Open-access ‘SEGURANDO UM MILHÃO DE PRATINHOS’: TELETRABALHO E PARENTALIDADE NA PANDEMIA

‘SPINNING A MILLION PLATES’: PANDEMIC TELEWORK AND PARENTING

‘HACIENDO MALABARES’: TELETRABAJO Y PARENTALIDAD EN PANDEMIA

Resumo:

Este estudo investigou e discutiu o impacto do home-office na conciliação trabalho-família e na saúde mental de mães e pais com filhos/as na primeira infância, que durante a pandemia migraram para o trabalho remoto em tempo integral, enquanto o/a parceiro/a se manteve em trabalho presencial. Realizamos 12 entrevistas semiestruturadas (6 mães/6 pais), em plataforma digital, com gravação e posterior transcrição. O roteiro das entrevistas e a análise de conteúdo categorial contaram com avaliação de juízes (n = 5). Os resultados denunciam a permanência das desigualdades de gênero, com sobrecarga doméstica no cotidiano das mulheres. Houve também aumento do conflito trabalho-família e impactos na saúde física e mental de mães e pais de crianças na primeira infância durante a pandemia, com efeitos mais danosos para as mães. À luz da literatura sobre conflito trabalho-família e estereótipos de gênero, discutimos os achados de forma crítica e endereçamos as necessidades de transformações sociais.

Palavras-chave:
conflito trabalho-família; gênero; teletrabalho; pandemia; saúde mental

Abstract:

This study investigated and discussed the impact of remote work on work-family balance and mental health of mothers and fathers with children in early childhood who transitioned to full-time remote work during the pandemic, while their partners maintained in-person work. We conducted 12 semi-structured interviews (6 mothers/6 fathers) via a digital platform, which were recorded and subsequently transcribed. Both the interview script and the categorical content analysis underwent peer review by judges (n = 5). The results reveal the persistence of gender inequalities, with a domestic overload in the daily lives of women. There was also an increase in work-family conflict and impacts on the physical and mental health of parents of young children during the pandemic, with more harmful effects observed for mothers. In light of the literature on work-family conflict and gender stereotypes, we critically discuss the findings and address the need for social transformations.

Keywords:
work-family conflict; gender; telework; pandemic; mental health

Resumen:

Este estudio investigó el impacto del teletrabajo en la conciliación trabajo-familia y en la salud mental de madres y padres con hijos/as en la primera infancia que, durante la pandemia, migraron al trabajo remoto a tiempo completo mientras su pareja mantuvo en trabajo presencial. Realizamos 12 entrevistas semiestructuradas (6 madres/6 padres) en una plataforma digital, con grabación y posterior transcripción. El guión de las entrevistas y el análisis de contenido categorial contaron con la evaluación de cinco jueces (n = 5). Los resultados denuncian la permanencia de desigualdades de género, con una sobrecarga doméstica en el cotidiano de las mujeres. Hubo también un aumento del conflicto trabajo-familia e impactos en la salud física y mental de madres y padres de niños en la primera infancia durante la pandemia, con efectos más perjudiciales para las madres. A la luz de la literatura sobre conflicto trabajo-familia y estereotipos de género, discutimos críticamente los hallazgos y destacamos la necesidad de transformaciones sociales.

Palabras clave:
conflicto trabajo-familia; género; teletrabajo; pandemia; salud mental

Introdução

Com o advento da Covid-19 e as medidas de distanciamento social, muitas organizações adotaram o trabalho remoto compulsório. O que parecia ser uma solução para conciliar trabalho e vida pessoal, acabou trazendo um conjunto de desafios para os trabalhadores, com maior prejuízo às mulheres pela sobrecarga dos trabalhos domésticos e de cuidados com familiares (Aguiar, Oliveira, Hryniewicz & Sant’Anna, 2022; Giacomello, Giongo, Ribeiro, & Perez, 2022; Mendes, 2020). Isso remete à histórica frase de Simone de Beauvoir (1949): “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados” (Beauvoir, 1949, p. 29)

Um dos principais desafios enfrentados foi delimitar o tempo de trabalho e equilibrar as responsabilidades domésticas, especialmente para pais com crianças pequenas. As medidas aumentaram a carga de trabalho não remunerado nas famílias, atingindo mais as mães (Castro & Chaguri, 2020; Dorna, 2021; Lemos, Barbosa, & Monzato, 2020; Losekann & Mourão, 2020; Zhang, Moeckel, Moreno, Shuai, & Gao, 2020).

A teoria dos estereótipos de gênero contribui para a explicação desses fenômenos. Ela considera que as sociedades criam expectativas e atribuem características específicas a indivíduos com base em seu gênero, reforçando papéis tradicionais e preconceitos. Esses estereótipos influenciam a forma como as pessoas são percebidas e tratadas, moldando seu comportamento e gerando desigualdades e limite de oportunidades. O artigo seminal de Sandra Bem (1974) descreve o desenvolvimento de um inventário de papéis sexuais que permitia caracterizar uma pessoa como masculina, feminina ou “andrógina”, de acordo com o endosso de características de personalidade consideradas masculinas ou femininas. O estudo de Bem (1974) apresentava dados normativos e análises psicométricas que indicavam que as dimensões da masculinidade e da feminilidade são empiricamente independentes. Mas a autora já alertava sobre a tendência de homens e mulheres responderem em uma direção socialmente desejável em termos dos padrões desejáveis tipificados por sexo.

