Resumo
O presente estudo avaliou efeitos de curto prazo e aceitabilidade de uma intervenção para promoção do perdão. Oferecida a dez participantes, a intervenção teve sete encontros semanais com duração de duas horas cada. Avaliaram-se os efeitos sobre atitudes para o perdão, consideração empática e tomada de perspectiva, bem como a aceitabilidade em relação às metas, procedimentos e resultados da intervenção. A comparação entre pré e pós-teste demonstrou aumento significativo em afetos, comportamentos e julgamentos positivos e aumento em afetos, comportamentos e julgamentos negativos. Identificaram-se, ainda, evidências de aceitabilidade e engajamento dos participantes nas atividades propostas, indicando a relevância social das metas, procedimentos e efeitos da intervenção. Conclui-se que a intervenção gerou mudanças esperadas nos escores de disponibilidade para o perdão, conforme o Modelo de Processo do Perdão.
Palavras-chave:
perdão; intervenção; avaliação de efeitos; adesão
Abstract
This study assessed the short-term effects and acceptability of an intervention aimed at promoting forgiveness. Delivered to ten participants, the intervention consisted of seven weekly sessions, each lasting two hours. The effects on attitudes toward forgiveness, empathic concern, and perspective-taking were assessed, as well as the acceptability of the intervention’s goals, procedures, and outcomes. A comparison between pre- and post-test measures showed a significant increase in positive affects, behaviors, and judgments, as well as an increase in negative affects, behaviors, and judgments. Evidence of acceptability and participant engagement in the proposed activities was also identified, indicating the social relevance of the intervention's goals, procedures, and outcomes. It was concluded that the intervention resulted in expected changes in forgiveness readiness scores, in accordance with the Forgiveness Process Model.
Keywords:
forgiveness; intervention; effects evaluation; adherence
Situações de injustiças interpessoais, em maior ou menor grau, ocorrem com frequência, por diversas razões e em uma variedade de contextos, para os quais o perdão se apresenta como uma resposta possível às consequências negativas desencadeadas por tais situações. Com efeito, quando as pessoas vivenciam situações de injustiça e ofensa, podem experimentar rancor, desejos de vingança e sentimentos associados à falta de perdão (Worthington & Wade, 2020). As características da falta de perdão podem ser acompanhadas de emoções como raiva, hostilidade, depressão e medo (Worthington & Wade, 1999). A falta de perdão não se caracteriza como uma resposta imediata a uma transgressão, mas por um estado emocional tardio de ressentimento, raiva, amargura e ruminação, à medida que a vítima reflete sobre determinada mágoa ou ofensa vivida (Wade & Worthington, 2003). O principal objetivo do perdão é ajudar as pessoas na superação da raiva e do ressentimento contra aqueles que as trataram de maneira injusta (Almeida & Cunha, 2023).
Considerando a diversidade de contextos em que as situações de ofensas interpessoais podem ocorrer, as pessoas magoadas podem vivenciar emoções negativas e responder a tais situações com comportamentos violentos de vingança e retaliação, que, a depender da natureza da violência, podem incorrer em problemas de saúde, sociais e até mesmo legais (Worthington & Wade, 2020). Os riscos à saúde física e mental, em função da raiva, do ressentimento e da ruminação não resolvidos, são bem conhecidos. Aqueles que não conseguem lidar de maneira adequada com estas emoções apresentam maiores riscos de doenças cardíacas, depressão, ansiedade e relacionamentos problemáticos (Chida & Steptoe, 2009; Ingersoll-Dayton et al., 2010).
Na direção oposta, os estudos têm demonstrado que a pessoa que perdoa pode experimentar redução de sintomas de ansiedade e depressão (Kaleta & Mróz, 2020; Wade et al., 2014), melhora em sintomas de estresse pós-traumático e autoestima (Reed & Enright, 2006) incremento em crenças de autoeficácia (Gençoğlu et al., 2018) e outras emoções positivas (Akhtar & Barlow, 2018; Wade et al., 2014). Em resumo, estudos revelam que o perdão é benéfico para o bem-estar individual (Allemand et al., 2013; Allemand et al., 2012).
