Open-access Evidências de validade do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes

Evidence of validity of the Inventory of Support for Workers after Accidents

Pruebas de validez del Inventario de Apoyo a los Trabajadores

Resumo

Altos índices de acidentes de trabalho e seus impactos demandam suporte ao trabalhador no retorno ao ambiente laboral. Este trabalho objetiva desenvolver e buscar evidências de validade do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais (ISTAL). Para composição da escala, variáveis foram identificadas e categorizadas baseadas em entrevistas abertas e na literatura científica. Participaram 181 profissionais das áreas de Recursos Humanos e de Saúde e Segurança do Trabalho. Foram aplicados: análise de componentes principais, análise fatorial confirmatória, análise de consistência interna, teste de diferença de médias e análise de cluster. Como resultado das três primeiras, foi obtido um instrumento de quatro fatores, com índices de ajustes adequados. Análise de cluster distinguiu perfis diferenciados de profissionais conforme intensidade de suporte oferecido. Verificou-se empiricamente a importância de uma cultura organizacional inclusiva nos perfis que ofereceram maior suporte pós-acidente. O ISTAL tem potencial para auxiliar em futuras pesquisas e avaliar ações organizacionais.

Palavras-chave:
Acidentes de Trabalho; Reabilitação Vocacional; Deficiência física

Abstract

High rates of workplace accidents and their impacts require support for workers returning to the workplace. This study aims to develop and seek evidence of the validity of the Inventory of Support for Workers after Workplace Accidents (ISTAL). To compose the scale, variables were identified and categorised based on open interviews and scientific literature. A total of 181 professionals from the areas of Human Resources and Occupational Health and Safety participated. The following were applied: principal component analysis, confirmatory factor analysis, internal consistency analysis, mean difference test, and cluster analysis. As a result of the first three, a four-factor instrument with adequate adjustment indices was obtained. Cluster analysis distinguished different profiles of professionals according to the intensity of support offered. The importance of an inclusive organisational culture was empirically verified in the profiles that offered greater post-accident support. ISTAL has the potential to assist in future research and evaluate organisational actions.

Keywords:
Accidents at Work; Vocational Rehabilitation; Physical Disability

Resumen

Los altos índices de accidentes laborales y sus repercusiones exigen apoyo al trabajador en su reincorporación al entorno laboral. El objetivo de este trabajo es desarrollar y buscar pruebas de la validez del Inventario de Apoyo a los Trabajadores tras Accidentes Laborales (ISTAL). Para componer la escala, se identificaron y categorizaron variables basándose en entrevistas abiertas y en la literatura científica. Participaron 181 profesionales de las áreas de Recursos Humanos y Salud y Seguridad en el Trabajo. Se aplicaron: análisis de componentes principales, análisis factorial confirmatorio, análisis de consistencia interna, prueba de diferencia de medias y análisis de conglomerados. Como resultado de las tres primeras, se obtuvo un instrumento de cuatro factores, con índices de ajuste adecuados. El análisis de conglomerados distinguió perfiles diferenciados de profesionales según la intensidad del apoyo ofrecido. Se verificó empíricamente la importancia de una cultura organizacional inclusiva en los perfiles que ofrecieron mayor apoyo después del accidente. El ISTAL tiene potencial para ayudar en futuras investigaciones y evaluar acciones organizacionales.

Palabras clave:
Accidentes Laborales; Rehabilitación Profesional; Incapacidad física

Introdução

Acidentes de trabalho são os que ocorrem pelo exercício de atividades laborais e provocam lesões corporais ou perturbações funcionais que podem levar à morte, à perda ou à redução (temporária ou permanente) da capacidade para o trabalho (Lei nº 8.213/1991). Este tipo de acidente consiste no mais grave dano à saúde de trabalhadores e é também o de maior importância epidemiológica, em razão da alta ocorrência no Brasil (Cavalcante et al., 2015).

