Open-access A evangelização juvenil à luz de Francisco: pressupostos, caminhos e desafios*

Youth Evangelization in the Light of Pope Francis: Foundations, Pathways, and Challenges

RESUMO

O artigo apresenta a contribuição do Papa Francisco para a evangelização juvenil e os desafios subjacentes. Inicialmente destaca dois pressupostos fundamentais para a Pastoral Juvenil em seu magistério: a liberdade, como dom divino que possibilita resposta madura ao chamado de Deus, e a pertença, como enraizamento no Povo de Deus e em sua memória viva. A partir desses eixos, examinam-se os elementos metodológicos que configuram a renovação da Pastoral Juvenil: a centralidade do querigma; a dimensão vocacional e o seguimento como relacionamento com o Senhor; a missão articulada à solidariedade; a sinodalidade como participação ativa; e a perspectiva popular, que extrapola as estruturas para acolher. Evidencia-se o acompanhamento como eixo constitutivo do amadurecimento espiritual e comunitário e o ambiente digital como espaço de presença e missão. Conclui-se que Francisco propôs uma Pastoral Juvenil integral, capaz de formar jovens protagonistas de uma fé encarnada e missionária, que impulsiona a renovação das estruturas eclesiais.

PALAVRAS-CHAVE
Pastoral Juvenil; Evangelização com jovens; Papa Francisco; Renovação

ABSTRACT

The article examines Pope Francis’s contribution to youth evangelization and its underlying challenges, highlighting two fundamental premises of his magisterium: freedom, understood as a divine gift that enables a mature response to God’s call, and belonging, understood as being rooted in the People of God and in their living memory. Based on these axes, the methodological elements that shape the renewal of Youth Ministry are examined: the centrality of kerygma; the vocational dimension and discipleship as a relationship with the Lord; mission linked to solidarity; synodality as active participation; and the popular perspective, which goes beyond structures to welcome. Accompaniment is highlighted as a constitutive axis of spiritual and community growth, and the digital environment as a space of presence and mission. It is concluded that Francis proposes an integral Youth Ministry, capable of forming young protagonists of an incarnate and missionary faith, which drives the renewal of ecclesial structures.

KEYWORDS
Youth Ministry; Evangelization with young people; Pope Francis; Renovation

Introdução

O pontificado de Francisco promoveu uma visível reorientação da atenção pastoral para as juventudes: iniciativas como o Pacto Educativo Global e a Economia de Francisco colocam-nas como sujeitos ativos de transformação social. O Sínodo dos Jovens (2018) e a Christus Vivit consolidaram essa ênfase, exigindo da Igreja a passagem de ações pontuais, para processos de escuta, acompanhamento e formação que contemplem a fé, a integralidade da pessoa humana e a responsabilidade socioambiental. Diante disso, nas comunidades eclesiais, observam-se avanços, mas também retrocessos, especialmente com o surgir de grupos tradicionalistas que cativam as juventudes. Entretanto, na realidade brasileira, a gama de propostas de evangelização juvenil indica a busca e a necessidade de estabelecer diálogo com as novas gerações colocando-as em conexão com a proposta do Evangelho de forma integral, integradora e transformadora das realidades.

Diante disso, este artigo, objetiva analisar a contribuição do pontificado de Francisco para a ação evangelizadora com jovens. Para isso, investiga a os fundamentos e as proposições, bem como reconhece os desafios que se apresentam para sua efetivação. Para isso, propõe-se a reler a Christus Vivit e o processo sinodal ocorrido entre 2017 e 2018, destacar suas propostas e avaliar seus desafios a partir das realidades pastorais vivenciadas. Têm-se como plano de fundo a realidade da Pastoral Juvenil no Brasil, com sua diversidade e desafios e as experiências da assessoria nacional da Pastoral Juvenil. Considera-se ainda, a pesquisa realizada para obtenção do grau de doutorado com o tema: Evangelização com jovens em perspectiva querigmática: estudo teológico-pastoral sobre o anúncio e aprofundamento do querigma na Pastoral Juvenil.

Nota-se que a proposta de Francisco é coerente e inspiradora para a ansiada renovação das estruturas eclesiais. Nesta chave de leitura, inicialmente serão apresentados os pressupostos a partir do conceito de juventude e os dois elementos basilares da proposta de Francisco: liberdade e pertença. Na sequência, elenca-se o que a Pastoral Juvenil é chamada a ser a partir de uma perspectiva querigmática: vocacional, missionária, sinodal, popular e, de modo transversal, exercida por meio do acompanhamento integral das juventudes. Considera também o ambiente digital como espaço de presença e missão da juventude. Por último, os desafios para efetivação das propostas são indicados com base na documentação do Sínodo dos Bispos de 2018 e na experiência pastoral, considerando os limites de uma análise mais ampla e concreta. A partir disso, será possível compreender como a evangelização juvenil proposta pelo Papa se estrutura como um processo contínuo de discipulado, discernimento e amadurecimento integral.

1 Pressupostos

Em seu pontificado, o Papa Francisco buscou realizar importantes reformas na Igreja. A reforma da cúria romana (PE, n. 2022) efetivou este anseio em nível institucional, expresso nos diversos sínodos realizados. Buscava-se, porém, não apenas a reforma de uma estrutura, mas de um jeito de ser e pensar a Igreja e sua atuação no mundo, ou seja, uma reforma também espiritual e pastoral. Desta forma, as novas gerações, de quem é próprio o novo, poderiam contribuir significativamente uma vez que podem agir com “parresia” (Francisco; Leoncini, 2018, p. 33). Assim, o Papa identifica nas juventudes uma promessa carregada de alegria, esperança e capacidade transformadora (Francisco; Leoncini, 2018, p. 21). Por isso, Francisco afirma que os jovens “são o agora de Deus” (ChV, n. 64): sua presença não remete somente ao amanhã, mas enriquece o presente eclesial com seu dinamismo e autenticidade.

Para o Papa, a juventude é sobretudo um “dom de Deus”: um tempo marcado pela busca de sentido, pela formação da identidade, pela inquietação fecunda que impulsiona ao bem e pela abertura ao discernimento (ChV, n. 134). É também um período de sonhos que, iluminados pela relação com Cristo, orientam para uma vida plena e bela (ChV, n. 137). Nessa perspectiva, o cuidado pastoral com as juventudes nasce da convicção de que cada jovem carrega um potencial de plenitude em Deus e pode se tornar agente de renovação no mundo. Ademais, são destinatários do anúncio do “coração da mensagem de Jesus Cristo” (EG, n. 34) que é a “beleza do amor salvífico de Deus manifestado Jesus Cristo, morto e ressuscitado” (EG, n. 36).

