RESUMO
Este artigo apresenta o relato de uma experiência psicodramática online com cinco estudantes de Psicologia, explorando como o tema da criança ferida emergiu no coinconsciente grupal. O objetivo central foi investigar de que forma a vivência grupal, mediada por técnicas psicodramáticas, possibilita a ressignificação de traumas e o fortalecimento dos vínculos emocionais. A metodologia envolveu aquecimentos inespecíficos e específicos, dramatizações com esculturas simbólicas e recursos como a cadeira vazia e o duplo, adaptados ao ambiente virtual. Os resultados indicam que o psicodrama online contribuiu para a emergência de memórias dolorosas e sua ressignificação coletiva, evidenciando o potencial terapêutico e educativo da modalidade. Conclui-se que o psicodrama em formato remoto pode ser um espaço eficaz para acessar conteúdos emocionais profundos, desde que sustentado por princípios éticos e pela atenção ao coinconsciente grupal.
PALAVRAS-CHAVE
Psicodrama; Criança ferida; Coinconsciente grupal; Psicoterapia online; Vínculos emocionais
ABSTRACT
This article reports on an online psychodrama experience with five psychology students, exploring how the theme of the wounded child emerged in the group co-unconscious. The central objective was to investigate how the group experience, mediated by psychodramatic techniques, allows for the reframing of traumas and the strengthening of emotional bonds. The methodology involved non-specific and specific warm-ups, dramatizations with symbolic sculptures, and resources such as the empty chair and the double, adapted to the virtual environment. The results indicate that the online psychodrama contributed to the emergence of painful memories and their collective reframing, showing the therapeutic and educational potential of the modality. It is concluded that psychodrama in a remote format can be an effective space for accessing deep emotional content, as long as it is supported by ethical principles and attention to the group co-unconscious.
KEYWORDS
Psychodrama; Wounded child; Group co-unconscious; Online psychotherapy; Emotional bonds
RESUMEN
Este artículo presenta el relato de una experiencia psicodramática en línea con cinco estudiantes de psicología, explorando cómo el tema del niño herido emergió en el coinconsciente grupal. El objetivo central fue investigar de qué manera la vivencia grupal, mediada por técnicas psicodramáticas, posibilita la resignificación de traumas y el fortalecimiento de los vínculos emocionales. La metodología incluyó calentamientos inespecíficos y específicos, dramatizaciones con esculturas simbólicas y recursos como la silla vacía y el doble, adaptados al entorno virtual. Los resultados indican que el psicodrama en línea contribuyó a la emergencia de memorias dolorosas y su resignificación colectiva, evidenciando el potencial terapéutico y educativo de la modalidad. Se concluye que el psicodrama en formato remoto puede ser un espacio eficaz para acceder a contenidos emocionales profundos, siempre que esté sostenido por principios éticos y por la atención al coinconsciente grupal.
PALABRAS CLAVE
Psicodrama; Niño herido; Coinconsciente grupal; Psicoterapia en línea; Vínculos emocionales
INTRODUÇÃO
A metáfora da “criança ferida” serve como ponto de partida para este estudo. Trata-se de um conceito amplamente discutido na literatura psicológica, psicoterapêutica e psicodramática (Cukier, 1998), que remete às marcas emocionais resultantes de experiências traumáticas precoces, frequentemente associadas a sentimentos de abandono, rejeição, desamparo ou opressão. Essas feridas psíquicas, quando não elaboradas, persistem na vida adulta, influenciando vínculos, autoimagem e escolhas relacionais.
No contexto psicodramático, a “criança ferida” pode ser compreendida como uma figura interna cristalizada em papéis que guardam dor, vulnerabilidade e carência de cuidados, manifestando-se na dinâmica de grupo ao encontrar ressonância em outras histórias individuais (Khouri, 2024). A possibilidade de trazer à cena essa criança interna por meio da dramatização cria um campo fértil para a cura entendida, na perspectiva moreniana, como processo de ressignificação emocional e reorganização de papéis internos em direção à espontaneidade e criatividade.
Conforme Paixão e Silva (2024), todo ser humano necessita de atenção, segurança e apoio, e quando essas necessidades são supridas, há um favorecimento à estruturação do self; do contrário, anula-se o potencial de crescimento do ser. van der Kolk (2020) acrescenta que o corpo guarda essas feridas emocionais, acionando memórias implícitas e somáticas que se manifestam como sintomas contemporâneos. Para Silva (2023), é no corpo que residem as lembranças do nosso passado, em constante ligação com os sentimentos ativados nas relações.
