Open-access Administração do Desenvolvimento e a Expansão do Ensino do Management no Contexto Brasileiro: um estudo a partir da trajetória do curso de Administração da UESB

Resumo

O processo histórico de implantação, difusão e transformações dos cursos de Administração no Brasil é uma temática que ainda merece destaque. O ensino do management (gestão) é um campo acadêmico e profissional em constante evolução, influenciado por tendências globais, por desafios locais e por dinâmicas econômicas e geopolíticas. Um dos exemplos é o (re)surgimento da Administração do Desenvolvimento (AD), um subcampo da Administração que tem por finalidade estudar a gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo, em países, regiões, lugares e/ou organizações, de modo a garantir o bem-estar da sociedade (Santos et al., 2018). Este artigo tem como objetivo estabelecer o nexo entre a Administração do Desenvolvimento e a expansão do ensino do management no contexto brasileiro, a partir de uma análise decolonial do pensamento administrativo, com ênfase na trajetória do Curso de Administração da UESB. Trata-se de um estudo qualitativo aplicado à trajetória de um Curso de Administração no interior do Estado da Bahia. A pesquisa apoia-se em entrevistas semiestruturadas, registros documentais e análise de conteúdo, com suporte do software Atlas.ti 23. Por fim, os resultados revelam que a AD continua a promover a expansão da ideologia do management, reforçando um discurso que contrapõe “nós” – desenvolvidos, civilizados e administradores – a “eles” – subdesenvolvidos e administrados.

Palavras-chave
administração do desenvolvimento; colonialismo epistêmico; currículo de administração; ensino do management; estudos decoloniais

Abstract

The historical process of implementation, diffusion, and transformation of Administration courses in Brazil is a subject that still deserves attention. The teaching of management is an academic and professional field in constant evolution, influenced by global trends, local challenges, and economic and geopolitical dynamics. One example is the (re)emergence of Development Administration (DA), a subfield of Administration that aims to study the management of social relations of production, distribution, and consumption in countries, regions, places and/or organizations, in order to ensure the well-being of society (Santos et al., 2018). This article aims to establish the connection between Development Administration and the expansion of management education in the Brazilian context, based on a decolonial analysis of administrative thought, with emphasis on the trajectory of the Administration Course at UESB. This is a qualitative study applied to the trajectory of an Administration Course in the interior of the State of Bahia. The research relies on semi-structured interviews, documentary records, and content analysis, supported by Atlas.ti 23 software. Finally, the results reveal that DA continues to promote the expansion of management ideology, reinforcing a discourse that contrasts "us" – developed, civilized, and administrators – with "them" – underdeveloped and administered.

Keywords
development administration; epistemic colonialism; administration curriculum; management education; decolonial studies

Introdução

A Administração é uma ciência recente, instituída a partir do livro do estadunidense Frederick Winslow Taylor em 1911, intitulado Princípios da Administração Científica. A obra retrata a fase do capitalismo industrial monopolista e centra-se em problemas gerenciais voltados para aumento da produtividade, minimização de custos e elevação da taxa de lucro (Bispo, 2024; Catani, 1985). As ideias apresentadas por Taylor, associadas às contribuições de Henri Fayol, Max Weber e outros, fortaleceram a tese da gestão como uma técnica que poderia ser observada, investigada, transmitida e ensinada, ou seja, um novo campo de saber a ser praticado (Fischer et al., 2011; Santos, 2017).

No Brasil, o ensino da Administração ganha destaque no contexto do Pós-guerra, com o protagonismo dos Estados Unidos da América (EUA) na estruturação da nova ordem mundial. Protagonismo que se projetava em ajuda mútua e assistência técnica para os países ditos do terceiro mundo, como o Brasil e tantos outros. No caso brasileiro, a representação diplomática estadunidense, a Michigan State University (MSU) e a Fundação Ford (FF) formaram uma rede governo-universidade-fundação para exportar o ensino do management, com o objetivo de difundir os valores estadunidenses e estreitar as relações entre os dois países (Alcadipani & Bertero, 2018).

Durante a década de 1950 e, mais frequentemente, durante o governo Juscelino Kubitschek, foram assinados diversos acordos de cooperação mútua entre os Estados Unidos e o Brasil. Agregado a um dos pontos desses acordos constava um termo específico, denominado IAAc-45, que era representado pelo Institute of Inter-American Affairs e a Michigan State University (MSU), com fins de difusão do ensino em administração e da cultura americana no país, dando início à disseminação do management em países nomeados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, na América Latina (Alcadipani & Bertero, 2018).

A reprodução do modelo gerencial estadunidense no contexto brasileiro se daria pelo pensamento e pela prática da Administração do Desenvolvimento (AD), um campo disciplinar que surgiu da necessidade de instrumentalizar a elite burocrática/empresarial dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, com a intenção de sanar os problemas que existiam entre elaboração de planos de desenvolvimento e a capacidade gerencial das nações na implementação dos tais planos (Motta & Schmitt, 1972; Santos et al., 2018; Cristaldo, 2022). No ideário estadunidense, a gestão poderia ser ensinada e replicada em qualquer que fosse o contexto político, econômico e/ou social.

A exportação do modelo de gestão estadunidense se consolidou a partir das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, uma vez que já possuíam um pleno crescimento econômico e industrial. Daí a justificativa para implementação das primeiras escolas de administração no Brasil, previstas no convênio específico IAAc-45 e no Programa Ponto IV, firmado entre os governos brasileiro e estadunidense, por intermediação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Face-UFMG) e a Michigan State University (MSU). No Rio de Janeiro foi instalada a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), em São Paulo a Escola de Administração de Empresas (EAESP) e na UFMG, por resistência institucional, a ação não se concretizou na fase inicial. Na segunda fase do plano de trabalho, do referido convênio, novas escolas foram instaladas, dessa vez, na Região Sul (Rio Grande do Sul) e Nordeste (Bahia) do país. Estima-se, em valores equivalentes de hoje, um aporte de 10 milhões de dólares, financiado pela United States Agency for International Development (USAID), com contrapartida do governo brasileiro (Alcadipani & Bertero, 2018).

Na Bahia, o processo de industrialização do Estado levou à criação da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (EA-UFBA) em 1959. Essa foi a pioneira em ensino de management no Estado, sendo, também, a primeira instituição do tipo em todo o Nordeste brasileiro (Fischer et al., 2011). Da mesma forma como as demais instituições nacionais, também recebeu incentivos e a visita de instrutores da Michigan State University (MSU) (Alcadipani & Bertero, 2018), além da University Southern California (USC) (Fischer et al., 2011), para introduzir o ensino de administração naquela Universidade.

No sudoeste baiano, o ensino de Administração foi introduzido por meio da política de interiorização do ensino superior promovida pelo governo estadual, no início da década de 1970. Esse processo culminou na criação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em 1980, tornando-se um marco educacional e desenvolvimentista em toda a região do Sertão da Ressaca1. A iniciativa ocorreu em um contexto de expressivo crescimento demográfico e expansão urbana da cidade, quase trinta anos após os primeiros tratados e acordos voltados para a implantação de cursos de Administração no Brasil.

Posto isso, este estudo busca estabelecer o nexo entre a Administração do Desenvolvimento e a expansão do ensino do management no contexto brasileiro, a partir de uma análise decolonial do pensamento administrativo (Abdalla & Faria, 2017; Cooke & Faria, 2013; Faria, 2023; Sauerbronn et al., 2023). Embora haja ampla discussão sobre a influência do modelo norte-americano de administração em países em desenvolvimento, o presente artigo evidencia a estratégia utilizada pelos pensadores do Norte Global para propagar a ideologia do management em territórios do Sul Global. Ao estabelecer o nexo entre a estratégia de poder (administração para o desenvolvimento) e a expansão do ensino do management (ideologia gerencialista), ajuda a explicar como o jogo geopolítico influencia na cultura, nos valores e nas práticas das nações, das organizações e dos indivíduos. Para tanto, analisamos a trajetória de um Curso de Administração instalado no interior do Estado da Bahia, em uma região historicamente (desde o Brasil Colônia) conhecida como Sertão da Ressaca, hoje denominada Vitória da Conquista. Essa pesquisa expande o debate teórico ao integrar a perspectiva crítica decolonial à análise da AD, respondendo às lacunas presentes na literatura – que pouco examina a relação entre estratégia de desenvolvimento, management e controle geopolítico. À vista disso, propomos três objetivos específicos: (a) resgatar a trajetória e identificar as bases ideológicas e técnicas presentes no projeto pedagógico do curso; (b) analisar as repercussões do curso nas práticas gerenciais das organizações; e (c) verificar os efeitos do curso no desenvolvimento local.

Este texto encontra-se estruturado, além desta introdução, em quatro partes: a primeira refere-se à revisão de literatura, com ênfase nos fundamentos teórico-empíricos da AD, bem como na expansão do ensino do management no Brasil e na Bahia; a segunda aborda os aspectos metodológicos utilizados no desenvolvimento da pesquisa; a terceira descreve os resultados do estudo, considerando os objetivos específicos projetados para a realização da investigação; por fim, a quarta parte do artigo versa sobre as considerações finais do estudo, apontando o nexo entre AD e a expansão do management no contexto brasileiro.

Sobre os fundamentos da administração do desenvolvimento

A Administração do Desenvolvimento (AD) possui origem no programa de governo do presidente estadunidense Harry Truman (1949), especificamente na política externa dos EUA para os países aliados. Política essa que tinha como estratégia primaz combater a expansão do “comunismo” e garantir o funcionamento do capitalismo no sistema-mundo. É com base nessa doutrina e nas ações previstas no Programa Ponto IV, dessa política, que demarcamos o surgimento da disciplina Administração para o Desenvolvimento, um conjunto de ferramentas gerenciais que visava auxiliar a elite burocrática e empresarial dos países subdesenvolvidos na implementação dos planos de desenvolvimento, pensado a partir e com os fundamentos teóricos do Norte Global (Caiden & Caravantes, 1982; Motta & Schmitt, 1972; Santos & Santana, 2010; Santos et al., 2018).