Ao mesmo tempo, sua leitura da juventude se distancia de qualquer definição abstrata ou homogênea. Francisco insiste que “a juventude não existe” (ChV, n. 71); existem jovens concretos, com rostos, histórias e contextos profundamente diversos. Essa compreensão supera reducionismos, sublinhando que cada pessoa jovem é irrepetível, portadora de dons próprios e chamada a contribuir com a Igreja e a sociedade a partir de sua singularidade. O reconhecimento dessa variedade, acolhida amplamente no Sínodo dos Bispos de 2018, evidencia que as experiências juvenis são moldadas por condições sociais, culturais, existenciais e eclesiais muito distintas e que precisam ser consideradas no processo de evangelização. Tal constatação funciona, portanto, como um critério crítico que questiona modelos pastorais homogêneos, baseados em metodologias rígidas e propostas massificadas, incapazes de dialogar com a complexidade real das juventudes.

Além de sua compreensão de juventude, a leitura atenta das intervenções de Francisco dirigidas aos jovens, marcadas por forte enraizamento na teologia pós-conciliar e latino-americana, permite identificar dois pressupostos estruturantes que dão forma e direção à sua proposta para a Pastoral Juvenil: a liberdade humana como dom teologal que torna possível a resposta ao chamado de Deus e a pertença a um povo como lugar histórico, espiritual e cultural no qual essa liberdade se realiza e é discernida. Esses eixos antropológicos e eclesiológicos oferecem fundamento sólido de sua visão pastoral, indicando critérios hermenêuticos que orientam suas interpelações à Igreja, especialmente no que diz respeito ao acompanhamento, ao discernimento e à corresponsabilidade no cuidado das juventudes.

1.1 Jovem como sujeito livre

A questão da liberdade humana é tema recorrente no pontificado de Francisco. Fundamenta-se na antropologia teológica do Vaticano II, de acordo o qual cada pessoa, dotada de dignidade e de liberdade, que é um “sinal privilegiado da imagem divina no homem” (GS, n. 17). Pela liberdade, pode-se aderir à fé “segundo a própria consciência e por livre adesão”. O Papa enfatiza que o fundamento desta liberdade está no amor de Deus que “primeireia” (EG, n. 24) e é “feito de liberdade e para a liberdade” (ChV, n. 116). Assim, a liberdade é entendida como dom e espaço de encontro entre a iniciativa divina e a resposta humana capacitando o jovem a colaborar com a ação criadora de Deus.

A liberdade é, então, o lugar do discernimento e da decisão vocacional. Para Francisco, a vocação é a resposta ao amor de Deus que convida à amizade (ChV, n. 250). Assim, a liberdade da pessoa é tocada pela liberdade do Deus que chama e solicita uma decisão e um movimento de saída que o torna protagonista da própria história. A liberdade, então é “condição essencial para uma autêntica opção de vida” (DF, n. 73), de forma que o protagonismo decorre da liberdade vocacional e não é mero exercício de autonomia psicológica e absoluta, mas o espaço onde a iniciativa amorosa do Criador encontra a resposta consciente e responsável da criatura.

Ao convidar os jovens a defenderem a própria liberdade (Francisco, 2023), o Papa revela seu entendimento de que a liberdade é a alegria do serviço e da missão. A resposta livre à vocação se torna “chamamento ao serviço missionário aos outros” (ChV, n. 253), assim como em Cristo, a liberdade se manifesta plenamente como autodoação (LG, n. 40). Desta forma, a compreensão de liberdade, enfatiza sua natureza constitutivamente relacional uma vez que amadurece no vínculo com o outro. Assim, a liberdade da pessoa é solicitada a um movimento de saída que implica em inserir-se no conjunto eclesial e social para escutar e ser escutado, discernir em conjunto e assumir corresponsabilidade nos processos de transformação a partir da proposta do Reino. Desta forma a vocação e o protagonismo ultrapassam a questão da vivência e iniciativas puramente individuais e desemboca em participação eclesial, e tal pertença é constitutiva da identidade e da missão dos jovens na Igreja e na sociedade. O protagonismo que nasce da escuta, de Deus e dos outros, do discernimento e da missão, se concretiza no serviço, na participação ativa e responsável na Igreja e na sociedade.

Esse entendimento está na base da realização do Sínodo de 2018, que se faz modelo para a Pastoral Juvenil em seus processos de escuta e valorização do protagonismo. O Sínodo deu aos jovens a liberdade para expressarem-se contribuindo com suas experiências e sua forma de entender o mundo e a Igreja. Partiu-se do princípio de que são livres, sendo considerados verdadeiramente sujeitos ativos do processo, uma vez que são capazes de escolhas maduras, de sonhos amplos e de um discernimento que renova continuamente o rosto da Igreja (Sala, 2020, p. 256). Isto só se torna possível, porém, quando há um exercício responsável da liberdade (ChV, n. 295) que é fruto de um paciente trabalho de formação da consciência (ChV, n. 281). Nesta perspectiva de liberdade, o Sínodo também aponta para discernimento espiritual que privilegia um itinerário de amadurecimento, purificação e integração que habilita o jovem a ordenar seus afetos e decisões em direção ao bem, ao seguimento de Cristo e à missão (AL, n. 148). Dessa forma, o sínodo tornou-se um exercício e apelo a uma indispensável e verdadeira pedagogia da liberdade, na qual o discernimento espiritual assume o papel de processo formativo e de construção da comunhão eclesial.

Em síntese, trata-se de uma premissa antropológica essencial, que atravessa o pensamento de Francisco: a centralidade da dignidade e da liberdade humanas como dádivas divinas que conferem a cada jovem a condição de ser amado e chamado por Deus. A criação de cada pessoa visa sua plena realização, sendo a liberdade o dom por excelência para aderir à fé em uma resposta consciente, ativa e relacional. Assim, a liberdade não apenas fundamenta o protagonismo juvenil, mas o orienta para a autodoação no serviço, para a missão e para a participação sinodal na vida da Igreja. Essa liberdade, relacional e inerente à dignidade humana, encontra também expressão e amparo na pertença a uma comunidade, um povo no qual a vida pessoal se enraíza e ganha densidade histórica e eclesial.