É nesse enquadre teórico que se insere a experiência psicodramática relatada neste artigo, realizada em ambiente virtual com estudantes de Psicologia. Foram utilizadas técnicas adaptadas para o formato remoto, demonstrando que o psicodrama mantém sua eficácia mesmo em contextos mediados pela tecnologia. Alcocer (2023) argumenta que, no atendimento online, apesar da ausência da copresença física, é possível sustentar um enquadre tecnicamente estruturado e emocionalmente continente, favorecendo o vínculo para que a criança ferida inicie um processo de transformação psíquica. Ao acessar conteúdos inconscientes e mobilizar o coinconsciente grupal, essa modalidade mostrou-se capaz de promover mudanças de percepção, elaboração de memórias traumáticas e sentimentos de alívio, conexão e esperança.
A justificativa para esta pesquisa se organiza em três dimensões: a motivação individual de investigar e documentar a emergência da criança ferida na prática clínica e formativa em psicodrama, buscando ampliar a compreensão de seus efeitos terapêuticos; a contribuição científica de fortalecer a produção acadêmica sobre psicodrama online e coinconsciente grupal; e a relevância social de evidenciar como experiências coletivas psicodramáticas podem contribuir para a promoção da saúde mental em ambientes educacionais, favorecendo a elaboração de traumas e o fortalecimento de vínculos entre estudantes de Psicologia.
A partir dessas dimensões, o objetivo deste estudo é relatar e analisar como, em um processo psicodramático grupal online, emergiram as representações da criança ferida, e de que forma esses conteúdos foram compartilhados e ressignificados no coinconsciente grupal. Para Moreno (1974), o objetivo central da psicoterapia de grupo é promover saúde mental por meio do encontro e da conscientização de conteúdos inconscientes. Este artigo busca, portanto, demonstrar como a matriz grupal em ambiente remoto possibilitou o acesso a conteúdos traumáticos e a cocriação de novas respostas emocionais, evidenciando o potencial terapêutico do psicodrama online.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Crianças feridas na psicoterapia
É no lar que a criança encontra as condições para o seu desenvolvimento inicial; um espaço onde tende a receber incentivos ao desenvolvimento de sentidos, sensações, descobertas, e à potencialização de seus aprendizados para a vida (Castro & Alves, 2025).
Além disso, Cartaxo e Cartaxo (2025) e Brabo et al. (2025) ressaltam que a maneira como os tutores interferem na estrutura psicológica da criança é decisiva para a sua evolução intelectual e de habilidades. Nesse sentido, Gomes (2022) descreve a criança interior como depositária de experiências dolorosas – medo, desamparo, abandono – que se reativam na vida adulta, ressurgindo nos dramas adultos e influenciando vínculos e escolhas (Cukier, 1998). Para a autora, o indivíduo desenvolverá o amor e o respeito por si mesmo a partir do momento em que se sentir reconhecido e valorizado, buscando inconscientemente reparar danos da infância – base do trabalho com a criança ferida. No eixo do trauma, o corpo “guarda as marcas” em memórias implícitas e sinais somáticos, não sendo o evento determinante por si só, mas a maneira como a experiência foi registrada neurobiologicamente (van der Kolk, 2020).
Esse conjunto de compreensões teóricas encontra no psicodrama um campo privilegiado de intervenção. Khouri (2022) destaca que o psicodrama interno, ao integrar somático e emocional, acessa memórias subcorticais e fortalece recursos internos, oferecendo maior estabilidade emocional. Ogden (2023) reforça a importância da ancoragem somática, pois muitas memórias infantis estão codificadas no corpo. Ao utilizar o psicodrama para vivenciar traumas, o processo torna-se mais leve e seguro.
Ressignificação emocional por meio da ação psicodramática
À luz do tópico anterior sobre crianças feridas, compreender o trauma exige ir além do evento em si e considerar como o sistema nervoso registra, mantém e atualiza a experiência ao longo do tempo, frequentemente de modo atemporal, subcortical e somático (van der Kolk, 2020). Essa compreensão é fundamental para orientar intervenções que respeitem o ritmo e a capacidade de processamento do participante, evitando a retraumatização e favorecendo a integração progressiva da experiência.
A partir dessa base, compreende-se que as intervenções de ação requerem um enquadre psicoeducativo que favoreça o engajamento das funções pré-frontais, possibilitando maior organização cognitivo-afetiva da experiência. Esse manejo contribui para a redução de sentimentos de culpa, bem como para a modulação de estados de hiperativação, hipoativação autonômica e respostas dissociativas, ampliando a capacidade de autorregulação do participante.
No contexto psicodramático, a cena atua como uma ferramenta essencial para sobrepor ao trauma novas vivências de proteção e autonomia. Em vez de suprimir o passado doloroso, o método permite que o indivíduo o reorganize no presente, utilizando o “aqui-e-agora” para transformar a dor em uma memória ressignificada (van der Kolk, 2020). Técnicas como o duplo, o solilóquio, a inversão de papéis e a cadeira vazia permitem o acesso a conteúdos implícitos e a reparação de vínculos internos, desde que o setting e a direção sustentem condições adequadas de segurança e gradação emocional.
Essa leitura neurobiológica articula-se diretamente às manifestações somáticas e afetivas associadas à criança ferida, frequentemente relacionadas a estados persistentes de hiperativação, hipoativação, anestesia afetiva e vergonha internalizada (van der Kolk, 2020). Tais manifestações evidenciam a necessidade de intervenções que integrem corpo e emoção, considerando que a reorganização do self traumatizado passa necessariamente pelo reconhecimento e pela elaboração dessas camadas somáticas e afetivas.
A titulação1 em cena – compreendida como o manejo graduado da ativação por meio de janelas de aproximação e afastamento, ancoragem sensório-motora e linguagem que valida e organiza a experiência – sustenta a atualização emocional segura e a reorganização progressiva de significados. Esse processo gradual permite que o participante permaneça dentro da janela de tolerância, ampliando sua capacidade de integrar conteúdos traumáticos sem ser novamente sobrecarregado por eles.
Espontaneidade e criatividade
Para Moreno (1974), a espontaneidade é a capacidade de dar respostas novas a situações antigas e respostas adequadas a situações novas, constituindo o motor da criatividade e da saúde. A ausência de espontaneidade manifesta-se como aprisionamento em conservas culturais – padrões cristalizados de ação e sentido – que empobrecem a experiência. No psicodrama, a prática do dramatizar dissolve conservas inadequadas e libera repertórios relacionais mais flexíveis e autênticos (Moreno, 1983).
A cena psicodramática convida o sujeito a ser autor e ator de sua biografia, num movimento intencional de investigação do “não-vivido” – aqueles papéis e experiências que permaneceram bloqueados pelas conservas culturais e pela ausência de condições espontâneas de desenvolvimento (Moreno, 1974). Esse movimento abre margem para escolhas criativas e benefícios relacionais, distinto do espontaneísmo caótico na medida em que pressupõe um setting estruturado, uma direção intencional e um enquadre ético que sustenta o processo de transformação.
Teoria dos Papéis e multiplicidade do self
A Teoria dos Papéis articula três estratos – psicossomáticos, sociais e psicodramáticos – que estruturam o self (Moreno, 1983). Eventos dolorosos podem cristalizar papéis defensivos e gerar fragmentos internos ou estados de ego dissociados, repercutindo na vida adulta, na medida em que o sistema nervoso tende a fixar respostas adaptativas ao trauma como padrões rígidos de funcionamento (Moreno, 1983; van der Kolk, 2020).
No trabalho clínico, a externalização de papéis em cena psicodramática – com objetos intermediários, bonecos, cenas imaginadas e inversões de papéis – permite observá-los, diferenciá-los e reorganizá-los. Modelos contemporâneos, como a Terapia do Sistema Familiar Interno (IFS) (Schwartz, 2004), convergem ao diferenciar partes protetoras (p. ex., gestoras e bombeiros) e partes exiladas, isto é, subpersonalidades que assumem funções específicas de proteção ou de encapsulamento do afeto traumático; no psicodrama, o diretor facilita o diálogo e a coconsciência, integrando papéis e partes em conflito.
Adicionalmente, a externalização da “criança ferida” em técnicas de ação favorece uma relação de compaixão de si e reordena dinâmicas internas (Khouri, 2024). Para Souza (2019), acolher a própria criança ferida com deferência permite ao adulto retomar o controle da sua vida, agindo por propósito e não mais impulsionado por traumas antigos.
Criança ferida: fundamentos clínicos e simbólicos
Segundo Rozeira et al. (2025), o conceito de “criança ferida” refere-se a feridas emocionais invisíveis originadas de dores infantis negligenciadas. Esse fardo emocional distorce a autoimagem do indivíduo, gerando sentimentos de culpa e menos-valia com repercussões psicossomáticas e existenciais. Cukier (1998) indica que a percepção de ser amado e respeitado funda o amor-próprio; sua ausência cristaliza papéis defensivos que reaparecem no drama adulto.
No psicodrama interno, o encontro entre “adulto saudável” e “criança ferida” – com titulação de afeto e foco somático – sustenta a reorganização de papéis e integração somatoemocional (Khouri, 2022). van der Kolk (2020) ressalta que a reorganização de experiências traumáticas exige intervenções que acessem simultaneamente o corpo e a memória implícita, permitindo que novas respostas emocionais sejam registradas e integradas ao self de forma progressiva e segura.
