Resumo
O estudo objetivou caracterizar o processo de territorialização no cuidado à pessoa com sobrepeso ou obesidade na Atenção Primária à Saúde do estado da Paraíba.
Métodos: estudo transversal, realizado com 487 profissionais atuantes em unidades básicas de saúde do estado da Paraíba.
Resultados: Poucos afirmaram avaliar os dados da Vigilância Alimentar e Nutricional com a equipe (32,0%). A construção dos mapas territoriais ocorreu prioritariamente através da existência de programas de proteção social (88,5%) e as prioridades encontradas foram famílias com portadores de doenças crônicas não transmissíveis (56,1%). Os problemas nutricionais foram priorizados (70%), sendo a discussão com a equipe interna da UBS a medida mais adotada para essa seleção (69,2%).
Conclusão: a pessoa com sobrepeso ou obesidade ainda não está incluída de forma satisfatória nas práticas de territorialização e as análises dos dados da vigilância alimentar e nutricional ainda são precárias.
Palavras-chave:
Territorialização da Atenção Primária; Atenção Primária à Saúde; Obesidade
Abstract
The study aimed to characterize the process of territorialization in the care of overweight or obese people in Primary Health Care in the state of Paraíba.
Methods: Cross-sectional study, carried out with 487 professionals working in basic health units in the state of Paraíba.
Results: Few reported evaluating Food and Nutrition Surveillance data with the team (32.0%). The construction of territorial maps took place primarily through the existence of social protection programs (88.5%) and the priorities found were families with chronic non-communicable diseases (56.1%). Nutritional problems were prioritized (70%), with discussion with the UBS internal team being the most adopted measure for this selection (69.2%).
Conclusion: overweight or obese people are still not satisfactorily included in territorialization practices and analyzes of food and nutritional surveillance data are still precarious.
Keywords:
Territorialization of Primary Care; Primary Health Care; Obesity
Introdução
Classificada como uma doença de caráter multifatorial, a obesidade tem atingido níveis alarmantes de crescimento, tornando-se um dos maiores problemas de saúde pública e uma das mais relevantes razões de mortes evitáveis a nível mundial (Reis et al., 2022). Diferentes fatores genéticos, ambientais e psicológicos estão intimamente ligados ao desenvolvimento desta doença (Fernandes; Costa, 2022). Ao mesmo tempo em que é considerada uma doença crônica não transmissível (DCNT), a obesidade também se configura como um fator de risco agravante para outras doenças, sobretudo como uma expressão da insegurança alimentar e nutricional que acomete a população em diferentes faixas etárias (Ferreira et al., 2021).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, as DCNT foram responsáveis por 70% das mortes ao redor do mundo. No cenário brasileiro, no mesmo ano, as DCNT são responsáveis por 41,8% das mortes entre pessoas de 30 a 69 anos de idade (Brasil, 2023). Ademais, no estado da Paraíba, em 2021, representaram de 42% a 44% de todas as mortes no estado (Paraíba, 2023).
Vale ressaltar que o estilo de vida é o principal precursor do desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis as quais podem levar à morte, como, por exemplo, o tabagismo, o consumo de alimentos industrializados e bebidas alcoólicas (Brasil, 2023).
Em um contexto marcado pelo crescimento acelerado do número de indivíduos acometidos pelas DCNT, é de extrema relevância que os serviços de saúde se organizem de maneira que possam prestar suporte a essa população. Nesse contexto, o Brasil instituiu as Redes de Atenção à Saúde (RAS) a fim de garantir a integralidade do cuidado e da assistência, organizando a prevenção e o tratamento do sobrepeso e da obesidade na forma de linhas de cuidado prioritária da RAS das pessoas com doenças crônicas (Burlandy et al., 2020). Essa linha do cuidado é, então, organizada pela Atenção Primária à Saúde (APS), que assume a função de coordenadora do cuidado, por ser o elo mais próximo entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a população (Brandão et al., 2020).
A Estratégia Saúde da Família (ESF) funciona como um equipamento ordenador desse elo. Ela visa qualificar o cuidado e melhorar o acesso da população à APS, buscando reorganizá-la e consolidá-la no sentido de aprofundar seus princípios, diretrizes e fundamentos, ampliando, assim, a resolutividade e impactando positivamente na situação de saúde da população (Brasil, 2021). Faz-se, então, fundamental, conhecer a população adstrita e suas necessidades, para que se crie e fortaleça vínculos entre os profissionais e os usuários, figurando as práticas de territorialização como elementos indispensáveis e estratégicos a serem utilizados no âmbito da APS (Brasil, 2017).
