RESUMO
O Ensino Superior expandiu nos últimos anos. Junto ao avanço, se destaca o crescimento da evasão escolar nas universidades, trazendo prejuízos aos estudantes e à sociedade. O presente trabalho buscou identificar os principais motivos relacionados à evasão escolar em estudantes universitários, a partir de publicações entre 2012 e 2024. Foram realizadas buscas na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO), PSYCNET e PUBMED. Obtiveram-se 147 estudos, dos quais 12 foram incluídos. Foram incluídos estudos empíricos, revisados por pares e que discorriam sobre os motivos para evasão, entre outros critérios de inclusão e exclusão. Constatou-se que os motivos para evasão universitária ocorrem através da inter-relação de fatores socioeconômicos, pessoais, acadêmicos e institucionais. A maioria dos estudos analisados foi realizada na América-Latina (n=8) e no curso de enfermagem (n=4). Questões financeiras (n=10) e de expectativas pessoais (n=9) foram as mais apontadas entre os alunos evadidos. Como maneiras de prevenção e assistência se observa a necessidade de implementação de políticas educacionais que visem reduzir a evasão no Ensino Superior, incentivando a permanência de estudantes nas universidades por meio de estratégias que garantam o acesso à moradia, alimentação, transporte, saúde, inclusão digital, cultura, esporte, apoio pedagógico e acesso de estudantes com deficiência. Nessas estratégias, se considera o acompanhamento ao processo de evasão no Ensino Superior como uma demanda urgente para atuação de psicólogos escolares.
Palavras-chave:
evasão escolar; fracasso escolar; abandono estudantil; universidade; ensino superior; estudante universitário
ABSTRACT
Higher education has expanded in recent years. Along with this progress, there has been a notable increase in dropout rates at universities, which has been detrimental to students and society. This study sought to identify the main reasons for dropout rates among university students, based on publications published between 2012 and 2024. The searches were conducted in the Virtual Health Library (BVS), the Online Scientific Electronic Library (SciELO), PSYCNET, and PUBMED. A total of 147 studies were obtained, of which 12 were included. Empirical, peer-reviewed studies that discussed the reasons for dropout were included, among other inclusion and exclusion criteria. It was found that the reasons for university dropout occur through the interrelation of socioeconomic, personal, academic, and institutional factors. Most of the studies analyzed were conducted in Latin America (n=8) and in nursing courses (n=4). Financial issues (n=10) and personal expectations (n=9) were the most frequently mentioned issues among students who dropped out. As a means of prevention and assistance, it is necessary to implement educational policies that aim to reduce dropout rates in higher education, encouraging students to remain in universities through strategies that guarantee access to housing, food, transportation, health, digital inclusion, culture, sports, pedagogical support and access for students with disabilities. In these strategies, monitoring the dropout rate in Higher Education is considered an urgent demand for the work of school psychologists.
Keywords:
school dropout; academic failure; student dropout; university; higher education; university student
RESUMEN
La enseñanza universitaria se expandió en los últimos años. Junto al avance, se destaca el crecimiento de la evasión escolar en las universidades, trayendo perjuicios a los estudiantes y la sociedad. En el presente estudio se buscó identificar los principales motivos relacionados a la evasión escolar en estudiantes universitarios, a partir de publicaciones entre 2012 y 2024. Se realizaron búsquedas en la Biblioteca Virtual de Salud (BVS), Biblioteca Electrónica Científica Online (SciELO), PSYCNET y PUBMED. Se obtuvo 147 estudios, de los cuales se incluyeron 12. Se incluyeron estudios empíricos, revisados por pares y que discurrían sobre los motivos para evasión, entre otros criterios de inclusión y exclusión. Se analizó que los motivos para evasión universitaria suceden por intermedio de la interrelación de factores socioeconómicos, personales, académicos e institucionales. Gran parte de los estudios analizados se realizaron en América-Latina (n=8) y en el curso de enfermería (n=4). Cuestiones financieras (n=10) y de expectativas personales (n=9) fueron las más apuntadas entre los alumnos evadidos. Como maneras de prevención y asistencia se observa la necesidad de implementación de políticas educacionales que visen reducir la evasión en la enseñanza universitaria, incentivando la permanencia de estudiantes en las universidades por intermedio de estrategias que garanticen el acceso a vivienda, alimentación, transporte, salud, inclusión digital, cultura, deporte, apoyo pedagógico y acceso de estudiantes con deficiencia. Es estas estrategias, se considera el acompañamiento al proceso de evasión en la enseñanza universitaria como una demanda urgente para actuación de psicólogos escolares.