É nesse contexto, e com suporte teórico da economia do desenvolvimento, sociologia do desenvolvimento, antropologia e geografia do desenvolvimento, que a AD se expande e ganha relevância estratégica na prática geopolítica estadunidense e europeia. Vários autores, nessa época, buscaram compreender os motivos do não desenvolvimento e apresentar soluções. Uma dessas soluções, além da ajuda monetária, era a exportação do modelo de gestão adotado nos EUA, o management. Na realidade, embora os teóricos da economia do desenvolvimento apresentassem ideias de como promover o desenvolvimento, há uma questão de como colocar essas ideias em prática. É nesse entrelaçamento de teoria e prática que está a Administração e, concomitantemente, a AD (Bispo, 2022; Cooke & Faria, 2013). Nessa fase, AD foi influenciada pelo gerencialismo da administração e pelos pressupostos da economia neoclássica e keynesiana.

Hoje, a AD, epistemologicamente, se organiza em três matrizes teóricas (Santos et al., 2016): (a) Modernizante (1940-1950) - foca na industrialização e progresso econômico; (b) Estruturalista (1950-1960) - mira nas causas das desigualdades; (c) Pós-estruturalista (1980-1990) - introduz as perspectivas críticas ao pensamento e a prática da gestão e visualiza a emancipação social e humana de pensar e agir, dos indivíduos, organizações e sociedades.

Na abordagem modernizante da Administração do Desenvolvimento concentram-se os autores vinculados à escola neoclássica da economia e aos estudos ortodoxos da administração (Santos et al., 2016). Entre os principais expoentes dessa perspectiva, destacam-se Joseph Schumpeter, Rosenstein-Rodan, Arthur Lewis, W. Rostow, François Perroux, Peter Drucker, Michael Porter e Sérgio Boisier. Para esses teóricos, o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos dependia da adoção de práticas e modelos institucionais bem-sucedidos nos países desenvolvidos, com base na lógica de imitação como caminho central para o progresso econômico e social (Faria, 2023; Faria et al., 2021; Santos et al., 2016).

Por outro lado, a abordagem estruturalista, predominantemente associada aos autores do Sul Global, desloca o foco das limitações técnicas e financeiras para as superestruturas de poder e exploração que perpetuam condições de subdesenvolvimento. Nesse contexto, as dinâmicas de dependência e desigualdade sistêmica são centrais. Alguns dos principais teóricos dessa corrente são os autores vinculados à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), são eles: Raúl Prebisch, Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra (Santos et al., 2016).

A abordagem pós-estruturalista, sob a lógica decolonial, busca (re)ver as bases epistemológicas que sustentam os discursos dominantes de desenvolvimento e gestão, questionando sua universalidade e sua conexão com os interesses hegemônicos do Norte Global. Escobar (1995) argumenta que o desenvolvimento, historicamente, funcionou como uma narrativa colonizadora, projetada para moldar o Sul Global, de acordo com os valores e as estruturas do capitalismo eurocêntrico. Nessa linha, a Administração do Desenvolvimento (AD), muitas vezes, serviu como um instrumento de perpetuação dessas dinâmicas, ao importar modelos gerenciais e práticas que desconsideram os saberes e as realidades locais (Cooke & Faria, 2013).

Dussel (1998) reforça essa crítica ao destacar a centralidade dos excluídos e a necessidade de uma práxis ética que priorize os povos marginalizados na construção de alternativas ao sistema dominante. Para ele, o desenvolvimento não deve ser definido baseado nas demandas do “centro”, mas sim co-construído pelas “periferias”, respeitando suas singularidades e fortalecendo suas autonomias. Esse pensamento conecta-se com autores como Faria (2022) e Gulrajani (2009), que destacam a importância de integrar perspectivas críticas e práticas éticas no campo da Administração, indo além das lógicas neoliberais (Silva & Marques, 2020) e do gerencialismo hegemônico.

Nessa perspectiva, a AD deixa de ser uma ferramenta de imposição e passa a ser um campo disciplinar e prático para o fortalecimento dos saberes locais e a busca por justiça social. Para Abdalla e Faria (2019) e Motta e Schmitt (2013), isso inclui a reavaliação do papel do Estado, que, mesmo marcado por contradições e exclusões (Pimentel et al., 2012), deve atuar como um mediador de processos participativos e redistributivos, ampliando a inclusão e reduzindo as desigualdades estruturais (Oliveira et al., 2010). O conceito de contramovimento, introduzido por Abdalla e Faria (2019), destaca essa resistência às lógicas de mercado, propondo mecanismos de proteção social que preservem a coesão e promovam o bem-estar coletivo.

Por outro lado, Guerreiro Ramos (1981), ao propor a redução sociológica, evidencia a necessidade de transcender a visão instrumental e replicadora da administração, conectando-a a questões sociais mais amplas e enraizadas em contextos locais (Bariani, 2010; Santos et al., 2015). Da mesma forma, Bispo (2022) e Cristaldo (2022) questionam a eficiência do campo da Administração em gerar impacto positivo para a sociedade, defendendo que a prática gerencial seja informada por perspectivas críticas e comprometidas com a transformação social (Cristaldo, 2022). Nesse sentido, os Estudos Organizacionais Críticos (Paes de Paula, 2015; Paes de Paula et al., 2010) e a decolonização curricular (Sauerbronn et al., 2023) emergem como movimentos fundamentais para romper com o colonialismo epistêmico e propor alternativas engajadas com o pluralismo e a emancipação social.

Ainda nesse contexto, Gulrajani (2009) problematiza o management/gerencialismo ao destacar sua incapacidade de lidar com as desigualdades e as dinâmicas de poder que caracterizam o Sul Global, sugerindo práticas éticas e politicamente engajadas como contraponto. Essas críticas são ecoadas por Faria (2022), que propõe uma AD decolonial que rompa com as estruturas neoliberais e coloniais, promovendo uma nova configuração prática e teórica orientada pela contestação e pela valorização dos saberes locais.

Assim, a perspectiva decolonial aplicada à AD ressignifica o desenvolvimento como um processo plural, inclusivo e comprometido com o coletivo. Ela desafia as narrativas neoliberais e reocidentalizantes, propondo práticas que privilegiem a autodeterminação, a justiça social e que questionem os modelos de ensino de management que perpetuam as desigualdades. Trata-se de uma ruptura com as epistemologias dominantes, voltada à construção de alternativas que promovam o bem-estar coletivo e a emancipação das populações historicamente subjugadas.

Sobre o ensino do management no Brasil e na Bahia

No que diz respeito à história do ensino de Administração no Brasil (Alcadipani & Bertero, 2014; Alcadipani & Bertero, 2018; Barros et al., 2018; Santos et al., 2009; Wanderley et al., 2018), sua trajetória tem início em meados da década de 1930, momento em que algumas instituições de ensino superior já debatiam a necessidade de implantar cursos de nível superior em Administração para contribuir com o processo de desenvolvimento do país. Além disso, a ideia de currículo mínimo para o curso de Administração já circulava. Mas é apenas durante as décadas de 1950 e 1960 que o ensino de Administração passa a tomar maior dimensão no contexto brasileiro, modulado pelo estilo americano de gestão conhecido como management (Barros et al., 2018).

Barros et al. (2018) apontam que em pleno contexto de pós-Segunda Guerra Mundial e, então, Guerra Fria, os EUA buscavam diversas formas de ampliar sua influência na esfera global. Para tanto, disponibilizaram para diversos países suportes financeiros, tecnológicos e gerenciais, com a finalidade de estabelecer relações diplomáticas e afastar a possível atuação, nesses países, da União Soviética e seu pensamento comunista. Wanderley et al. (2016, p. 915) relatam que tais tratados e acordos se iniciaram a partir do momento de “assinatura do convênio PBA-1 entre governos brasileiro e dos EUA para o apoio na criação e ampliação de escolas de Administração, e do lançamento do programa de ajuda para a América Latina, denominado Aliança para o Progresso, promovido pelo presidente Kennedy”. Países em desenvolvimento, como o Brasil e outros, pactuaram tais acordos no anseio de se tornarem modernos, industriais e desenvolvidos.

Um dos meios de estreitar relações entre essas nações (e, no caso, o Brasil) foi a implantação do curso superior na área de Administração em diversas instituições nacionais. Essa estratégia facilitaria a expansão do pensamento ideológico capitalista no modelo americano. Alcadipani e Bertero (2018) se debruçaram em documentos trocados entre poderes americanos e brasileiros para compreender o processo histórico desta implementação. Cavalcanti e Alcadipani (2016) analisam este processo de implantação do management pelo viés pós-colonial, em que países desenvolvidos realizam a conquista de novos domínios e influências nas dinâmicas internacionais, conforme foi pontuado pela teoria proposta por Guerreiro Ramos (1981).

É importante salientar que em 1952 o primeiro curso superior em Administração, estabelecido com apoio dos EUA e por intermédio da Organização das Nações Unidas (ONU), foi o da Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), no Rio de Janeiro, e o curso da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) em 1954. Logo após, em 1955, é implantado o curso superior de Administração de Empresas na Face-UFMG, que deveria ter sido instalado juntamente com o EBAP e EAESP, entretanto, por questões políticas, se tardou a criação (Barros, 2014; Barros et al., 2018), também, no mesmo ano, é criado o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), uma espécie de ramificação da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) da ONU em território brasileiro, com atuação em estudos políticos, econômicos e sociais de nível pós-universitário, aplicados à realidade nacional (Wanderley, 2016; Wanderley et al., 2018).