Nesse sentido, os estereótipos de gênero refletem padrões sociais considerados “normais” e expectativas sobre grupos sociais específicos, atribuindo, ao papel feminino, o cuidado da casa e dos filhos; e, ao masculino, comportamentos como assertividade, coragem e independência (Bassoff & Glass, 1982; Ellemers, 2018). Na obra organizada por Guacira Louro (1999), evidencia-se o processo de socialização dos estereótipos de gênero, que em grande medida moldam os comportamentos em nossa sociedade com possibilidade de gerar conflito trabalho-família. Tal conflito decorre da oposição entre os papéis exigidos por essas duas dimensões, que em alguns casos se tornam incompatíveis (Aguiar & Bastos, 2013).

Pesquisas antes da pandemia mostram que as mulheres já dedicavam, em média, 21,4 horas por semana ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens gastavam 11 horas nessas atividades (IBGE, 2019). Durante a pandemia, essa sobrecarga aumentou, exacerbando as disparidades de gênero nas atividades não remuneradas (Borges, 2022; Medrado et al., 2021). De acordo com a Organização das Nações Unidas - ONU (2021), as mulheres gastaram cerca de 5,2 horas a mais por dia cuidando de seus filhos, enquanto os homens relataram um aumento de 3,5 horas.

Pesquisa realizada pela ONU (2021) em 50 países apontou que muitas mulheres deixaram seus empregos, com um aumento significativo do número de mulheres fora do mercado de trabalho no segundo trimestre de 2020 . Nos EUA, mães tiveram uma redução maior nas horas de trabalho remunerado do que os pais, especialmente aquelas com filhos na faixa de um a cinco anos (Collins, Landivar, Ruppanner, & Scarborough, 2021).

De acordo com o estudo brasileiro realizado por Dorna (2021), no Brasil, antes da pandemia, 39% dos pais e 71% das mães já estavam envolvidos nos cuidados diários com os filhos, e esses números aumentaram para 47% e 76%, respectivamente, durante a pandemia. Se antes da pandemia 23% das mães dedicavam mais de oito horas por dia aos cuidados com os filhos/as, esse número triplicou durante a quarentena, atingindo 69% das participantes. Além disso, 58% das mães relataram que ficaram responsáveis por acompanhar as atividades escolares remotas dos filhos/as.

Assim, a pandemia reverteu avanços anteriores na divisão do trabalho doméstico, reintroduzindo arranjos tradicionais em que as mulheres eram mais sobrecarregadas com a gestão de trabalhos remunerados e não remunerados (Borges, 2022; Dorna, 2021). Em famílias em que ambos os parceiros trabalhavam, as mães que combinavam emprego e cuidado dos filhos enfrentaram níveis mais elevados de estresse, ansiedade e depressão (Giacomello et al., 2022; Wang, Wang, Chen & Li, 2022).

Diante do exposto, o presente estudo teve por objetivo identificar e discutir as vivências do trabalho remoto para pais e mães que tiveram que trabalhar e assumir o cuidado dos filhos/as de até 6 anos, enquanto seus parceiros ou parceiras permaneceram em trabalho presencial em tempo integral durante a pandemia.

Método

Este estudo adotou uma abordagem qualitativa, com a realização de entrevistas em profundidade. A seguir, detalhamos a descrição dos participantes, dos instrumentos e dos procedimentos de coleta e de análise de dados.

Participantes

Com base nos objetivos do estudo, estabelecemos os seguintes critérios para a amostra: (i) idade ≥ 18 anos; (ii) consentimento para participação na pesquisa; (iii) morar com a/o parceira/o; (iv) filho/a ou enteado/a de 0 a 6 anos morando com o casal; (v) teletrabalho durante a pandemia enquanto o/a cônjuge trabalhava presencialmente. Esses critérios visaram compreender a distribuição de tarefas domésticas e de cuidado com os filhos/as quando um dos pais estava fora e o/a parceiro/a em teletrabalho. Cabe registrar que houve apenas uma entrevistada que possuía enteada, e a criança morava com ela, não configurando visita ou guarda compartilhada com alternância de semanas.

A maioria dos participantes tinha pós-graduação e era do Rio de Janeiro, a idade variou de 29 a 45 anos. Os/As filhos/as tinham de 3 meses a 6 anos, com alguns tendo irmãos/ãs mais velhos/as. Nenhum casal tinha mais de 2 filhos/as ou enteados/as. A renda familiar bruta indica um público de classe média ou média alta. A Tabela 1 resume os dados sociodemográficos da amostra, com codinomes para os/as participantes, atribuídos desde a etapa de transcrição das entrevistas.

Tabela 1
Descrição do perfil das mães e pais entrevistados

Instrumentos

Seguindo os critérios COREQ (Tong, Sainsbury & Craig, 2007), registramos que o roteiro de entrevista semiestruturada foi construído com base em estudos prévios (Lemos et al., 2020; Collins et al., 2021; Dorna, 2021). O instrumento incluiu rapport, questões sobre rotina de trabalho e familiar durante a pandemia, divisão de papéis, vivências da pandemia e sentimentos. Ele foi previamente validado por cinco juízes/as e testado em uma entrevista piloto.

