Resumo:
Este artigo aborda a crítica de Félix Guattari à dupla redução da análise realizada desde Freud a uma clínica individual e interpretativa. A problemática da análise, termo que ele utiliza para se referir a esse fenômeno, evoca um trabalho de abertura do processo analítico a novas referências e contextos de ação, esforço que pode ser observado desde as primeiras obras do autor. Propõe-se então uma cartografia do percurso nômade traçado por Guattari em torno da problemática da análise no qual se vê um processo de transfiguração, criação e abandono de conceitos em suas principais obras. Por fim, pretende-se mostrar que se o horizonte da clínica individual deve ser superado, isso não significa que Guattari a abandone, e a leitura de dois casos clínicos relatados por ele pode elucidar a sua própria concepção do que vem a ser a análise.
Palavras-chave:
Félix Guattari; Psicanálise; Esquizoanálise; Produção de Subjetividade; Clínica
Abstract:
This article addresses Félix Guattari’s critique of the double reduction of analysis prevalent since Freud to an individual and interpretative clinical practice. The “problematic of analysis”, a term he uses to describe this phenomenon, suggests opening the analytical process to new references and contexts of action, an effort traceable to the author’s earliest works. We propose a cartography of the nomadic path traced by Guattari regarding this problematic of analysis, observing a process of transfiguration, creation and abandonment of concepts across his major writings. Finally, the article demonstrates that while the horizon of the individual clinical practice must be transcended, it does not mean that Guattari abandons it, rather, a reading of two of his clinical cases elucidates his unique conception of what constitutes analysis.
Keywords:
Félix Guattari; Psychoanalysis; Schizoanalysis; Production of Subjectivity; Clinic
Resumen:
Este artículo aborda la crítica de Félix Guattari a la doble reducción del análisis imperante desde Freud a una clínica individual e interpretativa. La “problemática del análisis”, término que utiliza para referirse a este fenómeno, evoca un trabajo de apertura del proceso analítico hacia nuevas referencias y contextos de acción, un empeño que se observa desde los primeros trabajos del autor. Se propone una cartografía del recorrido nómada trazado por Guattari en torno a dicha problemática del análisis en sus principales obras, en la cual se aprecia un proceso de transfiguración, creación y abandono de conceptos. Por último, el objetivo es demostrar que, si bien el horizonte de la clínica individual debe ser superado, esto no significa que Guattari la abandone, la lectura de dos casos clínicos relatados por el autor permite dilucidar su propia concepción de lo que constituye el análisis.
Palabras clave:
Félix Guattari; Psicoanálisis; Esquizoanálisis; Producción de Subjetividad; Clínica
Introdução
Como pensar uma prática analítica que ultrapasse o modelo clínico bipessoal e familista da psicanálise tradicional? Essa é uma questão que atravessa a obra de Félix Guattari e, de modo geral, o campo esquizoanalítico inaugurado por ele junto a Gilles Deleuze. Nos dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, os autores criticaram longamente o modo como as descobertas de Freud em relação ao inconsciente e ao desejo foram reduzidas por ele próprio ao plano do indivíduo em suas relações com a família, processo continuado por Lacan em sua versão estrutural da psicanálise (Deleuze & Guattari, 2010; 2011). Contudo, ao contrário do que se poderia supor, Guattari (1977/1985; 1992; 1972/2004) não abandona o conceito de análise, mas o reinscreve em uma prática expandida que atravessa o campo clínico e se abre às dimensões políticas, institucionais, estéticas e microssociais da existência.
Nosso objetivo neste artigo é cartografar essa problemática da análise e os deslocamentos que esta sofre no pensamento de Guattari, destacando o modo como ele a transforma em uma ferramenta de produção de subjetividade em contextos múltiplos. Partimos da hipótese de que Guattari radicaliza a análise ao romper com seus pressupostos interpretativos e individualizantes, propondo em seu lugar uma práxis transversal e micropolítica voltada à criação de novos modos de subjetivação e formas de enunciação. Em um cenário contemporâneo marcado pela medicalização individualizante da vida e pela captura da clínica por dispositivos normativos de ajustamento dos sujeitos às necessidades de mercado, devemos notar que esse deslocamento analítico ganha renovada pertinência.
Abdicamos de uma perspectiva unívoca em relação ao pensamento nômade de Guattari, adotando uma cartografia dos conceitos que surgem em relação direta à problemática da análise ao longo de sua trajetória intelectual. Para sustentar essa proposta, o artigo se organiza em cinco momentos. Primeiramente, a título de delimitação, elucidamos o que Guattari e Suely Rolnik (1996) denominam como problemática da análise, abordando sua crítica ao reducionismo analítico promovido pela psicanálise. Em seguida, examinamos as primeiras elaborações de Guattari no campo da análise institucional em diálogo com o pensamento de François Tosquelles (2024) e Jean Oury (1986/2017), enfatizando sua crítica à centralização do saber analítico e a proposição do conceito de transversalidade. No terceiro momento, discutimos a emergência da esquizoanálise na obra guattariana como aposta na análise enquanto ferramenta política e estética por Deleuze e Guattari (1980/2011; 1980/2012), mobilizando também as contribuições de Suely Rolnik (2006) para a compreensão do estatuto do desejo e da produção de subjetividade no interior do campo esquizoanalítico. Depois, exploramos o papel dos agenciamentos coletivos de enunciação e da micropolítica como operadores centrais na obra guattariana que abrem a problemática da análise a novos ângulos e dimensões expressivas. Por fim, analisamos dois casos clínicos relatados por Guattari, buscando mostrar como sua concepção ampliada de análise se expressa na prática clínica e não exclui, mas ressignifica o dispositivo de análise bipessoal.
