Open-access A Prontidão Comunitária no Piloto do Sistema “Comunidades que Cuidam” no Brasil

Resumo

Prontidão comunitária envolve a perspectiva de lideranças sobre a necessidade de mudanças no território, aliada à capacidade local para promovê-las. “Comunidades que Cuidam” é um sistema de prevenção em adaptação no Brasil. Objetivou-se avaliar a prontidão comunitária com 34 líderes da comunidade de São Paulo e 36 de Florianópolis. Este estudo possui metodologia quantitativa e descritiva, de recorte transversal. Resultados demonstraram dificuldades para produzir mudanças e diferenças estruturais entre as comunidades; entretanto, houve coesão de opiniões entre lideranças. É unânime que usar drogas é comportamento de risco, mas de fácil acesso nas comunidades. Há percepção de urgência para aplicar programas preventivos, ainda que muito pouco conhecidos. Conclui-se que investir na avaliação da prontidão pode ser importante para subsidiar intervenções comunitárias.

Palavras-chave:
Comunidades Que Cuidam; prontidão comunitária; sistema de prevenção; avaliação de processo; prevenção do abuso de drogas; mudança cultural

Abstract

Community readiness involves the perspective of leadership on the need for changes within the territory, combined with the local capacity to promote them. "Communities That Care" is a prevention system being adapted in Brazil. This study aimed to assess community readiness with 34 community leaders from São Paulo and 36 from Florianópolis. The study employed a quantitative, descriptive, and cross-sectional methodology. Results indicated difficulties in driving change and structural differences between the communities; however, there was cohesion in leaders’ opinions. It was unanimously recognized that drug use is a risk behavior, but that drugs are easily accessible in these communities. There is a perceived urgency to implement preventive programs, although such programs are not well-known. The study concludes that investing in readiness assessment can be crucial to supporting community interventions.

Keywords:
Communities That Care; community readiness; prevention system; process evaluation; drug abuse prevention; cultural change

A prontidão comunitária é um conceito amplo que envolve a percepção das lideranças comunitárias sobre o fato de que mudanças em seu território se fazem necessárias, aliada à capacidade local de construir ações que viabilizem transformações preventivas diante de problemas significativos na comunidade (Castañeda et al., 2012). O grau de preparação ou de prontidão é específico para cada demanda comunitária, sendo multifacetado em sua constituição. Há uma discussão sobre sua importância como elemento crucial a ser considerado na organização de um plano de ações de prevenção comunitária (Castañeda et al., 2012; Kostadinov et al., 2015).

A prontidão comunitária pode ser desenvolvida por meio de um processo de formação permanente, no qual a comunidade vai adquirindo noções fundamentais da ciência da prevenção, aprendendo a analisar e produzir dados que ajudem a compreender as reais necessidades da comunidade, a identificar e utilizar seus próprios recursos, além de buscar novos, para viabilizar ações preventivas (Castañeda et al., 2012). A avaliação da prontidão possibilita uma visão geral dos principais resultados referentes às mudanças nos processos organizativos e nas normas das comunidades, à qualidade do apoio das lideranças locais, entre outros aspectos relevantes, promovendo mais segurança para a implementação de treinamentos, estratégias e programas preventivos (Kostadinov et al., 2015).

Para que as intervenções preventivas sejam bem-sucedidas, estas devem incluir múltiplos componentes e uma variedade de métodos, com planejamento sistemático e uma abordagem colaborativa. O Brasil tem implementado na última década uma série de programas adaptados de prevenção escolar e comunitária ao uso de álcool e outras drogas (Abreu et al., 2021). Busca-se, neste momento da ciência preventiva do país, a mobilização social através do fortalecimento das redes sociocomunitárias como mecanismos permanentes de constituição dos programas e ações em desenvolvimento e implementação na intenção de garantir que as ações preventivas sejam planejadas e executadas ‘com’ a população para produzir autonomia e não ‘para’ a população e reforçar a alienação (Paiva et al., 2012).

O Communities That Care (CTC) é um sistema de prevenção de origem norte-americana que está em sua adaptação cultural piloto no Brasil, com denominação em português de “Comunidades que Cuidam” (CQC)2 (Frandoloso, 2023). É um sistema de prevenção baseado em evidências que busca produzir a articulação e capacitação de lideranças comunitárias (Hawkins et al., 2008; Brown et al., 2011). Este sistema se fundamenta em uma abordagem de saúde pública, tendo como base uma estrutura participativa e baseada nos territórios-alvo, que apresenta a possibilidade da construção de um planejamento preventivo específico, conforme o perfil comunitário construído (Hawkins et al., 2014).

Os principais resultados de prevenção almejados pelo CTC envolvem a redução de fatores de risco e a promoção de fatores de proteção relacionados ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas, ao comportamento antissocial e às violências (Rhew et al., 2013). Estudos apontam que o sistema CTC está associado à 32% menos probabilidade de jovens participantes fazerem uso abusivo de álcool e 25% menos chance de se envolverem em conflitos com a lei, quando comparados com um grupo controle de jovens que não participaram da intervenção. O CTC acumula 30 anos de trajetória, com estudos empíricos de alta qualidade, adaptado em mais de 600 comunidades, o que o torna reconhecido como um dos sistemas de prevenção mais implementados e avaliados no mundo (Brown, 2015).

Ao longo de sua ampla trajetória de implementação, o CTC identificou a importância de considerar a dimensão da prontidão comunitária para a mudança (community readiness for change) e integrou esse pressuposto na sua fase inicial, através do questionário “Community Key Informant Survey” (CKIS) (Oliveira Corrêa et al., 2020). Avaliar o nível de preparo da comunidade para desenvolver a CTC passou a ser um primeiro passo essencial do sistema de prevenção. Sendo assim, na primeira fase do sistema há a tarefa dos implementadores de entrevistar e aplicar o questionário com líderes-chave para determinar a prontidão da comunidade. Nas próximas fases, busca-se utilizar os pontos fortes da comunidade levantados nesta avaliação e desenvolver uma abordagem sobre as barreiras locais para estimular a abertura para mudança em forma de ações (Parker et al., 2018).

