Open-access Lugar de fala: colaborações para uma ciência feminista, antirracista e decolonial

Speaking Place: collaborations for a feminist, anti-racist and decolonial Science

Place de la parole : des collaborations pour une science féministe, antiraciste et décoloniale

Lugar de discurso: colaboraciones por una ciencia feminista, antirracista y decolonial

Resumo:

Há muito a ciência alicerça discursos que promovem avanços e recuos na construção de cidadania. Contudo, a psicologia, ancorada em princípios éticos, é convocada ao compromisso de orientar seu saber para a promoção de justiça. Este trabalho objetiva: localizar argumentos que destaquem a relevância da obra O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro, para pensar ciência; compreender como colonialidade, epistemicídio e branquitude orientam a percepção do que é saber e ciência na cultura ocidental; e reconhecer a relevância da psicologia como campo científico potente para a transformação social. Discutimos no trabalho a ideia de ciência a partir da perspectiva apresentada no livro O que é lugar de fala?. A pesquisa teórica denuncia que a lógica branca apaga a produção de saber de pessoas não brancas, perdendo seu potencial colaborativo para a equidade social.

Palavras-chave:
feminismo; antirracismo; colonialismo; ciência

Abstract:

Science has long supported discourses that promote advances and setbacks in the construction of citizenship. However, Psychology, anchored in ethical principles, is called upon to commit to orienting its knowledge towards the promotion of justice. This work aims to: (1) procure arguments that highlight the relevance of the work Where we Stand, by Djamila Ribeiro, for reflecting on Science; (2) understand how coloniality, epistemicide and whiteness guide the perception of knowledge and science in Western culture; and (3) recognize the relevance of Psychology as a powerful scientific field for social transformation. We discuss here the idea of Science from the perspective presented in the book Where we Stand. Theoretical research denounces that white logic erases the knowledge produced by non-white people, losing its collaborative potential for social equity.

Keywords:
feminism; anti-racism; colonialism; science

Résumé:

Depuis longtemps, la science sous-tend les discours qui favorisent les avancées et les reculs dans la construction de la citoyenneté. Cependant, la psychologie, ancrée dans des principes éthiques, est appelée à s’engager à orienter son savoir vers la promotion de la justice. Ce travail vise à : (1) trouver des arguments qui soulignent la pertinence de l’ouvrage La place de la parole noir, de Djamila Ribeiro, pour penser la science ; (2) comprendre comment la colonialité, l’épistémicide et la blancheur guident la perception de ce qu’est le savoir et la science dans la culture occidentale ; et (3) reconnaître la pertinence de la psychologie en tant que domaine scientifique puissant pour la transformation sociale. Nous discutons ici de l’idée de science à partir de la perspective présentée dans le livre La place de la parole noir. La recherche théorique dénonce le fait que la logique blanche efface la production de savoir des personnes non blanches, perdant ainsi son potentiel collaboratif pour l’équité sociale.

Mots-clés:
féminisme; l’antiracisme; colonialisme; science

Resumen:

La ciencia ha apoyado durante mucho tiempo discursos que promueven avances y retrocesos en la construcción de ciudadanía. Sin embargo, la Psicología anclada en principios éticos está llamada a comprometerse a orientar sus conocimientos hacia la promoción de la justicia. Este trabajo tiene como objetivo: localizar argumentos que resalten la relevancia de la obra O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro, para pensar la ciencia; comprender cómo la colonialidad, el epistemicidio y la blancura guían la percepción del conocimiento y la ciencia en la cultura occidental; y reconocer la relevancia de la Psicología como un campo científico poderoso para la transformación social. Discutimos en este trabajo la idea de ciencia desde la perspectiva presentada en el libro O que é lugar de fala? La investigación teórica denuncia que la lógica blanca borra la producción de conocimiento por parte de personas no blancas perdiendo su potencial colaborativo para la equidad social.

Palabras clave:
feminismo; antirracismo; colonialismo; ciencia

Há pouco mais de 500 anos, povos originários foram destituídos de suas terras, escravizados, exterminados, e seus saberes, costumes e práticas subalternizados e apagados. As invasões coloniais europeias nos territórios nomeados como Américas apresentam o projeto de dominação, exploração e colonização entre nações. Supõe-se aí uma superioridade nata que não é associada à exploração econômica, escravização e genocídio. Colonizadores europeus consolidaram, a partir das chamadas grandes navegações, as demarcações de poder entre os povos brancos e não brancos, a internacionalização da exploração capitalista e a interferência direta na produção de identidades sociais e geopolíticas.

Reconhecendo o avançar do tempo, a linguista Emilly Santos e o jurista Ygor Santanna (2022) diferenciam as noções de colonialismo e colonialidade, sinalizando que o primeiro se refere ao modo de organização econômica e jurídica que estabelecia a relação colônia-metrópole, comumente exercitado entre os séculos XVI e XX. Já a colonialidade retoma a ideia de que, mesmo após o fim da organização econômica disposta no colonialismo, permanecem processos hierarquização de poder pautadas em elementos de raça, gênero e trabalho, subalternizando povos, destituindo soberanias, apagando processos culturais e que continuam em operação até hoje.

O sociólogo peruano Aníbal Quijano (2007) nos conta que a colonialidade detém tecnologias de exploração e dominação que apaga, inferioriza e demoniza formas não coloniais de existir. Ela domina de maneira sangrenta e simbólica as práticas e subjetividades, os modos de existir e de se nomear e, acima de tudo, a detenção do poder sobre a verdade, inclusive, do que é ciência.

Para a linguista Lívia Baptista (2022), Quijano (2007) e Santos e Santanna (2022), a colonialidade constrói uma ficção geopolítica permitindo que o colonialismo estabeleça a hierarquização pautada na raça e na demarcação de um novo padrão mundial de poder dualizado pelo colonial/moderno. O estabelecimento dessa dualidade inaugura a raça como tecnologia para uma soberania dominadora de uma nação moderna sobre territórios coloniais.