Coleta de dados

O projeto de pesquisa foi inscrito na Plataforma Brasil e a coleta de dados iniciada após aprovação do Comitê de Ética. Os/as profissionais foram contatados/as diretamente pela pesquisadora, tendo sido adotada a técnica bola de neve, em que um/a participante tem a possibilidade de indicar outro/a com o perfil que atenda aos critérios de inclusão na pesquisa. No contato inicial, informamos os objetivos da pesquisa e solicitamos permissão para gravação. Embora as entrevistas tenham sido realizadas com as câmeras da entrevistadora e dos/as entrevistados/as abertas, gravamos apenas o áudio, para deixar os/as participantes mais à vontade. A quantidade de entrevistas levou em consideração a avaliação de saturação dos dados.

Análise de dados

Conforme os critérios COREQ (Tong et al., 2007), detalhamos os procedimentos de análise de dados. Começamos com a leitura das entrevistas para obter um primeiro contato com as informações. Em uma segunda leitura, identificamos as pré-categorias mais relevantes para as temáticas de saúde mental, conciliação trabalho-família e vivências do teletrabalho. Finalmente, o conteúdo foi analisado de forma reflexiva e crítica para emergir as categorias definitivas, descrevendo o conteúdo central e selecionando trechos ilustrativos nos depoimentos.

A partir da análise de núcleos de sentido, criamos uma árvore de codificação com categorias e subcategorias, contemplando simultaneamente conteúdo e contexto, a fim de captar experiências, opiniões e comportamentos relatados pelos/as entrevistados/as. Em uma primeira rodada, cinco juízes/as da área de Psicologia Social analisaram a pertinência das categorias e subcategorias. Em uma segunda rodada, esta com quatro juízes/as, eles/as identificaram, de forma consensual, os trechos mais representativos de cada subcategoria.

Inicialmente, três categorias foram estabelecidas para buscar compreender as experiências de pais e mães que enfrentaram o desafio de trabalhar remotamente e cuidar de crianças de até seis anos de idade, enquanto seus parceiros continuavam trabalhando em locais físicos em período integral durante a pandemia. Em uma primeira análise as categorias identificadas foram: Divisão sexual do trabalho não remunerado, Relação entre família e trabalho durante a pandemia e Efeitos da pandemia, subdivididas em 11 subcategorias.

Figura 1
Síntese das categorias e subcategorias após a análise de juízes e suas frequências por gênero

Após a análise realizada por juízes/as, as categorias foram consolidadas em duas, tendo a categoria Efeitos da pandemia sido transformada em uma subcategoria relativa à Relação entre família e trabalho durante a pandemia. Outras subcategorias também foram reagrupadas de forma que a estrutura final da análise ficou com duas categorias e sete subcategorias, agrupando narrativas de mães e de pais, embora com distintas experiências relatadas por cada grupo. A Figura 1 apresenta as categorias e subcategorias após as duas rodadas de análise realizadas pelos/as juízes/as.

Resultados e discussão

Para permitir maior compreensão dos resultados e, em observância aos critérios COREQ (Tong et al., 2007), apresentamos citações que ilustram os depoimentos dos/as participantes, bem como uma breve explicação de cada categoria. Também discutimos os achados à luz da literatura da área.

Categoria 1 - Divisão sexual do trabalho não remunerado

A primeira categoria denominada “Divisão sexual do trabalho não remunerado” trouxe discursos de homens e mulheres sobre a distribuição das atividades domésticas e de cuidados com os filhos, considerando o período anterior e durante a pandemia. Embora tanto homens quanto mulheres tenham abordado extensivamente as atividades relacionadas às tarefas domésticas e ao cuidado das crianças, observou-se que as mulheres não apenas contribuíram com um maior número de depoimentos sobre o assunto, mas também expressaram de forma mais enfática suas opiniões. Tanto as mães quanto os pais entrevistados relataram uma divisão desigual do trabalho não remunerado, sendo as mulheres as mais sobrecarregadas. Essa constatação corrobora pesquisas anteriores que também destacaram a sobrecarga das mulheres nas responsabilidades relacionadas à casa e aos filhos, com acentuação ainda maior durante a crise sanitária (Collins et al., 2021; Dorna, 2021; Lemos et al., 2020; Nunes, Lessa, Pereira, Silva & Gomes, 2022). Para exemplificar a situação anterior à pandemia, citamos dois depoimentos de mulheres que ilustram a divisão sexual do trabalho:

Tudo praticamente eu, apesar do meu marido também fazer algumas coisas. Mas a maioria das coisas era eu que fazia mesmo, a parte de cuidados da casa e da criança. A minha filha, fica na creche, desde os sete meses. (Judith, 37 anos, 1 filha)

Sempre cuidei da roupa, de lavar, de passar, arrumar a casa. A parte da faxina, eu tinha uma pessoa para ajudar. Eu sempre trabalhei fora. Em casa, à noite, era sempre um lanche e eu que ia ao supermercado, às farmácias e organizava os horários. (Renata, 41 anos, 1 filho)

