Open-access A autonomização do campo do ensino de sociologia no Brasil

The autonomization of the field of sociology teaching in Brazil

Oliveira, A. 2023. O campo do ensino de sociologia no Brasil. : gênese, agentes e disputas. Editora Café com Sociologia

O livro O campo do ensino de Sociologia no Brasil: gênese, agentes e disputas foi escrito por Amurabi Oliveira, professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Além de uma introdução e conclusão, o livro tem 236 páginas e está dividido em quatro capítulos. Deve-se destacar que o prefácio foi escrito pelo professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) Amaury Cesar Moraes. A obra foi publicada pela Editora Café com Sociologia, localizada na cidade de Maceió, editora que está à frente de diversas publicações de livros autorais, coletâneas e didáticos voltados ao ensino das ciências sociais. Amurabi Oliveira, autor da obra em questão, tem se destacado ao realizar uma série de atividades de pesquisa e orientações de pós-graduação voltadas à área. Além disso, é bolsista produtividade do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com projeto vinculado à temática, tendo organizado diversos dossiês em revistas acadêmicas, coordenando grupos de trabalho (GT) em diferentes eventos científicos das ciências sociais, sobre vários temas que atravessam o ensino de Sociologia no Brasil e no exterior.

Essa trajetória do autor demonstra, por um lado, que ele próprio é um agente interessado na reconstrução histórica das relações sociais e acadêmicas que são postas na escrita da obra. Por outro lado, ciente disso, o autor busca no início do livro fazer o exercício de “imaginação sociológica” (Mills, 1972) ao apresentar sua biografia relacionando-a com a reconstituição do espaço social acadêmico que busca descrever. O argumento central da obra é que nas últimas décadas, especificamente a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996, haveria se constituído um espaço social próprio do ensino de sociologia no Brasil. Esse espaço social emergiria a partir dos campos da sociologia e do ensino.

O argumento científico da obra recorre ao conceito de campo de Pierre Bourdieu (1930-2002), que tem sido mobilizado no estudo dos diversos fenômenos sociais, com forte entrada nas áreas da sociologia e da educação (Valle; Soulié, 2019), ainda que teóricos contemporâneos venham realizando cada vez mais críticas e tensionamentos sobre os conceitos do renomado sociólogo francês (Archer, 2011; Lahire, 2002; 2005). Apesar do livro não entrar nesses meandros, percebe-se no decorrer da obra um esforço descritivo-analítico entre a reconstrução histórica do espaço social denominado “Ensino de Sociologia” com os aspectos que delineiam teoricamente o conceito de campo. Para Amurabi Oliveira, existiriam agentes (pessoas e instituições), capitais simbólicos e até mesmo um habitus próprio desse espaço em processo de autonomização. No decorrer de quatro capítulos, o autor busca apresentar elementos conceituais, históricos e da política educacional a fim de corroborar essa hipótese, de que estaríamos diante de um processo de nascimento de um espaço social próprio voltado a pensar o ensino de sociologia no país.

No primeiro capítulo, denominado “O campo do ensino de Sociologia no Brasil”, o autor faz uma análise do conceito de campo e subcampo em Pierre Bourdieu, realizando um debate com outros trabalhos que já se debruçaram sobre o assunto. Além de fazer uma revisão da própria defesa de que o ensino de sociologia seria um subcampo com pouca capacidade de autonomia (Ferreira; Oliveira, 2015), diante da instabilidade da disciplina escolar decorrente das reformas educacionais ao longo da história da educação, o autor também faz uma crítica a definições mais atuais, como as de Mocelin (2020a; 2020b), que diferencia o campo e subcampo do ensino de Sociologia. Para Mocelin (2020a; 2020b), a primeira definição englobaria diversos agentes, tais como estudantes do ensino médio e da licenciatura em ciências sociais, professores da educação básica e do ensino superior, autores de livros didáticos e pesquisadores da área, enquanto o segundo conceito estaria mais limitado às pesquisas desenvolvidas em nível de pós-graduação, ou seja, restrita a uma comunidade de pesquisadores. No entanto, Amurabi Oliveira discorda dessa definição, uma vez que

… os agentes que integram a comunidade científica do ensino de sociologia não compõem um subcampo dentro de um campo mais amplo do ensino de sociologia, como apregoa Mocelin (2020a, 2020b), mas sim que eles ocupam a posição dominantes nesse espaço, havendo disputas entre esses agentes em torno da doxa do campo. Isso reflete também o fato de que as universidades e instituições de pesquisa ocupam uma posição dominante nesse campo, e que efetivamente trata-se de um campo de poder

(Oliveira, 2023, pp. 52-53).