Ainda na tentativa de difundir o ensino do management nas várias regiões do país, a missão americana realizou visitas técnicas à Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS) e à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Todavia, a ideia de implantar um curso superior sob domínio estadunidense não foi bem recepcionada em Pernambuco, abrindo, assim, a oportunidade para o estado da Bahia. Na ocasião, por obra do acaso, o Reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Edgar Santos, conheceu os integrantes da missão americana no Aeroporto de Salvador, capital do Estado, e tomou conhecimento do motivo da estadia da missão no Nordeste, disponibilizando a UFBA para implantação do projeto (Santos et al., 2009).

Embora existissem inúmeras dificuldades de se aplicar o management estadunidense em terras baianas, eles continuaram o desafio, uma vez que o Estado representava uma região importante no plano nacional (Alcadipani & Bertero, 2018). Somada a isso, a “ameaça comunista” temida pelos EUA estava muito próxima do Brasil, com a Revolução Cubana em 1959. O que tornou estritamente necessária a manutenção dos acordos entre Brasil-EUA para implementação do curso, promovendo maior influência dos EUA em maior parte do território brasileiro. Em 14 de setembro de 1959, o Reitor Edgar Santos decide convocar os candidatos para os primeiros exames vestibulares para os cursos de Administração de Empresa e Administração Pública, implantados no ano seguinte. A implantação do curso de Administração de Empresas foi coordenada pelo Dr. Dole Anderson, representante da Michigan State University (centro de estudos avançados em gestão empresarial), e o curso de Administração pública por Dr. Dean Cresp, representante da University of Southern California (centro de formação avançada em governo). Desta forma, mesmo com muita dificuldade, se conseguiu implantar a Escola de Administração da UFBA e a partir de então os cursos passaram a ser instrumentos de difusão do management para além da capital baiana (Santos et al., 2009).

A difusão do ensino do management da capital para o interior do Estado remete ao memorável Plano de Desenvolvimento do Estado da Bahia (PLANDEB), elaborado, na década de 1950, no contexto desenvolvimentista do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1955-1960). O PLANDEB foi um instrumento de planejamento que visava integrar a Bahia ao projeto de desenvolvimento do Estado brasileiro. Fundamentado em diagnósticos situacionais e em 11 (onze) programas de ação, entre eles, educação e cultura, com a meta de expansão e interiorização do ensino médio e superior no âmbito do Estado, o PLANDEB sinaliza duas finalidades: (a) qualificar recursos humanos para os setores produtivos, por meio da expansão do ensino profissionalizante; (b) formar professores em nível superior, para qualificar a educação da população baiana (Saavedra Castro, 2010).

É com base nessas diretrizes que se inicia, na década de 1970, a implantação do Sistema Estadual de Educação Superior, hoje, composto por quatro instituições educacionais: a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), criada em 1970; a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), criada em 1980; a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), criada em 1983; e a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), criada somente em 1991. A partir dessas instituições de ensino superior, outros cursos de Administração foram implantados no interior do Estado. No caso específico da UESB, sua história encontra-se nas antigas faculdades de formação de professores de Vitória da Conquista (1969) e Jequié (1970) e nas escolas de Administração, Agronomia, Enfermagem e Zootecnia da década de 1980 (Mendes, 2018; Boaventura, 2009).

Naquela época, Vitória da Conquista já se destacava como uma cidade com grande potencial de crescimento econômico. Alves (2019) ressalta dois eventos pontuais que impulsionaram esse desenvolvimento: o primeiro foi a construção de rodovias, como a BR-116, iniciada na década de 1950 e concluída no início da década de 1960. Além desta, várias outras rodovias estaduais importantes tornaram a cidade um grande entroncamento rodoviário. O outro fator relevante foi a implantação da cafeicultura nas décadas de 1970 e 1980, por meio de investimentos do governo federal, no âmbito do Programa Nacional de Recuperação e Renovação dos Cafezais (PRRC). Lopes (2013) acrescenta um outro ponto: a criação do Distrito Industrial dos Imborés, também no início da década de 1970, com fins de interiorizar a industrialização. No entanto, mesmo com a implantação do distrito, ele chega à conclusão de que a cidade não conseguiu se consolidar como um polo industrial. Tais avanços fomentaram a migração de moradores das zonas rurais e de municípios vizinhos para a cidade, gerando um aumento populacional que, por sua vez, intensificou a demanda por diversos serviços urbanos. De acordo com dados do IBGE, a população de Vitória da Conquista passou de 18.017 habitantes em 1950 para 125.573 em 1970, atingindo 143.486 mil habitantes em 1980.

Dessa maneira, em atendimento às demandas dos diversos setores na região, em novembro de 1980 é autorizado o funcionamento da Escola de Administração de Vitória da Conquista pelo parecer nº 156/80, um mês depois é criada a autarquia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, no dia 30 de dezembro de 1980. A criação da UESB e da Escola da Administração, naquela época, tornou-se um marco na história do desenvolvimento do sudoeste baiano, uma vez que tanto a esfera empresarial como a esfera pública careciam de profissionais qualificados para alavancar o seu desenvolvimento.

Conforme observado na análise documental, o escopo pedagógico do curso, na década de 1980, estava fundamentado na Lei 4769 de 1965, que versava sobre a profissão de administração no Brasil e possuía uma matriz curricular ainda influenciada pelos estadunidenses, voltada para formar analistas de negócios, altos executivos e bons gestores da burocracia pública. No fim do ano de 1987, o curso é reconhecido pela portaria ministerial nº 139 e é publicado no Diário Oficial da União (UESB, 2022).

Na década de 1990, devido às transformações no cenário global, marcadas pelo liberalismo econômico, globalização, reestruturação produtiva e redução da burocracia estatal, o curso se volta a estudar maneiras de se manter atualizado com as tendências e exigências do que se esperava de um profissional de administração em relação a essas mudanças. Com isso, é aprovado um novo projeto pedagógico voltado para uma perspectiva mais neoliberal e empreendedora (Projeto Pedagógico, 1995). Desde então, este tem sido o currículo vigente para a formação dos administradores da UESB.

Atualmente, existem cinco cursos de graduação em Administração presenciais na cidade de Vitória da Conquista, sendo um bacharelado na rede pública (UESB), que foi base de inspiração para implantação dos demais cursos da região, três bacharelados e um curso tecnólogo na rede particular. O Curso de Administração da UESB possui quase cinco décadas de existência e mais de mil e duzentos administradores formados. Seu corpo docente (da área específica) constitui-se de dezenove professores, sendo doze doutores, três mestres e quatro especialistas. Conta, hoje, com seis grupos de pesquisa, seis projetos de pesquisa em andamento e um programa de extensão em atividade, o Observatório de Marketing. O curso encontra-se no processo de reformulação curricular, indo para a sua segunda reforma, desde a sua implantação.

Com base na literatura sobre evolução da expansão do management, com seu pensamento administrativo/organizacional e da Administração do Desenvolvimento, compreendemos que há uma lacuna na explicação da expansão do ensino management e na narrativa do desenvolvimento. Apesar de existirem análises históricas sobre o surgimento e a consolidação dos cursos de Administração, há poucas investigações sobre como os currículos incorporaram as abordagens tanto da AD quanto de uma perspectiva neoliberal. Para tanto, assumimos como posicionamento teórico a abordagem pós-estruturalista, alinhada às perspectivas críticas e decoloniais, tanto no campo da Administração quanto nos estudos sobre desenvolvimento. Com base nesse arcabouço, analisamos o caso do Curso de Administração da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), buscando compreender como essas dimensões se manifestam e contribuem para a necessidade de uma reconceituação do ensino e da prática da administração.

Sobre os aspectos metodológicos do estudo

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa exploratória e empírica, uma vez que se dedicou à investigação da trajetória de um curso de Administração e suas implicações no desenvolvimento de um município. De acordo com Marconi e Lakatos (2005, p. 188), tal método de pesquisa visa atingir três objetivos intrínsecos à exploração, são eles: “desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do pesquisador com um ambiente, fato ou fenômeno, para a realização de uma pesquisa futura mais precisa ou modificar e clarificar conceitos”. Utiliza-se da abordagem qualitativa com estudo de caso único (Stake, 2005), uma vez que se fez análise cruzada de dados e informações em documentos, entrevistas, fotografias, registros de memórias com propósito de compreender os efeitos de uma ideologia (management) no processo de desenvolvimento de um município (Vitória da Conquista).

As entrevistas foram realizadas com dois grupos: docentes fundadores e atuais docentes que são alunos egressos do Curso de Administração da UESB, escolhidos por amostragem conforme critério não probabilístico (Patton, 1990). Esse critério considerou a relevância dos participantes para a construção histórica do curso e seu impacto no desenvolvimento local. A ideia inicial seria entrevistar cinco docentes fundadores e cinco docentes egressos do Curso de Administração. Contudo, um dos docentes fundadores não pôde participar da entrevista, ficando, efetivamente, quatro docentes fundadores e cinco docentes egressos do curso. O grupo de entrevistados foi distribuído em um intervalo de tempo entre 1980 (ano de início do curso) e 1995 (ano de implantação do currículo vigente). Para manutenção do anonimato foram identificados por ordem alfabética, a primeira entrevista recebeu a identificação de letra A e a última I (figura 1).

Figura 1
Docentes fundadores e egressos, dispersão em escala temporal

Além disso, realizou-se pesquisa documental junto ao Colegiado do Curso de Administração, analisando-se projetos pedagógicos, matrizes curriculares e registros históricos entre os anos de 1980 e 1995. A coleta de dados ocorreu entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, por meio da plataforma Google Meet. As entrevistas foram gravadas, transcritas e organizadas para análise posterior.