Durante o período de isolamento social, a sobrecarga das mulheres foi ainda maior. Apesar de os homens terem se envolvido mais nas tarefas domésticas e de cuidado com os filhos/as, o trabalho não remunerado delas aumentou desproporcionalmente ao deles (Castro & Chaguri, 2020; Collins et al., 2021). Todas as entrevistadas e cinco dos seis entrevistados admitem a maior sobrecarga feminina, ficando os homens no papel de “ajudar” ou “acompanhar” a mulher. Alguns exemplos são:

Você é interrompida 400 milhões de vezes. Então, a gente teve muito estresse até a gente sentar e dividir o que cada um ia fazer dentro daquele período. ... Só que, às vezes, elas [as crianças] não querem que seja ele, elas querem que seja eu. Então, aquela função que era dele, nem sempre é cumprida como dele, entendeu? ... Digamos que eu fiquei com 80% e ele com 20%. (Cristina, 32 anos, 1 filho e 1 enteada)

Nada de forma corrente assim, eventualmente lavava uma louça, esquentava uma comida. Fazer comida, não sei fazer. Era mais ajudar assim, um pouco, lavando uma louça depois da janta, alguma coisa assim, compras no mercado se fosse necessário, mas poucas coisas da área doméstica (Lino, 40 anos, 2 filhos)

Apesar de as tarefas domésticas e de cuidado terem sido desproporcionalmente majoradas para as mulheres, o contexto da pandemia forçou os homens a vivenciarem a realidade do trabalho não remunerado, ampliando a participação nas tarefas de limpar a casa e cuidar dos filhos/as (Borges, 2022; Dorna, 2021; Nunes et al., 2022; Shockley, Clark, Dodd & King, 2021). Ainda assim, mesmo quando os homens permaneceram sozinhos em regime de home office com os filhos/as, sua atuação concentrou-se sobretudo nos cuidados diretos com as crianças e nas tarefas domésticas associadas a esses cuidados, como alimentação e organização imediata do dia a dia. A gestão mais ampla da casa, incluindo planejamento, preparo prévio das refeições, limpeza e organização geral, continuou, em grande medida, sob responsabilidade das esposas, mesmo quando estas se mantinham em trabalho presencial. Depoimentos de diversos pais e mães mostraram como era essa divisão de tarefas durante a pandemia, como esses a seguir.

No horário do café da manhã, ela ainda estava em casa e dava o café para eles [filhos]. Quando chegava na hora do almoço, a comida já estava pronta, porque ela deixava pronta na noite anterior e eu colocava a comida no prato e servia a mesa para eles, depois lavava a louça. (Lino, 40 anos, 2 filhos)

Eu fazia tudo quando ela estava ausente, dava banho, trocava e fazia a parte da alimentação completa. Não precisava preparar a comida, essas coisas, porque ela já deixava tudo, tudo meio que adiantado. Mas assim, os cuidados com a criança eram práticos. (João, 33 anos, 1 filha)

Cabe ponderar que as experiências analisadas neste estudo correspondem a um arranjo familiar específico, no qual apenas um dos cônjuges migrou para o trabalho remoto, enquanto o outro permaneceu em atividade presencial em tempo integral. A literatura aponta que, durante a pandemia, houve também famílias em que ambos os responsáveis passaram a atuar em regime de teletrabalho, configurando dinâmicas distintas de organização do cuidado e da divisão do trabalho doméstico (Collins et al., 2021; Dorna, 2021; Lemos et al., 2020). Em tais contextos, estudos sugerem que a presença simultânea dos dois adultos em casa pode favorecer negociações mais frequentes sobre a divisão de tarefas, ainda que não elimine as desigualdades de gênero nem o risco de intensificação do trabalho e do conflito trabalho-família. Assim, embora os achados aqui apresentados não sejam diretamente generalizáveis a esses outros arranjos, eles evidenciam, de forma particularmente acentuada, como a permanência de um cônjuge em trabalho presencial tende a reproduzir e cristalizar padrões tradicionais de gênero, reforçando a centralidade feminina no cuidado e no trabalho não remunerado, mesmo em um contexto de crise sanitária e reorganização laboral.

Categoria 2 - Relação família e trabalho na pandemia

A categoria denominada Relação família e trabalho na pandemia aborda as experiências de mães e pais de crianças na primeira infância diante da sobreposição entre trabalho remoto, cuidado familiar e atividades domésticas. Foi a que teve maior quantidade de núcleos de sentido, tendo emergido cinco subcategorias derivadas dos discursos de homens e mulheres. As subcategorias foram: Conflito trabalho-família; Estratégias de conciliação; Relações familiares na pandemia; Emprego e finanças; e Saúde mental e física na pandemia.

A subcategoria Conflito trabalho-família permitiu conhecer como as atividades de trabalho causaram impactos significativos na vida familiar. Alguns pais e mães demonstraram dificuldades na coexistência dos papéis profissionais e familiares durante o período pandêmico. Os depoimentos mostram que as medidas de distanciamento social e a adoção do teletrabalho impuseram um conjunto de mudanças e causaram transformações não apenas nas relações laborais, mas também no âmbito pessoal, com conflitos e dificuldades de conciliação entre essas esferas de vida, confirmando a literatura sobre o tema conflito trabalho-família (Aguiar & Bastos, 2013; Castro & Chaguri, 2020; Dorna, 2021; Zhang et al., 2020).