1.2 A pertença a um povo

A partir da convicção de que cada jovem é amado por Deus e chamado à liberdade, torna-se evidente uma segunda dimensão basilar: os jovens pertencem a um povo com história e são corresponsáveis pela construção do próprio futuro e do seu povo. Essa premissa presente no Magistério do Papa Francisco é igualmente fruto da visão Conciliar que entende a Igreja povo de Deus (LG, n. 9) e que foi fundamental para o desenvolvimento da Teologia do Povo, desenvolvida na argentina e que influencia o Magistério de Francisco1. Esta valoriza as “sínteses vitais” (Scannone, 2015, p. 21-22) que, compartilhadas, constituem a sabedoria do povo, suas tradições, a religiosidade popular influindo na identidade das pessoas que fazem parte deste povo. Nesta perspectiva, a pertença comunitária mais do que a transmissão institucional da fé, visa suscitar um enraizamento teologal e histórico, capaz de oferecer aos jovens um horizonte de sentido sustentado pelo “para quem viver” (Francisco, 2019).

Nesse contexto, a categoria das raízes adquire valor estruturante: os jovens herdam um patrimônio de sabedoria, tradições e espiritualidade, e são chamados a integrá-lo criativamente ao próprio projeto de vida. A ausência desse enraizamento, seja pela fragilidade social, seja pela falta de vínculos comunitários, produz desenraizamento e compromete a capacidade de projetar o futuro, porque priva o jovem de um sentido e uma razão para viver e amar. Assim Francisco conclama a ser jovens com raízes, o que não é uma questão secundária (ChV, n. 180), pois “a salvação, que Deus nos dá, é um convite para fazer parte duma história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias” (Francisco, 2019).

Por isso, Francisco enfatiza que o cultivo das raízes é responsabilidade compartilhada entre jovens e adultos e dá especial destaque para a interação com os idosos “para recolher sua experiência” (ChV, n. 187). Além disso, compete aos que tem o papel de acompanhar assegurar condições para a formação integral, erguendo a voz contra a desertificação cultural e espiritual (EG, n. 86), e resistindo aos processos de colonização cultural que ameaçam a identidade dos povos e fragilizam a liberdade juvenil (DF, n. 14), uma vez que os tornam manipuláveis (ChV, n. 181). A memória coletiva, nesse horizonte, funciona como referencial ético-espiritual que protege e orienta o discernimento, evitando que a tentação da gratificação imediata obscureça o valor do legado recebido (ChV, n. 183).

O diálogo intergeracional configura-se como espaço privilegiado dessa transmissão viva da fé. Ele não promove um tradicionalismo acrítico, mas possibilita que os jovens integrem, de forma discernida, a sabedoria das gerações anteriores (ChV, n. 190), favorecendo a “revolução da ternura” (Francisco; Leoncini, 2018, p. 38) como prática de misericórdia e recomposição comunitária. Dessa interação emerge uma verdadeira pedagogia das raízes, capaz de gerar identidade e corresponsabilidade e de recompor o tecido social fragilizado pelo individualismo. Essa abordagem valoriza a tradição concatenando passado, presente e futuro, lançando as bases para o aggiornamento constante das estruturas sociais e eclesiais, sem abdicar da identidade e dos valores essenciais.

Nesse quadro, a evangelização juvenil delineada por Francisco articula dois pilares fundamentais: a liberdade como dom teologal que possibilita a resposta ao chamado divino, e a pertença como lugar histórico-salvífico onde essa liberdade se discerne e se realiza. A liberdade, por si só, não é mera autonomia, mas resposta de amor, o que exige discernimento e responsabilidade para ser vivida como serviço e missão. A pertença, por sua vez, insere o jovem na trama do Povo de Deus, uma realidade pneumatológica e histórica, que o situa em uma comunidade de fé, memória e promessa. Assim, a interdependência entre liberdade e pertença torna-se chave hermenêutica para compreender o caminho juvenil: a liberdade só amadurece na comunhão eclesial, e a comunhão apenas se autentica quando acolhe e promove a liberdade responsável de cada jovem. Dessa forma, a Pastoral Juvenil se apresenta como um caminho de integração entre singularidade e comunidade, no qual cada jovem é chamado a responder ao amor de Deus, assumir seu lugar no Povo de Deus e contribuir, com esperança e responsabilidade, para o futuro da Igreja e da sociedade.

2 A Pastoral Juvenil no pontificado de Francisco

À luz dos eixos fundamentais da liberdade e da pertença, e em sintonia com o impulso reformador do pontificado de Francisco, a evangelização com jovens e a própria configuração da Pastoral Juvenil são chamadas a reavaliar profundamente seus critérios, linguagens e práticas. Como indicado na Christus Vivit, trata-se de assumir uma forma de ação pastoral enraizada no querigma, como centro e fundamento, orientada vocacionalmente, dinamizada pela missão, estruturada de forma sinodal e sensível à dimensão popular da fé bem como a acolhida das diferenças e superação de estruturas rígidas. Nesse horizonte, o acompanhamento, entendido como processo contínuo e integral, deixa de ocupar um lugar periférico para perpassar toda ação pastoral em função do amadurecimento humano, espiritual e vocacional dos jovens, garantindo que cada etapa do caminho evangelizador se enraíze na experiência viva do encontro com Cristo.

Neste horizonte, a Pastoral Juvenil se estrutura, primordialmente, a partir da convicção de que o anúncio do amor de Deus, revelado em Jesus, constitui o núcleo da ação evangelizadora (ChV, n. 112-133). Afinal, para optar por Cristo na sua liberdade, é preciso ter ouvido este anúncio genuíno. O encontro com Cristo, apresentado e vivenciado como experiência fundante, inaugura um caminho de discernimento e amadurecimento de cada jovem. Tal percepção se coloca em sintonia com a proposta da “evangelização para o aprofundamento do querigma” (EG, n. 160-162). A partir disso, tem-se uma ação evangelizadora em perspectiva querigmática.

A evangelização em perspectiva querigmática é, então, aquela que considera o primeiro anúncio como ponto de partida que, ao apresentar a pessoa de Jesus Cristo na sua inteireza, serve como o eixo central a partir do qual todas as demais dimensões da evangelização — a catequese, a liturgia, o serviço e a comunhão — se articulam

(Leal, 2025, p. 13).

O querigma é, assim, princípio hermenêutico, critério missionário e fonte permanentemente geradora da ação pastoral, especialmente no trabalho com as juventudes, e merece ser frequentemente revisitado para o aprofundamento da experiência de fé. Ele estrutura o modo como a Igreja acolhe, discerne, acompanha e envia os jovens, e por isso constitui o fundamento teológico das propostas de renovação da Pastoral Juvenil. Trata-se do cerne da fé cristã e possibilita a abertura para a experiência de encontro fundante com o Senhor. Desta forma, o Papa propõe “procurar, ainda com maior sensibilidade, como encarnar o querigma na linguagem dos jovens de hoje” (ChV, n. 211).

Ao propor a evangelização querigmática, embora incentive novas formas de missão, inclusive no ambiente digital (ChV, n. 241), o Francisco indica que mais do que buscar estratégias excepcionais, a linguagem mais apropriada é aquela pronunciada na “gramática do amor” (ChV, n. 211). Neste ambiente, em que se cria “um lar (ChV, n. 217), se favorece a compreensão por parte do jovem de que Jesus, na encarnação, morte e ressurreição, entra, não apenas na humanidade, mas na vida de cada pessoa para conduzi-la à plenitude. Assim, a proposta cristã ultrapassa o engajamento a uma instituição por meio unicamente do comprimento de normas morais e rituais, mas é um convite a amizade com o próprio Senhor. É um relacionamento de vida que ressignifica toda a existência e dá sentido à pertença à comunidade de fé. Isso faz da Pastoral Juvenil lugar de anúncio e testemunho, acolhida e experiência de encontro que leva cada jovem a integrar o querigma como critério de discernimento, ajudando-o a ler sua história à luz do amor primeiro de Deus e, ao mesmo tempo, indicando forma de equilibrar a experiência pessoal e aquela comunitária e o compromisso social.

A partir de uma perspectiva querigmática o acento recai sobre a dimensão vocacional da Pastoral Juvenil. Como o próprio tema do Sínodo dos Bispos de 2018 indica, o tema da vocação está entre os temas primordiais nos processos de evangelização com jovens, já que estão vivendo um tempo de “sonhos e opções” (ChV, n. 136). A vocação é compreendida não como destino pré-definido, mas como resposta criativa ao amor de Deus, discernida à luz do Espírito (ChV, n. 248-267). Francisco insiste que somente jovens acompanhados, inseridos em comunidades de fé e educados para decisões responsáveis tornam-se capazes de escolhas autênticas. Disso emerge a tarefa da Pastoral Juvenil: trata-se de ajudar o jovem a descobrir que sua existência, em todas as dimensões, é chamado e resposta, encontro e envio. De fato, o Papa insiste que o discernimento vocacional exige a formação da consciência para buscar a assimilar os mesmos sentimentos de Cristo (ChV, n. 281). Isso exige um caminho de integração emocional, cura das feridas, ordenação dos desejos e cultivo de uma liberdade reconciliada, sem o que a resposta a Deus se torna frágil2. Este caminho é percorrido também pela oração, a conversa com o amigo que permite conhecer cada vez mais o Senhor e crescer no relacionamento de intimidade com Ele (ChV, n. 155). Fala-se então de uma Pastoral Juvenil vocacional que favoreça processos de crescimento humano e espiritual articulados, nos quais o jovem aprenda a escutar a voz de Deus, crescer no seu conhecimento e intimidade e, também, a reconhecer, ordenar e orientar seus afetos para um amor mais maduro, estável e generoso (AL, n. 148) que o torne capaz de dizer sim, assumindo a verdadeira liberdade (ChV, n. 122).

Nessa perspectiva vocacional, as experiências orantes, o acompanhamento espiritual, a vida comunitária e as experiências de serviço constituem autênticos horizontes metodológicos da evangelização juvenil. São práticas que permitem ao jovem não apenas interpretar interiormente os movimentos do Espírito, mas também experimentar, de modo concreto, que toda vocação se enraíza no amor recebido e oferecido, e que esse enraizamento se traduz em escolhas, vínculos e responsabilidades que moldam o cotidiano. Assim, oração, acompanhamento, comunidade e serviço funcionam como mediações pedagógicas que integram afetos, fé e realidade, ajudando o jovem a perceber como o chamado de Deus toma corpo na história e orienta sua vida para a maturidade cristã e para a missão.

Francisco afirma que a vocação é um “ser para os outros” (ChV, n. 253), assim, ganha destaque também a dimensão missionária, intrínseca à vocação do discípulo. A missionariedade da Pastoral Juvenil destaca que a fé não se preserva por autorreferencialidade, mas se fortalece pelo impulso de sair ao encontro dos outros. A Pastoral Juvenil missionária, na perspectiva do Papa Francisco, convida os jovens a uma forma de protagonismo que nasce do encontro com Cristo vivo e se traduz em saída, cuidado e solidariedade concreta. Já na Evangelii Gaudium (n. 106), Francisco afirma que a juventude possui um dinamismo próprio para a missão e deve ser sustentada por comunidades que a enviem com confiança (ChV, n. 243). O protagonismo juvenil emerge, assim, não como concessão institucional, mas como fruto da própria lógica do discipulado missionário que se concretiza também por sua pertença à comunidade que envia.

Para que essa dimensão missionária seja plenamente compreendida e praticada, é essencial reconhecer que, na realidade latino-americana, missão e solidariedade não são esferas paralelas, mas dinamismos profundamente entrelaçados. A tradição teológica do continente, desde Medellín e Puebla até Aparecida, insiste que o anúncio do Evangelho se torna autêntico quando confronta as feridas sociais, econômicas e culturais que estruturam a desigualdade. Portanto, uma Pastoral Juvenil missionária coerente deve capacitar os jovens a ler criticamente seu entorno, discernir as formas de sofrimento e exclusão presentes na sua realidade e engajar-se em práticas transformadoras, em que evangelização e promoção humana caminhem juntas.

Ser missionário “é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia, e assim estender o Reino de Deus no mundo” (ChV, n. 168). Esse enfoque supera uma visão voluntarista da missão, frequentemente reduzida a ações pontuais, e favorece processos formativos que despertam sensibilidade social, compromisso político-ético e espiritualidade encarnada, permitindo aos jovens reconhecer que o serviço, a justiça e a misericórdia constituem expressão concreta do seguimento de Jesus e não apenas iniciativas periféricas da experiência cristã.

Na perspectiva de Francisco, a comunidade que envia é uma comunidade sinodal. Como já mencionado, o Sínodo dos Bispos de 2018 tornou-se inspirador para a Pastoral Juvenil no que se refere à sua metodologia: sublinha a necessidade de incorporar os jovens como participantes reais nos processos de escuta, discernimento e decisão eclesial. A sinodalidade, entendida como “caminhar juntos”, supõe escuta mútua, discernimento comunitário e abertura ao Espírito, elementos que estruturam uma Pastoral Juvenil que deixa de ser feita para os jovens e passa a ser realizada com as juventudes. “Trata-se, antes, de colocar em campo a sagacidade, o engenho e o conhecimento que os próprios jovens têm da sensibilidade, linguagem e problemáticas dos outros jovens” (ChV, n. 206). Além disso, valoriza as diferenças, expressão da ação do Espírito que distribui seus carismas (DF, n. 123). Desta forma, ao reconhecer nos jovens não apenas destinatários, mas sujeitos que interpretam e constroem juntos a missão, a Igreja torna-se mais fiel ao dinamismo pneumatológico que a anima. O caminhar conjunto torna-se, portanto, lugar de discernimento e experiência de Deus, em que a diversidade de carismas é integrada na realização da sinodalidade missionária em que a juventude participa da edificação de uma Igreja mais evangélica, corresponsável e missionária.

A sinodalidade torna-se, portanto, método e conteúdo formativo, capacitando os jovens para o diálogo, a corresponsabilidade e o amadurecimento da fé. Por sua vez, exige maior valorização da voz juvenil como lugar teológico e cuja repercussão pastoral implica reconfigurar estruturas, linguagens e processos decisórios para que sejam de fato inclusivos. Assim, a Pastoral Juvenil sinodal emerge como uma via de renovação eclesial, na qual a participação ativa dos jovens se torna princípio estruturante. Por sua vez, da parte da juventude se espera, além da participação, a corresponsabilidade na ação missionária como expressão do discipulado e da pertença à comunidade.

Outra proposta presente na Christus Vivit que requer uma mudança de mentalidade é aquela da Pastoral Juvenil popular. Tal proposta, que o Papa Francisco apresenta nos números 230-239, não foi mencionada em textos anteriores. Talvez seja esta sua mais genuína contribuição para a evangelização juvenil. O ser popular da Pastoral Juvenil é um convite a ser povo, ou seja, a estar com as juventudes, fazer parte de suas vidas (EG, n. 268-270). Isso implica em flexibilidade, romper estruturas para estar onde os jovens estão. Trata-se de uma ação evangelizadora em saída, o que não é apenas um movimento físico de missionariedade, mas a renúncia de julgar e agir somente a partir das estruturas eclesiais. É o compromisso de superar todas as formas de elitismos (ChV, n. 231, 236) para abrir-se a um diálogo sincero com as realidades juvenis a partir da percepção deles mesmos, acolhendo suas opiniões, dúvidas, anseios e sofrimentos. Tal perspectiva transforma a Pastoral Juvenil em um espaço aberto, flexível que acolhe as juventudes, especialmente os mais frágeis e feridos, e também aqueles que tem diferentes “visões da vida” e trazem práticas religiosas distintas (ChV, n. 235). A exemplo de Jesus de Nazaré, a Pastoral Juvenil popular busca levar à condição humana, social, existencial, experiências de fé que humanizem e fundamentem o projeto de vida de cada jovem. Este é um apelo a renovação eclesial que requer tirar do centro enquadramentos institucionais para valorizar experiências vitais e o encontro transformador com Jesus Cristo vivo.

Além de estruturas mais flexíveis, a Pastoral Juvenil popular promove o protagonismo juvenil, visto que não busca formatar a experiência e a atuação do jovem, mas permite que ele simplesmente seja quem ele é e atue a partir de sua realidade. Isso significa não apenas dar espaço para que o jovem aprenda a exercer sua liderança, mas acompanhá-lo com processos formativos que sejam capazes de reconhecer a contribuição que suas experiências de vida, seus conhecimentos, suas raízes trazem para a sinodalidade missionária. No dizer de Francisco, trata-se de “líderes populares” que se caracterizam por seu dinamismo na sua realidade, e também pela “capacidade de integrar a todos, incluindo na marcha juvenil os mais pobres, frágeis, limitados e feridos” (ChV, n. 231). Desta forma, a Pastoral Juvenil entra na dinâmica da Igreja “hospital de campanha” e testemunha a ação salvadora do próprio Jesus pelas estradas da Palestina.

O pontificado de Francisco remeteu especial atenção ao tema do acompanhamento. O Sínodo dos Bispos de 2018 reconhece o acompanhamento como dimensão constitutiva da evangelização juvenil e diretamente vinculada ao aprofundamento do querigma e ao discernimento vocacional. Este foi um pedido dos próprios jovens que desde a escuta pré-sinodal, expressaram o desejo de uma Igreja que esteja próxima, capaz de acolher, orientar e sustentar processos de crescimento (DF, n. 91-94). O acompanhamento não é ação suplementar, mas eixo que garante continuidade e crescimento no aprofundamento do querigma e integra oração, vida litúrgica, caridade e missão (DF, n. 99). Neste cenário, a comunidade é o primeiro sujeito do acompanhamento, pois oferece vínculos fraternos, referências espirituais e experiências que consolidam o caminho da fé (ChV, n. 243). Para Francisco o acompanhamento promove o protagonismo juvenil, o respeito à sua liberdade e a superação de modelos moralizantes e/ou ritualistas que mais condenam do que acolhem (ChV, n. 246).

Na tarefa de acompanhar, a escuta se destaca como essencial, e igualmente, no ser sinodal. O Sínodo de 2018 recorda que a evangelização com jovens começa pela decisão dar espaço às perguntas dos jovens, para expressão de seus sofrimentos, intuições e esperanças o que cria “as condições para um anúncio do Evangelho que alcance verdadeiramente, de modo incisivo e fecundo, o coração” (DF, n. 8). Para Francisco, escutar não é mera atitude pedagógica, mas um modo de configurar a Igreja segundo o estilo de Jesus, que se aproxima, dialoga e deixa o outro revelar-se sem julgamentos prévios (ChV, n. 291). Essa escuta qualificada, espiritual, afetiva e cultural, permite reconhecer a singularidade das trajetórias juvenis e, ao mesmo tempo, discernir com eles os caminhos do Evangelho. Ela exige uma comunidade capaz de silenciar os próprios esquemas interpretativos para fazer emergir a voz dos jovens, inclusive dos mais feridos e/ou distantes, tornando-se assim espaço de acolhida, interpretação das experiências e abertura ao novo que Deus suscita na vida de cada um. Cabe destacar que a escuta no acompanhamento volta-se para a pessoa, enquanto no processo sinodal se desloca para a comunidade e a ação do Espírito. Na Pastoral Juvenil essas duas ações se articulam para promover a integração do jovem enquanto pessoa e sua pertença à comunidade.

