Open-access Associações entre Relações Conjugais e Fraternais no Contexto da Síndrome de Down

Associations between Marital and Sibling Relationships in the Context of Down Syndrome

Asociaciones entre las Relaciones Conyugales y Fraternas en el Contexto del Síndrome de Down

Resumo:

A literatura na área de relações familiares evidencia resultados em que há uma interdependência entre as relações conjugais e fraternais. Pesquisas no contexto brasileiro e com famílias com membros com Síndrome de Down (SD) são escassas. Objetivou-se neste artigo descrever a qualidade das relações conjugais e fraternais em famílias com pessoas com SD e as possíveis associações entre a qualidade dessas relações. Participaram da pesquisa 13 famílias compostas por pai, mãe, um filho biológico com SD e, pelo menos, outro sem SD. Utilizaram-se a escala de ajustamento diádico e o questionário de relações fraternais. Os resultados evidenciaram uma associação entre as relações conjugais e as fraternais nessas famílias. Foi observada uma correlação positiva entre coesão diádica do casal e amorosidade/proximidade entre os irmãos (0,551). As mães de casais desajustados perceberam um maior nível de rivalidade na relação fraternal de seus filhos. Já os irmãos nas famílias de casais desajustados avaliaram sua relação fraternal como tendo um maior nível de conflito do que aqueles nas famílias de casais ajustados. Os resultados permitem concluir que há mais possiblidade de ocorrência de conflito entre irmãos quando os genitores estão em uma relação desajustada, embora, mesmo na presença de conflitos, os irmãos tenham uma relação marcada pela amorosidade e amistosidade. A maioria das famílias apresenta bons níveis de ajustamento entre os cônjuges e boa qualidade da relação entre irmãos, indicando que a presença do filho com SD não é causa de desajustamento conjugal ou de baixa qualidade de relação fraternal.

Palavras-chave:
Relações Familiares; Relação Conjugal; Relação Fraternal; Síndrome de Down

Abstract:

The literature in the area of family relationships shows results in which there is an interdependence between marital and fraternal relationships. Research in the Brazilian context and with families with members with Down Syndrome (DS) is scarce. This study aimed to describe the quality of marital and fraternal relationships in families with people with DS and the possible associations between the quality of these relationships. This study included 13 families, consisting of a father, mother, one biological child with DS, and at least one without DS. The Dyadic Adjustment Scale and the Fraternal Relations Questionnaire were used. The results showed an association between marital and fraternal relationships in these families. A positive correlation occurred between couples’ Dyadic Cohesion and Lovingness/Closeness between the siblings (0,551). Mothers of maladjusted couples perceive a higher level of rivalry in their children’s sibling relationships. Siblings in families of maladjusted couples evaluate their fraternal relationship as having a higher level of conflict than those in families of adjusted couples. These results show a greater possibility of conflict between siblings when the parents are in a maladjusted relationship; although, even with the presence of conflicts, siblings have a relationship marked by love and friendliness. Most families have good levels of adjustment between spouses and good quality of the relationship between siblings, indicating that the presence of a child with DS causes neither marital maladjustment nor poor sibling relationships.

Keywords:
Family Relationships; Marital Relationship; Sibling Relationship; Down’s Syndrome

Resumen:

La literatura en el área de relaciones familiares muestra resultados en los que existe una interdependencia entre las relaciones conyugales y fraternales, siendo las investigaciones en el contexto brasileño y con familias con miembros con Síndrome de Down (SD) son escasas. El objetivo del trabajo fue describir la calidad de las relaciones conyugales y fraternales en familias con personas con SD y las posibles asociaciones entre la calidad de estas relaciones. Participaron en el estudio 13 familias compuestas por padre, madre, un hijo biológico con SD y al menos otro sin SD. Se utilizaron la Escala de Ajuste Diádico y el Cuestionario de Relaciones Fraternales. Los resultados evidenciaron una asociación entre las relaciones conyugales y las fraternales en estas familias. Se observó una correlación positiva entre la cohesión diádica de la pareja y la amorosidad/proximidad entre los hermanos (0,551). Las madres de parejas desajustadas perciben un mayor nivel de rivalidad en la relación fraternal de sus hijos; y los hermanos en familias de parejas desajustadas evalúan su relación fraternal como teniendo un mayor nivel de conflicto que aquellos en familias de parejas ajustadas. Los resultados permiten concluir que existe mayor posibilidad de conflicto entre hermanos cuando los padres tienen una relación desajustada, aunque, incluso con la presencia de conflictos, los hermanos tienen una relación marcada por el amor y la amistad. La mayoría de las familias tienen buenos niveles de adaptación entre cónyuges y buena calidad de la relación entre hermanos, lo que indica que la presencia de un hijo con síndrome de Down no es causa de inadaptación conyugal ni de baja calidad de la relación entre hermanos.

Palabras clave:
Relaciones Familiares; Relación matrimonial; Relación fraternal; Síndrome de Down

Introdução

O estudo da família na perspectiva do desenvolvimento humano é um tema mundialmente recente (Weber & Dessen, 2009). A implementação de pesquisas empíricas sobre o assunto data do período posterior à publicação dos trabalhos de Bronfenbrenner, na década de 1970, embora a importância de compreender o indivíduo no contexto familiar já tenha sido destacada anteriormente, por exemplo, pelo teórico Burguess em 1926 (Dessen & Silva Neto, 2000). Atualmente, observa-se que as questões sobre a família vêm sendo indicadas como uma tendência para o estudo em psicologia do desenvolvimento. Essa tendência pode ser observada nas universidades brasileiras, que contam com núcleos de pesquisas dedicados ao estudo do desenvolvimento familiar, bem como nos livros e seções especiais de periódicos científicos que foram organizados com o intuito de discutir aspectos relacionados a essa temática. Contudo, há a necessidade de mais estudos sobre a família, sob a perspectiva do desenvolvimento humano, no contexto brasileiro.