Coinconsciente grupal, tele e matriz de cura
Moreno (1974, 1983) descreve o coinconsciente como a interligação dos inconscientes individuais, matriz psíquica compartilhada na qual histórias singulares ressoam coletivamente, conforme sintetiza o próprio autor: “Precisamos construir uma hipótese que postule um ‘inconsciente comum’. Essa hipótese deve tornar compreensível que existam estados inconscientes que não se originam de um só psiquismo, mas de vários, ligados mutuamente de forma concreta” (Moreno, 1974, p. 75).
A psicoterapia de grupo é espaço de tratamento em que as forças do grupo – e não apenas o terapeuta – são determinantes para a cura (Moreno, 1974); o método é de interação, e a eficácia terapêutica emerge do poder de cada membro (Ramalho, 2023).
A tele – vínculo bidirecional – coesiona o grupo e preserva a consonância grupal (Moreno, 1974), sustentando o surgimento do tema protagônico. Na perspectiva do autor, os conteúdos que emergem na cena psicodramática não se restringem à dimensão intrapsíquica, mas pertencem a uma matriz relacional compartilhada, na qual os vínculos e as relações télicas organizam formas profundas de comunicação e percepção entre os participantes. Na dramatização, tais conteúdos tornam-se visíveis na ação, permitindo que experiências traumáticas sejam expressas e ressignificadas no campo grupal.
Moreno diferencia coinconsciente (aspirações e irrealidades inconscientes partilhadas) e coconsciente (sentidos e pensamentos conscientemente partilhados); ambos são fenômenos grupais (Ramalho, 2023). Os dramas coinconscientes podem aparecer como recortes de um membro ou como o resultado do grupo que, não expresso, dificulta a elaboração (Knobel, 2020).
Na interpsique, estados coconscientes e coinconscientes são representáveis apenas pela colaboração entre membros, o que reforça a centralidade da dramatização como dispositivo privilegiado de acesso e elaboração desses fenômenos grupais (Moreno, 1983).
Esteves et al. (2023) citam que o contexto grupal propicia a expressão de sentimentos e serve como uma ponte para novos comportamentos. Por isso, o diretor sustenta um espaço seguro de acolhimento para que conflitos possam ser enunciados e elaborados (Knobel, 2020). No presente estudo, empregamos o termo “catarse” no sentido de catarse de integração (Almeida, 2006).
Psicodrama online: especificidades e dispositivos
Desde 2020, com a pandemia de covid-19, a prática psicoterapêutica precisou ser adaptada ao ambiente remoto, inaugurando um campo de desafios e possibilidades (Santos et al., 2024a; Santos et al., 2024b). Ramalho (2023) entende ser esse o grande desafio na abordagem psicodramática, uma vez que se trata de um método de ação com técnicas voltadas para a corporeidade e a interação relacional. O psicodrama, sendo essencialmente uma metodologia de encontro, precisou reinventar modos de sustentar presença, espontaneidade e vínculo no espaço virtual (Ramalho, 2023).
Uma das alternativas é convocar corpo, mente e ação mesmo através da tela, pedindo que o cliente explore seu espaço físico com atividades como o caminhar ou gestos corporais. O recurso da câmera, que exibe simultaneamente terapeuta e cliente, cria novas condições: a tela funciona como um espelho que, se por um lado permite ver o outro, por outro pode desviar a espontaneidade e a criatividade para a própria imagem (Cukier, 2022). Belém (2021) ressalta a importância de priorizar a integração do grupo, uma vez que o ambiente virtual restringe a visualização do corpo, focando primordialmente no rosto. De acordo com Amaral (2024), a mobilização corporal é primordial no cenário terapêutico para o surgimento de novas percepções e mudanças no ser.
Nesse contexto, o terapeuta precisa ampliar sua atenção para as sutilezas da fala, da escuta e da prosódia, já que a percepção integral do corpo não está disponível. Fleury (2020) ressalta que o bom desempenho no ambiente virtual depende de o terapeuta buscar conhecimento específico sobre esse novo cenário. A formação continuada e o treino em recursos digitais tornam-se, portanto, condições técnicas indispensáveis.
Para Vitali e Castro (2023) e Tarashoeva (2022), o psicodrama online mantém sua eficácia terapêutica quando as técnicas são devidamente ajustadas ao contexto digital. O uso de objetos intermediários (bonecos, almofadas, papéis, objetos pessoais) favorece a dramatização remota, desde que o diretor sustente a estrutura ritual do processo (Cukier, 2022). Ramalho (2023) e Nery (2021) sublinham que cabe ao terapeuta manter a fase do aquecimento e, muitas vezes, assumir mais de um papel – inclusive o de ego auxiliar – de modo a sustentar a cena.
