Open-access Escolarização e carreira esportiva: dilemas da dupla carreira em atletas de saltos ornamentais do Distrito Federal

Resumo

O objetivo deste estudo foi analisar os perfis educacional e econômico de atletas de alto rendimento de saltos ornamentais de um clube formador de referência nacional. Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória e transversal que teve os dados coletados por meio de questionário estruturado. A análise inferencial dos dados se deu por meio de testes para descrição geral e testes de comparação de medidas de tendência. Os resultados convergem para a forte presença do Estado como financiador da carreira esportiva e a priorização do esporte principalmente ao final do ensino médio. No entanto, a dedicação aos estudos, amparada em background familiar com elevados níveis de instrução, favorece o equilíbrio da conciliação entre as demandas do esporte e da escola

Palavras-chave
dupla carreira; estudante atleta; saltos ornamentais; esporte de alto rendimento

Abstract

With this study, we aimed to analyze the educational and economic profiles of high-performance diving athletes of a national reference training club. This is a descriptive, exploratory, and transversal study, with data collected through a structured questionnaire. The inferential data analysis was conducted using descriptive and comparative trend measure tests. The results converge on the strong presence of the State as a financier of sports careers and the prioritization of sports mainly at the end of high school. However, dedication to studies, supported by a family background of high levels of schooling, facilitates the reconciliation of the demands of sports and school.

Keywords
dual career; student athlete; diving; high-performance sport

Introdução

O esporte é um fenômeno da modernidade, tendo boa parte de suas competições estruturadas a partir do mercado de nações, destacando a predisposição dos governos como um fator relevante ao crescimento das práticas esportivas no mundo (Mandell, 1986). Considerando características como alcançar o desempenho atlético, a mercantilização de contratos e a formação de culturas e valores próprios que constituem o ambiente em torno do atleta, o esporte (ou alguns esportes) poderia(m) ser considerado(s) um locus de desenvolvimento de carreira profissional (Capranica et al., 2015; Gonçalves & Carvalho, 2006). Segundo Alfermann e Stambulova (2007), carreira esportiva pode ser definida como uma atividade desenvolvida ao longo de vários anos, voluntariamente e com o objetivo de atingir o ápice individual de rendimento, podendo ser em nível regional, nacional e, posteriormente, internacional. No Brasil, a Lei Geral do Esporte compreende o alto rendimento esportivo por meio do nível de Excelência Esportiva, o qual “abrange o treinamento sistemático direcionado à formação de atletas na busca do alto rendimento de diferentes modalidades esportivas” (Lei nº 14.597/2023).

Diante disso, o processo de formação para o esporte de alto rendimento acontece numa perspectiva de longo prazo que, a depender da modalidade, pode exigir da/o atleta, ao longo de dez anos, um acúmulo de mais de 10 mil horas de dedicação para alcançar o estágio de aperfeiçoamento esportivo (Capranica et al., 2015; Gladwell, 2008). A escolha por tornar-se um atleta de elite significa comprometer horas dedicadas aos treinamentos (que pode ultrapassar as 30 horas semanais); realizar viagens para treinar e competir; ter cuidados com a saúde, que envolvem desde processos de prevenção até reabilitação de lesões; e abrir mão de eventos sociais (Capranica et al., 2015; Costa et al., 2021; Schiavon et al., 2011). Observando que esse processo de formação do atleta para o alto rendimento pode se iniciar ainda na infância e avançar pelo período da adolescência, é necessário que haja conciliação entre a rotina esportiva e as demandas educacionais obrigatórias (Hakkers, 2019; Leite et al., 2019). Diante disso, o conceito de dupla carreira acadêmico-esportiva (DC) refere-se exatamente à condição desafiadora enfrentada pelos/as estudantes-atletas para conciliar, de maneira equilibrada, as demandas esportivas e educacionais (Ryba et al., 2015; Souza et al., 2023).

A importância para o desenvolvimento integral do atleta, equilibrando as demandas esportivas e educacionais, é reconhecida pela literatura acadêmica internacional e avança na discussão da formação esportiva, sobretudo pela análise do impacto tanto físico e fisiológico quanto pela preocupação em compreender os impactos educacionais, psicológicos e sociais causados pelas transições (esportivas e não esportivas) ao longo do processo de formação que envolve a mudança de categorias e o avanço nas séries escolares, da eventual necessidade de mudança para uma nova cidade (o que pode levar a uma nova escola/universidade), além do momento decisivo de retirada esportiva (Ryba et al., 2017). Segundo Hakkers (2019), entre os países membros da União Europeia, 120 mil jovens encontravam-se em situação de dupla carreira, sendo que apenas 30% conseguiram alcançar a elite esportiva, ilustrando a necessidade de preparação desse indivíduo para a possibilidade da descontinuação no esporte de alto rendimento por meio do desenvolvimento acadêmico, psicológico e psicossocial. Além disso, metade dos jovens envolvidos com a dupla carreira noticiados pela pesquisa de Hakkers (2019) demonstraram satisfação com os suportes prestados para a conciliação entre esporte de alto rendimento e estudos, revelando que um em cada seis atletas optam por abandonar o esporte de alto rendimento em prol do desenvolvimento educacional; e no caso de atletas que participaram de Jogos Olímpicos da Juventude, um em cada cinco buscaram níveis de exigência educacionais menores em função da priorização do esporte de elite.

Para o/a atleta, a dificuldade em equilibrar a rotina diária, preenchida por treinos e estudos pode significar: (i) optar por um nível de escolaridade menor por causa do tempo dedicado ao esporte; (ii) o abandono da prática esportiva de rendimento pelo comprometimento com os estudos. Esse cenário torna-se crítico quando os estudos mostram que: (i) os atletas frequentemente relatam dificuldade de transição do ensino médio (EM) para o ensino superior (ES); (ii) metade dos atletas estão insatisfeitos com o suporte oferecido para combinação dos estudos com o esporte e experimentam dificuldades na transição para uma nova carreira (Hakkers, 2019).