A família pode ser compreendida, a partir da perspectiva sistêmica (Minuchin, 1988), como um sistema complexo, composto por subsistemas (por exemplo subsistemas parental, fraternal e conjugal). Os elementos básicos desse sistema são as pessoas, que contribuem de forma ativa para os processos que criam e mantêm os padrões de relacionamento recorrentes e estáveis que regulam os seus comportamentos dentro do sistema como um todo e entre os subsistemas. A interdependência, a bidirecionalidade e a influência mútua são características tanto dos elementos do sistema quanto dos subsistemas, embora cada um tenha sua própria integridade.

A partir dessa compreensão, as relações desenvolvidas nos subsistemas parental, conjugal e fraternal são inter-relacionadas e repercutem no desenvolvimento da família e das pessoas que dela fazem parte (Fidelis, Heinen, Mosmann, Falcke, & Schaefer, 2022; Jensen et al., 2021; Osher, Cantor, Berg, Steyer, & Rose, 2020). Destaca-se que, a depender da forma como as relações no ambiente familiar se estabelecem, elas podem favorecer ou inibir o desenvolvimento saudável de seus membros, em especial das crianças e adolescentes (Kerr, Rasmussen, Smiley, Buttitta, & Borelli, 2021; Zapata, Bastida, Quiroga, Charra, & Leiva, 2013).

Embora se reconheça teoricamente a importância da inter-relação e interdependência entre os subsistemas familiares, pouco é conhecido sobre a associação entre os subsistemas conjugal e fraternal (Skinner & McHale, 2022), especialmente em se tratando de famílias com, pelos menos, uma criança ou adolescente com Síndrome de Down (SD). A escassez de literatura sobre esse tema ficou evidenciada quando se realizou uma busca no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES), considerando especificamente a associação entre as relações conjugais e fraternais em famílias com membros com SD ou com Deficiência Intelectual (DI) e não foi recuperado qualquer estudo nacional ou estrangeiro. Já, a busca na literatura com os mesmos termos, mas focalizando famílias com membros com Desenvolvimento Típico (DT), recuperou 14 produtos, sete deles publicados antes de 2000.

A SD é uma das condições mais comumente reconhecidas, de causa genética, que tem como consequência a deficiência intelectual e atrasos no desenvolvimento global dos indivíduos (Bermudez, Franklin, Oliveira, Coutinho, & Crippa, 2023; White, Chevette, Hillerstrom, & Esbensen, 2022). Além disso, Bermudez et al. (2023) destacam que há diversas comorbidades que podem acometer essas pessoas, por exemplo condições cardíacas congênitas, infecções recorrentes, deficiência auditiva, anormalidades da tireoide e excesso de peso, o que tem repercussões para a qualidade de vida delas. Adotando uma perspectiva sistêmica, ressalta-se que, devido às condições de saúde e de desenvolvimento influenciados pela SD, as famílias também sofrem alterações em suas dinâmicas, interações e relações (Medrado & Pereira-Silva, 2024; Sehn, Faria, & Lopes, 2019).

A literatura aponta peculiaridades nas relações estabelecidas nessas famílias (Cavalcante, Ferreira, Paixão, Villas Boas, & Maia, 2022; Pereira-Silva & Almeida, 2021; White et al., 2022), destacando-se o papel diretivo dos genitores e irmãos com DT nos episódios interativos. Estes referem-se à tendência de mães, pais, irmãos ou outros membros familiares de assumirem a liderança e a supervisão durante as interações com a pessoa com SD, direcionando e conduzindo as conversas e atividades (Robledo, Tenorio, Arango, & Aparicio, 2023). A diretividade materna, por exemplo, é considerada um padrão de relacionamento nas famílias com filhos com SD (Robledo et al., 2023). Em consonância com os achados de Robledo et al. (2023), no estudo de Mayer, Almeida e Lopes-Herrera (2013), observou-se que as mães iniciaram mais de 60% dos tópicos de interação e, em diversas situações, restringiram as possibilidades de respostas espontâneas da criança.

A sobrecarga materna também é uma realidade prevalente entre mães de crianças e adolescentes com SD. Muitas delas assumem a responsabilidade de cuidados contínuos, terapias e intervenções que demandam tempo e energia consideráveis, resultando frequentemente em estresse e exaustão (Fucà, Costanzo, Ursumando, & Vicari, 2022; Pereira-Silva, 2015; Silva, 2011). Ademais, por se dedicar muito aos cuidados e estimulação dos filhos com SD, as mães podem ter as práticas de atividades sociais comprometidas, o que é um fator de risco para a sua saúde mental (Nogueira & Rodrigues, 2007). Essa sobrecarga não apenas afeta a saúde mental das mães, mas também impacta a dinâmica familiar como um todo.

Interessa destacar que, apesar de as mães ainda serem as cuidadoras principais, nos últimos anos os pais têm se envolvido cada vez mais nos cuidados com os filhos com deficiência, o que possibilita uma leve diminuição da sobrecarga materna (Marsh, Brown, & McCann, 2020). Apesar disso, parece haver pouco interesse dos pesquisadores acerca da qualidade da relação pai-filho com SD (Sehn et al., 2019). Sobre o tema, no estudo de Pisula (2008), os pais de crianças com SD se mostraram mais envolvidos na observação ativa do comportamento de seus filhos, apresentando um papel mais ativo e diretivo em comparação com os pais de crianças com DT, possivelmente como forma de adaptação às características cognitivas e comportamentais dos filhos.

Em razão das demandas do filho com SD, é comum que mães e pais tenham pouco tempo para descansar e ficar juntos. A ocorrência desse fator está associada a níveis maiores de estresse em genitores de crianças com SD e à avaliação mais negativa da relação conjugal (Norton, Dyches, Harper, Roper, & Caldarella, 2016). Além disso, genitores mais estressados podem ser menos responsivos aos seus filhos (Ward & Lee, 2020), o que pode ter implicações no desenvolvimento de forma geral, isto é, na linguagem, no desenvolvimento social, cognitivo e emocional das crianças e dos adolescentes (Ward & Lee, 2020; Warren & Brady, 2007).