Outro aspecto fundamental é que o espaço virtual é sempre composto por dois ambientes distintos – o do paciente e o do terapeuta. Essa separação espacial exige atenção redobrada à segurança, ao sigilo e à intimidade, que podem ser ameaçados em contextos domésticos (Cukier, 2022). O diretor deve orientar os participantes sobre como organizar seu espaço físico, garantir privacidade e minimizar interferências externas (Cukier, 2022). Assim, o psicodrama online se configura como um território de continuidade e inovação: ao mesmo tempo que preserva os fundamentos da ação dramática, demanda do terapeuta habilidades técnicas, criatividade no manejo dos recursos e sensibilidade para sustentar tele, vínculo e coinconsciente no ciberespaço.
Embora Cardoso et al. (2023) assinalem a existência de questionamentos quanto à eficácia do trabalho terapêutico online, frequentemente associados à valorização da modalidade presencial como referência predominante, a psicoterapia online tem sido reconhecida como uma modalidade que contribui significativamente para a ampliação do acesso ao suporte psicológico, na medida em que elimina as barreiras geográficas tradicionalmente associadas ao atendimento presencial, permitindo que indivíduos em regiões remotas ou com limitações de mobilidade possam usufruir de acompanhamento terapêutico qualificado.
Ademais, essa modalidade proporciona a redução de custos operacionais, tanto para profissionais quanto para pacientes, uma vez que dispensa despesas relacionadas à manutenção de espaços físicos, bem como os gastos com transporte e deslocamento inerentes ao formato convencional de atendimento (Santos et al., 2024a; Santos et al., 2024b). Diante desse cenário, Barros (2025) afirma ser essencial buscar uma transformação tecnológica contínua que expanda o psicodrama, transpondo limitações regionais e assegurando a autenticidade da abordagem em novos contextos.
METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, desenvolvida em contexto educacional no âmbito do programa de estágio de nível II para certificação em psicodramatista didata. A experiência foi registrada por meio de anotações de campo do diretor e falas das participantes, e a análise seguiu enfoque descritivo-interpretativo, enfatizando como o conceito da criança ferida emergiu, foi dramatizado e elaborado coletivamente no coinconsciente grupal.
Participantes
O grupo terapêutico foi composto por 5 mulheres, com idades entre 30 e 45 anos, todas estudantes da mesma turma do curso de Psicologia, que se inscreveram voluntariamente após convite divulgado em grupos de rede social.
A chamada pública ofertou 8 vagas, tendo participado da vivência relatada 5 estudantes (N = 5), conforme disponibilidade e critérios de elegibilidade. Os critérios de inclusão compreenderam: ser estudante regularmente matriculada no curso de Psicologia da universidade participante, disponibilidade para participação síncrona online e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídas participantes com quadro psiquiátrico agudo descompensado (p. ex., episódio psicótico atual ou risco suicida ativo), uso de substâncias em padrão que comprometesse a participação, indicação de necessidade de psicoterapia individual intensiva ou terapia de crise no momento da triagem, ou ausência de condições mínimas de privacidade para participação online.
A proposta inicial previa até cinco encontros, mas para fins deste estudo foi considerada a primeira sessão, na qual emergiu no coinconsciente grupal o tema da “criança ferida”. As sessões ocorreram no formato online, via plataforma Microsoft Teams, semanalmente e com duração de duas horas, tendo as identidades das participantes preservadas mediante o uso de pseudônimos (“Participante A–E”).
Do ponto de vista ético, a atividade teve caráter formativo e psicoeducativo, não configurando pesquisa clínica com pacientes. Assim, não houve submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, de acordo com as Resoluções CNS 466 (2012) e 510 (2016), pois se enquadra na exceção prevista para atividades de ensino. Ainda assim, foram assegurados o sigilo e a preservação da identidade das participantes, o uso de nomes fictícios nos relatos e transcrições, a explicitação da natureza da atividade e a obtenção de consentimento livre e informado, bem como o respeito aos limites da atividade psicoeducativa, evitando a indução a processos terapêuticos não acordados.
Estrutura da sessão
A vivência seguiu o modelo clássico do psicodrama (aquecimento – dramatização – compartilhamento), adaptado ao formato remoto, conforme descrito a seguir.
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Aquecimento inespecífico. Conduzido por meio do jogo dramático “Quem é você?”, adaptado para o ambiente online. As participantes receberam a consigna “Fechem as câmeras! Só abram quando chamadas ou quando tiverem identificação com a característica citada pela colega”. E o jogo fluiu com relatos de características pessoais, revelando semelhanças entre as participantes.