Palabras clave:
evasión escolar; fracaso escolar; abandono estudiantil; universidad; enseñanza universitaria; estudiante universitario
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, o Ensino Superior passou por uma expansão significativa, ampliando o acesso à educação e consequentemente, à profissionalização (Saviani, 2010). No Brasil, entre 2011 e 2021, o número de matrículas em faculdades e universidades cresceu 32,8%, ultrapassando 8,9 milhões em 2021 (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira [INEP], 2022). Entre 2021 e 2022, houve um aumento adicional de 5,1%, impulsionado principalmente pelo crescimento das matrículas na rede privada de Ensino Superior (Semesp, 2024). Essa expansão também foi observada em outros países, como Peru e Uruguai (Bassis, Madeira, & Baldasso, 2021).
O aumento das matrículas no Ensino Superior e a ampliação das oportunidades de escolarização e profissionalização geram mudanças significativas na vida dos estudantes. Essa experiência pode promover o desenvolvimento pessoal, melhorar a qualidade de vida e potencializar o crescimento individual (Saviani, 2010). No entanto, o ambiente universitário também apresenta desafios diários, como a gestão de novas responsabilidades, o estabelecimento de relações interpessoais e a preparação para a profissionalização almejada (Bardagi & Albanaes, 2015).
A experiência no Ensino Superior nem sempre é vivenciada de forma satisfatória por todos os estudantes, podendo gerar sobrecarga emocional, baixa adaptabilidade social, dificuldades em alcançar realização pessoal e em sentir satisfação no ambiente acadêmico. Esses fatores podem contribuir para o adoecimento psíquico, redução na qualidade de vida e insatisfação com questões institucionais e de infraestrutura. Tais condições podem comprometer a permanência dos estudantes na universidade, corroborando com os índices de evasão escolar (Ariño & Bardagi, 2018; Bardagi & Albanaes, 2015; Sahão & Kienen, 2021).
A evasão no Ensino Superior é um fenômeno que tem despertado preocupação entre educadores e pesquisadores em escala global (Carmo Filho et al., 2023; Silva-Filho, Motejunas, Hipólito, & Lobo, 2007). Barroso et al. (2022) destacam que há diferentes definições teóricas para a evasão escolar, que em geral, se referem ao abandono do curso antes da conclusão, motivado por diferentes fatores (Bueno, 1993; Carmo Filho et al., 2023; Castro & Teixeira, 2014). Segundo o Ministério da Educação, a evasão pode ser classificada em três tipos: de curso, quando o estudante muda de curso na mesma instituição; de instituição, quando troca de instituição sem necessariamente mudar de curso; e de sistema, quando desiste completamente do Ensino Superior (Brasil, 1996).
O Mapa do Ensino Superior no Brasil 2024 (SEMESP, 2024) aponta que a taxa de evasão chega a 57,2% entre as redes pública, privada e de ensino presencial e à distância (EaD), destacando que apenas 18,1% dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados em faculdades, o que demonstra que há poucos jovens no Ensino Superior e as taxas elevadas de evasão são um grande desafio para diversos níveis da gestão educacional. Esses números não se distanciam do cenário internacional, como em Portugal, onde a taxa foi de 29% em 2018 (Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência [DGEEC], 2018).
A evasão pode representar prejuízos para os alunos e as instituições. Para os estudantes, a literatura aponta consequências relacionadas a questões emocionais, desigualdade social, desempregabilidade e prejuízos materiais. Para as instituições, se observa perda de investimentos financeiros, seja por parte do estado ou da iniciativa privada, sustentabilidade das instituições, déficits nos avanços científicos e tecnológicos, e gestão de recursos comunitários (Castro & Teixeira, 2014; Silva-Filho et al., 2007; Sosu & Pheunpha, 2019).