Esse tema vem sendo abordado enquanto objeto de pesquisa há algumas décadas, sobretudo nos Estados Unidos e em alguns países da Europa como Espanha, Itália, Reino Unido e Dinamarca, tendo a América Latina um espaço emergente na produção de conhecimento sobre a DC, principalmente países como Brasil, Colômbia e Argentina (Ricci et al., 2022; Ryba & Stambulova, 2013). Ricci et al. (2022, p. 3) apontam a importância da compreensão desse objeto de estudo, sobretudo para “… sustentar uma melhor compreensão sobre os desafios, barreiras e tensões enfrentadas por estudantes-atletas latino-americanos e colaborar com o desenvolvimento de planos e intervenções que os auxiliem a superar tais dificuldades”. Apesar de emergente e recente, a produção acadêmica no contexto da América Latina tem o Brasil como principal país em quantidade de publicações e número de pesquisadores envolvidos (Ricci et al., 2022).

Conciliação esportiva e acadêmica no Brasil

A legislação vigente no país é um aspecto importante para compreender o processo de conciliação entre as demandas esportivas e educacionais (Rocha et al., 2020; Wylleman & Rosier, 2016). No Brasil, a Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), prevê a obrigatoriedade de o cidadão estar matriculado no ensino regular dos 4 aos 16 anos de idade, o que totaliza, ao final desse espaço-tempo, um mínimo de 9.600 horas/aula, sendo divididas entre: (i) pré-escola; (ii) ensino fundamental; e (iii) ensino médio (Lei nº 9.394/1996). Esse período obrigatório totaliza doze anos de formação, impedindo que o atleta se dedique exclusivamente ao esporte de alto rendimento. Por outro lado, a formação esportiva é um processo optativo para aqueles/as candidato/as ao espaço do alto desempenho atlético, exigente de dedicação para o desenvolvimento físico, cognitivo e psicológico, demanda dos/as atletas horas para atender aos treinamentos, competições e recuperação.

Entretanto, é fundamental ter clareza a respeito da organização do(s) mercado(s) esportivo(s) (Correia et al., 2020; Mascarenhas et al., 2013; Soares et al., 2011). No Brasil, o futebol masculino é a modalidade que mais desperta expectativas em relação ao sucesso, sobretudo financeiro (Damo, 2007; Gonçalves & Carvalho, 2006). Nesse sentido, destaca-se que os postos de trabalho para essa modalidade são limitados, além de apresentarem uma realidade distante das expectativas criadas: a primeira e a segunda divisões do futebol brasileiro oferecem cerca de mil vagas de trabalho; e mais de 80% dos jogadores profissionais do país recebem aproximadamente um salário-mínimo – realidades que podem variar entre estados e regiões do país (Catto, 2022; Jornal da Globo, 2009; Rocha, 2017). Para modalidades como ginástica, esgrima e saltos ornamentais (objeto desta pesquisa), os postos de trabalho são ainda mais reduzidos em quantidade e com limitado potencial de investimento privado que oportunize espaços de profissionalização (Costa et al., 2021; Mercado & Consumo, 2019). Uma pesquisa desenvolvida a respeito dos saltos ornamentais mostrou a compatibilidade entre as formações esportiva e educacional, com casos de descontinuação na transição do ensino médio para o ensino superior (Costa et al., 2021). Entretanto, algumas questões não foram respondidas à época, trazendo importantes lacunas para a análise: (i) o perfil econômico dos atletas; (ii) a possível associação entre as variáveis financeiras, esportivas e educacionais; (iii) a relação entre as principais determinantes sociais, educacionais e familiares e a dedicação ao sucesso no esporte.

Nesse cenário, a figura do estudante atleta no Brasil não encontra previsão legal1 robusta o suficiente para garantir condições de desempenhar com qualidade a consonância entre obrigações educacionais e esportivas (Figueiredo & Scremin, 2023; Rocha et al., 2020; Rocha, Pinto et al., 2021).

A formação esportiva é um processo que demanda grande parte da rotina diária para atividades voltadas ao esporte. Em modalidades individuais como a ginástica, os/as atletas atingem o ápice esportivo jovens, sugerindo uma prática especializada (aos 6 anos), com dedicação ao treinamento de longo prazo (entre 8 e 12 anos), sem garantias de sucesso (Tsukamoto & Nunomura, 2005). Outra modalidade individual exigente de recursos técnicos e materiais específicos são os Saltos Ornamentais (Ferreira et al., 2020). O processo de formação nos saltos ornamentais acontece de maneira precoce, exigindo de crianças dedicação aos treinamentos que, a depender da evolução e do sucesso alcançados, pode ultrapassar as cinco horas de treinamento diário (Carneiro et al., 2021; Costa & Figueiredo, 2021; Teixeira et al., 2017). Por sua vez, o mercado econômico oportunizado por esta modalidade é restrito, tendo o Estado como principal fonte de apoio financeiro a partir do Programa Bolsa Atleta. Instituído em 2004, o programa é considerado, no site do governo federal, como “um dos maiores programas de incentivo direto ao atleta no mundo”, contemplando atletas de alto rendimento a partir dos 14 anos com bolsas que variam de R$ 410,00 (categorias Estudantil e de Base) a R$16.629,00 (categoria Atleta Pódio). Para isso os atletas precisam cumprir requisitos de elegibilidade, como ter idade mínima de 14 anos, sendo exigida idade entre 14 e 20 anos no caso da Bolsa Estudantil; estar vinculado a uma entidade esportiva; encontrar-se em plena atividade esportiva; declarar eventuais patrocínios ou apoios recebidos; ter participado de competição esportiva em âmbito nacional ou internacional no ano anterior ao pedido (exceto na categoria Atleta Pódio); estar regularmente matriculado em instituição de ensino, quando se tratar da Bolsa Estudantil; apresentar plano esportivo anual; e, no caso da categoria Atleta Pódio, estar entre os vinte primeiros colocados do ranking mundial da modalidade ou prova (Lei nº 10.891/2004). Corrêa et al., (2014), em análise de 9.149 bolsas concedidas entre os anos 2005 e 2011, encontraram disparidade entre os contemplados nas categorias de Base e Estudantil (respectivamente 2,35% e 9,57%) em comparação com as categorias Nacional e Internacional (respectivamente 56,55% e 27,72%), além dos 3,80% de contemplados na categoria Olímpico. Apesar da lógica do esporte de alto rendimento se pautar na inclusão apenas dos melhores atletas, tais dados reforçam o dilema da conciliação entre esporte e estudos pela descontinuação esportiva que pode ser relacionada pelo não prosseguimento e progressão da bolsa atleta como principal fonte de investimento a modalidades com baixo potencial de investimento.