Segundo dados do Ministério da Previdência Social (2024), acidentes laborais impactaram diretamente quase 700 mil pessoas, em 2022. Entretanto, esse número se refere somente a uma parcela dos acidentes ocorridos, visto que abrange somente trabalhadores formalmente empregados, enquanto a informalidade tem crescido no mercado de trabalho brasileiro (IBGE, 2023). Considerando ainda números oficiais, quase 200 mil pessoas que se acidentaram, entre 2020 e 2022, precisaram ficar afastadas do trabalho por mais de 15 dias, e mais de 22 mil foram consideradas permanentemente incapacitadas para o trabalho (Ministério do Trabalho e Previdência, 2024).

Além dos próprios trabalhadores, estes acidentes afetam familiares, colegas de trabalho, organizações e sociedade, gerando custos financeiros para o sistema público de saúde, o sistema previdenciário e as empresas (Cavalcante et al., 2015). Os custos incluem gastos em assistência médica, indenizações, despesas judiciais e com previdência social, bem como perdas de produtividade (Malta et al., 2023). Por um lado, os dados sobre acidentes de trabalho no Brasil refletem a baixa efetividade de práticas de prevenção de agravos à saúde do trabalhador (Malta et al., 2023). Por outro, também indicam a necessidade de priorização de ações que assegurem melhores condições de trabalho, em ambientes protegidos contra fatores que possam levar a acidentes laborais.

Além dos pontos em que a prevenção de acidentes laborais falha, é necessário o desenvolvimento de práticas voltadas para o pós-acidente. Com este objetivo em vista, o estudo aqui relatado desenvolveu e buscou evidências de validade do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais (ISTAL). O principal objetivo do instrumento é o diagnóstico de ações organizacionais destinadas a apoiar o processo de reabilitação de pessoas que se acidentaram no trabalho. O foco está centrado, principalmente, naquelas que sofreram acidentes graves e adquiriram sequelas ou deficiências como consequência. Este estudo considera, portanto, a importância de se desenvolver instrumentos capazes de avaliar o suporte a trabalhadores acidentados, diante da escassez de medidas desse tipo na literatura.

Ações pós-acidentes de trabalho compõem um processo complexo, que ocorre, muitas vezes, de forma descoordenada. Nesse sentido, políticas estruturadas de apoio organizacional, em casos de adoecimentos ou acidentes (relacionados ou não ao trabalho), podem: a) garantir a reabilitação integral; b) constituir fatores facilitadores do retorno ao trabalho, possibilitando a retomada da trajetória profissional do reabilitado e uma inclusão social efetiva por meio do trabalho (Pettoruti & Faiman, 2018; Silva & Sime, 2019; Uhlmann et al., 2019).

Pesquisas acadêmicas indicam que grande parte das pessoas que se acidentam no trabalho, consegue se inserir novamente no mercado. Contudo, nem sempre é possível identificar, nos dados disponíveis, os casos de reabilitados que adquiriram deficiências ou sequelas devido aos acidentes ocorridos (Farias & Lucca, 2013; He et al., 2010; Gewurtz et al., 2018; Santos & Lopes, 2021; Vacaro & Pedroso, 2011). Esta questão é relevante ao se considerar as dificuldades ainda existentes para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho formal, bem como a ausência de informações epidemiológicas e discussões acadêmicas que caracterizem a relação entre trabalho e sequelas adquiridas que requeiram condições laborais adaptadas (Cardoso & Morgado, 2019; Kang, 2024; Silveira & Merlo, 2014; Werneck-Souza et al., 2020).

O processo de afastamento e de retorno laboral de um trabalhador acidentado abarca questões financeiras e de saúde física e mental, mas também decisões pessoais e administrativas referentes à relação do indivíduo com a sequela ou deficiência provocada pelo acidente, bem como interações com outras instituições e atores sociais (Gewurtz et al., 2018; Lima et al., 2019). O acompanhamento da reabilitação do trabalhador pela organização e a existência de um profissional-referência para coordenar esse processo são fatores que contribuem para a diminuição da duração e dos custos do período de afastamento (Franche et al., 2005; Pettoruti & Faiman, 2018). A oferta de tratamento clínico adequado e apoio econômico/social são consideradas condições que facilitam o retorno de trabalhadores, devendo ser entendidas como prioritários na estratégia interventiva (He et al., 2010; Kang, 2022; Kurnianto et al., 2023).