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Aquecimento específico. Conduzido por meio de reflexão guiada pela canção “Meu Erro” (Paralamas do Sucesso), com a consigna: “Caminhem ao som da música dentro do ambiente em que estão”. Após a música, as participantes receberam nova consigna: “Escolham um canto para pensar quem foi você no passado, considerando vida familiar, afetivo-emocional, social e profissional”. A partir dessa proposta, construíram esculturas simbólicas e imagens com o corpo, representando memórias de infância.
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Dramatização. As participantes foram convidadas a retornar aos seus lugares e, com as mãos posicionadas na escultura construída anteriormente, dizer uma frase que representasse quem foram: “Voltem aos seus lugares, coloquem nas mãos uma escultura e digam uma frase que represente quem vocês foram”.
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Compartilhamento. O grupo encerrou a sessão representando coletivamente a imagem de um abraço.
RESULTADOS
A sessão online possibilitou a emergência de conteúdos significativos relacionados ao tema da criança ferida, confirmando o potencial do psicodrama no formato virtual para favorecer a externalização de papéis internos e a elaboração coletiva. A análise das anotações de campo revelou três eixos principais: (a) evocação de memórias infantis e sentimentos de vulnerabilidade; (b) ressonância desses conteúdos no coinconsciente grupal; (c) movimentos de integração e acolhimento vivenciados no compartilhamento.
Evocação de memórias infantis
Durante o aquecimento específico, as participantes responderam à pergunta disparadora “Quem foi você no passado?” e, em seguida, realizaram a caminhada ao som da música “Meu Erro”, escolhendo um canto do espaço para refletir sobre o passado. Essa proposta levou à criação de esculturas corporais simbólicas com as próprias mãos, cada uma acompanhada de uma frase representativa e de um sentimento associado:
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Participante A: mãos juntas – “Orando para tomar decisões, sem ter com quem contar na Terra” (sentimento: desamparo).
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Participante B: mãos fechadas – “Tentando ser silenciada por ser uma criança do sexo feminino” (sentimento: opressão paterna e fraterna).
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Participante C: mãos como base – “Eu tinha que ajudar a minha mãe nas decisões” (sentimento: confusão, mistura de amor e responsabilidade).
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Participante D: mãos fechadas – “Me vi apreensiva” (sentimento: medo).
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Participante E: mãos erguidas – “A cuidadora do pai que teve o corpo queimado pela madrasta e cuidando das feridas do primo” (sentimento: sofrimento, dificuldade).
Impacto coletivo. As reações entre as participantes evidenciaram forte ressonância grupal:
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A emocionou-se com a fala de E, sentindo-se “guerreira e cansada”.
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B identificou-se com C, sentindo falta de proteção.
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C conectou-se com B, sentindo fragilidade.
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D foi tocada por E, sentindo tristeza.
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E ecoou em C, também sentindo falta de proteção.
Essas falas iniciais criaram um campo de vulnerabilidade coletiva. O grupo construiu uma imagem conjunta – mãos cruzadas, denominada “Histórias que se cruzam” – que simbolizou a interligação de suas trajetórias, momento em que emergiu o reconhecimento de que “as crianças feridas de cada uma” estavam presentes na cena grupal.
Emergência da criança ferida no jogo dramático
O ápice da dramatização ocorreu quando a Participante E relatou em lágrimas: “Essa criança me acompanha, é sempre difícil olhar para ela”.
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Diretor: “Vocês também trouxeram as crianças feridas de vocês?”.
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Grupo: “Sim!”.
O diretor interveio com a técnica da cadeira vazia, conduzindo a participante a dialogar com sua criança:
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Participante E (adulto): “Foi difícil essa fase, você não tinha idade para acompanhar o pai no hospital e nem para limpar as feridas do primo”.
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Participante E (como criança): “Foi difícil, me sentia cansada”.
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Participante E (de volta ao adulto): “Mas a gente deu conta e agora estamos bem”.
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O grupo, atuando como coro de apoio, dirigiu frases à criança representada:
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D: “Você é especial”.
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A: “Você é resiliente”.
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B: “Você não está sozinha”.
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C: “Você é forte”.
Ao final dessa sequência, a Participante E expressou alívio, num movimento que confirmou o papel do coinconsciente grupal: vivências singulares ressoaram nas demais participantes, que reconheceram fragmentos de suas próprias histórias na cena dramatizada.
Compartilhamento e integração grupal
Na etapa final, os relatos das participantes evidenciaram a experiência de pertencimento e empatia:
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B: “Senti não estar mais sozinha”.
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D: “Alegria de ter apoio”.
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C: “Esperança”.
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A: “Quando vi minha colega dialogar com sua criança, senti como se falasse comigo também”.
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E: “Foi um alívio olhar para a minha criança dessa forma, estou feliz”.
