Open-access Arte, geografia e formação docente em conexão: a produção do espaço na obra de Yana Tamayo

Arte, geografía y formación docente en conexión: la producción del espacio en la obra de Yana Tamayo

Resumo

Este artigo investiga as interseções entre arte, geografia e formação docente a partir da análise das obras da artista contemporânea Yana Tamayo. Tomando como base uma perspectiva interdisciplinar, a pesquisa propõe reflexões sobre a produção do espaço geográfico por meio da experiência estética e da linguagem visual. A problemática se estrutura em torno de três eixos principais: de que modo as obras de Tamayo instigam o diálogo entre arte e geografia; como desenvolvem aspectos relacionados à espacialidade e à sensibilidade; e em que medida podem contribuir para a formação de professores. O estudo se insere no campo da pesquisa qualitativa, com ênfase na análise documental e cultural de produções artísticas, destacando a potência da leitura de imagens como instrumento formativo. A partir de obras como Primeiras Estórias – Cartografia Sentimental e Primeiras Estórias – Ficções, a artista mobiliza toponímias, arquivos, fragmentos urbanos e memórias afetivas que ressignificam os modos de habitar e representar o espaço. Os resultados evidenciam que a articulação entre arte e geografia potencializa práticas pedagógicas mais críticas e sensíveis, capazes de ampliar a compreensão do conceito de lugar e fomentar a formação estética no contexto educacional. Conclui-se que a interdisciplinaridade, mais do que uma justaposição de saberes, configura-se como postura epistêmica e pedagógica necessária para a constituição de docentes atentos às complexidades do mundo contemporâneo.

Palavras-chave
Arte contemporânea; Geografia; Lugar; Interdisciplinaridade; Formação docente; Yana Tamayo

Abstract

This article investigates the intersections between art, geography, and teacher education through an analysis of the works of contemporary artist Yana Tamayo. Drawing on an interdisciplinary perspective, the study proposes reflections on the production of geographic space through aesthetic experience and visual language. The research problem is structured around three main axes: how Tamayo’s works foster dialogue between art and geography; how they develop aspects related to spatiality and sensibility; and to what extent they can contribute to teacher education. The study is situated within the field of qualitative research, with an emphasis on the documentary and cultural analysis of artistic productions, highlighting the potential of image reading as a formative tool. Through works such as Primeiras Estórias – Cartografia Sentimental and Primeiras Estórias – Ficções, the artist mobilizes toponyms, archives, urban fragments, and affective memories that resignify ways of inhabiting and representing space. The results show that the articulation between art and geography enhances more critical and sensitive pedagogical practices, capable of broadening the understanding of the concept of place and fostering aesthetic education in educational contexts. It is concluded that interdisciplinarity, rather than a mere juxtaposition of fields of knowledge, constitutes an epistemic and pedagogical stance that is essential for the development of teachers attentive to the complexities of the contemporary world.

Keywords
Contemporary Art; Geography; Place; Interdisciplinarity; Teacher Education; Yana Tamayo

Resumen

Este artículo investiga las intersecciones entre arte, geografía y formación docente a partir del análisis de las obras de la artista contemporánea Yana Tamayo. Basada en una perspectiva interdisciplinaria, la investigación propone reflexiones sobre la producción del espacio geográfico a través de la experiencia estética y del lenguaje visual. La problemática se estructura en torno a tres ejes principales: de qué manera las obras de Tamayo promueven el diálogo entre arte y geografía; cómo desarrollan aspectos relacionados con la espacialidad y la sensibilidad; y en qué medida pueden contribuir a la formación de profesores. El estudio se inscribe en el campo de la investigación cualitativa, con énfasis en el análisis documental y cultural de producciones artísticas, destacando el potencial de la lectura de imágenes como herramienta formativa. A partir de obras como Primeiras Estórias – Cartografia Sentimental y Primeiras Estórias – Ficções, la artista moviliza topónimos, archivos, fragmentos urbanos y memorias afectivas que resignifican las formas de habitar y representar el espacio. Los resultados evidencian que la articulación entre arte y geografía potencia prácticas pedagógicas más críticas y sensibles, capaces de ampliar la comprensión del concepto de lugar y fomentar la formación estética en el contexto educativo. Se concluye que la interdisciplinariedad, más que una yuxtaposición de saberes, se configura como una postura epistémica y pedagógica necesaria para la formación de docentes atentos a las complejidades del mundo contemporáneo.

Palabras clave
Arte contemporáneo; Geografía; Lugar; Interdisciplinariedad; Formación docente; Yana Tamayo

Introdução

Pensar a geografia com e pela arte constitui um desafio instigante, que demanda uma abertura à interdisciplinaridade e uma disposição para enfrentar incertezas, fronteiras e margens que caracterizam ambos os campos de saber. Essa abordagem implica reconhecer as potencialidades do diálogo entre diferentes perspectivas, explorando aspectos conceituais que, por vezes, escapam às delimitações tradicionais.

Rajchman (2011, p. 97) ressalta a importância de observar como os artistas pensam nas artes e com as artes: “as novas ideias que lhes ocorrem, incluindo ‘ideias de arte’ ou ideias a respeito de suas atividades, de seus próprios materiais ou instituições – e, depois, como essas ideias se enquadram em campos mais amplos”. Essa compreensão amplia horizontes, pois nos permite interpretar as práticas artísticas e inseri-las em discussões que transcendem as especificidades disciplinares.

Neste trabalho1, a escolha das obras de Yana Tamayo se revela especialmente fecunda, uma vez que suas criações nos convidam a refletir sobre a interdisciplinaridade e a formação docente. A partir desse movimento, foi possível construir a seguinte problemática de pesquisa: a) Como as obras artísticas de Yana Tamayo podem instigar a construção de um diálogo interdisciplinar entre arte e geografia? b) Como esses trabalhos artísticos desenvolvem aspectos relevantes em relação à dimensão estética e espacial? e c) De que maneira é possível pensar a experiência estética, a partir de obras artísticas específicas, como elemento formativo no processo de constituição docente?