Ressalta-se que longos períodos de afastamento do trabalho, rupturas na comunicação entre trabalhador e organização, ou conflitos na abordagem do tratamento clínico aprofundam a complexidade do processo (Cabral et al., 2010; Lima et al., 2019). Além disso, a identificação de elementos que predizem sequelas permanentes, após acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho, pode evitar o agravamento das sequelas e minimizar a duração do período de afastamento laboral (He et al., 2010).

Além de possíveis sequelas ou deficiências adquiridas, os acidentes podem ainda estar relacionados à emergência de sintomas depressivos, desequilíbrios emocionais, irritabilidade, hostilidade, alcoolismo crônico, transtornos cognitivos e do sono (Cavalcante et al., 2015; Cardoso et al., 2020; Izaias et al., 2020; Gewurtz et al., 2018). Em alguns casos, diretrizes de reabilitação não realistas, bem como falta de atenção às adaptações para acessibilidade e às orientações médicas, podem impactar negativamente a saúde ou levar o trabalhador a gerenciar a própria recuperação, resultando em sentimentos de angústia, frustração e abandono (Gewurtz et al., 2018).

O apoio social e o suporte financeiro e psicossocial, por parte das organizações, estão entre os principais fatores para a manutenção do senso de pertencimento e do comprometimento organizacional de reabilitados, atuando também como fatores motivacionais para o retorno laboral (Lai, 2004; Lopes et al.; 2015; Santos & Carvalho-Freitas, 2025; Silva & Sime, 2019; White et al., 2019). Além disso, remuneração adequada durante o afastamento, políticas organizacionais apropriadas, questões psicológicas dos acidentados e relacionamento amigável entre trabalhador e empresa, são aspectos importantes dos processos de reabilitação e de retorno ao trabalho (He et al., 2010; Kang, 2022; White et al., 2019).

Neste contexto, este artigo relata o processo de construção e de identificação de evidências de validade de Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais (ISTAL). O suporte se refere ao apoio da organização à reabilitação do trabalhador acidentado visando ao atendimento de suas demandas financeiras, sociais e emocionais. O inventário é composto por quatro fatores: suporte financeiro, suporte psicossocial, assistência e desempenho. A contribuição que se antecipa pela elaboração e aplicação do instrumento é a identificação de fatores que possam auxiliar no diagnóstico e na implementação de suporte aos trabalhadores. Tais práticas têm repercussões tanto para as práticas organizacionais, quanto para a ampliação do conhecimento voltado para os campos da saúde do trabalhador e da inclusão de pessoas com deficiência pós-acidente.

Método

Os tópicos Instrumentos e Procedimentos, a seguir, se referem à forma de apresentação e ao processo de elaboração do ISTAL que teve duração aproximada de um ano e oito meses. Este período compreendeu a fase de realização de entrevistas, transcrição e análise delas até o término da coleta de dados. Os tópicos Participantes e Análise de Dados descrevem o perfil da amostra respondente do ISTAL e os procedimentos estatísticos utilizados para apresentação dos resultados.

Instrumentos

O Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais (ISTAL) consiste num instrumento de quatro fatores: suporte financeiro, suporte psicossocial, assistência e desempenho. Composto por 18 itens no total, com sugestões de respostas fechadas e dispostas em uma escala Likert de escolha forçada em seis intervalos, a saber: 1 (discordo totalmente), 2 (discordo muito), 3 (discordo pouco), 4 (concordo pouco), 5 (concordo muito) e 6 (concordo totalmente).

Procedimentos

Os itens do ISTAL foram elaborados, considerando o que a literatura indicava como necessidade de apoio para os trabalhadores pós-acidente do trabalho (Lai, 2004; Lopes et al.; 2015; Santos & Carvalho-Freitas, 2025; Silva & Sime, 2019; White et al., 2019), e com base em entrevistas abertas realizadas com 21 profissionais da área de Recursos Humanos e 23 profissionais da área de Saúde e Segurança do Trabalho, residentes no estado de Minas Gerais. As entrevistas foram analisadas pelo método de análise de conteúdo temático, conforme Bardin (1977), visando à categorização de variáveis. Inicialmente, foram criados 16 itens sobre distintas situações relacionadas ao suporte pós-acidentes relatadas pelos entrevistados. Tais itens foram submetidos a um painel de seis especialistas (professores-pesquisadores de áreas relacionadas à temática e profissionais da área de Recursos Humanos) para análise da pertinência desses componentes ao construto representado.