Para que isso aconteça, o acompanhamento requer espaços de vivência em comunidade, em que haja lugar para partilha de fé e de vida, e também daquele acompanhamento espiritual pessoal, conduzido por referências maduras e preparadas, capazes de ajudar os jovens a discernir a ação de Deus na própria experiência e a integrar vida, fé e escolhas (DF, n. 104). Esse processo se insere em um horizonte vocacional amplo, iluminado pela vocação universal à santidade (GeE, n. 10-18), e inclui atenção às fragilidades juvenis, à saúde mental (DF, n. 99), às vulnerabilidades sociais e à formação de lideranças.

Em síntese, o acompanhamento emerge como uma das expressões mais significativas da ação evangelizadora, pois nele a Igreja assume o dinamismo do discipulado que se estende muito além do anúncio inicial e se desdobra em um processo contínuo de amadurecimento na fé. Nesse horizonte, toda a comunidade é convocada a tornar-se ambiente gerador de vínculos, lugar de escuta qualificada, cuidado fraterno e formação progressiva, no qual os jovens encontrem referenciais seguros para interpretar a própria vida e discernir a vontade de Deus. A íntima conexão entre acompanhamento e aprofundamento do querigma revela que a adesão a Cristo exige um caminho permanente de integração humana, espiritual e vocacional. Trata-se, portanto, de um processo abrangente, que envolve dimensões afetivas, comunitárias, sociais e missionárias e orienta os jovens a unificar fé e vida nas suas decisões profissionais, relacionais, sociais e eclesiais.

No contexto do pontificado de Papa Francisco, cabe ainda lembrar que a evangelização juvenil não pode ser pensada à margem do ambiente digital, reconhecido não apenas como instrumento, mas como verdadeiro “lugar” de vida, socialização e construção de identidade para as novas gerações. Na Christus Vivit (n. 86–90), o Papa destaca que o mundo digital constitui uma dimensão estrutural da experiência juvenil contemporânea com potencialidades e ambiguidades. Trata-se de um espaço onde os jovens expressam sua liberdade, constroem vínculos, elaboram narrativas e buscam sentido, mas também onde podem experimentar isolamento, manipulação e superficialidade relacional (ChV, n. 88). Por isso, a presença da Igreja nesse ambiente não deve limitar-se a estratégias comunicacionais ou à mera difusão de conteúdos religiosos, mas assumir uma lógica de encarnação e proximidade, capaz de anunciar o querigma em linguagem acessível, favorecer processos de discernimento e promover uma cultura do encontro também nas redes. A evangelização juvenil, à luz de Francisco, é chamada a integrar o digital como território missionário (ChV, n. 241), formando jovens protagonistas que saibam habitar esse espaço com responsabilidade ética, sensibilidade comunitária e compromisso evangelizador, evitando tanto o tecnicismo pastoral quanto a demonização cultural, e discernindo os sinais do Espírito também nesse novo areópago contemporâneo. Isso implica considerar esta nova realidade ao tratar da renovação paroquial (DF, n. 129) e na construção de espaços de protagonismo juvenil (DF, n. 52). Assim, o ambiente digital se torna lugar de missão e acompanhamento das juventudes.

Considerando esse horizonte de renovação, compreende-se que Francisco não propõe caminhos paralelos, mas uma integração viva entre os diversos eixos que sustentam a evangelização com jovens, inclusive a pastoral de conjunto (ChV, n. 202). Importante ainda destacar que perspectiva querigmática, vocacional, missionária, sinodal e popular se entrelaçam no cuidado integral de cada jovem promovendo a acolhida e a “cultura do encontro” que tem seu fundamento no encontro com Cristo vivo. Assim, a proposta de Francisco articula liberdade, pertença em uma unidade orgânica: jovens amados por Deus, acompanhados no discernimento cotidiano, enviados para a missão, integrados em processos sinodais e enraizados no povo de Deus. Trata-se de uma Pastoral Juvenil integral para formar jovens protagonistas da fé e da transformação social e testemunhas da esperança cristã no coração do mundo.

3 Desafios pastorais frente às propostas de Francisco

Como em todo processo de renovação, diante das intuições e propostas do Papa Francisco podem-se identificar desafios estruturais, avanços e retrocessos. As tensões entre ideal e prática, entre desejo de conversão pastoral e hábitos eclesiais consolidados, tornam-se evidentes quando observa-se as práticas ordinárias da Pastoral Juvenil. É justamente ao explicitar tais desafios que se pode abrir caminho para processos mais autênticos e coerentes com o que o pontificado de Francisco inspira à Igreja. Alguns desafios já foram apontados pelos próprios jovens durante o Sínodo de 2018. Outros se fazem sentir na atuação pastoral.

A recepção da perspectiva querigmática, em muitos contextos, se depara como a compreensão de querigma reduzido a um discurso inicial, sem continuidade mistagógica ou articulação com processos de acompanhamento, discernimento e missão. Além disso, existem formas de evangelização juvenil que privilegiam a identidade do grupo, devoções particulares ou outros elementos rituais e doutrinais e correm o risco de perder de vista a centralidade da pessoa de Jesus Cristo. Isso contraria a proposição de Francisco para quem o primeiro anúncio é fundamento permanente da fé (EG, n. 164; ChV, n. 214). Tais reducionismos levam a experiências superficiais ou desconsideram a articulação entre querigma e discernimento vocacional, entendido como seguimento, o que leva a uma resposta que é apenas de uma introspecção voluntarista, fruto de práticas pastorais, frequentemente orientadas por modelos normativos ou moralizantes que deixam em segundo plano o encontro com Jesus Cristo como horizonte da evangelização, além de desconsiderarem a experiência espiritual concreta do jovem. Persiste, ainda, uma dificuldade em traduzir o querigma para a linguagem e para a experiência concreta das juventudes, bem como na formação de evangelizadores capazes de anunciá-lo com simplicidade, profundidade e afeto.

Além disso, a separação entre anúncio e compromisso social enfraquece sua potência missionária, enquanto a falta de espaços de encontro, oração e convivência comunitária impede que o anúncio se torne experiência real do amor de Cristo e impulsione a ações concretas. Um desafio adicional é evitar reduções sentimentais, nas quais o querigma se transforma apenas em emoção passageira, sem ligação com conversão ética, enraizamento comunitário e compromisso. Esses limites revelam que a conversão pastoral desejada pelo Papa exige superar práticas moralizantes, rotineiras ou centradas na manutenção de estruturas, para favorecer processos integrais de evangelização nos quais o querigma seja realmente princípio, forma e critério.