Logo, o caráter precoce de formação esportiva nos saltos ornamentais tensiona a conciliação com a educação básica obrigatória. Ao mesmo tempo que o atleta precisa dar atenção a treinamentos, competições, processos de recuperação e prevenção de lesões, também é necessário que cumpra as obrigações educacionais – aulas presenciais, dedicação aos estudos no contraturno escolar etc. Nesse sentido, para além do suporte a ser prestado por instituições esportivas, educacionais e pelo Estado, na forma da lei, a família surge como principal pilar de início, desenvolvimento e retirada no esporte de alto rendimento, proporcionando apoio psicossocial e financeiro (López de Subijana Hernández & Equiza Vaquero, 2018). Diante disso, é importante compreender o perfil econômico e educacional de atletas de uma modalidade como saltos ornamentais, que apresenta baixo potencial de investimento privado, revelando um mercado profissional de poucas e disputadas oportunidades.

Observando esse contexto, temos como objetivo descrever e analisar os perfis educacional e econômico de atletas de alto rendimento da modalidade saltos ornamentais de uma equipe do Distrito Federal (DF). Essa equipe constitui um importante centro formador de atletas na modalidade, com processos de treinamento sistematizado desde as categorias da base (crianças a partir dos 5 anos de idade), com estrutura física apropriada (salas para administração do projeto, reabilitação física, atendimento psicológico etc.) e sem cobrança de nenhum tipo de valor para a prática da modalidade. Suas equipes adultas alcançaram resultados nacionais e internacionais relevantes, tanto no masculino quanto no feminino.

Pretende-se com este estudo compreender quais fatores compõem o perfil dessa elite esportiva, avançando para análise da interação econômica no processo de DC (Souza et al., 2023).

Material e método

Este estudo de cunho exploratório tem por finalidade formular hipóteses e gerar maior compreensão acerca do objeto de análise, que, neste caso, é o entendimento das necessidades dos atletas de saltos ornamentais. Sendo assim, o levantamento de campo reuniu informações diretamente com a população estudada, a saber, atletas de saltos ornamentais em situações reais de DC.

Para tanto, o primeiro momento da pesquisa diz respeito ao mapeamento dos centros de formação de saltos ornamentais. A pesquisa foi realizada no Distrito Federal, a partir da identificação de um Centro de Treinamento (CT) que atendia aos critérios de ser formador de atletas, de maneira sistematizada com o objetivo de alcançar resultados nacionais e internacionais. O segundo momento foi dedicado à visita para explicar aos gestores/treinadores do CT os objetivos e procedimentos da pesquisa e convidá-los para que fossem parceiros desta investigação, oficializando por meio da assinatura de um convite à pesquisa. Em seguida, foi realizado levantamento quantitativo para entender a população a ser pesquisada, bem como foi feita uma visita por parte da equipe de pesquisadores para esclarecimento aos atletas a respeito dos objetivos do estudo e da importância de seu desenvolvimento. Após esse encontro, enviamos o link do questionário a um treinador do CT, que o disponibilizou aos atletas via aplicativo de mensagens instantâneas.

Como critério de inclusão da amostra desta pesquisa, os/as atletas deveriam estar nas categorias Adulto (acima de 18 anos), A (16-18 anos) ou B (14-15 anos) e participando de competições nacionais e/ou internacionais. Tais categorias foram selecionadas por contemplarem períodos de extrema importância para o pico de performance dos atletas (Stambulova et al., 2009), bem como a transição compulsória do ensino fundamental para o ensino médio, seguida pela transição não obrigatória ao ensino superior ou conciliação entre trabalho e os saltos ornamentais. Os atletas com menos de 18 anos de idade preencheram o termo de aceite com o consentimento livre e esclarecido dos pais e/ou responsáveis, conforme regras do Comitê de Ética em Pesquisa. Ao final da fase de coleta dos dados, foram alcançadas 27 respostas ao questionário, entre os meses de agosto e dezembro de 2022.

O instrumento para coleta dos dados, utilizado por Costa et al. (2021), pautado no Modelo Holístico de Desenvolvimento da Carreira Esportiva (Wylleman et al., 2013), é composto por cinco eixos: (i) Trajetória Esportiva; (ii) Trajetória Educacional; (iii) Conciliação entre esportes e estudos; (iv) Configuração Familiar; (v) Exigências Financeiras para DC. Os dados foram tabulados em planilha Microsoft Excel®, e as análises foram realizadas no software JAMOVI versão 2.3 (The jamovi Project, 2022). Com base nas respostas dos questionários, analisamos e aprofundamos três eixos no estudo, sendo: perfil socioeconômico, perfil de prática esportiva e perfil educacional. Foram realizados testes de Shapiro-Wilk para verificação da normalidade da distribuição quando necessário. Em função da não normalidade das distribuições, adotaram-se a mediana e o primeiro e terceiro quartis como padrão de medida de tendência central e descrição dos dados. Além disso, os testes de comparação de medidas de tendência escolhidos foram os destinados a esse perfil de distribuição, a saber: U de Mann-Whitney para diferença entre dois grupos; Kruskal-Wallis para diferenças entre três ou mais grupos; Dwass-Stell-Critchlow-Fligner para comparações pareadas. Utilizaram-se ainda o Qui-quadrado e o Exato de Fisher, quando necessário, para possíveis associações entre variáveis categóricas.

Todos os dados coletados para a pesquisa foram tratados de maneira acadêmica, seguindo o protocolo do comitê de ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília (FS-UnB), com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE), número 51469321.0.0000.0030.