A redução psicanalítica
No ano de 1982, Félix Guattari viajou ao Brasil para conceder entrevistas, palestras e participar de debates com movimentos sociais, grupos de estudantes e sociedades de psicanálise, dando origem ao livro Micropolítica: cartografias do desejo (1996), escrito com Suely Rolnik. Especialmente nos meios psicanalíticos, ele foi questionado acerca de sua própria leitura sobre o que viria a ser uma análise, tendo em vista a crítica feroz à psicanálise que vinha sendo desenvolvida com Gilles Deleuze em O Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs (1980). É nesse contexto que o autor enuncia uma problemática da análise que circunscreve a presente discussão:
Lacan continuava seu empreendimento de elaboração teórica, sem que, a meu ver, se tivesse colocado a problemática da análise em campos que não fossem os da prática freudiana de origem. Nenhum progresso foi feito no sentido de compreender o que pode ser a problemática da análise em instituições analíticas, universitárias, psiquiátricas, em estabelecimentos para crianças, em formações sociais como movimentos de base, movimentos políticos, etc. Essa incapacidade de se criarem novas condições de produção faz com que a problemática da análise se encontre, neste momento, num impasse bastante grave. A meu ver, a importância desta problemática ultrapassa o campo tradicional da psicanálise e até da clínica. A problemática da análise das formações do inconsciente diz respeito a questões tão fundamentais quanto, por exemplo, o futuro dos movimentos de transformação social [grifo nosso] (Guattari & Rolnik, 1996, p. 199).
Como se vê, a problemática da análise levantada por Guattari remete a um diagnóstico. Para ele, Freud - acompanhando nesse ponto por Lacan - nutriu uma visão redutora do processo analítico, restringindo-o a uma relação de consultório entre analista e analisando. Em O Anti-Édipo,Deleuze e Guattari (1972/2010) haviam indicado esse movimento psicanalítico redutor ao dizerem que coexistiam em Freud três elementos: um elemento explorador que descobre a produção desejante; um elemento cultural burguês que aprisiona a sua descoberta à cena edipiana; e um elemento codificador que coloca a psicanálise institucionalizada como uma espécie de pedágio obrigatório entre os indivíduos e a sua cura. Assim, “havia tudo isso em Freud - fantástico Cristóvão Colombo, genial leitor burguês de Goethe, de Shakespeare, de Sófocles, Al Capone disfarçado” (Deleuze & Guattari, 1972/2010, p. 161). Ocorre que o primeiro elemento haveria sido sufocado na teoria freudiana em detrimento dos demais, e, situada no interior desse nó, a problemática da análise posta por Guattari propõe desfazê-lo ao intensificar o lado explorador freudiano. Ou seja, se Freud descobriu a produção desejante, esta deveria ser levada às suas últimas consequências por uma análise que não codifica o inconsciente e não codifica a si mesma, lançando-se antes ao campo social e a formas abertas de experimentação.
Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari (1980/2011) retomam essa problemática ao afirmar que Freud descobriu a multiplicidade do inconsciente, mas rapidamente a reduziu às unidades dos temas familiares. De fato, essa operação de fechamento pode ser observada já em A interpretação dos sonhos, quando a tragédia grega do Édipo Rei é mobilizada pela primeira vez no pensamento freudiano para sustentar uma suposta universalidade do desejo infantil: “é destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual para nossa mãe e nosso primeiro ódio e primeiro desejo assassino para nosso pai. Nossos sonhos nos convencem de que é isso o que acontece” (Freud, 1889/2018, p. 243). Ao traduzir os múltiplos fluxos do desejo inconsciente a uma única linguagem dramático-familiar, Freud territorializa o inconsciente no interior da psique e no círculo doméstico, desconsiderando suas dimensões coletivas, sociais e maquínicas. Assim, a própria obra seminal da psicanálise já contém um gesto de captura do desejo, convertendo-o em expressão simbólica de conflitos familiares internalizados e inaugurando uma concepção de inconsciente centrada na interioridade do sujeito e nos padrões normativos da família burguesa.
Urgia então a necessidade de pensar uma análise em novos termos, pois, no modelo mítico-edipiano-bipessoal da psicanálise, os psicanalistas foram gradativamente alçados ao posto de especialistas do inconsciente, detentores de um saber-poder a respeito da psique humana que só poderia então ser trabalhada pelo analista stricto sensu. Assim, se “na iminência de descobrir um rizoma, Freud retorna sempre às simples raízes” (Deleuze & Guattari, 1980/2011, p. 38), era necessário pensar uma análise da qual as estruturas familiares do inconsciente e a clínica dual fossem apenas coordenadas - não descartáveis, mas não sobredeterminantes - conectadas aos demais fluxos que compõem o rizoma do psiquismo. Uma análise, portanto, que não reterritorializasse a subjetividade em territórios pré-fixados, mas levasse os processos de desterritorialização ao seu limite, ao limite esquizofrênico do capitalismo como forma de cartografar novas paisagens psicossociais (Rolnik, 2006), pois é “no próprio movimento de desterritorialização que se encontram novos agenciamentos” (Guattari, Bertetto & Berardi, 2022, p. 68).
