Open-access A Dialética Platônica e a Investigação Psicológica conforme o Cognitivismo

Platonic Dialectics and Psychological Investigation According to Cognitivism

Dialéctica Platónica e Investigación Psicológica Según el Cognitivismo

Resumo

Ao longo de sua história, a psicologia é marcada por contribuições advindas do pensamento filosófico que influenciaram o desenvolvimento de conceitos e pesquisas teóricas e empíricas em seu campo. Assim, faz-se presente o pensamento de grandes nomes e tradições da filosofia ao longo do pensamento psicológico contemporâneo, como o de Platão. Conforme apontado e defendido pelo já falecido professor de história e filosofia da psicologia Antonio Gomes Penna, em parte, a influência do pensamento platônico na psicologia se deu indiretamente pela operação e pelo teste de hipóteses em investigações, de maneira que tal aspecto está presente nas pesquisas empíricas da disciplina ao longo de sua história. Nesse sentido, este breve ensaio buscou apresentar alguns pontos de compatibilidade, ou ao menos alguns exemplos, na direção de tal tese no caso do cognitivismo. Procurou-se também pontuar algumas distinções e incompatibilidades entre a dialética platônica e os processos de investigação empíricos adotados pelo cognitivismo, a fim de elucidar a tese de Penna.

Palavras-chave:
Dialética Platônica; Psicologia Cognitiva; Cognitivismo; Epistemologia da Psicologia; História da Psicologia

Abstract

Throughout its history, psychology has been marked by contributions from philosophical thought that have influenced and influence the development of theoretical and empirical concepts and research in its field. Thus, the thought of great names and traditions of philosophy occurs throughout contemporary psychological thought, such as Plato. As pointed out and defended by the late professor of history and philosophy of psychology Antonio Gomes Penna, in part, the influence of platonic thought in psychology indirectly took place by operating and testing hypotheses in investigations. Thus, this aspect occurs in empirical research of psychology throughout its history. This brief essay sought to describe some points of compatibility, or at least some examples, toward such a thesis in cognitivism. We also tried to point out some distinctions and incompatibilities between the platonic dialectic and the empirical investigation processes adopted by cognitivism to explain Penna’s thesis.

Keywords:
Platonic Dialectic; Cognitive Psychology; Cognitivism; Epistemology of Psychology; History of Psychology

Resumen

A lo largo de su historia, la Psicología ha estado marcada por aportes provenientes del pensamiento filosófico que influyeron y aún influyen en el desarrollo de conceptos e investigaciones teóricas y empíricas en su campo. Así, el pensamiento de grandes nombres, como el de Platón, y tradiciones de la Filosofía están presentes en todo el pensamiento psicológico contemporáneo. Como ha señalado y defendido el profesor de Historia y Filosofía de la Psicología Antonio Gomes Penna, en parte, la influencia del pensamiento platónico en la Psicología se debió indirectamente a la explotación y comprobación de hipótesis en las investigaciones, por lo que este aspecto está presente en las investigaciones empíricas de la disciplina a lo largo de su historia. En ese sentido, este breve ensayo buscó presentar algunos puntos de compatibilidad, o al menos algunos ejemplos, comprobando tal tesis en el caso del cognitivismo. También tratamos de señalar algunas distinciones e incompatibilidades entre la dialéctica platónica y los procesos de investigación empírica adoptados por el cognitivismo para dilucidar la tesis de Penna.

Palabras clave:
Dialéctica Platónica; Psicología Cognitiva; Cognitivismo; Epistemología de la Psicología; Historia de la Psicología

Introdução

A psicologia, ao longo de sua história, é marcada implícita e diretamente por contribuições advindas do pensamento filosófico que influenciaram o desenvolvimento de conceitos e pesquisas teóricas e empíricas em seu domínio (Araujo, 2012, 2013; Penna, 1997). A despeito das discussões acerca da continuidade ou descontinuidade do objeto da disciplina, bem como daquelas relacionadas à periodização de sua história, faz-se presente o pensamento de grandes nomes e tradições da filosofia ao longo do pensamento psicológico contemporâneo. Nesse sentido, destacamos aqui as contribuições advindas de Platão no que tange especificamente ao desenvolvimento da psicologia enquanto ciência empírico-experimental, conforme apontado e defendido pelo já falecido professor de história e filosofia da psicologia Antonio Gomes Penna (1986, 1991, 1997). Segundo Penna (1997), o legado do pensamento platônico é encontrado, de maneira geral, ora mais, ora menos explicitamente ao longo da história da psicologia de duas maneiras distintas.

De modo mais direto, tal legado é fonte de teses para escolas ou temáticas de investigações psicológicas específicas (por exemplo, as querelas acerca da natureza da alma, da linguagem, da aquisição de conhecimento e da execução da percepção na qualidade de construto de pesquisas empíricas). De modo indireto, ocorre por meio do uso claro e constante da concepção de operar-se por hipóteses que devem ser postas em exames (especulativos/lógicos e empíricos) buscando ser refutadas, como descrito e exemplificado no diálogo Mênon (Penna, 1997, pp. 228-229). Dessa maneira, tendo influído ao longo de todo o pensamento científico da história ocidental, o pensamento de Platão na psicologia dar-se-ia na elaboração e testagem de hipóteses nas pesquisas empírico-experimentais da disciplina, a psicologia experimental, contemporaneamente conhecida como psicologia cognitiva (Penna, 1997, p. 231).