Por sua vez, no tocante à dimensão vocacional, em muitos contextos eclesiais, persiste uma compreensão funcionalista da vocação, marcada pela tentativa de responder à diminuição numérica de consagrados mais do que de favorecer processos de discernimento autênticos; tal lógica, ainda que não explicitada, pode converter a Pastoral Vocacional em estratégia institucional, recrutadora, contrariando a gratuidade que caracteriza o verdadeiro encontro com Cristo. Os próprios jovens denunciam o entendimento reducionista da vocação limitado apenas às vocações específicas na Reunião Pré-Sinodal ocorrida em março de 2018 (n. 8), indicando a necessidade da construção de uma cultura vocacional (DF, n. 80). Ademais, a integração entre acompanhamento espiritual e discernimento vocacional requer acompanhadores mais bem preparados para articular discernimento com cura das feridas, ordenação dos afetos e reconciliação da liberdade interior. Por fim, nota-se uma tensão entre a retórica da sinodalidade e a prática real: a pastoral vocacional, não raramente, opera de maneira setorial e isolada, carecendo de processos de corresponsabilidade e escuta comunitária que façam da Igreja inteira um verdadeiro ecossistema vocacional.

O entendimento de uma Pastoral Juvenil missionária exige uma integração efetiva entre formação espiritual, leitura crítica da realidade e práticas missionárias contínuas, o que dificulta que os jovens desenvolvam uma consciência missionária madura e enraizada. A persistência de modelos pastorais excessivamente sacramentalistas ou centrados na manutenção da instituição limita a criatividade e o protagonismo juvenil, enfraquecendo a experiência de “Igreja em saída” proposta pelo Papa. Além disso, há o risco constante de transforma a missão em uma ação sem alma, ou seja, que não parta da experiência de encontro, de discipulado, mas se reduza a um vasto programa de atividades. Assim, torna-se necessário problematizar a distância entre o discurso missionário e sua execução concreta, bem como a insuficiente articulação entre missão, justiça social e solidariedade estrutural. Uma reflexão mais profunda sobre esses pontos pode favorecer o desenvolvimento de propostas metodológicas mais coerentes, capazes de formar jovens missionários com sensibilidade social, rigor teológico e compromisso duradouro com a transformação dos territórios.

Embora o Sínodo de 2018 tenha reafirmado a necessidade de envolver os jovens como sujeitos reais dos processos eclesiais, o clericalismo continua sendo um obstáculo significativo para a concretização da dimensão sinodal da Pastoral Juvenil e da própria Igreja (DF, n. 3; ChV, n. 98). Muitos espaços eclesiais ainda reproduzem práticas verticalizadas, nas quais os jovens são consultados apenas de forma simbólica, sem participação efetiva no discernimento comunitário ou na tomada de decisões. O desafio consiste em romper estruturas rígidas que dificultam a participação juvenil, e criar práticas pastorais que promovam discernimento compartilhado, escuta recíproca e verdadeira participação, de maneira que a Pastoral Juvenil seja construída com eles (ChV, n. 206). Além disso, urge uma formação para a corresponsabilidade que coloque em ato a sinodalidade missionária e um ambiente que, por um lado, flexibiliza estruturas, acolhe e escuta, e, por outro, impulsione os jovens a saírem do sofá (ChV, n. 143) para assumir seu espaço de pertença e participação.

Já a Pastoral Juvenil popular se apresenta como um lugar privilegiado para o encontro entre Evangelho e cultura, especialmente entre jovens das periferias geográficas e existenciais. Na prática, porém, observa-se que muitas práticas pastorais ainda privilegiam modelos excessivamente racionalizados ou importados, que nem sempre dialogam com as culturas juvenis locais, fragilizando a capacidade de inserção missionária da Igreja. Por isso, uma autêntica Pastoral Juvenil popular requer processos de escuta territorial, participação comunitária e leitura atenta das culturas juvenis e com as juventudes, especialmente no contexto urbano periférico e nas experiências de marginalização social. Para isso, nem sempre se encontram disposições institucionais ou líderes que se disponham a deixar sua elite para ir ao encontro do outro. Ademais, a idealização e formatação do conceito de santidade dificulta a acolhida e compreensão dos jovens que mais precisam de acolhida. Igualmente a dificuldade em dialogar com o diferente em uma sociedade cada vez mais polarizada que precisa rejeitar o diferente para reafirmar sua identidade torna o ser popular pouco desejável para muitos grupos. A isso, soma-se o apego a estruturas, formas e normas. A Pastoral Juvenil popular é particularmente um apelo à conversão pastoral que supere modelos de cristandade e assumam o jeito de Jesus pastorear seu rebanho.

Quanto ao acompanhamento pode-se afirmar que há uma certa confusão em entender toda a ação pastoral como um processo de acompanhamento de crescimento na fé. Persiste ainda aquela dificuldade, seja por falta de pessoas, seja por falta de tempo e formação para que se ofereça o acompanhamento pessoal. Como consequência, muitas práticas pastorais ainda reduzem o acompanhamento a intervenções esporádicas ou moralizantes, sem constituir verdadeiros processos que articulem comunidade, espiritualidade e missão, o que enfraquece sua fecundidade. Por isso, torna-se imprescindível que a Igreja promova itinerários consistentes, experiências concretas de convivência fraterna e espaços de acompanhamento pessoal, além de formar acompanhantes com sólida maturidade humana e espiritual, capazes de exercer um ministério de escuta, discernimento e cuidado inspirado no modo como Jesus se aproxima e caminha com aqueles que chama. Além disso, é preciso formar uma nova consciência da comunidade acerca de sua responsabilidade no crescimento de todos os discípulos missionários, especialmente os mais jovens.

A questão do ambiente digital e a evangelização com jovens merece discernimento constante. Embora o Pontífice reconheça o potencial das redes para a participação sociopolítica e o engajamento pastoral, sua postura mantém um tom crítico e cauteloso. Em discurso à Toniolo Young Professional Association, em 2024, Francisco alerta para o perigo de jovens “barricados” atrás de telas. Disso surge o desafio de vencer o “pensamento de curto prazo” imediatista e hedonista que impede de compreender a dimensão de seguimento, que é processo, e de cruz que faz parte da caminhada do discípulo. Há também o risco de limitar o protagonismo, tornando o jovem mero receptor de informações, de forma acrítica, gerando fundamentalismos, próprio de visões reducionistas e anacrônicas que muitas vezes geram divisões e afastam o jovem da comunhão eclesial. Também, a cultura do encontro, que pressupõe a realidade palpável, o contato físico, o usar as mãos, precisa articular o uso das telas e a experiência concreta. Na prática pastoral, corre-se ainda o risco de reduzir a presença eclesial a estratégias de marketing religioso ou a uma lógica de produção constante de conteúdos, sem processos reais de acompanhamento, discernimento e inserção comunitária. Além disso, a rapidez comunicativa das redes pode enfraquecer a dimensão mistagógica do querigma, substituindo a profundidade da experiência espiritual por interações efêmeras e emocionalmente intensas, porém pouco integradas ao cotidiano. Soma-se a isso a necessidade de formar jovens e agentes pastorais, conhecedores das novas linguagens, para uma ética digital que enfrente fenômenos como desinformação, polarização, cultura do cancelamento e exposição excessiva da intimidade. Assim, o desafio não consiste apenas em “estar” nas redes, mas em habitar o ambiente digital com maturidade espiritual e responsabilidade eclesial, promovendo uma presença que gere vínculos autênticos, favoreça o encontro com Cristo e conduza à participação efetiva na vida comunitária.