Ao adentrarmos essa investigação, buscamos traçar caminhos para o desenvolvimento de uma formação docente mais aberta, interdisciplinar e sensível, que valorize as interfaces entre essas duas áreas do conhecimento. Assim, abordaremos neste texto o trabalho de Yana Tamayo Sotomayor, que investiga as mudanças arquitetônicas e construtivas que compõem e modelam o espaço urbano. Ao mesmo tempo, esboça a simbolização e a imaginação como fatores importantes na produção espacial. Realizar uma pesquisa de cunho interdisciplinar é um desafio. Segundo Fazenda (2015), os pesquisadores no contexto interdisciplinar, são transformados de maneira significativa, pois:

se reconhecerão cada vez mais capazes de pensar em sua prática, tomando consciência da importância e da necessidade de serem socializadores, construtores e produtores de conhecimento. A teoria e a prática vão ressignificando o seu trabalho por meio da pesquisa. Sem conclamar a neutralidade em suas ações, as suas formas de ver e de construir suas identidades pessoais e profissionais serão alteradas para sempre

(Fazenda, 2015, p. 27).

A perspectiva interdisciplinar entre arte e geografia pensada neste texto visa compreender e potencializar os processos criativos estéticos e estésicos como construção de conhecimento. Segundo Duarte Jr. (2010, p. 136), o conceito de estesia refere-se à "faculdade de sentir" ou "sensibilidade", abrangendo também a "percepção do belo". Derivado do grego aisthesis, assim como a palavra estética, diz respeito à capacidade humana de perceber e organizar estímulos sensoriais. No entanto, enquanto a estética se limita à experiência da beleza e às discussões sobre arte, a estesia amplia-se à sensibilidade geral, envolvendo a prontidão para captar os sinais emitidos pelo mundo e por nós mesmos.

No contexto educacional, essa forma de interação entre diferentes áreas do conhecimento possibilita a construção de um saber crítico-reflexivo pelo corpo docente, que se estende nas práticas pedagógicas aos discentes. A análise de produções visuais pode promover o desenvolvimento de uma leitura crítica, que possibilita aos professores e estudantes discutir a visualidade da obra, mas também abordar os fatores mais complexos que ela suscita, incluindo a potencialidade criativa gerada a partir dessa leitura.

Ao refletirmos sobre o processo de interdisciplinaridade, tendo como fio condutor a articulação entre a arte e a geografia, buscamos eleger conceitos e temáticas que dialoguem e se complementem. Essa escolha visa promover uma relação de saberes marcada pela conectividade, capaz de superar a fragmentação e o isolamento ainda tão frequentes no campo acadêmico e pedagógico em que essas áreas se movem.

Percurso metodológico

O estudo enquadra-se como uma pesquisa qualitativa, com ênfase na análise documental. Consiste em uma leitura cultural da produção artística de uma autora contemporânea, cuja obra aborda o entrelaçamento entre a arte e conceitos geográficos. Essa abordagem possibilita explorar os diálogos entre os dois campos, evidenciando as interfaces e tensões presentes nessa intersecção.

Como amplamente reconhecido, a análise documental oferece importantes subsídios para a compreensão de uma obra específica, ao mesmo tempo em que reflete dimensões mais amplas de um contexto social, revelando valores, contradições e processos de significação em curso (Weller e Pfaff, 2013). Nessa perspectiva, o estudo busca desvelar de que modo a produção artística dialoga com conceitos geográficos, inserindo-se em um cenário cultural mais amplo e evidenciando as múltiplas camadas de interpretação e significado que emergem desse cruzamento interdisciplinar.

Sobre a análise documental Certeau (1974, p. 30) nos ensina que:

Tudo começa com o gesto de selecionar, de reunir, e, dessa forma, transformar em “documentos” determinados objetos distribuídos de outra forma. Essa nova repartição cultural é o primeiro trabalho. Ela consiste em produzir tais documentos, pelo fato de recopiar, transcrever ou fotografar esses objetos, mudando, ao mesmo tempo, seu lugar e seu estatuto.

Portanto, os documentos são organizados pelo pesquisador, a quem cabe observá-los com atenção, paciência e imaginação, tendo em vista as múltiplas interferências que incidem sobre o objeto de estudo. Trata-se de um processo que demanda produção, um saber fazer/pensar, uma manipulação intencional que torne possível a análise. Nesse sentido, “um documento não pode ser lido de uma maneira ‘desligada’. Ao contrário, devemos abordá-lo de um modo engajado” (May, 2004, p. 108).

Nesses termos, pesquisamos as produções de artistas, mas nosso papel não se encerrou na interpretação delas. Não pretendemos identificar se esses objetos dizem “a verdade” ou o que dizem sobre “a verdade”, mas instaurar um processo mais dinâmico, sob a perspectiva de observar, organizar, distinguir e fazer relações, isso é, compor uma análise sobre as produções em estudo. Tal ação ocorre em um contexto social e cultural, a fim de refletir acerca das possibilidades proporcionadas pelas obras para a construção de um pensamento interdisciplinar.

Para que as análises das imagens artísticas selecionadas fossem mais expressivas, levamos em conta o contexto e as técnicas da produção plástica, visual e discursiva. Nesse sentido, não nos prendemos a um formalismo, mas procuramos estabelecer uma análise também criadora, em conformidade a estas questões: qual é a poética apresentada pela artista? Qual linguagem visual ela utiliza na construção plástica do trabalho? Qual o relacionamento do trabalho plástico com os fatos concebidos externos a ele? Qual a potência da produção para provocar o desassossego sobre os temas e problemas constantes na obra? O que é possível pensar sobre a produção artística e a partir dela?