Como instrumento de coleta de dados aplicou-se entrevista semiestruturada com perguntas subjetivas e distribuídas em três blocos, a fim de atingir os objetivos da pesquisa. O primeiro bloco se refere à trajetória do Curso de Administração; o segundo bloco aos efeitos do curso nas práticas gerenciais; e o terceiro abarca os efeitos do curso no desenvolvimento local. Tais disposições foram executadas no intuito de responder aos objetivos principais, de maneira mais assertiva. A coleta das informações foi realizada em dias distintos no mês de dezembro de 2022 e início de janeiro de 2023, cujo meio intermediador foi o Google Meet. Quanto aos entrevistados, a média de idade dos docentes fundadores é de 73 anos, já dos docentes egressos é de 54 anos. Seis dos entrevistados são do sexo masculino e três do sexo feminino. Em relação à titulação, são quatro doutores, quatro professores mestres e um especialista.

Realizou-se também uma pesquisa de cunho documental, averiguando dados e informações sobre a trajetória do curso, cujos documentos foram coletados junto ao Colegiado do Curso de Administração da UESB, dentre eles: o projeto pedagógico e a matriz curricular do curso em 1980, bem como o projeto pedagógico de 1995 e sua nova matriz curricular. Tais informações foram utilizadas com fins de associá-las às explanações descritas no referencial teórico e aos achados encontrados ao longo da pesquisa, dando base para compreender o contexto histórico da trajetória do curso e o nexo entre AD e expansão do management.

A análise dos dados foi realizada com base na técnica de análise de conteúdo básica, na perspectiva de Miles et al. (2014). As categorias analíticas e seus respectivos códigos foram definidos com base nos objetivos da pesquisa e estão indicados na figura 2:

Figura 2
Definição de códigos para análise dos dados

As entrevistas e os documentos foram codificados utilizando o suporte do software Atlas.ti 23. Além disso, foram realizadas análises complementares no Microsoft Excel para sistematização de demais informações.

Os critérios de qualidade para pesquisa seguem os adotados por Pozzebon (2018) e Pozzebon & Petrini (2013), priorizando autenticidade, plausibilidade, criticidade e reflexividade. A autenticidade foi garantida pela presença ativa dos pesquisadores durante a coleta e análise de dados. A plausibilidade foi buscada ao apresentar descobertas claras e relevantes. A criticidade incentivou reflexões sobre a relação entre o Curso de Administração e as concepções de desenvolvimento. A reflexividade foi evidenciada na explicitação das escolhas metodológicas e no posicionamento dos pesquisadores ao longo do estudo.

Administração do desenvolvimento e o management no Sertão da Ressaca: trajetória e implicações

O nosso primeiro objetivo neste estudo é resgatar a trajetória do Curso de Administração da UESB e identificar as bases ideológicas e técnicas, de modo a verificar a relação entre AD e expansão do ensino do management no contexto brasileiro. Justamente sobre este objetivo organizamos a categoria analítica que se desdobra nos seguintes códigos: justificativas, finalidades e objetivos do curso; infraestrutura da universidade e do curso; propostas e influências curriculares e bases teóricas utilizadas (Figura 2).

Podemos perceber, pela ótica dos entrevistados, que a cidade de Vitória da Conquista possuía princípios de certa pujança econômica, principalmente no setor terciário (serviços empresariais e públicos). Essa afirmação converge com Alves (2019) e Lopes (2013), que assinalam momento em que a cidade passava por profundas transformações em sua rede urbana, após a construção de importantes acessos rodoviários e investimentos federais na produção cafeeira. A fim de gerir, e melhor preparar o crescimento da cidade, a máquina pública municipal necessitava de administradores que ocupassem cargos dentro de suas unidades administrativas e promovessem um serviço público mais eficiente, bem como um corpo técnico que pudesse contribuir com o desenvolvimento dos segmentos empresariais da cidade. Nas falas de um dos docentes fundadores do Curso de Administração da UESB, ele entende essa necessidade da seguinte maneira:

Primeiro, porque Vitória da Conquista sempre foi pujante, tanto na parte comercial quanto na parte em que estava começando, a industrialização. Segundo, pela necessidade de formar empreendedores. Essa pujança demandava melhorias em outras áreas, como a de saúde e área de educação. Tudo isso fez com que o Curso de Administração se transformasse na mola mestra inicial da cidade. Então isso aí foi fundamental para que a Universidade se desenvolvesse e posteriormente fossem criados cursos (docente fundador E, 2022).

Assim, no primeiro momento, fica evidente a adoção de uma abordagem de caráter desenvolvimentista. A visão do curso de Administração como um motor do progresso econômico e social é amplamente alinhada ainda com a perspectiva modernizante, conforme apontam Santos et al. (2016). Além disso, a fala do entrevistado corrobora os nexos entre “administração” e “desenvolvimento”, destacados por Cooke e Faria (2013). Nesse cenário, o curso de Administração integraria teoria e prática, configurando-se como um elo que possui causalidade entre desenvolvimento e gestão.

Ainda nesse contexto, como menciona o docente fundador C (2022), a criação do Curso de Administração em Vitória da Conquista foi fundamental para atender às demandas acadêmicas e produtivas da região. Ele afirma que: “Era preciso ter cidadãos formados com uma visão acadêmica e científica mais apurada [...]. Então, era preciso que saíssem dos cursos técnicos e fossem para a administração superior [...]”. Essa transição foi essencial para ampliar as possibilidades de desenvolvimento regional e consolidar a presença acadêmica no interior baiano.

O entrevistado elucida um objetivo de cunho educacional e acadêmico, resgatando a proposta do governo de interiorização do ensino superior em todo o Estado da Bahia, conforme evidenciam Boaventura (2009) e Mendes (2018). A concentração da educação na capital limitava o acesso à educação superior no interior, restringindo a formação humana e o desenvolvimento dessas regiões. Saavedra Castro (2010) revela que a resposta do governo, à época, foi incluir no PLANDEB metas voltadas para a qualificação dos recursos humanos nos setores produtivos e a formação de professores em nível superior, visando melhorar a qualidade da educação. Como resultado, foram criadas quatro universidades públicas no interior do Estado, as Universidades Estaduais da Bahia (UEBAs), incluindo a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Nesse sentido, também se percebe uma congruência da relação entre as abordagens dos entrevistados a aspectos de que a presença do ensino superior na região era importante tanto para a questão educacional quanto para a promoção do desenvolvimento.

Os desafios estruturais e institucionais enfrentados pelo Curso de Administração da UESB revelam um contexto de precariedade que impactou diretamente tanto a formação dos discentes quanto a consolidação do corpo docente. Vários entrevistados citaram que a localização distante do centro urbano, a falta de infraestrutura básica, como pavimentação e transporte público, e a ausência de equipamentos coletivos essenciais, como laboratórios e restaurante universitário, tornavam o cotidiano acadêmico desafiador. Além disso, a dificuldade em atrair administradores formados para a docência na região sobrecarregava os professores pioneiros da capital, que, muitas vezes, acumulavam disciplinas, comprometendo a profundidade do conteúdo em áreas específicas. Nesse mesmo sentido, o docente fundador B destaca que “A cidade era muito distante da capital e era exigida a presença do professor aqui. Então, era uma situação difícil [...] encontrar professores. Então, nós nos sujeitamos a aceitar que o professor residisse em Salvador e trabalhasse na UESB”.

Essa conjuntura acabou fomentando um processo de endogenia, em que o corpo docente foi gradativamente sendo formado por egressos do próprio curso, o que, embora garantisse continuidade, também limitava a diversidade de perspectivas acadêmicas. Somam-se a isso a carência de campos de estágio e a ausência de núcleos de prática e extensão, que enfraqueciam a formação prática, conforme relata o docente egresso D (2022): “A UESB, na prática, parecia mais com uma faculdade do que com uma universidade. Era bem precária mesmo. Em termos de apoio para o estágio, era fraco para a formação”.

Portanto, o descompasso entre a proposta de interiorização do ensino do management no Sertão da Ressaca e as limitações práticas enfrentadas evidencia os desafios inerentes à implementação de um projeto educacional de caráter desenvolvimentista em uma região com infraestrutura limitada. Enquanto o curso buscava formar profissionais com capacidade de contribuir para o desenvolvimento regional, as dificuldades estruturais e a fragilidade das atividades de estágio e extensão comprometiam, parcialmente, esse objetivo, destacando a necessidade de políticas públicas conjuntas para fortalecer o ensino superior em regiões periféricas. Essas dificuldades foram sendo vencidas ao longo do tempo, com novos professores formados mestres e doutores e criação de grupos de pesquisa e extensão que aumentaram as contribuições do curso para a pesquisa e ensino de Administração na cidade.

Dessa forma, juntamente com o surgimento da UESB em Vitória da Conquista, nasce o Curso de Administração. O curso foi autorizado a funcionar, inicialmente, pelo Parecer 156/80, de 5 de novembro de 1980, do Conselho Estadual de Educação, e posteriormente pelo Decreto Federal nº 85.363, de 17 de novembro de 1980. O reconhecimento formal veio com a Portaria Ministerial nº 139, de 10 de março de 1987, publicada no Diário Oficial da União em 11 de março do mesmo ano. A proposta pedagógica do curso, elaborada em 1980, refletia as diretrizes nacionais para a formação de administradores, conforme regulamentado pelo Parecer 307/66 do Conselho Federal de Administração e pela Lei nº 4.764, de 9 de setembro de 1965. Outro aspecto identificado foi o foco em uma formação mais abrangente, a qual estimulava um pensamento amplo sobre o contexto político-econômico do país e do território local, embora limitado a um viés estrangeiro do que era a realidade nacional. Nesse sentido, destacam-se disciplinas como estudo de problemas brasileiros (EPB I e II), economia regional, geografia econômica, teoria econômica e economia brasileira. A disciplina de EPB, imposta durante a ditadura militar, visava incutir nos estudantes de ensino superior a visão do projeto de nação defendido pelo regime, abordando temas como política nacional, questões ideológicas, civismo e segurança nacional (figura 3).