Para adequação semântica do instrumento, foi feita uma aplicação-piloto em uma amostra de 30 graduandos em Administração, que foi escolhida por facilidade de acesso (conveniência), considerando similaridades com o perfil do público-alvo. Esta amostra sugeriu alterações e a inclusão de alguns itens, a fim de evitar ambiguidades e interpretações equivocadas. Por fim, o inventário foi composto por 20 itens e as possibilidades de resposta foram dispostas em escala Likert, variando de 1 (discordo totalmente) a 6 (concordo totalmente). A aplicação final do inventário foi acompanhada por um questionário sociodemográfico com o objetivo de caracterizar os participantes em relação à idade, gênero, nível de escolaridade e experiência profissional. Todos os itens e questões foram dispostos em formulário eletrônico na plataforma Google Forms®.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da universidade a que os pesquisadores estão vinculados, conforme parecer nº 5.622.016 (CAAE 94280318.5.0000.5151). A divulgação do estudo foi feita por meio de contatos com empresas e pela rede social LinkedIn®, em que foi disponibilizado um texto explicativo sobre o estudo e o link para acesso ao formulário eletrônico de coleta de dados. Ao acessar o formulário, era apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que relatava os objetivos e os procedimentos de pesquisa, bem como apresentava as condições de confidencialidade das informações. Somente após a confirmação da concordância em participar do estudo, era possível acessar o formulário, sendo garantido o anonimato dos participantes.

Participantes

Participaram 181 profissionais das áreas de Recursos Humanos (73%) e de Saúde e Segurança do Trabalho (27%), com média de idade de 35,59 anos (DP = 10,16) e residentes em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. O único critério para inclusão na amostra foi atuar ou ter atuado na área de Recursos Humanos ou de Saúde e Segurança do Trabalho em organizações de trabalho. A maioria da amostra foi composta por participantes do sexo feminino (72,78%), profissionais pós-graduados (58,56%), com 2 a 15 anos de vivência na área de atuação (65,76%) e experiência com casos de pessoas que adquiriram deficiências ou outras sequelas devido a acidentes de trabalho (68,51%).

Análise de Dados

As respostas foram transpostas para o banco de dados do Statistical Package for Social Sciences (SPSS), para realização de análise de componentes principais, análise de consistência interna, teste de diferença de médias (ANOVA) e análise de cluster. Não houve casos faltosos (missing data), pois a conclusão do inventário foi condicionada à resposta de todos os itens. Para verificação da possibilidade de realização da análise de componentes principais, a adequação da amostra foi analisada por meio da medida de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e do índice de esfericidade de Bartlett. Os dados foram submetidos à análise dos componentes principais por meio da rotação ortogonal Varimax com o objetivo de determinar o número de fatores. A consistência interna foi mensurada pelo alfa de Cronbach (α).

Utilizou-se o programa JASP para realizar a análise fatorial confirmatória (AFC) com o objetivo de testar a estrutura interna do inventário encontrada na análise de componentes principais. O estimador escolhido foi o Weighted Least Squares (WLS). Considerou-se o ajuste aceitável quando os valores do Comparative Fit Index (CFI) e do Tucker-Lewis Index (TLI) foram maiores do que 0,90, e os valores de Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) e Standardized Root Mean Square Residual (SRMR) foram de 0,06 a 0,08. O ajuste foi considerado bom quando os valores de CFI e TLI foram maiores do que 0,95 e os valores de RMSEA e SRMR foram iguais ou menores do que 0,05 (Hu & Bentler, 1999). As cargas fatoriais foram consideradas adequadas quando iguais ou superiores a 0,40. A consistência interna foi mensurada pelo coeficiente ômega de McDonald (ω).