Especificamente sobre a relação conjugal nessa população, observa-se que, apesar dos desafios enfrentados, a maioria dos cônjuges avalia a sua relação conjugal como amistosa e apresenta ajustamento diádico satisfatório (Almeida, 2018; Pereira-Silva, 2015). É observado um desejo dos casais de passar mais tempos juntos, especialmente em atividades de lazer (Almeida, 2018; Fortin et al., 2024), o que geralmente é impossibilitado pelas demandas de cuidado com o filho com SD. Destaca-se que, quanto mais harmônica é a relação conjugal nessas famílias, menores são as necessidades dos genitores quanto a apoio social fora do grupo familiar, melhores são os recursos que eles obtêm em seu contexto familiar e mais elevado é o nível de satisfação em relação à qualidade de vida (Azevedo, Cia, & Spinazola, 2019).

Outro ponto importante é o fato de os irmãos, independentemente da idade, da ordem de nascimento e do sexo, tenderem a se comportar como irmãos mais velhos, assumindo o papel de cuidador do irmão com SD. Apesar disso, os estudos recentes demonstram que a relação fraternal nessas famílias é frequentemente descrita de maneira positiva, apresentando características de amizade, afeto e companheirismo, com os irmãos atuando como fontes de carinho e apoio mútuo (Almeida & Pereira-Silva, 2018; Avieli, Band-Winterstein, & Araten Bergman, 2019; Lemoine & Schneider, 2022; Rossetti, Lee, Burke, & Hall, 2020). No entanto, em algumas famílias, os irmãos com DT podem se sentir negligenciados pelos seus pais, que frequentemente direcionam sua atenção e cuidados para o filho com SD (Victor, Hartanti, & Elisabeth, 2021). Quando há um tratamento parental muito desigual, pode haver um impacto negativo na qualidade da relação entre os irmãos, aumentando a probabilidade de rivalidade e conflitos (Stoneman, 2005).

É fundamental considerar as nuances supracitadas nas interconexões entre os subsistemas familiares quando há um filho com SD. Não há, pois, como negar a importância de pesquisas que ajudem a entender melhor a complexidade das associações estabelecidas entre a qualidade das relações familiares nessa população. Contudo, devido à ausência de literatura sobre o tema com famílias com pessoas com SD ou com DI, serão destacados neste artigo os principais resultados e conclusões acerca do assunto, considerando famílias com pessoas com DT. Os estudos têm indicado associação significativa entre a qualidade das relações conjugal e fraternal (Dawson, Pike, & Bird, 2015; Ruff, Durtschi, & Day, 2018), sendo a maioria positiva. Nesse sentido, segundo Chen (2023), em famílias com membros com DT cujas relações conjugais são caracterizadas como cooperativas e positivas, e o casal está satisfeito com o seu relacionamento, a relação entre os filhos tende a ser mais amistosa e afetuosa, bem como menos negativa. Por outro lado, a literatura é consistente quanto ao fato de haver maior frequência de conflitos entre irmãos em famílias com maior nível de insatisfação ou conflito entre o casal parental (Chen, 2023; Skinner & McHale, 2022; Stocker & Youngblade, 1999).

No estudo longitudinal (conduzido ao longo de três anos) de Skinner e McHale (2022) com famílias norte-americanas negras com filhos adolescentes, os resultados indicaram forte associação entre satisfação/conflito conjugal e positividade/conflito entre irmãos. Os autores identificaram que, quando mães e pais relatavam maior nível de satisfação conjugal, os filhos também descreviam suas relações fraternais com mais positividade. Contudo, Skinner e McHale (2022) afirmam que a qualidade da associação entre as relações desenvolvidas nos subsistemas conjugal e fraternal foram mediadas pela situação econômica da família. Por exemplo, em períodos em que se verificou maior tensão econômica no grupo familiar, os irmãos tendiam a demonstrar maior nível de positividade em suas interações, mesmo em face do conflito conjugal, o que sugere que os irmãos se apoiam em situações de estresse.

Chen (2023) realizou um estudo longitudinal com o objetivo de evidenciar associações entre relação conjugal, coparentalidade, tratamento parental diferenciado e relação fraternal. Os resultados demonstraram que a satisfação conjugal está associada positivamente à presença de apoio coparental. Este, por sua vez, está associado negativamente à percepção dos filhos sobre tratamento parental diferenciado. Já quando pais e mães tratavam seus filhos de forma diferente, demonstrando preferências por um ou outro, houve uma tendência de ocorrência de conflito entre a díade fraternal. Além disso, constatou-se menor intimidade entre os irmãos. Assim, por efeito cascata, a qualidade da relação conjugal estaria associada à qualidade da relação fraternal.

Stocker, Ahmed e Stall (1997), ao investigarem as associações entre a qualidade do relacionamento conjugal e da relação fraternal, verificaram mais conflitos e rivalidade na relação fraternal quando suas mães apresentavam insatisfação conjugal e baixa expressão de afeto em seus casamentos, quando comparadas àquelas cujas genitoras classificaram seus matrimônios de forma mais positiva. Nessa pesquisa participaram 64 crianças de sete anos de idade e suas mães, tendo sido empregados a Escala de Ajustamento Diádico (EAD) e o Questionário de Relação Fraternal (QRF) – em versão para os irmãos, os mesmos instrumentos adotados neste estudo.

Considerando as repercussões dessas interconexões entre os subsistemas familiares para o curso do desenvolvimento de seus membros, questiona-se: qual a associação entre a qualidade da relação conjugal e da relação fraternal em famílias com filhos? Uma das hipóteses é que altos níveis de estresse, decorrentes de relações conflituosas entre o casal de genitores, podem ter implicações no comportamento dos filhos, por exemplo, aumentando a possibilidade de emissão de comportamentos de agressão entre os irmãos ou distanciamento um do outro. Assim, quando as crianças são expostas a expressões emocionais negativas dos genitores, elas podem desenvolver dificuldades para regular seus próprios afetos, o que influenciaria o desenvolvimento de conflitos fraternais (Stocker et al., 1997). Ademais, a desarmonia conjugal pode contribuir para o risco de conflito entre irmãos, por proporcionar a cada criança modelos de comportamento conflituoso, distante ou verbalmente agressivo (Jensen et al., 2021). Desse modo, crianças e adolescentes podem aprender a lidar com o conflito a partir da observação da comunicação conjugal dos pais. Nesse sentido, filhos que crescem com genitores que brigam muito tendem a aprender a resolver os desacordos por meio de agressões, o que resultaria em relações fraternais conflituosas (Stocker et al., 1997).

Ressalta-se que, de acordo com Noller, Feeney, Sheehan e Peterson (2000), não há clareza quanto à aprendizagem de padrões de resolução de conflitos entre irmãos baseados nos padrões parentais. Além disso, algumas investigações das décadas de 1980 e 1990 apresentaram resultados inconsistentes. Por exemplo, relações conflituosas entre irmãos são influenciadas por uma parentalidade punitiva e insensível, que é mais provável de ocorrer quando a mãe recebe menos assistência e suporte de seu cônjuge (Jensen et al., 2021). Do mesmo modo, altos níveis de afetuosidade conjugal estão relacionados a baixo nível de negatividade parental, que, por sua vez, teria relação com uma maior amistosidade entre os irmãos (Jensen et al., 2021).

A inconsistência nos resultados das pesquisas indica que mais informações sobre a temática são necessárias para melhor compreensão acerca da direção das associações e dos padrões de relacionamentos e resolução de conflitos. Investigar o interjogo de associações entre os subsistemas e suas implicações em famílias brasileiras com membros com SD torna-se fundamental na geração de dados empíricos que possam subsidiar intervenções e políticas públicas para essa população. Assim, este estudo tem como objetivo descrever a qualidade das relações conjugais e fraternais em famílias com filhos com SD e verificar as possíveis associações entre a qualidade dessas relações.

Método

Participantes

Esta pesquisa foi conduzida com uma amostra de conveniência formada por 12 famílias compostas por pai, mãe, um(a) filho(a) biológico(a) com o diagnóstico de SD e pelo menos um filho com DT. Todos os casais eram casados, 10 tinham dois filhos e dois tinham três filhos. Nas famílias com três filhos, foi solicitado que os genitores indicassem qual filho com DT participaria da pesquisa. Participaram como respondentes desta investigação um total de 36 pessoas, dentre mães (n = 12), pais (n = 12) e filhos com DT (n = 12). Todos os participantes residiam em uma cidade no interior do estado de Minas Gerais.

A idade média das mães era de 41 anos e seis meses (desvio-padrão = 5,6) e dos pais de 43 anos e oito meses (desvio padrão = 6,1). Com relação à escolaridade dos genitores, as mães tinham ensino superior completo (n = 7), ensino médio completo (n=4) e ensino fundamental incompleto (n = 1). Daquelas com ensino superior, quatro haviam completado pós-graduação, sendo duas delas em nível de mestrado. Com relação aos pais, estes tinham ensino superior completo (n = 8), ensino médio completo (n = 3) e ensino fundamental incompleto (n = 1). Destes, cinco concluíram uma pós-graduação, tendo dois deles o título de mestre. No tocante à ocupação profissional, houve uma variedade de profissões relatadas pelos genitores. Quatro mães não trabalhavam fora de casa e os demais genitores eram servidores públicos, empresários ou tinham cargos autônomos, técnicos, administrativos e na área da saúde e educação. Um pai estava desempregado na ocasião da coleta de dados. A renda média das famílias era de 8,6 salários mínimos no início da coleta de dados (desvio-padrão = 6,4), sendo a maior renda de 20 salários mínimos e a menor de 1,6 salários mínimos.

Mesmo que os filhos com SD não tenham participado como respondentes desta pesquisa, é importante caracterizá-los para uma melhor compreensão das famílias investigadas. Assim, em relação aos filhos com SD, estes tinham idade entre dois anos e sete meses e 15 anos e 11 meses, com média de sete anos e três meses. Cinco eram do sexo masculino e sete eram do sexo feminino. Já os filhos com DT participantes deste estudo tinham idade entre quatro anos e 2 meses e 17 anos e 11 meses, com média de nove anos e onze meses. Destes, cinco eram do sexo feminino e sete do sexo masculino. Com relação à ordem de nascimento, apenas em quatro díades o irmão com SD era mais velho que o irmão com DT. A diferença mínima de idade entre os irmãos era de 11 meses e a máxima era de sete anos. A falta de padronização da idade dos irmãos ocorreu em decorrência da dificuldade de conseguir famílias participantes com as características que se enquadravam no critério de inclusão da pesquisa, a saber, pai e mãe casados, com ao menos dois filhos, tendo um deles o diagnóstico de SD. A Tabela 1 apresenta as configurações das famílias participantes.

Tabela 1
Configurações das famílias participantes

Instrumentos

Para a coleta de dados foram utilizados a EAD e o QRF. A versão da EAD, de Spanier e Cole (1976), utilizada para a coleta de dados foi traduzida para a língua portuguesa do Brasil, tendo sido a mesma versão empregada nos estudos de Pereira-Silva (2015) e Pereira-Silva, Dessen e Barbosa (2015) com casais com filhos com e sem deficiência. O instrumento é composto por 32 itens com possibilidades de resposta de 5, 6 ou 7 pontos, com exceção dos itens 29 e 30, que têm apenas duas opções de resposta, quais sejam, “sim” ou “não”. Os itens da escala buscam representar o ajustamento conjugal por meio das seguintes dimensões: Consenso Diádico, Coesão Diádica, Satisfação Diádica e Expressão de Afeto. A dimensão Consenso Diádico avalia o nível de concordância entre os parceiros sobre assuntos importantes para a relação conjugal, tais como religião, filosofia de vida e atividades de lazer, dentre outros (por exemplo: concordância dos parceiros em relação à “Administração de finanças da família”). A Coesão Diádica avalia os interesses comuns e as atividades compartilhadas pelo casal (por exemplo: “Você e sua(seu) parceira(o) envolvem-se em interesses externos juntos?”). A Satisfação Diádica mensura a satisfação com o estado atual da relação e o compromisso com a sua continuidade, bem como a quantidade de tensão que há na relação e em que medida foi considerada a possibilidade de separação e/ou divórcio (por exemplo: “Em geral, quantas vezes você pensa que as coisas entre você e sua(seu) parceira(o) estão indo bem?”). Já a dimensão Expressão de Afeto se refere à satisfação individual acerca da expressão de afeto e do sexo na relação (por exemplo: Concordância dos parceiros em relação a “Demonstração de afeição”). Os escores das quatro dimensões da escala são obtidos a partir do somatório dos itens relativos a cada uma delas, sendo a pontuação mínima para todas o valor 0, e a pontuação máxima os seguintes valores: 65 para Consenso Diádico, 50 para Satisfação Diádica, 24 para Coesão Diádica e 12 para Expressão de Afeto. Para o cálculo da pontuação total da EAD é feita a soma dos pontos de todos os itens, variando entre 0 e 151.

A classificação do ajustamento das díades com base nos escores da EAD foi efetuada de acordo com os critérios propostos por Spanier e Cole (1976). Dessa forma, indivíduos que obtiveram 101 pontos ou menos foram classificados como desajustados ou em sofrimento no relacionamento conjugal, e os que alcançaram 102 pontos ou mais como ajustados. Esse critério de avaliação tem sido utilizado de forma satisfatória por outros estudos brasileiros (Oliveira, Alvarenga, & Soares, 2022; Pereira-Silva, 2015; Peruchi, Donelli, & Marin, 2016).

O QRF foi elaborado por Furman e Buhrmester (1985) e apresenta duas versões (para genitores e para irmãos). Ambas avaliam quatro fatores da relação fraternal: Amorosidade/Proximidade, Status Relativo/Poder, Conflito e Rivalidade. Tanto a versão para os genitores como aquela para os irmãos foram utilizadas nesta pesquisa. O questionário foi traduzido e adaptado por Almeida (2018). O fator Amorosidade/Proximidade é composto por escalas que avaliam intimidade, comportamento pró-social, companheirismo, similaridade, admiração pelo irmão, admiração do irmão e afeição/carinho. O fator Status Relativo/Poder é formado por escalas que investigam o cuidado com o irmão e a dominância sobre o irmão. As escalas para brigas, antagonismos e competição compõem o fator Conflitos. Já o fator Rivalidade é composto por escalas que avaliam a parcialidade materna e paterna.

Destaca-se que o QRF foi testado e validado por seus autores em crianças de 11 a 13 anos de idade. A fim de verificar a viabilidade da administração do instrumento em crianças com idade entre quatro e 10 anos, Almeida (2018) realizou um estudo-piloto com quatro crianças com idades de quatro, cinco, seis e sete anos, aplicando o instrumento de forma direcionada: a pesquisadora lia os itens para a criança ou junto dela, no caso daquelas que já sabiam ler, e os itens de resposta eram apresentados com o auxílio de desenhos, conforme exemplo disponibilizado na Figura 1. Os resultados do estudo-piloto demonstraram que o instrumento é adequado para crianças a partir de quatro anos de idade, desde que respondido com o suporte de um pesquisador/profissional. Assim, este foi o modelo de aplicação do QRF utilizado neste estudo para crianças com idade até 10 anos:

Figura 1
Representação dos itens de resposta do QRF para aplicação com crianças com idade entre quatro e 10 anos

Para a correção do QRF, o cálculo da pontuação dos fatores é efetuado a partir da média aritmética dos itens. Os itens relativos aos fatores Amorosidade/Proximidade, Conflito e Status Relativo/Poder são pontuados de 1 (“quase nunca”/“quase nada”) a 5 (“extremamente”). Uma maior pontuação em cada fator indica maior presença da dimensão estudada na relação fraternal. Por exemplo, quanto mais próximo de 5 for a pontuação no fator Amorosidade/Proximidade, mais amorosidade/proximidade há no relacionamento entre os irmãos. Já os itens do fator Rivalidade são pontuados de 0 a 2, de modo que zero indica respostas que denotam não haver parcialidade no tratamento parental (por exemplo, “Os filhos recebem o mesmo tratamento”) e 2 indica maior parcialidade no tratamento parental em relação a um dos filhos (por exemplo, “________ quase sempre é tratado melhor”). Uma maior pontuação demonstra haver parcialidade parental, embora não indique quem é o filho favorecido.

Procedimentos

Para a realização desta investigação, seguiram-se rigorosamente os aspectos éticos de pesquisas com seres humanos. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, da Universidade Federal de Juiz de Fora, sob o parecer número 1.254.389. Todos os participantes, incluindo as crianças e adolescentes, foram esclarecidos oralmente sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa. Após a concordância verbal dos participantes, as mães e os pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

As famílias foram recrutadas a partir de uma lista de cadastro disponível no núcleo de pesquisas ao qual as pesquisadoras pertencem e por meio de indicação, isto é, as famílias que aceitaram participar indicaram outras que não constavam do cadastro. A coleta de dados foi realizada na residência dos participantes em dia e horário disponibilizados por eles, de modo que o casal respondeu, separadamente, à EAD e ao QRF, e os irmãos com DT responderam ao QRF. Nas duas famílias em que havia mais de um filho com DT, o respondente foi escolhido pelos genitores. Ressalta-se que, ao término da pesquisa, todos os participantes foram comunicados sobre os resultados e reflexões gerados por este estudo.