O processo de territorialização é uma ferramenta básica para o planejamento das ações de trabalho da ESF, permitindo a identificação de problemas de saúde, sociais e demográficos da população, possibilitando o conhecimento da área delimitada para que seja possível um diagnóstico epidemiológico da mesma. Nesse contexto, o território não é visto apenas como um ambiente, mas como um conjunto de informações que nortearão os serviços de saúde de acordo com as necessidades da população em questão (Procópio; Almeida, 2020).
O uso dos mapas de território é uma maneira de planejar ações diretas à população, uma vez que são capazes de localizarem no território, famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade social, auxiliando o processo de diagnóstico local, identificação das necessidades da população, estilo de vida, hábitos e seus problemas de saúde. No tocante ao cuidado à pessoa com sobrepeso e obesidade, o mapa territorial permite, além de uma busca ativa dos casos, um cuidado mais próximo e fidelizado desse público (Brasil, 2017).
A redução da morbimortalidade por DCNT é um dos grandes objetivos implantados nas políticas públicas, voltadas à prevenção e o controle dessas doenças e de seus fatores de risco, além de apoiar os serviços de atenção à saúde direcionados às DCNT. Nessa conjuntura, a Paraíba enfrenta desafios relacionados à desigualdade de acesso à saúde de média e alta complexidade no sertão do estado, onde há uma maior necessidade de eficiência na Rede de Atenção à Saúde (RAS) (Paraíba, 2023).
Diante do exposto, o presente artigo tem por finalidade caracterizar o processo de territorialização no cuidado à pessoa com sobrepeso ou obesidade na Atenção Primária à Saúde do estado da Paraíba.
Métodos
Estudo transversal vinculado a um estudo de base populacional intitulado “Projeto de pesquisa, extensão e formação de gestores e trabalhadores do Sistema Único de Saúde para prevenção, diagnóstico e tratamento da obesidade da população da Paraíba”, realizado com os profissionais de saúde vinculados às Unidades Básicas de Saúde (UBS) do estado da Paraíba, entre janeiro e junho de 2021, em resposta à Chamada CNPq/MS/SAS/DAB/CGAN nº 26/2018 - Enfrentamento e Controle da Obesidade no âmbito do SUS, com apoio do Ministério da Saúde.
A Paraíba tem 1.765 UBS distribuídas em 223 municípios. A amostra foi definida em duas etapas. Inicialmente o cálculo amostral executado e replicado para todos os estados participantes do estudo nacional (realizado em 23 estados da Federação e no Distrito Federal), foi desenvolvido considerando o plano de amostragem aleatória por conglomerado, levando em consideração a margem de erro de 5%, o nível de confiança de 95% e a definição de quatro estratos de acordo com o tamanho da população: A: capital; B: municípios com mais de 150 mil habitantes; C: municípios entre 30 e 150 mil habitantes; D: municípios menores do que 30 mil habitantes. A fórmula utilizada considerou o esquema para determinar o tamanho da amostra com base numa população finita, com o objetivo de estimar proporções populacionais.
A partir dos cálculos, foram sorteadas 642 unidades distribuídas pelos quatro estratos para compor a amostra do estudo. Na segunda etapa da definição da amostra, o gestor / coordenador / gerente responsável pela UBS sorteada, indicava o profissional que participaria do estudo, sendo preferencialmente nutricionista ou na inexistência deste, outro profissional de nível superior que o gestor/coordenador/gerente indicasse como respondente à pesquisa, configurando assim, para cada UBS sorteada, um profissional de saúde foi selecionado para participar. Foi registrada uma perda de 24,1% (referente às unidades de saúde que foram desativadas; unidades que não se enquadraram na temática da pesquisa (a exemplo de núcleo de zoonoses); unidades consideradas âncoras (em que uma mesma equipe era responsável por unidades diferentes, ficando a cargo do município a escolha da resposta), perfazendo uma amostra final de 487 profissionais participantes.