Além disso, na análise dos resultados procurou-se verificar se os profissionais das áreas de Recursos Humanos e de Saúde e Segurança no Trabalho poderiam ser agrupados segundo os fatores do ISTAL. Para isso, foi utilizada a Análise de Cluster ou Agrupamento, visa a agregar objetos com base nas características que eles possuem (Hair et al., 2005). Mais especificamente, foi utilizada a técnica Hierárquica Aglomerativa, que parte do princípio de que se tem n conglomerados, que vão sendo agrupados por similaridade, até se formar um único conglomerado. É uma técnica utilizada para comparar objetos que possuem elevada homogeneidade interna (dentro dos agrupamentos) e elevada heterogeneidade externa (entre agrupamentos). O método utilizado foi o de Ward, baseado nos princípios da análise de variância. A distância euclidiana foi utilizada por representar a similaridade como a proximidade entre observações durante a estatística de agrupamento. Para determinar o número de conglomerados, utilizou-se o gráfico dos passos de agrupamentos em relação ao nível de distância. Detectou-se um “ponto de salto” indicando a formação de dois conglomerados, que serão apresentados na próxima seção. Por último, foi realizada Análise de Variância (ANOVA), para verificar se havia diferenças entre as médias dos dois agrupamentos, além de teste de qui-quadrado de independência entre os clusters e dados sociodemográficos.

Resultados

O índice de adequação amostral e o teste de esfericidade indicaram a possibilidade de realização da análise de componentes principais (KMO = 0,891; Bartlett χ² = 2182,419; df = 190; p < 0,000). Com a rotação, foi identificado que todos os itens apresentaram cargas fatoriais superiores a 0,40, indo de 0,499 a 0,880 e evidenciando precisão nos domínios. O critério baseado em eigenvalues maiores que 1,00 indicou quatro fatores para extração, com uma variância total explicada de 65,49%. No primeiro fator, oito itens foram relacionados ao suporte psicossocial, que se refere ao apoio organizacional para o atendimento de demandas emocionais e sociais do trabalhador acidentado. O segundo fator abarcou cinco itens relacionados ao suporte financeiro, que diz respeito ao apoio da organização para o custeio da reabilitação do trabalhador acidentado. O terceiro fator agrupou três itens relacionados à assistência ao trabalhador acidentado visando à garantia de direitos sociais (saúde, renda e acessibilidade). Já o quarto fator foi composto por dois itens sobre o histórico de desempenho do trabalhador acidentado e sua influência sobre as ações organizacionais de suporte após acidentes laborais.

Os padrões de resposta dos participantes estavam muito distintos para um item sobre encaminhamento a serviços de saúde (fator de suporte financeiro) e um item sobre cobertura de planos de saúde (fator de assistência), quando comparados aos padrões para os demais itens. Por isso, estes itens fracamente correlacionados com os demais foram excluídos. Os resultados das análises de consistência interna revelaram valores adequados de alfa de Cronbach para cada um dos quatro fatores. Para todo o inventário, o coeficiente de alfa de Cronbach foi de 0,920. A Tabela 1 e a Tabela 2 apresentam os itens, as cargas fatoriais, os eigenvalues, as variâncias e os valores de alfa de Cronbach para cada um dos fatores.

Tabela 1
Itens dos Fatores 1 e 2 do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais

Tabela 2
Itens dos Fatores 3 e 4 do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais

A análise fatorial confirmatória foi realizada com a escala resultante da análise de componentes principais. A adequação amostral e o teste de esfericidade indicaram a fatorabilidade dos dados (KMO = 0,891; Bartlett χ² = 2070,032; df = 153; p < 0,001). Foram encontrados os seguintes índices de ajustamento: CFI = 1,000, TLI = 1,013, RMSEA = 0,000 (IC90% = 0,000 - 0,000; p < 1,000) e SRMR = 0,052. Uma razão para este superajuste é a realização da AFC com um modelo gerado pela análise de componentes principais utilizando o mesmo conjunto de dados. O valor de TLI normalmente varia entre 0 e 1, mas valores fora desse intervalo podem ocorrer pelo fato de que não se tratar de uma medida normatizada. Diferente do CFI, o valor de 1 para TLI não indica ajuste perfeito. Valores maiores do que 1 podem ser interpretados como indicativos de um ajude muito bom (Goretzko et al., 2023). Os resultados das análises de consistência interna apresentaram valores adequados do coeficiente ômega de McDonald para cada um dos quatro fatores, conforme Tabela 3. Para todo o inventário, o coeficiente ômega encontrado foi de 0,928.