A literatura apresenta estudos que investigam a evasão escolar no Ensino Superior e propõem estratégias para promover a adaptação e a permanência dos estudantes (Campos & Bardagi, 2020; Maluenda-Albornoz, Zamorano-Veragua, & Berríos-Riquelme, 2023; Sahão & Kienen, 2021). Nesse contexto, é essencial entender os fatores que levam os estudantes a abandonarem a formação superior.
A literatura identifica quatro principais fatores associados à evasão no Ensino Superior: socioeconômicos, pessoais, institucionais e acadêmicos. Fatores socioeconômicos, os mais citados, incluem dificuldades financeiras, valores familiares ou grupais, questões étnico-raciais e formas de ingresso no Ensino Superior. Fatores pessoais envolvem dificuldades de adaptação, falta de identificação com o curso e frustração com expectativas de carreira. Fatores institucionais estão relacionados à qualidade do ensino e à interação com professores. Por fim, fatores acadêmicos referem-se a dificuldades de aprendizagem, frequentemente causadas por fragilidades nos conhecimentos prévios, que impactam negativamente o desempenho acadêmico (Casanova, Vasconcelos, Bernardo, & Almeida, 2021; Magalhães, 2013, Respondek, Seufert, Hamm, & Nett, 2020; Roos, Fichard, Mackenzie, & Raubenheimer, 2016; Vargas-Porras, Parra, & Roa-Diáz, 2019; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018).
Além disso, é cada vez mais urgente promover a produção de conhecimentos em Psicologia Escolar que contribuam para o desenvolvimento das instituições de Ensino Superior, pois a Psicologia Escolar, com seu repertório teórico e prático, pode impactar não apenas públicos específicos, mas também a instituição como um todo. Com isso, o estudo em tela também pode apontar tendências e caminhos para a atuação e a pesquisa do psicólogo no Ensino Superior. Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi realizar uma revisão integrativa buscando fazer um levantamento acerca dos principais motivos relacionados à evasão escolar em estudantes universitários.
MÉTODO
A presente revisão seguiu os seguintes passos: elaboração da pergunta de pesquisa, definição dos descritores, busca nas bases de dados, avaliação crítica dos resumos, análise dos textos completos, seleção final dos artigos e interpretação dos resultados (Souza, Silva, & Carvalho, 2010).
A busca bibliográfica ocorreu em bases de dados e bibliotecas nacionais e internacionais: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO), PSYCNET e PUBMED. Para a busca, foram adotados os termos booleanos AND e OR, e os seguintes descritores indexados: “Evasão escolar OR Abandono estudantil AND Universidade”; e em inglês: “School Dropouts OR Student Dropouts AND Universities”.
Foram incluídos: (a) estudos empíricos, (b) revisados por pares, (c) com texto completo disponível, (d) contendo informações de estudantes universitários de graduação de universidades públicas ou privadas, (e) publicados entre janeiro de 2012 e dezembro de 2024, (f) em português, inglês e espanhol, e (g) estudos que discorrem sobre motivos ou fatores que levaram à evasão escolar.
Os critérios de exclusão utilizados foram: (a) estudos de evidência de validade de instrumentos psicométricos, (b) estudos relacionados ao ensino superior à distância, (c) estudos que descrevessem programas acadêmicos de combate à evasão escolar, (d) estudos teóricos, (e) estudos com dados secundários, e (f) idiomas diferentes de português, inglês e espanhol.
O levantamento bibliográfico foi realizado em janeiro de 2025, foram encontradas 147 publicações, sendo que 54 dessas estavam repetidas. Ao final da análise, 12 artigos foram incluídos como corpus do estudo. Os estudos foram selecionados a partir da leitura crítica dos resumos por dois pesquisadores em separado e por intermédio do software Rayyan; uma terceira pesquisadora participou da avaliação final dos resumos. Após esses procedimentos, foi realizada a leitura crítica dos textos completos por dois pesquisadores (Figura 1).