O CTC é avaliado como um sistema preventivo extremamente promissor para os países da América Latina, como Colômbia, Chile e México (Thurow, 2020), principalmente por seu potencial de empoderamento das comunidades através do estímulo ao desenvolvimento de níveis de prontidão maiores (Pérez-Gómez & Mejía-Trujillo, 2015). Na Colômbia, o sistema foi implementado em várias comunidades e o instrumento de prontidão comunitária (CKIS) foi adaptado transculturalmente. A experiência reafirmou a relevância do questionário para o processo diagnóstico de avaliação de diferentes níveis de prontidão em múltiplos perfis e áreas de intervenção (Oliveira Corrêa et al., 2020).

As adaptações do CTC para a América Latina são recentes se comparadas à trajetória de implementações mundiais, assim como estudos sobre a própria prontidão comunitária. As fontes de produção científica sobre prontidão comunitária são mais restritas a países desenvolvidos (Chilenski et al., 2007; Feinberg et al., 2004; Hawkins et al., 2008) ou algumas iniciativas em países latino-americanos, com produções ainda incipientes (Oliveira Corrêa et al., 2020; Pérez-Gómez & Mejía-Trujillo, 2015; Thurow, 2020).

Mesmo com uma trajetória bem consolidada no Brasil de intervenções comunitárias como ações nas favelas, em bairros populares, em comunidades eclesiais de base, e um desenvolvimento potente de uma psicologia social comunitária (Freitas Campos, 2015), identifica-se uma escassez de artigos, livros e publicações científicas qualificadas que abordem a dimensão da prontidão comunitária em contextos de implementação de estratégias comunitárias no Brasil. Destaca-se, deste modo, que estas ações comunitárias ainda não foram direcionadas para o campo preventivo. A fim de enfrentar a lacuna exposta, o presente artigo objetiva descrever o processo de avaliação inicial da prontidão comunitária nos dois territórios participantes, as primeiras evidências de fidedignidade da escala e seus desdobramentos na implementação piloto em curso no Brasil.

Método

Este estudo configura-se como uma pesquisa quantitativa e descritiva, de recorte transversal. Em termos da pesquisa em prevenção, é uma investigação no campo da ciência da implementação do Sistema de Prevenção Comunidades que Cuidam (CQC) em adaptação cultural piloto, que ocorreu entre novembro de 2020 e junho de 2023, em duas comunidades brasileiras. Trata-se de um projeto multicêntrico intitulado “Estudo piloto para a adaptação cultural do Sistema de Prevenção Communities That Care no Brasil” que envolve a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e a University of Miami. Este estudo foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH/UFSC), sob o nº CAAE 50477321.3.0000.0121 e o parecer nº 5.087.043, assim como no Comitê de Ética da UNIFESP, nº CAAE 54755921.6.0000.5505, e o parecer nº 5.780.949.

Contexto

Foram selecionadas comunidades com limites territoriais definidos, que apresentavam lideranças colaborativas e interessadas na implementação de projetos de prevenção, uma na região Sul e outra na região Sudeste. Estes locais não deveriam, nos últimos dois anos, ter implementado estratégias preventivas para uso de drogas ou violência.

Em São Paulo, a comunidade escolhida é o segundo maior distrito do município em extensão territorial, embora seja um dos menos povoados, com 153 km² e 202.321 habitantes (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística | IBGE. n.d.”). É considerada uma comunidade com índices elevados de vulnerabilidade social da cidade de São Paulo. Assim como outras periferias desta metrópole brasileira, possui um dos piores índices de urbanização da cidade. É marcada por um longo histórico de lutas por regularização fundiária e condições de moradia, pela dificuldade de acesso a serviços públicos e pela distância do centro da cidade. Entretanto, possui maior preservação do meio ambiente local, com remanescentes da Mata Atlântica e aldeias indígenas que mantêm protegida sua cultura. Em razão disto, a comunidade foi oficializada como polo ecoturístico de São Paulo, sendo um possível potencial econômico para esta região empobrecida (Subprefeitura de Parelheiros, Cidade de São Paulo, 2024).

A comunidade situada na capital de Santa Catarina conta com 22,45 km de área e tem uma população de 7.378 habitantes. Esta comunidade é uma das mais antigas da capital catarinense. Região de cultura típica da colonização açoriana que se consolidou economicamente como um lócus de maricultura e pesca artesanal, assim como um polo gastronômico e de turismo de Florianópolis (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística | IBGE. n.d.”). É considerado um bairro de classe média na cidade, com um dos m² mais caros do município. No entanto, a população enfrenta problemas no que diz respeito a questões ambientais, como o tratamento de esgoto na região, onde 20,9% dos moradores utilizam ligações irregulares para despejar seus efluentes, o que leva à contaminação de rios, mares e à degradação do meio ambiente local (Sartorato, 2020).

Participantes

Participaram do estudo 70 líderes-chave, sendo 34 de São Paulo e 36 de Florianópolis. Estes representantes das duas comunidades eram de ambos os sexos e, em sua maioria, moravam entre 11 e 30 anos na comunidade (38,2%, n = 13 em São Paulo e 50,0%, n = 18 em Florianópolis). Em São Paulo, 47,6% (n = 10) tinham entre 41 e 50 anos. Já em Florianópolis, o maior agrupamento foi entre 61 e 70 anos, que representou 26,6% (n = 9) da amostra. Em relação ao nível de escolaridade, 47,6% (n = 10) possuíam ensino superior completo em São Paulo e em Florianópolis, 52,9% (n = 18) possuíam pós-graduação.