Mais do que pensar sobre a existência ou não de um campo do ensino de sociologia no Brasil, o que esse capítulo nos faz pensar é sobre o quanto esse debate tem movimentado a produção científica da área, uma vez que vários outros trabalhos têm surgido a partir dessa discussão, em grande medida defendendo uma certa posição de legitimidade ou de relevância dessas pesquisas para a constituição de uma área de atuação profissional (Mocelin, 2023).

O segundo capítulo, intitulado, “A história pregressa do campo do ensino de sociologia: entre a autonomia e a heteronomia”, volta-se para uma discussão sobre a história do ensino de sociologia no Brasil. Cabe destacar que apesar das inúmeras pesquisas que visam reconstituir a história da disciplina, seja a partir dos marcos legais, agentes, instituições ou fontes documentais, o autor acaba inovando ao evitar recontar essa história, mas de maneira instigante nos leva a pensar, a partir de uma análise sociológica, os “dissensos” históricos entre os pesquisadores. Entre eles merece destaque a concepção de que, apesar da história centenária da disciplina no país, não existiam condições objetivas para se falar em campo do ensino de sociologia na primeira metade do século XX. São apresentados e discutidos textos consagrados nessa história, como aqueles escritos por Florestan Fernandes (1954) e Antônio Cândido (1954) em ocasião do primeiro Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado em São Paulo, ou, ainda, a ideia de que, apesar da disciplina ter saído do currículo do ensino secundário em 1942, os cursos de ciências sociais não param de formar professores de sociologia, ainda que tais profissionais ensinassem outras disciplinas na escola, como geografia, história, organização social e política brasileira (OSPB), entre outras. Ademais, outras características históricas são abordadas, das quais se destacam a relação entre a ditadura militar e o ensino de sociologia, bem como a relação entre formação de professores, os cursos de ciências sociais e o mercado de trabalho no período.

O terceiro capítulo, denominado “Gênese de um campo: o ensino de Sociologia após a LDB de 1996”, volta-se para o desenvolvimento da ideia de que o campo do ensino de sociologia no Brasil teve início a partir da promulgação da LBDEN de 1996, “… não apenas porque ela fez menção ao ensino de conhecimentos de sociologia em seu texto, mas também porque esse dispositivo legal impactou todas as licenciaturas, dando maior especificidade ao campo de atuação de tais cursos” (Oliveira, 2023, p. 115). Assim, o autor faz um balanço dos principais documentos curriculares produzidos nesse período, bem como da organização dos estados em relação a seus currículos, dos quais muitos já haviam incluído o ensino de sociologia como disciplina, o que vai gerar condições políticas e pedagógicas propícias para que uma geração de líderes sindicais, acadêmicos e estudantes possam reivindicar a criação de um projeto de lei (PL) que obrigue o ensino de sociologia no Ensino Médio em território nacional. Nesse capítulo, alguns projetos e agentes ganham destaque, tais como as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM) da área de sociologia e seus idealizadores – Amaury Cesar Moraes, Elizabeth Guimarães e Nelson Tomazi. Também se destaca o esforço do autor em apresentar quais capitais e posições sociais eram adotadas e reconhecidas por essa “geração pedagógica” pós LDBEN.

O capítulo quatro, “Um campo em processo de autonomização”, apresentará os meandros do processo de autonomização do subcampo do ensino de sociologia, com destaque para a criação da Comissão de Ensino da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), do Encontro Nacional do Ensino de Sociologia na Educação Básica (ENESEB) e da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS). Para o autor, é essencial perceber que a criação de um grupo de trabalho na SBS e o ENESEB “… foram passos fundamentais para a passagem de um subcampo para um campo de ensino de sociologia, considerando seu processo paulatino de autonomização” (Oliveira, 2023, p. 165). Além de apresentar esses processos institucionais de criação dos espaços em que vão circular agentes e capitais, o capítulo também aborda a “disputa pela doxa do campo” (Oliveira, 2023, p. 176), assim a ABECS, enquanto associação com congresso, revista e concurso de premiações próprios, ganha destaque no capítulo. Além disso, também analisa as políticas de formação de professores e os livros didáticos como bens simbólicos. Trata-se de um capítulo-chave que reconstitui uma história recente dos espaços de maior força acadêmica/científica sobre o campo do ensino de sociologia.