Por meio da análise temática de Braun e Clarke (2006), pôde-se identificar, analisar, interpretar e relatar padrões (temas) a partir dos artigos encontrados. Como há um número expressivo de pesquisas que apontam que a evasão no Ensino Superior pode ser compreendida por uma perspectiva multifatorial, os principais motivos relacionados na literatura são: socioeconômicos, pessoais, institucionais e acadêmicos (Casanova et al., 2021; Magalhães, 2013; Respondek et al., 2020; Roos et al., 2016; Vargas-Porras et al., 2019; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018). A distinção entre eles é meramente para fins de operacionalizar a análise temática; nas publicações - assim como nos fluxos de interação da vida universitária - eles são complexos e imbricados.
Destaca-se, por fim, que por se tratar de pesquisa com base em dados de acesso irrestrito, o presente estudo não fere os princípios éticos que tratam dos estudos envolvendo seres humanos, dispensando trâmite ético institucionalizado.
RESULTADOS
Conforme descrito na Figura 1, as buscas resultaram em 147 artigos; esse quantitativo advém das seguintes bases e bancos de dados: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) (n=86), Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO) (n=10), PSYCNET (n=23) e PUBMED (n=28). Dentre os estudos incluídos, um resultado é oriundo da busca na PUBMED (Matz et al., 2023); dois resultados advêm da busca na SciELO (Hinojosa et al., 2022; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018); nove estudos foram encontrados na BVS. Dentre esses, cinco estão indexados na base LILACS (Bardagi & Hutz, 2012; Magalhães, 2013; Maluenda-Albornoz et al., 2023; Schneider, Ramírez, Martínez, & Villanueva, 2013; Vargas-Porras et al., 2019), três na MEDLINE (Barlem et al., 2012; Casanova et al., 2021; Roos et al., 2016) e um na BBO odontologia (Carmo Filho et al., 2023). Com apoio do software Rayyan foi possível observar os recortes temporais e a variabilidade de publicações. Nos primeiros cinco anos, o ano de 2013 se sobressaiu com 14 publicações. Nos anos subsequentes, 2018 representa um marco, pois houve 20 publicações, número considerável para o recorte temporal empregado (2012 a 2024), seguido de 2019 com 19 publicações e 2020 com 16 estudos sobre evasão escolar.
Nesse período temporal, o software demonstra que a revista científica com maior número de publicações sobre evasão escolar na universidade (n = 7) foi a School Psychology Quartely, vinculada à American Psychological Association (APA). O idioma inglês foi predominante, seguido do espanhol e português com o menor número.
Após os passos de identificação, triagem e inclusão, 19 estudos foram selecionados para a leitura completa, nessa análise, foram excluídos sete artigos, restando, portanto, 12 artigos para análise e discussão (Figura 1).
Dentre os artigos selecionados, se observa o mesmo quantitativo de artigos escritos em inglês e português (n = 4, totalizando n = 8), seguido do espanhol (n = 4). Os estudos envolvendo especificamente o curso de enfermagem foi predominante (n = 4). De acordo com Bruit (2000), a América Latina abrange o espaço territorial entre o México e Chile; dessa forma, se verifica que os países latino-americanos (Brasil, Chile, Colômbia e Costa Rica) se sobressaíram na investigação de motivos para a evasão escolar de universitários (n = 8) e, dentre eles, se destaca o Brasil (n = 4).
Em relação ao delineamento, se sobressaíram os estudos quantitativos transversais, descritivos ou exploratórios, seguido dos estudos qualitativos. Os instrumentos mais utilizados foram questionários estruturados e entrevistas semiestruturadas.
A Tabela 1 reúne os motivos elencados para a evasão escolar universitária e a frequência com que se repetem entre os estudos analisados. A análise, identificação e divisão entre fatores socioeconômico, pessoal, acadêmico e institucional ocorreu conforme orientação da literatura (Casanova et al., 2021; Magalhães, 2013; Respondek et al., 2020; Roos et al., 2016; Vargas-Porras et al., 2019; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018).
Os fatores socioeconômicos e pessoais são frequentemente destacados nos estudos analisados. Os fatores socioeconômicos foram classificados em três principais esferas: financeira, que inclui desde a falta de recursos para mensalidades até a manutenção e subsistência; histórico escolar, relacionado às condições educacionais anteriores ao ingresso na universidade; e escolaridade dos pais, que influencia a orientação dos filhos, sendo frequentemente mencionada pelos estudantes como um fator na decisão de evadir (Bardagi & Albanaes, 2015; Hinojosa et al., 2022; Magalhães, 2013; Martz et al., 2023).
