Open-access Vida, Trabalho e Propósito: Interrelações e Implicações nos Processos de Significação

Resumo

A ação humana é intencional. Ela é orientada por propósitos ou objetivos. Tais propósitos, no plural, indicam que a ação humana é setorial, ou seja, que ela se organiza conforme as distintas atividades humanas, em variadas esferas. Cada uma dessas atividades possui seus respectivos propósitos. Assim, as ações humanas na esfera da família são distintas das ações na esfera do trabalho. Visam a diferentes coisas. Porém, essas mesmas ações podem ser vistas como totalidade, um conjunto integrado. Neste caso, tem-se o propósito tomado no singular como um signo totalizante e organizador. O artigo propõe capturar essa dupla natureza do propósito a partir de uma discussão sobre o propósito do trabalho e sua relação com outras esferas de atividade e ação humanas. Para isso, o artigo, de natureza teórica, propõe uma distinção entre propósito na e da vida, e no e do trabalho. Desenvolve tal distinção a partir de uma análise semântica. Em seguida, situa a discussão do propósito na literatura mais ampla acerca do tema. Na sequência, escolhe a aprofunda em uma perspectiva em particular, representada pela abordagem histórico-cultural. Argumenta-se que essa perspectiva favorece o desenvolvimento de uma visão mais integrativa sobre o tema, especificamente por sua defesa de uma relação intrínseca entre propósitos e o processo de significação. O artigo destaca algumas zonas de tensão e realinhamento entre propósitos e as esferas de vida. Finaliza com implicações para o campo da pesquisa e intervenção.

Palavras-chave:
propósito; sentido do trabalho; equilíbrio trabalho-família; projeto de vida

Abstract

Human action is intentional and guided by purposes or goals. These purposes, in the plural, indicate that human action is sectoral, organized according to distinct human activities across various areas. Each of these activities has its own specific purposes. Thus, human actions within the area of family life are distinct from those in the area of work, as they aim at different ends. However, these same actions can also be viewed as part of a totality, an integrated whole. In this case, purpose, taken in the singular, functions as a totalizing and organizing sign. This article seeks to capture this dual nature of purpose by discussing the purpose of work and its relationship with other areas of human activity and action. As a theoretical contribution, it proposes a distinction between purpose in and purpose of life, and between purpose in and purpose of work, developed through a semantic analysis. It then situates this discussion within the broader literature on the topic and further explores it through the lens of the historical-cultural approach. It is possible to say that this perspective supports a more integrative understanding of the phenomenon, particularly by emphasizing the intrinsic relationship between purposes and the meaning-making process. The article concludes by highlighting areas of tension and alignment between purposes and life areas, and by outlining implications for research and intervention.

Keywords:
purpose; meaning of work; work-family balance; life project

Introdução

Entender o sentido e o propósito da vida são indagações filosóficas de longa data. Isso decorre, em grande parte, da indiscutível finitude humana e de nossa capacidade de nos colocarmos como objeto de auto-indagação. Por essa razão, a espécie humana é muito certamente a única para quem o sentido do próprio existir é um tema genuíno de investigação. A forma e a intensidade dessa indagação variam de época para época, e se sujeitam a forças sociais e culturais. Grandes guerras mundiais trazem a busca de sentido da vida para o primeiro plano. As pandemias globais seriam outro exemplo. A pandemia de COVID-19 trouxe para o imaginário social indagações sobre o uso do espaço e do tempo, o valor da sociabilidade e o risco iminente de morte. A incorporação acelerada de novas tecnologias nas diversas esferas de vida e do trabalho também constituem mais um exemplo.

Em períodos de relativa paz e progresso, o tema do propósito deixa de ocupar a esfera pública como tópico explícito de conversação. Torna-se restrito a algumas instituições – como a religiosa ou filosófica – e ao nível privado da individualidade. De fato, o tema do propósito pode ser vivenciado em diversos níveis. Pode-se pensar no propósito de uma nação (seu imaginário sobre sua origem e seu destino), de uma espécie, de um determinado grupo. Nessas instâncias sociais, o propósito é instituído e materializado em símbolos, narrativas e valores compartilhados. Mas o que dizer da instância individual? Afinal, o indivíduo é, objetivamente, confrontado com sua própria finitude, e com a necessidade de decidir qual caminho trilhar – por exemplo, na vida afetiva e na vida profissional, principal foco de interesse neste artigo. Diversos eventos de vida têm impactos distintos sobre as pessoas e suas prioridades, revestindo-se de significados distintos conforme as prioridades atribuídas a cada esfera de vida e seu respectivo propósito. Uma dessas esferas de grande relevância é a do trabalho.