Vale observar, contudo, que esse gesto de refundação da prática analítica por meio dos agenciamentos, antes de surgir apenas com a esquizoanálise, já pode ser identificado nas experiências clínicas anteriores de Guattari, especialmente em sua atuação na clínica psiquiátrica de La Borde, no contexto da psicoterapia institucional. É ali que começam a se delinear as bases de uma análise expandida, atravessada por dispositivos coletivos e pela transversalidade.
Analisar as instituições
A problemática da análise estava colocada, ainda que em outros termos, desde os primeiros escritos de Guattari. Em Psicanálise e Transversalidade (1972), obra que reúne textos pré-esquizoanalíticos de 1955 a 1970, já se buscava pensar uma análise que pretendesse reverter a dupla redução da psicanálise em relação ao inconsciente e ao escopo da prática analítica. Assim, desde o início da década de 1960, Guattari (1972/2004, p. 70) já considerava “lamentável que a ideologia freudiana tenha se apoiado cada vez mais, no curso de seu desenvolvimento, nos mais célebres e belos mitos antigos” e criticava o caráter hierárquico e religioso que os meios psicanalíticos haviam adquirido. Ainda sem estabelecer uma ruptura formal com as teses freudianas e, principalmente, lacanianas1, Guattari já propunha uma nova direção para a análise com a sua abertura ao campo social e político.
A experiência de Guattari na clínica de La Borde, desde 1955, ao lado de Jean Oury, mostrava que outra análise era possível. Vinculada à psicoterapia institucional - corrente reformista surgida no contexto da luta antifascista -, essa prática nasce da experiência de François Tosquelles, que havia transformado o hospital de Saint-Alban durante a Segunda Guerra Mundial em um centro de resistentes (Rodrigues, 1998). Contrariando as reservas de Freud (1912/1969) quanto à possibilidade de transferência nos psicóticos e ao uso da psicanálise em ambientes coletivos, Tosquelles (2024) incorpora a teoria psicanalítica à sua maneira ao propor a criação de “campos de fala” nos quais o desejo barrado do psicótico pudesse se expressar simbolicamente. Oury (1986/2017) acompanha essa concepção com os “espaços de dizer”: clubes de pacientes, oficinas e reuniões coletivas onde o desejo pudesse circular mediado por uma transferência não dual, mas coletiva. Nessa perspectiva, a análise deixa de ser prerrogativa do analista e torna-se uma função potencialmente exercida por qualquer membro da instituição, incluindo pacientes, monitores e visitantes.
Dialogando com essa tradição, Guattari (1972/2004) define a psicoterapia institucional como uma abordagem militante da doença mental voltada à problematização do papel analítico da instituição. A experiência de La Borde revelava os limites da análise bipessoal e a necessidade de uma clínica extensível ao psicótico e ao grupo. Guattari passa então a valorizar os grupos - psiquiátricos, culturais ou militantes - como analisadores capazes de romper com identificações institucionais regressivas e abrir espaço a novos fluxos de subjetivação. Surge, nesse contexto, o conceito de grupo-sujeito, designando coletividades que permitem uma “apreensão da totalidade problemática de um sujeito doente” (p. 88), articulando psiquismo e meio social.
Em meados da década de 1960, Guattari propõe a análise institucional, destacando a “análise” como prática multidimensional. Para além dos saberes “psi”, ela envolve pedagogos, arquitetos, sociólogos, artistas e outros profissionais reunidos em iniciativas como a FGERI2 e a revista Recherches (Rodrigues, 2020). Nesse contexto, o termo “analisador” substitui “analista” com o intuito de “dessubjetivar a função-análise” (Guattari et al., 2022, p. 85), retirando-a da exclusividade de um sujeito fixo e reconhecendo-a em dispositivos coletivos que operam cortes e transformações institucionais.
Ainda nesse contexto, o crucial conceito de transversalidade é formulado por Guattari como proposta de dissolução das hierarquias institucionais e abertura dos canais de comunicação entre sujeitos e grupos. Se em instituições verticalizadas, como as psiquiátricas, o desejo coletivo era bloqueado pela rigidez hierárquica, Guattari também rejeitava a horizontalidade pura e o espontaneísmo do desejo por considerar que a ausência de mediações podia igualmente inibir sua circulação. A transversalidade propõe, assim, uma via relacional alternativa que estimula a criação de dispositivos situados em cada realidade institucional, garantindo formas de expressão coletiva. Como ele resume, “a transversalidade é o lugar do sujeito inconsciente do grupo [...] o suporte do desejo do grupo” (Guattari, 1972/2004, p. 116), pois rompe com barreiras, centralizadoras ou dissipativas, que obstruem o fluxo desejante.