Embora tanto os homens quanto as mulheres relatem desafios na conciliação das atividades laborais e domésticas, as entrevistas mostram que os pais que tiveram que ficar sozinhos com os filhos/as relataram maiores dificuldades do que as mulheres. Além disso, identificou-se a hegemonia da sociedade patriarcal na divisão das tarefas observada em vários depoimentos e explicitada por uma das mulheres (Renata, 41 anos,1 filho) que disse: “Como a mulher da relação, as pessoas sabiam que eu estava tendo que cuidar da criança e ele como sendo homem era o cara que ia trabalhar”. Ela complementa que, na fase menos aguda da pandemia, quando as pessoas começaram a trabalhar de forma híbrida, o marido fez home office, mas com uma vivência de teletrabalho muito distinta daquela que ela teve. Ela disse: “Ele se trancava no escritório, o dia inteiro, porque tinha que trabalhar... e como se eu não tivesse!”. Outros depoimentos de pais e mães também ilustram o que eles vivenciaram nesse período.

Ficou a minha vida pessoal, profissional, muito misturado. No momento que era para eu estar em casa, no meu momento de lazer, com a minha família ou fazendo as minhas coisas em casa, serviços domésticos, eu tive que dividir com o trabalho. Então, trouxe o trabalho para casa e eu tive que dividir essa parte profissional e pessoal. (Irma, 29 anos, 1 filha)

Teve aumento de conflito. Quando tinha algumas reuniões que infelizmente eram na parte da manhã. ... Assim, quando ela [a esposa] chega de noite, eu acabava, de certa forma, brigando. Eu não posso ficar parando o trabalho e tem bastante conflito. (Márcio, 36 anos, 1 filho)

Eu tinha que trabalhar e, ao mesmo tempo, o meu telefone tocando, meu chefe querendo falar comigo (...) então, ficou muito sobrecarregado para mim por conta disso. Também eu não conseguia ficar ali, vendo a situação [filhos na aula remota] de estar desatento. Então, eu acabava ajudando. (Lino, 40 anos,2 filhos)

Se, em contextos não pandêmicos e com a presença de redes de apoio, a flexibilidade de horário associada ao home office pode contribuir para a reorganização do tempo e, potencialmente, para a minimização do conflito trabalho-família (Aguiar et al., 2022), esse efeito mostrou-se limitado ou mesmo invertido no contexto da pandemia de Covid-19. Conforme aponta Dorna (2021), a flexibilidade temporal, por si só, não é suficiente para reduzir o conflito entre as esferas laboral e familiar, sobretudo quando combinada à intensificação das demandas de cuidado. Durante a crise sanitária, o fechamento de escolas e creches, a restrição do apoio familiar e a redução ou ausência de serviços de apoio tencionaram significativamente a dinâmica doméstica, ampliando o conflito trabalho-família. Nesse cenário, muitos pais e mães passaram a assumir integralmente o cuidado de filhos/as e enteados/as pequenos/as, que demandam atenção contínua. Aqueles/as que permaneceram sozinhos/as com as crianças enquanto o/a cônjuge trabalhava presencialmente relataram maior sobrecarga na conciliação entre trabalho e família, acompanhada de estresse e desgaste emocional (Castro & Chaguri, 2020).

A segunda subcategoria foi a de Estratégias de conciliação, revelando as formas encontradas pelos casais para combinar as atividades profissionais com as domésticas e de cuidado com os filhos/as. Tanto os homens quanto as mulheres precisaram estender as jornadas, realizando o trabalho doméstico ou o remunerado mais cedo ou mais tarde à noite, para ter mais tempo para cuidar dos filhos/as durante o dia. Dois depoimentos ilustram isso. Ficava o dia inteiro em função dele [o filho]. O trabalho basicamente ficava para de noite, menos horas do que eu deveria. (Renata, 41 anos, 1 filho).

Bom, com certeza, a jornada de trabalho aumentou e aumentou bastante, mas eu sempre fui de acordar cedo e procurar resolver as coisas de casa mais cedo possível. ... De noite ia dormir mais ou menos meia-noite, meia noite e meia para resolver as coisas do trabalho. (Roberto, 45 anos, 1 filho)

Mas, se houve semelhança entre os pais e as mães na estratégia de acordar mais cedo ou dormir mais tarde, outras estratégias diferenciaram-se de acordo com o gênero. As mães demonstram ter buscado resolver sozinhas as demandas de trabalho remunerado e não remunerado, enquanto a metade dos pais se valeram da ajuda de outras mulheres (sua mãe ou sua sogra) para equilibrar suas rotinas profissionais e de cuidado com os filhos/as.