Figura 3
Matriz curricular na época do surgimento do curso, em 1980

O destaque das demais disciplinas está no aprofundamento da formação econômica do administrador. A ênfase na economia visava proporcionar uma compreensão mais robusta dos pressupostos econômicos necessários à promoção do desenvolvimento, em consonância com a abordagem de Motta e Schmitt (2013) e Santos e Santana (2010), em que a AD, em sua proposta modernizante, buscava a industrialização e o crescimento econômico. Essa perspectiva também se alinha à gênese do campo da AD, conforme apontado por Santos et al. (2018). Portanto, observa-se que essa configuração pedagógica refletia um alinhamento do curso com as demandas políticas e econômicas da época, ao mesmo tempo em que proporcionava uma formação que objetivava atender aos planos de desenvolvimento tanto regional quanto nacional.

As narrativas dos entrevistados revelam que o Curso de Administração da UESB foi fortemente influenciado pela Escola de Administração da UFBA (EA-UFBA). Essa influência manifestou-se de diversas formas nas falas dos entrevistados: na organização do primeiro currículo, que espelhava a matriz curricular da EA-UFBA; no processo de formação do corpo docente, com a oferta inicial de cursos de especialização em orçamento público e metodologia de ensino; nos convênios estabelecidos para a realização de cursos de mestrado interinstitucional e formação doutoral de docentes; e nas parcerias de pesquisa/extensão desenvolvidas ao longo das quatro décadas de existência do curso.

O processo de disseminação da ideologia do management adquire características específicas ao chegar ao Sertão da Ressaca, região onde a UESB está localizada. É relevante destacar que instituições como a UFBA e a UFMG receberam apoio do governo norte-americano em um contexto de expansão estratégica do ensino de management (Barros, 2014; Alcadipani & Bertero, 2018). Nesse sentido, esse processo está diretamente relacionado ao que foi apontado por autores como Alcadipani e Bertero (2018), Barros (2014), Guerreiro Ramos (1981) e Santos et al. (2009), que indicaram a intenção dos EUA de disseminar princípios administrativos de base tecnicista, voltados para resultados, em consonância com os ideais do modelo capitalista de desenvolvimento (Escobar, 1995). Tal movimento também estava ligado ao receio de que a persistência do subdesenvolvimento nos países latino-americanos pudesse levar à adesão ao “comunismo”.

Embora já existissem movimentos acadêmicos no Brasil que buscavam romper com a replicação de uma ciência social originada no contexto estadunidense e aplicada em países latino-americanos (Caiden & Caravantes, 1982; Guerreiro Ramos, 1981), o ensino de Administração nas universidades brasileiras ainda refletia as bases desse modelo. Esse paradigma sustentava uma visão desenvolvimentista centrada no crescimento econômico, no excedente de capital e na consolidação de uma sociedade de consumo e industrializada. Essa abordagem era criticada por Guerreiro Ramos (1981), que, ao propor o conceito de “redução sociológica”, alertava para o risco de limitar a teoria administrativa a um modelo tecnicista replicável em qualquer contexto, sem considerar as especificidades locais. Na prática, a formação administrativa da época consistia em aplicar diretamente essas teorias como um mecanismo suficiente para promover o desenvolvimento econômico nos países. Contudo, essa falta de um olhar crítico e contextualizado sobre a realidade local gerava contradições entre a teoria e a prática.

Apesar de a matriz curricular do Curso de Administração da UESB apresentar uma proposta de formação generalista e alinhada, em certa medida, à realidade local, ela permanecia limitada a uma lógica de AD predominantemente estadunidense. Isso era evidenciado pela composição da matriz e pelos autores e livros utilizados no curso. Conforme relatos dos entrevistados, os manuais de Idalberto Chiavenato – embora seja um autor brasileiro – fundamentam-se em teorias estrangeiras. Além disso, autores como Philip Kotler, Peter Drucker, Michael Porter e Lawrence Gitman eram amplamente utilizados, como aponta o docente egresso D (2022): “Era um manual. Usávamos em todas as épocas, inclusive, eu acho que eram dois volumes, um volume para TGA I e um volume para TGA II. Então essa era a grande base teórica a que a gente tinha acesso”.

A predominância de referências estadunidenses no ensino de Administração da UESB não é um caso isolado. Como apontam Alcadipani e Bertero (2014), essa influência decorre da histórica relação entre os Estados Unidos e o Brasil no campo do ensino de management. Durante os convênios firmados entre instituições brasileiras e estadunidenses, buscava-se consolidar um modelo de administração alinhado à lógica e aos valores dos EUA. Mesmo após o término desses convênios, esse modelo foi replicado nas matrizes curriculares das escolas de Administração em diferentes instituições, perpetuando a dinâmica de influência estadunidense no ensino da área.

No caso da UESB, essa replicação ficou evidente na similaridade da matriz curricular com a de outras instituições brasileiras, como assinala um dos entrevistados: “A matriz curricular do Curso de Administração da UESB era basicamente a mesma utilizada pelo Curso de Administração da UFBA” (docente fundador E, 2022). Essa continuidade ilustra uma problemática maior: a reprodução de um modelo educacional focado em um viés estadunidense que desconsidera, em grande parte, as especificidades e as demandas locais.

Dessa forma, o Curso de Administração da UESB reflete tanto os avanços quanto as contradições da expansão do ensino de management no Brasil. Por um lado, ele promove o desenvolvimento local e a qualificação profissional; por outro, perpetua valores e práticas alinhados a um modelo econômico hegemônico que nem sempre dialoga com as realidades locais. Em vez de abordar as necessidades sociais e econômicas da região de forma mais ampla, o curso reproduz uma visão administrativa limitada, predominantemente voltada para aspectos econômicos, enquanto as questões sociais permanecem em segundo plano.

Quase quinze anos após o surgimento do Curso de Administração na UESB ocorre a primeira reforma curricular, excluindo da matriz disciplinas de outras áreas de conhecimento e trazendo novas disciplinas mais específicas da área, porém mais tecnicistas, direcionadas ao ensinamento de práticas empreendedoras, tecnologias de informações e questões de mercado. Esse período foi marcado por transformações profundas no Brasil, impulsionadas pela redemocratização, globalização, reestruturação produtiva, privatização, reengenharia, abertura comercial e hegemonia do pensamento neoliberal (Silva & Marques, 2020). Essas mudanças tiveram um impacto direto no mercado de trabalho e, consequentemente, no planejamento pedagógico dos cursos de Administração.

Isso fica explícito na fala do docente egresso D: “você pega também a mudança estrutural das políticas [...], da estrutura do governo [...] e outro [...] tentando pegar administração gerencial para administração. E isso vai culminar em 1994, com a reforma do estado brasileiro lá de Bresser-Pereira”. Alinhado com esse panorama e discussões que vinham ocorrendo no mundo acadêmico, o Colegiado do Curso identificou a necessidade de reformular o projeto pedagógico, o que resultou na elaboração de uma nova proposta curricular apresentada em 1994. Em 1993, a resolução nº 2, de 4 de outubro, estabelecia uma nova carga horária básica para a formação do administrador, conforme recomendado pelo Conselho Federal de Administração (CFA). Esse momento de revisão das cargas horárias foi aproveitado para reavaliar também os componentes curriculares da matriz, que datavam de 1980.

Conforme ficou declarado no Projeto Pedagógico de 1995, foram realizados vários seminários, com amplos debates entre docentes, discentes e representantes de instituições, como UFBA, UFMG, Associação Nacional dos Graduandos em Administração (ANGRAD) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). O argumento central era a necessidade de um ensino mais voltado ao uso da tecnologia e suas aplicações no cotidiano das organizações, além de um enfoque maior no empreendedorismo. Esse movimento marcou o fim do projeto pedagógico baseado no desenvolvimentismo modernizante e consolidou um currículo alinhado à lógica neoliberal. Nessa direção, um dos docentes fundadores aponta que o “objetivo era tornar o curso mais atual. Nós viemos de uma formulação inicial baseada na administração generalista, agora a gente espera ter uma cara própria do curso” (Docente fundador E, 2022)”. Em outras palavras, isso significa dizer que era preciso eliminar os conteúdos (componentes curriculares) das outras áreas de conhecimento para privilegiar a base tecnicista do management, conforme relato do docente fundador H (2022):

[...] a inclusão da disciplina administração brasileira contribuiu para enxugar as áreas de economia, contabilidade, sociologia e direito do curso, sugerindo a redução de algumas disciplinas e inclusão de novas relacionadas com as mudanças que estavam ocorrendo no país e no mundo socioeconômico.

Desta maneira, nota-se que a reforma curricular aprovada em 1995 promoveu mudanças substanciais na matriz curricular (figura 4): suprimiu dez disciplinas da antiga matriz, eliminou vinte e uma disciplinas e criou vinte e três novas, redefinindo o perfil do administrador formado pela UESB. Disciplinas como geografia econômica, economia regional, sociologia rural, sociologia política, e estudos dos problemas brasileiros foram retiradas, enquanto novas disciplinas, como Administração da Qualidade Total, Administração Estratégica, Pesquisa Mercadológica e Desenvolvimento de Negócios, foram introduzidas. Essas mudanças evidenciam um deslocamento de um administrador desenvolvimentista para a formação de gestores empreendedores moldados para um mercado globalizado.

Figura 4
Matriz curricular em 1995 e vigente

No entanto, essas transformações pedagógicas, embora inovadoras, reforçaram a ideologia do management. A matriz curricular passou a refletir menos a perspectiva desenvolvimentista do período anterior e mais os princípios do pensamento neoliberal. Esse foco promoveu o empreendedorismo como solução central, ao mesmo tempo em que priorizou a eficiência mercadológica em detrimento de uma visão crítica e sistêmica da administração, alinhando-se à desconstrução do estado de bem-estar social e à lógica mercantilista do período.

