Open-access O alemão na Europa hoje: pluralidade de normas e formas

German language in Europe today: plurality of norms and forms

. Deutsch in Europa: Vielfalt, Sprachnormen und Sprachgebrauch. Vierter Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Tübingen: Narr Francke, 2025. 10.24053/9783381135226

A obra aqui resenhada traz o quarto relatório a respeito da situação da língua alemã na Europa, organizado pela Academia Alemã para Língua e Poesia (Deutsche Akademie für Sprache und Dichtung) e pela União das Academias de Ciências da Alemanha (Union der deutschen Akademien der Wissenschaften). Apesar de as duas instituições organizadoras do volume serem sediadas na República Federal da Alemanha, uma rápida verificação no sumário revela que a equipe de cientistas é originária ou trabalha em quase todos os países da Europa, o que indica pelo menos um desejo de manter uma pluralidade de visões sobre a língua alemã.2

Trata-se de um compêndio de trabalhos acadêmicos com análises da situação da língua alemã dentro da Europa, como também o fizeram no passado autores como Wiesinger (1983), Ammon (1995), Hinderling e Eichinger (1996) e também Stickel (1997). Esse trabalho se insere no movimento de outras publicações dedicadas a línguas europeias, como a coletânea sobre o inglês Britain e Thurlow (2016).

Os três volumes anteriores, publicados pelas mesmas instituições, foram publicados desde 2013 com foco em diferentes temas. Como nos informa o Geleitwort:

Esta respeitada série começou em 2013 com o relatório sobre a riqueza e a pobreza da língua alemã; em 2017 o tema foram a variedade e a unidade da língua alemã; já em 2021 o terceiro relatório se voltou à língua [alemã] nas escolas, e assim destacou o aspecto da língua em transformação.3

Nota-se que os volumes foram publicados em intervalos regulares de quatro anos, ainda que essa periodicidade não esteja indicada de maneira explícita e/ou pragmática nos volumes; de toda forma, tem-se a expectativa de um próximo relatório a ser publicado em 2029, possivelmente com novos dados e estudos que levem em conta o impacto causado pelo uso amplo e indiscriminado da Inteligência Artificial, seja por aprendizes ou por professores(as), no ensino de línguas estrangeiras.4

Se há uma ideia que perpassa os quatro relatórios é o de variedade. Em alemão, essa ideia é expressa por Vielfalt (no sentido de multiplicidade) ou por Varietät (variedade linguística). Essa percepção é corroborada por uma afirmação das organizadoras Christa Dürscheid e Rita Franceschini na introdução ao livro: “A variedade [Vielfalt] da língua alemã tem em vista não apenas as quantidades, mas também as qualidades” (Dürscheid e Franceschini 2025: 11). “Por isso”, prosseguem, “Vielfalt é uma palavra-chave para nosso relatório sobre o alemão na Europa” (idem). Nota-se nos vários capítulos do quarto relatório um esforço para entender e descrever essa inerente variedade e pluralidade da língua alemã, especialmente no que toca à forma com que é ensinada e utilizada nos vários países contemplados.

Duas outras palavras-chave (que também compõem o subtítulo do volume) são Sprachnormen [Normas linguísticas] e Sprachgebrauch [Uso linguístico], termos que embasam a visão defendida pelas organizadoras de que “o alemão é uma língua com diferentes centros […] ou, dito de outra forma: o alemão é uma língua pluricêntrica” (idem). Interessante é a menção do conceito de pluriarealidade [Pluriarealität], cunhada por Stephan Elspaß (2025), que de certa maneira se opõe à ideia de a língua alemã ser pluricêntrica – nenhum dos artigos se aprofunda nessa questão, apesar de ou talvez justamente devido à polêmica dessa questão na área de dialetologia.5