Transversalizar a instituição significava relacionar o desejo às formas de organização social e, por conseguinte, implicava em um questionamento das dinâmicas locais de poder, superando as hierarquias baseadas na função técnica ou na autoridade psicanalítica. Nessa chave, a análise passa a operar como criadora de vacúolos analíticos, ou seja, canais provisórios de circulação desejante. O aumento dos coeficientes de transversalidade, nome dado por Guattari ao grau de abertura ao outro, visava à desalienação coletiva das formas repressivas de organização social, abrindo uma perspectiva aplicável não só à clínica, mas também a grupos militantes e estudantis marcados pelo burocratismo.
Com isso, a problemática da análise adquire em Guattari um caráter processual de luta contra os fechamentos repressivos e as aspirações messiânicas dos grupos sociais, incluindo a própria Escola Freudiana de Paris, que, segundo ele, havia se fechado em torno de Lacan e aprisionado o discurso psicanalítico aos mitos e modelos sociais dominantes. Ele propõe então uma práxis analítica coextensiva à práxis revolucionária com a politização de todo ato analítico e, inversamente, com a instauração de um “empreendimento analítico no nível dos grupos políticos” (Guattari, 1972/2004, p. 256). O modelo psicanalítico já não bastava para abordar os campos abertos de um inconsciente libertado das amarras mitológicas, entendido agora como “o real por vir, o campo transinfinito das potencialidades [...]” (Guattari, 1972/2004, p. 264). Chegava o tempo da esquizoanálise.
Análise esquizo, molecular, micropolítica…
Em meio ao seu nomadismo permanente, Guattari percebeu que a noção de análise institucional que ele próprio havia proposto era insuficiente para designar o tipo de mutação analítica que desejava criar, especialmente após os acontecimentos do Maio de 68, quando as lutas do desejo abalaram a sociedade francesa.
Rapidamente ficou claro que o novo tipo de convulsões microssociais que se manifestaram a partir de maio de 68 foi muito mais longe do que imaginávamos … Na minha opinião, o tempo para análise institucional também havia passado. Deste ponto em diante, eu estava preocupado com a junção das “revoluções moleculares” que as lutas sociais haviam revelado. (Guattari, 2009, p. 36, tradução nossa).
Se a psicoterapia e a análise institucional haviam mostrado a Guattari uma análise livre de certos dogmas da psicanálise, a contestação de 68 ao modo de vida burguês e às suas instituições, dentre as quais a família se revelava nodal, apontava para a criação de uma análise que não apenas procurava se adaptar a outros contextos, mas desafiar diretamente esse arcabouço. Nesse contexto, Guattari conhece Deleuze em 1969 e encontra nele um aliado na luta contra o aprisionamento normativo do desejo pela teoria psicanalítica. Juntos, eles escrevem O Anti-Édipo, livro no qual a esquizoanálise emerge como uma proposta que rejeita a universalidade do Complexo de Édipo e busca desvincular o desejo dessa estrutura repressiva. Sua tese é que nada faltaria ao desejo, senão os meios sociais para expressar o seu caráter puramente positivo. O inconsciente aqui não é mais o teatro das tragédias, mas a fábrica das produções maquínicas (Deleuze & Guattari, 2010).
Contudo, embora critique frontalmente as bases da psicanálise freudiana e de sua vertente estrutural lacaniana, a esquizoanálise não abandona o terreno analítico: “acreditamos na possibilidade de uma subversão interna que faça da máquina analítica uma peça indispensável do aparelho revolucionário” (Deleuze & Guattari, 1972/2010, p. 113). Isso significa que, se a esquizoanálise rejeita determinados conceitos centrais da psicanálise - como Édipo, castração, superego etc. -, ela impõe a outros um processo transfigurador ao modo nietzschiano. Dessa forma, de um lado, o inconsciente é tomado não mais como reservatório de pulsões reprimidas ou de cadeias significantes, mas como fluxos “esquizo” ou “maquínicos” desterritorializados, enquanto, de outro, o desejo não é mais tido como necessariamente incestuoso ou uma manifestação da falta, mas uma força positiva criadora que, não partindo da interioridade do sujeito, devém de combinações de fluxos diversos que abrem novas possibilidades de existência e organização social.
Com a esquizoanálise, tratava-se de substituir a interpretação do sujeito pela exploração de novas formas de subjetividade capazes de engendrar revoluções moleculares, esses movimentos insurgentes tensionam o horizonte revolucionário para além da tomada do poder do Estado, trazendo “a perspectiva da autogestão, a reapropriação do próprio corpo, da própria percepção, da sensibilidade, da sexualidade” (Guattari et al., 2022, p. 27). O molecular opõe-se ao molar, sendo o primeiro associado à multiplicidade do desejo e o segundo à sua territorialização. Segundo Rolnik (2006, p. 59), molecular e molar representam duas linhas do desejo: “de um lado, uma linha flexível, molecular, inconsciente, das atrações e repulsas, dos afetos e de suas simulações e, de outro, uma linha dura, sedentária, molar, consciente, dos territórios”. Guattari (1977/1985) entende ser insuficiente à análise observar apenas os conjuntos molares, de modo que ela deve avançar no sentido da molecularização dos seus objetos face aos conjuntos sociais dos quais eles são parte.
Nesse sentido, a análise molecular descobre as linhas desejantes invisíveis à perspectiva molar nos mais diversos contextos sociais. O caso do fascismo é didático: para Guattari, o fascismo de Mussolini e Hitler representa a face molar e organizada do fenômeno que, embora tenha sido derrotado por esse ângulo, persiste como fascismo molecular ou microfascismo, identificável pela orientação repressiva e totalitária do desejo presente em diferentes coletividades, inclusive naquelas que, do ponto de vista das identificações molares, propõem combatê-lo. A análise molecular, então, “deveria propiciar-nos entender melhor como o mesmo fascismo, sob outras formas, continua funcionando hoje, na família, na escola ou num sindicato” (Guattari, 1977/1985, p. 180).
O processo analítico foi, portanto, convertido aqui em uma política, mais propriamente em uma micropolítica, conceito elaborado na década de 1970 por Guattari (1977/1985) como a política pensada por meio das molecularidades do desejo. A micropolítica consiste em uma perspectiva analítico-política que, em vez de interpretar sintomas ou significantes, procura cartografar a produção da subjetividade que está em constante transformação no socius. Como apontam Deleuze e Guattari (1980/2012), toda política é ao mesmo tempo macro e micropolítica, mas, diferentemente da primeira, esta não lida com representações fixas, mas com intensidades e fluxos do desejo que percorrem todo o campo social. Embora inseparáveis, a escala macropolítica é tradicionalmente colocada em primeiro plano com suas segmentaridades duras e, diante disso, a perspectiva analítico-política consiste precisamente em apontar onde a micropolítica do desejo é negligenciada ou sufocada:
a questão é, justamente, pôr a micropolítica por toda a parte [grifo nosso]: em nossas relações estereotipadas de vida pessoal, de vida conjugal, de vida amorosa e de vida profissional, nas quais tudo é guiado por códigos. Trata-se de fazer entrar em todos esses campos um novo tipo de pragmática: um novo tipo de análise que corresponda, de fato, a um novo tipo de política (Guattari & Rolnik, 1996, p, 135).
Análise esquizo, molecular, micropolítica, o nome que lhe damos é, como defendia Guattari, menos importante do que as máquinas que ela coloca em funcionamento. A problemática da análise vai se impondo para ele de modo que, se desde o tempo da psicoterapia e da análise institucional já se tratava de conceber vacúolos analíticos que promovessem a passagem do desejo na instituição em contraposição aos bloqueios criativos das hierarquias, agora “o trabalho do analista, o do revolucionário, o do artista se encontram” (Guattari, 1977/1985, p. 84). A análise ganha aqui o contorno de uma processualidade experimental, ético-estética e antiteleológica que disputa a produção de subjetividade nas sociedades em seus mais diversos contextos.
Agenciamentos analíticos, estéticos, éticos-políticos
Ao longo da década de 1970 e sobretudo na seguinte, a noção de agenciamento - que já se encontrava Psicanálise e Transversalidade e vinha sendo desenvolvida junto a Deleuze - ganha força no pensamento de Guattari ao expressar a forma como diferentes elementos - pessoas, objetos, ideias ou afetos - se conectam e interagem na produção de subjetividades. O agenciamento é uma configuração dinâmica e sempre mutável que emerge das relações entre elementos heterogêneos, sem uma hierarquia fixa ou um centro de controle, algo que a transversalidade, embora em outra linguagem, já procurava expressar. Muitas vezes nomeado por Deleuze e Guattari (1975/2014) como agenciamento coletivo de enunciação, esse conceito tenta expressar uma forma plural de produção de sentidos, subjetividades e vozes e se diferencia da concepção psicanalítica tradicional de enunciação, na qual o foco está em um sujeito individual e em sua expressão linguística, mostrando que a enunciação é um processo que inclui não só a linguagem e os signos, mas também aspectos materiais e contextuais. A maneira como as mensagens circulam, as tecnologias utilizadas, os contextos históricos e sociais, tudo isso faz parte do agenciamento e influencia a forma como o sentido é produzido e compartilhado. Donde a afirmação de que “não existe enunciado individual, mas agenciamentos maquínicos produtores de enunciados” (Deleuze & Guattari, 1980/2011, p. 48), pois a redução do enunciado ao indivíduo atomizado é uma construção artificial que nega a multiplicidade de componentes semióticos em jogo na produção dos sentidos.
Uma análise imbuída da noção de agenciamento recusa a ideia de que haveria um elemento sobredeterminante - o trauma, o falo, a classe, o gênero, a raça etc. - na construção da subjetividade, voltando-se para a forma como os distintos componentes interagem, se afetam e se transformam mutuamente. É o que Guattari (2024) procura expressar ao dizer que sempre tenta partir da primazia do agenciamento sobre os componentes, evidenciando a ênfase na processualidade, nos contextos e na heterogeneidade de elementos na constituição da subjetividade que esse conceito manifesta.