Na esteira desse raciocínio, em acréscimo, acreditamos não ser exagero dizer que a história da psicologia passe pela influência de Platão (ou pelo pensamento da tradição racionalista influenciado por Platão) em outras temáticas que, guardadas as devidas proporções teórico-conceituais, carregam consigo alguma proximidade. Essas influências ocorreriam, assim, por meio da chamada ignorância socrática (definidora, pelo menos, da agenda de toda a tradição filosófica pautada na crítica racional ininterrupta) e da proposição geral de entidades ou estruturas permanentes além do tempo-espaço responsáveis pelas regularidades encontradas no mundo (estando de um lado as Formas, o conhecimento do que é em si por si, e de outro, as leis psicológicas ou mecanismos cognitivos, por exemplo).

No entanto, elencamos tais possíveis pontos de interseção como rápido levantamento de temas para pesquisas futuras, na medida em que este breve ensaio apresenta tão somente o objetivo de traçar algumas relações na direção que Penna (1997) apontou sobre a influência do trabalho por meio do delineamento e do exame de hipóteses. Mais especificamente, buscamos brevemente concatenar alguns aspectos da dialética platônica com os processos gerais de pesquisa utilizados na psicologia cognitiva. Assim, uma vez que a psicologia cognitiva é um campo empírico-experimental de estudo da disciplina, e não um movimento filosófico (Baars, 1986; Castañon, 2007b, Castañon, Justi, & Araujo, 2014; Fetzer, 2000; Penna, 1986), procuramos traçar relações entre algumas características da dialética platônica e os processos gerais de investigação, principalmente os quantitativos, empregados pela psicologia cognitiva segundo o cognitivismo - uma metateoria psicológica interdependente da psicologia cognitiva e responsável pela integração teórico-conceitual e filosófica de tal perspectiva de investigação psicológica.

Breve descrição da dialética platônica

Como é sabido entre os estudiosos de filosofia antiga, o exercício da dialética não parece ter sido criado por Platão, estando presente de maneira difundida em toda a cultura grega antiga na organização da pólis, das peças literárias e teatrais aos tribunais da época. Nesse sentido, como lembra Casertano (2018), Platão não a inaugura, mas oferece contornos, usos e variações próprias a sua concepção - sendo importante pontuar que, pelo menos da perspectiva desenvolvimentista no estudo de Platão, a dialética nesse autor não ocorreria como um todo homogêneo e acabado, seja como método, seja como conhecimento, mas como prática contínua, com algumas características gerais, poucos núcleos comuns e sendo testada de acordo com o objeto de estudo presente nos diálogos ou conjuntos de diálogos.

Nesse sentido, em benefício da clareza, é relevante preliminarmente ponderar que não há em Platão definições, descrições e caracterizações explícitas da dialética, e sim proposições a seu respeito que são oriundas das relações entre os personagens nos diálogos, de modo que a própria concepção que usamos atualmente de “termo” ou “conceito” não seria adequada para sua devida revisão e exame. Esse comentário se coaduna com o entendimento de Robinson (1941), que afirma que

o fato é que a palavra “dialética” tem uma forte tendência em Platão a significar o “método ideal, qualquer que seja. Na medida em que foi então meramente um título honorífico, Platão o aplicou em cada fase de sua vida para qualquer coisa que parecesse, naquele momento, o procedimento mais adequado (p. 74, tradução nossa).1

Segundo o comentário, o termo “dialética” é sinônimo de “método adequado” ou algo próximo, o que acrescenta uma camada a mais de dificuldade na sua interpretação. Por conseguinte, é nesse espaço que se dariam as interpretações sobre a dialética em Platão, sendo suficiente por ora somente mencionar que há distintas chaves hermenêuticas para a sua compreensão (oriundas, inclusive, mas não somente, das diferentes perspectivas interpretativas sobre o pensamento platônico). Dessa maneira, é pressuposta aqui uma perspectiva desenvolvimentista moderada, a qual concebe que não é possível uma definição fixa da concepção de dialética em Platão concomitantemente à existência de características gerais que permitem a delimitação da dialética enquanto tal, na medida em que ela passa por transformações ao longo do corpus Platonicum.

Dito isso, em linhas gerais, por dialética (na acepção clássica e não moderna da palavra) entende-se a atividade da contraposição de teses entre si, levando-as a um exame conjunto por meio do diálogo e da razão. Assim, em Platão, apesar de suas distintas manifestações, a dialética caracterizar-se-ia como um exercício ou uma prática na qual se apresentam pressupostos e contornos específicos (Casertano, 2018; Kahn, 1999; Trabattoni, 2012). Entendida dessa forma, ela necessariamente pressupõe a busca amorosa pela verdade, isto é, trata-se de um exercício de submissão de teses ao exame e refutação embebido por Éros, pelo desejo de obtenção de conhecimento mediante a amizade entre os participantes do diálogo. É nesses termos, vale dizer, que a dialética carregaria consigo a refutação socrática, pela investigação das faltas de consistência entre as proposições apresentadas e defendidas entre os participantes do diálogo (Benson, 2006), e não por intermédio da vergonha gerada como resultado de um confronto erístico em que há um oponente a ser vencido, como era característica comum da prática da retórica, como lembra Habinek (2005)2.

Concernente aos seus contornos mais específicos em Platão, é possível dizer que ela ocorre segundo regras próprias que se faz preciso aceitar para cumprir seu exercício. Essa concordância está associada à homologia, uma espécie de acordo entre os interlocutores para que o diálogo possa avançar de forma harmoniosa. Como exemplo, podemos retomar o diálogo Górgias, quando Sócrates convida o sofista à dinâmica de perguntas e respostas pressupondo que ele aceitará a refutação em caso de desarmonia entre suas crenças (Górgias, 457c-458b).