Para Oliveira e Hernández (2015), a compreensão crítica da cultura visual, possui um caráter caleidoscópico, do qual podemos nos aproximar, por exemplo, partindo de uma história cultural da arte, na qual prestamos atenção não apenas ao contexto de produção das representações intituladas por nós de obras de arte, “mas também sua distribuição e recepção; incluindo, além do espectro da cultura visual, as representações vinculadas à paisagem visual dos sujeitos” (Oliveira e Hernández, 2015, p.31).

Este estudo enfatiza a leitura das imagens sob uma perspectiva subjetiva, mas reconhecendo que as produções visuais desempenham um papel significativo ao promover ideias que ampliam a compreensão do mundo e de nós mesmos como sujeitos. Assim, as manifestações imagéticas que produzimos e que nos cercam tornam-se elementos cruciais para problematizações, na medida em que configuram referências para interpretar o contexto em que vivemos, compreendendo a cultura, as relações humanas, o tempo e o espaço geográfico.

Nesse cenário, a educação assume um papel essencial, pois a análise de imagens não se limita à apreciação estética, mas está intrinsecamente ligada aos processos formativos, contribuindo para o desenvolvimento de um olhar crítico e reflexivo frente às dinâmicas culturais e sociais que moldam nossa experiência no mundo.

A proposta desta pesquisa, ao tratar da leitura de imagens, não busca simplesmente decodificar ou traduzir as obras analisadas, mas ampliar os horizontes conceituais dessa leitura, explorando-a sob um olhar interdisciplinar para fomentar a construção de novos conhecimentos. Como ressalta Santaella (2012, p. 10), vivemos um momento histórico em que é essencial “passar a chamar de leitor não apenas aquele que lê livros, mas também o que lê imagens. Diante disso, não poderia ficar de fora o leitor que viaja pela internet, povoada de imagens, sinais, mapas, rotas, luzes, pistas, palavras e textos”. Assim, a leitura de imagens torna-se uma ferramenta indispensável para compreender a complexidade cultural e informacional da contemporaneidade.

A autora mencionada destaca que o termo "imagem" é inerentemente ambíguo e repleto de significados variados, pois pode ser aplicado a realidades que não são exclusivamente visuais, como imagens mentais, oníricas e até mesmo musicais. Ainda que se restrinja a imagem ao campo da visualidade, é possível identificar ao menos três domínios principais, entre os quais a autora salienta os seguintes:

1. O domínio das imagens mentais, imaginadas e oníricas. 2. O domínio das imagens diretamente perceptíveis. 3. O domínio das imagens como representações visuais. Elas correspondem a desenhos, pinturas, gravuras, fotografias, imagens cinematográficas, televisivas, holográficas e infográficas, também chamadas de imagens computacionais.

(Santaella, 2012, p. 17).

Na presente pesquisa, nosso foco está direcionado ao terceiro domínio mencionado por Santaella (2012), que aborda os trabalhos artísticos na linguagem da fotografia e da instalação. A escolha desse recorte justifica-se pelo potencial dessas linguagens em explorar a complexidade das representações visuais e a multiplicidade de sentidos que elas evocam. Como aponta a autora, toda imagem apresenta múltiplas dimensões – subjetivas, sociais, estéticas, antropológicas e tecnológicas – que coexistem e interagem no interior de sua própria estrutura. A leitura da imagem, nesse contexto, torna-se uma ferramenta essencial para compreender essas camadas de significado e seus desdobramentos (Guimarães et al, 2025).

Yana Tamayo: um olhar sobre a artista e a sua obra

A artista contemporânea Yana Tamayo desenvolve uma poética que vai além do conteúdo imagético. Sua obra promove um deslocamento do olhar e possibilita conexões entre o que é exposto na imagem e as narrativas históricas que atravessam os lugares. As fotografias e instalações produzidas pela artista, e analisadas neste estudo, constituem uma abertura para explorar outros espaços, levando-nos a repensar os lugares que visitamos ou imaginamos.

A trajetória artística e profissional de Yana Tamayo2 é marcada pela hibridização de percursos, nos quais suas experiências se entrelaçam no campo das artes, que constantemente se relacionam e se alimentam mutuamente. Sua formação acadêmica iniciou-se no curso de Publicidade da Universidade de Brasília, instituição na qual também cursou Jornalismo. Posteriormente, graduou-se em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e concluiu o mestrado3 e o doutorado4 na Universidade de Brasília. Desde cedo, manteve um olhar atento para as artes e para o cinema, participando de grupos de estudos voltados a formações mais específicas nesse campo, sobretudo no que se refere à direção de arte. Para Tamayo, sempre foi significativo refletir sobre o cinema, seu conteúdo e a narrativa sequencial das imagens.

Ao longo de sua formação, Tamayo buscou ampliar suas experiências em diferentes cidades. Suas vivências e percepções acerca de Brasília ‒ cidade onde nasceu e cresceu ‒ levaram-na, no doutorado, a investigar o projeto moderno brasileiro. Esse percurso, de modo intuitivo, conduziu-a a refletir sobre sua própria origem, marcada pelo fato de ter nascido em Brasília e ser filha de pais estrangeiros. Paralelamente aos estudos acadêmicos, atuou como assistente de curadores de arte no Museu de Arte da Pampulha.

Para a artista, pesquisar não se limita à obtenção de títulos, mas constitui uma forma de descobrir as coisas do mundo. Durante o mestrado e o doutorado, Yana Tamayo manteve uma produção artística constante, de modo que seus trabalhos teóricos emanaram de pesquisas práticas e empíricas, permitindo-lhe conhecer o mundo de maneira sensível. Estar em um lugar e, ao mesmo tempo, acionar outros espaços parece marcar sua trajetória, remetendo-nos ao pensamento de Santos (2005), para quem o mundo é restituído pela forma como reconhecemos o lugar: “No lugar, estamos condenados a conhecer o mundo, pelo que ele já é, mas, também, pelo que ele ainda não é” (Santos, 2005, p. 162).