O perdão é um fenômeno multifacetado cuja definição não é consensual entre os pesquisadores. O que parece ser unânime é a compreensão de que perdoar não é tolerar, esquecer, justificar, desculpar, ignorar uma ofensa ou ainda abrir mão da reparação por vias legais, caso seja necessário (Worthington & Wade, 2020). Neste estudo, adotou-se a ideia de que o perdão é uma escolha voluntária por uma mudança cognitiva, afetiva e comportamental associada a uma determinada ofensa e a um ofensor específico, permitindo que as vítimas superem as emoções, comportamentos e pensamentos negativos relacionados à transgressão (Enright et al., 1998). Acredita-se, portanto, na potencialidade do perdão como fator de proteção em saúde mental, à medida que contribui para a diminuição do ressentimento, da hostilidade, de pensamentos negativos persistentes e de comportamentos de vingança dirigidos ao ofensor (Lundahl et al., 2008).
A literatura, sobretudo internacional, mostra um número crescente de estudos que buscam avaliar em que medida o perdão contribui para o bem-estar psicológico de pessoas que vivenciaram experiências de mágoas ou violência interpessoal (Akhtar & Barlow, 2018; Kim et al., 2022; Lundahl et al., 2008; Mróz & Kaleta, 2023; Pinho & Falcone, 2015; Rainey, 2008; Rainey et al., 2012; Wade et al., 2014). Essas intervenções foram desenhadas considerando uma diversidade de ofensas e de populações-alvo como: adolescentes vítimas de bullying (Gargari et al., 2021), idosos com conflitos interpessoais não resolvidos (Allemand et al., 2013), adultos filhos de pais alcoólatras (Osterndorf et al., 2011), usuários de substâncias vítimas de ofensas em relacionamentos interpessoais domésticos (Lin, 2010), casais em conflitos matrimoniais (DiBlasio & Benda, 2008) e mulheres vítimas de violência e abusos psicológicos pelos ex-companheiros (Cowden et al., 2019; Wu et al. 2021). As intervenções de perdão são projetadas para ajudar a diminuir os efeitos negativos de contextos de ofensas passadas sobre as vítimas e não devem ser confundidas com os esforços para beneficiar um infrator (Lundahl et al., 2008). Os resultados destas intervenções sugerem que o perdão seja um importante fator de melhora em saúde mental (Worthington & Wade, 2020).
Grande parte dos estudos sobre intervenções para promoção do perdão utiliza em sua estruturação teórica o Modelo de Processo do Perdão, desenvolvido por Enright et al. (1991), que considera que o perdão pode ser alcançado a partir de um processo dividido em quatro fases: descoberta, decisão, trabalho e aprofundamento. Na fase de descoberta, a pessoa é exposta a estratégias para ampliar a consciência sobre a dor e os danos psicológicos resultantes da situação de ofensa, bem como as estratégias utilizadas para lidar com o acontecido. Esse resgate da memória da transgressão pode, inclusive, alterar a percepção da vítima em relação ao mundo, ao ofensor e ao seu próprio futuro. Em seguida, na fase de decisão, a pessoa é estimulada a avaliar a efetividade das estratégias adotadas na fase anterior, bem como a considerar o perdão como uma resposta à transgressão, com o estabelecimento de um compromisso pessoal de oferecer o perdão ao ofensor. Na fase de trabalho, a pessoa é instigada a adotar uma nova perspectiva em relação ao ofensor e à ofensa, buscando desenvolver atitudes empáticas e compassivas dirigidas ao ofensor. Por fim, na fase de resultados/aprofundamento, a pessoa é incentivada a buscar um significado para a experiência vivida, tomando consciência das situações em que precisou do perdão de outras pessoas, possibilitando novos propósitos de vida e a experimentação de maior liberdade emocional.