O interesse dos autores deste ensaio neste tema resulta de estudos e intervenções sobre os sentidos do trabalho iniciados há algumas décadas. Mesmo por caminhos teórico-metodológicos distintos, têm-se produzido reflexões e instrumentos relacionados à temática. Muito da literatura que embasou por anos esses estudos resgatava a centralidade do trabalho na vida das pessoas, dando-lhe propósito e organizando suas vidas. O avanço dos estudos empíricos sobre o tema, no entanto, apontava a complexidade da apreensão do sentido pelos trabalhadores e sinalizava haver alguma relação com propósitos de vida. Abria-se, assim, a possibilidade de se explorar analiticamente qual a relação entre propósito e sentido do trabalho no contexto atual, em que o valor do trabalho na vida humana é colocado em xeque, assim como a qualidade das múltiplas e pulverizadas experiências no trabalho.

Nos anos de 1960, por exemplo, um estudo pioneiro tentou mapear, em uma escala de 0 a 100, o impacto de eventos negativos sobre a saúde e a percepção de elementos estressores na vida das pessoas (Holmes & Rahe, 1967). A morte de um dos cônjuges ficou na primeira posição, com 100 pontos. O trabalho ocupou a oitava posição, com 47 pontos, e a aposentadoria o 11o lugar, com 45 pontos. Outros eventos como divórcio, morte de ente querido, doenças e processos de mudanças também se mostraram de forte impacto negativo na saúde. Decorridos 60 anos, é possível que tenha havido um reposicionamento. O casamento não parece ser tão central como outrora. A centralidade do trabalho também sugere ter se reposicionado, decorrente de um movimento que envolveu as sobreposições entre vida pessoal e profissional, afora as contínuas transformações tecnológicas. Se cremos haver relação entre importância de eventos existenciais na saúde e qualidade de vida de cada um de nós, então é necessário realizar uma análise daquelas esferas que mostram indícios de terem mais força orientadora do sentido e do propósito da e na vida.

A relevância de diversas esferas de vida apoia-se no pressuposto de que o propósito ocorre “setorialmente”, isto é, não seria o mesmo para todas as esferas de vida. Nessa perspectiva, o propósito do trabalho seria o de propiciar ganhos como remuneração, ascensão profissional, utilidade, sentido (o que fazer com o próprio tempo), etc. O propósito do casamento poderia ser o de propiciar ganhos como a constituição de uma família, o desenvolvimento afetivo e emocional dos pares, etc. No entanto, nada se sabe sobre como esses propósitos setoriais contribuem para, ou determinam, o sentido da vida. Seria este último apenas a “soma” daqueles propósitos específicos para cada uma de nossas esferas de vida – no exemplo, as esferas profissional e afetiva? Ou o todo é mais que a soma de suas partes?

Como contra-argumento, poderíamos assumir uma posição inversa, a de que haveria um sentido da vida mais amplo, que determinaria ou influenciaria os sentidos ou propósitos de cada esfera de vida em particular. Por exemplo, uma pessoa para quem uma concepção religiosa de vida é o fundamento da própria existência, o propósito da vida poderia ser o de garantir sua própria salvação (a de sua alma). Dessa forma, todas as outras esferas seriam orientadas por esse pressuposto fundamental: no caso de alguns ramos calvinistas, o trabalho deveria ser um meio para se atingir a salvação – por exemplo, na linha do que mostrou Weber (1967) em sua análise da ética protestante e do espírito do capitalismo. O casamento, similarmente, também seria um meio para se atingir aquele fim, refletindo no modo como a sexualidade é regulada, na importância atribuída à criação moralmente rígida dos filhos, nos limites impostos ao trabalho (“Deus descansou no sétimo dia”), etc.

Assim, temos aqui um aparente dilema. De um lado, teríamos propósitos específicos às diversas esferas de vida, pessoal, familiar, profissional, espiritual. De outro, o propósito como uma espécie de signo totalizante, o qual determinaria (ou influenciaria) a vida de uma pessoa como um todo, com efeitos em todas as suas esferas vivenciais. Aplicando a questão ao caso do trabalho, teríamos, de um lado, tanto o propósito do trabalho como um dos propósitos dentre muitos outros sustentados por uma pessoa, ou o propósito do trabalho como uma totalidade, como aquela esfera de vida que dá o tom para todas as demais.

Neste artigo, propomos explorar esse aparente dilema. Vamos considerá-lo da perspectiva de uma separação, incialmente linguística, entre propósito NA e propósito DA vida, e de modo correlato, propósito DO e propósito NO trabalho. Nossa tese é de que a distinção vai além de mero jogo de palavras. Ela contém o potencial heurístico de nos ajudar a compreender as dinâmicas circunstanciais e aquelas mais perenes relacionadas à reflexão sobre propósitos. Além disso, defendemos que propósitos estão intimamente ligados a, e são expressos por, significados. E significados são uma forma privilegiada de acessar e compreender a ação humana – por exemplo, nossas escolhas, nossa compreensão sobre o lugar do trabalho e sua relação com outras esferas de vida. E essa discussão pode vir a contribuir para rever criticamente políticas de gestão de pessoas em contextos organizacionais, considerando que propósitos podem ser compartilhados e serem incorporados ou transmitidos pela cultura organizacional mais ampla.