A coleta dos dados foi realizada por meio do questionário on-line semiestruturado denominado “Organização, gestão e cuidado nutricional ofertado às pessoas com sobrepeso/obesidade na Atenção Primária de Saúde - APS”, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com os coordenadores nacionais do projeto, viabilizado em formato eletrônico através da plataforma Survey Monkey, por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina. O presente estudo utilizou apenas um recorte do questionário supracitado.
O disparo do instrumento para os municípios, bem como as devidas articulações junto às Secretarias Municipais e Estadual de Saúde, além do contato com respondentes, foi de inteira e individual responsabilidade das coordenações estaduais do projeto. Inicialmente fora realizado contato com os Coordenadores de Atenção Básica, via ligação telefônica e/ou aplicativo de mensagens WhatsApp, a fim de que fossem disponibilizados os contatos dos profissionais respondentes (a priori nutricionista e, na falta deste, profissional de nível superior que atuasse na linha de cuidado). Fora solicitado também o apoio dos Apoiadores Institucionais de saúde para reforço da coleta dos dados junto aos municípios. Em seguida, via e-mail, foi enviado o link de acesso ao instrumento de coleta dividido por municípios entre os estratos populacionais, além do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), estando a participação do profissional sujeita à concordância do mesmo.
O presente estudo considerou variáveis relativas às unidades básicas de saúde (município vinculado, macrorregião de saúde, gerência de saúde, tipologia), ao perfil sociodemográfico (sexo, grupo étnico) e profissional (formação básica, tempo e tipo de unidade em que atua) dos respondentes e à análise do território (dados e diagnóstico dos usuários, mapeamento do território, existência de programas de proteção social). O instrumento aplicado trouxe questões que deveriam ser respondidas com ‘sim’ ou ‘não’, bem como questões em que o respondente poderia marcar mais de uma alternativa que se aplicasse melhor à sua realidade. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva para conhecimento das frequências absoluta e relativa dos indicadores, através do software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 22.0.
A referida pesquisa é resultado de dissertação de mestrado acadêmico. Teve apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPesq-PB), aprovada pelo comitê de ética e pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) sob o CAAE: 17810619.1.0000.5187 e número de parecer 3.557.478. Os autores declaram não haver conflito de interesse.
Resultados
As análises foram realizadas a partir das respostas dos 487 profissionais de saúde incluídos na amostra. Sobre a caracterização das unidades básicas de saúde, a pesquisa revelou que 36,1% (Tabela 1), pertenciam à 2ª macrorregião de saúde (Figura 1), que compreende os municípios da 3ª, 4ª, 5ª, 15ª e 16ª regiões (Figura 2), seguido daquelas que se situam na 1ª macrorregião, com 34,3% (Tabela 1).
A maioria dos respondentes (20,3%) eram de unidades de saúde dos municípios da 1ª Região de Saúde, seguidos daqueles que fazem parte da 16ª (14,8%) e da 3ª (7,6%) regiões de saúde (Tabela 1). Observa-se, ainda, que 40,5% das unidades respondentes estão localizadas na área urbana central dos municípios (Tabela 1).
A média de idade encontrada foi de 34,3 ± 14,0 anos, sendo a maioria dos profissionais respondentes do sexo feminino (90,6%); autodeclarados como pardos (56,1%), com formação em Enfermagem (65,5%), atuantes em Unidades de Saúde da Família (46,2%), servidores públicos municipais concursados (48,5%) e tendo entre 1 e 10 anos na função (57,8%) (Tabela 2).
Na Tabela 3, observa-se que 58,5% dos respondentes afirmaram que, em seus locais de trabalho, são realizadas análises dos dados/diagnóstico dos usuários e do território, como avaliação do estado nutricional e do consumo alimentar, além de estudos sobre os determinantes dos problemas alimentares e nutricionais. Ao serem indagados sobre as fontes/origens utilizadas para obtenção desses dados, os sistemas SISVAN, SISAB e eSUS foram utilizados por 98,2% tanto para a coleta, registro e análise de dados do consumo alimentar, quanto para análise de dados do estado nutricional. Ainda em relação a esses dados, 59,2% dos respondentes afirmaram obtê-los através das demandas observadas nas visitas domiciliares.