A tentativa de harmonizar as atitudes intelectuais dos dois interlocutores é uma atitude que visa o estabelecimento desse acordo prévio para que a conversa possa caminhar em direção à verdade. Desse modo, sucintamente, a dialética estaria restrita às regras de concordância de um diálogo, por meio do uso do discurso e da razão; às respostas objetivas às perguntas proferidas (isto é, respostas relativas ao objeto posto em relevo); assim como a manter uma concordância e coerência com aquilo que se disse, de modo que, por exemplo, se A é inicialmente A, mas demonstra-se que A é B, logo é necessária a admissão de que A não é A. Assim, em Platão, quando há pessoas que não estão dispostas a esse tipo de raciocínio conjunto com tais características, ou seja, à admissão de tais regras, pode-se dizer que a dialética falha, no sentido de que o próprio procedimento do diálogo é abandonado e, por conseguinte, a própria busca pela verdade.3 Essas regras são próximas a um entendimento lógico, o que é destacado por Enrico Berti (2013) ao apontar a presença, ainda que implícita, do princípio da não contradição, desenvolvido posteriormente na obra de Aristóteles.

A dialética platônica apresentaria algumas formas de manifestação que coexistem entre si, de maneira que o grau ou o caráter de complementaridade entre elas é objeto de estudo, interpretação e discussão acerca da obra platônica. Assim, as manifestações da dialética aconteceriam do seguinte modo: (i) necessariamente por meio do diálogo entre participantes que desejam o conhecimento e se engajam em conjunto com esse fim comum, passando pela prática de perguntar e responder por meio do élenkhos socrático, mais presente nos diálogos de juventude, consistindo do levantamento de teses submetidas ao exame pelo questionamento socrático; (ii) pela proposição de hipóteses e avaliação das consequências dessas hipóteses, dinâmica presente especialmente em diálogos como Mênon, Fédon e A República; assim como (iii) por meio do chamado método da divisão (diaíresis) e reunião (synagogé), apresentado inicialmente no Fedro, mas utilizado de forma mais frequente no Sofista, Político e Filebo, basicamente, relativo ao exame das relações entre a natureza última de certas definições na busca pelo conhecimento verdadeiro e não hipotético.

Em termos cronológicos, o método de hipóteses é introduzido no Mênon, a obra platônica que tem como inspiração o modo de raciocinar dos geômetras, que partem de uma hipótese e dela deduzem conclusões para estabelecerem um raciocínio sobre aquilo que se busca:

Parece então que é preciso examinar que tipo de coisa é aquilo que não sabemos ainda o que é. Se mais não <fizeres> então, pelo menos relaxa um pouco o comando sobre mim e consente que se examine a partir de uma hipótese se ela [a virtude] é coisa que se ensina ou se <é> como quer que seja. Por “a partir de uma hipótese” quero dizer a maneira como os geômetras conduzem suas investigações (Men. 86d-87d).4

Nesse sentido, expandindo um pouco mais a concepção das formas de manifestações da dialética, seria possível compreender, como o faz Casertano (2018), a dialética platônica em três grandes núcleos teóricos, face às dificuldades encontradas no estabelecimento da sucessão cronológica exata dos diálogos dentro de cada grupo5 e ao caráter supostamente assistematizado no qual Platão a apresentaria. Desse modo, o primeiro deles é a dialética pensada enquanto método de investigação, na medida em que é oriunda da discussão, não apenas buscando a verdade, mas também corrigindo o percurso metodológico para tal busca (quadro que estaria em diálogos como Mênon, Eutidemo, Crátilo e Fédon). No sentido mesmo da contraposição de opiniões distintas e consistindo na busca pela refutação por meio de perguntas e respostas, procura-se a concordância sobre os significados precisos dos termos utilizados e sobre o sentido que deriva da sua conexão.

O segundo núcleo teórico é a dialética tida como ciência, uma vez que se mostra também como um processo de investigação, mas se caracteriza como a capacidade de possuir a razão das coisas e o fim de todas as aprendizagens (quadro contido especialmente n’A República). Aqui, emergindo da metáfora da linha (A República, 509d-511e) e da alegoria da caverna (A República, 514a-520a), não se separam e contrapõem os sentidos do intelecto, mas se busca metodologicamente distingui-los com base nos critérios da obscuridade (o que é opinável) e da clareza (o conhecimento cognoscível), de modo que o primeiro estaria relacionado ao conhecimento do sensível e o segundo à possibilidade do conhecimento do inteligível. E nesse ponto estaria também enunciado o método do conhecimento inteligível, o método que utiliza hipóteses. Nesse sentido, o conhecimento seria um processo que é construído com base em e junto com um método específico que utiliza proposições. A dialética, assim, seria o processo de raciocinar a partir e sobre as proposições, sendo elas partes do que é não-sensível, as Formas, mas contendo também partes sensíveis (Casertano, 2018).

Já no terceiro núcleo teórico coligido por Casertano (2018), a dialética é entendida como conhecimento verdadeiro, de maneira que é tanto a capacidade de conectar asserções quanto o estabelecimento das possíveis relações e eventuais incompatibilidades entre elas (quadro que estaria presente nos diálogos Parmênides, Sofista, Político, Filebo e Timeu). Nesse núcleo, dar-se-ia a prática de distinguir e unificar essas asserções, isto é, “considerar a diferença na semelhança e, vice-versa, a semelhança na diferença” (Casertano, 2018, p. 183). Em outras palavras, na capacidade de relacionar as proposições de modo que sejam delimitadas as possibilidades de implicação e exclusão entre elas. Nesse sentido, tal capacidade significaria o caráter dinâmico e de incompletude da dialética, pois seria difícil e talvez inalcançável para o humano o descobrimento de todas as conexões (de compatibilidade e de incoerência) que ligam cada proposição a outra.

Essa caracterização da dialética vai ao encontro do que Dixsaut (2021) apresenta, ao apontar a dialética enquanto forma que toma o pensamento quando busca compreender aquilo que é. Nesse caso, o trabalho do dialético consiste justamente em não só ter a inteligência do que cada coisa é, mas descobrir e determinar, na medida do possível, as possíveis relações e articulações entre os seres. Isso fortalece um núcleo dialético em Platão que, mesmo com suas mudanças, preserva um fio de continuidade filosófica por detrás dessas alterações, indicando possíveis elementos unitários em um contexto variado de diálogos e de concepções sobre a dialética, de maneira a compreendê-la tendo elementos que a unificam, embora sendo um método diverso.

Podemos, assim, ao menos, aproximar essas compreensões no que tange ao caráter metodológico da dialética da caracterização feita por Benson (2006), a qual distingue a dialética em dois gigantes grupos, as chamadas dialética com “d” minúsculo e dialética com “D” maiúsculo (na qual pressupõe que Platão salienta tanto o método quanto a metodologia nos diálogos Mênon, Fédon e A República). Nessa concepção, a dialética com “D” maiúsculo seria aquela concernente ao método de divisão e reunião, baseada na segunda parte desigual na metáfora da linha, na qual referencia, ou busca referenciar, os objetos inteligíveis do conhecimento, e não os sensíveis, na busca pelo que seria não-hipotético e permanente (as Formas).

Já a dialética com “d” minúsculo estaria, no geral, relacionada ao processo da aferição da verdade de uma hipótese (possivelmente determinar as condições necessárias e suficientes das respostas às questões consideradas) por meio do exame de consistência das consequências das hipóteses propostas identificadas, até que se chegue àquela que é considerada aceitável pelos participantes do diálogo. Nesse raciocínio, essa manifestação da dialética estaria representada na primeira parte desigual na metáfora da linha, dirigir-se-ia de modo mais proeminente aos objetos sensíveis e, assim, seria chamada de método de hipóteses ou método dianoético (Benson, 2006).

Dessa maneira, todas as passagens dos três diálogos comentados por Benson (2006) apresentariam o uso de hipóteses com tais características gerais e sob perspectivas que lhe seriam peculiares. O Mênon mostraria o método em termos gerais, descrevendo-o como método empregado pelos geômetras e especificando seus dois processos de base: a identificação das hipóteses necessárias e suficientes propostas para resolver a questão em voga e a aferição de sua veracidade. No Fédon também haveria o reconhecimento desses dois processos, contudo se enfatizaria o exame das consequências das hipóteses e se forneceriam os detalhes desse procedimento: testar a consistência da hipótese com outras pressupostas e pospostas, e tentar confirmá-la por meio do emprego mesmo do método dianoético. Já A República acrescentaria aos demais o emprego do processo de aferir a veracidade das hipóteses aos objetos independentes da experiência sensível, no sentido de prosseguir na busca pelas Formas - e se dar na manifestação da dialética com “D” maiúsculo (Benson, 2006).

Breve descrição dos métodos gerais de investigação psicológica conforme o cognitivismo

Como apontado, o cognitivismo é uma escola psicológica contemporânea que se debruça sobre os estudos empíricos acerca da cognição humana na assim chamada psicologia cognitiva (Baars, 1986; Castañon, 2007b; Castañon et al., 2014; Fetzer, 2000; Kastrup, 2013; Penna, 1984, 1986). A psicologia cognitiva é definida por ser um campo empírico de investigação que estuda o processamento da informação, isto é, o processo e as estruturas cognitivas relacionadas à extração, estocagem, transformação, elaboração, recuperação e utilização de informações (Eysenck & Keane, 2017; Neisser, 1976, 2009, 1967/2014; Penna, 1984; Sternberg & Sternberg, 2012). Assim, a psicologia cognitiva apresenta o propósito de descobrir, descrever, explicar e predizer os padrões de atividade da cognição humana por meio de evidências comportamentais controladas em laboratórios (Eysenck & Keane, 2017) e em experiências na vida diária (Sternberg & Sternberg, 2012). Dito isso, a psicologia cognitiva (conjuntamente às demais ciências cognitivas) está voltada para buscar responder questões filosóficas de longa data relacionadas à natureza, aos componentes, às fontes, ao desenvolvimento e aos desdobramentos éticos do conhecimento humano por meio dos dados fornecidos pelas pesquisas empíricas, ao invés da busca por tais questões mediante a pura especulação (Depuy, 1996; Gardner, 1985; Lopes, Carvalho, Lopes, & Teixeira, 2012; Teixeira, 1998; Thagard, 2007, 2018).

Complementarmente, o cognitivismo é um movimento filosófico e uma abordagem da psicologia indissociável da psicologia cognitiva que delimita a cognição enquanto objeto de estudo, inferindo-a a partir de estados mentais, comportamentos observáveis e relatos verbais (Baars, 1986; Castañon, 2007b; Castañon et al., 2014; Justi, Araujo, & Castañon, 2014; Penna, 1984). Desse modo, apresenta o objetivo geral de explicar e predizer comportamentos e estados mentais a partir de hipóteses advindas de uma certa rede teórica-conceitual corroborada por investigações empírico-experimentais (Baars, 1986; Justi et al., 2014).

Nesses termos, conforme a concepção cognitivista de psicologia, parte da explicação e predição acerca da cognição e comportamento humano dão-se por meio de processos de investigação que, em linhas gerais, pode-se dizer que se encontram em conformidade com a definição e caracterização de ciência empírica à luz do racionalismo crítico, adotando sua concepção epistemológica como teoria do conhecimento de base (Castañon, 2007a, 2010; Castañon et al., 2014; Eysenck & Keane, 2017; Fetzer, 2000; Penna, 1986), apesar da falta de uma filiação formal ou explícita entre seus autores mais representativos e uma concepção específica de ciência (Castañon, 2007a, 2010; Castañon et al., 2014). Nesse sentido, o cognitivismo é concebido por alguns como superando parte dos empecilhos atribuídos pela tradição filosófica e científica no decurso da idade moderna acerca da cientificidade da psicologia (Castañon, 2009, 2010).

Assim, a psicologia cognitiva faz extenso uso conjugado de métodos qualitativos e descritivos (os variados tipos de autorrelatos, estudos de casos, observação naturalista), métodos experimentais e quase experimentais (tempo de reação para inferir e/ou testar processos mentais, técnicas de neuroimagem, controles laboratoriais de dados comportamentais) (Castañon, 2007b; Castañon et al., 2014; Eysenck & Keane, 2017; Lopes et al., 2012; Sternberg & Sternberg, 2012), além dos métodos construtivos para elaboração de modelo ou de hipótese causal (simulação computadorizada e análise estatística correlacional) (Castañon, 2007b; Castañon et al., 2014). Sob o emprego de tais métodos, o cognitivismo os interconecta por meio dos seguintes processos gerais de investigação empírica: o método hipotético-dedutivo (Castañon, 2007a, 2007b, 2018) e o causal-mecânico (Bechtel & Wright, 2012; Castañon et al., 2014; Thagard, 2007; Wright & Bechtel, 2007).

Assumindo o método geral hipotético-dedutivo como herança de Popper (1934/1972, 1967/2004), ele é empregado na compreensão cognitivista da psicologia cognitiva, estando geralmente mais vinculado à busca de leis e relacionado às tentativas de responder à seguinte pergunta genérica: “por que tal função cognitiva e tal comportamento individual ocorrem?”. Assim, segue quatro estágios, de modo que seus diferentes métodos utilizados são restritos somente a uma das etapas.

No primeiro estágio, da delimitação do problema, ocorre a descrição do fenômeno investigado, da maneira mais acurada possível, por meio dos métodos descritivos (os estudos de caso, os autorrelatos, as observações naturalistas e o levantamento de dados - com ou sem estudos de correlação). Na sequência, a conjetura é elaborada mediante um modelo ou hipótese causal. Para isso, é feito o uso dos chamados métodos construtivos (como a simulação computadorizada), de modo a permitir ao cientista a explicitação e formalização de seu modelo e/ou hipótese. O terceiro estágio consiste no teste de tais modelos e hipóteses construídas. Nele, busca-se a falsificação dessas conjeturas, por meio dos métodos experimentais e quase experimentais (como tempo de reação para inferir e/ou testar hipóteses sobre os processos cognitivos, técnicas de neuroimagem e controles laboratoriais de dados comportamentais) (Castañon, 2007a, 2007b, 2018; Eysenck & Keane, 2017; Lopes et al., 2012; Sternberg & Sternberg, 2012). Por fim, no quarto estágio, há as análises estatísticas dos resultados obtidos para a corroboração ou refutação da hipótese, ou do modelo testado (Castañon, 2007a, 2007b, 2018).

Desse modo, como explicitado por Castañon (2018), a identificação de um problema (isto é, a descrição de um fenômeno psicológico não explicado) por meio de métodos descritivos, implica a construção de hipóteses com consequências testáveis. Ulteriormente, de modo dedutivo, são realizados testes com o objetivo de refutar as conjeturas elaboradas, que, por intermédio da teoria anteriormente considerada, leva a afirmações que corroboram ou refutam a teoria (ou uma série de teorias) previamente apreciada. Isso, por sua vez, pode levar, dedutivamente, à identificação de um novo problema de pesquisa. Assim,

ao contrário do que pode ser concluído a partir de uma compreensão superficial do método hipotético-dedutivo, ele não é uma via de mão única, nem leva a falsificações definitivas ou descarte de teorias com base em um único experimento. Não só a base empírica da falsificação pode ser ela própria falsificada (através de novos experimentos), como os dados resultantes de um experimento motivam modificações na teoria, num processo de feedback contínuo, onde as novas teorias científicas de hoje são as crenças prévias de amanhã que serão desafiadas por novos dados (Castañon, 2018, p. 26).

Já a admissão ao método geral de investigação causal-mecânico está mais relacionada à busca de mecanismos (ou capacidades) ao invés de leis e às tentativas de responder às seguintes perguntas genéricas: “como certo tipo de comportamento observável ocorre?”; “como certa estrutura cognitiva funciona?”. Assim, diz respeito à especificação das entidades ou mecanismos cognitivos que causalmente são responsáveis pela produção ou manutenção de um dado conjunto de comportamentos observáveis (Leite, 2021; Thagard, 2007), e não de comportamentos individuais (Bechtel & Wright, 2012; Cummins, 2010; Wright & Bechtel, 2007). Dessa forma, uma vez identificado como um mecanismo (ou um componente) produz ou sustenta um fenômeno psicológico de um domínio-alvo, esse método ocorre das seguintes maneiras: (i) mediante a descrição da localização neurológica de um mecanismo (ou de suas partes) correlato a (ou causador de) um fenômeno psicológico específico, por meio de técnicas de neuroimagem como PET e fMRI; (ii) pela identificação das interações causais entre mecanismos de processamento de informações ou suas partes - ou seja, por intermédio das atividades e/ou pela decomposição de certo mecanismo responsável por dado conjunto de efeitos em certas condições (necessárias e não suficientes); assim como (iii) mediante a identificação e o discernimento da organização hierárquica e funcional de um certo mecanismo específico no processamento de informação, por meio da decomposição de seus componentes e das operações causais já hipotetizadas em descrições regulares de relações de causa-efeito, geralmente representadas nas setas dos fluxogramas (Bechtel & Wright, 2012; Cummins, 2010; Leite, 2021; Wright & Bechtel, 2007).

Dessa forma, para identificar as partes de um mecanismo de processamento de informação, determinar suas operações, suas funções, sua organização e representar como essas entidades constituem um sistema relacionado a um conjunto de fenômenos psicológicos,

a psicologia e neuropsicologia cognitiva fornecem técnicas para decompor a função cognitiva, mas não para localizá-la em regiões do cérebro. Começando na década de 1980 com PET e na década de 1990 com fMRI, os neurocientistas empregaram ferramentas para medir o fluxo sanguíneo em diferentes regiões do cérebro, que os neurocientistas cognitivos tratam como um representante para a atividade neural. . . . Assim como os estudos cronométricos, essas técnicas requerem hipóteses iniciais sobre as etapas dos componentes do processamento de informações. Mas eles também têm o potencial de instigar revisões nessas suposições iniciais se os estudos identificarem áreas de atividades adicionais [ênfase adicionada]. Essa descoberta leva a uma investigação sobre quais operações essas áreas estão realizando. Assim, a neuroimagem serve tanto para localizar operações funcionais em componentes estruturais quanto para orientar a busca de operações funcionais adicionais (Wright & Bechtel, 2007, pp. 63-64, tradução nossa).6

Em que sentido pode-se dizer que os métodos cognitivistas de investigação guardam proximidade com a dialética platônica?

No aporte epistêmico-metodológico, acreditamos ser possível traçar alguns pontos de compatibilidade entre a dialética platônica, principalmente o método de hipóteses, e o uso dos processos gerais de investigação hipotético-dedutivo e causal-mecânico utilizados pelo cognitivismo, oferecendo alguma sustentação argumentativa, ou ao menos uma ilustração, para a tese de Penna (1997) de que o constante uso e exame de hipóteses por parte de Platão influi no pensamento científico ocidental e apresenta-se (indiretamente) na psicologia por meio da elaboração e testagem de hipóteses em pesquisas empíricas. Desse modo, uma vez que acreditamos ser impossível uma aproximação pari passu entre a dialética platônica e o uso de tais métodos devido às notórias diferenças presentes entre a concepção e a operação de tais conceitos, salientaremos também algumas diferenças teóricas e pontos de incompatibilidade relevantes para maior clareza da tese defendida por Penna (1997). Contudo, consideramos que tais pontos não a invalidam, porque ela diz respeito à herança platônica para a psicologia contemporânea, figurando, como aludido, enquanto uma tese relativa à história da psicologia, e não uma defesa acerca da proporcionalidade entre a dialética platônica e os métodos empírico-experimentais empregados pela psicologia.

A partir do exposto, os métodos cognitivistas de investigação guardam proximidade com a dialética platônica na medida em que eles carregam consigo, subsumidamente em alguns pontos (mas evidentemente não em todos), o método de hipóteses platônico, dimensionando e ampliando-o quanto a outras concepções, conceitos e conteúdos empíricos submetidos a testes especulativos e, sobretudo, empíricos. Por exemplo, no segundo estágio do emprego do método hipotético-dedutivo, inicia-se o trabalho por meio da elaboração de hipóteses (causais) para explicar o problema delimitado anteriormente. E, no método causal-mecânico, o primeiro passo para a identificação de um mecanismo responsável pelo processamento de informação é a formulação de hipóteses sobre como uma certa estrutura cognitiva poderia realizar um conjunto de atividades específicas.

Nesse raciocínio, acreditamos ser correto afirmar também que a dialética com “d” minúsculo está (metodologicamente) imbuída nos métodos hipotético-dedutivo e causal-mecânico conforme empregados pelo cognitivismo, pois ambos trabalham por meio de discursos racionais e fazem uso de proposições que, por sua vez, geram hipóteses que são levadas a teste pelas consequências delas derivadas e, assim, são revisadas criticamente. Nesse caso, o próprio teste empírico cumpre um papel destacado de crítica sistemática. Ilustrando: isso acontece no emprego do método geral de pesquisa hipotético-dedutivo a partir de seu terceiro estágio, no qual as hipóteses anteriormente criadas são submetidas à avaliação por meio de exame lógico-dedutivo, experimentos, quase experimentos e análises estatísticas. Já em relação ao método causal-mecânico, isso ocorre pela atividade de examinar as consequências das hipóteses por meio da aferição do grau de coerência e correspondência que mantêm entre identificação, distinção (entre mecanismos e componentes) e descrição da organização hierárquica e função de um mecanismo ou componente, assim como por meio de testes empíricos de medidas indiretas.

Ademais, considerando tanto a dialética com “d” minúsculo quanto a com “D” maiúsculo, em linhas gerais, parece haver uma aproximação com os métodos de investigação empregados pelo cognitivismo por conta da comum ambição da busca pela verdade, ou todo o conjunto de assertivas verdadeiras - guardadas as devidas proporções relacionadas à compreensão de pesquisa, aos distintos objetos de estudo e ao nível de análise em foco. Desse modo, à luz racionalista crítica, todas essas investigações têm em comum o engendramento de proposições cada vez mais próximas do conhecimento verdadeiro, sendo passíveis de correções. Nesse sentido, por um lado, a dialética platônica ocorre como um conjunto de caminhos que busca descobrir as relações (lógicas) entre as hipóteses propostas para solucionar uma dada questão, em um movimento constante de busca pela verdade. Por outro lado, os métodos empregados pelo cognitivismo também ocorrem por meio do empreendimento de traçar e descobrir as relações lógicas presentes na sistematização de suas afirmações (em conceitos, hipóteses e teorias acerca da cognição e do comportamento humano). Além disso, tais métodos são constantemente passíveis de correções em seu emprego e geram explicações falíveis acerca de seu objeto de estudo, isto é, têm abertura constante à crítica lógica, exame da adequabilidade empírica e correções metodológicas e instrumentais, bem como a revisões de suas conclusões, em linha com o conhecimento científico segundo o racionalismo crítico, mantendo seu caráter conjetural e provisório.

No entanto, mesmo com o emprego da dialética com “d” minúsculo sobre os objetos sensíveis do mundo, o método de divisão e reunião (a dialética com “D” maiúsculo, empregada por Platão com o caráter constante de elucidar as relações positivas e negativas entre proposições) não ocorre sobre os objetos sensíveis, diferentemente dos métodos empregados pelo cognitivismo. Esse raciocínio nos leva aqui a considerar algumas outras distinções e dificuldades teóricas das relações de proximidade antes indicadas.

Em seus pontos teóricos de semelhança, a influência indireta da dialética platônica no emprego do método hipotético-dedutivo e causal-mecânico pelo cognitivismo parece encontrar seus limites nas perguntas proferidas por aquele que deseja conhecer. Enquanto a dialética busca definições de objetos, os métodos empregados pelo cognitivismo procuram respostas acerca da cognição e do comportamento humano para as perguntas “por que?” e “como?”. Dizendo de outro modo, a dialética platônica pode ou não partir do que se convencionou chamar de primado da definição, como aludido por Matthews (2006), enquanto os métodos utilizados pelo cognitivismo de facto partem de definições que permitem a operacionalização da produção e a reprodução de teorias com consequências empiricamente testáveis.

Nesse sentido, além de se distinguirem, notoriamente, pela delimitação de objetos de estudo e níveis de análise, os métodos aqui considerados são também discrepantes em termos de suas formas de operação. Em nenhum dos caminhos da dialética platônica haveria o controle mais ou menos sistematizado de certos aspectos do mundo, como funções cognitivas e tipos especificados de comportamento, para a testagem de hipóteses com conteúdo empírico. Nesse sentido, a dialética platônica é um conjunto de manifestações especulativas sobre os objetos do mundo (em sentido moderno/contemporâneo), enquanto os métodos utilizados pelo cognitivismo apresentam um caráter empírico, com testes por meio de controle de variáveis, e com uso formalizado da lógica-dedutiva, na linha das ciências cognitivas de buscar respostas para questões filosóficas a partir da testagem de hipóteses e dos dados oferecidos por pesquisas empíricas7.

Nessa direção, acreditamos haver outra importante discrepância concernente às formas de operação de tais métodos. Apesar da busca pela verdade (todo o conjunto de assertivas verdadeiras) e pela pressuposição da concordância estar presente em todos esses métodos, a dialética platônica ocorreria por meio do exame da concordância entre as hipóteses levantadas e suas consequências (como herança do élenkhos socrático) entre os significados dos objetos postos em foco e do sentido derivado da conexão entre as proposições colocadas entre amigos embebidos pelo desejo de conhecer. Já os métodos de pesquisa empregados pelo cognitivismo dão-se na relação entre as próprias proposições entre si (caráter puramente lógico) e entre elas e as consequências necessárias advindas dos objetos do mundo às quais alegam dizer respeito (caráter empírico), de modo que tais objetos (como a cognição e os comportamentos individuais) são intermediados por teorias (psicológicas e neurológicas) que em alguma medida os condicionam e são derivados tanto de dados laboratoriais quanto de observações naturalísticas.

Dito isso, a última característica metodológica destoante relevante para esta ocasião diz respeito à presunção dos participantes da pesquisa. Como colocado, a dialética platônica pressuporia um exercício de submissão de teses em uma prática conjunta e colaborativa entre os participantes do diálogo, que, para isso, utilizam o discurso e a razão, de modo que o exame das proposições e a busca pela verdade seriam intermediados pelo amor ao conhecimento e pela amizade entre aqueles que tecem o diálogo. A dialética platônica seria assim pautada por essas pressuposições, de tal modo que seu próprio emprego falha quando os participantes do diálogo abandonam essas presunções perante o outro e o conhecimento.

Essa característica é incoerente e dispensável no emprego dos métodos hipotético-dedutivo e causal-mecânico pelo cognitivismo. E acreditamos nisso por duas razões. Primeiramente, é incoerente porque o uso cognitivista de tais métodos de investigação não se dá entre dois sujeitos cognoscentes que compartilham das mesmas condições de pesquisadores em relação a um objeto específico, mas de modo que as interações entre o(s) pesquisador(es) e o(s) sujeito(s) submetido(s) à pesquisa ocorrem sob circunstâncias distintas, assimétricas. O pesquisador não submete alguma hipótese posta em exame em relação a algum atributo de si mesmo, mas somente concerne ao(s) sujeito(s) pesquisado(s), de tal maneira que, por sua vez, o(s) sujeito(s) submetido(s) à pesquisa não participa(m) das análises lógicas e estatísticas acerca da hipótese testada - ou, se isso ocorre, o faz sob condições distintas na pesquisa em curso, alternando entre pesquisador e pesquisado e suas respectivas condições. Assim, não é presente o caráter socrático de perguntar e responder entre dois sujeitos cognoscentes na busca pela definição de um objeto em foco por meio de hipóteses sobre tal objeto.

O exercício de submeter o exame de proposições a uma prática conjunta e colaborativa entre sujeitos participantes de um diálogo é prescindível no caso do cognitivismo, pela razão de que é presumida, nesse sentido, somente uma interação entre o sujeito cognoscente (o pesquisador) e a parte do mundo que é seu objeto de investigação (comportamentos e estruturas cognitivas correspondentes das pessoas individualmente ou em amostras populacionais, seja em situações de laboratório, seja em experiências na vida diária). Assim, o uso cognitivista de tais métodos não pressupõe necessariamente uma conduta dialética entre os pesquisadores, seja na acepção grega clássica, seja na platônica da palavra. Nesses termos, o uso de cláusulas ad hominem nas análises lógicas dos últimos estágios dos métodos hipotético-dedutivo e causal-mecânico, por exemplo, atrasa o desenvolvimento das pesquisas em psicologia, mas não inviabiliza o emprego de tais métodos.

Considerações finais

Na linha argumentativa aqui traçada, portanto, o trabalho a partir da elaboração e do exame de hipóteses feito por Platão em sua compreensão da dialética influencia indiretamente (por meio do pensamento científico ocidental) o emprego dos métodos hipotético-dedutivo e causal-mecânico, nos termos identificados e defendidos por Penna (1997), visto que representam, em parte, o legado do pensamento platônico na psicologia experimental contemporânea conforme definida pelo cognitivismo.

No sentido epistêmico-metodológico, ao menos, com base no que foi exposto, os processos gerais de investigação cognitivistas carregam consigo o método de hipóteses platônico de maneira subsumida, no sentido da dialética com “d” minúsculo, como proposto por Benson (2006), contextualizando-o à psicologia cognitiva. No entanto, também foram brevemente postas em relevo algumas distinções teóricas que impedem uma aproximação pari passu de todos esses métodos (diferenças nas perguntas proferidas por quem deseja conhecer; nas formas de operação de tais métodos e na pressuposição dos participantes da pesquisa). Este trabalho, assim, estende a argumentação em apoio à tese de Penna (1997), sem deixar de lado algumas distinções que, acreditamos, não invalidam sua defesa.

Disponibilidade de dados:

Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

https://doi.org/10.1590/1982-3703003281108

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  • 1
    “The fact is that the word ‘dialectic’ had a strong tendency in Plato to mean ‘the ideal method, whatever that may be’. In so far as it was thus merely an honorific title, Plato applied it at every stage of his life to whatever seemed to him at the moment the most hopeful procedure.”
  • 2
    Inclusive, podemos mencionar que o termo élenkhos, entendido como refutação dentro do contexto socrático-platônico, é fruto de um desenvolvimento semântico que se origina com o sentido da própria vergonha ou erro (Mafra, 2009).
  • 3
    O diálogo Górgias é relativamente interessante para observar essa falha da dialética, tendo em vista que Sócrates dialoga (ou tenta dialogar) com três interlocutores, Górgias, Polo e Cálicles, refutando os dois primeiros, enquanto o terceiro se nega a aceitar os termos do diálogo, com a obra terminando com um monólogo de Sócrates.
  • 4
    Tradução de Maura Iglesias (Platão, 2001): ἔοικεν οὖν σκεπτέον εἶναι ποῖόν τί ἐστιν ὃ μήπω ἴσμεν ὅτι ἐστίν. εἰ μή τι οὖν ἀλλὰ σμικρόν γέ μοι τῆς ἀρχῆς χάλασον, καὶ συγχώρησον ἐξ ὑποθέσεως αὐτὸ σκοπεῖσθαι, εἴτε διδακτόν ἐστιν εἴτε ὁπωσοῦν. λέγω δὲ τὸ ἐξ ὑποθέσεως ὧδε, ὥσπερ οἱ γεωμέτραι πολλάκις σκοποῦνται, ἐπειδάν τις ἔρηται αὐτούς.
  • 5
    Existe intenso debate acerca da cronologia das obras platônicas, mas há certo consenso no estabelecimento de três grandes grupos: os diálogos de juventude, os intermediários ou de maturidade e os diálogos tardios ou de velhice (Brandwood, 1990; Lopes, 2018).
  • 6
    “Both cognitive psychology and neuropsychology provide techniques for decomposing cognitive function, but not for localizing these in brain regions. Starting in the 1980s with PET and in the 1990s with fMRI, neuroscientists employed tools for measuring blood flow in different brain regions, which cognitive neuroscientists treat as a proxy for neural activity. . . . Like chronometric studies, these techniques require initial hypotheses about the component information-processing steps. But they also have the potential for prompting revisions in these beginning assumptions if the studies identify additional active areas. Such discovery prompts inquiry into what operations these areas are performing. Thus, neuroimaging serves both to localize functional operations onto structural components as well as to guide the search for additional functional operations.”
  • 7
    Acerca desse ponto, ressaltamos que a compreensão de ciência adotada pelas ciências cognitivas já está inserida em um contexto pós-revolução científica dos séculos XVI-XVIII na Europa. Platão, com sua multifacetada dialética, estava em um contexto predominantemente especulativo e pensava caminhos para o raciocínio especulativo, embora estes, como apresentamos aqui, possam servir como influência para o desenvolvimento de ciência empírica posterior.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Dez 2023
  • Aceito
    14 Mar 2025
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