O grupo representou a imagem de um abraço coletivo, gesto simbólico de acolhimento das crianças feridas evocadas na sessão. No compartilhamento do encontro como um todo, as participantes destacaram uma sensação ampliada de conexão e empatia mútua:
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B: “Me senti conectada e despertou mais empatia para com cada uma. Vou olhar diferente para elas quando entrarem na sala”.
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D: “Conectada e acolhida”.
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C: “Um misto de resiliência e acreditar em uma nova chance”.
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A: “Uma conexão”.
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E: “Foi um alívio olhar para a minha criança dessa forma”.
Síntese interpretativa
De forma geral, a sessão possibilitou a externalização da criança ferida como papel interno vulnerável; a criação de novas narrativas de cuidado e reconhecimento mediadas pelas técnicas psicodramáticas; a confirmação do coinconsciente grupal como matriz de ressonância em que dores individuais foram elaboradas de maneira coletiva; e a vivência de um campo de acolhimento simbólico, sintetizado no gesto grupal de abraço. Esses resultados mostram que o psicodrama online favoreceu não apenas a expressão individual, mas também a experiência de pertencimento e coesão grupal, permitindo que a dor pessoal fosse reconhecida como parte de uma experiência humana comum.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos nesta vivência confirmam a relevância dos conceitos psicodramáticos para compreender a emergência da criança ferida no contexto grupal online. A sessão evidenciou que memórias infantis puderam ser evocadas, dramatizadas e integradas, sustentadas pelo coinconsciente grupal e pela tele, mesmo em ambiente remoto.
Criança ferida como papel interno
As cenas descritas mostram que a criança ferida pode ser acessada e externalizada no espaço psicodramático. Os relatos da Participante A (“Orando para tomar decisões, sem ter com quem contar”), da Participante B (“Tentando ser silenciada por ser uma criança do sexo feminino”) e especialmente da Participante E (“A cuidadora do pai queimado pela madrasta e do primo ferido”) exemplificam como experiências infantis precoces foram simbolizadas corporalmente e traduzidas em frases carregadas de afeto.
Tais expressões dialogam com a literatura que aponta o impacto das falhas ambientais e dos traumas precoces na formação de papéis defensivos e fragmentos do self (Cukier, 1998). Quando colocadas em cena, essas partes internas cristalizadas tornam-se objeto de diálogo e cuidado, favorecendo a integração com o “adulto saudável” (Khouri, 2022).
A utilização da cadeira vazia com a Participante E, que dialogou com sua criança cansada e, depois, a consolou como adulta, evidencia esse processo de integração. O alívio relatado ao final confirma o potencial de ressignificação quando o encontro compassivo ocorre em cena.
Coinconsciente grupal e ressonância
O fenômeno do coinconsciente grupal foi amplamente confirmado. As frases de apoio dirigidas à criança da Participante E (“Você é especial”, “Você é resiliente”, “Você não está sozinha”, “Você é forte”) ressoaram em todas as integrantes, que reconheceram fragmentos de si mesmas na cena dramatizada.
Conforme Moreno (1974, 1983), o coinconsciente emerge da interligação de inconscientes individuais, configurando uma matriz psíquica compartilhada. Nesse caso, as memórias evocadas de opressão, medo, desamparo e sobrecarga foram reconhecidas como experiências comuns. A imagem coletiva das “mãos cruzadas”, criada pelo grupo e nomeada “Histórias que se cruzam”, simbolizou essa trama compartilhada.
Esse achado reforça que, mesmo em ambiente online, o grupo constitui uma matriz de ressonância que amplia a potência terapêutica. Como afirmou uma participante no compartilhamento: “Quando vi minha colega dialogar com sua criança, senti como se falasse comigo também”. Esse depoimento é exemplar do funcionamento do coinconsciente, no qual a dor de um reverbera e é elaborada por todos.
Espontaneidade, tele e catarse de integração
A sessão também evidenciou a ativação da espontaneidade, entendida como capacidade de criar respostas novas a situações antigas (Moreno, 1974). O uso de recursos simples – uma escultura com as mãos, uma almofada representando a criança, uma frase dirigida ao passado – revelou a potência criativa das participantes diante de suas dores.
A tele manifestou-se nitidamente na empatia e no acolhimento recíproco. O relato de que a experiência foi vivida como “um abraço coletivo” mostra como a presença recíproca atravessou a tela e sustentou a segurança para que conteúdos dolorosos emergissem (Moreno, 1974).
A dramatização possibilitou não apenas descargas emocionais, mas o que Almeida (2006) define como o núcleo da eficácia psicodramática: a catarse de integração. Este mecanismo, fundamental para a ação terapêutica, permitiu que o reconhecimento mútuo das dores individuais reorganizasse afetos e significados, transmutando o sofrimento solitário em uma experiência coletiva de acolhimento. Segundo Almeida (2006, p. 184):
Catarse de integração significa a mobilização de afetos e a união de todos os potenciais, físicos e psíquicos do indivíduo, para a compreensão fenomenológica do corte psicológico-existencial que a ele é dado num processo de co-existência, co-experiência e co-ação, com os demais participantes do grupo.