Tabela 3
Propriedades dos Fatores do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais

Em relação à aplicação do instrumento, a predominância de altos resultados (médias iguais ou superiores a 5) em cada um dos fatores têm implicações importantes para a interpretação dos resultados. No fator suporte psicossocial, indica que a organização, por meio de seus gestores e/ou funcionários dos setores de Recursos Humanos e Saúde e Segurança do Trabalho, oferta apoio psicossocial ao acidentado e/ou aos seus familiares, em telefonemas e visitas. Uma média elevada no fator suporte financeiro sugere que a organização custeia procedimentos e itens necessários para a reabilitação do funcionário acidentado. Uma alta concordância com o fator assistência sinaliza que a organização realiza ações diversas para apoiar o trabalhador acidentado durante o período de reabilitação. No fator desempenho, um resultado elevado indica que o histórico de bom desempenho do acidentado influencia na disponibilidade da organização para ofertar suporte financeiro e psicossocial a esse trabalhador. Resultados intermediários (médias entre 2,6 e 4,9) nos fatores sugerem que a avaliação dos itens é considerada como dependente de outros aspectos objetivos ou subjetivos relacionados aos acidentes ocorridos, aos trabalhadores que se acidentaram e suas necessidades específicas, ou ainda a outras variáveis do contexto organizacional. Resultados inferiores ou iguais a 2,5 nos fatores suporte psicossocial, suporte financeiro e assistência indicam ausência ou insuficiência de apoio da organização a, respectivamente, questões psicossociais, demandas financeiras para reabilitação e/ou outras necessidades do acidentado durante o período de afastamento do trabalho após o acidente. No fator desempenho, uma baixa concordância é indicativa de que a disponibilidade da organização para ofertar suporte financeiro e psicossocial ao trabalhador acidentado não é afetada pelo histórico de desempenho desse trabalhador.

A análise descritiva, apresentada na Tabela 3, demonstra que a maior média de resposta dos participantes foi no fator suporte psicossocial (M = 4,40, DP = 1,37), indicando maior tendência de oferta deste tipo de suporte, provavelmente por ser mais informal e/ou não acarretar custos adicionais para as organizações. Cabe ressaltar, no entanto, que o resultado das médias para os fatores suporte psicossocial, suporte financeiro e assistência foi intermediário, o que indica que, possivelmente, as ações dependem dos casos ou de circunstâncias específicas. A média mais baixa no fator desempenho indica que, na percepção dos participantes da pesquisa, o histórico de bom desempenho do funcionário acidentado não influencia na oferta de suporte financeiro ou psicossocial a esse trabalhador.

Pela análise de cluster, o instrumento distinguiu dois perfis de profissionais participantes: um grupo com a percepção de que a empresa tende a ofertar ações de suporte (Perfil Assistivo) e outro grupo com a percepção contrária (Perfil Não-Assistivo). Os principais resultados obtidos na pesquisa são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4
Diferenças entre Clusters para os Fatores do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais

O Perfil Assistivo se caracteriza por apresentar ações de suporte psicossocial, financeiro e de assistência aos trabalhadores após acidentes de trabalho, por meio de ações como realização de visitas e telefonemas, custeio de medicamentos e adaptações arquitetônicas na casa do acidentado, quando necessário. Além disso, esses profissionais tendem a considerar que as empresas dão suporte ao trabalhador que se acidenta, independentemente de seu desempenho prévio. O Perfil Não-Assistivo se caracteriza pela ausência ou insuficiência de apoio aos trabalhadores que se acidentam, no que diz respeito às questões psicossociais, demandas financeiras para reabilitação e/ou outras necessidades durante o período de afastamento do trabalho após o acidente. Esse comportamento independe do histórico de desempenho desse trabalhador.