Os fatores pessoais envolvem diversas questões, sendo a mais recorrente a frustração com a escolha do curso, que interage com outros aspectos, como o desejo de mudar de carreira e as dificuldades de integração social, incluindo a adaptação e construção de relações durante o curso. Nesse contexto, também se destacam as diferentes técnicas de estudo adotadas pelos alunos, bem como aspectos relacionados à saúde física e emocional (Barlem et al., 2012; Magalhães, 2013; Maluenda-Albornoz et al., 2023; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018).
Outro fator relevante diz respeito ao contexto acadêmico, que inclui questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem, influenciado pela interação entre professores e alunos, baixo desempenho e dificuldades de aprendizagem. A literatura sugere que esses fatores estão ligados à transição para a universidade, que envolve novas responsabilidades, sobrecarga e baixos níveis de satisfação pessoal (Ariño & Bardagi, 2018; Bardagi & Albanaes, 2015; Hinojosa et al., 2022; Matz et al., 2023; Sahão & Kienen, 2021).
Por fim, os aspectos institucionais relacionados à evasão escolar incluem a comunicação entre a instituição e os alunos, especialmente no que diz respeito à falta de orientações e informações sobre os cursos, como grade curricular e áreas de atuação profissional. Além disso, questões de infraestrutura, como espaço físico e acesso ao ensino superior, juntamente com a qualidade de ensino, também foram apontadas como fatores que contribuem para a evasão (Barlem et al., 2012; Magalhães, 2013; Carmo Filho et al., 2023; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018).
DISCUSSÃO
A evasão escolar no Ensino Superior é reconhecida como uma problemática global (Maluenda-Albornoz et al., 2023). Diversos modelos teóricos abordam essa questão (Barroso et al., 2022; Silva-Filho et al., 2007). Este estudo analisou o fenômeno com base nas referências selecionadas e, assim, discutiremos a compreensão do tema, que é descrito como o abandono do curso superior por diferentes motivos (Bueno, 1993; Castro & Teixeira, 2014).
Os dados analisados corroboram para a compreensão dos motivos relacionados à evasão por um viés multifatorial (Barroso et al., 2022; Carmo Filho et al., 2023; Vargas-Porras, 2019). Se observou que questões relacionadas aos fatores socioeconômicos, pessoais, acadêmicos e institucionais são pilares na tomada de decisão em evadir (Castro & Teixeira, 2014; Hinojosa et al., 2022; Martz et al., 2023; Silva-Filho et al., 2007; Sosu & Pheunpha, 2019).
Vargas-Porras et al. (2019) demonstram em seu estudo os aspectos prejudiciais em níveis pessoais e sociais, chamando atenção a esta problemática principalmente nos países latinos, que se destacaram na presente revisão. Os índices de evasão escolar na universidade, de modo geral, apresentam estatísticas alarmantes na América Latina, variando entre 40% e 75% (Maluenda-Albornoz et al., 2023; Vásquez, 2010).
Os países latino-americanos possuem realidades educacionais similares (Bassis et al., 2021), sobretudo pela ascensão do Ensino Superior nas últimas décadas, fato este corroborado com o censo anual universitário brasileiro (INEP, 2022). Os fatores que se sobressaem diante da decisão de evadir também se assemelham nos artigos analisados nesta revisão e apontam questões financeiras, adaptativas e de saúde emocional, como sintomas de ansiedade e depressão, entre aqueles pertencentes a estratos sociais mais vulneráveis, com destaque a mulheres e estudantes que não recebem bolsas de estudo (Barlem et al., 2012; Hinojosa et al., 2022; Martz et al., 2023; Schneider et al., 2013; Valerga & Trombetta, 2019; Zamora-Araya & Villalobos-Madrigal, 2018).
A literatura relata que os alunos em vulnerabilidade evadem da universidade para buscar independência financeira e melhora na qualidade de vida (Bardagi e Hutz, 2012; Carmo-Filho et. al., 2023; Valerga & Trombetta, 2019). Diante desses dados, se faz necessário refletir sobre ações interventivas que visem prevenir a evasão dos estudantes, que considerem incentivo ao apoio de pares, apoio familiar, financeiro e institucional, pois são cruciais nesse processo (Carmo-Filho et al., 2023; Schneider et al., 2013; Maluenda-Albornoz et al., 2023).