Por não atuar apenas como artista, mas também estar envolvida em outras ações, como a prática curatorial, Tamayo ampliou suas possibilidades de pesquisa e desenvolveu trabalhos híbridos em diferentes campos. Nesse sentido, mobiliza seu pensamento artístico para ativar a escuta e acompanhar criticamente os processos próprios da curadoria. Suas obras estabelecem um diálogo direto com a presente pesquisa, instigando-nos a refletir sobre a instabilidade tanto da matéria construtiva do espaço quanto do próprio cotidiano. Sua produção plástica articula-se estreitamente com práticas educativas e curatoriais, em um movimento no qual cada campo inspira o outro. Essa inter-relação confere à artista uma trajetória múltipla, marcada pela abertura a novos conhecimentos e descobertas.

A artista desenvolve sua poética explorando uma ampla variedade de materiais, suportes e mídias. Em suas criações, recorre à fotografia, ao vídeo, ao desenho e a instalações que incorporam materiais diversos, incluindo alguns moldáveis, como a areia prensada. Sua pesquisa artística estabelece um diálogo poético entre memórias e imagens, estruturando-se a partir da observação da diversidade dos lugares, dos povos e de suas narrativas históricas. Esses elementos fornecem subsídios fundamentais para a elaboração de suas obras plásticas.

O espaço da cidade, com sua diversidade arquitetônica e cultural, orienta o pensamento da artista e lhe oferece elementos centrais, como as histórias narradas que atravessam o tempo e as dinâmicas sociais que se configuram nesse espaço comum. Além disso, os fluxos e trânsitos que se estabelecem nas paisagens urbanas provocam alterações constantes, tornando-se parte essencial da matéria sensível que alimenta sua produção artística.

Para a artista, a cidade e sua arquitetura, com todas as suas contradições, “protagonizaram a construção de um pensamento artístico sobre o espaço” (Sotomayor, 2015, p. 42). Esse conceito se materializa em diversas obras de sua autoria, como na exposição coletiva À vista, paisagem em contorno (2017), que reuniu as instalações Diários da margem central (Primeiras estórias) (2017), Primeiras estórias (Cartografia sentimental) (2017) e Primeiras estórias (Ficções) (2017).

Segundo Yana Tamayo, o debate sobre a arquitetura constitui um eixo central de sua produção artística. Sua pesquisa investiga o espaço e as formas como o habitamos, transformando-os em “espaços próprios” ‒ um tema recorrente e estruturante de seus trabalhos.

Os trabalhos mencionados foram desenvolvidos a partir de uma experiência em residência artística realizada na cidade de Palmas (TO), em 2016, a convite do Centro de Arte Jardim Canadá, JA.CA - Centro de Arte e Tecnologia. O projeto, intitulado Cidades Transbordadas, tinha como objetivo estabelecer um diálogo com artistas que desenvolvessem investigações e reflexões críticas sobre as paisagens urbanas e as cidades.

A iniciativa buscava explorar o que transcende nas cidades planejadas, mesmo quando projetadas com objetividade e rigor. Conforme descrito na plataforma do projeto Cidades Transbordadas, o propósito era, precisamente, identificar, na tensão entre o planejamento e sua execução – no caso, o urbanismo –, um espaço para repensar o papel dos artistas e das proposições poéticas como ferramentas para compreender as paisagens em transformação.

Durante suas expedições a cidades planejadas, Yana Tamayo escolheu explorar Palmas (TO), concebida como uma “promessa” de continuidade do projeto de Brasília, embora situada em um contexto histórico marcadamente distinto. Assim como a capital federal, Palmas foi construída a partir de um plano modernista, orientado pela intenção de inaugurar uma nova era. No entanto, apesar de seu planejamento, a cidade transformou-se em um espaço permeado pela especulação imobiliária, frequentemente condicionada por intervenções políticas.

Segundo a artista, ela já estava familiarizada com as narrativas oficiais de Palmas e, por isso, buscava algo poético em meio a pretensa funcionalidade do planejamento urbano. Dessa forma, surgiu o desejo de compreender a vivência das pessoas nesse espaço, indo além das histórias documentadas para captar as nuances do cotidiano e das relações humanas que dão vida à cidade planejada.

A artista foi à campo, embrenhou-se no espaço da cidade, para ouvir as histórias das pessoas, sentir as relações de afetos com os lugares e vivenciar os vazios da cidade, os espaços e os distanciamentos entre as construções arquitetônicas que lá se erguiam. Esse tempo de pesquisa lhe proporcionou diferentes contatos e experiências nesse espaço urbano.

A exposição intitulada À vista - Paisagem em Contorno, realizada em 2017 na Galeria Fayga Ostrower, no Complexo Cultural Funarte de Brasília, apresentou os trabalhos desenvolvidos no projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015 - Artes Visuais. Sob a curadoria de Marília Panitz, a mostra reuniu obras de nove artistas participantes, que exploraram, por meio de temáticas complementares, um olhar sensível sobre o espaço urbano e as paisagens das cidades. Essa iniciativa destacou a relação entre arte contemporânea e os múltiplos aspectos das cidades, promovendo um diálogo sobre as transformações e vivências dos ambientes urbanos.

De acordo com Panitz (2015), o mapeamento poético proposto por Yana Tamayo na instalação Diários da margem central (Primeiras estórias) (2017) se traduz, por meio de uma série de fotografias, na expressão da natureza incomum de sua experiência artística na cidade de Palmas (TO). As fotografias retangulares de diferentes lugares da cidade são dispostas de modo a compor uma narrativa visual sobre as impressões cartográficas da urbe. A metáfora entre ordem e desordem manifesta-se tanto na disposição assimétrica das imagens quanto nas variações tonais das fotografias e nas paisagens retratadas – ora naturais, ora transformadas pela ação humana. Assim, a obra evidencia paisagens móveis, em contínuo processo de transformação. Como notabilizou Santos (1997, p. 37):

A paisagem nada tem de fixo, de imóvel. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança, a economia, as relações sociais e políticas também mudam, em ritmos e intensidades variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e à paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade.