O volume está estruturado em duas grandes partes. A primeira, Länder-Steckbriefe6 [Fichas descritivas de países], contém 15 capítulos, cada um escrito por um(a) especialista convidado(a) que mora ou trabalha em um desses países: Bélgica, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Liechtenstein, Luxemburgo, Áustria, Polônia, Romênia, Rússia, Suíça, Chéquia, Ucrânia e Hungria. Ainda que a Alemanha seja parte integrante do conhecido acrônimo DACHL, a equipe não abriu mão de escrever um Steckbrief (ainda que extremamente curto) sobre esse país, aparentemente como forma de conter o discurso óbvio de que a Alemanha é o centro da língua alemã. Os Steckbriefe têm uma mesma estrutura: uma breve descrição, com dados quantitativos e qualitativos sobre a situação da língua alemã em cada país, inclusive sobre seu status de língua oficial ou minoritária; dados geográficos e sociais, com diversos mapas das regiões em que o alemão e suas variantes são falados; e uma tabela que organiza as categorias de análise, como por exemplo “quantidade de falantes”, “posição institucional”, “grau de formação [dos professores]”, “norma” e outros – organização tabular que, segundo as autoras, deve “garantir uma melhor comparabilidade [dos dados]”(2025: 14).7 Conforme as organizadoras, “[os Steckbriefe] foram redigidos por colegas que, com base em sua biografia ou background técnico, têm uma conexão íntima com a situação linguística em cada país” (2025: 14), e de fato nota-se que as referências de cada capítulo referenciam documentos e relatórios oficiais de cada país.

A segunda parte do livro, intitulada Über die Ländergrenzen hinweg [Para além das fronteiras dos países], traz seis capítulos nos quais os(as) especialistas que trabalharam na parte I se organizam em diferentes constelações para discutir várias questões a respeito da questão Alemão na Europa, e apresenta “a variedade da língua alemã num nível transversal” (2025: 15), nos dizeres das organizadoras. Os capítulos não seguem uma estrutura fixa, dado que abordam temas diferentes sob perspectivas teóricas diferentes. A título de exemplo, comentamos o capítulo 2, Deutsch in der Schule in mehrsprachigen Konstellationen [Alemão na escola em constelações plurilíngues], no qual Stefan Rabanus e Pascale Erhart se debruçam sobre “a aula de alemão nos países que são vizinhos diretos dos países germanófonos Alemanha, Áustria, Suíça e Liechtenstein, e nos quais o alemão não é apenas língua estrangeira mas também reconhecido de outra forma” (Rabanus e Erhart 2025: 171). Para além de avaliar brevemente currículos e iniciativas específicas (como a iniciativa PASCH e os vários exames de proficiência oferecidos e reconhecidos), o capítulo segue um esquema sistemático (quase um Steckbrief) para descrever cada país, trazendo uma descrição breve com número de aprendizes, dialetos falados e sistema escolar; uma análise da “Situação geral” [Gesamtsituation] da língua alemã no país8; uma avaliação do conceito de língua alemã veiculado na escola (por exemplo, na seção que aborda Luxemburgo, os autores mencionam que “o papel importante desempenhado pelo alemão no sistema escolar luxemburguês pode parecer contraditório em relação ao papel cada vez mais periférico do alemão na sociedade luxemburguesa” (p. 2025: 177)); uma análise de materiais didáticos adotados no país (sendo que em alguns países como Bélgica, Itália, Dinamarca e Chéquia utiliza-se materiais produzidos na Alemanha, enquanto que Romênia, Hungria, Luxemburgo, França e Polônia têm autossuficiência na produção de seus materiais didáticos); e, por fim, uma contemplação da (por vezes precária) situação da formação de professores(as) de alemão. O estudo chega a uma conclusão que não causa espanto: “o alemão na escola é conceitualizado como a variante padrão alemã, que se orienta em todos os lugares pelo padrão da República Federal da Alemanha […] de onde vem a maioria dos materiais de ensino” (2025: 218).9

Fecham o volume três capítulos à parte. O primeiro traz Informações adicionais [Weiterführende Informationen], com uma série muito detalhada de atlas, dicionários, léxicos, gramáticas, manuais e dados sobre os departamentos de estatística consultados para cada país – um repositório de ponteiros para novas pesquisas e aprofundamentos. O segundo é um amplo glossário de termos técnicos da área de ensino de línguas, direcionado a “facilitar a leitura” por “possibilitar a consulta de termos técnicos usados no relatório e assim a orientação rápida” (2025: 12), nos dizeres das organizadoras.10 Esse glossário é acessível a partir de vários pontos no trecho por meio de links posicionados onde os termos são mencionados.11 Por fim, consta um capítulo com minibiografias dos(as) autores(as) participantes do volume.