O estudo de Roos et al. (2016) foi realizado na África do Sul, trouxe dados semelhantes aos dos países latinos, de modo que a taxa de evasão superou a média sugerida pelo Departamento de Educação Superior do país, ficando entre 39,28% e 58,69%. Os autores sugerem que para assegurar a retenção dos alunos no espaço universitário melhores critérios de seleção para o curso, monitoramento de alunos em vulnerabilidade e elaboração de estratégias para a melhoria do desempenho acadêmico.
Em relação aos demais fatores de evasão, Bardagi e Hutz (2012) apresentam de forma enfática as influências advindas da relação aluno-professor, bem como os interesses dos alunos em se desenvolver nas disciplinas. Para os autores, o impacto que essa construção pode produzir é significativo; sugerem que uma melhor preparação geral para a transição escola-universidade. Zamora-Araya e Villalobos-Madrigal (2018) ratificam esses dados sugerindo como fatores protetivos para a evasão a orientação profissional anterior ao ingresso na universidade e suporte institucional.
Outros estudos demostram que é viável realizar a previsão da evasão estudantil a partir de dados de nível macro (i.e. dados sociodemográficos, ou métricas de desempenho inicial) e micro (i.e., logins em sistemas de gerenciamento de aprendizagem) (Matz et al., 2023), bem como através da mineração de dados (Hinojosa et al., 2022).
Os estudos de Matz et al. (2022) e Hinojosa et al. (2022) analisaram a combinação de dados sociodemográficos e comportamentais, demonstrando estatisticamente que essa combinação pode prever a evasão com altos níveis de desempenho preditivo. De acordo com os autores, os achados demonstram que a evasão ocorre a partir da análise de múltiplos fatores, e estratégias como o uso de aplicativos para monitorar e assistir devidamente alunos com perfis propensos à evasão, podem ser adotadas.
Dentre os fatores pessoais, se destacaram de forma expressiva as frustrações relacionadas à carreira, seja diante da escolha do curso ou relacionadas às expectativas não atendidas com a grade curricular e o futuro mercado de trabalho, motivos esses que levam à evasão ainda no primeiro ano de curso (Carmo-Filho et al., 2023; Maluenda-Albornoz et al., 2023; Matz et al., 2023). Em contrapartida, se observa que grande parte dos alunos que evadiram de cursos superiores no Brasil entre 2009 e 2017, retornaram à universidade para cursos na mesma área do curso originalmente evadido (Marques, 2020). No entanto, é difícil rastrear dados precisos daqueles que não retornam à universidade.
O curso de enfermagem se destacou entre os demais nessa revisão. No estudo de Barlem et al. (2012), os alunos evadidos do curso de enfermagem classificaram como principais motivos aspectos socioeconômicos e pessoais, os quais foram: quebra de expectativas com o curso; problemas financeiros; relacionamentos interpessoais, desvalorização da profissão e sentimento de frustração e insatisfação. Esses fatores também foram observados nos demais estudos com essa população (Roos et al., 2016; Schneider et al., 2013; Vargas-Porras, 2019).
Como estratégias de permanência para o curso de enfermagem, foram classificadas as possibilidades de suporte institucional a fim de fortalecer a rede de apoio entre os estudantes, assistência de saúde, debates sobre a prática profissional e contato precoce com a área e com a sociedade, para que os alunos se engajem e compreendam o trabalho da enfermagem e possíveis áreas de atuação (Barlem et al., 2012; Roos et al., 2016; Schneider et al., 2013; Vargas-Porras, 2019).
A análise dos artigos selecionados nesta revisão aponta a necessidade de políticas educacionais que visem reduzir a evasão no Ensino Superior, incentivando a permanência de estudantes nas universidades (Carmo Filho et al., 2023). A educação superior é um mecanismo de transformação social, desenvolvimento econômico e sustentável (Silva & Sampaio, 2022).