Minha filha é uma criança que tem paralisia cerebral, ... então, eu a levava nos horários para as terapias e levava o serviço, as coisas que eu precisava fazer do trabalho para fazer lá na clínica. ... Então, eu tentava levar meu trabalho para onde eu precisasse. (Irma, 29 anos, 1 filha)

Eu descobri que na piscina ou tomando banho, eles não me chamavam e conseguiam brincar os dois juntos um tempão ... porque era um tempo que eu conseguia fazer uma reunião sem ser interrompida, sem ser chamada. (Cristina, 32 anos, 1 filho e 1 enteada)

Como a gente tinha muitas reuniões virtuais, eu separava um momento da tarde para essas reuniões. Meus filhos estavam lá com a minha sogra, ocasionalmente, isso não dava certo ... e ele acabava participando da reunião comigo. (Renan, 35 anos, 2 filhos)

Às vezes, quando era um dia que eu tinha algumas reuniões ou algo muito específico, que demandava mais atenção e que eu não poderia desvencilhar, eu tinha que contar com a ajuda de alguém - ou da minha mãe ou da minha sogra para ficar com o meu filho naquele período. (João, 33 anos, 1 filha)

Um pai afirmou que teve que “assumir esse lado de mãe integral”, demonstrando que atribui à esposa o papel de cuidado com os filhos/as. Ele relata uma dificuldade de realizar as tarefas em um padrão desejado pela filha ou da forma como as mulheres fazem. Sua estratégia para conciliar trabalho-família foi a compra de um apartamento no prédio de sua sogra, para que ela pudesse assumir os cuidados da neta. A seguir, o trecho em que ele relata sua decisão.

Foi muito ruim porque eu tive que assumir esse lado de mãe integral, que de certa forma não estava pronto e não considero que vou estar pronto. Foi alvo de diversas brigas. ... Foi muito ruim e eu não consegui me adequar. Não consigo me virar nos 30, como de certa forma as mulheres fazem ... minha filha quer um penteado para a escola, não sei fazer. ... ela quer comer uma coisa no almoço, não sei fazer. Aí uma saída que eu tive, eu comprei um apartamento no prédio da minha sogra e ela acaba me ajudando. (Márcio, 36 anos, 1 filha)

As estratégias elaboradas por pais e mães com filhos/as pequenos/as foram, em parte, semelhantes (como a redução das horas de sono) e, em parte, distintas, não apenas porque os pais tenderam a recorrer a outras mulheres como rede de apoio, mas também porque as mães, antes de saírem para o trabalho presencial, frequentemente deixavam a alimentação organizada para o cônjuge e os/as filhos/as. Esses resultados corroboram a prevalência da distribuição das tarefas domésticas a partir de estereótipos de gênero, ainda que indiquem maior flexibilização no cuidado direto com filhos/as durante o período pandêmico. Tal flexibilização, contudo, não se traduziu em uma assunção equivalente das responsabilidades domésticas e de cuidado, uma vez que os pais, mesmo quando em trabalho remoto, não assumiram essas tarefas na mesma proporção que as mães, recorrendo com frequência ao suporte feminino para a manutenção da rotina familiar (Castro & Chaguri, 2020; Collins et al., 2021; Ellemers, 2018; Louro, 1999). A subcategoria Relações familiares na pandemia mostra impactos positivos e negativos da crise sanitária nas relações entre os cônjuges e deles com os/as filhos/as ou enteados/as. Para alguns, a pandemia trouxe a possibilidade de aproximação entre os familiares, como o depoimento de um pai de 41 anos e 2 filhos, que disse: “a gente acabava ficando no escritório muito tempo. Você acaba vivendo numa redoma. Em casa a gente acaba vendo como é que é a vida real, né? ... A pandemia melhorou muito a minha relação familiar” (Danilo, 41 anos, 2 filhos). Contudo, para a maioria dos/as entrevistados/as, esse foi um período de maior estresse nessas relações. Os depoimentos ilustram mais dificuldades do que facilidades na convivência familiar neste período.

Foi um período muito difícil. Afetou muito o meu casamento, porque acho que a gente já não tinha mais tempo para gente. Acho que a gente estava muito cansado. ... Eu estava muito estressada e eu estava superafastada do meu marido, muito focada nas crianças, no trabalho, na casa. (Cristina, 32 anos,1 filho e 1 enteada)

Eu falo que ela [filha] sofreu acho que muito mais que todo mundo, porque ela tinha que entender que eu estava ali, mas eu não estava 100% para ela. E quando eu tinha um tempo, eu estava cansada e não estava também 100% para ela. (Bruna, 40 anos, 1 filha)

Nos dias mais extremos, eu cheguei assim a sentir que eu não queria ter filhos ... teve dias em que eu desejei não ser pai. Teve dias em que eu pensava assim: ‘eu acho que eu não quero isso’ e obviamente pensei em me divorciar ... Mas ao mesmo tempo em que eu às vezes tinha esse sentimento extremo, tinha a responsabilidade pelos meus filhos. (Renan, 35 anos,2 filhos).

O cenário da pandemia e o confinamento produziram alterações profundas em nossas condições de vida e no modo como nos relacionamos (Medrado et al., 2021). A crise sanitária aliada ao home office provocou impactos nas relações com os familiares, seja pelo intenso compartilhamento da casa com filhos/as e cônjuge, seja pela justaposição de tarefas laborais e domésticas (Borges, 2022; Castro & Chaguri, 2020; Nunes et al., 2022).

A quarta subcategoria, relativa à Relação família e trabalho na pandemia foi Emprego e finanças, deixa claro que algumas mulheres pensaram em parar de trabalhar durante o período pandêmico, mas ponderaram sobre as perdas associadas a essa decisão. Os homens, por sua vez, não cogitaram essa possibilidade.

Em alguns momentos pensei sim em parar. Mas como eu precisava muito da parte financeira, então eu não parei ... Fui tentando conciliar tudo. Mas pensei sim em largar, em deixar [o emprego]. (Irma, 29 anos, 1 filha)

Ninguém avaliou a possibilidade de parar de trabalhar. Não, porque não teria como, as contas não deixariam. (Márcio, 36 anos, 1 filho)

Esses achados reforçam que os estereótipos de gênero seguem produzindo efeitos concretos na organização do trabalho e da vida familiar (Ellemers, 2018). Estudos anteriores já indicavam que, em situações de crise, tende a recair sobre o cônjuge com menor poder financeiro (geralmente a mulher) a renúncia ou flexibilização do trabalho remunerado (Shockley et al., 2021). Além disso, as mulheres apresentam maior propensão a reduzir a carga horária de trabalho nesses períodos (Collins et al., 2021). Isso evidencia a persistente fragilidade dos direitos femininos e das condições de permanência das mulheres no mercado de trabalho, conforme problematizado por Beauvoir (1949). Embora as entrevistadas desta pesquisa não tenham deixado o emprego por ponderação de questões econômicas ou de possíveis prejuízos futuros à carreira, algumas mulheres cogitaram essa possibilidade, enquanto nenhum homem o fez.

Por fim, a subcategoria Saúde mental e física na pandemia aborda os efeitos da pandemia na saúde de pais e mães de crianças na primeira infância. Os depoimentos durante as entrevistas revelam diversos sentimentos e emoções vivenciados no período. Houve narrativas de estresse, cansaço físico e mental, fadiga, medo, frustração, além de relatos de depressão e ansiedade. Apenas um homem relatou estar cuidando melhor de sua saúde física: “Nunca consegui cuidar da minha saúde direito, mas quando eu comecei no home office direto, eu fui malhar, fui nadar e agora comecei a jogar bola” (Márcio, 36 anos, 1 filho). No entanto, apesar de perceber esse ganho, este entrevistado também se sentia frustrado com as vivências da crise pandêmica. Ele avalia que a esposa conseguiria gerir melhor as demandas da casa e da filha se fosse ela que estivesse em home office. Disse ele: “Quanto ao sentimento é frustração, você não consegue fazer tudo possível. Não tem como fazer tudo tão bem. Acredito que minha esposa seria bem melhor do que eu nesse aspecto”.

Outros/as entrevistados/as também apontam as consequências negativas do período pandêmico, com preponderância dos relatos sobre cansaço físico e mental, estresse e frustração. Renata, 41 anos, um filho relata “ Extremamente cansada fisicamente, tinha dores no corpo, de tão cansada. É um cansaço emocional também, muito desgastante. Um cansaço mental... uma frustração de não fazer nada direito”. Outros depoimentos dos pais e mães de filhos/as/enteados/as de até seis anos revelam as dificuldades enfrentadas nesse período.

Estou segurando um milhão de pratinhos e os pratinhos caem. Então, foi uma fase que afetou, eu acho que eu fiquei muito estressada. O meu pai faleceu e aí foi quando eu me vi muito doente, muito estressada, com todos os impactos que se imaginassem por dentro, muito destruída. (Cristina, 32 anos, 1 filho e 1 enteada)

Estressado, me estressou muito mesmo, porque me sobrecarregou demais. Cansado, me senti muito cansado. Fatigado, porque tudo acabava tomando muita energia. Uma coisa é fazer isso por um mês, dois, outra coisa, você ficar por meses fazendo isso. Foi horrível. (Lino, 40 anos, 2 filhos)

Os relatos confirmaram estudos sobre os impactos na saúde mental dos pais e mães em home office na pandemia. As demandas de trabalho em tempo integral e o desafio de conciliar isso com os cuidados da casa e das crianças somaram-se à falta de perspectiva do fim do isolamento, resultando em adoecimento mental (Giacomello et al., 2022; Zhang et al., 2020).

Todos os entrevistados foram afetados em algum momento do período pandêmico, mencionando desgaste familiar, exaustão laboral e dificuldades na regulação emocional e na convivência com os/as filhos/as. Esses resultados estão em consonância com achados de outros estudos no mesmo período (Dorna, 2021; Lemos et al., 2020; Losekann & Mourão, 2020), incluindo achados sobre o burnout parental (Wang et al., 2022). No entanto, embora pais e mães tenham relatado exaustão, estresse e ansiedade nesse período, os depoimentos delas foram mais carregados de emoções, seja no discurso verbal, seja no não verbal - com maior intensidade no tom das falas, nas expressões faciais e com momentos de choro nas entrevistas. Os homens entrevistados reconheceram maior sobrecarga das parceiras. No início da pandemia, Janaína Mendes (2020) já sinalizava para os diversos prejuízos para as mulheres, apontando que aquelas com filhos em idade escolar teriam um trabalho ainda maior .