Resultados

Perfis sociodemográficos

A amostra foi constituída por 27 atletas, sendo 11 homens e 16 mulheres, com a mediana da idade de 18 anos e o primeiro e terceiro quartis sendo de 16 e 20 anos, sendo que o mais tinha 13 anos de idade, e o mais velho, 41 anos de idade. Com relação à moradia, a maioria reside em casa/apartamento com os pais ou parentes (23), enquanto 5 residem sozinhos ou com seu núcleo familiar.

A respeito da escolarização dos pais, destacamos alto grau de instrução em grande parte da amostra, sendo 25 com ensino superior completo; 1 atleta não soube responder o nível de escolarização da mãe; e 3 não souberam responder o nível de escolarização dos pais (Tabela 1).

Tabela 1
Escolarização dos pais

Com relação à classificação econômica, apresenta-se na tabela abaixo a distribuição de frequências segundo o Critério Brasil de Classificação Econômica proposto pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep, 2022).2 Destaca-se que não há atletas pertencentes às categorias D e E descritos na amostra analisada. Nesse sentido, apresentam-se na tabela as proporções esperadas por classes no Brasil para efeito de análise e comparação (Tabela 2).

Tabela 2
Distribuição de frequências e proporções pelas classes sociais de acordo com o critério ABEP e proporções da população brasileira

Como os resultados demonstram a inexistência de atletas em duas classes (D e E), não foi executado nenhum teste estatístico para confirmar as diferenças que ficam evidenciadas pela própria distribuição de frequências. Evidencia-se, assim, a tendência de os atletas de saltos pertencerem às classes sociais mais elevadas, com 85,1% da amostra distribuída entre as classes A e B.

Verificaram-se associações significativas entre grau de instrução dos pais (p=0.009) e das mães (p=0.002) e classes sociais dos entrevistados. Na classe A, todos os pais tinham formação em nível superior, enquanto na classe C nenhum havia alcançado esse nível de formação. Na classe B, sete pais tinham nível superior, e nove, não. Para as mães da classe A, apenas uma não possuía formação em nível superior, enquanto na classe C, nenhuma das quatro havia cursado o ensino superior. Para a classe B, três tinham curso superior, e onze, não.

Perfil de prática esportiva

A distribuição das categorias dos atletas apontou na categoria Adulto (9), A (12) e B (6). Destes, 22 (81,5%) viajaram para competir e/ou treinar fora de Brasília em 2022, ano de aplicação do questionário. A mediana dos dias em viagem foi de 20 (6 e 31 – primeiro e terceiro quartis). Com relação às horas semanais dedicadas ao esporte, verificou-se que a mediana foi de 24 horas (20 e 30 – primeiro e terceiro quartis).

Com relação ao auxílio do programa bolsa atleta, apresenta-se a tabela 3 com a distribuição de frequências entre as categorias e o recebimento ou não do benefício.

Tabela 3
Tabulação cruzada entre as categorias dos atletas e a condição de beneficiário <span class="pdf-reverse-miss" title="Texto no PDF ausente no HTML: "Programa bolsa atleta"" data-missing="Programa bolsa atleta">do Programa</span> bolsa atleta

Dos 27 atletas, 20 são beneficiados pelo Programa Bolsa Atleta. Percebe-se que os beneficiários do programa concentram-se nas categorias Adulto e A, não havendo atletas da categoria B contemplados. Ressalta-se ainda que sete dos oito atletas da categoria Adulto relataram que a ausência do benefício inviabilizaria suas carreiras. No mesmo sentido, onze dos doze atletas contemplados na categoria A também assinalaram a mesma questão. Comparou-se a diferença entre os dias de viagens para competir/treinar e a carga horária semanal entre os atletas beneficiados e os não beneficiados pelo programa (Tabela 4).

Tabela 4
Comparação das medidas de tendência entre os beneficiários e os não beneficiários do Programa Bolsa Atleta com relação aos dias de viagem para treinar e competir e horas semanais dedicadas ao esporte

Foi observado que os atletas contemplados pelo programa têm a mediana de 24.5 dias de viagem no ano, enquanto os não contemplados têm uma mediana de 5. Com relação às horas de treino, as diferenças foram de 29 horas semanais para os contemplados e de 18 horas para os não contemplados. O teste de diferença de medidas de tendência utilizado foi o de Mann-Whitney, devido à distribuição não normal dos dados, de acordo com o teste de Shapiro-Wilk.

Com intuito de verificar se havia diferenças nas variáveis em função da categoria, foi realizado o teste de Kruskal-Wallis com as mesmas variáveis entre os atletas das categorias Adulto, A e B (Tabela 5).

Tabela 5
Teste de diferença de medidas de tendência entre as categorias pelas variáveis dias em viagem para treinar/competir e horas semanais dedicadas ao esporte e seus respectivos post-hocs por categorias

Os resultados demonstraram que não existem diferenças entre as horas semanais dedicadas ao esporte para os atletas. No entanto, existe uma diferença entre os dias de viagem para treinos/competição entre as categorias Adulto e A e os atletas da categoria B. Por meio da tabela é possível perceber que não há diferença entre os dias em viagem para os atletas das categorias Adulto e A.

Compreende-se que há uma associação entre as categorias Adulto e A e o Programa Bolsa Atleta, e que os atletas que as compõem têm maior comprometimento em dias de viagem e horas de treinamento em relação aos da categoria B. No entanto, as horas semanais dedicadas ao treinamento não apresentam diferença significativa entre as três categorias.

Perfil educacional

Com relação ao perfil educacional, 22 atletas estavam matriculados em instituições de ensino, divididos entre educação básica (15) e graduação (7). Destes, 14 estudam em instituições públicas (13 na educação básica, 1 no ensino superior) e 8 estudam em instituições particulares (2 na educação básica, 6 no ensino superior). A maioria dos atletas estava matriculada no turno diurno (12), enquanto 4 estavam no turno noturno, 2 no integral e 4 optaram pela modalidade EAD. Dos 5 atletas que afirmaram não estar estudando, 2 concluíram o ensino superior, 2 concluíram o ensino médio e apenas 1 havia interrompido os estudos no primeiro ano do ensino médio.