Repercussões do management nas práticas gerenciais do Sertão da Ressaca

O segundo objetivo do estudo é analisar as repercussões do Curso de Administração da UESB nas práticas gerenciais das organizações. Para tanto, analisamos o perfil dos estudantes ingressantes ao longo do tempo e as repercussões das práticas gerenciais assimiladas no desenvolvimento das organizações.

O perfil dos ingressantes do Curso de Administração da UESB assemelha-se ao perfil concebido na proposta da AD – atender a uma elite burocrática da sociedade local. Como salienta o docente fundador B (2022), "O perfil dos ingressos, do ponto de vista socioeconômico dos alunos, era um perfil muito diversificado, [...] filhos de empresários locais, pessoas ligadas ao segmento da cafeicultura e servidores públicos”. Por sua vez, o docente fundador C (2022) descreve a presença de uma parcela de estudantes com idade mais elevada, provavelmente, por não ter tido a oportunidade de formação superior no tempo adequado:

Nós tínhamos um represamento de formação intelectual muito grande. Então, as primeiras turmas chegaram a ser engraçadas, [...] tinham [...] alunos, muitos deles eram mais velhos do que eu. Eram gerentes de banco em fase de aposentadoria [...] (docente fundador C, 2022).

Essa análise corrobora as observações de Alves (2019) e Lopes (2013), que destacam o crescimento econômico de Vitória da Conquista entre as décadas de 1960 e 1980. Esse crescimento foi impulsionado pela construção do entroncamento rodoviário da cidade, pela consolidação do polo cafeeiro e comercial e com o início da industrialização do município. Cenário este conectado com a justificativa para implantação do curso, conforme tratou o docente fundador E, ao justificar a criação do Curso de Administração como uma resposta aos sinais de desenvolvimento econômico da cidade naquele período.

Nesse contexto, o perfil dos estudantes que ingressaram no curso atendia aos interesses dos setores produtivos da região, ou seja, qualificar gestores que já ocupavam postos de gerências nas organizações locais. A maioria dos estudantes possuía vínculos diretos com setores econômicos (primários, secundários e terciários), atuando como gestores ou herdeiros de negócios locais. A formação oferecida no curso, portanto, era predominantemente técnica, moldada pelas demandas desses setores econômicos.

Além disso, o docente fundador E menciona a presença de ingressantes vindos do segmento bancário, o que amplia a visão sobre a relação entre o curso e o modelo desenvolvimentista vigente. Esse modelo, alinhado ao nexo entre desenvolvimento e administração descrito por Cook e Faria (2013), entendia o desenvolvimento — estritamente econômico — como resultado direto da aplicação de técnicas e ferramentas administrativas. O professor também relata que ao longo dos anos, esse cenário de “represamento” foi se dissolvendo, com o perfil dos ingressantes gradualmente se tornando cada vez mais jovem. Essa mudança de característica pode ter sido proporcionada pela melhoria nas políticas educacionais e de acesso ao ensino superior que ocorreu nas décadas posteriores ao surgimento do curso.

É relevante destacar o impacto do curso de Administração nas práticas gerenciais da região, conforme apontado por diversos professores. A esse respeito, o docente fundador B assim informa:

[...] naquele momento, era difícil encontrar um administrador ocupando um cargo público em Vitória Conquista. Esse quadro muda a partir da criação do curso e da formação das novas turmas. [Hoje], você encontra no município muitos graduados em administração, o que dá uma nova feição à administração pública e privada.

Desse modo, ele observa uma expansão das atividades mais profissionalizadas e técnicas, tanto na esfera pública quanto privada, ocupando espaços que anteriormente eram preenchidos por profissionais de outras formações ou sem formação específica. O docente fundador E complementa essa percepção ao afirmar que:

Antigamente, havia muita gente trabalhando na área de administração, mas não como profissionais formados na área [...]. A formação básica em Administração permite desenvolver mais competência para atuar no mercado. [...] A partir disso, tivemos empresas operando de forma mais efetiva, formulando políticas para melhorar a qualidade de vida dos funcionários e a eficiência de suas operações (docente fundador E, 2022).

Essas reflexões destacam como a formação em Administração contribuiu para a qualificação do corpo gerencial local, promovendo práticas mais estruturadas e alinhadas com princípios técnicos do modelo gerencial desenvolvimentista. Isso ocorreu em um ambiente cuja atuação do administrador era essencial para a promoção do desenvolvimento e a oferta de postos de trabalho e emprego era mais abrangente. Porém, com as mudanças no contexto geopolítico, nas relações de trabalho e no deslocamento do modelo gerencial desenvolvimentista para o modelo neoliberal, o cenário socioeconômico-profissional se modifica, criando situações de desemprego ou subemprego. Em relação a isso, a docente egressa A pondera sobre essa situação de subemprego da seguinte forma: “[...] eu estava em um supermercado e tinha uma moça que foi minha aluna atendendo no balcão do açougue desse supermercado, eu acho [...] um desperdício profissional. E a moça estava muito sentida, são vários que estão nessa situação, não é só ela [...]”.

Esse cenário levanta importantes reflexões sobre o papel do administrador na sociedade. Se, em um momento anterior, ele ocupava uma posição central na construção de um projeto nacional desenvolvimentista (Cristaldo, 2022), a reforma curricular e o fortalecimento do modelo neoliberal no mercado e na formação acadêmica contribuíram para a desvalorização desse papel estratégico. Isso dialoga com a proposição de Escobar (1995), ou seja, que o desenvolvimento, em seu âmago, é apenas uma narrativa colonial para moldar os países do Sul Global aos critérios do Norte. Essa dinâmica evidencia a urgência de revisitar e adaptar a proposta pedagógica dos cursos de Administração, com vistas a enfrentar os desafios contemporâneos por meio de uma episteme própria, desvinculada de adaptações de cunho colonial e recolonial que historicamente desfavorecem e subalternizam o papel da Administração como algo central para a promoção de desenvolvimento (Dussel, 1998; Faria et al., 2021).

Ao refletirmos sobre a exportação do modelo de gestão dos Estados Unidos para o Brasil, observamos que, inicialmente, visava à formação técnica, porém, alinhada ao projeto de desenvolvimento nacional. Todavia, com o modelo gerencial neoliberal, o ensino de Administração passou a ser predominantemente técnico, estruturado em processos de otimização dos fatores produtivos, reengenharias organizacionais, terceirização, empreendedorismo, desvinculado do debate sobre projeto nacional, priorizando objetivos internos às organizações.

Diante disso, torna-se imprescindível resgatar a centralidade da administração na promoção do desenvolvimento, mas não restrita à esfera econômica geopolítica do Norte Global. É preciso avançar para um ensino de administração que contemple as demandas e os problemas do Sul Global, associando as dimensões econômicas, sociais e sustentáveis do desenvolvimento, ou de um outro desenvolvimento. Para isso, é essencial uma episteme dialógica (Sul-Sul, Norte-Sul e Sul-Norte), que atenda às demandas locais, mantendo o compromisso com o desenvolvimento do bem-estar social, a partir da distribuição da riqueza socialmente construída (Santos et al., 2018).

Efeitos do management no desenvolvimento local

Esta seção visa compreender os efeitos do curso no desenvolvimento local. Para isso, analisamos as entrevistas com base em três códigos principais: as instituições que mais contrataram profissionais de administração formados pela UESB; a contribuição do curso no enfrentamento das desigualdades socioeconômicas; e, por fim, os efeitos diretos no desenvolvimento local.

Durante as entrevistas, identificamos uma diversidade de organizações públicas e privadas que demandam por profissionais de administração formados pela UESB. Organizações pertencentes aos três setores da economia local (primário, secundário e terciário), representadas, aqui, na imagem do efeito linkagem do desenvolvimento econômico de Albert Hirschman, descrita por Santos et al. (2018). O modelo (figura 5) parte do pressuposto de que uma ação promovida em um setor da economia tende a promover movimentos de encadeamento na economia local. Isso pode ser observado nos relatos dos entrevistados, ao apontarem os segmentos/organizações que demandam por administradores da UESB.

Figura 5
Mapa em Rede de instituições que absorviam os egressos do Curso de Administração da UESB

Essa situação impacta diretamente na proposta e nos objetivos do curso que, em seu início, buscava suprir a administração pública e privada de profissionais capacitados, ao atender, para além destas, outras áreas da sociedade, contribuindo para melhorar o desenvolvimento local. Em consonância com Mendes (2018), a iniciativa de autoridades estaduais de interiorizar a educação superior e promover o desenvolvimento do sertão baiano, somada a outros fatores, culminou em resultados positivos, especialmente no Sertão da Ressaca. Essa perspectiva também é corroborada pelo depoimento do docente fundador B, que mencionou o aumento significativo de profissionais de administração ocupando funções administrativas em órgãos públicos, assumindo cargos de gestão anteriormente desempenhados por profissionais de outras áreas.

Quanto aos segmentos da esfera privada que mais absorvem administradores formados pelo curso da UESB, ganham destaque o segmento do comércio, o varejo, os bancos e os serviços empresariais de interesse público, como clínicas, hospitais, escolas, bem como os serviços empresariais de interesse privado, como consultorias, casas de eventos, hotéis, entre outros. No campo da esfera pública, por meio das falas dos entrevistados, a inserção destes egressos se dava muito em instituições como prefeituras, Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), bancos de economia mista, Receita Federal, Secretaria da Fazenda, Ministério Público, entre outras. Em relação às instituições da esfera societal, durante as entrevistas, apenas uma professora egressa cita o princípio do cooperativismo de crédito, mas que apenas se consolidou por volta da década de 2000 e algumas ONGs que atuavam minimamente na região.

