O termo intersexo diz respeito às pessoas cujos fatores genéticos e/ou estrutura anatômica diferem das características genitais, gonadais e cromossômicas atribuídas ao sexo masculino ou feminino. Neste estudo, empreendemos a tarefa de construir - por meio da arte e de discussões mediadas por ela - compreensões ampliadas e menos norteadas por padrões da binariedade como única forma de vivência humana. Para tanto, objetivamos refletir sobre a significação da função social do corpo intersexo na arte, a partir do livro IV da obra Metamorfoses de Ovídio. Tomamos como base para o estudo o Materialismo Histórico e Dialético, a Psicologia da Arte de Vigotski e experiências acadêmicas e clínicas anteriores. A discussão estrutura-se em dois eixos: 1) ausência de escolha e intervenção externa no corpo da pessoa intersexo e 2) vivência do corpo da pessoa intersexo e sua relação com a binariedade. O corpo da pessoa intersexo apresenta-se como obstáculo objetivo para compreensões acerca do corpo humano que se apoiam somente em uma visão binária. Portanto, a intersexualidade, como se apresenta na obra ovidiana, alcança uma função social que explicita a diversidade das experiências humanas de corporeidade. Por fim, a análise anuncia uma funcionalidade social e estética do corpo intersexo, pois permite materializar contradições inerentes à existência, bem como denunciar os limites de sistemas de classificação social que não contemplam outros modos de ser e estar no mundo.
Palavras-chave:
Intersexualidade; gênero; arte