Figura 1
Diários da margem central (Primeiras estórias), 2017.

Essa obra evoca também o conceito de lugar. Para Massey (2009, p. 24):

No contexto de um mundo que é, certamente, cada vez mais interconectado, a noção de lugar (geralmente citado como “lugar local”) adquiriu uma ressonância totêmica. Seu valor simbólico é, incessantemente, mobilizado em argumentos políticos. Para alguns, é a esfera do cotidiano, de práticas reais e valorizadas, a fonte geográfica de significado, vital como ponto de apoio, enquanto “o global” tece suas teias, cada vez mais poderosas e alienantes. Para outros, “um refúgio no lugar” representa a proteção de pontes levadiças e a construção de muralhas contra as novas invasões. Lugar, através dessa leitura, é o local da negação.

A análise da autora é fundamental porque desestabiliza a visão romântica ou puramente positiva do lugar. Ela mostra que o lugar não é apenas o espaço do enraizamento e do cotidiano, mas também um campo de diferenças, onde coexistem projetos de abertura e de fechamento, de resistência e de exclusão. O lugar, portanto, não é estático nem naturalmente “bom”; é uma construção social e política em permanente transformação. Em vez de ser definido por uma história linear e enraizada, o lugar deve ser compreendido como o resultado de múltiplas relações sociais que se cruzam em determinado contexto. Assim, sua singularidade, decorre menos de uma essência própria e mais da forma como distintas trajetórias e redes se entrelaçam em um espaço comum (Massey, 2009).

Nesse sentido, a produção artística de Yana Tamayo parece dialogar com essa perspectiva. Em suas obras, a sobreposição entre a linguagem fotográfica e a cartográfica sugere que o lugar não pode ser apreendido apenas pela cartografia convencional. É na conjunção de diferentes linguagens – como fotografia, memória e narrativa – que se torna possível expressar o encontro de trajetórias, abrindo espaço para novas interpretações da experiência urbana e da multiplicidade de histórias que atravessam os lugares.

A obra “Primeiras estórias - Cartografia Sentimental”

Entre as diversas obras da artista, destaca-se a instalação Primeiras Estórias - Cartografia Sentimental (2017), que evidencia uma forte potencialidade interdisciplinar. A instalação é composta por 49 blocos de areia prensada, em dimensões variadas, sobre os quais foram colocadas placas de acrílico serigrafadas com os nomes de cidades situadas nos estados do Tocantins, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Pará, Piauí e Maranhão.

Nesse trabalho, a artista explora um elemento de grande relevância tanto para a arte quanto para a geografia: a toponímia, o estudo dos nomes próprios dos lugares. Esse campo de investigação também possui um forte vínculo com a Língua Portuguesa, pois os nomes dos lugares são construções linguísticas carregadas de significados, histórias e motivações. Como apontam Souza e Gouveia (2017, p. 241), a toponímia é “um campo de estudo capaz de corresponder a essa expectativa, pois é uma área que dialoga com outras disciplinas como a Antropologia, a História e a Geografia, por exemplo, trazendo uma multiplicidade de olhares no que se refere aos nomes dos lugares”.

A obra promove reflexões sobre as intersecções entre linguagem, espaço, cultura e memória, reforçando a riqueza de abordagens que podem surgir da união entre diferentes campos do saber.

A experiência conduzida em Palmas foi marcada por um processo de investigação e descobertas significativas. A artista mergulhou nos arquivos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), explorando a origem dos nomes de diversas cidades situadas nas proximidades das fronteiras do estado do Tocantins com a Bahia, Goiás, Mato Grosso, Pará, Piauí e Maranhão. Esse estudo detalhado sobre toponímia revelou a riqueza histórica e cultural associada aos nomes desses lugares.

Nesta obra a artista procura transcender os limites das informações oficiais, adotando uma abordagem mais poética na seleção dos nomes das cidades. Assim, o trabalho não apenas dialoga com dados concretos, mas também incorpora uma dimensão sensível e subjetiva, evidenciando o entrelaçamento entre a geografia, a arte e as múltiplas narrativas que compõem os espaços urbanos e rurais.

Figura 2
Vista geral da instalação Primeiras estórias (Cartografia Sentimental), 2017
Figura 3
Detalhe da instalação Primeiras estórias (Cartografia Sentimental), 2017.
Figura 4
Detalhe da instalação Primeiras estórias (Cartografia Sentimental), 2017

Os blocos de areia prensada criados por Yana Tamayo materializam a representação do espaço por meio das três dimensões – altura, comprimento e profundidade – e assumem a forma de sólidos geométricos, ou seja, porções delimitadas do espaço. No entanto, esses elementos vão além de sua materialidade e de sua forma matemática. Embora se apresentem como figuras geométricas, ressignificam a noção de espaço, ampliando seu sentido para além das esferas estritamente matemática e geográfica.

Na instalação, os blocos retangulares de areia prensada evocam uma dualidade: são frágeis e, ao mesmo tempo, resistentes, remetendo à verticalidade rígida das edificações nas cidades. Essa ambiguidade reflete a complexidade das formas de ocupação do espaço, seja na esfera privada, com sua relação com a arquitetura, seja na esfera pública, com o urbanismo.

Para Yana Tamayo, o espaço urbano – com seus sistemas construtivos, singularidades e narrativas – constitui uma fonte de inspiração. Esses elementos atravessam sua pesquisa artística e se concretizam em suas produções plásticas, que investigam a interseção entre o espaço físico e as memórias que ele abriga. Suas obras propõem uma reflexão sobre a relação entre a ocupação humana e os ambientes construídos, destacando os sentidos atribuídos a esses lugares por meio da nomeação e da experiência vivida.