Destaca-se, no entanto, que existe uma forte associação entre os saltadores que cursam a educação básica estarem matriculados em escolas públicas e os que cursam graduação em nível superior estarem em instituições particulares (p=0.002).

Tabela 6
Comparação do nível educacional dos atletas com o tipo de escola

A respeito de reprovação, apenas dois atletas afirmaram ter reprovado uma vez no percurso da educação básica, sendo que apenas um atleta apontou o esporte como forte motivo para tal. No caso da interrupção dos estudos, três atletas afirmaram ter interrompido sua trajetória acadêmica em algum momento e que essa interrupção foi motivada fortemente pelas demandas esportivas. Os mesmos três atletas alegaram que a interrupção nunca havia sido motivada por questões familiares ou por trabalho. Ressalta-se também que 70,3% dos atletas apontam algum nível de dificuldade em cumprir com as atividades escolares/universitárias em função dos compromissos esportivos, seja raramente (25,9%), frequentemente (40,7%) ou sempre (3,7%).

Observada a necessidade de realização de viagens para cumprir com compromissos esportivos, perguntamos sobre as estratégias oferecidas pela instituição de ensino para atender às demandas educacionais. O principal dispositivo utilizado é a justificativa das faltas e a remarcação das avaliações. Ao passo que a oferta de tutores/monitores e aulas extras são recursos menos frequentes.

Figura 1
Distribuição em proporção percentual das oportunidades oferecidas pelas instituições de ensino nas quais os atletas estavam matriculados.

Por último, dos 27 atletas, 18 desejavam concluir o nível de pós-graduação, seguidos por 8 atletas que desejavam a conclusão do ensino superior e apenas 1 atleta almejava concluir o ensino médio. Não foi encontrada associação entre o nível educacional desejado e a classe econômica (p=1.00); também não foi identificada associação entre o nível educacional desejado e a escolarização das mães (p=0.501) ou dos pais (p=0.473). Não houve associação entre o grau acadêmico pretendido e a expectativa de conclusão (p=0.628).

Discussão

O processo atlético de formação, em busca do sucesso esportivo nacional e internacional, constitui um espaço exigente de investimentos em diferentes níveis: (i) individuais (atletas, familiares, amigos, treinadores etc.); (ii) da legislação vigente, sobretudo para a performance em longo prazo; (iii) e das políticas públicas e institucionais consolidadas, além do contexto social, cultural e econômico experimentado pela população (De Bosscher et al., 2006).

No Brasil, o futebol é o esporte que domina o cenário televisivo (Capelo, 2016), tornando outras modalidades esportivas menos atrativas pelo ponto de vista da exposição e, consequentemente, do investimento de patrocinadores. Sendo assim, os saltos ornamentais configuram-se como modalidade de exposição midiática quadrienal, limitando seu potencial de angariar investimentos (Costa et al., 2021). Nesse e em outros contextos similares, o Estado surge como importante patrocinador do esporte brasileiro mediante diferentes iniciativas de fomento (Carneiro et al., 2018; Mascarenhas et al., 2013; Mazzei et al., 2014; Teixeira et al., 2017) possibilitando que o atleta, o paratleta e o surdo atleta consigam desenvolver sua condição esportiva, seja pelos investimentos realizados em instalações esportivas, o desenvolvimento e a identificação de talentos (Mazzei et al., 2014; Teixeira et al., 2017), seja pelo financiamento direto através do Programa Bolsa Atleta (PBA).

A concessão do Bolsa Atleta se dá a partir de critérios que consideram a filiação a uma entidade de prática desportiva, a participação em competições (nacionais ou internacionais), ou ainda a participação em finais e o ganho de medalhas (Ministério do Esporte, s.d.). Os dados analisados por Costa et al. (2021) revelaram uma amostra com atletas de alto rendimento dos Saltos Ornamentais com forte presença do Estado enquanto patrocinador do atleta. Neste estudo, repete-se tal resultado para esporte de rendimento na modalidade: dos 27 atletas, 20 foram contemplados. Justamente os 7 atletas não contemplados encontram-se na Categoria B, atletas de menor idade em relação aos demais (Categoria A e Adulto). Apesar de não haver diferença significativa entre a quantidade de horas dispendida para treinos, a ausência de bolsas na Categoria B pode ser justificada pelos níveis de performance entre as categorias, uma vez que os atletas mais velhos têm mais experiência e se encontram no período de auge da carreira esportiva (Stambulova et al., 2009). Logo, esses atletas performam mais vezes e em maiores níveis de rendimento, justificando o aumento da frequência em viagens e as possibilidades de participações e conquistas de medalhas em nível nacional e internacional, um dos requisitos apresentado pelo PBA para pleito às bolsas ou ainda, quando consolidado, para a manutenção e permanência no programa.

Logo, o caminho para custeio das condições necessárias para conquistas de melhores níveis de performance, viagens para competições e ingresso no PBA nasce no ambiente familiar. Diante disso, as famílias dos atletas estudados pertenciam aos estratos econômicos mais altos (89% presentes nos estratos A e B), além de observada a ausência de famílias figurando em categorias mais baixas (D e E) e apenas uma família identificada na categoria C2. A literatura acerca do impacto da família no desenvolvimento da DC dos filhos estudantes atletas aponta para suporte diverso, perpassando por questões de apoio psicológico e de motivação para ingresso e permanência no esporte, bem como apoio financeiro para viabilização desses processos (Figueiredo & Scremin, 2023; López de Subijana Hernández & Equiza Vaquero, 2018).

A respeito da legislação vigente no Brasil, a produção científica nacional tem apontado para a real necessidade de discussão do reconhecimento da condição do estudante-atleta (Carvalho & Haas, 2015; Costa & Figueiredo, 2021; Rocha, Pinto et al., 2021). A formação de um atleta acontece desde a sua infância, atravessa a sua adolescência e tensiona os tempos de estudos desse jovem em formação, e por isso o acompanhamento permanente da DC torna-se fundamental para o sucesso tanto no esporte quanto na formação profissional (Costa et al., 2018; Folle et al., 2016; Lima et al., 2022; Melo et al., 2020; Rocha, Melo et al., 2021).