Foi verificado que a composição dos clusters independia do nível de escolaridade dos respondentes, da experiência dos profissionais com casos de acidentes de trabalho ou de realocação de reabilitados, de características da formação acadêmica, do porte das organizações, da oferta de treinamentos, de informações sobre promoção de acessibilidade ou do contato com pessoas com deficiência no trabalho. Perceber a organização em que atuavam como tendo uma cultura mais inclusiva foi o único elemento que dependia do cluster de pertencimento (qui-quadrado = 0,03). Sendo que no Cluster Perfil Assistivo predominava a percepção de que a empresa em que trabalhavam possuía, pelo menos, algumas ações de inclusão (61,1% dos participantes).

Discussão

A finalidade da construção e busca de evidências de validade do Inventário de Suporte a Trabalhadores após Acidentes Laborais é possibilitar que organizações possam avaliar as próprias ações diante da ocorrência desses casos. A sistematização das práticas de apoio à reabilitação de acidentados pode garantir isonomia entre trabalhadores, minimizando o impacto de aspectos subjetivos na oferta dessas ações.

As evidências de que uma cultura considerada inclusiva está associada a um Perfil Assistivo por parte de profissionais e empresas indica a influência do contexto sobre as práticas profissionais. Identificar, pelo menos, algumas ações inclusivas na organização de atuação foi um fator significativo para a adoção de práticas que buscam amparar o trabalhador no período de afastamento laboral. Entende-se que organizações mais inclusivas acompanham o processo de reabilitação por considerar que pode ser necessário realizar adaptações que possibilitem, posteriormente, o retorno desse trabalhador. Esse tipo de empresa e profissional também reflete uma perspectiva mais ampliada de gestão do trabalho de pessoas com diferentes características.

Ressalta-se que a inclusão de um reabilitado ou uma pessoa com deficiência no contexto organizacional não deve ser realizada como ato isolado. Programas de gestão da diversidade contribuem para a criação de uma cultura que reconhece e valoriza as diferenças individuais, gerando envolvimento e comprometimento de trabalhadores, bem como levando a atitudes positivas e a maior satisfação em relação à organização (Assis & Carvalho-Freitas, 2014). O fortalecimento de uma cultura inclusiva colabora, portanto, para que pessoas reabilitadas e com deficiências se sintam acolhidas, apoiadas e seguras para efetivar suas contribuições para o ambiente organizacional.

Uma possível percepção de desamparo vivenciada pela pessoa acidentada pode interferir no seu senso de pertencimento e no seu nível de comprometimento com a organização em que se acidentou (Santos & Carvalho-Freitas, 2025). Assim, a oferta de suporte consiste numa prática de responsabilidade social organizacional, mas também de gestão de pessoas. O pagamento irregular, tardio ou negado de benefícios pode ampliar os efeitos sociais e sobre a saúde, configurando um complicador material e emocional durante o período de afastamento do trabalhador, impactando a reabilitação e, consequentemente, o retorno laboral (Gewurtz et al., 2018). Atendimento a demandas de saúde, assistência financeira e apoio psicossocial são aspectos contemplados no inventário apresentado, pois têm muitos impactos, principalmente nos acidentes mais graves. Destaca-se que a influência produzida pela forma como o processo pós-acidente é manejado pode afetar também o alcance dos objetivos organizacionais.

A percepção de suporte organizacional - entendido, conforme Eisenberger et al. (1986), como o conjunto de crenças dos funcionários sobre até que ponto a organização se preocupa com o bem-estar deles - está relacionada a uma menor ocorrência de acidentes laborais e eventos de quase-acidente (Mori et al., 2024). Portanto, aprimorar aspectos relacionados à justiça, apoio da liderança, práticas de Recursos Humanos e condições de trabalho favoráveis pode contribuir para a redução de incidentes relacionados ao trabalho (Mori et al., 2024). Além disso, se os demais trabalhadores consideram que acidentados estão recebendo suporte adequado, isso pode contribuir para que todo o corpo funcional tenha uma maior percepção de suporte organizacional.

A utilização do ISTAL pode ser útil para estudos correlacionais, acompanhado de outros instrumentos que visem a diagnosticar práticas organizacionais voltadas à gestão de pessoas e ao gerenciamento das consequências dos acidentes de trabalho. O inventário pode ser utilizado ainda em estudos experimentais, por exemplo, para verificação da eficácia de intervenções organizacionais (treinamentos para profissionais de Recursos Humanos e de Saúde e Segurança do Trabalho, por exemplo). Pretende-se que este estudo indique possibilidades para futuras pesquisas, contribuindo também para aumentar a efetividade das ações de inclusão da diversidade funcional no trabalho.