A fluidez poética dos nomes das cidades, escolhidos justamente por essa característica remetem, também, às questões cotidianas das pessoas que constroem e compõem os espaços das cidades, como, por exemplo o nome da cidade “Lagoa da confusão”. Aos olhos do espectador, uma narrativa é acessada pela leitura das palavras escritas no topo dos blocos, os nomes das cidades engatilham pensamentos e associações sobre esses lugares, logo, sobre as histórias e paisagens que essas cidades carregam.

O uso de palavras é uma característica marcante nas obras de Yana Tamayo. Em algumas produções, as palavras são ressignificadas e reorganizadas, adquirindo novas composições e sentidos. Em outros trabalhos, os nomes das cidades – enquanto palavras – ganham significados a partir das histórias oficiais extraídas de documentos do IBGE.

Na instalação relacionada às cidades do Tocantins, por exemplo, a artista incorporou 16 textos que narram as histórias de fundação de diferentes municípios do estado. Esses textos foram impressos e disponibilizados ao público durante a exposição, permitindo que os espectadores tivessem acesso às narrativas oficiais e pudessem estabelecer conexões entre os nomes das cidades e suas trajetórias históricas. Essa abordagem ressalta o potencial da palavra como elemento artístico e como meio de articulação entre a história e a geografia dos lugares. Dessa forma, o trabalho Primeiras estórias (Ficções), de 2017, propõe interações cognitivas com o espectador. Conforme aponta Salles (2008, p. 124), “a capacidade de interpretação envolve o poder de estabelecimento de relações, pois o que é oferecido para o usuário são sugestões de associações, que podem ser portadoras de novas ideias a serem incorporadas pelo texto”. Os textos que abordam a fundação dos lugares e funcionam como recortes de uma realidade local. Ao serem transformados em obras de arte e inseridos no espaço expositivo da galeria, esses fragmentos ganham complexidade, na medida em que novas relações se estabelecem entre a obra e o espectador.

Figura 5
Primeiras estórias (Ficções), 2017
Figura 6
Detalhe da instalação Primeiras estórias (Ficções), 2017.
Figura 7
Detalhe da instalação Primeiras estórias (Ficções), 2017.
Figura 8
Detalhe da instalação Primeiras estórias (Ficções), 2017.

No material disponibilizado pelo IBGE, Yana Tamayo encontrou afirmações que reforçavam os mitos de origem predominantes na narrativa histórica nacional. Surpreendentemente, deparou-se com textos anônimos, com características quase ficcionais, que foram editados e integraram sua exposição. Esses textos exaltavam, de forma heroica, a figura dos Bandeirantes como homens corajosos que desbravaram o interior do país – uma perspectiva que, hoje, é amplamente questionada e rejeitada.

Intrigada por essas questões, a artista buscou inspiração em Guimarães Rosa, no conto As margens da alegria, que narra a história de um menino que, ao viajar com os tios, vivencia o deslumbramento e o amadurecimento proporcionados pelo primeiro contato com algo novo. Esse relato pode ser interpretado tanto pela perspectiva do menino diante do mundo quanto pela própria experiência da artista ao conhecer Palmas (TO) e suas histórias transbordadas.

Nesse sentido, Tamayo se alinha à reflexão de Ferreira (2010, p. 266), que afirma: “O que conhecemos do real se dá a partir da intervenção que operamos nele, a partir das condições de observação, dos critérios de análise ou da seleção do objeto. O olhar observador vai interferir decisivamente no processo”. Isso reforça a ideia de que a experiência artística e investigativa é também subjetiva e transformadora, tanto para o criador quanto para o espectador.

A partir de sua pesquisa, Yana Tamayo selecionou elementos que despertaram seu interesse e os desenvolveu por meio das linguagens da fotografia e da palavra. Nesse processo, elaborou uma reflexão sobre as formas de ocupação do território central, concebendo-o como metáfora das tensões entre ordem e desordem, construção e ruína, que atravessam o próprio curso da história.

Arte, geografia e formação docente

O conceito de lugar constitui uma categoria central tanto para a geografia quanto para a arte, na medida em que se refere à vivência concreta e simbólica dos sujeitos no espaço. Como nos lembra Milton Santos (1997), as transformações históricas e tecnológicas alteraram profundamente as formas de experiência dos lugares. Se antes a vida cotidiana estava enraizada em uma convivência marcada pela repetição e pela permanência – sustentada por objetos, práticas e memórias coletivas – hoje vivemos sob a lógica da mobilidade, em que pessoas, mercadorias, imagens e ideias se deslocam continuamente, reconfigurando os significados do espaço vivido.

Nesse contexto, o lugar deixa de ser apenas um recorte físico e passa a ser compreendido como uma construção afetiva, simbólica e relacional. Ele abriga memórias, afetos, tensões, histórias e identidades. Como destaca Santos (1997), “a memória olha para o passado, enquanto a consciência olha para o futuro”. O lugar, portanto, é o entrelaçamento da razão e da emoção, da materialidade e da subjetividade, tornando-se campo fértil para a reflexão estética e para o exercício da docência crítica.

As obras analisadas nesta pesquisa revelam essa complexidade. Por meio de fotografias, mapas, nomes de cidades e blocos de areia com inscrições toponímicas, a artista propõe um olhar sensível e investigativo sobre os modos de ocupação, construção e representação dos espaços urbanos. Suas produções artísticas mobilizam o conceito de lugar como espaço de experiências, encontros e disputas, ressignificando espaços conhecidos e atribuindo novos sentidos ao que é ordinário.

Nesse sentido, a arte apresenta-se como linguagem potente para a formação docente, ao possibilitar a ampliação do repertório estético, cultural e geográfico dos professores em formação. As imagens, materiais e dispositivos utilizados pela artista suscitam interações cognitivas que aproximam o sensível do racional, o vivido do representado, o individual do coletivo. Como argumenta Salles (2008, p. 124), “a capacidade de interpretação envolve o poder de estabelecimento de relações”, e é exatamente isso que a arte provoca: uma abertura para novas conexões e compreensões.