Os dados da EAD e do QRF foram tabulados e submetidos a análises uni e bivariadas com o auxílio do software Statistical Package for the Social Science (SPSS 21) e do Minitab 16. O teste de comparação de dois grupos independentes de Mann-Whitney foi utilizado para avaliar a existência de possíveis diferenças significativas entre o grau de parentesco (pai e mãe). A comparação de mais de dois grupos em relação ao grau de parentesco do respondente (pai, mãe e irmão) foi realizada por meio do teste não paramétrico de comparação de dois ou mais grupos independentes de Kruskall Wallis. No caso da existência de diferença significativa, o teste de comparações múltiplas de Tukey foi utilizado para indicar onde as diferenças ocorriam. O coeficiente de correlação não paramétrico de Spearman foi utilizado para investigar possíveis associações entre os resultados do QRF e os dados da EAD.

Para determinar se as diferenças e associações encontradas eram estatisticamente significativas, utilizou-se o nível de significância de 5%. Assim, consideraram-se como significativas diferenças e associações cuja probabilidade de significância do teste, p-valor, é menor ou igual a 0,05.

Resultados

A partir da análise dos dados da EAD, identificou-se que 10 esposas e 11 esposos avaliaram os seus relacionamentos conjugais como ajustados. A Tabela 2 apresenta os resultados da comparação da média, mediana e desvio-padrão entre os itens da escala em relação aos esposos e esposas.

Tabela 2
Comparação do resultado geral e dos fatores da EAD entre as esposas e os esposos

Conforme se observa na Tabela 2, os esposos apresentaram médias mais elevadas quando comparados às esposas, com exceção de duas dimensões: Expressão de Afeto, em que as médias de ambos os cônjuges são semelhantes, e Satisfação Diádica, cuja média das esposas foi mais elevada. Contudo, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre as respostas de esposas e esposos.

No que se refere à qualidade da relação fraternal, o fator Amorosidade/Proximidade apresentou média mais elevada de acordo com os irmãos, as mães e os pais. Já os fatores Rivalidade e Conflito apresentaram médias mais baixas, segundo a perspectiva dos três grupos de participantes, conforme pode ser visualizado na Tabela 3.

Tabela 3
Médias, medianas, desvio padrão e p-valor dos fatores do QRF, segundo os genitores e irmãos com DT

A Tabela 3 evidencia uma diferença significativa entre os resultados do pai, mãe e irmão somente no construto Rivalidade, sendo p-valor menor que 0,05. O teste de comparações múltiplas de Tukey indica que as pontuações atribuídas pelos irmãos em relação à rivalidade são significativamente menores do que as indicadas pelas mães e pais.

Ademais, análises de correlação entre os fatores da EAD e os quatro fatores do QRF indicaram que a dimensão Coesão Diádica apresenta correlação direta e significativa com Amorosidade/Proximidade, no sentido de que quanto maior a Coesão Diádica maior a Amorosidade/Proximidade, sendo p-valor menor do que 0,05, conforme pode ser observado na Figura 2. Não foi observada associação significativa entre os fatores do QRF e o Consenso Diádico, a Satisfação Diádica e a Expressão de Afeto, sendo p-valor maior do que 0,05 em todos os casos. Também não foi observada correlação significativa entre o resultado global da EAD e os fatores do QRF.

Construto Coeficiente P-valor
Amorosidade/Proximidade 0,551 0,005
Conflito 0,240 0,259
Status Relativo Poder 0,394 0,057
Rivalidade 0,255 0,230

Figura 2.
Associação entre Coesão Diádica e os fatores do QRF

Efetuaram-se análises comparativas entre os resultados dos quatro fatores do QRF de mães, pais e irmãos com DT de famílias com casais ajustados e desajustados. Os dados podem ser visualizados na Tabela 4.

Tabela 4.
Comparação dos resultados das esposas, dos esposos e dos irmãos das famílias de casais ajustados e desajustados em relação aos fatores do QRF

Houve diferenças significativas entre avaliações de mães de casais ajustados e desajustados, de modo que as mães de casais desajustados relataram uma maior percepção de Rivalidade entre os filhos. No que se refere à avaliação dos pais sobre a relação entre os seus filhos, embora tenham sido observadas diferenças entre os resultados dos grupos de casais ajustados e desajustados, não é possível afirmar que essas diferenças são estatisticamente significativas, tendo em vista que o p-valor é maior do que 0,05 em todos os casos. Sobre os resultados dos irmãos com DT, observou-se que os filhos de casais desajustados avaliam que o Conflito em sua relação fraternal é significativamente maior do que o Conflito avaliado por filhos de casais ajustados.

Discussão

O estudo das relações familiares deve ocupar lugar de destaque na ciência do desenvolvimento humano, uma vez que a família é o principal contexto de desenvolvimento da pessoa. A partir da análise dos dados deste estudo e em consonância com os pressupostos da perspectiva sistêmica para a compreensão do grupo familiar, observa-se a associação entre as relações conjugais e as fraternais. Esse resultado permite afirmar que, em famílias com crianças e adolescentes com SD, há interconexões entre os subsistemas conjugal e fraternal, conforme destacado por Chen (2023) em famílias com membros com DT.

Corroborando a literatura na área, os resultados evidenciaram que a maioria dos cônjuges avalia seus relacionamentos como ajustados (Chen, 2023; Easler, Taylor, Roper, Yorgason, & Harper, 2022; Pereira-Silva, 2015; Pereira-Silva & Almeida, 2021; Pereira-Silva et al., 2015), o que sugere que a presença do filho com SD não é causa de desajustamento conjugal. Entretanto, devido à limitação na quantidade de participantes, sugere-se a investigação desse tema com um número maior de participantes.