Quando questionados sobre a discussão interna dos indicadores da VAN (Vigilância Alimentar e Nutricional) do território, 32,0% dos profissionais respondentes afirmaram realizar essa discussão, desses, 42,9% realizavam essa discussão interna mensalmente. Sobre com quem eram compartilhados esses dados, 18,7% afirmaram fazê-lo com a coordenação da gestão da atenção básica (Tabela 3).
Na Tabela 4, observa-se a caracterização do mapeamento do território. Quando perguntados se, em seu local de trabalho, no âmbito da atenção nutricional, é feito o mapeamento do território e/ou mapa de saúde, 61,0% (n=297) dos profissionais respondentes disseram que sim. Para a construção do mapa foi perguntado quais alternativas eram desenvolvidas, 88,5% afirmaram que a alternativa utilizada era o levantamento da existência de programas de proteção social, tais como Benefício de Prestação Continuada (BPC), Programa Bolsa Família (PBF) e outros providos pelos governos federal, estadual e/ou municipal.
Ainda na Tabela 4, pode-se observar quais condições os profissionais respondentes indicaram como prioritárias no mapa de saúde do território. A maioria deles (56,1%) afirmou serem as famílias/residências com portadores de doenças crônicas associadas à alimentação e nutrição (diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, entre outras). Outro dado que a Tabela 4 revela é a presença de espaços ou equipamentos públicos no mapa de saúde do território, a exemplo de escolas públicas; Centros de Referência de Assistência Social (CRASS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).
Sobre a realização de seleção e priorização dos problemas nutricionais, 70,0% dos profissionais respondentes disseram realizá-las. Diante disso, foi perguntado quais medidas eram adotadas para a seleção e priorização desses problemas a serem abordados no território, a maior parte dos respondentes (98,8%) afirmou que mantinham uma discussão com a equipe interna da UBS (Tabela 5).
Do mesmo modo, fora perguntando aos profissionais respondentes se existiam outras estratégias de identificação das demandas/necessidades de atenção nutricional e a tabela 5 revela que 40,9% afirmaram que sim. Quando solicitados que citassem tais estratégias, 32,2% dos respondentes afirmaram que realizavam acompanhamento (puericultura; crianças; idosos; individual; pré-natal; PBF; consultas; demandas livres; demandas de outras secretarias; CRAS; NASF; reuniões com a equipe); 16,1% usavam de estratégias através de programas (acad. Saúde / rest. Populares / melhor em casa / PSE / PNAE / SISVAN/ criação de hortas comunitárias); 15,6% identificavam as demandas através das visitas domiciliares (através do ACS, por médico, enfermeira); 9,1% através do atendimento (individual; coletivo; grupos; creches; escolas; usuários com necessidade de atenção nutricional; pelo nutricionista; clínico); 8,5% identificavam por meio de avaliação (nutricional; exames); 7,5% por meio de busca ativa (pelo ACS, grupos prioritários (hipertensos, diabéticos, obesos, gestantes); 6,5% através da coleta de dados (medidas antropométricas; aplicação de questionários) e 4,5% por meio de ações de educação (educação permanente; educação continuada; palestras; campanhas).
Discussão
Em relação ao perfil dos profissionais respondentes, o estudo mostra que são, em sua maioria, do sexo feminino, com idade média de 34,3 anos. O profissional da saúde pública é jovem e predominantemente feminino (Treviño-Reyna et al., 2021). Além disso, a predominância da enfermagem feminina é historicamente reconhecida, tendo Anna Nery pioneira na profissão no Brasil (Alvarenga; Sousa, 2022).
Essa presença massiva do profissional da enfermagem na APS dá-se, principalmente, pelo fato desse profissional possuir capacidade legal de administrar várias funções dentro da unidade, ao passo que ele atua na promoção da saúde e prevenção de agravos, também gerencia, supervisiona, planeja e desenvolve ações para toda equipe da unidade de saúde, ações que refletem na produção do cuidado ao indivíduo e à comunidade.
Ainda sobre o perfil profissional, a pesquisa diz que a maioria atua em Unidades de Saúde da Família (USF), revelando um dado que chama atenção: dos profissionais respondentes, a minoria atuava ou fazia parte do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), isso mostra o reflexo do desmonte que tanto o SUS quanto o próprio NASF sofreram desde o golpe político sofrido pela ex-presidenta Dilma Russef, quando assume o governo federal seu vice, Michel Temer (2016 a 2019). Assim, ocorreu o sucateamento das unidades de saúde, o desmonte, o pouquíssimo investimento financeiro no SUS pelo governo Temer, que se prolonga, e só piora, durante todo o governo de Jair Bolsonaro (2018-2022) especialmente durante a condução negligente da pandemia da Covid-19 no Brasil (Alvarez et al., 2022).