Salienta-se que as análises fatoriais e de confiabilidade efetuadas neste estudo apresentaram índices psicométricos satisfatórios, mas que os procedimentos são iniciais e não eliminam a necessidade de investigação de parâmetros adicionais de validade. Embora as escolhas estatísticas feitas atendam aos objetivos deste estudo, novas análises poderão utilizar técnicas diferentes que aprimorem os resultados aqui discutidos. Como não foi identificado nenhum inventário com a mesma finalidade, este estudo tem natureza exploratória e, por isso, os resultados são considerados aceitáveis.

Neste sentido, uma das possíveis limitações psicométricas desta pesquisa se refere ao critério de retenção de fatores limitado ao eigenvalue > 1. Outra limitação se refere aos índices de ajuste da Análise Fatorial Confirmatória adotados. Embora os valores encontrados (CFI, TLI, RMSEA, SRMR) indiquem um bom ajuste do modelo aos dados, reforça-se a necessidade de futuras investigações que testem novamente esses índices, além de avaliar a estabilidade do modelo em diferentes contextos e amostras.

Vale destacar que, nesta pesquisa, a diversidade da amostra, em relação ao porte das organizações a que os participantes estavam vinculados, pode ser considerada um ponto positivo, mas cabe fazer uma ressalva. Quase um terço dos respondentes estava vinculado a empresas com até 99 funcionários, o que pode ter influenciado na análise do item 5: “O suporte financeiro ao trabalhador acidentado é feito exclusivamente pelo plano de saúde oferecido pela empresa, ou seja, não custeia itens não cobertos pelo plano”. Este item compunha originalmente o inventário e foi excluído nas análises fatoriais, mas supõe-se que, pelo perfil amostral, muitas organizações não ofertam este tipo de cobertura. Dessa forma, é interessante que este aspecto seja considerado em organizações em que esse benefício é oferecido.

Outra limitação referente à amostra é a participação majoritária de profissionais com atuação na área de Recursos Humanos. Na prática, ocorre a comunicação entre o setor de Saúde e Segurança do Trabalho e o de Recursos Humanos e é comum que exista articulação entre as ações desenvolvidas. Contudo, esse desequilíbrio amostral pode ter afetado os resultados encontrados, já que cerca de um quarto dos participantes apenas era atuante na área de Saúde e Segurança do Trabalho. Por isso, estudos mais direcionados às práticas adotadas por profissionais desta área podem ampliar as evidências aqui relatadas.

Considerando as limitações estatísticas referentes aos procedimentos iniciais de análise do ISTAL, conforme apresentado, sugere-se que futuras pesquisas voltadas ao aprimoramento do instrumento, avaliem também especificidades relacionadas ao perfil da amostra pesquisada. Entre estas características com potencial para influenciar os resultados já encontrados, destacam-se o porte das organizações em que os participantes atuam e o perfil acadêmico/profissional dos respondentes.

As pesquisas sobre suporte a trabalhadores após acidentes laborais precisam ser aprofundadas e as práticas organizacionais podem ser aperfeiçoadas em prol de uma gestão humanizada e efetiva. Acredita-se, desta forma, que este estudo fortalece a construção de ambientes que prezam pelas contribuições geradas pelo trabalho de cada indivíduo. Tendo em vista que o aprimoramento das práticas de prevenção de acidentes laborais deve estar alinhado às ações que amenizam os danos gerados pelos acidentes, espera-se que as ações voltadas aos trabalhadores acidentados priorizem o restabelecimento da saúde física e mental destes. Além disso, considera-se que tais práticas - articuladas a outras ferramentas organizacionais - podem colaborar para que o trabalho seja fonte de valorização pessoal e reconhecimento social para os reabilitados.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa não estão disponíveis.

Referências

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  • Nota dos autores:
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

Editado por

  • Editor:
    Evandro Morais Peixoto

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    24 Dez 2024
  • Revisado
    03 Set 2025
  • Aceito
    27 Set 2025
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