Open-access Graduação em Psicologia no Brasil: Mapeamento Nacional das Matrizes Curriculares

Psychology Education in Brazil: A Nationwide Mapping of Undergraduate Curricula

Graduación en Psicología en Brasil: Mapeo Nacional de las Matrices Curriculares

Resumo:

A psicologia é uma das áreas de grande crescimento no ensino superior brasileiro, mas disparidades significativas persistem na forma como os currículos de graduação são estruturados. Este estudo apresenta o primeiro banco de dados sistemático e publicamente acessível de currículos de graduação em psicologia no Brasil. Nosso objetivo foi mapear e analisar ofertas de disciplinas, orientações teóricas e conformidade institucional com as diretrizes curriculares. Utilizando uma abordagem colaborativa de crowdsourcing, buscamos dados de 925 instituições de ensino superior no país disponíveis no site do Ministério da Educação do Brasil, em outubro de 2023. Dessa lista inicial, 28,5% das instituições não forneceram nenhuma informação curricular – uma violação da legislação nacional. Além disso, somente 8,3% das instituições informaram as ementas completas e 25,3% incluíram as ênfases. Nosso mapeamento final consistiu em 661 instituições representando 70% dos programas de psicologia no país. Analisamos as estruturas dos cursos, a presença de ênfases teóricas e a disponibilidade de informações curriculares. Apenas 21% das instituições oferecem disciplinas que abrangem todas as principais abordagens psicológicas, sendo a terapia cognitivo-comportamental e a análise do comportamento sub-representadas (57% e 49%, respectivamente) em comparação à psicanálise (94%) e à psicologia humanista, existencial e fenomenológica (85%). A falta de transparência e escassez de diversidade teórica representam riscos à qualidade e à equidade do ensino de psicologia, assim como as disparidades regionais observadas na formação. O conjunto de dados abertos desenvolvido neste estudo fornece uma ferramenta para futuras pesquisas, avaliações e políticas na formação em psicologia no Brasil.

Palavras-chave:
Crowdsourcing; Currículos de Graduação; Formação em Psicologia; Ensino Superior no Brasil; Mapeamento Nacional

Abstract:

Psychology configures one of the growing fields in Brazilian higher education, but significant disparities persist in the structure of undergraduate curricula. This study offers the first systematic and publicly accessible database of undergraduate psychology curricula in Brazil. We aimed to map and analyze national trends in course offerings, theoretical orientations, and institutional compliance with curricular guidelines. Our collaborative crowdsourcing approach collected data from 925 higher education institutions in the country (which were available on the Brazilian Ministry of Education website in October 2023). From this initial list, 28.5% of institutions provided no curricular information — a violation of national legislation —, only 8.3% of these institutions provided complete course syllabi, and only 25.3% included areas of emphasis. Our final mapping consisted of 661 institutions representing 70% of all psychology programs in Brazil. We categorized courses to analyze curricular structures, the presence of theoretical emphases, and the availability of curricular information. Our initial findings show significant inconsistencies in curriculum structure and theoretical diversity. Only 21% of institutions offer courses on all major psychological approaches. Psychology programs underrepresent cognitive-behavioral therapy and behavior analysis (57 and 49%, respectively) when compared to psychoanalysis (94%) and existential/humanistic psychology (85%). The lack of transparency risks the quality and equity of psychology education as do the regional disparities in professional training. The open dataset in this study provides a critical tool for future research, evaluation, and policy in psychology training in Brazil.

Keywords:
Crowdsourcing; Undergraduate Curricula; Psychology Education; Higher Education in Brazil; National Mapping

Resumen:

La Psicología es una de las áreas de gran crecimiento en la educación superior brasileña, aunque persisten disparidades significativas en cómo se estructuran los currículos de grado. Este estudio presenta la primera base de datos sistemática y de acceso público de currículos de grado en Psicología en Brasil. Su objetivo fue mapear y analizar la oferta de asignaturas, las orientaciones teóricas y la conformidad institucional con las directrices curriculares. Utilizando un enfoque colaborativo de crowdsourcing, se buscaron datos en 925 instituciones de educación superior en el país, disponibles en el sitio web del Ministerio de Educación de Brasil en octubre de 2023. De esa lista inicial, el 28,5% de las instituciones no proporcionó ninguna información curricular, lo que representa una violación a la legislación nacional. Además, solo el 8,3% de las instituciones informó los programas de estudio completos, y el 25,3% incluyó los énfasis. El mapeo final consistió en 661 instituciones, que representan el 70% de los programas de Psicología en el país. Se analizaron las estructuras de los cursos, la presencia de énfasis teóricos y la disponibilidad de información curricular. Solo el 21% de las instituciones ofrece asignaturas que abarcan todos los enfoques psicológicos principales, con la terapia cognitivo-conductual y el análisis del comportamiento subrepresentados (57% y 49%, respectivamente) en comparación con el psicoanálisis (94%) y la psicología humanista, existencial y fenomenológica (85%). La falta de transparencia y la escasez de diversidad teórica representan riesgos para la calidad y la equidad de la enseñanza de la Psicología, así como las disparidades regionales observadas en la formación. El conjunto de datos abiertos desarrollado en este estudio proporciona una herramienta para futuras investigaciones, evaluaciones y políticas en la formación en Psicología en Brasil.

Palabras clave:
Crowdsourcing; Currículos de Grado; Formación en Psicología; Educación Superior en Brasil; Mapeo Nacional

Introdução

A psicologia tem sido um dos principais campos de expansão no ensino superior brasileiro, particularmente nos cursos de graduação em saúde (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira [Inep], [s.d.]; Lisboa & Barbosa, 2009). Desde seu reconhecimento oficial como profissão em 1962, os cursos de graduação em psicologia no Brasil passaram por várias reformas para se alinharem à evolução das políticas educacionais, demandas profissionais e avanços científicos (Bernardes, 2012; Carvalho & Sampaio, 1997). A mais recente revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), editada por meio da Resolução CNE/CES nº 1/2023, reforçou o compromisso com uma educação generalista, pluralista e criticamente engajada, visando integrar fundamentos teóricos com diversos contextos práticos.

As DCNs – aprovadas inicialmente em 2004 e reformuladas em 2011 e 2023 – foram fruto de debates envolvendo entidades acadêmicas, profissionais e de classe, sendo marcos regulatórios que permitem uma flexibilidade dos percursos formativos e inovações pedagógicas (Ristoff, 2014). Elas substituíram os antigos currículos mínimos, que eram baseados em conteúdos homogêneos e definidos de forma vertical, promovendo uma mudança na organização do ensino superior no Brasil (Rudá, Coutinho, & Almeida Filho, 2015). No entanto, apesar da clareza normativa das DCNs, permanece uma variabilidade grande na forma como as instituições interpretam e implementam os currículos de psicologia (Burgardt & Aguiar, 2020; Fernandes, Seixas & Yamamoto, 2018), levantando questões sobre a coerência e equidade da formação profissional.

A expansão de cursos privados de ensino superior também tem sido destacada como uma preocupação crescente, com as instituições privadas desempenhando um papel cada vez mais expressivo na formação em psicologia (Bernardes, 2012). Nas últimas duas décadas, cursos de graduação em Psicologia proliferaram, refletindo tanto a crescente demanda por profissionais de saúde mental quanto a expansão do acesso ao ensino superior em todo o país (Inep, [s.d.]). De meados da década de 1990 a 2010, uma série de políticas públicas e benefícios fiscais incentivaram o crescimento das instituições privadas de ensino superior. Embora as universidades públicas também tenham se expandido, o setor privado continuou sendo o principal motor de crescimento, reforçado por programas federais de incentivo, como o FIES e o PROUNI, que subsidiaram o acesso dos alunos à educação privada (Hutz, Gomes, & McCarthy, 2006; Lisboa & Barbosa, 2009).