Ao estabelecer diálogos entre a arte e a geografia, é possível compreender o espaço geográfico não apenas como cenário ou estrutura física, mas como um lugar habitado de sentidos, narrativas e afetos. A interdisciplinaridade entre essas áreas favorece a emergência de práticas formativas que valorizem a experiência estética como componente essencial do processo educativo.

A autora Doreen Massey (2009) também contribui para esse debate ao propor uma concepção relacional e dinâmica de espaço e lugar. Para ela, os lugares não são estáticos nem homogêneos, mas sim espaços de negociação, compostos por múltiplas temporalidades e sujeitos. Eles envolvem relações humanas e não-humanas, e nos interpelam quanto ao modo como habitamos o mundo. Ao afirmar que “os lugares colocam, de forma particular, a questão de nosso viver juntos” (Massey, 2009, p. 216), a autora destaca a dimensão ética e política do lugar – elemento essencial para pensarmos uma educação comprometida com a convivência, a pluralidade e a justiça.

As obras de Tamayo, ao inscreverem nomes de cidades em blocos de areia prensada, materializam essa concepção de lugar como espaço-tempo de encontros e memórias. A areia, símbolo da transitoriedade, e os nomes, expressão de permanência simbólica, nos fazem refletir sobre os modos como habitamos e significamos o mundo. Cada fragmento torna-se testemunho de trajetórias humanas, de histórias invisibilizadas, de tensões entre o efêmero e o duradouro.

Discutir o conceito de lugar a partir das produções artísticas possibilita pensar a formação docente para além dos conteúdos estritamente disciplinares, inserindo os professores em experiências estéticas e críticas que os auxiliem a compreender o espaço vivido em sua densidade histórica, simbólica e afetiva. Tal abordagem permite que docentes em formação desenvolvam uma sensibilidade ampliada, capaz de reconhecer o espaço escolar, urbano e social como territórios de resistência, pertencimento, conflito e criação.

Refletir sobre o conceito de lugar na articulação entre arte e geografia conduz à valorização das experiências vividas como dimensão fundamental da formação docente. Como afirma Santos (1997, p. 96), “o todo somente pode ser conhecido através das partes, e as partes do conhecimento do todo”. Essa perspectiva relacional requer do educador a capacidade de transitar entre múltiplos saberes e sensibilidades, reconhecendo que a formação profissional se constrói também nos encontros com as linguagens artísticas.

A elaboração de um encarte para a formação docente

No decorrer da pesquisa, a postura interdisciplinar foi contornando e direcionando os nossos pensamentos e ações. Ao debater a interdisciplinaridade entre arte e geografia fomos construindo um processo que demandava uma proposta concreta para a formação de professores.

Nesse sentido, elaboramos um encarte visando ter um material que possibilite aos professores refletirem e conhecerem mais sobre arte e a geografia, ou melhor, sobre como a arte está em diálogo com a geografia. O ponto de partida são imagens que provocam reflexões sobre as referidas áreas do conhecimento e requerem um tempo de observação, fruição, discussão e, também, o exercício da imaginação. Com isso, podemos compreender melhor sobre o que elas propõem, algumas questões que nos dão a ver, quais são as especulações dos artistas e as potencialidades das suas obras para provocarem o nosso pensamento.

Os docentes em processo de formação, inicial ou continuada, a partir desse material, podem ampliar o seu repertório, as suas ideias e indagações e, quem sabe, experimentar o trabalho com uma proposta interdisciplinar. Sabemos que o diálogo entre os campos do saber pode proporcionar ponderações sensíveis e inteligíveis aos estudantes e contribuir, sobremaneira, para a formação estética desses sujeitos. Contudo, antes de pensar nos estudantes, os professores devem pensar na sua formação contínua, longitudinal, sempre inacabada.

A composição dos encartes pode ser visualizada por acesso à internet ou impressa em formato A3. Na diagramação frontal são apresentadas as imagens das obras dos artistas e a ficha técnica respectiva. No verso são apresentadas sugestões para a leitura de imagens.

Figura 9
Encarte

Esses encartes foram utilizados em duas turmas de formação inicial de professores na Universidade Federal de Uberlândia, como forma de verificar, na prática, a potencialidade do percurso didático proposto. A experiência revelou que trabalhar com a obra da artista mostrou-se extremamente fecundo para refletir sobre interdisciplinaridade, conceitos geográficos, modos de composição artística e a vivência estética.

Além disso, o uso dos encartes possibilitou ampliar o repertório formativo dos licenciandos, promovendo discussões críticas e sensíveis sobre os modos de pensar o espaço. Ao mediar a leitura das obras por meio desse material, foi possível evidenciar como a arte pode ser incorporada ao ensino de geografia, favorecendo a construção de conceitos, o desenvolvimento da imaginação, da criatividade e da sensibilidade estética. Desse modo, os encartes se configuraram como recurso didático capaz de romper com práticas fragmentadas e abrir espaço para experiências mais integrais e significativas na formação docente.

A disponibilização dos encartes em formato digital tem como propósito ampliar o acesso dos docentes ao conhecimento gerado pela pesquisa. Acreditamos que esse material constitui um produto derivado da pesquisa, capaz de contribuir para o fazer/pensar pedagógico dos docentes e de evidenciar a potencialidade da produção poética e plástica de artistas contemporâneos que se debruçam sobre a temática espacial. Embora singelo, ele pode se configurar como condição necessária para que a pesquisa acadêmica ultrapasse os limites da universidade e estabeleça um diálogo efetivo com os professores que estão em formação e em exercício da prática pedagógica. Dessa forma, abre-se a possibilidade de fomentar o desenvolvimento de práticas mais sensíveis, críticas e significativas.