O presente estudo
Estudo realizado por Luz et al. (2019) identificou, a partir de revisões sistemáticas de literatura, elementos que potencializam o sucesso de intervenções com foco na promoção do perdão, dentre eles: a adoção do modelo proposto por Enright et al. (1991), fidelidade ao modelo escolhido e intervenção de média duração. Com base nesses achados e considerando a ausência de intervenções dessa natureza no cenário nacional (Pinho & Falcone, 2015), buscou-se desenvolver uma intervenção com foco na promoção do perdão como estratégia de promoção da saúde mental dirigida a adultos com queixas de ofensas interpessoais em contextos diversos, apoiada em uma avaliação de necessidade prévia, realizada em estudo anterior que sinalizou a relevância de intervenções dessa natureza (Luz et al., 2019). O modelo lógico da intervenção proposta está esquematizado na Figura 1.
Destarte, o objetivo geral deste estudo foi avaliar a aceitabilidade de uma proposta de intervenção para promoção do perdão e os efeitos de curto prazo a ela associados. Os objetivos específicos, no que diz respeito aos efeitos, foram: aferir, ao início e ao final da intervenção, o grau pelo qual os participantes perdoaram e o grau de empatia - nas dimensões de tomada de perspectiva e consideração empática - entre os participantes. Buscou-se também avaliar a aceitabilidade das metas, dos procedimentos e dos efeitos da intervenção - pelos participantes.
Método
Foram formados dois grupos divididos por conveniência em instituições distintas da cidade de Brasília, com as intervenções ocorrendo em momentos diferentes. A intervenção no Grupo 1 ocorreu nos meses de outubro e novembro e as atividades do Grupo 2 nos meses de novembro e dezembro. Algumas sugestões sobre medidas de processo coletadas no G1 subsidiaram adaptações no G2.
Delineamento
Utilizou-se um delineamento pré-experimental com avaliação de pré e pós-teste e avaliação de processo embutida.
Participantes
O processo de recrutamento dos participantes foi realizado por meio de cartazes afixados em murais da universidade e de instituições parceiras; de divulgação no informativo institucional da universidade e de postagens em redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter), em grupos de WhatsApp e na página da web www.caminhosparaoperdao.com.br, desenvolvida para essa finalidade. Foi oferecida ainda uma palestra de sensibilização, solicitada por uma instituição parceira. Ao final de uma pré-avaliação, na qual participaram 22 pessoas, 15 indicaram interesse em participar da intervenção. Os critérios de inclusão foram: manifestação espontânea de interesse e a vivência de ao menos uma situação de ofensa específica. Os interessados foram alocados em um dos dois grupos a partir da conveniência dos mesmos. A amostra final foi composta por 10 participantes. Destes, 5 compuseram o Grupo 1 com idades entre 25 e 68 anos (M = 42,2; DP = 18,1), 4 mulheres e 1 homem, com grau de escolaridade variando entre graduação (80%) e doutorado (20%), 3 participantes se autodeclararam cristãos e 2 disseram não possuir afiliação religiosa. Outros 5 compuseram o Grupo 2 com idades entre 39 e 54 anos (M = 48,8; DP = 6,91), 4 mulheres e 1 homem, 40% com graduação completa, 20% com especialização, 20% com mestrado e 20% com doutorado. Sobre afiliação religiosa, todos se autodeclararam cristãos.