Considerando as duas categorias e suas subcategorias, apresentamos uma síntese dos principais achados deste estudo (Tabela 2). Semelhanças e diferenças de gênero são apontadas nas categorias derivadas dos depoimentos dos pais e mães de crianças de até seis anos.

Tabela 2
Síntese dos achados do estudo em cada uma das categorias e subcategorias de análise

Considerações finais

O presente estudo teve como objetivo identificar e discutir as vivências do trabalho remoto para pais e mães que tiveram que trabalhar e assumir o cuidado dos filhos/as de até seis anos, enquanto seus parceiros ou parceiras permaneceram em trabalho presencial em tempo integral durante a pandemia. Apesar de haver muitas famílias em que ambos os responsáveis migraram para o trabalho remoto, o foco do presente estudo foi nas possíveis semelhanças e diferenças quando quem ficava em home office era a mãe ou o pai.

Nesses arranjos das atividades laborais e familiares em que apenas o pai ou a mãe atuou em home office, mães e pais foram afetados. Contudo, as entrevistas revelaram uma sobrecarga mais pronunciada sobre as mães, mesmo quando os pais permaneciam em casa e elas estavam no trabalho presencial. Mais uma vez, as mulheres assumiram a organização das tarefas domésticas e o cuidado dos familiares, muitas vezes preparando parte do trabalho doméstico antes de saírem para trabalhar. Isso evidencia que as desigualdades preexistentes relacionadas à sobrecarga doméstica e ao cuidado dos filhos foram exacerbadas durante a pandemia, corroborando com as teorias de estereótipos de gênero (Bem, 1974; Louro, 1999; Ellemers, 2018) e com os estudos sobre conflito trabalho-família (Aguiar & Bastos, 2013; Dorna, 2021).

Quanto ao conflito entre trabalho e família, mães e pais relataram aumento significativo das demandas de trabalho remunerado e não remunerado, bem como dificuldades na conciliação entre essas esferas. Para lidar com esse cenário, homens e mulheres recorreram a estratégias semelhantes, como acordar mais cedo ou estender a jornada para o período noturno, o que resultou em intensificação da carga de trabalho. No entanto, as entrevistas indicam diferenças de gênero nas estratégias predominantes de enfrentamento. As mulheres tenderam a buscar soluções que lhes permitissem gerenciar simultaneamente o trabalho profissional e o cuidado com as crianças, recorrendo a atividades que mantivessem os filhos ocupados enquanto realizavam suas tarefas. Entre os homens, observou-se com maior frequência a mobilização de redes femininas de apoio, como mães e sogras, sobretudo em situações que demandavam maior concentração no trabalho remunerado. Ademais, a possibilidade de interrupção ou abandono do trabalho remunerado para assumir o cuidado da casa e dos filhos não foi cogitada por nenhum dos homens entrevistados, enquanto algumas mulheres relataram ter considerado essa alternativa, ainda que a tenham descartado em função da necessidade de renda ou do receio de prejuízos à trajetória profissional.

As relações familiares entre cônjuges e filhos também foram afetadas, com aumento de conflitos decorrente da convivência constante e da sobreposição de responsabilidades. Pais e mães de crianças pequenas relataram um aumento na jornada de trabalho total, resultando em problemas de saúde, como cansaço físico e mental, estresse e até depressão, com uma clara desigualdade de gênero em todos esses aspectos.

Este estudo contribui para a compreensão das questões de gênero, especialmente no que diz respeito à divisão de trabalho remunerado e não remunerado entre pais e mães de crianças pequenas, um tema pouco abordado na literatura. Além disso, destaca-se por analisar situações em que um dos cônjuges estava em teletrabalho enquanto o outro trabalhava presencialmente, permitindo identificar as estratégias adotadas por homens e mulheres para equilibrar o cuidado dos filhos e o trabalho.

Uma contribuição adicional deste estudo é a necessidade de repensar o trabalho remoto, especialmente para pais e mães de crianças pequenas, considerando as diferentes situações familiares. Dado que as mulheres são mais afetadas em termos de saúde e carreira, é crucial considerar políticas públicas e estratégias de gestão organizacional que combatam essa desigualdade e a naturalização dos estereótipos de gênero.

No entanto, o estudo apresenta limitações. A amostra foi restrita devido à especificidade dos critérios de seleção, o que dificultou a inclusão de homens que cuidaram sozinhos de seus filhos/as durante o trabalho remoto. Além disso, a pesquisa se concentrou apenas em casais de classe média, devido à predominância do teletrabalho nesse grupo, o que limita a generalização dos resultados. Estudos futuros podem ampliar a amostra, incluindo casais homoafetivos, diferentes classes sociais e questões de raça/etnia, explorando diversos contextos familiares. Além disso, abordagens multimetodológicas podem oferecer uma compreensão mais abrangente das dinâmicas entre trabalho e família entre pais e mães de crianças pequenas na primeira infância.

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  • Financiamento
    Não se aplica
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Editado por

  • Editor científico
    Dra. Camilla Fernandes Marques

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Ago 2024
  • Revisado
    26 Dez 2025
  • Aceito
    28 Dez 2025
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