Esse fenômeno está intrinsecamente ligado às discussões teóricas que permeiam tanto o campo do management quanto o da AD. Nesse contexto, o management, além de atuar como uma expressão de colonialismo epistemológico e cultural, tinha como objetivo secundário a formação de profissionais administradores qualificados para atender às demandas de todas as esferas produtivas (Santos et al., 2016).

Os impactos positivos do Curso de Administração da UESB no desenvolvimento local e na redução das desigualdades socioeconômicas são reconhecidos pelos entrevistados. O docente fundador E (2022) lembra que, naquela ocasião (década de 1980), “a própria atuação deles [egressos], pela competência que tinham, fez com que outros administradores fossem contratados por essas empresas, por esses institutos e pelas instituições”. A docente egressa G (2022) reforça: “tive vários colegas que de algum modo se destacaram. Foram para o Ministério do Trabalho, Secretaria da Fazenda, Receita Federal, então assim exercendo sempre cargos de chefia [...].” A docente egressa I (2022) sintetiza os efeitos positivos do curso em diferentes setores da sociedade:

O Curso de Administração foi responsável por alavancar o processo de qualificação e profissionalização da gestão de nossas empresas, com destaque para as micro, pequenas e médias empresas, grande parte delas, empresas familiares, à medida que vem, ao longo de sua existência, habilitando profissionais para o exercício de atividades gerenciais e empreendedoras em instituições públicas, privadas e do terceiro setor, sendo responsáveis pela inserção de modernas técnicas de administração, que possibilitam, concretamente, a melhoria na gestão das organizações, visando à criação de melhores condições de vida para a sociedade em geral (docente egressa I, 2022).

Além disso, o curso também desempenhou um papel central na qualificação profissional de empresários, gestores públicos e gerentes, bem como na formação de outros cursos de Administração na região. A docente egressa G (2022) expõe que “Vitória da Conquista também se tornou um polo atrativo para a educação e saúde. A gente tem os outros cursos de administração que foram implantados nas instituições privadas, eles tiveram como ponto de origem o Curso de Administração da UESB”. Esse contexto reflete a relevância do curso como alicerce para a formação de administradores e para o desenvolvimento local.

Uma problemática nesse debate sobre o Curso de Administração da UESB ter servido como base para outros programas é a replicação curricular, um fenômeno observado durante a expansão do management no Brasil (Ramos, 1981; Cavalcanti & Alcadipani, 2016; Alcadipani & Bertero, 2018). Outros autores destacam que, para superar isso, é necessário um esforço no intuito de identificar e valorizar aquilo que é essencial para o nosso contexto local. Logo, essa questão também converge com o conceito de “redução sociológica”, inspirado no termo “redução” da culinária, como uma metáfora para adaptar e concentrar elementos relevantes à realidade (Guerreiro Ramos, 1981). A ideia da replicação curricular gerou perfis de administradores com características homogêneas, independentemente da instituição de origem, na região. Na fase neoliberal, gerou questões como o subemprego e o desemprego que se agravaram nesse cenário, conforme discutido anteriormente. Isso ocorre porque o mercado de trabalho tem progressivamente minimizado a centralidade do papel do administrador, reduzindo as oportunidades para que esses profissionais atuem de maneira significativa e estratégica.

Outra percepção dos professores é que os administradores formados pela UESB desempenham um papel fundamental na redução das desigualdades. A docente egressa I (2022) sublinha que as práticas de gestão justas e inclusivas, como não discriminar gênero ou raça e implementar sistemas de recompensa equitativos, contribuem para minimizar desigualdades. A docente egressa G reforça a importância da qualificação profissional e das políticas públicas:

[...] quando você qualifica os estudantes que, por sua vez, vão qualificar as pessoas com que eles interagem para que eles montem seu próprio negócio e tenham mais condições de mantê-los [...] fazer com que eles cresçam, porque quando um pequeno negócio cresce e se mantém ele gera emprego e renda. Então as pessoas que às vezes estão fora do mercado, se inserem no mercado. Essa é uma das formas que pode ser feita. Mas eu acho que uma das ações, uma das principais ações é com relação às políticas públicas que devem ser estabelecidas. Já que o curso de administração, ele tem um papel muito importante nisso (docente egressa G, 2022).

Observa-se que os entrevistados adotaram predominantemente uma perspectiva modernizante ou, em alguns casos, estruturalista, ao abordar formas de mitigar as desigualdades e promover o desenvolvimento. Nenhum deles mencionou perspectivas pós-estruturalistas como alternativas para enfrentar as desigualdades.

Apesar dos avanços, algumas fragilidades no curso foram realçadas pelos entrevistados. Para a docente egressa G (2022),

[...] falta um pouco de inter-relação com os ambientes externos. Eu acho que o Curso de Administração ainda está dentro dele próprio, não é? Eu acho que a gente tem que intensificar as relações com a comunidade, com a sociedade. Não só através da extensão, que é um viés para você estreitar a relação com a comunidade. Mas esse estreitamento, ele precisa ser feito e ser iniciado com a extensão. Mas eu acho que ele deve ir um pouco além do que isso (docente egressa G, 2022).

A docente egressa I (2022) aponta para a necessidade de atualização pedagógica, incluindo o uso das novas tecnologias e a reformulação da matriz curricular, vigente desde 1995. Ela também sugere a criação de um programa de pós-graduação em Administração (mestrado). O docente egresso F (2022) destaca o fato do despreparo dos novos ingressantes, sugerindo maior investimento na formação básica em áreas como linguagem, matemática e economia, com fins de robustecer um ensino mais crítico. A docente egressa A (2022) chama atenção para a falta de valorização da profissão por parte da universidade e dos conselhos de Administração. Ela cita que:

[...] [A UESB deveria] dar mais qualidade, [...] dar mais valor à formação deles. Um é esse, outro é o papel do Conselho Regional de Administração, que eu acho que deveria haver uma parceria maior entre o Conselho e as instituições. Todo mundo hoje é administrador, [...] mesmo quem não é administrador de formação, se diz ser administrador. E às vezes, a pessoa prefere contratar um engenheiro para administrar, do que contratar um administrador (docente egressa A, 2022).

Essa perspectiva dos entrevistados reflete uma visão de ideologia do management desenvolvimentista na administração, na qual o poder de aplicação das técnicas pode gerar efeitos positivos esperados para o desenvolvimento. Contudo, é importante reconhecer que o neoliberalismo, como um processo multifacetado de precarização, frequentemente dificulta o desenvolvimento em regiões periféricas — sejam países, estados, cidades ou bairros. Nesse aspecto, Cooke e Faria (2013) destacam a relação entre desenvolvimento/administração. Para eles, além de aplicarem técnicas práticas, os administradores deveriam identificar e atuar sobre as lacunas deixadas por essas aplicações, que convergem com a abordagem de Dussel (1998) quanto à necessidade de uma práxis ética, dando prioridade a povos marginalizados. A ausência dessa conexão, frequentemente atribuída ao fato de as teorias terem sido desenvolvidas em contextos do Norte Global, resulta em uma falta de aderência às realidades locais. Isso compromete a interação produtiva entre teoria e prática em nosso próprio contexto.

Outro aspecto problemático assinalado pelos entrevistados é a carência de diálogo efetivo com a sociedade. Sob a lógica neoliberal, as interações têm se concentrado majoritariamente no setor privado, relegando o setor público, o terceiro setor e a sociedade civil a um papel secundário. Nesse cenário, a ideia de contramovimento, proposta por Abdalla e Faria (2019), emerge como uma alternativa relevante. Essa abordagem propõe a ampliação dos canais de comunicação com a sociedade, buscando mitigar os efeitos negativos da lógica neoliberal e promover um modelo de desenvolvimento mais inclusivo, capaz de atender às demandas de todos os segmentos sociais, e não apenas de um grupo restrito. Além disso, Faria (2022) destaca a necessidade de uma (co)produção de conhecimento em gestão que seja baseada na lógica dos países emergentes, dispensando a dependência do gerencialismo hegemônico apontado por Gulrajani (2009). Essa perspectiva propõe um rompimento com paradigmas tradicionais, valorizando práticas e saberes locais para construir soluções mais alinhadas às realidades desses contextos.

Por fim, os entrevistados revelam que os efeitos do Curso de Administração da UESB extrapolam as organizações, atingindo diretamente o desenvolvimento regional. Nesse ponto, o docente fundador E (2022) assevera o papel do curso na formulação de políticas públicas voltadas para a redução de desigualdades: “a gente trabalha o curso mostrando ao discente quais são as deficiências e as desigualdades que existem para que ele possa melhorar, através da formulação de políticas públicas que venham contribuir com a redução dessas desigualdades”. Dessa forma, evidencia-se que a formação em Administração na UESB transcende a preparação para o mercado, assumindo um papel transformador no desenvolvimento regional e na promoção de equidade. Ao estimular uma gestão baseada no diálogo ampliado com a sociedade, na valorização dos saberes locais e na construção de políticas públicas voltadas para a redução de desigualdades, o curso contribui para um modelo de gestão mais inclusivo e conectado às realidades dos países emergentes. Assim, articula-se um caminho promissor para enfrentar os desafios impostos pela lógica neoliberal, reforçando o potencial das instituições acadêmicas como agentes de mudança social.

Conclusão

Este artigo buscou estabelecer o nexo entre a Administração do Desenvolvimento e a expansão do ensino de management no contexto brasileiro, a partir de uma análise decolonial do pensamento administrativo (Cooke & Faria, 2013; Abdalla et al., 2017; Faria, 2023; Sauerbronn et al., 2023), com ênfase na trajetória do Curso de Administração da UESB. Para tanto, o objetivo principal foi desdobrado em três objetivos específicos: (a) resgatar a trajetória e identificar as bases ideológicas e técnicas do curso; (b) analisar as repercussões do curso nas práticas gerenciais das organizações; (c) elucidar os efeitos do curso para o desenvolvimento local.