Entre as políticas de assistência estudantil, destaca-se a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), instituída pela Lei nº 14.914/2024, que objetiva contribuir para a permanência dos estudantes de baixa renda nas universidades e institutos federais e possibilitar a conclusão dos cursos, evitando a evasão. O PNAES se materializa em auxílios concedidos com base em critérios de vulnerabilidade socioeconômica dos estudantes como Programa de Assistência Estudantil (PAE), compostos por benefícios diretos aos estudantes para moradia, alimentação, transporte, saúde, inclusão digital, cultura, esporte, apoio pedagógico e acesso a estudantes com deficiência (Brasil, 2024).
Programas estudantis podem favorecer a permanência no Ensino Superior, mas são programas destinados às instituições públicas, não atendendo estudantes do ensino privado, que dependem de políticas das próprias instituições e de outras iniciativas governamentais, como o financiamento estudantil, o FIES, um programa do Ministério da Educação instituído pela Lei nº 10.260, de 12 de julho de 2001, e que objetiva conceder financiamento a estudantes em cursos superiores não gratuitos, com avaliação positiva no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) (Brasil, 2024).
Para além dessas políticas governamentais, constatou-se a necessidade de que as instituições de Ensino Superior, tanto públicas como privadas, planejem ações psicopedagógicas que visem garantir a permanência no Ensino Superior voltadas para atendimentos que promovam saúde, aprendizagem e relacionamentos que favoreçam a qualidade de vida e formação de excelência. Frente a isso, a atuação de psicólogos escolares pode incluir ações individuais e coletivas que abordem o mapeamento das instituições, a escuta ativa, a gestão de políticas e programas educacionais, além de propostas pedagógicas e funcionamento de cursos, de modo crítico e contextualizado.
O trabalho de psicólogos no âmbito superior tende, em sua maioria, abrange estratégias tradicionais voltadas para o atendimento clínico individual. Mesmo que sejam importantes, não abarcam necessidades globais e estruturais, como a evasão. Além disso, faz-se urgente repensar a formação em Psicologia, garantindo experiências teórico-práticos aprofundadas em Psicologia Escolar (Moura & Facci, 2016; Santos et al., 2015).
Esses profissionais podem auxiliar as instituições de Ensino Superior a implementarem políticas de assistência estudantil, já que um dos objetivos da Psicologia Escolar é de colaborar dialogicamente com os processos educativos, e que ocorrem em interface com fatores de ordem pedagógica, subjetiva e organizacional presentes (Martinez, 2010), bem como promover oficinas de acolhimento aos calouros e de orientação profissional e de carreira. Cabe a esses profissionais também a constante reflexão de sua prática, dialogando entre pares e garantindo o compromisso ético-político com as propostas coletivas e institucionais (Pott & Campos, 2021, Moura & Facci, 2016).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A evasão escolar de estudantes universitários é considerada um fenômeno multivariado presente em todo o mundo. Nesta revisão, foi possível compreender que os motivos para a evasão universitária ocorrem através da inter-relação de fatores socioeconômicos, pessoais, acadêmicos e institucionais. Os fatores socioeconômicos e pessoais se sobressaíram na literatura analisada, especialmente nos países da América Latina e entre os estudantes do curso de enfermagem.
As limitações desta revisão integrativa estão relacionadas ao número de estudos selecionados, uma vez que a busca foi restrita aos últimos dez anos, incluindo apenas artigos em três idiomas e quatro bases de dados. Recomenda-se que futuras revisões ampliem o marco temporal, os idiomas e as fontes de dados, o que pode contribuir para uma compreensão mais abrangente e para a intervenção na evasão escolar entre estudantes universitários.
Sugere-se ainda que sejam realizados novos estudos, investigando diferentes modalidades de cursos e níveis de ensino. Dados como esses podem ser úteis para ampliar a compreensão sobre o fenômeno da evasão escolar e, assim, fortalecer o debate sobre medidas de prevenção. Além disso, fornecer subsídios para a construção e desenvolvimento de programas, ações e políticas públicas educacionais e curriculares, e considerar o acompanhamento ao processo de evasão no ensino superior como uma demanda urgente para a atuação de psicólogos escolares.
REFERÊNCIAS
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O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) por meio do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, e da FAPEAM - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, sob forma de bolsa de estudo (mestrado).
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo
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Fonte: Os autores