Estes líderes-chave estavam envolvidos em associações de bairro ou conselhos comunitários (22.6%, n = 14 em São Paulo e 25.9%, n = 15 Florianópolis); instituições de ensino (4.8%, n = 3 em São Paulo e 17.2%, n = 10 em Florianópolis); igrejas ou centros religiosos de diferentes correntes (12.9%, n = 8 em São Paulo e 12.1%, n = 7 em Florianópolis); organizações não governamentais (ONGs) ou fundações culturais (11.3%, n = 7 em São Paulo e 6.9%, n = 4 em Florianópolis); setores de comércio e serviços (8.6%, n = 5 em São Paulo e Florianópolis); setores de segurança (4.8%, n = 3 em São Paulo e 8.6%, n = 5 em Florianópolis); ou aqueles que participaram por iniciativa própria, sem vínculos com qualquer organização (16.1%, n = 10 em São Paulo e 13.8%, n = 8 em Florianópolis). Representantes de instituições públicas de saúde foram reportados somente na comunidade de São Paulo (6,5%, n = 4). Essa variabilidade do perfil dos líderes e dos setores representados pelas lideranças envolvidas no processo é bastante positiva, pois possibilita um olhar multifacetado às respostas do questionário sobre a prontidão comunitária.

Instrumento

Utilizou-se o Questionário sobre Prontidão Comunitária (Community Key Informant Survey - CKIS; Arthur et al. 2002) que avalia indicadores de prontidão para a mudança na comunidade. A versão original, norte americana do instrumento possui aproximadamente 150 itens, porém utilizou-se uma versão adaptada para o contexto latino-americano já aplicada na Colômbia e Chile, com 16 dimensões, 32 itens e opções de resposta de 4 pontos para a maioria dos itens, que variou entre: 1 - Concordo totalmente; 2 - Concordo; 3 - Discordo; 4 - Discordo totalmente (Oliveira Corrêa et al., 2020). Foi realizada a tradução para o português brasileiro da versão em espanhol por quatro pesquisadores bilíngues, referências na área da prevenção no Brasil. A versão final, utilizada na presente coleta de dados, é o consenso das traduções entre os avaliadores. Processos de validade psicométrica do instrumento estão em andamento e serão publicados em artigos posteriores.

Oliveira Corrêa et al. (2020) realizaram uma análise dos perfis latentes em 211 lideranças comunitárias de 16 comunidades na Colômbia e utilizaram algumas dimensões citadas acima. Em seu estudo, foram verificadas as consistências internas da dimensão de Normas em relação ao uso de drogas (α = 0,80); Apoio à prevenção (α = 0,63); Abertura para mudança (α = 0,62); Coesão (α = 0,80); Conflito (α = 0,60); Liderança eficaz (α = 0,86) e Responsabilidade compartilhada (α = 0,65).

Procedimento de coleta de dados

A “Escala de Prontidão Comunitária para Líderes-chave” (versão brasileira do CKIS) foi aplicada em formato on-line, por meio de interface criada na plataforma RedCap. O link do questionário foi enviado por e-mail em agosto de 2021 aos inscritos do primeiro treinamento (Orientação de Líderes-Chave / Key Líder Orientation - KLO) antes do seu início. Ao final do treinamento, o link foi reenviado juntamente com o formulário de avaliação do treinamento. O questionário ainda foi enviado por mensagem via WhatsApp para outras lideranças que mostraram interesse no CQC, mas que não puderam estar presentes no treinamento em função da impossibilidade de participar no horário realizado.

Procedimento de análise dos dados

As análises estatísticas realizadas foram descritivas sobre a frequência das respostas dos itens e inferências através de teste de confiabilidade interna das dimensões, utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS - versão 21.0). A análise da confiabilidade foi examinada através do Coeficiente Alpha de Cronbach (α) (Souza, Alexandre & Guirardello, 2017). As análises consistiram na verificação dos índices para cada uma das 16 dimensões realizadas para cada comunidade.

O cálculo dos escores dos itens também ocorreu em separado para cada comunidade e consistiu em computar a média aritmética das médias das respostas dadas para cada um dos itens que compunham uma escala Likert. Para a maioria das dimensões, o cálculo dos escores (M) incluiu apenas os dados de participantes que haviam respondido a todos os itens. Contudo, o cálculo de escores para as dimensões com coeficiente alfa maior do que 0,73 permitiu a inclusão de algumas respostas não válidas (i.e., dados de participantes que não responderam todos os itens). O desvio padrão (DP) médio foi calculado em relação às médias dos escores calculados para toda a amostra (i.e., ambas as comunidades).

Os autores definiram por detalhar as discussões de cada escore através de uma análise das discordâncias e concordâncias das lideranças sobre as características de suas comunidades, para facilitar as comparações entre os territórios e seus impactos na dimensão da prontidão comunitária com foco na prevenção. Sendo assim, as respostas dos itens foram agrupadas de maneira categórica em “discordo” e “concordo” para a maioria das escalas de 4 pontos (discordo e discordo totalmente X concordo e concordo totalmente) e um agrupamento em 3 opções para as escalas de 5 pontos. Os resultados que se destacaram em cada comunidade por abarcar pelo menos 75% ou mais de respostas (1/4 da amostra) foram descritos em frequências na seção a seguir.

Resultados

Inicialmente, buscou-se investigar as análises de fidedignidade da medida de prontidão comunitária em adaptação cultural para o Brasil. Os resultados demonstraram que a maioria das dimensões teve padrões de fidedignidade aceitáveis para as duas comunidades-alvo. Boa parte dos valores estava no nível satisfatório (valores em torno de 0,70), altos (com valores em torno de 0,80) ou muito altos (com valores em torno de 0,90) na maioria dos constructos (Gliem & Gliem, 2003), indicando um bom desempenho do questionário e seu potencial de usabilidade para a realidade brasileira. Na Tabela 1, estão expostos o número de respostas para cada dimensão, além das médias aritméticas (escores), do desvio padrão médio e dos alfas de Cronbach por comunidades.