Entendemos que o aparente dilema entre propósitos específicos para cada esfera de vida e propósito como totalidade envolve, na verdade, um único e intrincado fenômeno, ancorado no fato de que seres humanos são agentes intencionais, cujas ações não são meramente movimentos ou reflexos, mas componentes de atos deliberativos e direcionados, e de que nossa vida é organizada material e semioticamente (criamos segmentações, estruturas de significados, hierarquias). Assim, propomos considerar os arranjos entre dimensões específicas e genéricas do agir humano, capturados por uma discussão sobre sentidos e propósitos, especificamente tendo em conta o trabalho e sua imbricação com o propósito de vida, e vice-versa. Com isso, esperamos construir uma crítica contra iniciativas que, conscientemente ou não, tratam de modo indiferenciado ou dissociado a dimensão da vida em sua totalidade da dimensão específica do trabalho. Quer dizer, crítica sobre tentativas de isolar o trabalho como algo que pertence somente à “esfera profissional”, como na relação (às vezes, oposição) entre vida pessoal e vida profissional, tão comum em debates sobre qualidade de vida.

Dessa forma, nosso objetivo neste artigo é analisar a distinção conceitual entre propósito da e na vida, avançando na diferenciação entre do e no trabalho, e as relações existentes entre ambos. Para isso, inicialmente iremos realizar uma discussão semântica entre essas conceitualizações, demonstrando a que exatamente cada uma se refere. Na sequência, apresentamos uma revisão narrativa sobre esse tema, destacando os principais avanços e as limitações existentes nas abordagens atuais. Em terceiro, iremos debater como a abordagem da Psicologia Histórico-Cultural pode auxiliar na superação de algumas dessas limitações e apontar novos caminhos para pensar a relação entre propósito e trabalho. Por fim, iremos apresentar algumas conclusões advindas dessa construção teórica para intervenções que promovam o propósito da vida e do trabalho e que podem vir a ser incorporadas pelos responsáveis por gestão de pessoas em organizações, mas também além destas.

Propósito “da” e “na” vida e “no” e “do” trabalho

Na linguagem cotidiana não nos damos conta, mas é possível, a partir de uma análise mais minuciosa, diferenciar níveis de propósito. Mais do que jogos de palavras, tais níveis, apreendidos pela linguagem, podem abrir margem para reflexões frutíferas sobre o propósito e também sobre sua relação com o trabalho.

Assim, uma forma de capturar a relação entre propósito e vida é a partir do uso de preposições. Quando acrescentamos uma preposição à palavra ‘propósito’ – por exemplo, na (em+a) ou da (de+a) – tal preposição indica o tipo de relação com a palavra ‘vida’. Sendo assim, haveria, em princípio, uma diferença entre propósito na vida e da vida. Na contração “na”, o propósito estaria contido em eventos da própria vida. Considerando a preposição “da”, a vida estaria sendo tratada como um objeto abstrato, apreendido em sua totalidade. Portanto, quando tratamos do propósito da vida, o significado implícito é que o conjunto da vida possui uma direção específica como totalidade, que reverbera em todas as demais esferas em que a vida se manifesta.

Tendo em vista que o trabalho é uma das esferas centrais da vida, analogamente poderíamos diferenciar propósito do trabalho e propósito no trabalho.

Em ambos os casos, quando nos referimos a “da ou do” (vida/trabalho), consideramos uma categoria mais abstrata, abrangente, compreensiva, direcional. O propósito “do” trabalho como totalidade e como uma categoria abrangente poderia ser, por exemplo, o trabalho humano de transformação da natureza. Quando usamos “na” ou “no” (vida/trabalho), estamos focando em elementos que estariam presentes ou ausentes nas esferas da vida e do próprio trabalho, sendo eles indicadores de propósito. Embora qualitativamente diferentes, o propósito da(do) e na(no) vida/trabalho estão intimamente relacionados entre si, estabelecendo justaposições que, em algumas fases da vida, podem se reposicionar e causar tensões. As figuras 1a e 1b, representadas na forma de diagramas de Venn, ajudam a ilustrar algumas possibilidades de interrelações geradoras de potenciais tensões.