A própria ideia da ciência moderna e ocidental se funde à ideia positivista que reconhece o caráter científico apenas da observação empírica, da experimentação e da análise quantitativa dos fenômenos naturais e sociais. A produção de conhecimento é apresentada na narrativa branca a partir da busca por fatos concretos e verificáveis, verdades, em oposição a especulações ou suposições subjetivas.

Martins e Theóphilo (2009), ao construírem seu manual orientador de metodologias científicas, acenam que a neutralidade e a objetividade são princípios fundamentais dentro do contexto científico, propondo: (1) a valorização da postura imparcial em relação ao objeto de estudo, evitando que influências pessoais distorçam a interpretação dos dados; e (2) a aplicação de métodos e técnicas que minimizam viés e subjetividade, gerindo preferências individuais ou tendências emocionais.

Contudo, acreditamos que a obra O que é lugar de fala?, da filósofa Djamila Ribeiro, é constituída de argumentos que nos permitem reconhecer essa proposição de ciência como ilusória, não sendo possível blindar a produção da presença subjetiva de quem pesquisa. Existem, portanto, outros modos de conceber o saber e a ciência que ou são apagados ou subalternizados.

Como nos acenam o psicólogo Leôncio Camino e a psicóloga Eliana Ismael (2004), entre avanços e recuos, há muito a psicologia é disputada para a sustentação de discursos que promovem exclusão e inclusão social. A psicologia é um campo do saber que tem a implicação ética, teórica e política de dedicar sua produção também para a promoção de uma sociedade mais equânime. Posto isso, sua incursão científica não deve se esquivar do compromisso de reparação e recontação histórica, considerando, especialmente, sua histórica negligência a olhares e epistemologias feministas, negras e decoloniais.

Para tanto, precisamos compreender que atravessamentos colonialistas constituem o modo de construir o saber e a ciência como um todo, inclusive a psicologia. Assim, este trabalho objetiva: (1) localizar argumentos que nos permitam entender a relevância da obra O que é lugar de fala?, de Ribeiro (2017/2019a), para pensar ciência; (2) costurar a argumentação de Djamila Ribeiro a de autoras e autores que debatem colonialidade, epistemicídio e branquitude como fenômenos que orientam a percepção do que é ciência na cultura ocidental; (3) reconhecer a relevância da psicologia social como campo científico potente para a produção localizada e comprometida com a transformação social; e (4) equivaler o saber contra-hegemônico e descolonizado ao saber científico.

Método

Garcia-Roza (1994) nos apresenta a pesquisa teórica como uma metodologia que nos possibilita revisitar teorias e rearticular debates a partir dos quais remodelamos conceitos, ideias e fundamentações. Neste trabalho, revisitamos a ideia de ciência sinalizando aspectos colonialistas, epistemicidas e brancos que orientam os moldes em que o saber científico se apresenta.

Essa incursão é orientada pelos debates incitados na obra O que é lugar de fala?, de Ribeiro (2017/2019a), a partir da qual denuncia o eurocentrismo branco como referência universal para consolidar inúmeras estruturas, entre as quais a ciência. A autora aponta que a centralidade de que dispõe a perspectiva branca se dá à custa do silenciamento, apagamento e impedimento de um protagonismo não branco, a exemplo de inúmeras contribuições de pessoas negras, especialmente mulheres, em espaços de produção científica. Segundo ela, fenômenos como a colonialidade, o epistemicídio e a branquitude gerenciam o que é reconhecido como saber, manipulando debates, controlando acessos e sinalizando quais pessoas estão habilitadas a protagonizar tais discussões.

Organizado num viés metodológico qualitativo, desenvolvemos essa pesquisa teórica em três sessões. Na primeira sessão, evocamos os argumentos discutidos na obra O que é lugar de fala?, de Ribeiro (2017/2019a), para compreender que atravessamentos sociais contribuem para a formação da ideia de ciência ocidental. Ao longo da apresentação dos argumentos da obra, costuramos o debate com produções que dialogassem diretamente com as provocações da autora. Na segunda sessão, apresentamos a psicologia social como campo do saber exemplo de exercício simultâneo de ética e produção científica. Por fim, na terceira sessão arrematamos o debate acenando para a importância do saber contra-hegemônico e descolonizado ser reconhecido também como saber científico.

A busca das produções elencadas para contribuir com o debate da primeira sessão se deu da seguinte forma: a partir da plataforma Google Acadêmico, pesquisamos produções a partir das seguintes chaves de busca: (1) produção de saber e colonialidade; (2) produção de saber e epistemicídio; e (3) produção de saber e branquitude. Selecionamos inicialmente produções que discutissem de maneira substancial e simultânea os elementos sinalizados nos buscadores, bem como que tivessem sido citadas por, pelo menos, cinco trabalhos diferentes, o que, a nosso ver, conferiria ao trabalho alguma circulação científica. Após essa seleção, decidimos, a partir da técnica de leitura dinâmica, manter na composição deste trabalho apenas produções que dialogassem com as provocações de Ribeiro (2017/2019a), nos permitindo adensar o diálogo intencionado.

Assim, o debate se desenvolve não pela setorização dos buscadores, mas pelo fluxo argumentativo da obra O que é lugar de fala?. Essa decisão coopera para uma mescla discursiva orientando que os argumentos foquem aspectos ora de colonialidade, ora de epistemicídio, ora de branquitude. O intuito desse estilo é apresentar, como num bordado, uma trama complexa que se autossustenta e contribui para o enaltecimento de produções de interesse hegemônico.

A proposta desta pesquisa teórica é criticar a ideia de ciência ocidental, identificando como sua lógica branca apaga ou rouba a produção de saber de pessoas não brancas, conferindo destaque apenas a óticas, estéticas e pautas alinhadas a interesses hegemônicos.