Ao passo que o estudo de Costa et al. (2021) apresentou um perfil de saltadores ornamentais que alcançam a conciliação entre as demandas esportivas e as escolares/acadêmicas, houve relatos de atletas indicando a interrupção dos estudos em algum momento do processo de formação. Nesse sentido, os dados desta pesquisa apontam a interrupção dos estudos em apenas um caso, considerado crítico por ter ocorrido no decurso do ensino básico obrigatório (1ª Série do Ensino Médio). Foram identificados casos de finalização dos estudos no ensino médio (dois casos) e no ensino superior (dois casos). Por um lado, esses dados reforçam a priorização do esporte de alto rendimento em detrimento dos estudos (interrupção durante o EM e não prosseguimento ao ensino superior não obrigatório); por outro, apontam a necessidade de atendimento aos atletas no ensino superior com condições de acesso e conclusão. É importante ressaltar que a educação básica obrigatória no Brasil se dá até o final do ensino médio (dos 4 aos 17 anos), tendo como opção a continuação dos estudos no nível técnico ou no ensino superior, uma opção que atualmente figura como necessidade para qualificação profissional e busca de postos de trabalho melhores. Nesse sentido, Ribeiro et al. (2025) estimaram o retorno salarial da escolaridade no Brasil entre 1995 e 2023. Os autores chamam a atenção para o declínio do retorno salarial para todos os níveis de escolaridade até 2016, quando esse declínio diminui apenas para grupos com níveis mais elevados de instrução. Além disso, o aumento do acesso ao nível superior ocasionou a saturação entre oferta e demanda de mão de obra qualificada, alocando trabalhadores melhor preparados em postos de trabalho equivalentes a menores níveis de instrução, ampliando inclusive a desigualdade em grupos que antes ocupavam tais postos.

Nesse caso, a literatura trata da transição para fora do esporte, ressaltando a diversidade de fatores que impactam a carreira esportiva e como os atletas lidam com esses desafios até o período de transição para fora do esporte e adaptação a uma “nova vida” (Gordon & Lavalle, 2012; Torregrosa et al., 2015; Wylleman & Rosier, 2016). Diante disso, Vilanova e Puig (2016) identificaram dois perfis de indivíduos em meio a 26 atletas olímpicos espanhóis de diferentes modalidades, os atletas estrategistas e os não estrategistas. A diferença significativa entre os perfis consiste na ciência da necessidade de se prepararem para a retirada esportiva, investindo na educação, em trabalhos paralelos, educação financeira etc., aspectos negligenciados pelo grupo de atletas não estrategistas que concentravam todos os esforços na carreira esportiva.

Verificamos neste estudo associação entre o tipo de escola (pública ou privada) e o nível de escolarização (básica ou superior) – p=0.002. Um dos principais problemas encontrados na dupla carreira esportiva e acadêmica é a organização do tempo e a necessidade de flexibilização das demandas escolares (Melo et al., 2014; Wanzeler, 2023). Nesse sentido, a partir do sucesso esportivo alcançado, os atletas buscam soluções para adequar a rotina educacional que impactem menos na rotina exigida pela carreira esportiva. No caso dos saltos ornamentais, encontramos a busca pelo ensino básico público (13 de 15) e o ensino superior privado noturno (2 de 6) ou ensino a distância privado (4 de 6). Apenas um atleta cumpria sua rotina universitária em instituição pública e no período diurno.

Para a realidade brasileira, é necessário melhor compreender como atletas e família elaboram essas estratégias para estabelecer essa conciliação. A literatura tem mostrado que os atletas conseguem atingir um nível de escolarização maior que a média da população brasileira (Correia & Soares, 2016; Costa et al., 2021; Crema et al., 2023; Maquiaveli et al., 2021; Ricci & Marques, 2023). Ao mesmo tempo, estudos no futebol têm demonstrado que, por vezes, os atletas optam por buscar escolas de menor prestígio, ou o ensino semipresencial (Barreto, 2012). Logo, a qualidade da conciliação alcançada é uma importante lacuna verificada ao longo dos últimos anos nos estudos sobre DC. É importante destacar que, apesar do aumento de estudos sobre o futebol, tal realidade deve ser ponderada quando comparada às demais modalidades, devido ao seu apelo cultural e econômico.

Outro dado importante para a análise diz respeito à expectativa dos atletas em cumprir o ensino superior (26); ao mesmo tempo em que quatro manifestaram não ser possível alcançar essa expectativa, alegando falta de tempo para estudar, seja por desmotivação com o ensino a distância, seja pela forte dedicação ao esporte. Este cenário demonstra alta expectativa para os estudos, sobretudo quando comparamos com o remo e o futebol (57% e 56%, respectivamente) (Correia & Soares, 2016). Como alicerce fundamental para o desenvolvimento da carreira esportiva, a família surge novamente por meio dos altos níveis de instrução identificados nos dados (10 mães e 15 pais com o ES completo). Assim como na presente amostra, o estudo de Costa et al. (2021) mostrou alto nível de escolarização dos pais, reforçando, portanto, a importância da escolarização da família no processo decisório a respeito do desenvolvimento da DC. No entanto, não foram encontradas associações significativas entre o nível educacional desejado pelos atletas e o grau de instrução dos pais, bem como entre o nível educacional almejado e a classificação socioeconômica dos atletas. Por outro lado, foi identificada associação significativa entre o grau de instrução dos pais e a classificação socioeconômica de seus filhos, os atletas entrevistados. Tais resultados corroboram o estudo de Santos et al. (2019), que objetivou avaliar os efeitos da educação dos pais sobre o desempenho escolar dos filhos no ensino público brasileiro a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), Censo Escolar e da Plataforma de Indicadores Sociais disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), para o ano de 2015. O estudo verificou o impacto indireto do grau de instrução dos pais via condição socioeconômica favorável da família no rendimento escolar dos filhos. Além disso, também foi observado que pais com ensino superior completo contribuem mais de maneira indireta via condição socioeconômica no desempenho escolar de sua prole do que de maneira direta mediante a relação entre grau de instrução e rendimento escolar.