Considerações finais

Uma das coisas maravilhosas sobre a geografia é, certamente, a sua amplitude, o caminho que nos permite cruzar as fronteiras de outras disciplinas. Mas isso não deve obscurecer o fato de que a geografia também tem a sua própria integridade intelectual, os seus próprios caminhos específicos para explorar e proposições para defender.

(Massey, 2017, p. 37)

As mesmas palavras registradas por Doren Massey sobre a geografia, mostradas na epígrafe, poderiam ser transpostas para o campo da arte: “Uma das coisas maravilhosas sobre a arte é, certamente, a sua amplitude, o caminho que nos permite cruzar as fronteiras de outras disciplinas [...]”. Logo, para esse campo vale o mesmo contraponto, “a arte tem a sua integridade intelectual e os seus próprios caminhos específicos”. Em outras palavras, mas na mesma direção, Barbosa (1991, p. 64) nos acena a pensar que a arte deve ser vista como disciplina “e não apenas como atividade, demonstrando que, como todas as outras disciplinas ou matérias de instrução, a arte tem um específico domínio, uma específica linguagem e um específico contexto histórico”.

De tal modo, defendemos a compreensão de que a arte e a geografia são disciplinas escolares e têm uma contribuição intelectual de grande importância na formação humana. Para nós, é no âmbito dessa premissa que cabe pensar na preocupação com a interdisciplinaridade, ou no encontro e nas potencialidades de tal encontro para promover uma abertura para o “entre”, a interconexão, os cruzamentos e explorações dessas interfaces no contexto educacional.

Assim, durante esse percurso buscamos responder às questões formuladas e, nesse ínterim, analisar e refletir sobre as produções e reproduções artísticas apresentadas nessa pesquisa, tendo como direção as possibilidades elencadas pela interdisciplinaridade. O universo da pesquisa também foi conduzido pelos estudos sobre a formação estética e a importância dessa questão para a atuação docente. As obras analisadas mostram que é possível, pela arte contemporânea, nos desalojarmos da acomodação, dos lugares comuns, do fazer sem sabor e acomodado, que tantas vezes rondam as práticas pedagógicas e a vida dos docentes. As obras analisadas nos provocam e nos levam a pensar na ocupação de terrenos fronteiriços e interdisciplinares.

Esse enfoque permitiu uma abordagem das imagens, contemplando não apenas sua visualidade, mas também os fatores sociais e culturais que as circundam. A análise documental foi empregada como um instrumento para acessar o contexto histórico, simbólico e conceitual das produções artísticas, promovendo uma leitura que vai além da decodificação imediata e busca ampliar os horizontes interpretativos. A interdisciplinaridade foi, portanto, um elemento central, permitindo que a leitura da imagem fosse compreendida não apenas como uma atividade técnica, mas como uma prática formativa e reflexiva.

Como salienta Agamben (2012, p. 149), a “arte é o nome que se dá ao traço essencial da vontade de potência”; por conseguinte, ela permite repensar, questionar, ver conceitos, problemas e ideias de outro modo. Assim, como afirma Bouro (2000, p. 39), “arte se ensina, arte se aprende”. Essa aprendizagem pode ser mais significativa quando são instaurados ambientes de trocas, interconexões e interferências entre os campos do conhecimento na chamada interdisciplinaridade. Podemos afirmar que a geografia também se ensina e se aprende.

A postura interdisciplinar envolve abordagens mais complexas em que se considera o diálogo, a inter-relação e a associação entre as disciplinas, em que cada uma preserva seu cerne, mas permite também as intersecções que ampliam e enriquecem o entendimento. Desse modo, a interdisciplinaridade envolve a integração de conteúdos e metodologias provenientes de diferentes disciplinas, que colaboram no desenvolvimento conjunto de determinados temas. Trata-se não apenas de uma fusão ou justaposição, mas de uma articulação interpretativa entre conceitos, dados e abordagens metodológicas.

Compreendemos, ao longo da pesquisa, que a interdisciplinaridade não se limita à simples apropriação de conceitos específicos de diferentes áreas do conhecimento. Pelo contrário, ela se expressa como uma postura epistêmica e pedagógica aberta, que convida à análise crítica, ao diálogo e à construção de novas formas de pensar tanto a formação docente, quanto o trabalho pedagógico e as relações interpessoais no campo da educação. Esse entendimento se consolidou como uma das contribuições mais significativas do percurso investigativo que trilhamos.

A pesquisa evidenciou que as fronteiras entre saberes, frequentemente marcadas pelo desassossego e pela instabilidade, podem ser ocupadas de modo criativo, reflexivo e transformador. O exercício interdisciplinar, nesse sentido, emerge como um processo vivo e necessário, capaz de articular campos distintos do saber em torno de um olhar sensível e crítico sobre o mundo.

No diálogo entre arte e geografia, vislumbramos um terreno fértil para esse entrelaçamento. A arte, com sua potência de interrogar o real, de revelar camadas do social, do político e do simbólico, desloca o olhar e amplia o repertório formativo. A geografia, por sua vez, ao se abrir para as linguagens visuais e para as experiências estéticas, ultrapassa o discurso descritivo e técnico, enriquecendo-se com novas possibilidades de leitura do espaço e de seus múltiplos sentidos.

Assim, ao final deste trabalho, reafirmamos que a interconexão entre arte e geografia amplia os horizontes da formação docente, mas também instiga práticas pedagógicas mais criativas, críticas e sensíveis às complexidades do mundo contemporâneo. Nessas intersecções, surgem caminhos para pensar o espaço geográfico, o corpo, as afetividades como dimensões centrais da educação – uma educação que, mais do que transmitir conteúdos, pode formar sujeitos capazes de imaginar e interrogar o espaço que habitam.

Disponibilidade de dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Abr 2025
  • Revisado
    10 Set 2025
  • Aceito
    01 Jun 2026
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