Tabela 1 -
Resultados de Consistência Interna e Escores de Prontidão Comunitária para Mudança nas Comunidades de São Paulo (São Paulo) e Florianópolis (Santa Catarina)

Algumas exceções, porém, apareceram em dimensões que necessitaram ser excluídas ou modificadas. A principal alteração se deu na dimensão de “Normas sobre o uso de drogas pelos adolescentes”, na qual, a partir da inspeção das correlações e dos índices de mudança, os itens tenderam a se organizar em duas dimensões diferentes: “Normalização do uso de drogas” e “Percepção do nível de risco do uso de drogas”. Essa decisão encontrou respaldo em uma publicação anterior, que sugeriu a necessidade de separar em duas dimensões durante a adaptação do instrumento para um contexto latino-americano (Oliveira Corrêa et al., 2020).

A dimensão de “Resolução de Conflito” apresentou baixíssima consistência interna na amostra de Florianópolis (α = 0.25), enquanto a dimensão de “Apoio para a Prevenção” apresentou consistência interna muito baixa na amostra de São Paulo (α = 0.31) e um valor limítrofe para Florianópolis (α = 0.50). Essas dimensões foram, portanto, retiradas das análises dos escores para as comunidades. Os detalhes da validação psicométrica do instrumento serão publicados em outro artigo que está em processo de submissão a um periódico científico.

Na Tabela 2 constam os percentuais médios das respostas totais dos líderes-chave de São Paulo e Florianópolis para as dimensões de prontidão para mudança do instrumento. A seguir, são apresentados os dados mais significativos por comunidade, com esta subdivisão por proximidade de dimensões do instrumento: (a) questões estruturais das comunidades; (b) como se organizam as comunidades; e (c) crenças sobre drogas e a pauta preventiva.

Tabela 2 -
Percentuais Médios das Respostas Totais dos Líderes-chave de São Paulo e Florianópolis para as Dimensões de Prontidão para Mudança

Questões estruturais das comunidades

A maioria dos líderes concorda que os moradores estão passando por dificuldades econômicas (95,2% em São Paulo e 84,1% em Florianópolis). Na comunidade da cidade de São Paulo, todos os líderes-chave que responderam ao questionário (n = 21) concordam que as pessoas estão tendo problemas financeiros e muitas estão desempregadas. Em Florianópolis, o percentual de concordância foi de 93,1% (n = 27) para problemas financeiros e 70.4% (n = 19) para desemprego. Na avaliação sobre os empregos disponíveis, 85,7% (n = 18) em São Paulo e 88,9% (n = 24) em Florianópolis concordam que o valor do salário oferecido é desvalorizado e insuficiente. Ao responder sobre a percepção da presença de pessoas empobrecidas na comunidade, em São Paulo há uma unanimidade sobre a ocorrência desta situação em seu território (100%, n = 21); já em Florianópolis, o índice de pobreza foi de 67,7% (n = 23). Tais indicadores apontam a existência de algumas diferenças entre as condições socioeconômicas das duas comunidades-alvo deste estudo piloto.

Sobre os indicadores sociais há uma percepção geral de que as condições de vulnerabilidade da comunidade de São Paulo são muito graves, com a concordância de 91,8% dos seus líderes. Na comunidade de Florianópolis, a percepção de gravidade sobre os indicadores sociais por parte dos líderes foi de 72,1%. O detalhamento dos itens nos mostra que em São Paulo, 100,0% (n = 21) consideram muito grave o consumo de álcool e outras drogas por adolescentes da comunidade. Em contrapartida, os líderes da comunidade de Florianópolis consideraram muito grave o uso de álcool, com percentual de 81.8% (n = 27) e outras drogas, com 84.9% (n = 28).

No que tange à presença de conflitos com a lei e de violências, 95,2% (n = 20) consideraram muito grave a sua ocorrência na comunidade de São Paulo e 81,3% (n = 26) na de Florianópolis. Para gravidez na adolescência, 95.0% (n = 19) consideraram muito grave sua presença em São Paulo, sendo que o índice baixa para 76.7% (n = 23) na comunidade de Florianópolis, ainda que seja alto. São Paulo ainda apresenta índices elevados para a percepção da presença de Ganges ou facções na comunidade (94.4%, n = 17), para a existência de prostituição infantil (88.9%, n = 16), assim como para a percepção de educação de baixa qualidade (95.2%, n = 20). Há também indicadores altos da presença de quadros de saúde mental, como depressão e suicídio na comunidade (95,0%, n = 19). Os mesmos percentuais para Florianópolis foram todos abaixo de 72%.

As vulnerabilidades econômicas, percepção de envolvimento de seus membros com violência e outras questões psicossociais são percebidas por seus líderes como mais graves na comunidade de São Paulo, o que corrobora com alguns indicadores sociais levantados pelos pesquisadores e pode impactar o levantamento de necessidades e das intervenções específicas que se fazem imprescindíveis para a prevenção em cada realidade local. Entretanto, as lideranças indicam que há presença de problemas significativos em ambas as comunidades, ainda que os dados mostrem algumas diferenças estruturais entre as duas comunidades.

Como se organizam as comunidades

A dimensão de “Organização comunitária” teve as respostas mais frequentes para os itens nunca e quase nunca, concentrando 55,4% em São Paulo e 45,6% em Florianópolis. Esse resultado indica uma percepção de frágil organização das comunidades, no que tange à manutenção e à limpeza da comunidade, revezamento para o cuidado de crianças e disponibilidade de atividades recreativas no território.

Em “Responsabilidade compartilhada” foi evidenciada uma diferença entre as perspectivas dos líderes das duas comunidades. Enquanto em São Paulo predominaram as respostas de “nunca” e “raramente” para os itens de responsabilidade (54,3%), em Florianópolis as respostas predominantes foram “com frequência” e “sempre” (65,1%). Destaca-se que, em São Paulo, 75,0% (n = 15) afirmam que nunca ou raramente as pessoas da comunidade cumprem suas promessas. Em contrapartida, 73,1% (n = 19) declaram que os membros da comunidade de Florianópolis são responsáveis com os compromissos que assumem. Apesar dessas diferenças, ambas as comunidades declaram através das respostas dos líderes que com frequência ou sempre estão dispostas a assumir compromissos para melhorar a vida na comunidade, 85,7% (n = 18) em São Paulo e 73,5% (n = 25) em Florianópolis.

Para a dimensão de “Coesão comunitária”, 71,8% dos líderes em Florianópolis concordam que a comunidade está em harmonia com seus valores e atitudes, enquanto em São Paulo a perspectiva é mais dividida: 52,3% concordam e 47,76% discordam. A comunidade de Florianópolis afirmou em 77,4% (n = 24) que você pode confiar nas pessoas e 87,9% (n = 26) estão dispostas a ajudar seus vizinhos. Concordam ainda em 86,7% (n = 26) que as pessoas tendem a se dar bem e 82,9% (n = 29) acreditam que as pessoas se sentem pertencentes à comunidade. Os percentuais de respostas para os mesmos itens não alcançam 68% em São Paulo, indicando uma demanda a ser desenvolvida na comunidade paulistana.

Em relação à “Liderança eficaz”, as respostas para ambas as comunidades apresentaram certa divisão entre o polo de discordância e o de concordância, sendo que em São Paulo 46,9% discordam e 53,1% concordam com a eficácia da liderança em lidar com as demandas. Em Florianópolis, segue a mesma tendência: 43,1% discordam e 56,9% concordam.

A dimensão de “Resolução de conflito” apresentou uma leve predominância das respostas dos líderes, ao concordarem sobre a habilidade das comunidades em mediar conflitos, 56,6% concordaram em São Paulo e 53,5% em Florianópolis, enquanto as discordâncias foram de 43,4% e 46,6%, respectivamente. Serão necessárias outras avaliações psicométricas para aprofundar a análise sobre esta dimensão que possui apenas 3 itens e que, em termos de consistência interna, apresentou diferenças nas duas amostras.

Por fim, quanto à “Eficácia coletiva”, os líderes discordam que os problemas das comunidades são manejados de maneira assertiva e coletiva (69.4% em São Paulo e 54.8% em Florianópolis). Discordam especificamente que os grupos comunitários têm recursos para reduzir os problemas dos adolescentes, em 90.5% (n = 19) em São Paulo e 96.6% (n = 28) em Florianópolis, e que os residentes participam juntos das tomadas de decisões, 90.5% (n = 19) em São Paulo e 85.7% (n = 24) em Florianópolis. Em São Paulo ainda discordam que há um planejamento para o que acontece na comunidade (79.0%, n =15). No entanto, 76.7% (n = 23) dos líderes de Florianópolis acreditam que a comunidade é capaz de resolver seus problemas, porém 79.0% (n = 15) dos líderes em São Paulo acreditam no contrário, que os problemas da comunidade estão além da capacidade dos membros de resolvê-las.

Crenças sobre drogas e a pauta preventiva

Sobre a “Disponibilidade de drogas na comunidade”, a maioria relata ser fácil para os jovens terem acesso a álcool e outras drogas (90,2% em São Paulo e 89,9% em Florianópolis). No Brasil, as drogas legais de maior consumo são o álcool e o cigarro de tabaco/nicotina, e essa realidade é exposta nas comunidades investigadas. Em São Paulo, 95,2% (n = 20) dos líderes compreendem que é fácil os adolescentes acessarem bebida alcoólica na comunidade, e em Florianópolis, 97,0% (n = 32) concordam com essa facilidade. No que tange ao tabaco, 95,2% (n = 20) em São Paulo e 93,9% (n = 31) dos líderes em Florianópolis também acreditam ser fácil aos jovens acessarem esses cigarros na comunidade. A maconha, apesar de ser uma droga ilegal no país, também está presente nas comunidades com facilidade, 90,5% (n = 19) em São Paulo e 90,0% (n = 27) em Florianópolis. Todavia, nas demais drogas ilegais, como cocaína, crack e ecstasy, o acesso é percebido como levemente menor, 80,0% (n = 16) em São Paulo e 78,6% (n = 22) em Florianópolis. Esses resultados evidenciam um grande desafio sobre a disponibilidade de drogas nas comunidades, mesmo para adolescentes menores de idade que estariam, supostamente, impedidos de acessar drogas, mesmo as legais.

Outro ponto relevante na perspectiva das comunidades sobre as drogas diz respeito à sensação de normalidade do uso de drogas na rotina dos adolescentes. As respostas para essa dimensão sobre “Normalização do uso de drogas” foram um pouco mais divididas do que as da dimensão anterior. Contudo, 79,0% (n = 15) em São Paulo e 87,5% (n = 28) em Florianópolis discordam de que o uso de drogas ilegais (cocaína, crack e ecstasy) seja normal e esperado para a fase da adolescência.

Essa disponibilidade e normalidade podem se agravar quando associadas a uma percepção que relativiza os prejuízos do uso de drogas por adolescentes, porém, este não parece ser o cenário presente nas comunidades investigadas. Os resultados apontam que na dimensão de “Percepção do nível de risco do uso de drogas”, as comunidades concordam que o uso de drogas faz mal ou são ruins para o desenvolvimento saudável dos adolescentes (76.6% em São Paulo e 88.7% em Florianópolis). Esse percentual variou um pouco entre as comunidades e sobre o tipo de droga questionada, como na dimensão anterior. Para o álcool, 81,8% (n = 27) dos líderes em Florianópolis consideram ruim, assim como 78,8% (n = 26) no caso dos cigarros de nicotina. Os percentuais em São Paulo não ultrapassaram os 64%, evidenciando uma pequena diferença na perspectiva sobre as drogas das comunidades. Entretanto, sobre a maconha, 84,6% (n = 22) em São Paulo e 94,1% (n = 32) dos líderes em Florianópolis a caracterizam como ruim. Esse percentual chega a 100,0% das respostas (n = 34) em Florianópolis para as drogas ilegais mais estigmatizadas e em São Paulo representou 96,2% (n = 25) das respostas. Ou seja, há uma percepção de que as drogas estão disponíveis nas comunidades; seu uso é considerado comum, com exceção das drogas ilegais; contudo, o uso é massivamente entendido como um comportamento de risco e ruim para a saúde e para a comunidade.

As respostas sobre “Colaboração entre membros e setores” foram similares entre as comunidades e a leve maioria de 52,9% em São Paulo e 52,8% em Florianópolis discorda que há essa articulação na comunidade para buscar soluções para suas demandas. Organizações e instituições em ambas as comunidades declaram aceitar um papel específico na implementação de um plano para prevenir comportamentos de risco dos adolescentes. Concordaram com esta afirmação um total de 95,7% (n = 22) em São Paulo e 80,0% (n = 24) líderes em Florianópolis. Entretanto, outras discordâncias ficaram evidentes. Em São Paulo, 75,0% (n = 15) declararam não existir uma rede para garantir o bem-estar de crianças e adolescentes. Já em Florianópolis, as maiores dificuldades da comunidade estão então concentradas na coordenação de estratégias preventivas simultâneas (79,3%, n = 23) e no compartilhamento de recursos (76,9%, n = 20) para implementar iniciativas focadas nos adolescentes.

Em relação ao comprometimento e participação dos membros da comunidade, a maioria de 73.7% em São Paulo e 66.7% em Florianópolis discorda que haja um “engajamento comunitário” para prevenção. As respostas demonstram que os líderes-chave discordam que os moradores participam das decisões, 81.0% (n = 17) em São Paulo e 80.0% (n = 24) em Florianópolis. Em São Paulo, constatou-se ainda a dificuldade de engajar os moradores em atividades comunitárias, com 81,5% (n = 22).

Os resultados da dimensão “Abertura para a mudança” demonstraram disposição das comunidades para testar novas ideias para resolver problemas, com 72,0% dos líderes-chave concordando em São Paulo e 87,1% em Florianópolis. Entretanto, a abertura das comunidades para a mudança ainda se apresenta como um desafio, pois em São Paulo 51,9% (n = 14) dos líderes compreende que a comunidade é resistente à mudança e em contrapartida, a maioria de 57.6% (n = 19) acredita que a comunidade de Florianópolis é aberta.

A dimensão de “apoio da comunidade para prevenção” verificou a crença e o conhecimento que a comunidade atribui à abordagem de prevenção, sendo que 63,8% em São Paulo e 56,5% em Florianópolis discordam de que há esse apoio. Em ambas as comunidades, as pessoas não estão dispostas a pagar mais impostos para apoiar programas de prevenção, com índices de 84,2% (n = 16) em São Paulo e 93,3% (n = 28) em Florianópolis. No que se refere à legitimidade de ações preventivas, em Florianópolis, 75,8% (n = 25) concordam que é possível reduzir os problemas dos adolescentes através de programas de prevenção. Em contrapartida, em São Paulo, 76,2% (n = 16) desconhecem programas de prevenção.

No que tange à “urgência na prevenção”, 100,0% dos líderes em São Paulo e 95,8% em Florianópolis caracterizam como importante a abordagem preventiva para lidar com as demandas dos adolescentes. As comunidades se destacam positivamente ao considerar muito importante prevenir comportamentos pouco saudáveis entre os jovens, como o uso de drogas, crime ou conflito com a lei, violência e abandono escolar. Por fim, a partir dos resultados relacionados à prevenção, verificou-se a necessidade de investir em treinamentos que estimulem o apoio, engajamento e colaboração entre membros e setores das comunidades para a prevenção, apesar de já compreenderem a sua relevância.

Discussão

Questões estruturais das comunidades

A demarcação da inscrição social envolve duas dimensões: a primeira é a inserção no mundo do trabalho, com seus condicionantes, seus riscos e proteções; e a segunda, as relações de proximidade, que abarcam as relações familiares, as de vizinhança e outras relações sociais e comunitárias, que fornecem ao sujeito condições de proteção e segurança (Castel, 1998). Nesta direção, é importante pensar como as relações de proximidade podem fornecer para as pessoas condições de risco ou proteção e, assim, estabelecer uma relação direta com os pressupostos para as ações preventivas, como as que focam no uso de drogas e violências.

Ao avaliar a prontidão comunitária dos dois territórios alvos do estudo piloto do Sistema de Prevenção “Comunidades que Cuidam” (CQC) no Brasil, verificamos que as condições de vulnerabilidade, conforme acima discutida (Castel, 1998) são mais fortemente marcadas na comunidade de São Paulo do que na de Florianópolis, ainda que as lideranças de ambos os territórios indiquem a presença de problemas econômicos e fragilidades nos indicadores locais.

No último senso, em 2022, São Paulo ainda preserva a primeira colocação com o maior PIB do país e Florianópolis está em 51º no ranking nacional; entretanto, São Paulo e Florianópolis estão empatados em 10º lugar com 4,4 salários mínimos médios mensais dos trabalhadores formais (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística | IBGE. n.d.”). No que tange a percepção dos líderes-chave sobre as questões estruturais, a comunidade de São Paulo, obtive um maior percentual de risco em todos os índices, desde problemas financeiros, desemprego e baixa renda; assim como grave consumo de álcool e outras drogas por adolescentes, conflitos com a lei, violências, gravidez na adolescência, percepção da presença de Ganges ou facções, prostituição infantil, educação de baixa qualidade e quadros de saúde mental como depressão e suicídio na comunidade.

Abordar esses determinantes estruturais e compensar injustiças históricas exige, por um lado, mudança de políticas em larga escala, mas traz, por outro, a tarefa de planejar mudanças práticas nos determinantes sociais das comunidades (Brownson et al., 2021). Ainda que as ações preventivas não consigam alterar por si sós os macrodeterminantes, devem levá-los em consideração para planejar as intervenções preventivas que busquem dar conta da dialética da produção das subjetividades e de estilos de vida que expressam os vários níveis de determinação social.

Em outras palavras, o CQC não poderá mudar as diferenças históricas que levaram à constituição socioeconômica destas duas comunidades com características diferentes em sua construção, mas pode incidir sobre os processos de vulneração dos jovens, fortalecendo habilidades de vida e seu protagonismo para enfrentar as pressões do contexto, assim como, promover reflexões criticas com as famílias e lideranças sobre como as vulnerabilidades econômicas podem ser fatores de risco para envolvimento com violências e uso de drogas. Sistemas preventivos como o CQC podem subsidiar a autogestão comunitária, criando espaços e condições para a resolução dos diversos problemas sociais existentes e que necessitam ser enfrentados, fortalecendo vínculos e as potencialidades comunitárias, produzindo autonomia no enfrentamento dos problemas de saúde, podendo incidir sobre estas diferenças socioeconômicas, tornando-se fator de proteção (Paiva et al., 2012).

Como se organizam as comunidades

Destaca-se aqui a forma como as pessoas participam das decisões que envolvem pautas coletivas, se há ou não coesão nestes movimentos de melhoria do território, assim como a perspectiva da eficácia das lideranças comunitárias e da articulação necessária para as lutas por melhorias locais. Neste sentido, conhecer como as comunidades se organizam pode impactar a eficácia do plano preventivo desenvolvido pelas coalizões comunitárias (Castañeda et al., 2012). Produzir uma melhora nos índices de eficácia coletiva é trabalhar para uma visão positiva da comunidade para que seus integrantes a reconheçam como força potente de transformação (Edwards et al., 2000).

As comunidades de Florianópolis e São Paulo se destacaram positivamente em relação à coesão de suas opiniões e ideias sobre a comunidade, seu funcionamento e atitudes em relação à prevenção; contudo, foi verificada uma dificuldade em ambas as comunidades para produzirem mudanças no território. Por essa razão, buscar a articulação das várias iniciativas e lideranças já existentes, potencializando ações coletivas e o desenvolvimento de um racional sobre sistemas de cuidado conjunto, pode ser um movimento importante em prol da mudança de atitude e do engajamento das pessoas para mudanças significativas no território (Kostadinov et al., 2015).

A adoção de estratégias preventivas baseadas em evidência é um dos elementos centrais do CQC (Frandoloso, 2023). Em paralelo às fases de implementação, são desenvolvidos conhecimentos e habilidades focados na abordagem preventiva científica e no funcionamento produtivo da coalizão, potencializando ações conjuntas e o fortalecimento das relações interpessoais e intersetoriais. Tais mudanças são essenciais para promover resultados de longo prazo do sistema de prevenção, pois trazem mudanças na organização comunitária, com foco na autonomia, empoderamento e engajamento das lideranças em ações preventivas com indicadores de eficácia (Brown, 2015).

Crenças sobre drogas e na ciência da prevenção

As duas comunidades alvo do estudo piloto do CQC no Brasil têm uma percepção de que as drogas estão facilmente disponíveis nas comunidades e que seu uso é considerado comum pelos jovens e por suas famílias, principalmente as drogas lícitas, como o álcool e tabaco, assim como, também, a maconha, ilícita no Brasil, mas já com um movimento inicial de normalização e legalização do uso desta substância. Por outro lado, o uso de drogas é massivamente entendido como um comportamento de risco e nocivo para a saúde e ambiente da comunidade.

Avaliações sobre o processo de implementação do CTC demonstraram que o aumento de normas contra o abuso de drogas nas comunidades promoveu redução do índice do uso de drogas pelos jovens nas fases de implementação e de sustentabilidade do sistema preventivo (Rhew et al., 2013). Esses resultados corroboram com a teoria de mudança do CTC, que compreende que níveis de prontidão e engajamento comunitários altos, promoção de vínculos positivos, de normas claras, reconhecimento de comportamentos pró-sociais e a adoção da perspectiva baseada em evidências, são capazes de estimular, de maneira geral, comportamentos saudáveis entre os jovens (Brown et al., 2011).

A maioria das lideranças das duas comunidades piloto brasileiras entenderam que há uma urgência para a pauta preventiva. Apesar do senso de urgência, não existe um conhecimento aprofundado sobre estratégias e programas preventivos baseados em evidência, pois as lideranças declararam existir certo desconhecimento da população local dessas iniciativas. Ainda prevalecem em ambas as comunidades um olhar para a prevenção baseado no já questionado modelo de “guerra às drogas”, sustentado na passagem de informações através de palestras de especialistas e ex-usuários, com base em amedrontamento e descrição dos efeitos das substâncias (Abreu et al., 2021; Freitas Campos, 2015).

Esta é uma questão a ser trabalhada, visto que a atitude de uma comunidade que confia na abordagem da prevenção baseada em evidências relaciona-se diretamente com a diminuição de índices de uso de álcool e outras drogas e violência (Hawkins et al., 2014). Por exemplo, nos Estados Unidos, um estudo clínico randomizado revelou uma maior aceitação das estratégias preventivas baseadas em evidências entre as comunidades submetidas ao CTC, quando comparadas às comunidades de controle, após um período de um a quatro anos e meio de implementação (Brown et al., 2011). Os líderes nas comunidades CTC continuaram a relatar estágios mais elevados da adoção de abordagem baseada na ciência mesmo no período de sustentabilidade (Rhew et al, 2013). Os treinamentos do CTC sobre “o que é a prevenção baseada em evidências” são apontados como de grande relevância pelos líderes comunitários para estimular essa nova perspectiva e abertura para a ciência da prevenção (Gloppen et al., 2016).

As comunidades estarem abertas para a mudança é o ponto de partida para qualquer sucesso de estratégias interventivas nos territórios, não sendo diferente com implementação do sistema CQC (Basic, 2015). Talvez um dos maiores desafios a serem superados nessa primeira adaptação cultural do CQC no Brasil seja, além da necessidade da construção de um conhecimento em ciência da prevenção, o desenvolvimento de ferramentas para alterar os níveis de prontidão comunitária e de fato preparar a comunidade para ser protagonista de mudanças significativas em seu território (Frandoloso, 2023). Sendo assim, as intervenções do CTC, que promovem formação contínua para as lideranças e membros da coalizão comunitária em ciência da prevenção podem ser, de fato, um recurso necessário para que as comunidades passem de um estágio de contemplação para um estágio de ação efetiva da mudança (Gloppen et al., 2016).

Por fim, conhecer a prontidão para mudança de uma comunidade, escola, ou outra instituição é um passo relevante no processo de implementação de estratégias preventivas de qualidade, substanciadas na perspectiva científica e com bons índices de aderência por sua população-alvo. A prontidão funciona como um moderador mensurável da eficácia, efetividade, adesão e viabilidade do processo de implementação e de resultados e dá indicativos da sustentabilidade de intervenções preventivas (Basic, 2015; Chilenski et al., 2007).

Considerações finais

Esta pesquisa está relacionada à adaptação cultural do Sistema Preventivo “Comunidades que Cuidam” (CQC) e revelou a importância de considerar a dimensão da prontidão para consolidar um planejamento preventivo qualificado de base comunitária. A prontidão comunitária para mudança permite que a comunidade seja a protagonista do conjunto de atividades a serem desenvolvidas e, desta forma, estabelece-se uma conexão mais potente com os valores e a dinâmica local, trazendo maior efetividade para as ações.

A temática da prontidão comunitária é, ainda, muito pouco desenvolvida no Brasil, apesar da tradição que este país traz de intervenções sociocomunitárias. Sendo assim, discutir conceitos e bases teóricas para pensar este construto, assim como adaptar ou desenvolver instrumentos que o avaliem, é uma iniciativa importante. Além de contribuir com a ciência da prevenção em nosso país, a prontidão comunitária para mudança pode dialogar com a psicologia social comunitária tão consagrada no país e outras iniciativas de base na articulação das forças presentes nos territórios.

O CTQ, como um sistema preventivo, tem se mostrado promissor para ser implementado no Brasil, na medida em que traz contribuições para refletir e qualificar as intervenções de base comunitária e, assim, ser uma sustentação consistente para programas preventivos para abuso de álcool e outras drogas baseados em evidência. O presente estudo é pioneiro na temática da prontidão comunitária no contexto da implementação de um sistema preventivo no país. Novos estudos que envolvam mais comunidades e outras regiões brasileiras começam a ser desenvolvidos, para de fato, verificar sua viabilidade e eficácia para o fortalecimento da prevenção comunitária no Brasil.

A “Escala de Prontidão Comunitária para Líderes-chave” está em processo de adaptação cultural ao Brasil e, neste momento do estudo piloto, ainda não tinha passado por todas as fases necessárias para uma validação psicométrica completa, necessitando de mais verificações para sustentar a fidedignidade de seus resultados. Por isso, os resultados obtidos devem ser relativizados, requerendo novos estudos, quando os instrumentos do CQC estiverem definitivamente validados ao Brasil. Outra limitação a ser apontada é que esta pesquisa envolveu um estudo de caso de duas comunidades, com realidades muito específicas, o que não pode ser generalizado, ainda que aponte alguns indicativos sobre os desafios da intervenção no construto da prontidão comunitária para nosso país, com a diversidade de realidade comunitária que existe.

Novas atividades investigativas se fazem necessárias para dar sequência ao processo iniciado neste estudo piloto de adaptação do CQC ao Brasil. Inicialmente promover um estudo psicométrico robusto da “Escala de Prontidão Comunitária para Líderes-chave e na sequência, realizar novas aplicações do instrumento e comparação dos dados pré e pós-intervenção do CQC. Estes estudos são fundamentais para verificar se o sistema auxilia, de fato, na melhoria dos índices de prontidão comunitária em relação ao tema de prevenção ao uso de drogas, violências ou outras temáticas de interesse público ou acadêmico.

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  • 2
    Neste artigo solicitamos aos leitores que prestem atenção nas denominações do sistema preventivo, pois vão ser utilizadas as duas versões: a originária, quando se tratar de descrições e estudos norte-americanos ou internacionais, denominado de Communities That Care (CTC); quando se referir ao processo de adaptação do sistema ao Brasil vai ser chamado de Comunidades Que Cuidam (CQC).
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Os dados de pesquisa estão disponíveis por solicitação ao autor correspondente.

Editado por

  • Editor Chefe
    Tiago Jessé Souza de Lima
  • Editor Associado
    Pedro Henrique Antunes da Costa

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis por solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Jan 2024
  • Aceito
    04 Set 2024
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