De forma geral, há ainda, uma forte tendência a reduzir a Pastoral Juvenil à ação pontual, seja na própria comunidade ou em grandes eventos que não consideram processos. Além disso, há a persistência de modelos que não reconhecem a pluralidade das juventudes nem a riqueza das suas expressões de fé. E o que dizer das linguagens que, vez por outra, absorvem os valores de uma cultura pop, consumista e imediatista esquecendo o profetismo evangélico. Também a falta de lideranças eclesiais e juvenis, e de testemunhos vivos de uma experiência de encontro com Cristo aprofundada no cotidiano da vida fragilizam a concretização da proposta de Francisco.

Cada uma das propostas deste pontificado requerem uma conversão pastoral que ultrapasse ajustes organizativos e alcance o modo de ser Igreja. Trata-se de assumir uma lógica relacional e encarnada, uma pastoral orgânica e de conjunto que seja integral, e testemunhe a beleza do seguimento de Cristo. O Documento Final do Sínodo de 2018 recorda que tal conversão implica rever práticas habituais e critérios de funcionamento, questionando se, de fato, favorecem processos de encontro e discernimento: “é importante que cada uma das comunidades se interrogue para averiguar se os estilos de vida e o uso das estruturas transmitem aos jovens um testemunho legível do Evangelho” (DF, n. 130). Assim, a renovação exige que as comunidades se tornem lugares em que os jovens possam reconhecer a transparência do Evangelho nas relações, no modo de exercer o serviço, na partilha dos carismas e na presença solidária junto às realidades vulneráveis. Somente uma Igreja que se deixa configurar por essa lógica evangélica, marcada pela proximidade, pela simplicidade e pela participação, poderá sustentar uma Pastoral Juvenil sensível às culturas juvenis e fiel à dinâmica do Reino.

Conclusão

Ao propor na Evangelii Gaudium a perspectiva querigmática da ação evangelizadora, Francisco aponta para o essencial de toda e qualquer prática pastoral: a primazia do encontro com Cristo. Considera seu anúncio aprofundamento, os processos de crescimento na fé. Convidando à centralidade da experiência de encontro com Cristo, o Papa propõe à Pastoral Juvenil uma renovação, que ao mesmo tempo que inspira toda a toda a Igreja, já coloca em ato, a partir das juventudes, as mudanças desejadas. Para isso, considera a dignidade e a liberdade humana apostando na capacidade de abrir-se para a experiência profunda do amor gratuito de Deus que transforma a vida. Essa é a experiência primordial que o Papa deseja seja oferecida às juventudes. Uma experiência que ressignifique a vida, paute opções e configure cada pessoa ao jeito de ser de Jesus. Em segundo lugar a experiência de comunhão de amor, de aceitação, de diálogo e serviço que enraíze a vida dos jovens é também o sonho de Francisco para a juventude. Uma Igreja apegada às suas estruturas, pautada apenas pela rigidez moral e poder institucional não permite um testemunho vivo do Cristo e impede que os jovens se aproximem.

Assim, evidencia-se que a renovação da Pastoral Juvenil proposta pelo Papa Francisco não consiste em um simples ajuste de práticas, mas em uma reconfiguração estrutural da lógica evangelizadora, sobretudo diante dos desafios atuais, com especial atenção para o ambiente digital. Solicita sobretudo um retorno às fontes cristãs que entendiam o cristianismo com uma experiência de seguimento do Senhor e pertença à comunidade. Na prática, isso exige passar de ações pontuais à construção de processos; da pastoral de conservação à pastoral missionária; da pastoral das certezas para aquela do discernimento; de uma pastoral de execução de tarefas e calendários para aquela do acompanhamento processual; de uma prática fragmentada a uma pastoral juvenil integral. É necessária uma nova cultura eclesial e os jovens são convocados, por meio da Pastoral Juvenil e de sua presença nas comunidades a serem a vanguarda desta mudança. Isso só será possível com a superação de uma visão fragmentada dos processos, elitista, desvinculada da realidade juvenil e do conjunto eclesial. Resta à Igreja perseverar na construção de caminhos que façam dessa visão não apenas um ideal teológico, mas uma realidade pastoral concreta, capaz de oferecer aos jovens aquilo que o Evangelho promete: um encontro transformador com Cristo, que ilumina a existência e envia em missão.

Siglas
  • AL   Amoris Laetitia
  • CTI  Comissão Teológica Internacional
  • ChV   Christus Vivit
  • DF  Documento final do Sínodo dos Bispos sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional
  • EG   Evangelii Gaudium
  • GeE   Gaudete et Exsultate
  • GS   Gaudium et Spes
  • LG   Lumen Gentium
  • PE   Praedicate Evangelium
  • 1
    Este trabalho contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES), por meio de bolsa de estudos concedida durante o desenvolvimento da pesquisa de doutorado.
  • 1
    O discurso do Papa Francisco Papa Francisco aos participantes na conferência promovida pela “Romano Guardini Stiftung” mostra que o entendimento de povo por parte de Francisco está diretamente ligado ao entendimento de Romano Guardini. Para Guardini, povo é uma realidade comunitária viva, não redutível à razão abstrata, que expressa aquilo que no ser humano é genuíno e substancial, constituindo um espaço onde a ação de Deus pode ser intuída como mistério operante. A partir disso, Francisco entende que povo é uma “categoria mítica”, mas do que lógica, o que direciona para uma ética que leva à cultura do encontro e a amizade social (Borghesi, 2011, p. 116-212).
  • 2
    Conferir ChV, n. 278-284; AL, n. 148, 267; GeE, n. 170; e DF, n. 139 para o vínculo entre discernimento, maturação afetiva e liberdade responsável.

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.

Referências

Editado por

  • Editores:
    Márcia Eloi Rodrigues e Franklin Alves Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Nov 2025
  • Aceito
    17 Mar 2026
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