Instrumentos
Escala EFI -30 itens (Enright Forgiveness Inventory). A EFI é uma escala objetiva de atitudes para o perdão, criada e validada nos Estados Unidos por Subkoviak et al. (1995) e posteriormente adaptada ao contexto brasileiro (Enright et al., 2022; Rique, 1999). A escala compreende três partes: uma Folha de Rosto composta por um questionário que busca coletar informações sobre o contexto de injustiça vivida. Os respondentes informam sobre o grau da mágoa sofrida em uma escala objetiva de 5 pontos (1 = nenhuma mágoa, 5 = tremendamente magoado), quem foi a pessoa que ofendeu, se a pessoa se encontra viva, há quanto tempo a ofensa ocorreu e, finalmente, uma questão aberta solicita descrever brevemente a ofensa. A segunda parte é um Inventário de 30 itens, distribuídos em seis escalas internas compostas por cinco itens cada: afetos positivos (ex., bondade, cuidado, carinho), afetos negativos (ex., repulsa, hostilidade, ressentimento), comportamentos positivos (ex., mostrar amizade, ajudar, ter consideração), comportamentos negativos (ex., evitar, ignorar, negligenciar), julgamentos positivos (ex., afetuoso, uma boa pessoa, merecedor de respeito) e julgamentos negativos (ex., uma pessoa má, fraca, uma pessoa difícil). Todos os itens da EFI são dispostos numa escala objetiva de concordância tipo Likert de 6 pontos (1 = discordo fortemente e 6 = concordo fortemente). Em seguida, é apresentada uma escala de cinco itens que tem como objetivo avaliar a consistência interna da situação que foi apresentada e da avaliação feita sobre o ofensor. Ao final do inventário, é colocada uma escala independente com um único item denominado: Item do perdão. Nesse item, o respondente deve indicar o quanto perdoou a pessoa avaliada na EFI em uma escala de 5 pontos (1 = não perdoei; 5 = perdoei completamente). Estudos de validação da EFI reportam índice de consistência interna (Alfa de Cronbach) de 0,96.
Escala Multidimensional de Reatividade Interpessoal - EMRI. Instrumento elaborado por Davis (1983) e adaptado por Formiga et al. (2013). É composto por 26 sentenças que medem habilidades empáticas, a partir das dimensões: fantasia, angústia pessoal, consideração empática e tomada de perspectiva. As respostas são assinaladas em uma escala tipo Likert de 5 pontos (1 = Discordo totalmente e 5 = Concordo totalmente). Estudos de validação reportam que o instrumento apresenta índices de consistência interna (Alfa de Cronbach) variando de 0,77 a 0,83.
Questionário Sociodemográfico: Composto por questões fechadas, com o objetivo de caracterizar os participantes em relação a gênero, idade, afiliação religiosa, grau de escolarização e estado civil.
Formulário de Avaliação da Sessão - Instrumento desenvolvido para aferir a percepção de aceitabilidade das atividades desenvolvidas na sessão, consistindo em uma tabela com três colunas, com subtítulos: Que bom, Que pena!, Que tal!, para que fossem apontados aspectos positivos (que bom) e negativos (que pena), além de levantar sugestões de aprimoramentos na intervenção (que tal).
Questionário de Avaliação da Intervenção - Instrumento com 8 questões, respondidas em uma escala de 1 a 5, variando de muito baixa a muito alta, com o objetivo de aferir a percepção de aceitabilidade das atividades desenvolvidas na sessão, o alcance de objetivos e levantar sugestões de aprimoramentos na intervenção (ex., em que medida as atividades propostas para a semana são úteis para o alcance dos objetivos pessoais e da intervenção?).
Diário de Campo - Caderneta de anotações com o objetivo de registrar as observações do pesquisador sobre a dinâmica da implementação de forma a subsidiar o monitoramento de medidas de processo como recrutamento, engajamento e aceitabilidade em relação à intervenção.
Linha Pessoal do Tempo - atividade qualitativa complementar à avaliação de aceitabilidade, na qual os participantes foram convidados a visualizar o percurso pessoal vivido no decorrer da intervenção e partilhar no grupo suas respostas às seguintes questões: A intervenção oferecida mostrou-se consonante com o que eu buscava? Do que mais gostei? Do que menos gostei? O que foi difícil? Foi útil para quê? Como entrei na intervenção e como saio agora?
Para favorecer a fidelidade na implementação da intervenção, foi elaborado um manual de orientação informando os recursos necessários à implementação, bem como as técnicas a serem utilizadas e o passo a passo para executá-las.
Procedimentos
Intervenção
A intervenção será descrita de acordo com o Template for Intervention Description and Replication Checklist and Guide - TIDieR (Hoffmann et al., 2014).
Nome breve: Caminhos para o perdão.
Por quê: A intervenção foi estruturada como estratégia de promoção da saúde mental, considerando o papel do perdão no processo interno de regulação das emoções. Para tanto, utilizou-se o Modelo de Processo do Perdão (Enright et al., 1991), que integra múltiplas teorias.