A lógica identificada na amostra é de atletas estudantes matriculados no ensino que melhor atende à necessidade de conciliação entre as demandas do esporte e da escola. Nesse ponto, a maioria dos atletas que cursavam a educação básica estavam matriculados em instituições de ensino públicas, ao passo que atletas universitários estavam matriculados em instituições privadas. Essa mesma configuração foi verificada em um estudo que investigou o processo de DC com atletas brasileiros que participaram do Pan Americano Junior de Cáli (Wanzeler, 2023). Considerando que a maior dificuldade do estudante atleta é a organização da sua rotina diária entre as atividades esportivas e educacionais, aliada ao dado socioeconômico de que são oriundos de classes média e alta, permite-se acreditar que a matrícula no ensino público para a educação básica seja uma estratégia que prioriza as demandas esportivas em relação à formação educacional. Por conseguinte, a matrícula no ensino superior em instituição privada pode se dar por diversos motivos, como a possibilidade de o ensino ser 100% remoto, o aluno estar matriculado no período noturno, haver ou não disponibilidade de bolsas de estudo, ter flexibilização no processo avaliativo etc.

Diante do tensionamento provocado pelas demandas esportivas sobre as obrigações educacionais na DC, fica marcada a necessidade de suporte para elaboração de estratégias que possibilitem seu pleno desenvolvimento. Os dados colhidos sobre os tipos de suporte presentes na DC dos atletas estudados convergem para a remarcação de avaliações e a justificativa de faltas relacionadas a viagens e participações em competições. Tais resultados vão ao encontro de estudos com atletas em diversos níveis educacionais e diversas modalidades esportivas, como universitários de alto rendimento, de representação, atletas de base da seleção brasileira de basquetebol e atletas de judô (Azevedo, 2012; Costa et al., 2024; Emerick, 2019; Miranda et al., 2020).

Tais resultados se assemelham ao tratamento dado ao estudante que não é atleta, amparado pela legislação educacional quanto ao cumprimento mínimo de 75% da carga horária total do ano letivo, além da remarcação das avaliações em casos de tratamento de saúde (Lei nº 9.394/1996). Sendo assim, o amparo ao atleta estudante reside em princípios gerais da constituição e da legislação educacional brasileira, como a garantia da educação como direito de todos (artigos 205 e 206 da Constituição Federal), o estabelecimento de ajustes e estratégias de recuperação e acompanhamento escolar como dever do corpo docente (artigo 13, inciso II, da LDB) e o cumprimento mínimo da frequência de 75% na escola (artigo 24, inciso IV, da LDB) sem garantias de suporte e acompanhamento adequados ao estudante atleta, que muitas vezes acontece por iniciativa da família em comunicação com a instituição de ensino (Brasil, 1988; Haas & Carvalho, 2018; Costa & Figueiredo, 2021; Figueiredo & Scremin, 2023). Especificamente no Distrito Federal, desde março de 2022, está regulamentada, por meio do Decreto nº 43.142, a proteção integral aos direitos do estudante-atleta, prevendo sua distinção a partir da vinculação esportiva e da representação do DF em competições. A norma também garante a compensação de ausências, a flexibilidade de datas para a realização de avaliações e entrega de trabalhos, bem como a reposição de conteúdos perdidos, de forma presencial ou online. Com relação a este último aspecto, 15 dos 22 atletas matriculados apontaram não serem contemplados.

É importante ressaltar que, para além da presença nas instituições de ensino, o atleta estudante precisa alcançar aproveitamento em suas atividades acadêmicas. Isso significa que a reposição de conteúdos perdidos e a presença de um tutor/monitor para auxiliar na organização de suas tarefas tornam-se estratégias de suporte fundamentais. Dessa maneira, é importante ressaltar a necessidade de sensibilizar tanto instituições esportivas como educacionais sobre a condição atípica do estudante atleta e suas necessidades, para que haja a busca por uma relação simbiótica positiva entre a carreira esportiva e acadêmica (Figueiredo & Scremin, 2023; Oliveira et al., 2022; Rocha et al., 2020; Silva & Eherenberg, 2017). Nesse sentido, a produção científica internacional se destaca pela proposição de programas de tutoria e mentoria endereçados a essa população, enfatizando o suporte para busca de objetivos tanto dentro quanto fora do esporte de alto rendimento (Hallmann et al., 2023; López-Flores et al., 2021). A título de exemplificação, o projeto “Young Ordinary and Disabled Sports’ Athletes Mentors – YODA Mentors” apresenta uma proposta inovadora, pautada no treinamento de mentores que apresentem tanto perfil esportivo quanto educacional, a fim de oferecer suporte especializado para desenvolvimento da gestão da DC por parte dos atletas estudantes. Além disso, o projeto prevê a necessidade de estabelecer o programa no formato online diante da necessidade de viagens para competições, aspecto identificado na amostra estudada (López-Flores et al., 2021). Outro exemplo de sucesso encontra-se em Portugal, no projeto Unidades de “Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE)”, que articula de maneira eficaz o devido aproveitamento tanto dos estudos quanto da carreira esportiva de alto rendimento para atletas estudantes no âmbito presencial ou atletas que desenvolvem sua carreira esportiva no estrangeiro por meio de um sistema virtual de ensino e aprendizagem desenvolvido especificamente para o programa (Costa & Figueiredo, 2021).

Diante do exposto, percebe-se que as demandas esportivas ditam os níveis de priorização frente aos compromissos educacionais, que podem ser obrigatórios (ensino básico) e optativos (ensino superior), ilustrando a fluidez com que a dedicação à DC se altera em função do tempo e, consequentemente, dos níveis de performance dos atletas (Samblás, 2020). Logo, a realização de novas pesquisas que contemplem maiores níveis de diversidade dentro da amostra quanto às regiões do Brasil, bem como seu tamanho amostral, pode oferecer respostas mais amplas sobre as condições de conciliação. Além disso, estudos que contemplem de forma mais profunda as estratégias de enfrentamento desses atletas frente aos tensionamentos da DC podem fornecer percepções valiosas para formulação de programas de suporte ao atleta estudante dos saltos ornamentais no Brasil.