Quanto à parte teórica, no primeiro momento, realizamos um traçado epistemológico sobre a Administração do Desenvolvimento, explorando seu surgimento, consolidação e evolução. Essa análise passou por perspectivas modernizantes, estruturalistas e chegou às abordagens críticas e pós-coloniais. Em seguida, mapeamos historicamente como a ideologia do management se expandiu, partindo dos Estados Unidos para o Brasil, inicialmente por meio de acordos com o governo brasileiro, que introduziram práticas gerenciais em instituições de ensino no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Como parte desse processo de interiorização do ensino superior, o governo baiano, em parceria com o governo federal, criou a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) no Sertão da Ressaca. Vitória da Conquista, cidade do campus sede da UESB, hoje um polo de desenvolvimento regional. Esse desenvolvimento foi impulsionado por políticas de acesso a rodovias federais e estaduais, além do fomento à lavoura cafeeira, adaptada ao clima local. Nesse contexto, em 1980, juntamente com a UESB foi criado seu Curso de Administração.

Na década de 1990, o cenário global, marcado pela adoção de políticas neoliberais, promoveu diversas mudanças para o Brasil. No setor privado, práticas voltadas para o empreendedorismo e o afrouxamento de leis trabalhistas ganharam força; enquanto, no setor público, reformas baseadas na New Public Management introduziram técnicas empresariais na gestão pública. Alinhado a essas transformações, o Curso de Administração da UESB reformulou seu projeto pedagógico em 1995, buscando formar administradores preparados para atender às demandas de um mercado neoliberal.

Para atender aos objetivos propostos, realizamos entrevistas com nove professores do Curso de Administração da UESB, divididos em dois grupos: cinco egressos que concluíram o curso na década de 1990 e, hoje, atuam como docentes, e quatro professores que participaram da criação do curso nos anos 1980, alguns deles atualmente aposentados.

No que tange ao resgate da trajetória do curso e à identificação da base ideológica e técnica de seu projeto pedagógico, os resultados indicaram uma relação causal entre desenvolvimento e administração, fundamentada em perspectivas modernizantes. Essa visão reflete a formação acadêmica dos entrevistados, que destacaram o papel do ensino superior como um alicerce para o desenvolvimento regional. No entanto, alguns apontaram que o potencial transformador do curso foi inicialmente limitado por fatores como infraestrutura precária e insuficiente articulação com outras políticas públicas. Com o passar do tempo, essas limitações foram gradualmente superadas, impulsionadas pelo aumento no número de mestres e doutores formados em outras instituições e integrados ao corpo docente do curso. Além disso, houve a consolidação de grupos de pesquisa e extensão, contribuindo para o fortalecimento acadêmico e institucional. Apesar desses avanços, alguns relatos destacaram a necessidade de uma maior abertura e articulação do curso com a sociedade, evidenciando desafios ainda presentes.

A análise do projeto pedagógico inicial revelou uma base robusta em economia e política, alinhada às ideias de desenvolvimento econômico. Contudo, essa concepção era restrita a uma concepção de desenvolvimento como crescimento, focada na industrialização e no consumo, sem considerar integralmente o bem-estar coletivo. Já a reforma curricular de 1995, alinhada à ausência de um projeto nacional de desenvolvimento, redirecionou o curso para atender às demandas do mercado neoliberal, priorizando a formação de administradores empreendedores e “atualizados”. Na década de 1980, o administrador era amplamente reconhecido como uma figura central no fomento ao desenvolvimento, desempenhando um papel essencial nas organizações das três esferas produtivas. Entretanto, com os movimentos de neoliberalização e as mudanças no cenário de mercado a partir da década de 1990, essa centralidade foi progressivamente desvalorizada. Esse processo culminou na subalternização da profissão, acarretando a fragilização da categoria e a precarização das relações de trabalho.

Outro aspecto relevante foi a influência curricular de universidades como UFBA e UFMG no Curso de Administração da UESB, que replicaram matrizes correspondentes ao management estadunidense. Isso se refletiu tanto no arcabouço teórico — com predominância de autores estrangeiros — quanto nas práticas pedagógicas, muitas vezes desconectadas do contexto local. No que se refere aos efeitos do curso nas práticas gerenciais das organizações, os resultados revelaram que o curso contribuiu positivamente para a formação técnica, tanto no setor público quanto no privado. Inicialmente, atendia a um público predominantemente composto por filhos de comerciantes e agricultores maduros. Com o tempo, o perfil dos ingressantes tornou-se mais jovem e socioeconomicamente diversificado. Esse público foi capacitado, em um primeiro momento, para contribuir com o desenvolvimento de setores produtivos e, posteriormente, para suprir as demandas do mercado neoliberal.

Por fim, quanto à elucidação dos impactos do curso no desenvolvimento regional, os entrevistados apresentaram inserção heterogênea nas três esferas produtivas (público, privado e terceiro setor). O curso desempenhou um papel importante na redução de desigualdades regionais, ao melhorar a qualificação profissional e destacar seus formados no mercado. Vitória da Conquista consolidou-se como polo de serviços públicos e empresariais, e o Curso de Administração da UESB tornou-se referência para a criação de cursos similares em instituições privadas. Todavia, essa replicação também perpetuou limitações curriculares, como a dependência de modelos estrangeiros pouco adaptados à realidade local. Os entrevistados também apontaram fragilidades, como a desconexão entre o curso e as demandas da sociedade, o despreparo de ingressantes, a falta de valorização profissional e a necessidade de atualização do projeto pedagógico, que permanece inalterado desde 1995.

Nesse sentido, destacamos que a Administração do Desenvolvimento, embora inicialmente influenciada pelas práticas de management, mantinha como objetivo central a promoção do desenvolvimento sob a égide de um projeto nacional. Porém, com a ascensão do neoliberalismo, o papel do administrador como agente central de fomento ao desenvolvimento foi progressivamente deslocado. A lógica passou a privilegiar o desenvolvimento individual e empresarial, enquanto o país deixou de estabelecer projetos nacionais de desenvolvimento, fragmentando as diretrizes voltadas ao crescimento coletivo.

Do ponto de vista geopolítico, questiona-se a eficácia do neoliberalismo como modelo de gestão das relações de produção, distribuição e consumo, dado o aumento da desigualdade, da concentração de renda, da pobreza, da precarização do trabalho e das questões climáticas em todo o mundo. Se o desenvolvimentismo não foi capaz de garantir o bem-estar, o neoliberalismo, muito menos. Diante disso, perguntamos: que administração queremos? Qual projeto de ensino de administração deveremos construir? Que administrador é necessário? É preciso pensar em um curso mais próximo da realidade brasileira, longe dos ditames neoliberais e do management estadunidense.

Portanto, os resultados deste trabalho contribuem para o debate sobre a expansão do management no Brasil, evidenciando como cursos de Administração, como o da UESB, continuam a reproduzir as demandas epistêmicas do Norte Global, perpetuando um colonialismo intelectual. Contudo, o estudo focou em um grupo específico de professores e no contexto específico do interior da Bahia. Estudos futuros devem considerar a perspectiva de outras instituições de ensino, adicionando a visão de discentes que atualmente cursam Administração e daqueles egressos já inseridos no mercado de trabalho. Além disso, seria relevante investigar como a atualização curricular pode promover uma formação mais alinhada às realidades locais e às demandas sociais, indo além do viés de modelos vindos dos colonizadores epistêmicos e hegemônicos.

Agradecimentos

Agradecemos à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), que generosamente abriu suas portas e segue acolhendo aqueles que a abraçam. Refletir sobre o processo histórico de construção e consolidação de sua trajetória e do Curso de Administração da UESB foi uma experiência especial e profundamente importante para nós.

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    » https://doi.org/10.1590/0034-7612150061
  • Wanderley, S., Celano, A., & Oliveira, F. B. (2018). EBAP e ISEB na busca por uma Administração Brasileira: Uma imersão nos anos 1950 para iluminar o século XXI. Cadernos EBAPE.BR, 16 (1), 64-80. doi:10.1590/1679-395161917
    » https://doi.org/10.1590/1679-395161917

Notas

  • 1
    . Área do sudoeste baiano localizada entre o Rio Pardo e o Rio de Contas, onde está situada a cidade de Vitória da Conquista, conhecida por esta nomenclatura desde a época colonial.
  • 2
    . Vitória da Conquista é a terceira maior cidade do Estado da Bahia e centro regional de uma área que abrange oitenta municípios na Bahia e dezesseis no norte de Minas Gerais. Esta área conta com aproximadamente dois milhões de habitantes, já a cidade, segundo parcial do Censo 2022 do IBGE, conta com 387.524 mil habitantes e população flutuante de 40 mil pessoas por dia. Em termos de produtos primários, a economia local é representada pela cafeicultura, com potencial de 1 milhão de sacas por ano, além de culturas nascentes de eucalipto, pecuária e agricultura de subsistência. Os serviços, com foco em negócios, saúde e educação, respondem por mais de 60% do PIB per capita, que é cerca de R$ 13 mil reais. A cidade também possui um polo industrial que se desenvolveu ao longo dos anos, embora sua representatividade no PIB estadual ainda seja pequena.
  • Linguagem inclusiva:
    Os autores usam linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, demonstra respeito por todas as pessoas, é sensível a diferenças e promove oportunidades iguais.
  • Verificação de plágio:
    A O&S submete todos os documentos aprovados para a publicação à verificação de plágio, mediante o uso de ferramenta específica.
  • Disponibilidade de dados:
    A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.
  • Editor Associado:
    Marcelo de Souza Bispo

Disponibilidade de dados

A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    Ago 2025

Histórico

  • Recebido
    22 Mar 2023
  • Aceito
    21 Mar 2025
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