O que - materiais: Foram utilizados vídeos apresentando experiências de perdão, veiculadas na imprensa nacional, e peças institucionais de sensibilização para empatia e compaixão, disponíveis em plataformas de compartilhamento de vídeos; materiais impressos sobre modelos de perdão, bem como roteiros para exercícios em grupo e individuais, incluindo orientações para práticas de atenção plena.
O que - procedimentos: A Tabela 1 sumariza as atividades propostas em cada encontro. Os procedimentos incluíram atividades informativas sobre ideias acerca do tema, benefícios potenciais advindos do perdão e exercícios práticos como partilha de sentimentos em relação às experiências pessoais de perdão e à realização das atividades propostas.
Quem forneceu: A intervenção foi facilitada pelo próprio pesquisador, que tem formação em psicologia e atua como clínico há 13 anos e como facilitador de grupos há 10 anos.
Como: A intervenção foi entregue na modalidade de grupo, presencialmente.
Onde: Os encontros dos dois grupos ocorreram em duas instituições públicas do Distrito Federal, uma voltada para fins educacionais e a outra para o fomento de ciência, tecnologia e inovação. O ambiente físico onde os encontros foram realizados tinha estruturas semelhantes: sala privativa com cadeiras, janelas, ar-condicionado, aparelho e tela para projeção de vídeos.
Quando e quanto: Ambos os grupos tiveram encontros semanais, com duração de duas horas cada, durante sete semanas, totalizando 14 horas de intervenção.
Customização: Não houve adaptação na estrutura ou no conteúdo da intervenção.
Modificações: A intervenção foi implementada no G1 da forma como foi concebida inicialmente. Como o funcionamento dos grupos não foi simultâneo, pode-se realizar pequenas adaptações para o G2, a partir da experiência do G1, no procedimento de aferição de algumas medidas de processo, que no G1 foi realizado ao término da intervenção e no G2, durante o processo de implementação. As avaliações finais dos dois grupos subsidiarão ajustes para grupos futuros.
Quão bem - planejado: Não houve avaliação de fidelidade da intervenção.
Quão bem - realizado: Não houve avaliação de fidelidade da intervenção.
Coleta de Dados
O cadastro inicial de ambos os grupos (G1 e G2) foi realizado no sítio www.caminhosparaoperdao.com.br, onde os participantes acessaram o TCLE, realizaram a avaliação de pré-teste e sinalizaram em qual dos grupos teriam disponibilidade para participar. As orientações sobre local e horário do primeiro encontro foram encaminhadas para o e-mail cadastrado na página da web. Durante a intervenção, os participantes do G1 responderam individualmente ao Formulário de Avaliação da Sessão ao final das sessões 1 a 6 e no sétimo encontro preencheram o Questionário de Avaliação da Intervenção e a atividade Linha Pessoal do Tempo. Aos participantes do G2 foi solicitado que respondessem individualmente ao Questionário de Avaliação da Intervenção ao início dos encontros de 2 a 7. Os outros instrumentos foram respondidos de forma semelhante ao G1. Ambos os grupos responderam às medidas de pré e pós-teste (EFI e EMRI) e ao Questionário de Avaliação Sociodemográfica no sétimo encontro. Além dos questionários avaliativos, as atividades propostas na intervenção foram respondidas pelos participantes em formulários específicos para cada uma delas.
Análise de Dados
Para análise dos dados de natureza textual, foi realizada uma análise de conteúdo segundo Bardin (1995).
Para análise quantitativa, utilizou-se o editor de planilhas Microsoft Excel, onde foram computadas estatísticas descritivas como: frequência, média, desvio-padrão e erro-padrão. Adicionalmente, foi utilizado o método JT (Villa et al., 2012) para investigar o Índice de Mudança Confiável - IMC na comparação entre os escores de pré e pós-teste. O IMC serve para avaliar se as mudanças individuais observadas nas medidas de pré e pós-intervenção podem ser atribuídas à intervenção ou se estão associadas a erros de medida. As mudanças são interpretadas como positivas quando apresentam um acréscimo em escores de fatores positivos (por exemplo, aumento dos índices no fator consideração empática) ou decréscimo em escores de fatores negativos (por exemplo, diminuição de afetos negativos). Quando as mudanças se dão por uma alta em escores de fatores negativos (por exemplo, aumento de julgamento negativo) ou por uma queda nos escores de fatores positivos (por exemplo, redução dos índices no fator autonomia), elas são caracterizadas como negativas.