Os resultados desta investigação também apoiam a conclusão de que a relação fraternal nas famílias investigadas é caracterizada por afeição, carinho, companheirismo, comportamento pró-social, similaridade, intimidade e admiração de um irmão pelo outro, conforme já demonstrado pela literatura nacional e internacional (Almeida & Pereira-Silva, 2021; Lemoine & Schneider, 2022; Pereira-Silva, Crolman, Almeida, & Rooke, 2017; Victor et al., 2021). Essas características foram compartilhadas tanto pelos genitores como pelos irmãos com DT. Esse é um resultado importante, que permite concluir que as relações fraternais nessas famílias apresentam, provavelmente, mais características protetivas do que de risco, como algumas pesquisas das décadas de 1980 destacavam (Almeida & Pereira-Silva, 2021).

No tocante às associações entre os subsistemas conjugal e fraternal, a existência de correlação direta e significativa entre a Coesão Diádica do casal e a Amorosidade/Proximidade dos irmãos possibilita afirmar a existência de influência mútua entre a qualidade positiva das relações fraternais e conjugais. Assim, quando a relação conjugal se caracteriza como mútua, envolvendo diálogo, compartilhamento de atividades e interesses e união entre os parceiros, também se identificam adequados níveis de afeição/carinho, companheirismo, similaridade, intimidade, comportamento pró-social e admiração entre os irmãos de forma mútua. Esse resultado é coerente com os pressupostos da teoria dos sistemas familiares, que prevê a inter-relação e interdependências entre os subsistemas (Jensen et al., 2021). Além disso, apoia a literatura internacional com famílias com filhos com DT (Skinner & McHale, 2022) demonstrando que ambos os tipos de famílias, com ou sem filhos com SD, apresentam similaridades quanto à interdependência da qualidade das relações familiares. Entretanto, dada a escassez de literatura e a falta de consenso científico sobre o assunto, sugere-se que estudos futuros, multiculturais e com amostras maiores sejam planejados e implementados, a fim de evidenciar empiricamente o que é proposto pela teoria sistêmica, a saber, a interdependência e influência mútua dos subsistemas familiares. Esses dados poderão ser adotados para basear as intervenções centradas no grupo familiar, conforme recomendam Dessen, Cerqueira-Silva e Pérez-López (2021).

Nas famílias cujos cônjuges apresentam bom ajustamento conjugal, os irmãos avaliam suas relações fraternais como tendo um menor nível de conflito do que aqueles de famílias com casais desajustados. Embora tenha havido diferença estatisticamente significativa apenas no grupo de irmãos, esposas e esposos em desajustamento também apresentaram escores superiores em relação à percepção do conflito entre seus filhos quando comparados aos participantes que avaliaram sua relação conjugal como ajustada. Nesse sentido, aparentemente em famílias em que a relação conjugal é conflituosa, a relação entre os filhos é caracterizada por um maior nível de antagonismo, competição e brigas, o que é similar aos achados de Stocker e Youngblade (1999). Contudo, esse resultado deve ser analisado com cautela, tendo em vista que o nível de conflito fraternal relatado pelos participantes é menor do que o índice de Amorosidade/Proximidade, o que impossibilita a conclusão de que relações conjugais desajustadas estão associadas a baixo nível de afetuosidade entre os irmãos, tampouco que a relação fraternal é predominantemente hostil e conflituosa. Sendo assim, aparentemente há mais chance de ocorrência de episódios de conflito entre irmãos quando os genitores estão em uma relação desajustada, mas, mesmo com a presença de conflitos, os irmãos têm uma relação marcada pela amorosidade.

O fator Rivalidade, que indica a parcialidade materna e paterna em relação a um dos filhos, foi avaliado pelos participantes como sendo mais elevado entre famílias de casais desajustados, embora só tenha sido encontrada diferença significativa nos resultados das mães. Resultado semelhante foi encontrado por Chen (2023), que explica essa constatação por meio do favoritismo parental, isto é, o fato de os pais se apegarem a um ou outro filho, quando vivenciam um casamento desajustado. Esse tipo de padrão implicaria resultados negativos, tais como o ciúme e o maior nível de conflito na relação fraternal. Nesse sentido, é possível supor que a relação conjugal influencie a fraternal por mediação da relação estabelecida entre genitores e filhos.

No tocante à maneira como ocorre a influência entre os subsistemas familiares, é possível supor, conforme sugerido por Stocker et al. (1997), que os filhos que vivenciam cenas de conflitos e discussões desrespeitosas constantes entre os genitores podem aprender a interagir por meio de gritos, xingamentos e rispidez, diminuindo expressões de carinho e proximidade na relação fraternal. Em seu clássico estudo, Brody, Stoneman, & Burke (1987) reforçam essa hipótese ao indicarem que a desarmonia conjugal provavelmente contribui para o risco de conflito entre irmãos, já que proporciona modelos de comportamento conflituoso, distante ou verbalmente agressivo. Da mesma forma, os genitores que presenciam cenas de conflitos entre seus filhos podem ficar mais suscetíveis ao estresse, o que produziria um impacto no conflito conjugal, diminuindo as oportunidades de emissão de comportamentos de expressão de afeto.

Outra hipótese para os resultados encontrados é que, ao presenciarem interações coesas entre os genitores, os filhos aprendem, por observação, a interagir com os membros familiares com amorosidade, proximidade e respeito. Diante dessas hipóteses, novos estudos devem se ocupar da investigação sobre como se caracterizam as relações conjugais e as fraternais ao longo do tempo, considerando tanto o desenvolvimento familiar quanto o desenvolvimento individual de genitores e filhos, a fim de melhor compreender se e em que momento os conflitos se intensificam e quando se tornam estáveis, além de quais os fatores protetivos e de risco ao desencadeamento e resolução positiva ou inadequada dos conflitos familiares.