A obra aqui resenhada traz um panorama amplo e profundo da situação da língua alemã em diversos países da Europa. Ela deve ser lida em conjunto com outras obras que contemplam a mesma questão em outras localidades também importantes, como a América Latina, a Ásia e o continente africano, de modo a não se perder a perspectiva da capilaridade da língua alemã no mundo. Um panorama global da situação da língua alemã, em moldes semelhantes aos de Ammon (1991), mas com a profundidade e a quantidade de dados do volume aqui resenhado, seria muito desejável, ainda que fosse um trabalho de grande monta e de difícil realização.

  • 2
    Destacamos que desde 2021 os relatórios são disponibilizados gratuitamente em formato eletrônico sob a licença Creative Commons 4.0, um claro movimento em direção à ciência aberta – uma inovação que na América Latina se vê cum grano salis, dado que a ciência aberta é o padrão latino-americano há décadas, como se lê em Silva e González (2025).
  • 2
    Destacamos que desde 2021 os relatórios são disponibilizados gratuitamente em formato eletrônico sob a licença Creative Commons 4.0, um claro movimento em direção à ciência aberta – uma inovação que na América Latina se vê cum grano salis, dado que a ciência aberta é o padrão latino-americano há décadas, como se lê em Silva e González (2025).
  • 3
    Todas as traduções são de minha autoria, salvo indicação em contrário.
  • 4
    Uma relação de trabalhos apenas de 2025 focados em IA, apenas na área de ensino de alemão como língua estrangeira, extrapolaria em muito o tamanho máximo de resenha aceito por este periódico, portanto, não nos aprofundaremos nesta discussão.
  • 5
    Cf. por exemplo a polêmica monografia The Pluricentricity Debate de Stefan Dollinger (2019), na qual o autor contesta veementemente a ideia de plurirealidade.
  • 6
    O sentido de Steckbrief para a equipe é o de “Relação de marcas típicas, características”, retirado do dicionário Digitales Wörterbuch der deutschen Sprache (p. 10). O sentido principal do termo é o de “anúncio público no qual é descrito um criminoso em fuga e as autoridades são instadas a prendê-lo”, o que não deixa de acrescentar alguma graça ao trabalho.
  • 7
    Seria interessante um quadro sinótico com todas as categorias de análise e todos os dados coletados de todos os países, mas provavelmente devido à dificuldade de diagramação em livro abriu-se mão dessa forma de visualizar. Uma alternativa seria disponibilizar os dados científicos por meio de ferramentas computacionais (com acesso livre), permitindo gerar e manipular gráficos, como p. ex. as ferramentas Tableau e Apache Superset.
  • 8
    Destacamos aqui os extremos da França, com foco apenas na região da Alsácia (2025: 185), e da Itália, com uma detalhada descrição das várias regiões germanófonas (2025: 189-193) com foco concentrado no Tirol do sul [Südtirol] (2025: 193-194) devido ao enraizado plurilinguismo da região.
  • 9
    Assim na Europa como no resto do mundo, a Alemanha ainda determina os rumos do ensino de língua alemã na maior parte dos lugares, o que permite questionar o real ímpeto pluricêntrico e pluralista desta série de relatórios.
  • 10
    Para além de ser uma evolução esperada pelo crescente profissionalismo desta série de livros, este glossário pode ser uma reação a resenhas negativas a relatórios anteriores, como a publicada sobre o segundo relatório no jornal Süddeutsche Zeitung por Thomas Steinfeld, que avalia que “os artigos […] não possuem para ele qualquer caráter de política linguística” (Perlentaucher, s.d.).
  • 11
    Como são colocados links ao glossário apenas na primeira menção de cada termo, quebra-se um pouco a navegação do e-book, já que não é possível ter links para “retornar à página anterior”.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Não se aplica