Considerações éticas
A pesquisa foi registrada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em xxx (omitido para avaliação cega de pares), Parecer Nº 2.731.624. Foram adotados todos os cuidados éticos previstos na Resolução CNS N.º 510/2016, incluindo a informação aos participantes quanto aos objetivos do estudo e aos seus direitos, bem como a expressão de consentimento por meio de assinatura do devido Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE.
Resultados
Os resultados revelaram que as ofensas mencionadas pelos participantes foram, em sua maioria, praticadas por pessoas próximas, como filho (10%), cônjuges (20%) e outros parentes (40%). Houve ainda relatos de ofensas causadas pelo patrão (10%) e por outras pessoas (20%). Em relação à intensidade da mágoa, 20% dos participantes declararam ter se sentido pouco magoados, 10% magoados em um grau mediano, 30% muito magoados e 40% muitíssimo magoados. Quanto ao tempo transcorrido desde a situação de ofensa, os relatos indicaram que ocorreu há poucos dias (10%), há algumas semanas (10%), há alguns meses (20%) e há mais de um ano (60%).
Efeitos
Ao analisar o grau de perdão oferecido antes e depois da intervenção, foi observado que todos os dez participantes apresentaram, em alguma medida, mudança confiável pós-intervenção. Considerando o instrumento que afere atitudes para o perdão, ocorreram mudanças positivas confiáveis em todos os fatores. A Tabela 2 apresenta, em destaque, as mudanças positivas e negativas.
Aceitabilidade das metas, dos procedimentos e dos efeitos
Os dados referentes à aceitabilidade da intervenção pelos participantes são sumarizados na Tabela 3, que apresenta os aspectos percebidos como positivos e negativos pelos participantes, com as respectivas frequências absolutas indicadas por cada participante sobre a percepção de efeitos da intervenção, além de sugestões de aprimoramento.
Conforme descrito na Tabela 3, a aceitabilidade da intervenção foi evidente por meio da predominância de relatos de aspectos positivos percebidos, quando comparados aos aspectos negativos. Os aspectos positivos mais salientes foram relativos aos procedimentos da intervenção, considerados interessantes e úteis, possibilitando maior consciência sobre si e sobre a situação de ofensa e os danos a ela associados. Os aspectos negativos menos frequentemente relatados, tendo se destacado a duração da intervenção, considerada mais curta pelos participantes.
Os dados do Questionário de Avaliação da Intervenção reforçam as evidências de aceitabilidade já encontradas, revelando percepções de ganhos pessoais, alcance de objetivos traçados pelos próprios participantes, a partir da execução das atividades propostas na intervenção. A Tabela 4 apresenta a média das respostas dos participantes ao Questionário de Avaliação da Intervenção.
Ainda sobre a aceitabilidade dos procedimentos, foi possível perceber nos relatos dos participantes a importância que eles atribuíam à intervenção e aos seus procedimentos, como uma oportunidade de refletir sobre experiências dolorosas em suas vidas e como uma possibilidade de desenvolver habilidades para lidar melhor com tais experiências e com situações futuras. A Tabela 5 apresenta relatos que evidenciam a aceitabilidade de metas, procedimentos e efeitos associados à intervenção.
Discussão
Os resultados desse estudo verificaram tanto mudanças positivas quanto mudanças negativas. As mudanças positivas e negativas ocorreram em proporções semelhantes, porém, sinalizando uma concentração positiva entre os indicadores de atitudes para o perdão, principal alvo da intervenção. A heterogeneidade de natureza da ofensa nos grupos, a variação nos graus de severidade, de proximidade com o ofensor e o tempo transcorrido desde a ofensa podem ter contribuído para a variabilidade de resultados. Estudos prévios mostraram que grupos homogêneos e com queixas de ofensas mais severas tendem a experimentar melhores resultados e com maior tamanho de efeito (Lundahl et al., 2008).
Uma análise mais detalhada sobre as ofensas reportadas revela que 70% delas foram causadas por algum parente, em 70% das situações a vítima se sentiu muito ou muitíssimo magoada e que a situação ocorreu há mais de ano, em 60% dos casos. É possível imaginar que haja uma diminuição de afetos, pensamentos e comportamentos negativos com o passar do tempo, por motivos variados (por exemplo: negação, evitação etc.). O participante, ao ser orientado a pensar em uma situação de mágoa e na pessoa que o ofendeu, respondendo sobre o que sente, pensa ou se comporta em relação a ela, pode ativar emoções e sensações associadas ao contexto de ofensa, elevando os níveis de afetos, julgamentos e comportamentos negativos em suas respostas. Considerando o caráter não linear do processo de perdão proposto por Enright et al. (1991), em que pode ocorrer regresso a etapas do processo já vivenciadas, é possível que os participantes experimentem, em alguma medida, mudanças negativas. Essa intensificação de sentimentos, julgamentos e comportamentos negativos é prevista quando a pessoa vivencia a fase de descoberta do processo proposto por Enright. Nela, a pessoa é exposta a estratégias para ampliação da consciência da dor sofrida e dos danos decorrentes, podendo ter sua percepção de injustiça e suas dores intensificadas. É importante investigar se os resultados negativos encontrados em intervenções não são efeitos iatrogênicos relacionados aos procedimentos (Bonell et al., 2015). O contraste com os achados de aceitabilidade da intervenção e as características do modelo teórico adotado levam a presumir que se trata de efeitos esperados, uma vez que os participantes são orientados a trazer à memória a experiência de ofensa sofrida.
No que se refere à empatia, chamou a atenção a ausência de mudanças positivas e mudanças negativas nos fatores de tomada de perspectiva e consideração empática, pois se trata de componentes essenciais no processo de perdão. Pode-se deduzir que as mudanças positivas nas atitudes para o perdão possam ter ocorrido com os níveis de empatia que os participantes já detinham na avaliação de pré-teste. Ainda podem ser consideradas outras possibilidades de leitura para esses achados: dentro do modelo de processo proposto por Enright, na fase de trabalho, é esperado um aumento de empatia em relação ao ofensor. É possível que, dada a duração da intervenção, os participantes não tenham alcançado essa fase do processo, não apresentando, portanto, bons escores em empatia na avaliação de pós-teste, esperados que sejam obtidos em um tempo superior ao da intervenção proposta.
A análise qualitativa dos efeitos da intervenção sobre as atitudes para o perdão sugere o alcance de algumas metas intermediárias e de curto prazo, como maior compreensão sobre o perdão e incremento em atitudes para o perdão. A compreensão conceitual do perdão é importante para evitar mal-entendidos comuns. De acordo com Wade e Worthington (2005), equívocos conceituais podem ser problemáticos em situações abusivas. Não distinguir perdão de reconciliação, por exemplo, pode limitar decisões realistas sobre manter, romper ou resgatar um relacionamento. Quando associado erroneamente à reconciliação, o perdão é alvo de críticas por contribuir para a manutenção de relações abusivas (Lamb, 2005). O alcance dessas metas, associado a relatos sobre disponibilidade para aprender novas estratégias para lidar com as situações de ofensas vividas e sobre mudanças de perspectivas em relação a atitudes pessoais, reflete a vivência, em alguma medida, do processo de perdão proposto por Enright et al. (1991) e adotado nesta proposta de intervenção.