O agenciamento também lhe permite sair de um certo impasse entre uma análise individual ou coletiva. Em Psicanálise e Transversalidade e em O Anti-Édipo, tratava-se de pôr em relevo as dinâmicas grupais a fim de desconstruir o modelo psicanalítico clássico centrado na relação analista-paciente, constituindo assim uma análise pensada a partir dos grupos e voltada a eles. Esse período, digamos, grupalista de Guattari terá fim com uma inflexão de sua teoria para a qual o conceito de agenciamento é decisivo ao deslocar o foco dos grupos para a multiplicidade. Nesse novo viés, um indivíduo pode ser múltiplo, ao passo que um grupo pode ser unitário, e se os agenciamentos coletivos de enunciação não se reduzem ao primeiro, como dizem Deleuze e Guattari, isso não significa que o indivíduo não enuncie, mas que não enuncia sem agenciar com fluxos que estão aquém e além da dimensão pessoal.
Um grupo pode ser tão analítico quanto um indivíduo, e vice-versa … é por isso que eu não retomaria absolutamente essa minha antiga formulação de “grupo sujeito”. Falaria de “processos de subjetivação” ou de “processos de semiotização”, os quais não coincidem nem com um grupo nem com um indivíduo, envolvendo tanto elementos infrapessoais, orgânicos, perceptivos, fisiológicos, ideais, etc., quanto processos econômicos, maquínicos, extrapessoais. É esse tipo de agenciamento que pode, num dado momento, tomar a dimensão de processo analítico [grifo nosso]. (Guattari & Rolnik, 1996, pp. 263-264).
Agora, nem o indivíduo, nem o grupo são o suporte por excelência da análise, que se fia na construção de agenciamentos enunciativos que conectam elementos de naturezas diversas e não necessariamente humanas. Essa virada complexifica a problemática da análise para Guattari, e se “a análise aqui perdeu seus traços mágicos, seus traços fascinatórios” (Guattari & Rolnik, 1996, p. 244) é porque ela deixou definitivamente de ser uma prática interpretativa de desvelamento, uma hermenêutica voltada à infância para se converter em um trabalho de bifurcação do ser, de produção de novas coordenadas enunciativas e de focos mutantes de subjetivação (Guattari, 1992).
Nessa última dobra de seu pensamento, Guattari defende ser necessário substituir o paradigma científico da psicanálise, ao qual ela esteve atrelada desde suas origens, por um paradigma estético sob o qual o analista - seja qual for a sua natureza, uma vez que “não há portanto um sujeito analítico localizado, unívoco” (Guattari, 1992, p. 85) - não age mais como um cientista do inconsciente, mas como um artista que catalisa um trabalho de heterogênese semiótica na construção de agenciamentos enunciativos. Ao dizer que “a cura não é uma obra de arte, mas deve proceder do mesmo tipo de criatividade” (Guattari, 1992, p. 200), Guattari deseja extrair a criatividade artística para uma análise que age desfazendo as modelizações da subjetividade e cria aberturas para o virtual.
Para Guattari (1992), o paradigma estético da análise continua sendo ético-político, retomando a homologia entre o trabalho analítico, artístico e revolucionário suscitada anteriormente. Sua preocupação estava em encontrar focos autopoiéticos, movimentos de enunciação singulares como aqueles que estavam na base dos sovietes russos antes da burocratização da revolução ou na invenção da associação livre por Freud como um dispositivo inovador de agenciamento da subjetividade antes da cientificização do inconsciente.3 Como se vê, abordagem analítica e abordagem militante nunca se separam em seu pensamento e, se essa articulação já estava presente desde Psicanálise e Transversalidade,4 ela se aprofunda quando Guattari passa a equiparar “agenciamentos militantes ou analíticos de base (para mim é a mesma coisa)” (Guattari et al., 2022, p. 32). Tratava-se então de pensar um tipo de práxis que fosse ao mesmo tempo analítica e militante ao incluir as dimensões coletivas, maquínicas, políticas e ecológicas que influenciam a subjetividade, uma práxis compreendida não apenas como luta externa contra sistemas opressivos, mas também como transformação dos modos de pensar, sentir e viver dentro dos agenciamentos revolucionários. A análise pode agora ser encontrada no divã, nas instituições, nas lutas sociais, na pintura, na literatura etc. sempre que um processo de experimentação que permita aos indivíduos e grupos criarem novas possibilidades de enunciação que reflitam suas próprias necessidades e desejos estiver em curso.
O que a clínica tem a dizer?
Até aqui, foi possível observar como Guattari esforçou-se continuamente para mostrar que a problemática da análise colocava um desafio de expansão de seus parâmetros em relação ao campo desejante e aos limites da análise bipessoal. Nessa concepção, o campo analítico deveria ser ocupado por diferentes saberes e setores sociais e somente assim ele poderia se tornar uma ferramenta de desalienação coletiva. Essa ênfase nos agenciamentos heterogêneos fez com que Guattari, à diferença dos autores clássicos da psicanálise, raramente tenha refletido sobre seu próprio trabalho analítico por meio de casos clínicos individuais, com exceção de pelo menos duas ocasiões situadas em momentos bastante distintos de sua obra e que, paradoxalmente, contribuem para elucidar o seu entendimento do que vem a ser o processo analítico de forma abrangente.
A primeira dessas ocasiões encontra-se nos textos Monografia sobre R. A. e Diário de R. A., reunidos em Psicanálise e Transversalidade e escritos ainda nos anos 1950. R. A. era um paciente de La Borde que se mostrava resistente à vida coletiva do local, expressando uma “oposição sistemática a tudo aquilo que se faz na clínica (descer ao refeitório, participar das atividades, das reuniões, das conversas de depois do jantar etc.)” (Guattari, 1972/2004, p. 35). Guattari volta suas atenções clínicas a esse paciente, sem, contudo, tentar estabelecer uma relação transferencial nos moldes psicanalíticos clássicos. Isso porque, segundo ele, no contexto de convivência contínua entre equipe e pacientes em La Borde5, “uma transferência psicanalítica teria vida curta, uma vez que, ao final da sessão, o analista seria levado a ter para com o sujeito uma atitude completamente distinta” (Guattari, 1972/2004, p. 36).
Guattari cria então um dispositivo de reestruturação simbólica baseado na gravação das sessões e na escuta compartilhada dessas gravações no dia seguinte. A escuta da própria voz, nesse caso, opera como um meio de reconhecimento do próprio estado dissociativo e R. A. e de reconfiguração de seu esquema corporal, numa espécie de passagem tardia pelo estádio do espelho. Esse processo se intensifica quando Guattari propõe que o paciente copie o livro O Castelo, de Franz Kafka. A proposta surte efeito: R. A. retoma a escrita e o gravador torna-se dispensável. Inicialmente, Guattari passa a registrar suas falas nas sessões, e posteriormente o próprio R. A. assume essa função. Ainda que com idas e vindas, a reestruturação simbólica promovida por esse dispositivo mostra-se eficaz. R. A. integra-se à vida da clínica e passa a manter uma prática diária de escrita, por meio da qual reconhece sua condição, seu sofrimento e os outros à sua volta. Como escreve Guattari (1972/2004, p. 40), “[R. A.] tem agora uma espécie de personalidade simbólica à qual se apega, e que altera o sentido de sua doença”.
A segunda ocasião em que Guattari relata um caso clínico ocorre no início da década de 1980, quando ele aborda seu papel como (esquizo)analista de um jovem esquizofrênico nomeado como João Batista (Guattari & Rolnik, 1996). Esse sujeito, que Guattari acompanha após sua passagem por La Borde, habita inicialmente quatro territórios: um hospital psiquiátrico, no qual é reiteradamente internado; a família, que apresenta relações conflituosas, chegando a atos de violência; um clube esportivo que frequenta; as sessões semanais com Guattari. Estas se desenvolvem de forma ritualística e geralmente se iniciam com o jovem oferecendo um chiclete a Guattari e trazendo-lhe papéis administrativos, recortes de jornal e folhas com reflexões próprias. Ele então fala, paga pela sessão e por vezes fica furioso com a ineficácia desse processo, pois “para ele o importante seria poder trabalhar, encontrar umas garotas, etc. Não acontece muito mais coisa além disso” (Guattari & Rolnik, 1996, p. 242).
A análise prossegue até que o território familiar de João Batista entra em colapso: sua mãe adoece, ele se isola no quarto e, quando sai, envolve-se em episódios violentos, como ao apanhar de um cafetão. Guattari intervém, sugerindo que ele vá morar sozinho, mas deixando claro que se saiba da incerteza dessa proposta, que não se trata de uma prescrição terapêutica ou interpretação psicanalítica (Guattari & Rolnik, 1996). Para viabilizar a mudança, Guattari convoca a família, solicita apoio financeiro e o fim das ameaças de internação. O novo arranjo ocorre e possibilita um processo de subjetivação: nas sessões, João Batista abandona os relatos familiares e passa a falar de seu cotidiano, incluindo tentativas - por vezes malsucedidas - de trabalho, estudo e práticas esportivas. Para Guattari, o que importa é que ele ingressa em um novo agenciamento: “nesse novo agenciamento solitário, ele começou a forjar um modo de expressão, a desenvolvê-lo, a criar uma espécie de cartografia de seu próprio universo” (Guattari & Rolnik, 1996, p. 243).
Os casos de R. A. e João Batista, separados por mais de duas décadas, atestam a mutação da concepção de análise de Guattari por meio de sua prática clínica. No primeiro, a intervenção visa promover a integração simbólica do paciente. Os dispositivos criados por Guattari e R.A. para estimular o acesso deste à linguagem, reorganizar seu desejo e cessar os delírios persecutórios - como a crença de que La Borde e Jean Oury eram responsáveis por sua condição. Lacaniamente falando, tratava-se da possibilidade de R. A. expressar-se simbolicamente em relação ao Outro. Já no caso de João Batista, o foco se desloca da primazia do simbólico para uma cartografia dos agenciamentos que permitem a emergência de formas de enunciação não necessariamente linguísticas, e proposta de sair de casa é representativa da lógica antiedípica da esquizoanálise. Guattari define sua intervenção nesse caso como semiótica, isto é, voltada aos componentes maquínicos que atravessam João Batista: sua territorialização familiar, a origem de classe média, o diagnóstico psiquiátrico, o interesse por esportes e política. Nenhum desses elementos é marginal à análise.