A pesquisa ainda revelou que a maioria dos profissionais respondentes possui vínculo estatutário e está na função há menos de 10 anos. Entretanto, uma considerável parte dos respondentes possuíam vínculo por contratos temporários, refletindo assim uma prática tão antiga quanto atual, que é a rotatividade dos profissionais mediante a mudança governamental, especialmente em municípios interioranos.
Com a saída recorrente de colaboradores há prejuízos à continuidade do cuidado, um dos pilares da APS, que é essencial para o acompanhamento completo e longitudinal dos pacientes. Ademais, a rotatividade pode gerar dificuldades no desenvolvimento de profissionais e pacientes ou seus familiares, o que é de grande importância para a construção de uma relação de confiança, principalmente na Estratégia Saúde da Família (ESF). Além disso, outro problema gerado é o elevado custo para o sistema de saúde, devido à necessidade de novas contratações e treinamentos desses novos profissionais, o que leva o desgaste dos trabalhadores já experientes, podendo resultar em uma queda na qualidade do atendimento e segurança dos serviços prestados (Piperno; Dias, 2022).
No âmbito da atenção nutricional, a maioria dos respondentes afirmou realizar análise do estado nutricional e consumo alimentar dos usuários, bem como estudos sobre os determinantes de problemas alimentares e nutricionais do território. A maior parte deles indicou que a fonte ou origem dos dados e diagnósticos dos usuários e do território foi obtida através das demandas observadas nas visitas domiciliares, quando o respondente pode observar de perto a necessidade do usuário. As visitas domiciliares podem influenciar a adesão ao serviço, aumentar o vínculo e trazer uma relação de continuidade do cuidado. Além disso, permite que o profissional se torne íntimo do usuário, quebrando barreiras e diminuindo a distância entre o cuidador e aquele que é cuidado. No domicílio, que é a menor fração do território, o profissional pode averiguar situações que, muitas vezes, o usuário omite quando vai à unidade de saúde, propiciando, assim, uma assistência ainda mais eficaz ao usuário, sobretudo àqueles que possuem dificuldade de locomoção, por exemplo (Furlanetto et al., 2020).
Embora tenha alcançado uma porcentagem bastante relevante neste estudo (98,2%), ressalta-se que, quando é analisada em separado a coleta, o registro ou a análise de dados do consumo alimentar ou do estado nutricional dos usuários, percebe-se uma baixa adesão dos profissionais a sistemas como SISVAN, SISAB e eSUS. Os sistemas como o SISVAN, na atenção básica, têm a finalidade de agrupar informações sobre o estado nutricional e alimentar da população, porém sua cobertura é aquém do que se espera e, consequentemente, fica em segundo plano. Isso, muitas vezes, é devido à falta de alimentação desses programas por gestores e responsáveis, bem como, por muitas vezes, pela falta de acesso do profissional à computadores, internet, além da sobrecarga de trabalho, que impede que o profissional cumpra com fidedignidade sua demanda de trabalho (Lima; Schmidt et al., 2018).
No tocante à discussão interna dos indicadores da Vigilância Alimentar e Nutricional nas suas equipes de trabalho, a maioria afirmou não realizar, divergindo, assim, do que diz a Política Nacional de Alimentação e Nutrição. A discussão desses indicadores interfere diretamente no cuidado à população pelos profissionais de saúde. É através deles que se pode subsidiar políticas de atenção a pessoas com sobrepeso ou obesidade, em déficit nutricional e, inclusive, em situação de vulnerabilidade social.
Os respondentes que mencionaram realizar essa discussão, afirmaram compartilhar os dados encontrados com alguns atores, como a coordenação geral da atenção básica dos municípios. Ela deve subsidiar ações que promovam análise do comportamento nutricional da população, a fim de promover conscientização sobre a importância de uma alimentação saudável, para o não aparecimento de doenças relacionadas à má alimentação, como a obesidade ou, em outro extremo, a desnutrição (Brasil, 2013).
Quanto ao território, conhecê-lo traz subsídios importantes para a organização dos serviços prestados dentro da APS. A maioria dos profissionais informou no estudo que faz o mapeamento do território. Os sistemas de países que têm por base o conhecimento do território são mais eficazes e equitativos, isso porque o conhecimento do território beneficia a população que passa a ser cuidada em sua integralidade e especificidade, ademais, esse conhecimento potencializa a eficácia das ações propostas e executadas pelos profissionais de saúde, porque vão de encontro a real necessidade do território, especialmente do usuário, propiciando, assim, um sistema de saúde efetivo, integral e equitativo, como de fato é o SUS (Reis, 2016).
Embora possua teoricamente todas as ferramentas para prosperar, a territorialização dentro da APS ainda é um processo inacabado. Mas, sabe-se que é fundamental para a criação de vínculo com a população, garantindo assim a efetivação dos princípios constitucionais do SUS, a exemplo da universalidade. Assim, a territorialização deve ser base de trabalho das equipes de saúde na atenção primária, mas sua progressão esbarra ainda em obstáculos políticos, geográficos e sociais (Viegas et al., 2020).
Para esse mapeamento, uma das importantes ferramentas é a construção do mapa de saúde do território, que proporciona às equipes o reconhecimento das famílias em situação de vulnerabilidade, para que se promovam ações de saúde (Tetemann et al., 2016).
No viés político, a visão neoliberal é oposta ao modelo de territorialização, pelo contrário, seu foco permanece no modelo hospitalocêntrico e privatista, o que faz com que a maioria populacional que necessita dos cuidados e atenção à saúde em sua totalidade e acessibilidade, seja notoriamente excluída, inclusive, de um sistema criado em benefício dela. Essa visão acabou trazendo prejuízos substanciais para a saúde pública, a saber, um sério desmonte dentro do SUS, corroborado com o já crônico subfinanciamento do mesmo (Farias, 2020).
A não obrigatoriedade da presença do Agente Comunitário de Saúde (ACS), a não definição da quantidade suficiente desse profissional para atender a demanda populacional, foi sem dúvidas, um dos piores resultados desse desmonte, que se refletiu sobremaneira no desenvolvimento das práticas de territorialização, tendo em vista que o ACS é o profissional, dentro da APS, responsável por quase que cem por cento das buscas ativas dentro da população, sendo essas buscas ativas a base fundamental para o desenvolvimento da territorialização. Ademais poucos investimentos, tanto da esfera federal quanto municipal, no SUS, representa um dos maiores obstáculos para a garantia da universalidade da assistência (Farias, 2020).
A maior parte dos respondentes afirmou que a alternativa utilizada para a construção do mapa se dar por muitas vezes através do levantamento da existência de programas de proteção social, tais como Benefício de Prestação Continuada (BPC), Programa Bolsa Família (PBF), entre outros providos pelas três esferas governamentais. Uma das condicionalidades do PBF, no tocante à saúde dentro da APS, são as ações de enfrentamento das situações de insegurança alimentar e nutricional (Brasil, 2015).
Os programas de proteção social estão profundamente conectados à construção dos mapas de saúde do território, que buscam identificar as necessidades e vulnerabilidades das populações locais. Esses programas atuam como ferramentas essenciais na promoção do bem-estar e na garantia de direitos das populações em risco, por meio de ações que mapeiam o acesso a serviços de saúde, habitação e outros fatores determinantes, que permite a construção de estratégias mais precisas, direcionando intervenções para áreas mais vulneráveis, promovendo uma distribuição mais equitativa dos recursos e oportunidades de acesso aos serviços essenciais (Fiocruz, 209).
Das condições identificadas como prioritárias no mapa de saúde, foi referida pelos participantes do estudo as famílias ou residências com portadores de doenças crônicas associadas à alimentação e nutrição. As doenças crônicas têm afetado consideravelmente o cenário epidemiológico do Brasil, fazendo com que seja necessário um acompanhamento específico pelas autoridades em saúde (Brasil et al., 2021).
Desse modo, diversos ambientes devem ser alvos das ações de vigilância alimentar e nutricional, de forma que, através do Programa Saúde na Escola (PSE), por exemplo, possam ser realizados diagnósticos nutricionais de escolares, a fim de que, caso necessário, sejam encaminhados a unidade de saúde (Marins, 2020). O mapeamento revela lacunas no acesso aos cuidados de saúde e orienta políticas públicas para melhorar a distribuição de serviços, monitorar o progresso de tratamentos e reduzir disparidades nos cuidados às condições crônicas (Calistro et al., 2021).
O resultado deste estudo ainda diz que a maioria dos profissionais realiza a seleção e priorização dos problemas nutricionais no seu local de atuação e realiza discussão interna com a equipe da unidade básica de saúde.
Para identificar as demandas e necessidades de atenção nutricional, são utilizadas estratégias, sendo a maior parte delas no seguimento do acompanhamento de idosos, pré-natal, puericultura e consultas. Assim, e o conhecimento do território e seu mapeamento faz com que as equipes reconheçam famílias em situação de vulnerabilidade e seja promovido ações de saúde. As ações de promoção da saúde que visam à integralidade do cuidado na APS devem ser realizadas por equipe multiprofissional, a fim de contemplar o usuário em sua totalidade (Tetemann; Trugilho; Sogame, 2016). Fato é que, definir limites para promoção da saúde da população é algo difícil, mas extremamente necessário de ser feito, pois só através do conhecimento do território, pode-se ofertar à população suprimentos diretamente ligados a suas necessidades (Bentes, 2019).
Algumas limitações foram encontradas durante a construção deste estudo. Por exemplo, o período de coleta dos dados coincidiu com o período pandêmico da Covid-19 vivido por todo mundo, onde muitos profissionais estavam afastados de suas atividades ou sobrecarregados, configurando um possível motivo pelo qual não responderam ao questionário. Outra limitação ocorreu no tocante aos dados do estudo serem oriundos de um instrumento autopreenchido, fato esse que ocasionou algumas perdas, bem como a difícil interpretação de algumas variáveis. Quando isso ocorria, eram realizadas ligações para contactar os profissionais na tentativa de preencher variáveis em branco ou esclarecer as dúvidas.
Conclusão
Esta pesquisa permitiu analisar a influência das práticas de territorialização dentro da APS no contexto do sobrepeso e da obesidade, sendo relevante visto serem ainda escassos os estudos que relacionam essas duas temáticas. A alta prevalência do sobrepeso e da obesidade a nível estadual não é diferente do que se observa no país e no mundo, revelando a necessidade de uma atuação mais enfática das equipes de saúde no cuidado à essa população, respeitando as necessidades de cada uma, o que efetivamente só pode ser feito quando se conhece bem o território, bem como a população adstrita.
Embora sejam realizadas análises dos usuários e do território, a discussão de indicadores que mapeiam essa população e servem de base para intervenção, promoção da saúde e prevenção de agravos, é pouco realizada, o que influencia diretamente no tipo de atendimento que é prestado às pessoas com sobrepeso ou obesidade.
No que diz respeito ao território e ao uso dos mapas de saúde, a pesquisa pôde revelar como as esquipes de saúde fazem uso dessa estratégia para mapear seus usuários, desenvolver ações de cuidado específicos, organizar os serviços destinados a estes, respeitando suas particularidades e especificidades.
É necessário, então, que a APS priorize a capacitação de suas equipes, induzindo-as a melhor utilização dos mapas de saúde, com foco especialmente sobre a população acometida pelo sobrepeso e a obesidade, conhecendo-a para que, além das ações de cuidado, priorize-se, sobretudo a prevenção e o diagnóstico prévio. Ademais, novos estudos que interliguem a temática da obesidade e a territorialização, são importantes para a fundamentação desse cuidado, bem como uma nova percepção dos dados fora do contexto da Covid-19, período em que os dados foram obtidos e analisados.1
Agradecimentos
À Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPesq-PB).
Referências
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J. G. A. Brandão, C. C. M. Medeiros e D. F. de Carvalho: análise e interpretação dos dados; revisão crítica relevante do conteúdo intelectual; aprovação da versão a ser publicada. R. C. Oliveira e A. S. de Farias: redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual; aprovação final da versão a ser publicada. Os autores são responsáveis por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra.
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Fonte: Portal Saúde da Paraíba, 2021.
Fonte: Portal Saúde da Paraíba, 2021.