Por fim, as considerações finais vão abordar algo que é essencial a todo o estudo a que se vincula a perspectiva bourdieusiana do campo. Intitulado “O habitus de um campo em processo de autonomização”, o capítulo busca compreender as disposições sociais próprias desse espaço. Para o autor, é necessário que se perceba o habitus como uma socialização secundária, adquirida dentro dos cursos de licenciatura em ciências sociais, mas atravessada por outras lógicas de socialização que perpassam tanto a aderência às regras do jogo acadêmico, quando fazem referência à origem social e cultural dos estudantes, quanto ao ingresso no mercado de trabalho.

… é possível inferir que aqueles socializados, num momento em que o campo ainda era marcado demasiadamente pelos trabalhos ensaísticos, pelos relatos de experiências, tendem a possuir disposições distintas naqueles socializados quando o campo já está marcado por pesquisas com maior rigor teórico e metodológico. Já há uma geração de professores de ensino superior que realizaram suas pesquisas de pós-graduação dedicados ao ensino de sociologia, alguns deles atualmente já supervisionando novos trabalhos, atuando assim na formação da próxima geração de professores e pesquisadores

(Oliveira, 2023, p. 209).

O autor nos faz pensar que o processo de autonomização é inevitável, dado que essa temática reuniria todos os critérios empíricos necessários para analisarmos suas estruturas objetivas e subjetivas incorporadas nos agentes que participam de tal espaço.

O livro tem o mérito de apresentar os principais acontecimentos históricos e políticos que estabelecem o que conhecemos hoje como esse espaço social denominado ensino de sociologia, e que certamente continuarão alimentando o debate sobre essa questão, provocando outros questionamentos, como a relação intrínseca e conflituosa entre o sentido pedagógico do campo do ensino e o sentido analítico-descritivo do campo da sociologia. As licenciaturas seriam capazes de conciliar tais sentidos pedagógicos, ressignificando o lugar da formação de professores no atual modelo universitário? Ao se autonomizar, os agentes do campo do ensino de sociologia serão capazes de ocupar espaços de prestígio dentro do campo da sociologia e do ensino? Que valor terá o capital científico do ensino de sociologia no jogo acadêmico das ciências sociais? E das políticas públicas educacionais? Essas são algumas perguntas sobre as quais o livro nos faz pensar. Assim, considero que a obra é um convite para quem quer se familiarizar ou conhecer mais a fundo os acontecimentos acadêmicos e científicos ao redor dessa área de ensino e pesquisa no país.

  • Revisão textual:
    Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Rafaela Martinelli revisao@tikinet.com.br

Referências

  • Archer, M. S. (2011). Habitus, reflexividade e realismo. Dados, 54(1), 157-206.
  • Cândido, A. (1954). O papel do estudo sociológico da escola na sociologia educacional Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo, SP, Brasil. https://tinyurl.com/46cr6f9n
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  • Ferreira, V., & Oliveira, A. (2015). O ensino de Sociologia como um campo (ou subcampo) científico. Acta Scientiarum. Human and Social Sciences, 37(1), 31-39.
  • Fernandes, F. (1954). O ensino de sociologia na escola secundária brasileira Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo, SP, Brasil. https://tinyurl.com/28vjs6dw
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  • Lahire, B. (2002). Homem plural: os determinantes da ação Vozes.
  • Lahire, B. (2005). Patrimónios individuais de disposições para uma sociologia à escala individual. Sociologia, Problemas e Práticas, (49), 11-42.
  • Mills, C. W. (1972). A imaginação sociológica (3a ed). Zahar.
  • Mocelin, D. G. (2020a). O ensino da sociologia e o seu campo. In Brunetta, A. A; Bodart, C. N; Cigales, M. P. (Orgs.). Dicionário do ensino de sociologia(pp. 57-61). Editora Café com Sociologia.
  • Mocelin, D. G. (2020b). O ensino da sociologia e o seu campo. In Brunetta, A. A; Bodart, C. N; Cigales, M. P. (Orgs.). Dicionário do ensino de sociologia(pp. 397-402). Editora Café com Sociologia.
  • Mocelin, D. G. (2023). A pesquisa em defesa da sociologia escolar. Revista Contemporânea, 3(8), 10117-10142.
  • Oliveira, A. (2023). O campo do ensino de sociologia no Brasil: gênese, agentes e disputas Editora Café com Sociologia.
  • Valle, I. R., & Soulié, C. (2019). Pierre Bourdieu: uma sociologia ambiciosa da educação EdUFSC.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    18 Jan 2024
  • Aceito
    19 Maio 2024
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