo, pouco tempo depois do referido estudo sobre a transferência, promove a articulação entre a dinâmica transferencial e a tonalidade narcísica que o paciente constrói em análise, o que possibilita o endereçamento dos sentimentos, sejam eles amorosos ou hostis. O narcisismo, aliás, realiza um enlace teórico-clínico entre transferência e sublimação, a partir da observação clínica de que o Eu pode se tomar como objeto de amor (Freud, 1914/2006), como dito anteriormente em relação ao Eu como território. Essa formalização do narcisismo como conceito promove uma modificação importante na teorização da sublimação, em função de dois desenvolvimentos teóricos: o narcisismo solidifica o caminho da teoria do trauma e, consequentemente, a teoria do trauma modifica o modelo do dualismo pulsional, que passa a ser regido pelo jogo de forças entre pulsão de vida e pulsão de morte (Freud, 1920/2006). A sublimação, nesse contexto, está ao lado da vitalidade dos fenômenos psíquicos, a partir da busca pelas formas que poderão dar continência e sentido à compulsão a repetir - seja ela ligada ao recalque ou ao trauma. De toda forma, a sublimação passa a ser compreendida como triunfo da pulsão de vida, em contraponto à força da pulsão de morte (Birman, 2002).

Retomando nossa proposta, então, de diferenciar sublimação pelo Eu e sublimação no Eu, salientamos a importância da observação da forma como a transferência se instala, bem como da posição em que a figura do(a) analista é colocada, para além da função representativa. M’Uzan (2015) propõe que tanto mais concreta for essa posição, mais próximos estamos de uma análise que obedecerá à lógica das pulsões narcísicas, de autoinvestimento, de direcionamentos regressivos. Tomando a transferência como ferramenta constituída por sublimações, a análise poderá servir de meio para que a relação entre analista e paciente ganhe tonalidades dramáticas e, assim, mais enriquecedoras no sentido da diferenciação. Em outras palavras, ele sugere que o analista deve “entrar no jogo” dessas cenas de indiferenciação.

As sublimações pelo Eu seriam, assim, as transformações que obedecem à lógica das pulsões objetais e, neste sentido, há uma coerência mais significativa entre as produções em análise e fora dela. Além disso, há uma transferência mediada por um campo de significações que vão formando uma rede de sentidos. Já em relação ao movimento regressivo de que falamos anteriormente, é como se, nas sublimações em que o Eu é um agente, o movimento de regresso fosse dirigido até um ponto em que a libido se fixou, como excesso. Na sublimação em que o Eu é um objeto, que clama pelo olhar do analista como num grito, o retorno parece se dirigir até um ponto no qual o Eu abandonou a si e tenta, muito potencialmente, se reencontrar.

Considerações finais

Traçamos esta reflexão sobre a sublimação no sentido da particularidade deste trajeto - de origem a destino - e a sua complexidade quando se trata do agenciamento desse caminho. Muitas vezes, as transformações promovidas pela análise são aparentes na sessão e o caminho da interpretação pode ser tentador, porém infrutífero se temos em nossa frente alguém que vem à análise procurando, antes de um destino, uma origem nova para si a partir do olhar do outro.

A sublimação, portanto, se desenvolve como conceito no estudo psicanalítico como outros conceitos clínicos, desde que passou a se associar à vitalização da pulsão de morte no chamado segundo dualismo pulsional. O desenvolvimento do conceito, quando associado à situação clínica, principalmente à transferência, como vimos em Jean Guillaumin (1998), constitui o campo da psicanálise da criatividade.

Em outras palavras, a sublimação não se reduz à análise da produção de objetos e ações culturalmente aceitos, mas ao próprio momento da manifestação de elementos clínicos que visam à transformação pulsional e de sua recepção pelo outro. Convoca, portanto, a técnica a repensar que a criatividade está, sobretudo, no olhar clínico, à medida que se trata de um olhar constituído de apostas na mudança. A observação da transferência nos permite avaliar, então, como o sujeito realiza suas sublimações na própria materialidade desse encontro, de maneira que estaria aí uma boa parte da riqueza da situação clínica.

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os conjuntos de dados analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.
  • 1
    O termo “arrebatamento” vem sendo utilizado como uma das traduções para a palavra saisissement, utilizada na psicanálise francesa contemporânea, especialmente pelo psicanalista Michel de M´Uzan.
  • 2
    Ainda mais complexo é este problema, se considerarmos que a sublimação, geralmente, é associada a objetos ou realizações que atingem a valorização e aceitação pela cultura.

Editado por

  • Editor responsável:
    Izabel Cristina Gomes

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Fev 2024
  • Aceito
    06 Jun 2024
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