Lisboa e Barbosa (2009) analisaram e caracterizaram o perfil dos cursos de Psicologia no Brasil, concluindo que o psicólogo brasileiro típico “é do sexo feminino, jovem, atua predominantemente na área clínica e tem baixa remuneração . . . graduado em programa de graduação presencial em universidade privada com fins lucrativos localizada no interior do país, principalmente na Região Sudeste”. Nesse contexto, enfatizaram as discrepâncias entre as políticas educacionais propostas e sua efetiva implementação, chamando a atenção para as contradições estruturais na formação de psicólogos no Brasil. Além disso, estudos recentes sugerem mudanças nas trajetórias profissionais potencialmente problemáticas, reforçando visibilidade nas mídias sociais e o empreendedorismo individual (Braz et al., 2024; Gambirasio, Ivaldi, & Scaratti, 2024).

Outros estudos também examinaram o ensino de psicologia no Brasil por meio de lentes históricas, teóricas e profissionais. Por exemplo, Bardagi et al. (2008) destacaram como as estruturas curriculares moldaram significativamente o senso de preparação dos graduados e influenciaram sua entrada no mercado de trabalho, especialmente em áreas sub-representadas durante sua formação (Bardagi et al., 2008). Fernandes et al. (2018) analisaram a implementação de reformas curriculares e destacaram tensões entre orientações generalistas e a predominância de referenciais teóricos específicos, particularmente a ênfase na psicologia clínica (Fernandes et al., 2018). Entre os poucos esforços empíricos para analisar sistematicamente as ofertas de disciplinas, Neufeld e colaboradores realizaram um primeiro mapeamento curricular do ensino de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) nos cursos de graduação brasileiros, revelando que o conteúdo da TCC estava sub-representado (Neufeld et al., 2018).

No entanto, até onde sabemos, nenhum estudo sistemático em larga escala mapeou os currículos de psicologia de todas as instituições no Brasil. Os dados existentes sobre ofertas de disciplinas, orientações teóricas e disparidades regionais permanecem escassos, fragmentados e muitas vezes inacessíveis, limitando uma compreensão abrangente de como o ensino de psicologia é estruturado em todo o país. Este estudo visa colmatar essa lacuna por meio da realização de um mapeamento curricular nacional dos cursos de graduação em psicologia. Ao analisar sistematicamente as estruturas dos cursos, as áreas de conteúdo e as características institucionais, buscamos contribuir para o debate em andamento sobre o desenvolvimento curricular e a formação profissional no ensino de psicologia brasileiro.

Métodos

Para mapear sistematicamente os cursos de graduação em psicologia no Brasil, realizamos uma pesquisa nacional das matrizes curriculares. Nosso estudo seguiu quatro fases principais: (1) identificação de programas de psicologia ativos; (2) extração de dados de sites institucionais; (3) padronização e processamento de dados; e (4) categorização e análise curricular. A metodologia empregada foi de estudo documental.

Coleta de dados

O conjunto de dados inicial foi obtido no site do Ministério da Educação (MEC) em outubro de 2023. Uma lista bruta de 1.201 instituições de ensino superior (IES) que oferecem diplomas de psicologia foi recuperada. Esse conjunto de dados passou por várias etapas de filtragem: (1) instituições inativas ou não operacionais foram removidas; (2) entradas duplicadas foram eliminadas; e (3) programas que não de psicologia, como licenciatura em educação, foram excluídos. Após esses refinamentos, foram identificados 925 cursos de graduação em psicologia ativos em instituições públicas e privadas em todos os estados brasileiros.

Entre outubro e dezembro de 2023, quarenta e dois colaboradores da pesquisa (estudantes de graduação e pós-graduação) coletaram dados curriculares dos sites oficiais dessas instituições. Destes, vinte e sete colaboradores foram responsáveis pelo mapeamento de pelo menos 25 instituições cada, enquanto 15 colaboradores adicionais participaram caso a caso. A extração de dados envolveu a busca de documentos curriculares oficiais em sites institucionais, priorizando a listagem completa de disciplinas e ementas. Quando as matrizes curriculares completas não estavam disponíveis, fontes alternativas, como catálogos de cursos e páginas de departamentos, foram consultadas. Nos casos em que não foram encontradas informações curriculares (264 instituições, 28,5% do total), a instituição foi marcada como “dados indisponíveis” e retirada da análise. O banco de dados completo, juntamente com os códigos usados para limpeza e análise de dados, estão disponíveis no Open Science Framework (OSF) (https://osf.io/4ybtc/).

Padronização e processamento de dados

Dada a variabilidade na formatação curricular entre instituições, um processo de limpeza e padronização em várias etapas foi aplicado usando o software R. Primeiro, planilhas individuais coletadas por diferentes colaboradores foram consolidadas em um único conjunto de dados. Os títulos das disciplinas foram padronizados convertendo todo o texto em minúsculas, removendo acentos e caracteres especiais e expandindo abreviações comuns para reduzir inconsistências. Erros nas informações institucionais foram corrigidos por meio da harmonização de nomes e siglas das universidades, enquanto instituições sem códigos MEC válidos foram verificadas ou excluídas manualmente.

Em seguida, dados ausentes ou errôneos foram identificados e tratados. Instituições com listas de disciplinas incompletas foram sinalizadas e valores implausíveis, como durações incorretas de disciplinas, cursos e disciplinas duplicadas ou identificadores não numéricos, foram corrigidos. Após esse processo de limpeza, o conjunto de dados foi refinado para análise, removendo disciplinas com descrições incompletas, padronizando variáveis categóricas e validando correções por meio da verificação manual de uma amostra aleatória. Após o processo de limpeza, o banco de dados foi utilizado para as análises subsequentes.

Análise de dados

Após a limpeza dos dados, realizamos uma análise multinível dos currículos para avaliar a distribuição das orientações teóricas entre os programas de psicologia. Para categorizar as disciplinas, foi realizada uma análise de texto baseada em palavras-chave usando um dicionário predefinido de termos relacionados à disciplina (Tabela 1). Aplicamos um sistema de classificação baseado em palavras-chave aos títulos e descrições para abordagens psicológicas com pelo menos 500 disciplinas oferecidas: Psicanálise; Psicologia Humanista, Existencial e Fenomenológica; Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC); e Análise do Comportamento. O processo de classificação baseou-se na correspondência de expressões regulares e foi validado por meio da verificação manual de um subconjunto de cursos selecionados aleatoriamente. Os títulos de disciplinas contendo palavras-chave específicas foram atribuídos a um ou mais grupos teóricos (Tabela 1).

Tabela 1.
Palavras-chave usadas para categorizar as disciplinas de graduação em psicologia em quatro grandes abordagens teóricas.

Após a categorização das disciplinas, analisamos os dados nos níveis institucional e nacional. A análise em nível institucional se concentrou na identificação de universidades com a maior concentração de cada abordagem teórica. Em nível nacional, exploramos tendências geográficas mais amplas no ensino de psicologia usando dados geoespaciais do pacote geobr. Essa análise incluiu o mapeamento do número total de programas de psicologia por estado, o cálculo da porcentagem de instituições que oferecem cada abordagem teórica e a criação de mapas de calor para visualizar a distribuição geográfica de áreas-chave, como: TCC; psicanálise; humanista, existencial e fenomenológica; e análise do comportamento. Também calculamos proporções em nível estadual, representando a porcentagem de instituições em cada estado que oferecem, pelo menos, uma disciplina de cada orientação teórica principal.

Para a visualização das palavras mais frequentes, realizamos a tokenização dos textos e a contagem das ocorrências individuais de cada palavra. Em seguida, foi gerada uma nuvem de palavras utilizando a função wordcloud do R, com até 100 termos e frequência mínima de duas ocorrências. As palavras foram apresentadas em uma nuvem em que o tamanho e a posição dos termos refletem sua frequência relativa – palavras mais frequentes aparecem com maior destaque visual e mais próximas ao centro da imagem.

Além dessas análises descritivas, realizamos uma avaliação comparativa de instituições privadas e públicas, com análises baseadas no tempo para investigar o crescimento dos programas de psicologia na última década. As visualizações foram geradas usando ggplot2, incluindo os gráficos de barras de abordagens teóricas e mapas que ilustram distribuições de instituições. Os códigos em R completos para essas análises, juntamente com conjuntos de dados brutos e processados, estão disponíveis no OSF.

Resultados

Foram obtidos dados curriculares de 661 instituições, correspondendo a 71,5% de todos os cursos de graduação em psicologia identificados no Brasil. Para as 264 instituições restantes (28,5%), nenhuma informação curricular pôde ser recuperada. O conjunto de dados final compreendeu 45.797 disciplinas oferecidas nas 661 instituições com dados disponíveis. Somente 55 instituições (8,3%) forneceram as ementas completas das disciplinas e somente 167 instituições (25,3%) forneceram as ênfases.

O número de cursos de psicologia no Brasil aumentou significativamente nos últimos anos, com um crescimento de 133% na última década. Nos anos de pico de expansão, 120 novos programas foram registrados no MEC somente em 2019, seguidos por 74 em 2018 e 83 em 2016. Esse crescimento foi em grande parte impulsionado pela oferta de programas oferecidos por instituições privadas (Figura 1).

Essa expansão não foi homogênea em todo o país. Os cursos de psicologia estão distribuídos de forma desigual entre os estados brasileiros (Figura 2). As regiões Sul e Sudeste concentram o maior número de instituições, com São Paulo liderando de longe, com 171 programas. Em contrapartida, o estado do Amapá tem o menor número, com apenas três instituições oferecendo cursos de graduação em psicologia.

Figura 1.
Número anual de novos cursos de psicologia registrados no Brasil, categorizados por tipo de instituição. As barras vermelhas representam novos programas em instituições privadas e as barras azuis representam novos programas em instituições públicas.

Figura 2.
Número de instituições de ensino superior que oferecem programas de psicologia por estado. Tons de amarelo indicam maior concentração de instituições na região correspondente. As cores amarelas indicam um número maior de instituições que oferecem programas de psicologia disponíveis naquela região.

Os currículos de psicologia em todas as instituições brasileiras exibem uma forte ênfase em certas orientações teóricas, enquanto outras permanecem comparativamente menos representadas. Entre as 661 instituições pesquisadas, 94% oferecem pelo menos uma disciplina de Psicanálise, seguidas por 85% de Psicologia Humanista, Existencial e Fenomenológica. As disciplinas de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) estão presentes em 57% das instituições, e a Análise do Comportamento aparece em 49%. O número total de disciplinas associadas a cada abordagem psicológica é mostrado na Figura 3. Embora as diretrizes curriculares nacionais enfatizem uma educação generalista, apenas 21% das instituições pesquisadas (n=141) oferecem um currículo verdadeiramente abrangente que inclui todas as principais orientações teóricas.

A prevalência de diferentes orientações teóricas varia significativamente de acordo com a região (Figura 4). Alguns estados mostram uma forte ênfase em disciplinas psicodinâmicas e psicanalíticas, enquanto outros priorizam a TCC, a análise do comportamento ou a psicologia humanista. Isso mostra que os psicólogos têm diferentes níveis de treinamento, a depender do estado em que realizam a sua formação.

Figura 3.
Número total de disciplinas por abordagem psicológica. As barras representam o número absoluto de disciplinas identificados em todo o país para cada orientação (Psicanálise, n=1380; Humanista, Existencial e Fenomenológica, n=1063; Terapia Cognitivo-Comportamental, n=625; Análise do Comportamento, n=571).

Figura 4.
Distribuição das disciplinas por abordagem teórica nos estados brasileiros. As cores quentes (laranja-amarelo) indicam maior porcentagem de instituições contemplando ao menos uma disciplina de uma abordagem teórica. (a) Psicanálise, (b) Humanista, Existencial e Fenomenológica, (c) TCC e (d) Análise do Comportamento.

A análise textual dos componentes curriculares resultou em uma nuvem de palavras que destaca os termos mais recorrentes nos cursos de Psicologia em território nacional. Observa-se o predomínio de palavras como “saúde”, “trabalho”, “processos”, “desenvolvimento”, “básico” e “técnicas”, indicando uma ênfase geral em aspectos aplicados, clínicos e psicossociais da formação. Termos como “social”, “avaliação”, “teorias” e “psicopatologia” também aparecem com frequência relevante, sugerindo a presença de conteúdos voltados tanto para fundamentos teóricos quanto para práticas profissionais e contextos diversos de atuação (Figura 5).

Figura 5.
Nuvem de palavras com os termos mais frequentes nos componentes curriculares. O tamanho e a centralidade das palavras refletem uma maior frequência relativa de ocorrência. Foram incluídas até cem palavras com frequência mínima de duas ocorrências.

Discussão

Este estudo apresenta o primeiro banco de dados sistemático e publicamente disponível sobre currículos de graduação em psicologia no Brasil. Ao compilar e analisar dados de Instituições de Ensino Superior, oferecemos uma visão geral de como o ensino de psicologia é estruturado nacionalmente em termos das abordagens teóricas mais recorrentes nos currículos da formação. Isso fornece um recurso importante para futuras pesquisas e avaliação de políticas educacionais. É importante ressaltar que nenhuma informação curricular foi encontrada para 28,5% das instituições, violando diretamente os regulamentos nacionais. De acordo com o artigo 47.º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o artigo 99.º da Portaria Normativa nº 23/2017, as instituições de ensino superior estão legalmente obrigadas a divulgar publicamente as estruturas curriculares completas. Entre as instituições com currículos disponíveis, encontramos inconsistências generalizadas nas ofertas de disciplinas, pouca diversidade teórica e uma adesão limitada aos princípios de treinamento generalista descritos nas diretrizes curriculares nacionais.

As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de 2004, instituídas pela Resolução CNE/CES nº 5/2004, definiram que os cursos de graduação em psicologia devem oferecer formação generalista de base ampla, permitindo áreas específicas de ênfase. As DCNs de 2023 atualizadas (CNE/CES nº 1/2023) reafirmaram essa estrutura, enfatizando uma educação generalista, pluralista, eticamente fundamentada e criticamente engajada com os diversos contextos socioculturais do Brasil. No entanto, nossos dados sugerem que esse equilíbrio curricular permanece em grande parte não cumprido. Notavelmente, um número significativo de instituições (74,7%) não oferece nenhuma ênfase oficial, omissão que representa um descumprimento das diretrizes nacionais. Além disso, a literatura tem destacado como a própria noção de “treinamento generalista” permanece ambígua ou mesmo desconhecida para muitos alunos. As evidências sugerem que muitos graduados em psicologia concluem seus cursos sem saber o que as DCNs descrevem sobre a natureza generalista do programa (Santana, Sousa, & Ribeiro, 2022), refletindo uma desconexão entre o discurso institucional e a prática pedagógica.

Em relação às orientações teóricas, apenas 21% das instituições oferecem um currículo diverso que inclui todas as principais abordagens psicológicas. Em particular, disciplinas relacionadas à Psicanálise e à Psicologia Humanista, Existencial e Fenomenológica foram encontradas em 94% e 85% das instituições, respectivamente, enquanto a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Análise do Comportamento apareceram em apenas 57% e 49%. A sub-representação dessas duas últimas abordagens, ambas baseadas em evidências empíricas e apoiadas por diretrizes internacionais de tratamento, levanta preocupações sobre a preparação dos graduados em psicologia. É especialmente preocupante para aqueles que devem trabalhar com crianças com problemas comportamentais, em que programas de treinamento com os pais são necessários e ainda são escassos e desconhecidos no país (Bado et al., 2023). Esse desequilíbrio ecoa achados anteriores que também relataram espaço curricular limitado para TCC em cursos de graduação brasileiros (Neufeld et al., 2018).

A distribuição regional desigual dos cursos de psicologia no Brasil reflete as disparidades no acesso ao ensino superior. Enquanto as regiões sudeste e sul possuem um grande número de instituições, vários estados da região norte oferecem pouquíssimos programas de psicologia, limitando o acesso à formação profissional nessas áreas. Além disso, a grande maioria dos cursos de psicologia no Brasil é oferecida por instituições privadas, o que impulsionou o crescimento exponencial dos cursos nas últimas décadas (Bisinoto & Marinho-Araujo, 2015; Lisboa & Barbosa, 2009; Sguissardi, 2015). Esses achados ecoam estudos anteriores que destacam a expansão dos programas de psicologia no Brasil, particularmente no setor privado e em regiões não metropolitanas (Macedo, Ramos, Souza, Lima, & Fonseca, 2018; Prates, Feitosa, Monteiro, & Branco, 2019). Embora essa expansão tenha melhorado o acesso à formação em psicologia, ela também levanta questões sobre a diversidade teórica, pois as ofertas educacionais podem ser moldadas por demandas locais e não por diretrizes curriculares nacionais (Lisboa & Barbosa, 2009).

Destaca-se, no entanto, que, apesar da rápida expansão do ensino de psicologia no setor privado, desde o início dos anos 2000 o campo tem se voltado cada vez mais para o engajamento das políticas públicas, particularmente por meio de sua integração ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS – Dimenstein & Macedo, 2012; Souto, Batista, & Batista, 2014). A psicologia não está mais restrita a ambientes clínicos, educacionais ou organizacionais privados; espera-se agora que atenda a uma ampla gama de demandas sociais complexas (Rudá et al., 2015). No entanto, muitos cursos de graduação ainda carecem de formação estruturada em áreas aplicadas, como saúde mental pública, práticas territoriais e trabalho intersetorial (Scarcelli & Junqueira, 2011). Essa lacuna enfraquece a capacidade dos egressos de atuar efetivamente dentro das políticas públicas e de responder às dimensões éticas e políticas da prática profissional no Brasil (Prates et al., 2019).

Outra dimensão importante que emerge de pesquisas recentes diz respeito à precarização das trajetórias profissionais entre os egressos de psicologia. Braz et al. (2024) argumentam que muitos jovens psicólogos enfrentam condições de trabalho instáveis, apoio institucional limitado e uma dependência crescente das mídias sociais, principalmente do Instagram, como principal ferramenta de visibilidade profissional. Nesse contexto, a ênfase na empregabilidade acelerada e na marca online pode substituir o engajamento com ética profissional, responsabilidade social e pensamento crítico (Braz et al., 2024; Gambirasio et al., 2024).

Nosso estudo tem muitos pontos fortes. Por meio de um esforço colaborativo de crowdsourcing, envolvendo estudantes e graduados em psicologia e neurociência, conseguimos criar o primeiro banco de dados disponível publicamente e pesquisável de currículos de graduação em psicologia. Até onde sabemos, essa é a primeira iniciativa desse tipo no Brasil. No entanto, o estudo também apresenta limitações. A incompletude dos dados institucionais pode levar a conclusões parciais ou subestimadas e, como a maioria das instituições não forneceu ementas das disciplinas, nossa análise foi restrita aos títulos destas. Paradoxalmente, essa limitação reforça a questão central abordada por nosso estudo: a necessidade de transparência e acessibilidade da informação curricular no ensino superior de psicologia no Brasil.

Ao mapear a estrutura dos cursos de graduação em todo o país, buscamos informar educadores, pesquisadores, formuladores de políticas e organizações profissionais. É importante ressaltar que essas questões não são apenas administrativas ou pedagógicas: elas moldam as bases do atendimento que se espera dos futuros psicólogos. O conjunto de dados compilado neste estudo está disponível publicamente por meio do OSF. Esse mapeamento inicial deve ser expandido para incluir as instituições ainda não cobertas, integrar programas completos e perfis de professores, e aprofundar nossa compreensão de como a psicologia é ensinada em diferentes contextos.

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  • Disponibilidade de dados:
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  • Como citar:
    Bado, P. P. et al. (2025). Graduação em Psicologia no Brasil: Mapeamento Nacional das Matrizes Curriculares. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 66-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298124
  • How to cite:
    Bado, P. P. et al. (2025). Psychology Education in Brazil: A Nationwide Mapping of Undergraduate Curricula. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 66-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298124
  • Cómo citar:
    Bado, P. P. et al. (2025). Graduación en Psicología en Brasil: Mapeo Nacional de las Matrices Curriculares. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 66-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298124

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Jun 2025
  • Aceito
    24 Jun 2025
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