Conclusão

Por meio deste estudo foi possível identificar o perfil econômico e educacional dos atletas da modalidade de Saltos Ornamentais da elite do Brasil, a fim de contribuir para a discussão de políticas públicas e institucionais a respeito da formação esportiva e educacional desses indivíduos. Dito isso, o cenário brasileiro para o mercado esportivo apresenta condições menos favoráveis para outras modalidades esportivas que não sejam o futebol de campo masculino, tornando o Estado o principal financiador desses atletas, principalmente por meio do Programa Bolsa Atleta Federal (PBA). Logo, os requisitos de performance e presença em competições causam os principais tensionamentos na DC dos atletas de saltos ornamentais. Os resultados deste estudo avançam no sentido de ilustrar a fluidez com que esses fatores tensionadores se diferenciam principalmente entre a categoria B, com atletas mais jovens em especialização, e as categorias A e Adulto, com atletas mais experientes e consolidados no auge esportivo.

Dito isso, foi identificado que os estudantes atletas conseguem conciliar ambas as carreiras, mesmo que o esporte exija uma dedicação média de 26,1 horas semanais. Além disso, foi identificada a ausência de atraso escolar, tendo raros casos de repetência – não sendo o esporte o motivador principal. Tais características, somadas às expectativas de conclusão de níveis elevados de ensino, demonstram o perfil de atletas que percebem o fenômeno da DC e a partir disso expandem seus planejamentos para além da vida esportiva. Tal comportamento é nutrido por meio de um background familiar favorável de maneira indireta via impacto do nível de instrução dos pais no nível socioeconômico e por sua vez nas expectativas educacionais da amostra. Apesar da situação favorável apresentada, a lógica de ascensão no âmbito educacional demonstrada pelo perfil dos atletas converge para grande parte de matriculados no ensino básico público e para a maioria de atletas inseridos no ensino superior privado, mediante a busca de melhores níveis de flexibilização dos compromissos educacionais em favorecimento das demandas esportivas do alto rendimento.

Acerca dessa necessidade de conciliar ambas as carreiras com pleno aproveitamento, os resultados sinalizam para a necessidade de maior suporte por parte das instituições de ensino, uma vez que gerir e cumprir compromissos esportivos e educativos vai além de flexibilizações de datas e compensação de ausências. Nesse sentido, a presença de um tutor torna-se fundamental para orientação e acompanhamento dos atletas, elencando a criação de programas de treinamento e qualificação profissional para suprir tal demanda.

Contudo, mostra-se a importância e a necessidade de se aprofundar a compreensão em aspectos presentes tanto na formação e performance esportiva quanto na conciliação com a formação educacional, dada a complexidade multifatorial e dinâmica do processo de DC, apresentando diversos atores e ambientes que cercam e influenciam o atleta em suas maneiras de lidar com seu desenvolvimento, como ser humano, atleta, estudante, filho, cônjuge etc. Além disso, como limitação do estudo, a heterogeneidade etária e de desenvolvimento esportivo da amostra reflete a composição do centro de treinamento investigado e, embora não tenha sido explorada por meio de análises estratificadas devido ao tamanho amostral, aponta caminhos relevantes para investigações futuras.

Nesse sentido, estudos quantitativos com amostras maiores e longitudinais são indicados para melhor compreensão do desenvolvimento e fluidez da DC nos saltos ornamentais a partir de diferenças de região, de desempenho, de sexo, de condições socioeconômicas e diferenças geracionais nos percursos educacional e esportivo. Por outro lado, estudos qualitativos endereçados não só aos atletas, mas aos atores envolvidos no processo da DC, podem conferir maiores níveis de compreensão acerca de possibilidades e estratégias de enfrentamento elaboradas em busca do pleno desenvolvimento, tanto atlético quanto educacional.

  • Apoio e financiamento:
    Fundação de Apoio à Pesquisa - UFG, Edital n° 47/2021 - FEF/UnB.
    Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), Processo n.º 00193-00002180/2023-11
  • Ética em pesquisa:
    A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Plataforma Brasil, conforme Parecer nº 51469321.0.0000.0030.
  • Uso de I.A.:
    A autoria declara que não utilizou recursos de Inteligência Artificial (IA) em nenhuma fase do processo de preparação ou elaboração do manuscrito de sua autoria, incluindo, entre outros, recursos de geração de texto, imagens, código, resumos, traduções ou análises.
  • Revisão textual:
    Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Mayara Leite revisao@tikinet.com.br
    Versão e revisão em língua inglesa: Mauro Cesar da Silveira Costa comercial@ciadastraducoes.com.br
  • 1
    Constatamos este fato ao analisar as páginas eletrônicas das casas legislativas das unidades da federação, observando nove estados e o Distrito Federal com legislação aprovada (PE, AP, MG, AM, RO, TO, PR, RJ); quatro estados com proposta de lei em análise (GO, SP, CE, ES); e trreze estados sem iniciativas a respeito do reconhecimento ou atendimento ao estudante-atleta (AC, BA, MA, MS, MT, PA, PB, PI, RN, AL, RS, SC, SE).
  • 2
    A metodologia utilizada para desenvolvimento do Critério Brasil está pautada no livro Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil (Kamakura & Mazzon, 2013), além de ser baseado na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o delineamento para distribuição das classes apresentado no documento, “as estimativas para o total do Brasil e macrorregiões são baseadas em estudos probabilísticos nacionais realizados no ano de 2021 pelo DataFolha e pelo Ipec” (Abep, 2022).

Disponibilidade de dados:

Os autores disponibilizam os dados da pesquisa sob solicitação.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 2025
  • Revisado
    28 Set 2025
  • Revisado
    28 Jan 2026
  • Aceito
    04 Abr 2026
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