Referências bibliográficas

  • AMMON, Ulrich. Die deutsche Sprache in Deutschland, Österreich und der Schweiz: Das Problem der nationalen Varietäten. Berlin: De Gruyter, 1995. DOI: http://doi.org/10.1515/9783110872170.
    » https://doi.org/10.1515/9783110872170
  • _____. Die internationale Stellung der deutschen Sprache Berlin, Nova York: De Gruyter, 1991. DOI: https://doi.org/10.1515/9783110886498.
    » https://doi.org/10.1515/9783110886498
  • Deutsche Akademie für Sprache und Dichtung/Union der deutschen Akademien der Wissenschaften (eds.). Reichtum und Armut der deutschen Sprache: Erster Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Berlin/Boston: De Gruyter, 2013. DOI: http://doi.org/10.1515/9783110334739.
    » https://doi.org/10.1515/9783110334739
  • ______. Vielfalt und Einheit der deutschen Sprache Zweiter Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Tübingen: Stauffenburg, 2017.
  • ______. Die Sprache in den Schulen – Eine Sprache im Werden. Dritter Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 2021.
  • ______. Deutsch in Europa: Vielfalt, Sprachnormen und Sprachgebrauch. Vierter Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Tübingen: Narr Francke, 2025. 413 p. DOI: https://doi.org/10.24053/9783381135226.
    » https://doi.org/10.24053/9783381135226
  • DOLINGER, Stefan. The Pluricentricity Debate On Austrian German and other Germanic Standard Varieties. Nova York, Londres: Routledge, 2019.
  • ELSPAß, Stephan. Pluriareal languages and the case of German. In: Meer, Philipp; Durgasingh, Ryan (eds.). Pluricentricity and pluriareality: Dialects, variation, and standards Amsterdam, Filadélfia: John Benjamins, 2025, p. 15-44. DOI: http://doi.org/10.1075/silv.32.02els.
    » https://doi.org/10.1075/silv.32.02els
  • HINDERLING, Robert; EICHINGER, Ludwig M. (eds.). Handbuch der mitteleuropäischen Sprachminderheiten Tübingen: Narr, 1996.
  • PERLENTAUCHER. Vielfalt und Einheit der deutschen Sprache [s. d.] Disponível em: https://www.perlentaucher.de/buch/vielfalt-und-einheit-der-deutschen-sprache-zweiter-bericht-zur-lage-der-deutschen-sprache.html Acesso em: 03 dez. 2025.
    » https://www.perlentaucher.de/buch/vielfalt-und-einheit-der-deutschen-sprache-zweiter-bericht-zur-lage-der-deutschen-sprache.html
  • RABANUS, Stephan; ERHART, Pascale. Deutsch in der Schule in mehrsprachigen Konstellationen. In: DEUTSCHE AKADEMIE; UNION DER AKADEMIEN (orgs.). Deutsch in Europa Vielfalt, Sprachnormen und Sprachgebrauch. Vierter Bericht zur Lage der deutschen Sprache. Tübingen: Narr Francke, 2025, p. 171-228.
  • SILVA, Fabiano Couto Corrêa da; GONZÁLEZ, Saray Córdoba. Ciencia abierta em América Latina. 1a ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO; Heredia:Universidad Nacional de Costa Rica; Vancouver: Simon Fraser University, 2025. Disponível em https://libreria.clacso.org/publicacion.php?p=4610&c=58.
    » https://libreria.clacso.org/publicacion.php?p=4610&c=58
  • STICKEL, Gerhard (org.). Varietäten des Deutschen: Regional- und Umgangssprachen. Berlim/Nova York: De Gruyter, 1997.
  • WIESINGER, Peter. Deutsche Dialektgebiete außerhalb des deutschen Sprachgebiets: Mittel-, Südost- und Osteuropa. In: BESCH, Werner; KNOOP, Ulrich; PUTSCHKE, Wolfgang; WIEGAND, Herbert Ernst (orgs.). Dialektologie: Ein Handbuch zur deutschen und allgemeinen Dialektforschung 2. Halbbd. Berlim/Nova York: De Gruyter, 1983, p. 900-929.
  • Editor:
    Dörthe Uphoff

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Dez 2025
  • Aceito
    22 Dez 2025
location_on
Universidade de São Paulo | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas | Departamento de Letras Modernas | Área de Lingua e Literatura Alemã Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 - Cidade Universitária, CEP: 05508-900 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: pandaemonium.germanicum@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro