Resumo:
Este artigo traça um panorama da construção da Psicologia como ciência e profissão em três países africanos de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde e Moçambique. A partir de uma análise comparativa, examinam-se os marcos históricos, os modelos de formação acadêmica, os esforços de regulamentação profissional e os desafios enfrentados por esses países na consolidação da Psicologia como ciência e profissão. Um dos focos centrais da análise é o papel desempenhado pelo Brasil no processo de cooperação internacional, especialmente por meio de programas de formação como o PEC-G e o PEC-PG, além da atuação de universidades e instituições representativas da Psicologia brasileira. O artigo propõe uma reflexão crítica sobre os limites da transferência vertical de modelos formativos e destaca a importância de uma internacionalização horizontal, baseada na valorização dos saberes locais e na construção conjunta de práticas e epistemologias. Ao enfatizar a urgência de fortalecer as parcerias Sul-Sul, o texto contribui para o debate sobre uma Psicologia lusófona mais plural e comprometida com os desafios sociais dos contextos africanos. A análise revela tanto os avanços quanto os obstáculos ainda presentes, apontando caminhos para uma cooperação mais equitativa e transformadora.
Palavras-chave:
Formação de psicólogos; Angola; Cabo Verde; Moçambique; Cooperação Sul-Sul
Abstract:
This article reviews the development of Psychology as a science and profession in three Portuguese-speaking African countries—Angola, Cape Verde, and Mozambique—through a comparative analysis, exploring historical milestones, academic education models, professional regulation efforts, and the main challenges faced in consolidating the psychological science and profession. A key focus is the role played by Brazil in fostering international cooperation, especially via education programs like PEC-G and PEC-PG, and the involvement of Brazilian universities and psychology institutions. The article critically reflects on the limitations of vertically transferred models and emphasizes the need for a horizontal internationalization process—one that values local knowledge and promotes the co-construction of practices and epistemologies. By highlighting the urgency of strengthening South-South partnerships, the paper contributes to the debate on building a more plural, context-sensitive, and socially engaged Lusophone Psychology. The analysis reveals both advances and persistent obstacles, pointing toward more equitable and transformative forms of international collaboration.
Keywords:
Psychologist training; Angola; Cape Verde; Mozambique; South-South cooperation
Resumen:
Este artículo ofrece un panorama de la construcción de la Psicología como ciencia y profesión en tres países africanos de habla portuguesa: Angola, Cabo Verde y Mozambique. A partir de un análisis comparativo, se examinan los hitos históricos, los modelos de formación académica, los esfuerzos por la regulación profesional y los desafíos para la consolidación del campo psicológico. Uno de los ejes centrales es el papel desempeñado por Brasil en el proceso de cooperación internacional, especialmente mediante programas de formación como el PEC-G y el PEC-PG, así como de la participación de universidades e instituciones representativas de la Psicología brasileña. Este artículo propone una reflexión crítica sobre los límites de la transferencia vertical de modelos y subraya la importancia de una internacionalización horizontal, basada en la valorización de los saberes locales y en la construcción conjunta de prácticas y epistemologías. Al destacar la urgencia de fortalecer las alianzas Sur-Sur, contribuye al debate sobre una Psicología lusófona más plural y comprometida con los desafíos sociales de los países africanos. El análisis revela avances y obstáculos, y señala caminos hacia una cooperación más justa y transformadora.
Palabras clave:
Formación de psicólogos; Angola; Cabo Verde; Mozambique; Cooperación Sur-Sur
Introdução
Apesar dos laços históricos, linguísticos e culturais que aproximam o Brasil dos países africanos de língua portuguesa, a cooperação no campo da Psicologia ainda é limitada diante dos desafios enfrentados por essas nações na consolidação da Psicologia como ciência e profissão. Angola, Cabo Verde e Moçambique compartilham uma trajetória marcada por processos de independência recentes, heranças coloniais profundas e um esforço contínuo para estruturar sistemas de formação, regulamentação e prática psicológica. Ainda que importantes iniciativas de colaboração tenham sido implementadas – como programas de formação superior e ações institucionais bilaterais –, persistem lacunas significativas que precisam ser enfrentadas com maior comprometimento político e acadêmico. Historicamente, a Psicologia brasileira se desenvolveu em constante diálogo com o Norte Global. Modelos teóricos e metodológicos oriundos da Europa e dos Estados Unidos moldaram a formação de profissionais e o desenvolvimento da pesquisa no Brasil, gerando uma assimetria que ainda marca a produção e a circulação de saberes no campo. A partir disso, torna-se cada vez mais necessário fortalecer alianças Sul-Sul, que possibilitem a construção de conhecimentos mais sensíveis às realidades locais e comprometidos com transformações sociais efetivas. A cooperação com países africanos lusófonos oferece uma oportunidade singular de reconfigurar essas relações, de forma horizontal e solidária.
O objetivo deste artigo é traçar um panorama da Psicologia em três países africanos, Angola, Cabo Verde e Moçambique, com ênfase nos processos de formação de psicólogos e na análise das estratégias adotadas para a regulamentação e a institucionalização da profissão. Busca-se, também, recuperar momentos em que a cooperação com o Brasil se fez presente, destacando contribuições brasileiras para a formação de quadros, o desenvolvimento institucional e a construção de políticas públicas voltadas à Psicologia.
O artigo está estruturado em quatro partes principais. A primeira apresenta uma contextualização histórica da Psicologia em Angola, Cabo Verde e Moçambique, destacando os marcos iniciais e os caminhos trilhados até sua consolidação como campo profissional. A segunda parte analisa os processos de formação de psicólogos nesses países, considerando os aspectos curriculares, institucionais e os desafios enfrentados. Na terceira parte, discute-se o papel do Brasil na cooperação internacional, com foco nas políticas de formação e nas articulações institucionais que envolveram os três países africanos. Por fim, a última seção propõe uma análise crítica dos impactos dessa cooperação e dos caminhos a serem trilhados para o fortalecimento da Psicologia lusófona, pautada por reciprocidade, valorização dos saberes locais e defesa de uma internacionalização mais equitativa.
Emergência da Psicologia: marcos históricos em Angola, Cabo Verde e Moçambique
A construção da Psicologia nos países africanos de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, é marcada por seus respectivos contextos históricos, sociais e políticos, especialmente pelas transições ocorridas após a independência. Embora compartilhem semelhanças – como a herança colonial portuguesa, o atraso na institucionalização da Psicologia e a formação inicial dos seus profissionais no exterior –, cada país trilhou um caminho singular no processo de consolidação da Psicologia como ciência e profissão. Neste tópico, será feita uma análise comparativa e dialógica das trajetórias da Psicologia em Angola, Cabo Verde e Moçambique, com destaque para as peculiaridades, os desafios e as conquistas de cada contexto.
A trajetória da Psicologia em Angola tem início com a independência em 1975, contexto em que muitos angolanos exilados retornaram ao país trazendo consigo a formação acadêmica adquirida no exterior, inclusive na área da Psicologia. Contudo, a prática psicológica naquele momento era limitada, tanto pela inexistência de cursos superiores na área quanto pelo desconhecimento da população sobre esse campo do saber (Saveia, 2015).
Nos anos seguintes, o governo angolano, enfrentando um alto índice de analfabetismo, criou o Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), no qual a Psicologia foi inicialmente vinculada à formação de professores. Essa associação às Ciências da Educação refletia uma necessidade emergencial do país: formar quadros para o sistema educacional (Saveia, 2020). Assim, a atuação dos primeiros psicólogos foi majoritariamente na Psicologia Escolar, Organizacional e do Trabalho, especialmente em processos de seleção.
A década de 1980 marcou o início de uma expansão, embora ainda modesta, da atuação psicológica. Com o envio de estudantes ao exterior e o retorno desses com formações mais específicas, passaram a ser realizadas palestras sobre orientação escolar e profissional, além do uso pontual de testes psicológicos. A fundação da Associação Angolana de Psicologia (ANGOPSI), em 1995, e a criação de cursos de Psicologia no ensino superior, a partir dos anos 2000, constituem marcos importantes para o crescimento da área.
Após a paz definitiva em 2002, há uma intensificação da demanda por psicólogos, especialmente para lidar com o estresse pós-traumático em decorrência dos longos anos de guerra civil. Tanto a Psicologia Organizacional quanto a do Trabalho se fortalecem nesse período, acompanhando a abertura econômica e a entrada de empresas privadas (Saveia et al., 2015). No entanto, a tentativa de regulamentação da profissão por meio da criação da Ordem dos Psicólogos de Angola, em 2010, gerou controvérsias e, até hoje, não é plenamente reconhecida, o que causa insegurança e falta de dados oficiais sobre o exercício profissional no país.
Em Cabo Verde, o desenvolvimento da Psicologia também se relaciona diretamente com o processo de independência, conquistada em 1975. Durante o período colonial, a Psicologia tinha um papel marginal, atuando de forma limitada, principalmente como disciplina complementar para a formação policial. Após a independência, o país iniciou um esforço de construção institucional em diversas áreas, incluindo a Psicologia.
A ausência de formação local fez com que os primeiros psicólogos cabo-verdianos se formassem no exterior, em países com os quais Cabo Verde tinha afinidades políticas ou linguísticas, como Portugal, França, Cuba e Brasil. Um dos nomes de destaque nesse início foi o psiquiatra Irineu Gomes, cuja trajetória na Psiquiatria teve impacto na introdução do saber psicológico no país. Irineu Gomes foi professor do curso de Psicologia da Universidade Federal da Bahia, onde permaneceu por alguns anos antes de retornar a Cabo Verde.
A criação e a posterior reativação do Centro de Orientação Escolar e Profissional (COEP) indicam uma preocupação constante do governo cabo-verdiano com a orientação educacional e profissional dos jovens. Mesmo com recursos escassos, o país conseguiu instituir gabinetes de orientação em escolas secundárias e garantir a presença da disciplina de Psicologia no currículo escolar, ainda que, muitas vezes, ministrada por profissionais não especializados.
Na saúde, a Psicologia Clínica tornou-se o campo mais consolidado, com psicólogos integrando o sistema público de saúde, mesmo enfrentando resistência de setores tradicionais da Medicina. Em contrapartida, a Psicologia Organizacional e do Trabalho teve um desenvolvimento muito mais tímido, sendo uma das áreas menos representadas tanto no setor público quanto no privado.
A Ordem dos Psicólogos de Cabo Verde (OPCV) é uma entidade pública profissional com autonomia administrativa, científica, disciplinar e financeira, responsável pela regulamentação, representação e fiscalização do exercício da Psicologia no país. Criada pela Lei n.º 128/IX/2021, e publicada no Boletim Oficial de 5 de maio de 2021, a Ordem tem como missão garantir o cumprimento dos princípios éticos e deontológicos da profissão, além de promover o desenvolvimento técnico e científico da Psicologia e zelar pela qualidade dos serviços prestados à sociedade.
A criação da OPCV cumpre, em Cabo Verde, o papel que instituições similares exercem em outros países lusófonos, como a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em Portugal, e o Conselho Federal de Psicologia (CFP), no Brasil. Há, inclusive, forte inspiração no modelo da OPP, especialmente na estrutura normativa, na definição de competências da instituição e na proposta de elaboração de um código deontológico próprio. Assim como na OPP, a OPCV estabelece critérios para o acesso à profissão, organiza o registro de profissionais, define as condições de exercício e promove a formação contínua. A semelhança entre os modelos pode ser explicada tanto pela afinidade jurídico-institucional com Portugal quanto pelo histórico de cooperação direta entre as ordens.
O trabalho atual da Ordem concentra-se na consolidação institucional, na regulamentação progressiva das práticas psicológicas, na criação de mecanismos de fiscalização profissional e na aproximação com os setores da saúde, educação e justiça. Desde sua instalação, a OPCV tem promovido eventos públicos, seminários e formações voltadas ao fortalecimento do papel social da Psicologia, além de articular parcerias com universidades, ministérios e organismos internacionais. Em Cabo Verde, portanto, a OPCV representa um marco no reconhecimento e na institucionalização da Psicologia, funcionando como instância de regulação e valorização da profissão, com um papel equivalente ao exercido pelo CFP no Brasil. Sua criação fortalece a identidade profissional dos psicólogos cabo-verdianos e contribui para a construção de uma Psicologia socialmente comprometida, ética e cientificamente fundamentada.
Em Moçambique, à semelhança de outros países africanos, a formação e a profissionalização da Psicologia são bastante recentes, datando da década de 1990, momento em que começaram sendo formados os primeiros psicólogos. Importa realçar que esse percurso é quase indissociável da história do país e da educação, que teve várias remodelações desde a conquista da independência nacional (1975) até os dias de hoje (Bene et al., 2022; Mechisso, 2020; Taimo, 2010).
A independência em 1975 marcou o início de um processo de reconstrução nacional que se refletiu também na área da saúde mental. Embora tenha havido uma presença embrionária da Psicologia durante o período colonial, ela esteve restrita ao campo hospitalar e psiquiátrico, sem identidade científica ou profissional autônoma.
A criação da Comissão Coordenadora dos Serviços de Saúde Mental (CCSM), em 1979, foi um dos primeiros passos no sentido de organizar os cuidados com a saúde psicológica. No entanto, a formação de psicólogos em Moçambique enfrentou desafios significativos (Muthambe, 2022). Por muitos anos, a formação acadêmica ocorreu apenas no exterior, e o retorno desses profissionais ao país evidenciou a necessidade de repensar os modelos teóricos e metodológicos importados da Europa e do Brasil.
Nos últimos anos, cresce o movimento pela construção de uma Psicologia enraizada na realidade moçambicana. Isso inclui uma crítica contundente ao uso acrítico de teorias e técnicas ocidentais, muitas vezes alheias às particularidades culturais africanas. Segundo Lopes (2024) e Mwamwenda (2004), existem alguns estudos científicos sobre a Psicologia na perspectiva africana. O desafio, portanto, não é apenas técnico, mas epistemológico: como construir uma Psicologia que dialogue com os saberes locais, que respeite as práticas ancestrais e que responda às necessidades específicas das populações moçambicanas?
Esse movimento em direção a uma “visão de mundo africana” implica também uma maior valorização das línguas locais, dos modos de vida comunitários e das formas de cura tradicionais, como o curandeirismo, frequentemente marginalizado pela Psicologia acadêmica ocidental. Ainda que esteja em processo, esse reposicionamento da Psicologia moçambicana é uma das expressões mais claras da tentativa de descolonizar o saber psicológico no continente.
Ao analisarmos os contextos de Angola, Cabo Verde e Moçambique, observamos alguns pontos de convergência: os três países iniciaram a construção da Psicologia após a independência, com forte dependência da formação no exterior, carência de recursos humanos e ausência de regulamentação clara da profissão nos primeiros anos. Em todos esses países, a Psicologia começou vinculada à educação ou à psiquiatria, e, somente posteriormente, conquistou espaços autônomos.
No entanto, há diferenças marcantes. Angola, por exemplo, teve um impulso significativo após a guerra civil, com o aumento da demanda por Psicologia Clínica e Organizacional. Cabo Verde, por sua vez, consolidou sua atuação principalmente na educação e na saúde mental, com presença institucional mais contínua, mesmo diante da escassez de profissionais. Moçambique, apesar do início tardio e dos desafios estruturais, está na vanguarda da construção de uma Psicologia decolonial, voltada para os saberes africanos e a realidade cultural do país.
Outro ponto de distinção refere-se à regulamentação profissional. Enquanto Angola tenta consolidar a sua Ordem dos Psicólogos sem sucesso oficial (Saveia, 2021), Cabo Verde já tem a sua Ordem profissional estabelecida e Moçambique ainda enfrenta lacunas institucionais nesse quesito (Muthambe, 2022), o que dificulta o mapeamento da profissão e a defesa dos interesses da categoria.
Estrutura da formação de psicólogos: currículos, instituições e desafios
A formação de psicólogos em Angola, Cabo Verde e Moçambique tem se desenvolvido em ritmos e contextos distintos, refletindo as especificidades históricas, políticas, econômicas e educacionais de cada nação.
A formação de psicólogos em Angola apresenta uma estrutura diversificada, com programas que combinam formação generalista e especializada. A maioria dos cursos adota um modelo com tronco comum nos primeiros anos, abordando disciplinas como Introdução à Psicologia, Psicologia do Desenvolvimento e Metodologia Científica, e especialização em áreas como Psicologia Clínica, Organizacional e Escolar nos dois últimos anos. Em 2020, o país contava com 48 cursos de graduação em Psicologia.
A duração média dos cursos varia entre 4 e 5 anos (3.000 a 3.615 horas). Embora exista equilíbrio entre teoria e prática em algumas instituições, muitas ainda apresentam limitações na oferta de práticas curriculares, reflexo da escassez de infraestrutura adequada. A maioria dos cursos oferece entre 42 e 58 disciplinas, mas carecem de flexibilidade curricular.
Outro desafio estrutural importante refere-se à baixa qualificação docente, reflexo da carência de formação pós-graduada na área, e à limitada inserção da pesquisa e da extensão nas atividades formativas (Saveia, 2015). A formação científica permanece frágil, com pouca integração entre ensino, pesquisa e intervenção comunitária. Ademais, faltam diretrizes curriculares nacionais, o que dificulta a definição de um perfil profissional comum e impacta a qualidade da formação (Saveia et. al., 2015; Saveia, 2021).
Um ponto crítico é o modelo de especialização precoce, que exige dos estudantes a escolha de uma área de atuação nos últimos anos do curso. Isso pode limitar a formação generalista e reduzir a adaptabilidade dos futuros profissionais às demandas do mercado de trabalho. Soma-se a isso a fragilidade dos estágios, que muitas vezes ocorrem sem articulação com os conteúdos teóricos ou com as necessidades socioculturais do país.
O Decreto Presidencial n. 193/18, de 10 de agosto de 2018, promulgado pelo Governo de Angola, estabelece as Normas Curriculares Gerais para os cursos de graduação do subsistema de ensino superior. Trata-se de um marco regulatório que visa harmonizar os currículos das instituições de ensino superior públicas, público-privadas e privadas, com o objetivo de promover a comparabilidade entre formações, facilitar a mobilidade acadêmica e garantir padrões mínimos de qualidade na formação superior no país. O documento define diretrizes para a concepção, organização e implementação dos cursos de graduação, aplicando-se a todas as instituições que compõem o subsistema de ensino superior em Angola. Entre os princípios orientadores da organização curricular estão a integralidade da formação, a interdisciplinaridade, a flexibilidade e a praxidade, assegurando que os currículos estejam alinhados às necessidades da sociedade e do mercado de trabalho. O decreto também determina que cursos do mesmo domínio científico adotem nomenclatura e duração uniformes, fixando a duração mínima de quatro anos para as graduações. A estrutura curricular é composta por um núcleo central, que corresponde a 70% da carga horária total, e por componentes específicos e optativos, que abrangem os 30% restantes. Além disso, ao menos 15% da carga horária total dos cursos deve ser dedicada às práticas curriculares pré-profissionais. O texto legal estabeleceu ainda prazos para a adequação dos currículos vigentes, exigindo que todas as instituições se alinhassem às novas normas até o final do ano acadêmico de 2020, além de ter previsto mecanismos de avaliação periódica sob responsabilidade do órgão ministerial competente.
Apesar desse avanço normativo, ainda não foi concluída a harmonização curricular, essencial para definir um perfil-tipo do psicólogo angolano, comparabilidade entre cursos, mobilidade estudantil e estabelecimento de padrões mínimos de qualidade baseados em referenciais nacionais e internacionais. Essa ausência compromete o reconhecimento das competências profissionais e dificulta a inserção dos egressos no mercado de trabalho.
Por fim, além da carência de infraestrutura, há desafios ligados à falta de recursos financeiros para capacitação docente e para oferta de experiências práticas qualificadas. Estudantes frequentemente encontram dificuldades na realização de estágios e na aplicação prática do conhecimento, fatores importantes para uma formação profissional sólida.
Em Cabo Verde, a formação em Psicologia é um fenômeno ainda mais recente. O primeiro curso de graduação foi inaugurado em 2001, pela Universidade Jean Piaget. Desde então, outras universidades, como a Universidade do Mindelo, Universidade Lusófona e, mais recentemente, a universidade pública, passaram a oferecer graduações em Psicologia. Os currículos dos cursos de Psicologia oferecidos pelas universidades cabo-verdianas – como a Universidade de Cabo Verde, Universidade do Mindelo, UniPiaget-CV e Universidade Lusófona – apresentam forte influência dos modelos europeus e brasileiros, refletindo a trajetória de formação dos docentes e a tradição acadêmica das instituições fundadoras. De modo geral, esses cursos estruturam-se em oito semestres e totalizam cerca de 240 créditos, com uma base comum nos primeiros anos e possibilidade de especialização nos últimos semestres. Tal estrutura assemelha-se à adotada em muitas universidades brasileiras. Contudo, diferentemente do Brasil, onde as Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecem parâmetros obrigatórios que articulam teoria, prática e estágio supervisionado desde os primeiros semestres, em Cabo Verde a integração entre ensino, prática profissional e extensão ainda é mais frágil. Além disso, os currículos cabo-verdianos tendem a oferecer menos diversidade de campos de atuação (como jurídica, comunitária e hospitalar), concentrando-se, sobretudo, nas áreas clínica, educacional e organizacional. Por outro lado, o tamanho reduzido dos sistemas de ensino e a maior proximidade entre estudantes e professores favorecem uma formação mais personalizada, embora as instituições ainda enfrentem desafios relacionados à infraestrutura, à escassez de docentes doutores e à limitada oferta de pós-graduação e pesquisa aplicada. Como indica Amarante (2023), a formação em Psicologia em Cabo Verde, ainda em consolidação, espelha modelos estrangeiros, mas demanda uma crescente adaptação às necessidades sociais, culturais e institucionais do país.
A maioria dos cursos dura quatro anos e segue uma estrutura semelhante: três anos de tronco comum e um ano de especialização, geralmente em Psicologia Clínica, Educacional ou das Organizações. Algumas universidades também oferecem formações mais específicas, como em Psicologia Social ou Psicologia do Trabalho, o que demonstra uma preocupação com a diversidade de atuações no mercado de trabalho cabo-verdiano.
O ensino é fortemente influenciado pelas experiências formativas de Portugal e do Brasil, refletindo a trajetória dos primeiros profissionais formados nesses países. O ingresso do Estado na oferta de cursos de Psicologia, com a criação do curso na universidade pública, em 2015, representa um marco importante, ampliando o acesso e a legitimidade da formação na área.
A pós-graduação ainda é incipiente, mas começa a se desenvolver com iniciativas como o mestrado em Psicologia da Universidade Lusófona de Cabo Verde e cursos de pós-graduação lato sensu, como o de Psicologia Positiva. Essa expansão da formação avançada é indicativa da maturação do campo no país.
No entanto, o país ainda enfrenta desafios como a regulamentação mais robusta da profissão, a limitação de oportunidades práticas durante a formação e a carência de programas de extensão e pesquisa aplicados às realidades sociais cabo-verdianas.
Em Moçambique, a formação de psicólogos tem raízes na estrutura pedagógica pós-independência. A criação da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e, posteriormente, da Universidade Pedagógica (UP) foi decisiva para o desenvolvimento da Psicologia enquanto disciplina acadêmica. Em 1985, surgiu o Instituto Superior Pedagógico (ISP), vocacionado para a formação de professores de todos os níveis do Sistema Nacional de Educação (SNE) e quadros técnicos da educação (Candrinho, 2022; Bene et al., 2022; Samussone et al., 2022; Taimo, 2010).
Para Muthambe (2022), o surgimento dessas instituições de ensino superior marcou os primeiros sinais da formação e da profissão de Psicologia no país, com a introdução de algumas disciplinas da área, lecionadas por professores nacionais e estrangeiros formados em diferentes países amigos do continente europeu, da região ibero-americana e do Caribe, por exemplo, Alemanha, Rússia, Portugal, Brasil, Chile, Cuba, entre outros.
Desde os anos 1980, disciplinas de Psicologia passaram a ser oferecidas em cursos de formação de professores. Contudo, somente nas décadas de 1990 e 2000 surgiram cursos específicos de Psicologia, com licenciaturas em áreas como Psicologia Escolar, Educacional e Organizacional.
A Universidade Pedagógica (UP), agora desmembrada em várias universidades, liderou o processo de formação de psicólogos no país. Os cursos evoluíram de um sistema sequencial, no qual a prática era deixada para o último ano, para um sistema integrado, que introduz atividades práticas desde o início do curso. Esse modelo buscou tornar a formação mais eficaz e articulada com a realidade moçambicana.
Em 2016, o número de estudantes matriculados na Faculdade de Educação e Psicologia era expressivo, com mais de 14 mil alunos, embora a maioria estivesse ainda nos anos iniciais. Um estudo bibliométrico de Balsan, Candrinho e Bastos (2024), relacionado à Psicologia em Moçambique, aponta que, nas últimas décadas, é notório o crescimento da formação em Psicologia, desde a implementação de cursos de graduação e pós-graduação em diversas instituições de ensino superior, até sua prática e realização de eventos científicos.
A formação, portanto, cresceu em volume, mas também enfrenta o desafio da qualidade, particularmente no que se refere à preparação prática dos estudantes, à qualificação dos docentes e à infraestrutura institucional. Por outro lado, o país se debate com a dificuldade de inserção dos egressos no mercado de trabalho, ou com a execução de tarefas associadas a tal profissional, pois existem contradições entre as propostas políticas e a real capacidade de intervenção estratégica em diversos níveis (Chambal & Bueno, 2014; Nhapuala & Almeida, 2016; Samussone et al., 2022).
Moçambique apresenta uma característica singular: um movimento crescente de crítica ao modelo ocidental de Psicologia e a busca por uma Psicologia com “rosto africano”, que respeite os valores, saberes e práticas culturais locais. Esse movimento impulsiona uma revisão dos currículos, das metodologias de ensino e dos temas de pesquisa, com ênfase nas necessidades e experiências africanas.
Embora o país conte hoje com mais de 20 instituições oferecendo cursos de Psicologia, ainda há fragilidade em termos de regulamentação, padronização curricular e articulação com o mercado de trabalho. No entanto, o reconhecimento da necessidade de uma Psicologia enraizada na realidade africana representa um avanço epistemológico significativo.
Como se pode perceber, Angola, Cabo Verde e Moçambique trilham caminhos paralelos e, ao mesmo tempo, contrastantes no campo da formação de psicólogos. Todos compartilham o fato de terem iniciado a institucionalização da Psicologia de forma tardia em relação ao mundo ocidental, bem como de dependerem fortemente de modelos educacionais estrangeiros. Em todos, a formação ainda enfrenta problemas estruturais, como a carência de professores qualificados, a escassez de recursos para a prática e a ausência de regulamentação profissional sólida.
Contudo, há nuances importantes. Angola tem uma das maiores ofertas de cursos, mas sua qualidade é desigual e carece de regulamentação curricular efetiva. O volume de formações contrasta com a falta de clareza sobre o perfil profissional desejado. Cabo Verde, por sua vez, conta com uma oferta menor, mas com uma organização mais coerente entre as instituições. É provável que os trabalhos da Ordem dos Psicólogos, recém-instalada, acelerem o processo de estabelecimento de diretrizes éticas e técnicas para o exercício profissional, com impacto nos processos formativos. A inserção do Estado na formação é recente, mas promissora, e o país já se movimenta no sentido de expandir a formação pós-graduada. Finalmente, Moçambique demonstra um amadurecimento acadêmico e político no sentido de descolonizar a Psicologia, com debates importantes sobre identidade, epistemologia e práticas culturalmente situadas. Sua experiência oferece lições importantes para os demais países africanos lusófonos.
O Brasil e a formação de psicólogos em Angola, Cabo Verde e Moçambique
A formação de psicólogos em Angola, Cabo Verde e Moçambique, além do explicitado nas seções anteriores, tem sido marcada pela cooperação internacional, com destaque para a cooperação desses países com o Brasil.
Após a independência em 1975, Angola enfrentou grandes dificuldades para desenvolver um sistema educacional sólido, especialmente no ensino superior em Psicologia. A ausência inicial de cursos específicos obrigou muitos jovens a buscar formação no exterior, sendo o Brasil, desde o início, um dos principais destinos.
O Brasil tem adotado uma série de programas voltados à formação de profissionais de países em desenvolvimento com os quais mantém relações de cooperação, entre os quais Angola se insere. Destacam-se, nesse contexto, o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) e o Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG).
O PEC-G, criado em 1965, pelo Decreto n. 55.613 e atualmente regido pelo Decreto n. 7.948, oferece aos estudantes de países em desenvolvimento – com os quais o Brasil mantém acordos educacionais, culturais ou científico-tecnológicos – a oportunidade de realizar seus estudos de graduação em instituições de ensino superior brasileiras. Sendo Angola um desses países, o PEC-G permite que estudantes angolanos cursem a graduação em instituições brasileiras sem custos com mensalidades, sendo necessário, porém, que comprovem condições financeiras para se manter no país.
Por sua vez, o PEC-PG, criado em 1981, oferece bolsas de estudo para estudantes de países em desenvolvimento realizarem cursos de mestrado e doutorado em universidades brasileiras. Administrado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o PEC-PG tem sido uma excelente oportunidade para psicólogos angolanos que buscam se especializar ou aprofundar seus estudos no Brasil.
Ambos os programas têm sido uma ponte para o aprimoramento das competências dos psicólogos angolanos, além de promover a troca de experiências entre os dois países, com a perspectiva de um fortalecimento contínuo da Psicologia em Angola.
Assim como em Angola, em Cabo Verde a entrada do Brasil na formação de psicólogos deu-se por meio do convênio PEC-G, que permitiu a centenas de estudantes cabo-verdianos cursarem Psicologia em universidades brasileiras, tanto públicas quanto privadas. Essa oportunidade representou um divisor de águas na consolidação da profissão em Cabo Verde, pois esses profissionais, ao retornarem ao país, passaram a ocupar posições estratégicas nos setores da saúde, da educação e da assistência social, além de contribuírem para a elaboração de políticas públicas voltadas à saúde mental.
A influência brasileira não se restringiu à formação acadêmica. O CFP do Brasil foi um ator relevante na articulação política e institucional da Psicologia cabo-verdiana, colaborando na criação da Ordem dos Psicólogos de Cabo Verde, na realização de seminários internacionais e na padronização de práticas profissionais. Eventos como o I Seminário de Psicologia dos Países de Língua Portuguesa, realizado em Lisboa (2012), com apoio do CFP, marcaram um momento simbólico de integração e cooperação entre os países lusófonos.
Atualmente, Cabo Verde conta com uma formação mais estruturada, embora ainda enfrente limitações quanto à oferta de pós-graduação, pesquisa aplicada e integração entre teoria e prática, o que mantém o Brasil como parceiro estratégico para a formação continuada.
Em Moçambique, por sua vez, embora a formação em Psicologia esteja estruturada principalmente por meio das instituições de ensino superior nacionais, o país tem se beneficiado significativamente de iniciativas de cooperação internacional, sobretudo com países de língua portuguesa. Nesse contexto, o Brasil tem desempenhado um papel central, contribuindo de maneira expressiva para o fortalecimento acadêmico e profissional de psicólogos moçambicanos.
Um dos principais instrumentos dessa colaboração é também o PEC-PG, que oferece bolsas de estudos para cursos de mestrado e doutorado em universidades brasileiras de excelência, como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre outras.
No caso de Moçambique, essa política de cooperação se traduz na qualificação de docentes universitários, pesquisadores e profissionais da Psicologia, que, ao retornarem ao país, tornam-se agentes estratégicos no fortalecimento das instituições locais de ensino, na ampliação da produção científica e na consolidação de práticas psicológicas mais críticas e contextualizadas.
Além do PEC-PG, outro mecanismo importante de apoio à formação em Psicologia – e ao ensino superior de forma mais ampla – é o Programa de Bolsas Brasil PAEC OEA-GCUB. Essa iniciativa resulta de uma colaboração entre o Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB), a Organização dos Estados Americanos (OEA), a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), por meio de sua Divisão de Temas Educacionais e da Língua Portuguesa (DELP/MRE).
O PAEC OEA-GCUB é uma das mais relevantes iniciativas de cooperação regional no campo da educação superior na América Latina e no Caribe. Seu propósito é promover a integração acadêmica regional e o fortalecimento institucional, por meio da concessão de bolsas de estudos para cursos completos de pós-graduação stricto sensu em universidades brasileiras associadas ao GCUB. Embora direcionado aos 34 países membros da OEA, Moçambique tem se destacado entre os beneficiários, em razão de sua inserção no bloco de países de língua portuguesa e dos laços históricos e culturais compartilhados com o Brasil.
Essas oportunidades de formação avançada visam não apenas a qualificação técnica dos estudantes, mas também a preparação de lideranças acadêmicas e institucionais capazes de atuar em diversas esferas: universidades, centros de pesquisa, agências governamentais, organizações não governamentais e setores privados. Em Moçambique, muitos dos egressos desses programas ocupam atualmente posições estratégicas no ensino superior, contribuindo para a formação de novos profissionais e para a implementação de políticas públicas voltadas à saúde mental, à educação e ao desenvolvimento social.
É importante destacar que essa cooperação internacional não se restringe apenas à área da Psicologia. No entanto, nesse campo específico, os impactos têm sido particularmente relevantes, considerando o contexto ainda em consolidação da Psicologia moçambicana. A ampliação da formação pós-graduada tem favorecido a emergência de uma Psicologia mais crítica, culturalmente situada e socialmente engajada, em sintonia com os desafios locais e as especificidades da realidade moçambicana.
Em síntese, embora Angola, Cabo Verde e Moçambique apresentem diferentes estágios e abordagens na formação de psicólogos, todos compartilham a influência decisiva do Brasil nesse processo. Essa influência manifesta-se por três vias principais: 1) formação acadêmica de base, com muitos profissionais sendo graduados no Brasil pelo PEC-G; 2) formação pós-graduada, por meio do acesso a programas como o PEC-PG e o PAEC; 3) cooperação institucional, com o envolvimento de entidades brasileiras na construção e no fortalecimento de ordens e associações de psicólogos nos países africanos.
Os programas PEC-G e PEC-PG, promovidos pelo governo brasileiro por meio do Ministério da Educação (MEC), Ministério das Relações Exteriores (MRE), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal e Nível Superior (CAPES) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), têm desempenhado um papel estratégico na formação de profissionais de países africanos de língua portuguesa, incluindo psicólogos. No âmbito da graduação, o PEC-G permitiu que centenas de estudantes de Angola, Cabo Verde e Moçambique realizassem seus estudos em universidades públicas brasileiras, tornando-se os primeiros profissionais formados em Psicologia em seus respectivos países. Já no âmbito da pós-graduação, o PEC-PG contribuiu para a qualificação de docentes e pesquisadores.
Segundo dados do CNPq (2007), foram concedidas 12 bolsas de mestrado e doutorado a candidatos de países africanos de língua portuguesa, incluindo Angola, Cabo Verde e Moçambique, evidenciando uma presença significativa, ainda que modesta, no cenário geral do programa. O impacto desses programas é perceptível na presença de egressos em cargos de liderança em universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos voltados à saúde e à educação. Muitos desses profissionais foram responsáveis pela criação ou consolidação de cursos de Psicologia em seus países, bem como pela articulação de redes de cooperação com o Brasil.
Essa cooperação tem produzido benefícios mútuos. Para os países africanos, o Brasil representa um parceiro acessível, culturalmente próximo e academicamente qualificado. Para o Brasil, a parceria com países africanos de língua portuguesa tem impulsionado o diálogo Sul-Sul e reforçado o compromisso com uma Psicologia crítica, multicultural e voltada à transformação social. No entanto, os efeitos da formação em instituições brasileiras também levantam o desafio da adaptação crítica dos conteúdos às realidades locais. A predominância de referenciais teóricos, eurocentrados, demanda esforços de contextualização e diálogo com os saberes e práticas locais, o que tem sido alvo de debates recentes sobre descolonização epistemológica no campo da Psicologia (Walsh, 2009).
A internacionalização da Psicologia e a troca de saberes: impactos da relação Brasil-PALOP
A cooperação internacional em Psicologia, especialmente entre países do Sul Global, não pode ser compreendida apenas como intercâmbio técnico ou difusão de modelos institucionais. Trata-se, antes, de um espaço de disputa simbólica e epistêmica que revela as assimetrias históricas produzidas pelo colonialismo e mantidas, muitas vezes sob novas formas. Como alerta Santos (2007), a “epistemologia do Sul” não se refere apenas a um lugar geográfico, mas a um lugar de fala, de produção de conhecimento enraizado nas experiências e saberes marginalizados pela racionalidade eurocêntrica.
A internacionalização crítica da Psicologia exige, portanto, a superação da lógica da exportação de modelos prontos – mesmo quando oriundos do Brasil – em favor de processos dialógicos de construção de conhecimento. Nesse sentido, Walsh (2009) propõe o conceito de “interculturalidade crítica” como um horizonte ético e político de articulação entre saberes diversos, em que se reconhece a potência dos saberes locais e das práticas ancestrais na produção de conhecimento legítimo.
Ao se pensar a cooperação entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa, é necessário problematizar os efeitos da reprodução de epistemes ocidentais, mesmo por parte de países periféricos. Como lembram Castro-Gómez e Grosfoguel (2007), a descolonização epistêmica não se faz apenas mudando o conteúdo, mas transformando os critérios de legitimidade do saber. A Psicologia, nesse contexto, precisa abrir-se à pluralidade ontológica e epistemológica dos territórios africanos, valorizando os modos de vida, as narrativas coletivas e os sistemas simbólicos que constituem a subjetividade nesses contextos.
A reflexão sobre os modos de internacionalização da Psicologia no espaço lusófono exige atenção não apenas às políticas de mobilidade acadêmica, mas também aos sentidos e estruturas subjacentes à circulação de saberes. Como argumenta Raghuram (2009), mesmo dentro de relações Sul-Sul, é possível que se reproduzam formas sutis de hierarquização e assimetria, caso os fluxos de conhecimento e formação forem guiados por modelos centrados exclusivamente em agendas institucionais de países mais estruturados. Sua crítica à noção de “mercado global” aplicado ao cuidado é facilmente transponível para a dinâmica de circulação acadêmica: a cooperação, se não for crítica, pode transformar o Sul apenas em território de recepção e aplicação, e não de produção epistêmica.
No campo da Psicologia, autores como Lauer e Vakkayil (2014) defendem que a internacionalização deve ser entendida como um processo dialógico e mutuamente transformador, o que implica reconhecer epistemologias plurais, reverter o fluxo unidirecional de saberes e valorizar as contribuições locais como parte legítima da ciência global. Essa perspectiva fortalece o argumento de que a cooperação entre Brasil, Angola, Cabo Verde e Moçambique não deve se limitar à transferência de modelos formativos brasileiros, mas sim promover a construção coletiva de uma Psicologia crítica, situada e responsiva às realidades locais.
Portanto, pensar a internacionalização da Psicologia no eixo Brasil-África Lusófona é também repensar o próprio conceito de ciência psicológica, deslocando-o da sua matriz universalizante para um projeto epistêmico plural, comprometido com as lutas por reconhecimento, justiça social e emancipação
Com base no exposto nas seções anteriores, é possível construir uma análise integrada e crítica sobre os impactos da relação Brasil-Angola, Brasil-Cabo Verde e Brasil-Moçambique na formação e na prática da Psicologia nesses países, destacando a internacionalização do saber psicológico como eixo estruturante.
A cooperação entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa, particularmente Angola, Cabo Verde e Moçambique, tem sido decisiva para o desenvolvimento da Psicologia como profissão, campo de pesquisa e prática social nesses contextos. Essa cooperação ultrapassa a lógica assistencialista ou meramente técnica: configura-se como um processo de internacionalização solidária e dialógica do conhecimento psicológico, que impulsiona tanto a qualificação de profissionais quanto a construção de uma Psicologia mais sensível às especificidades locais.
No caso de Angola, o papel do Brasil tem sido estruturante. A formação de psicólogos angolanos foi, durante décadas, fortemente dependente de instituições estrangeiras, sendo o Brasil o destino mais acessível e culturalmente próximo. Programas como o PEC-G e o PEC-PG permitiram que angolanos fossem formados em solo brasileiro, muitos dos quais retornaram para ocupar posições estratégicas em universidades, ministérios e centros de pesquisa.
A atuação do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFBA é exemplo dessa cooperação. Além da formação acadêmica de alto nível, o programa tem se envolvido diretamente na construção de currículos, na realização de pesquisas aplicadas em parceria com a Universidade Católica de Angola e na capacitação de gestores do ensino superior (Saveia et al., 2023; Dala et al., 2024). O envolvimento de docentes brasileiros em cursos de especialização e em processos de avaliação externa é reflexo de uma relação de confiança mútua e de construção conjunta do saber.
Contudo, essa internacionalização também traz desafios. A transferência de modelos teóricos e metodológicos brasileiros para o contexto angolano demanda adaptação crítica, especialmente diante das realidades culturais, históricas e socioeconômicas distintas (Bastos, 2015). A complexidade das intervenções psicológicas em Angola – marcadas pelos efeitos da guerra, da desigualdade social e da diversidade étnica – exige um olhar atento à contextualização do conhecimento importado.
Nesse sentido, torna-se urgente o fortalecimento de práticas decoloniais e epistemologias locais, mesmo em projetos de cooperação. A Psicologia angolana não deve ser uma réplica da brasileira, mas dialogar com ela para criar um modelo próprio, híbrido e responsivo às suas demandas sociais.
Em Cabo Verde, a presença do Brasil foi determinante na criação de uma base sólida para a profissão. Por meio do PEC-G, muitos psicólogos cabo-verdianos receberam formação no Brasil e retornaram para implantar ou consolidar os cursos de Psicologia em universidades locais. A cooperação institucional com entidades como o Conselho Federal de Psicologia foi decisiva na estruturação da Ordem dos Psicólogos, na elaboração de documentos orientadores e na realização de eventos estratégicos, como o Congresso de Psicologia e a assinatura da Declaração de Mindelo.
Esse processo fortaleceu não apenas a formação técnica dos profissionais, mas também o tecido político e institucional da Psicologia cabo-verdiana. O Brasil não atuou apenas como formador, mas como mediador de saberes e experiências profissionais, contribuindo diretamente para a organização da profissão como campo de atuação legítimo no país.
A criação da Federação dos Psicólogos da CPLP e a participação ativa de Cabo Verde em eventos e redes lusófonas refletem a consolidação de um projeto de internacionalização que valoriza a interdependência e a horizontalidade na produção do conhecimento psicológico.
Por sua vez, a relação Brasil-Moçambique é marcada por um forte interesse comum na pluralidade epistemológica e na construção de uma Psicologia crítica e situada. Os cursos moçambicanos, inicialmente voltados à Psicologia Educacional, passaram a incorporar dimensões mais amplas graças à formação de quadros no Brasil e à ampliação dos debates acadêmicos e científicos.
A realização de eventos como os Seminários Nacionais de Investigação em Psicologia e o Congresso Internacional de Psicologia, com a participação de pesquisadores brasileiros, tem contribuído para fortalecer a produção científica local e promover uma Psicologia africana mais autônoma e reflexiva.
Contudo, os desafios persistem. A ausência de uma ordem profissional regulamentada limita a proteção do exercício da profissão e dificulta a articulação da Psicologia com as políticas públicas. A experiência brasileira nesse campo, especialmente por meio do CFP, pode servir como referência técnica e política, desde que respeite os processos locais e incentive soluções endógenas.
Pode-se afirmar que o balanço da cooperação entre o Brasil e os países africanos lusófonos é positivo, especialmente pela promoção do acesso à formação de qualidade, pelo fortalecimento das instituições locais e pela troca constante de experiências profissionais e científicas. No entanto, é necessário avançar em três frentes principais:
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1)
Superar a transferência unidirecional de saberes: o modelo de cooperação precisa evoluir para relações mais simétricas, nas quais os saberes africanos também sejam reconhecidos e integrados às práticas brasileiras, enriquecendo o campo da Psicologia em escala global. Nesse sentido, é fundamental a ampliação do número de projetos de pesquisa conjuntos, de modo que fatores contextuais, culturais e socioeconômicos de distintos países sejam considerados na forma como os fenômenos de interesse da Psicologia se estruturam e se transformam.
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2)
Investir em redes de pesquisa e extensão transnacionais: associações brasileiras, como a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), a Sociedade Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Psicologia Clínica (ABRAOPC), devem ser chamadas a colaborar ativamente com suas contrapartes africanas por meio de grupos de trabalho conjuntos, publicações coautorais e intercâmbios de curta duração.
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3)
Valorizar a formação continuada e o fortalecimento institucional: a internacionalização da Psicologia não deve se restringir à formação inicial. Deve incluir o apoio à criação de programas de pós-graduação nos países africanos, o fortalecimento de suas associações profissionais e o incentivo a políticas públicas em saúde mental, educação e trabalho com base na Psicologia.
Considerações finais
A formação de psicólogos em Angola, Cabo Verde e Moçambique representa um campo em franca expansão, atravessado por múltiplos desafios estruturais, institucionais e epistemológicos. Esses países compartilham heranças coloniais profundas, escassez de recursos materiais e humanos, ausência de regulamentações consolidadas em muitos casos e uma forte dependência histórica de modelos formativos importados. Ainda assim, seus contextos revelam dinâmicas próprias de resistência, criação e afirmação, nas quais a Psicologia busca se enraizar nas realidades locais, com sensibilidade às culturas, línguas e modos de vida específicos de cada sociedade.
O Brasil, nesse processo, tem desempenhado um papel relevante por meio da cooperação acadêmica e institucional. Programas como o PEC-G e o PEC-PG, além de parcerias entre universidades e conselhos profissionais, permitiram a formação de quadros, a consolidação de cursos e o fortalecimento institucional da Psicologia em países africanos de língua portuguesa. Contudo, é preciso reconhecer que esse processo de internacionalização não pode ser pautado pela mera transferência de modelos ou pela reprodução de paradigmas construídos em contextos distintos.
É urgente avançar na construção de políticas de cooperação que superem a lógica vertical e favoreçam o diálogo horizontal entre saberes. A Psicologia africana não deve ser uma extensão da brasileira, tampouco da europeia ou da norte-americana. Ela precisa afirmar-se a partir de suas próprias demandas, valores e trajetórias, construindo modelos teóricos, curriculares e profissionais alinhados às suas realidades. Para isso, é fundamental que o Brasil atue como parceiro e não como centro, oferecendo apoio sem prescrição, escuta sem imposição e presença sem protagonismo.
A consolidação de uma Psicologia verdadeiramente lusófona, crítica e comprometida com a justiça social passa pela valorização das epistemologias do Sul, pelo fortalecimento das instituições locais e pela criação de redes de cooperação baseadas na reciprocidade. Cabe às universidades, aos conselhos profissionais, aos organismos multilaterais e aos governos fomentar espaços de formação continuada, pesquisa aplicada e intercâmbio técnico, respeitando as especificidades de cada país e contribuindo para a construção de uma Psicologia plural, situada e transformadora.
Somente por meio dessa articulação entre o local e o internacional, entre o saber técnico e os saberes tradicionais, entre a ciência e a vivência cotidiana, será possível responder às complexas demandas das sociedades africanas de língua portuguesa. O desafio que se impõe não é apenas o de formar psicólogos, mas o de colaborar na construção de uma Psicologia enraizada nas memórias, nos territórios e nos futuros possíveis desses povos.
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Disponibilidade de dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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Como citar:
Saveia, J. M., Candrinho, G. C., Amarante, E. M. C., & Bastos, A. V. B. (2025). Psicologia em Angola, Cabo Verde, Moçambique: Formação, Instituições e Conexões com Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 93-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003297532
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How to cite:
Saveia, J. M., Candrinho, G. C., Amarante, E. M. C., & Bastos, A. V. B. (2025). Psychology in Angola, Cape Verde, Mozambique: Training, Institutions, and Connections with Brazil. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 93-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003297532
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Cómo citar:
Saveia, J. M., Candrinho, G. C., Amarante, E. M. C., & Bastos, A. V. B. (2025). Psicología en Angola, Cabo Verde, Mozambique: Formación, Instituciones y Conexiones con Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 93-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003297532
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