O tamanho da amostra pode ser indicado como uma limitação desta pesquisa. É possível supor que estudos com amostras maiores permitirão a análise das inter-relações das características dos subsistemas conjugal e fraternal de forma mais robusta. Contudo, destaca-se a dificuldade de recrutar e selecionar grandes amostras, tendo em vista os critérios de inclusão desta pesquisa. Investigar ao mesmo tempo casais e irmãos em famílias com filhos com SD é um grande desafio e deve-se destacar, a sua originalidade e relevância científica. Investigar essas associações, obviamente, pressupõe que os casais tenham, pelo menos, um filho com SD e um com DT, o que era critério de inclusão. Pode-se citar como desafio o fato de ter havido a recusa de 19 pessoas (mães e pais) a participar do estudo, ao serem informados que a pesquisa avaliaria a qualidade da relação conjugal. Esse parece ser um tema sobre o qual as pessoas não estão muito dispostas a falar. Aliado a isso, pode-se mencionar a escassez de literatura, que não torna o tema menos fundamental, mas evidencia sua originalidade e importância para planejar intervenções dirigidas a essas famílias.

Considerando os irmãos, é importante refletir sobre a diferença de idade tanto dos respondentes com DT quanto daqueles que compõem as díades fraternais e que têm SD. Embora as investigações sobre as trajetórias de mudança no modo como se configuram as relações fraternais ao longo do tempo sejam raras e remontem principalmente às décadas de 1980 e 1990, há indícios de que a idade, a diferença de idade entre os irmãos e a ordem de nascimento sejam fatores que influenciam a qualidade da relação em aspectos como conflito, rivalidade, ciúmes, cuidado, proximidade e amorosidade (Pereira, Piccinini, & Lopes, 2019). Em função do tamanho da amostra, não foi possível analisar os fatores supracitados, mas se faz importante destacá-los visando despertar o interesse de novos pesquisadores pelo tema.

A falta de consideração de aspectos socioeconômicos e de gênero (tanto dos genitores quanto dos irmãos) na análise dos dados também se mostra como uma limitação da pesquisa, tendo em vista a influência desses contextos no desenvolvimento individual e familiar. Por exemplo, sabe-se das repercussões dos típicos papéis de gênero nas atividades e manejo de interações familiares desenvolvidos por homens e mulheres, sejam genitores/cuidadores ou filhos, bem como da importância da disponibilidade de recursos básicos de alimentação, saúde, moradia, educação e lazer para o funcionamento familiar (Conger, Conger, & Martin, 2010; Rook et al., 2019). Especificamente sobre a renda, Gordon, Dahl e Lochner (2012) indicaram que a baixa renda pode criar estresse e limitar o tempo e os recursos que mães e pais têm para se dedicar aos seus filhos, afetando negativamente a qualidade das relações familiares. Além disso, mães e pais de famílias com maior nível socioeconômico tendem a se engajar em atividades mais estimulantes e fornecer um ambiente mais rico para o desenvolvimento cognitivo dos filhos (Gao, Lee, & Permpoonputtana, 2024). Importa destacar que, apesar da discrepância das rendas das famílias deste estudo, em função do escopo deste trabalho, não foram avaliados os possíveis efeitos desses marcadores sobre as variáveis estudadas. Fica aberto o convite para que pesquisadores investiguem como a associação entre as relações conjugal e fraternal são modeladas por essas importantes variáveis.

Outra limitação deste estudo é o uso de um instrumento de coleta de dados que ainda não tem evidência de validade para a população brasileira. É preciso refletir, porém, sobre a escassez de instrumentos brasileiros ou adaptados e validados para as investigações dos processos do desenvolvimento familiar, o que dificulta a avaliação das famílias, conforme já havia sido destacado por Rooke e Pereira-Silva (2016). Assim, o uso de instrumentos que ainda não estão validados no Brasil torna-se um desafio para os pesquisadores na área de família e deficiência intelectual. Por outro lado, é preciso destacar que os achados deste estudo indicam a coerência dos resultados, uma vez que corroboram a literatura estrangeira.

Cabe ressaltar que a participação dos irmãos e dos pais como respondentes se mostra como um ponto forte deste trabalho, já que grande parte das pesquisas sobre relações familiares ainda tem somente as mães como informantes. Ademais, é interessante que os instrumentos de coleta de dados tenham sido respondidos separadamente pelos diferentes participantes do estudo, uma vez que a presença de um familiar pode inibir a resposta do outro, induzindo as respostas, o que produziria um viés na pesquisa. Destaca-se que obter resultados de diferentes membros familiares contribui para uma perspectiva mais sistêmica da dinâmica do grupo familiar.

Diante desses resultados, sugere-se a implementação de estudos longitudinais, a fim de acompanhar as famílias ao longo dos anos, buscando identificar as mudanças e continuidades no processo do desenvolvimento familiar que influenciam ou não a qualidade dos relacionamentos. Em adição, investigações futuras devem se dedicar ao estudo das famílias em diferentes momentos de transição, bem como com filhos de diferentes faixas etárias, especialmente adolescentes e adultos, tendo em vista a escassez de estudos com amostras com essas características.

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  • Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Como citar:
    Almeida, B. R., & Pereira-Silva, N. L. (2025). Associações entre relações conjugais e fraternais no contexto da síndrome de Down. Psicologia: Ciência e Profissão, 45, e279305. https://doi.org/10.1590/1982-3703003279305
  • How to cite:
    Almeida, B. R., & Pereira-Silva, N. L. (2025). Associations between Marital and Sibling Relationships in the Context of Down Syndrome. Psicologia: Ciência e Profissão, 45, e279305. https://doi.org/10.1590/1982-3703003279305
  • Cómo citar:
    Almeida, B. R., & Pereira-Silva, N. L. (2025). Asociaciones entre las Relaciones Conyugales y Fraternas en el Contexto del Síndrome de Down. Psicologia: Ciência e Profissão, 45, e279305. https://doi.org/10.1590/1982-3703003279305

Disponibilidade de dados

Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Out 2023
  • Aceito
    11 Nov 2024
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