Psicodrama online e suas especificidades
Os achados também dialogam com a literatura sobre psicodrama online. Apesar da ausência de presença física, a cena psicodramática foi transposta para o ambiente virtual (Cukier, 2022; Fleury, 2020).
O uso de música, esculturas corporais e objetos simples (almofada, cadeira) mostrou-se eficaz para manter a ação dramática. O recurso da câmera funcionou como espelho e exigiu manejo atento do diretor, já que poderia tanto favorecer a auto-observação quanto distrair da espontaneidade. A consigna “caminhem ao som da música em seu espaço’ ilustra como o corpo foi convocado mesmo no formato remoto, resgatando a corporeidade essencial ao método. O coinconsciente mostrou-se igualmente ativo no online, confirmando que os fundamentos morenianos permanecem vivos desde que o manejo seja adaptado. Isso inclui atenção à prosódia, expressões faciais e movimentos corporais parciais, que substituem a percepção total do corpo presente em sessões presenciais (Ramalho, 2023).
CONCLUSÃO
A presente pesquisa demonstrou que a prática psicodramática online pode favorecer a emergência e a elaboração da criança ferida em contexto grupal, possibilitando sua ressignificação por meio do coinconsciente grupal. A vivência revelou que a mediação tecnológica não constitui impedimento para o acesso a conteúdos profundos, desde que a condução respeite os fundamentos morenianos e as especificidades da modalidade.
O estudo destacou que a primeira sessão do grupo de estágio, conduzida com cinco estudantes de Psicologia, possibilitou a evocação de memórias infantis em forma de esculturas corporais, frases simbólicas e sentimentos compartilhados.
A imagem coletiva “Histórias que se cruzam”, seguida da dramatização com a técnica da cadeira vazia, marcou o momento em que o tema da criança ferida emergiu claramente.
O gesto grupal de abraço e os relatos finais de conexão e empatia confirmaram que a dor pessoal foi transformada em experiência coletiva de acolhimento. Segundo Guimarães e Nery (2021), a revivência de experiências de sofrimento, quando mediada pelo psicodrama, favorece a ampliação da espontaneidade-criatividade. Assim, o psicodrama mostra-se eficaz tanto para reduzir o sofrimento quanto para promover bem-estar (Gramkow & Iunes, 2025).
Os objetivos deste estudo – relatar e analisar a emergência da criança ferida em uma experiência psicodramática online com estudantes de Psicologia – foram alcançados. O material evidenciou como papéis internos cristalizados puderam ser externalizados, reconhecidos e integrados com o apoio do grupo, configurando um processo de benefícios relacionais sustentado pela tele e pela catarse de integração.
Do ponto de vista ético e técnico, a experiência reforça a importância de delimitar o caráter educacional das vivências com estudantes, garantindo consentimento informado, confidencialidade e clareza quanto aos limites da proposta. O manejo adequado da intensidade emocional – por meio de técnicas de titulação e de recursos adaptados ao online – foi decisivo para evitar riscos de retraumatização.
Por fim, reconhece-se que o psicodrama online não substitui integralmente a experiência presencial, mas amplia as possibilidades de intervenção, mantendo sua potência transformadora quando conduzido com rigor metodológico, presença télica e criatividade. Os achados sugerem que, ao ser reconhecida e acolhida em um grupo, a criança ferida deixa de ser apenas uma dor solitária e passa a constituir uma experiência coletiva de cura e aprendizado, confirmando o potencial terapêutico e formativo do psicodrama em diferentes contextos.
Nesse sentido, a consolidação dessa prática no ambiente virtual demanda o contínuo aprofundamento científico. Comin et al. (2023) e Costa e Santeiro (2025) ressaltam a necessidade da continuidade das pesquisas para verificar a segurança no atendimento psicoterapêutico online, seja individual ou em grupo. Essa produção constante de conhecimento busca fundamentar a prática profissional com orientações fidedignas, éticas e confiáveis (Cruz & Labiak, 2021).
AGRADECIMENTOS
Não se aplica.
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DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
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FINANCIAMENTO
Não se aplica.
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Titulação: princípio de manejo graduado da ativação afetivo-somática (aproximação/afastamento), visando ampliar a janela de tolerância e evitar retraumatização, por meio de âncoras sensório-motoras, psicoeducação e validação da experiência.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.
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Editora de seção:
Camila Canani Nunes https://orcid.org/0009-0009-8213-3408