Reconhecendo afinidade entre os argumentos da obra O que é lugar de fala? e os de autoras e autores que debatem colonialidade, epistemicídio e branquitude, acreditamos ser a psicologia social um campo do saber com o dever ético de produzir ciência de forma localizada e comprometida com a equidade social.

Lugar de fala

O que é lugar de fala? é o nome da obra que deu destaque midiático a Djamila Ribeiro, convocando-a a ocupar espaços populares para debater especialmente questões articuladas a gênero, classe e raça.

A autora é uma importante representante da luta feminista e antirracista e, ao mesmo tempo que constrói suas discussões em espaços mais acessíveis à grande população, como programas de TV, redes sociais e livros de linguagem compreensível e preços módicos, complexifica esses debates ao apontar o apagamento do protagonismo de mulheres negras no movimento feminista, o epistemicídio de pensadoras e pensadores negros e as dinâmicas estruturais que transformam classe, raça, gênero e sexualidade em elementos de opressão e fortalecimento de privilégios.

Nesse contexto, Ribeiro (2017/2019a) anuncia em sua obra a proposição do conceito de lugar de fala como referência para pensarmos o locus social que ocupamos e a partir do qual se constroem as lentes que nos fazem enxergar o mundo.

Ribeiro (2017/2019a) anuncia o ponto-chave desse debate ao sinalizar que “aqui estamos falando em nosso nome” (p. 15). Isso acena para duas importantes denúncias importadas dos escritos da filósofa Lélia Gonzalez (2018): (1) presumir que pessoas negras em posição de protagonismo têm sua integridade arriscada, ao mesmo tempo que o destaque por si só já é um ataque à estrutura branca que os apaga; e (2) compreender que estamos estruturalmente forjados em uma cultura que não oportuniza que pessoas negras falem por si, de modo que elas têm sido observadas, pensadas e narradas por sujeitos brancos dotados de privilégio e escuta ofertados pela hegemonia.

Assim, interrompo a narrativa em primeira pessoa do plural para sinalizar quem vos fala, não como confessionário, mas como reconhecimento do meu locus social e localização de saber: sou homem, “viado”, branco, carioca, candomblecista, psicólogo e pesquisador em estudos de gênero. É daqui que se constrói a lente que propõe essa escrita e reafirma o compromisso ético da psicologia para com a promoção de uma ciência feminista, antirracista e decolonial.

Reflexões localizadas

Ribeiro (2017/2019a) introduz a discussão sobre uma importante ferramenta política que é a oportunização do aparecimento de diferentes vozes e narrativas. Para a autora, a estruturação disso em produções escritas dá forma ao pleito político. Por isso a coleção Feminismos Plurais é fundada para oportunizar, através de valor e linguagem acessíveis, o aparecimento de “produções intelectuais de grupos historicamente marginalizados”, reconhecendo esses grupos como sujeitos políticos e propondo uma descolonização do pensamento (p. 13).

Afirmando que “as produções de feministas negras unem uma preocupação que vincula a sofisticação intelectual com a prática política” (Ribeiro, 2017/2019a, p. 9), Ribeiro alinha sua obra ao movimento de produções de autoras e autores latino-americanos interessados na construção de uma epistemologia alicerçada em referências e saberes construídos e pensados pelo e para o sul, como a cientista política Luciana Ballestrin (2013), a linguista Deise Ferreira (2022) e a filósofa Lélia Gonzalez (2020). Gonzalez (2020), já na década de 1980, convidava teóricas e militantes feministas a se inclinarem a pautas, discussões e realidades afro-latino-americanas, a fim de pensar mulheres que partilham experiências de colonização e subalternização, mas também de resistência.

A prevalência da narrativa do colonizador se deu para apagar saberes, culturas e existências de povos originários dessas terras, bem como de povos trazidos para cá para que prosperassem os invasores. Apesar dos esforços de aniquilamento e catequização, a resistência e influência de povos, especialmente indígenas e negros, desenham fortemente signos de nossa identidade latina. Tensiona-se, assim, os projetos da branquitude de apagamento de outras existências e as narrativas para a padronização e universalização da presença e referência branca para a história. Gonzalez (2020) propõe que tenhamos um registro de “latinoamérica” que reconheça nossos processos históricos próprios, diferentes do experienciado pela América do Norte ou África. A teórica propõe que assumamos um letramento racial e social para reconhecermos um lugar de identidade criado diferente do proposto pela branquitude e pela colonialidade.

Sobre tal referência colonizadora, nos sinaliza a filósofa argentina Gabriela Veronelli (2019, p. 148, tradução nossa) que ela é estabelecida por: um sujeito de fala colonial normativa (que é branco, homem, cristão, burguês, hetero-normativo fisicamente capacitado) que organiza e dá sentido a uma construção normativa da sociedade colonial, que continua até o presente.

Após introduzir brevemente os marcos das primeiras ondas feministas, Ribeiro (2017/2019a) denuncia práticas epistemicidas e racistas na história do feminismo. Ativistas negras estadunidenses, como Sojourner Truth, bell hooks e Audre Lorde, entre outras mulheres, tiveram sua participação minimizada, quando não apagada dos espaços de produção e reconhecimento, mesmo dentro da luta pela igualdade de gênero.

Ribeiro (2019b) define epistemicídio como “apagamento sistemático de produções e saberes produzidos por grupos oprimidos” (p. 61). Esse apagamento serve à branquitude, um sistema de poder que reafirma uma posição de supremacia branca a partir da subalternização de outras raças. Dessa forma privilegia-se o grupo de pessoas de pele e traços fenotipicamente lidos como brancos, oferecendo-lhes o poder de nomear e definir o outro, bem como outras formas de gozar dessa prerrogativa garantindo vantagens para seu grupo.

Ser branco não é apenas demarcar corpos que são privilegiados sobre corpos não brancos, mas também aponta processos de tentativa de apagamento de signos não brancos, de enaltecimento de elementos ligados à brancura e de demarcação do branco não como uma raça, como as demais, mas como a referência, o padrão a ser buscado e para o qual todos os interesses devem se voltar. Sobre isso, o psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon (1952/2008) aponta que, na colonização, há uma construção da dualidade ser e não ser, na qual o ser remete a pessoas brancas, e o não ser remete a pessoas não brancas, criando uma legitimação da existência humana, do ser e estar no mundo a partir do ser branco.

Dessa forma, consolida-se a branquitude como um fenômeno que demarca poder, alimenta as práticas coloniais e é por elas reiterado. A branquitude disfarça processos sangrentos de hierarquização de raças na medida em que apresenta características brancas como a referência, o padrão, o normal e o desejável em aspectos estéticos, culturais e relacionais. São as pessoas e a cultura branca que são apresentadas como heróis nacionais, referências de beleza, destaques positivos, com presença maciça na mídia e para as quais o sucesso está direcionado. Esses elementos se inscrevem na cultura de maneira insistente criando uma ficção de que são naturais e não construídos a partir do processo de racialização.

Segundo Ribeiro (2017/2019a, 2019b), visando à manutenção da branquitude, a colonialidade não apenas é instalada e opera há séculos no território americano, como também manipula nossa ideia de saber e ciência para o estabelecimento de noções do que é certo ou verdade. Nessa circunstância, além dos desafios para o acesso à academia e aos espaços de produção de saber convencionados pela ciência ocidental, intelectuais negras e negros são descaracterizados como produtores de saber de qualidade.

Considerando que a colonialidade opera recursos para o apagamento sistemático de pessoas não brancas, reconhecemos que a branquitude e a colonialidade mantêm práticas racistas, misóginas, xenofóbicas, epistemicidas no cotidiano, inclusive de produção de saber.

Para o linguista e ativista Fábio de Almeida (2022), o epistemicídio é uma recusa de colonialidade que racializa e estabelece biopoder. Ao determinar critérios sobre quais existências têm relevância social, compreendemos que o poder incide inclusive sobre o que terá legitimidade sócio-histórica e status de verdade.

O filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe (2017) nos ensina que a ideia de raça foi uma invenção europeia, interessada na contínua expansão econômica a partir da demarcação de uma superioridade de povos. Para ele, convencionar costumes e modos de existir não é apenas uma forma de organização social, mas de mobilizar esses elementos para justificar sistemas econômicos, auxiliar esquemas de produção e garantir a submissão de grupos à hegemonia. Apesar de nesse sistema a vida ter valor menor que a propriedade, a população é instigada à possível ideia de aquisição, seja de patrimônio, de alforria ou de dignidade. A meritocracia aparece fortemente como ideal para concentrar o sujeito em estratégias para ascender na pirâmide social e não questionar os moldes de sua existência.

O ativista indígena Ailton Krenak (2024), em seu livro Futuro ancestral, discorre sobre o apagamento colonialista de saberes indígenas e seus modos de existir, sistematicamente nomeados como primitivos. O autor acena para a importância dos saberes de povos originários na construção de outras estratégias para o progresso, de uma relação menos predatória com os recursos naturais e de uma vida mais harmônica em comunidade.

É pela neutralização e extinção das diferenças, universalização dos costumes, homogeneização e higienização de modos de existir que a colonialidade se mantém por séculos a fio. É por essa estratégia que a ciência branca segue como referência de verdade.

A ideia de uma ciência neutra, objetiva e universal forja uma horizontalidade nos modos de produzir conhecimento. Supostamente, qualquer um que estude, se dedique, tenha hipóteses instigantes e método científico adequado é capaz de produzir conhecimento. Contudo, sabemos que se trata de uma ficção fundada numa estrutura de poder. Desde a escolha metodológica, passando pelas(os) autoras(es) que elegemos para o diálogo textual, até as próprias condições da ocorrência da pesquisa, todos são elementos que enviesam e determinam o que será percebido como ciência.

Ao camuflar o jogo de poder que gerencia oportunidades de produzir e reconhecer o que é conhecimento, a lógica branca, epistemicida e colonialista segue a controlar saberes e protagonismos.

Como exemplo da universalidade de referências eurocêntricas e do apagamento de perspectivas não brancas no campo científico, a socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2021) apresenta um debate articulando colonialidade e gênero em seu livro A invenção das mulheres. Segundo a autora, para estudar gênero numa perspectiva africana, é preciso pensar gênero sob perspectivas pré-coloniais e descolado da importação de referências eurocentradas. A autora organiza seu trabalho a partir da sociedade iorubá, segundo a qual o gênero é uma construção implantada em seu povo a partir da colonização.

Para Oyěwùmí (2021), os paradigmas que atravessam a estruturação social não estão fundados na diferença biológica dos sexos, mas no poder que é conferido à senioridade. A existência do sujeito está fundada no coletivo ao qual pertence. Dessa forma, a sociedade iorubá não apenas é composta de famílias numerosas e poligâmicas, como também valoriza o desenvolvimento dos mais novos, que são de suma importância para vitalizar o coletivo. Assim, as mães cumprem a importante função de gestar e os mais velhos guardam memórias daquele povo e são transmissores de conhecimento aos seus descendentes, cabendo a toda a comunidade o cuidado a partir da divisão de tarefas.

Posto isso, Oyěwùmí (2021) não reconhece o gênero enquanto elemento fundante do ser humano, mas uma perspectiva organizadora advinda de invasões coloniais. Por sua vez, propõe que pensemos tais debates e a experiência de mulheres africanas por perspectivas não hegemônicas., Tomando por base a figura mítica da divindade iorubá Oxum, ela chama essa perspectiva de Oxunismo. Tal reconhecimento é fundamental para que se compreenda que as reflexões generificadas não são passíveis de universalização, porque existem modos civilizatórios que não se ancoram em tais perspectivas, como tenta pautar o eurocentrismo.

Fanon (1952/2008), ao discutir os processos simbólicos que atravessam a constituição de identidades negras, sinaliza que a violência colonial atua sobre o colonizado. Para ele, a colonialidade incide sobre pessoas negras orientando a adoção de comportamentos do colonizador branco europeu apresentados como referências. Assim, apenas a partir da performance desse embranquecimento pessoas negras seriam mais aceitas, humanizadas e protegidas de violências.

Fanon (1952/2008) sinaliza que há efeito da violência racial e colonial na subjetividade de pessoas negras, que, na busca por inteligibilidade e por escapar de violências, tentam performar um ideal de brancura. Assim como o gênero, que se impõe para povos iorubás a partir da colonização, esse ideal é inalcançável e orienta o controle de corpos a partir do enaltecimento de estéticas e comportamentos brancos.

Palavrear sensações, percepções, comportamentos é fundamental para a inserção de sujeitos na cultura. A palavra é o meio pelo qual ocorre o exercício ativo da linguagem. O modo como a palavra é manipulada aponta atravessamentos de poder, reconhecimento do interlocutor e revisão do processo simbólico acionado ao entrar em contato com o significante (Fanon, 1952/2008; Ribeiro, 2017/2019a).

Para Ribeiro (2017/2019a), a descolonização do conhecimento só é possível se nos atentarmos à identidade social que nos constitui. A filósofa estadunidense Donna Haraway (1995) já destacava a importância da localização do saber para a construção de uma ciência alinhada às epistemologias feministas. Segundo a autora, as perspectivas que dominam espaços científicos pautando o que será chamado de saber e verdade estão ancoradas em privilégios alimentados pela hegemonia branca eurocêntrica.

Camino e Ismael (2004), por sua vez, nos convocam a pensar a autoridade acadêmica, especialmente a da psicologia, que, acobertada pela notoriedade científica, muitas vezes contribuiu com a construção de processos de violência e exclusão. Seja ao diferenciar habilidades a partir do gênero até estabelecer critérios raciais para identificar inteligências, a psicologia historicamente contribuiu muito para discrepâncias sociais que interferem na promoção de cidadania.

Os juristas Evandro Duarte e Marcos Queiroz (2024) nos contam que, especialmente com a contribuição de Oliveira Viana, a psicologia teve forte participação teórica na construção do projeto de embranquecimento do Brasil. Oliveira Viana se valia de argumentos supostamente científicos para defender ideias de cunho eugenista. O teórico associava o atraso social e econômico do país à contaminação racial promovida pela miscigenação durante o período escravocrata. Por consequência, valendo-se da posição de saber psicológico, sua perspectiva defendia o aprimoramento da população brasileira a partir da imigração europeia e branqueamento do povo.

Ao pensar aspectos identitários, Ribeiro (2017/2019a) sinaliza que “confrontar a norma não é meramente falar de identidades, mas desvelar o uso feito pelas instituições para oprimir e privilegiar” (p. 31). Dessa forma, não basta apontar o lugar de onde se fala sem crítica social. É necessário que a afirmação identitária reconheça que as estruturas constituem modos de existir ou de apagar existências socialmente.

Tal como apontado por Duarte e Queiroz (2024), valendo-se da posição de ciência neutra e objetiva, foram articulados argumentos disfarçados de saber psicológico para alimentar projetos violentos e racistas num passado muito recente.

Assim, a possibilidade de enunciação e a perspectiva discursiva se articulam à identidade social e cultural de quem se propõe a dizer e ao valor atribuído, ou não, à sua voz. Corpos têm o direito de existir na vida real e devem ter a oportunidade de serem lidos como inteligíveis (Ferreira, 2022).

Ribeiro (2017/2019a) se dedica a explanar a ideia de outro posta em O segundo sexo (1949/2000) pela filósofa francesa Simone de Beauvoir. A autora, que era branca, europeia e teve grande relevância para a luta feminista do século XX, sinaliza que a mulher não é definida em si, mas como o outro do homem.

Tecendo uma crítica ao pensamento que universaliza a categoria mulher, Ribeiro (2017/2019a) traz a ideia de que a “mulher preta é o outro do outro” (p. 37) ou, como apresenta a socióloga estadunidense Patricia Collins (2016) no texto Outsider within, mulheres negras são forasteiras de dentro. Baseada no conceito de interseccionalidade, Ribeiro (2017/2019a) afirma que experiências sociais e processos de violência de gênero são atravessados por dilemas de classe e raça, por exemplo, impedindo a universalização da categoria mulher e da sua vulnerabilidade.

A construção da ideia de Outro é cunhada a partir da atenção e rechaço às diferenças (tratadas como desigualdades) e à coisificação desse estranho. A invenção da raça tem a função de sinalizar, controlar e subjugar quem não é branco, não é europeu e não parte das mesmas lógicas civilizatórias (Mbembe, 2017).

A ativista feminista e antirracista estadunidense bell hooks, em sua obra Teoria feminista: da margem ao centro, lançada em 1984 e traduzida para o português em 2019, já acenava para o fato de que não há como lutar para igualdade de gênero sem considerarmos como aspectos de classe e raça alimentam tal violência. hooks (1984/2019) critica a ideia de opressão comum entre as mulheres, vez que o sexismo opera de maneiras diferentes e que a realidade interseccional promove diferentes acessos e tratamento mesmo entre mulheres.

Para hooks (1984/2019), a generalização não permite que o debate alcance mulheres de realidades múltiplas, pois ao apagarmos as diferenças tornamos o feminismo uma perspectiva apolítica e não revolucionária. A resistência está na compreensão de que o feminismo não é uma luta acabada, mas em reconstrução, devendo ser contrário à ideia de opressão comum e a pressupostos neoliberais e racistas. Assim, não há luta contra o sexismo sem a luta contra o racismo e a luta de classe.

Afinada ao argumento de Ribeiro (2017/2019a) pela importância da popularização do saber e da notoriedade do que é saber, hooks (1984/2019) destaca a importância da educação de base e da instrução de mulheres como estratégia para a luta feminista e para a construção de uma cultura menos sexista, racista e classista. A leitura e escrita, assim como a história oral, são recursos importantes para a difusão de outras narrativas sobre ser mulher e sobre a oportunização de acessos ao debate.

A escritora e poetisa Carolina Maria de Jesus, na obra Quarto de despejo (1960/1993), e a ativista paquistanesa Malala Yousafzai (2013), na obra que leva seu nome, nos apontam a mesma estratégia a partir de realidades temporalmente muito diferentes: a escrita é potência de reafirmação, de garantia de existência. Palavra é poder.

Se palavra é poder e falar é existir, o volume e a oportunidade de aparecimento dessas vozes dependem de uma estrutura social que permita que falas apareçam. É por isso que “a autodefinição é importante para enfrentar uma visão colonial” (Ribeiro, 2017/2019a, p. 75).

Para Fanon (1952/2008), “falar é estar em condições de empregar certa sintaxe, possuir a morfologia de tal ou qual língua, mas é, sobretudo, assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (p. 33). Dessa forma, aprender uma língua é apropriar-se de uma cultura e ser apropriado também por ela.

Assim, lugar de fala não é perspectiva, não é vivência, é uma posição discursiva dentro de uma matriz de dominação, de relações hierárquicas e desiguais. Falar, portanto, é pensar projetos de poder que privilegiam e silenciam. Ao questionar esse padrão, branquitude, colonialidade e epistemicídio se tornam campos de estudo também. “Pensar o lugar de fala rompe o silencio instituído para quem foi subalternizado” (Ribeiro, 2017/2019a, p.89). Apesar de os acessos não serem dados de maneira equânime, vozes insubordinadas têm criado rachaduras, ruídos na narrativa hegemônica.

Psicologia em atuação política

O comunicador Leandro Colling (2015) nos conta que o gênero e a sexualidade foram pensados e repensados ao longo da História. Essas revisitas sobre o assunto tiveram articulação com as lutas dos movimentos feministas, negros e LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, travestis, transexuais, transgêneres, queer, intersexuais, assexuais, pessoas não binárias…) e passaram se firmar como fértil campo de estudos para diversas áreas do conhecimento, entre as quais a psicologia.

A psicologia é campo de disputa que ora fomenta ora negligencia processos de exclusão e inclusão social. Tal percurso interage diretamente com os princípios éticos firmados para a profissão, suas incursões teóricas e os impactos políticos de suas produções.

A psicologia como um todo, em especial a psicologia social, não pode se furtar de compreender fenômenos de subalternização e inferiorização em nossa cultura. Assim, ela é convocada a se comprometer com processos de reparação histórica, deixando claras as intenções do saber que constrói (Camino & Ismael, 2004).

A aliança entre a psicologia e as pautas promovidas pelos movimentos sociais se estreita à medida que o campo se interessa também por práticas culturais, estruturas sociais e fenômenos de violência. Desse modo, pensar a psicologia em interface com a militância nos oferece mais do que uma articulação de campos de saber; oferece um estreitamento que colabora para a criação de novas epistemologias, ampliação de lentes de análise e promoção de direitos. Da mesma forma, a aproximação entre psicologia e militância cria pontes que aproximam esta última do conhecimento científico e da universidade, bem como possibilita que a ciência tenha produções escritas, encontros e atividades de extensão com a devida instrumentalização argumentativa potencializada pela aproximação com o ativismo político.

É impossível pensar o impacto político da produção científica sem se perguntar que tipo de ciência orienta a produção de conhecimento, onde e quem o produz, que contexto sócio-histórico tem sido considerado e de onde vem seu fomento.

Também é fundamental considerar que trazer à baila processos de hierarquização, oportunização e apagamento que atravessam a produção científica nos permite entender como se dá a circulação de discursos, análises e saberes de maneira mais equânime.

Uma psicologia social e militante

A psicologia social se funda no interesse de compreender as relações entre o sujeito e a cultura. Para além de explorações exclusivamente cognitivistas ou sociológicas, a psicologia social se lança à compreensão de como estruturas sociais, práticas discursivas, contextos históricos e processos da cultura se articulam à subjetividade de sujeitos, interferindo-se simultaneamente. Dessa forma, o sujeito como interferido e interventor nas práticas sociais interessa muito a esse campo do conhecimento, bem como a sua potência de replicar ou desarticular processos de desigualdade (Miez, 2024a).

Tendo bebido de teorias estadunidenses e europeias, a psicologia social brasileira surge, sobretudo a partir da década de 1970, como um campo atento à realidade e às necessidades de transformação social do próprio país. Com base nesse histórico, a psicologia social tem como material de investigação processos de desigualdade e, por consequência, fenômenos de subalternização e inferiorização.

A psicologia social acena para a construção de subjetividades a partir de sistemas simbólicos e discursos que se sustentam e opressões embasadas em lógicas de poder. Tais hierarquias decidem como o meio social se organiza e acolhe determinadas existências, orientando-as para experiências de privilégio ou violência. Identidades são estruturadas em relações sociais e atravessadas por discursos normativos que inferiorizam determinadas existências não hegemônicas, como pessoas negras, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas pobres, entre outras.

Camino e Ismael (2004) sublinham que a psicologia social precisa assumir um posicionamento ético e político ante as desigualdades estruturais, sendo convocada a participar dos processos de reparação histórica e promoção da justiça social. Essa postura está alinhada com os próprios princípios fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo.

Profissionais de psicologia estão submetidos(as) ao seu Código de Ética bem como aos seus princípios fundamentais, orientações primárias que direcionam o compromisso para uma zelosa atuação profissional. Dentre os diversos acenos, destacamos o compromisso da(o) profissional, bem como do campo, com a promoção de uma sociedade equânime, denunciando violências, combatendo opressões e colaborando com políticas de promoção de igualdade e reparação histórica.

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural. IV. O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da psicologia como campo científico de conhecimento e de prática. V. O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão. (Resolução CFP nº 010/2005, 2005, p. 7)

Assim, conforme apontado nos princípios fundamentais da(o) psicóloga(o), entendemos que as orientações que instruem a prática ética da psicologia encontram na psicologia social a possibilidade de: (1) compreender os mecanismos de estruturas de poder e seus efeitos sobre a subjetividade; (2) denunciar e desnaturalizar discursos normativos que produzem hierarquizações sociais; (3) descortinar fenômenos de subalternização e garantia de privilégios, como colonialidade, epistemicídio e branquitude; (4) instigar insurgências e práticas de resistência, dentro e fora da produção científica, desestabilizando elementos que sustentem desigualdades no meio social; e (5) fundamentar teoricamente e instrumentalizar a promoção de equidade social.

Para uma ciência descolonizada

A América Latina e seus povos constituintes não devem ser lidos numa unicidade homogênea que não se sustenta nem em língua nem em território. Sobre esse espaço incidem projetos colonizadores demarcando códigos, valores, ideias, atitudes, hierarquizando raças e mobilizando lutas, processos que os convidam a um pacto de resistência.

Como nos orientam Ballestrin (2013), Ribeiro (2019) e Ferreira (2022), os saberes decoloniais são parte dessa resistência, reiterando-se a importância de rastrear e demarcar heranças coloniais em nossas práticas, fazer releituras históricas e estabelecer um pensamento latino-americano crítico ao projeto colonial e descolonizador, fazendo com que seus efeitos incidam sobre o território e seus povos.

Denunciar e resistir à colonialidade é fundamental para o aparecimento de outras narrativas, ações e discursos pautados na justiça social e no resgate memorial do que foi tomado pelo colonizador, enaltecendo saberes e modos de ser estabelecidos por nossos ancestrais (Ferreira, 2022).

Promover essas perspectivas subalternizadas é oportunizar que sejamos agentes de denúncia, resistência e transformação práticas coloniais que insistem em incidir sobre nossa cultura. Construir um texto que aciona saberes descolonizadores é colocar-se disposto a formar cidadãos críticos e participativos de um ativismo que instrumentalize a transformação social (Ferreira, 2022).

Para Baptista (2022), reorganizar esses espaços enunciativos hegemonicamente constituídos demanda múltiplas ações de dissidência: mobilizar práticas decoloniais como movimentos de insurgência; rasurar a lógica colonizadora; resgatar, rememorar e reatualizar modos de ser e de operar dos povos originários; reafirmar política e epistemologicamente referências e articulações teóricas instituídas no e pelo Sul Global; ampliar e complexificar as discursividades circulantes; entender os arranjos de poder que organizam a estrutura social; romper com projetos que perpetuam práticas coloniais e insistem na dualidade modernidade/colonialidade; denunciar que a colonialidade segue incidindo em hierarquias e opressões estruturalmente arranjadas.

Como nos conta hooks (1984/2019), a raça, assim como o gênero e a classe, é mobilizada para o processo de organização social por meio de interferências nas dinâmicas locais, demarcando processos históricos e culturais e hierarquizando existências. Ao denunciarmos os efeitos da segregação, reconhecemos a diferença nas oportunidades de acesso à cidadania.

A escolha e o fortalecimento de perspectivas comprometidas com o processo de descolonização do conhecimento promovem espaços para a visibilidade de saberes subalternizados. A branquitude, o colonialismo e o epistemicídio ainda moram em nossas práticas e interações dentro e fora da academia.

Epistemologias decoloniais são potentes para o letramento racial, para denúncias de práticas colonialistas e para a ascensão de outras perspectivas para pensar ciência.

Como nos diz Ribeiro (2017/2019a), em consonância com Veronelli (2019), por muito tempo a ciência foi majoritariamente construída por homens abastados, brancos e heterossexuais, que justificavam inúmeras opressões em teorias detentoras de uma suposta verdade científica. Para Ribeiro (2017/2019a), ao produzirmos saberes que alimentam projetos de exclusão de negras e negros, indígenas, pobres, faveladas e favelados, LGBTQI+, pessoas com deficiência, fiéis a religiões de matriz africana, entre inúmeros outros sujeitos - nem tão tratados como sujeitos, mas certamente como outros -, compreendemos que produzir ciência é inserir-se num campo de disputas por versões, verdades e poder.

Segundo Schmidt (2024), o sistema Qualis-periódicos, desenvolvido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e utilizado no Brasil desde os anos 2000, está sendo reformulado para classificar a qualidade das publicações acadêmicas a partir de critérios diferentes dos utilizados até então. Para contornar as críticas ao modelo anterior, considerado limitado, as mudanças já estão previstas para acompanhar as produções do quadriênio 2025-2028. O modelo antes tendia a valorizar mais a publicação em revistas internacionais de grande impacto, nas quais os(as) pesquisadores(as) publicam intencionando mais a boa pontuação Qualis do que em potencializar o impacto e relevância prática do seu trabalho.

Schmidt (2024) nos conta que a transição busca maior impacto na prática, na inovação e na relevância social, a partir dos seguintes critérios: (1) relevância de um periódico com base no impacto individual da publicação, e não da revista como um todo; (2) impacto de citação e outras métricas altimétricas como visualizações, downloads, citações em blogs, redes sociais etc.; e (3) reconhecimento de projetos que tenham impacto teórico-científico e de inovação.

Apesar das significativas propostas sinalizadas por Schmidt (2024), ainda recaímos em estruturas epistemicidas da prática científica. Não é ao acaso que determinados(as) autores(as) ganham reconhecimento num campo científico ou que é feita a escolha de com quais teóricos(as) se dialoga num texto. Muitas vezes a atribuição desse notório saber está alicerçada em elementos próprios da construção da ciência ocidental: branquitude, colonialidade e epistemicídio.

Na pesquisa “Descortinando estudos em masculinidades: uma análise sobre o catálogo de teses e dissertações da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior” (Miez, 2024b), o pesquisador assinala a importância de indexar trabalhos considerando aspectos socioeconômicos, culturais e educacionais. A ciência precisa considerar o contexto da produção científica e como nele interferem sistemas de poder alimentados por gênero, classe, raça e sexualidade etc.

Esse compromisso parece ser essencial para garantir transparência na avaliação não apenas de como, quando e onde a pesquisa é conduzida, mas também por quem, para quê e para quem esses conhecimentos científicos são produzidos. Filtrar trabalhos disponíveis em plataformas com base em critérios socioculturais possibilita uma interação mais significativa com autores específicos, sejam eles negros, indígenas, pessoas com deficiência, LGBTQIA+, entre outros grupos (Miez, 2024b).

Como enfatizado por Ribeiro (2017/2019a), o processo de pesquisa vai além de simplesmente envolver autores(as) que compartilham perspectivas de interesse, mas também inclui a possibilidade de dialogar com outros(as) autores(as) que possuem vivências particulares. Ao construir conhecimento menos influenciado pelo colonialismo ou pelo pensamento eurocêntrico, ao estabelecer laços e nutrir esses diálogos, promove-se o desenvolvimento de novas abordagens teóricas. Ler, discutir e escrever com autores que compartilham um horizonte comum facilita a formulação de linhas de pesquisa e o desenvolvimento de novos caminhos epistemológicos e metodológicos.

Posta nossa fundação numa estrutura social que se alimenta há muito de uma lógica colonial, há de se pensar que existem interesses no apagamento, silenciamento e esquecimento desse relevante contexto para a produção científica. Esse caráter asséptico, desracializado, reafirma que a lente a partir da qual se leem os processos sociais e que os sujeitos que nos interessa proteger têm o corpo branco, de colonizador, que é lido como referência, padrão, neutro, universal (Ribeiro, 2019a).

Como nos conta a escritora feminista nigeriana Chimamanda Adichie (2019), a universalização dos corpos, pautas e trajetórias reafirmam noções de poder e privilégio. Contudo, a perspectiva decolonial viva no feminismo negro nos ajuda a racializar e apontar o perigo de desconsiderar essa perspectiva nas discussões e vivências. Assim, corpos não hegemônicos produzem resistência, tensionamentos e incômodos que, longe de serem rompimento, marcam a impossibilidade de uma história única.

Conclusão

A partir da obra O que é lugar de fala?, Ribeiro (2017/2019a) denuncia o eurocentrismo branco como referência universal para consolidar inúmeras estruturas, entre as quais a ciência. A autora nos convoca a reconhecer o lugar social que ocupamos como quem também compreende a estrutura que constitui nossa perspectiva de mundo.

Ribeiro (2017/2019a) defende que a centralidade da perspectiva branca se dá à custa do silenciamento, apagamento e impedimento de um protagonismo não branco. Colonialidade, epistemicídio e branquitude gerenciam o que é reconhecido como saber, manipulam debates, controlam acessos e sinalizam quais pessoas estão habilitadas a protagonizar espaços científicos.

Tomamos parte com a psicóloga portuguesa Grada Kilomba (2020), à medida que sua posição é de “oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou” (p. 28). Assim como a autora, este trabalho convoca quem o lê a navegar por rumos contrários aos projetos coloniais e epistemicidas. Há nesta escrita convites para pensarmos quem somos, a partir de que códigos nos constituímos, qual o preço pago pela incorporação desses signos, o quanto há de sofrimento e suspensão da nossa real autonomia ao sermos colonizados, quem ganha ao abandonarmos nossa forma genuína de ser e como construir modos mais livres de existir.

Compreendemos a psicologia como um domínio de conhecimento sujeito a debates e inserido em uma cultura permeada por racismo, classismo e misoginia, ocasionalmente validando ou disseminando ideias que reafirmam ou contestam padrões de exclusão baseados em gênero, raça e sexualidade. Apesar de ser embasada em rigor científico e metodológico, a produção em psicologia muitas vezes evita discutir os contextos sócio-históricos e políticos que influenciam a construção do conhecimento considerado científico, preferindo uma abordagem que presume uma universalidade que ignora o fato de ainda estarmos em uma sociedade moldada por legados coloniais e que marginaliza as diversas experiências e narrativas.

Compreender a trajetória teórica e política na qual se sustentam campos de estudos, bem como mapear os dados produzidos por esses saberes, nos possibilita reconhecer que a construção do conhecimento está firmada num projeto de sociedade que privilegia o aparecimento de determinadas vozes e perspectivas em detrimento de outras, bem como pensar estratégias para promover a ressonância de múltiplas perspectivas, denunciando processos de opressão e invisibilidade.

Quem são os praticantes da ciência? De que forma ela é realizada? Qual o propósito da ciência? Para quem seus resultados são direcionados? Essas são questões cruciais que devem guiar a jornada de quem pesquisa, sem esquecer que pesquisar não se limita a satisfazer a curiosidade individual, mas que, com base na produção científica, são desenvolvidos conceitos aplicáveis, formuladas políticas públicas e possibilitada a criação de tecnologias e acessos que promovam equidade social.

Declaração de disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Editado por

  • Editor responsável:
    Briseida Diogo de Resende

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Maio 2025
  • Aceito
    08 Out 2025
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