Os indicadores de aceitabilidade revelam que a intervenção foi considerada relevante em suas metas, procedimentos e efeitos. As metas propostas pela intervenção sugerem uma consonância com as metas dos próprios participantes. Os participantes avaliaram os procedimentos como adequados para promover autoconsciência e consciência sobre a situação de ofensa e dor gerada. Os relatos de progresso e de recursos adquiridos refletem a utilidade da intervenção para sensibilizar os participantes a se engajarem no processo de perdão, motivados pelos benefícios experimentados. Além disso, os ganhos pessoais e mudanças percebidas parecem ser importantes no processo individual, sugerindo a aceitabilidade dos efeitos alcançados (Lane & Beebe-Frankenberger, 2004). Embora não seja suficiente, a aceitabilidade da intervenção pelo participante pode ser considerada um indicador de uma intervenção exitosa (Berkel et al., 2011).
Por outro lado, foi recorrente a menção à curta duração da intervenção. De fato, melhores resultados em intervenções para promoção do perdão estão associados a um maior investimento de tempo (Wade et al., 2014). Segundo Worthington et al. (2000), “tudo o que é feito para promover o perdão tem pouco impacto, a menos que seja gasto um tempo substancial ajudando os participantes a pensar e experimentar emocionalmente seu perdão” (p. 18). Assim, considerando o alcance parcial de metas intermediárias e de curto prazo, definidas no desenho da intervenção e descritas no modelo lógico (Figura 1), podemos pressupor que o tempo dedicado aos procedimentos propostos não foi o suficiente, necessitando, desta forma, de adequações dos procedimentos à duração da intervenção, de modo a ampliar o alcance dessas metas.
Considerações finais
O propósito deste estudo foi avaliar o processo de implementação, efeitos e validade social de uma proposta de intervenção para promoção do perdão, como estratégia de promoção da saúde mental. Os resultados apontam para o alcance parcial das metas intermediárias e de curto prazo, definidas no planejamento de intervenção, contribuindo para o aumento de atitudes para o perdão. Os participantes também experimentaram ausência de mudanças negativas, reportando principalmente aumento em afetos, julgamentos e comportamentos negativos. Tais resultados são possíveis de ocorrer em intervenções dessa natureza, mas alertam para uma análise mais cuidadosa desses efeitos não esperados.
Embora a teoria utilizada preveja a intensificação de sentimentos negativos no processo de perdoar, o que poderia explicar as mudanças negativas confiáveis identificadas, não se pode descartar a hipótese de efeitos colaterais negativos não esperados nesta intervenção (Bonell et al., 2015). Contudo, a consideração das mudanças negativas confiáveis constituírem dano decorrente da intervenção perde força se tais achados são contrastados com os achados de aceitabilidade da intervenção. De fato, a análise destes achados revela que o processo de mudança dos participantes é marcado por desconforto emocional, mas, a despeito disto, eles julgam a intervenção como relevante, útil e benéfica.
Também foram encontradas evidências de aceitabilidade social, revelando que os objetivos foram percebidos como importantes para o processo pessoal; que os procedimentos foram considerados interessantes e úteis; e que os resultados foram positivos e satisfatórios. Apresentou ainda mostras de que a intervenção foi bem recebida, avaliada positivamente pelos participantes e extensível a outras pessoas. Esses achados sugerem a aceitabilidade potencial da intervenção avaliada.
Dentre os aspectos metodológicos, o delineamento e o tamanho reduzido da amostra podem ser considerados as principais limitações deste estudo. Outras lacunas que podem ser apontadas são a ausência de avaliação de seguimento (follow-up) e de medidas mais específicas para variáveis como engajamento, fidelidade e contexto de implementação da intervenção. O alcance e a baixa taxa de retenção dos participantes neste estudo podem indicar a necessidade de ajustes no recrutamento em edições futuras da intervenção. Sugere-se, portanto, que estudos futuros examinem os mecanismos de mudança no processo de perdão para compreender melhor como se dá o processo de mudança dos usuários de intervenções para promoção do perdão. Podem também ser empreendidos estudos complementares, com a adoção de delineamentos mais robustos que possibilite análise de significâncias clínica e estatística dos resultados, avaliação da manutenção dos resultados e que investigue a relevância social a partir do olhar de outros informantes.
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Os dados de pesquisa estão disponíveis por solicitação ao autor correspondente.