Contudo, embora revelem inflexões na clínica guattariana e um claro distanciamento da clínica lacaniana da psicose, os casos de R. A. e João Batista não sugerem uma evolução linear. O primeiro não deve ser visto como datado, mas como exemplo de uma análise que já apostava em dispositivos criativos de enunciação, como o arranjo R. A./Guattari/gravador, ainda sob um viés linguístico. Ambos os casos ilustram uma prática clínica desapegada de modelos fixos na qual o analista abandona a neutralidade e o lugar de detentor do saber, arriscando-se em intervenções experimentais. No segundo caso, vemos inclusive o uso herético por Guattari de sua posição de analista para intervir junto à família e viabilizar a autonomia de João Batista.
Se a problemática da análise não se restringe à experiência clínica e busca transbordá-la, isso não significa que esta não possa continuar a nos apontar caminhos. O ponto a ser realçado aqui é que, mesmo quando orientada ao indivíduo, a análise proposta por Guattari jamais é propriamente individual. Ela se realiza sob a lógica dos agenciamentos, atravessada por múltiplas dimensões aquém e além do indivíduo que compõem o campo de forças onde o sujeito se constitui. Essa análise não busca desvelar verdades internas, mas construir dispositivos de enunciação que operem transformações singulares nos modos de existir. Ao fazê-lo, desestabiliza a ideia de sujeito autônomo e evidencia a inseparabilidade entre clínica e produção social. Do lado do analista, o sujeito tampouco pode ser localizado individualmente, o que há são analisadores, agenciamentos coletivos de enunciação provisórios compostos de elementos humanos e não humanos que exercem uma função analítica, isto é, catalisadora de novos modos de existir no mundo.
Os casos analisados evidenciam um deslocamento radical em relação à psicanálise clássica. No lugar do setting fechado, da interpretação do sintoma e da neutralidade do analista, Guattari propõe dispositivos clínicos abertos e experimentais, a transversalidade dos agenciamentos semióticos e o envolvimento ético-político do analista. Essa perspectiva se opõe igualmente ao panorama atual de muitas psicoterapias, marcadas pela individualização, pela medicalização e pela adaptação psíquica aos imperativos competitivos do mercado. Sob a promessa de bem-estar e equilíbrio, essas práticas frequentemente funcionam como tecnologias de modulação subjetiva voltadas à produtividade econômica, apagando os conflitos sociais e deslocando o sofrimento para o interior do indivíduo. Ao recusar tanto a neutralidade quanto a captura normativa da escuta, Guattari propõe uma análise como prática ontológica de criação de novos modos de subjetivação. Os casos de R. A. e João Batista não apenas exemplificam essa prática, como explicitam seu potencial de reconceituar o papel da clínica frente à demanda social por sujeitos orientados à performance. A esquizoanálise afirma, assim, a análise como gesto coletivo de invenção e resistência.
Considerações finais
Neste artigo, buscamos sublinhar a importância da problemática da análise no pensamento de Félix Guattari, articulando sua crítica à psicanálise à proposta de uma análise expandida para além das reduções formais e interpretativas a ela impostas. Desde La Borde, Guattari vislumbrava uma análise inventiva e desalienante, alimentada pela psicoterapia e pela análise institucional. Nesse contexto, a transversalidade emerge como operador-chave, princípio de abertura dos circuitos de desejo bloqueados e condição para a reorganização dos coletivos.
A esquizoanálise aprofunda esse caminho ao rejeitar os moldes da clínica clássica e propor uma análise militante, coletiva, orientada por agenciamentos maquínicos e fluxos moleculares. Deslocando o foco da cena edípica para os processos de produção de subjetividade, essa perspectiva aposta na transformação micropolítica dos modos de vida, nos campos em que se modulam o desejo e as formas de expressão.
Os casos clínicos discutidos ilustram o sentido dessa problemática. Apesar das inflexões, ambos mostram uma clínica voltada à criação de dispositivos de enunciação que desloquem o sujeito de posições cristalizadas e ativem novos modos de existir. A análise não se individualiza, mas intervém nos agenciamentos que compõem a subjetividade.
Guattari propõe, enfim, uma análise aberta, estética e política, que resiste à normatividade da clínica contemporânea centrada na performance e adaptação. Seu legado é um convite à experimentação contínua de formas de vida que escapem às codificações mercadológicas e promovam a reinvenção de si e do mundo.
Referências
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1
Lembremos que nesse período Guattari frequentava os seminários de Lacan e logo se tornaria membro da Escola Freudiana de Paris.
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2
Fédération des Groupes d›Etudes et de Recherches Institutionnelles.
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3
Nesse sentido, é necessário não confundir a crítica de Guattari à psicanálise com uma negação do saber psicanalítico. Guattari e Rolnik (1996) dirão que o problema não está em haver psicanalistas, mas nestes monopolizarem, sob uma pretensa posição de neutralidade científica, a análise das formações do inconsciente, quando na realidade elas dizem respeito a todo o campo social.
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4
“No geral, não foi uma espécie de trabalho psicanalítico de desmistificação o que realizamos durante anos: explorar, abalar e superar, na medida do possível, os tiques e maneirismos do militantismo revolucionário tradicional?” (Guattari, 2004, p. 353).
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5
Vale notar que Guattari efetivamente morou em La Borde durante longos anos (Dosse, 2010).
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Financiamento
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
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Consentimento de uso de imagem
Não se aplica
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Aprovação, ética e consentimento
Não se aplica
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Disponibilidade de dados e materiais
Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.
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