Figura 1
Propósito da e na vida (a) e Propósito do e no trabalho (b)

A Figura 1a trata do propósito da e na vida. Logo, quando nos referimos ao propósito da vida na Figura 1a, diversas esferas concorrem e se interinfluenciam para convergir, anular e até mesmo hierarquizar um propósito que representa a totalidade da vida. O momento de vida de uma pessoa (e.g., adolescência, solteirice ou matrimônio), seu processo de socialização, sua expectativa e projetos futuros, todos eles repercutem na configuração desse propósito. Quando nosso foco se desloca para o propósito na vida, na mesma Figura, fruto da contração ‘em’ (preposição) com o artigo ‘a’, buscamos o sentido dentro da própria vida, com a necessidade de segmentação de esferas e, consequentemente, com distintos níveis de importância. Nesse nível mais segmentado é possível e até provável que, do ponto de vista de uma existência em particular, o trabalho possa ocupar um protagonismo singular que organiza e dinamiza o propósito da vida. Em outras palavras, ele pode hierarquizar e subordinar as outras esferas da vida.

A Figura 1b trata da relação do propósito do/no trabalho. O propósito do trabalho está relacionado à sua característica genérica, a saber: como um meio para transformar a natureza recorrendo a instrumentos e mediações. Assim, o propósito do trabalho humano, trabalho concreto (não o trabalho abstrato), diz respeito a seu valor para uma espécie que não se contenta em receber a natureza como um “dado”, mas como algo passível de ser transformado em outra coisa: uma pedra em uma casa; um rio em uma geradora de energia, etc. Essa generalização não considera as distintas formas com que o trabalho se apresenta historicamente. Quando, ao contrário, consideramos o propósito no trabalho, assumimos que ele pode se materializar em diferentes esferas. A experiência contextual (configurações do trabalho), cultural (compartilhada simbolicamente) e particular (vivência pessoal) cria, amplia ou exclui esferas de materialização do trabalho na vida cotidiana.

Na Figura 1b, citamos apenas duas dessas esferas de materialização do trabalho. Acreditamos que elas capturam bem a vida no trabalho na sociedade moderna: (a) sistema econômico capitalista (trabalho remunerado); e (b) a organização da vida doméstica, a qual exige trabalho de subsistência (trabalho doméstico). Tais esferas geram sentimentos em relação ao trabalho e seu propósito na vida, inclusive por sua negação. Por exemplo, a ausência de oportunidades de trabalho e de perspectiva de trajetória de carreira (formais) pode levar alguém a duvidar que a atividade laboral seja dotada de sentido e propósito. A geração que nem estuda e nem trabalha (Blanch, 2014) poderia ter a Figura 1b bastante esvaziada, com impactos, por exemplo, nos propósitos na vida em outras esferas (Figura 1a). Um caso que merece atenção especial é o trabalho voluntário. O seu propósito pode ser múltiplo: (a) o prazer gerado pela atividade realizada, pela qual o indivíduo não necessariamente é remunerado; (b) a autonomia propiciada pela não contrapartida financeira, que condiciona o modo como a atividade é realizada e mesmo seu propósito; (c) o preenchimento do tempo livre, liberado de trabalhos convencionais remunerados; (d) a busca de experiências alternativas de engajamento com a sociedade – que podem, eventualmente, ser usadas no futuro como características distintivas de inserção profissional.

Em síntese, dependendo da fase de vida de uma pessoa e de variáveis geracionais, culturais e contextuais, as duas esferas representadas na Figura 1b podem ampliar ou restringir seus limites e fronteiras, gerando tensões de disputa de importância. Por exemplo, uma pessoa que, durante toda a vida, teve o propósito de alcançar estabilidade financeira pelo trabalho (remunerado) e se aposentar com uma adequada fonte de renda para suprir suas necessidades, pode redefinir o propósito no trabalho dedicando-se a um trabalho voluntário e social, especialmente se o trabalho se mantém como um elemento-chave de seu autoconceito. Um exemplo distinto seria o de uma mulher que dedicou toda a sua vida para suprir as necessidades da família. Ao constatar que os filhos adultos já definiram seus propósitos de vida e de trabalho, saindo de casa, se vê diante da possibilidade de direcionar seu propósito para um trabalho remunerado iniciando uma carreira profissional tardia.

O propósito de se ter um propósito

Na seção anterior, propusemos um exercício de análise privilegiando distinções sobre o termo propósito no nível da linguagem. Agora, discutimos algumas definições de propósito presentes na literatura, tentando situá-las a partir da distinção de níveis.

O propósito, nos seus diversos níveis, oferece um senso de direção (Ryff, 1989), dotando de significado a vida pessoal e social (Damon et al., 2003). Funciona também como um princípio autoorganizador (Kashdan & McKnight, 2009; McKnight & Kashdan, 2009) que permite desenvolver o máximo potencial de uma pessoa (Kosine et al., 2008). O propósito da vida cumpre a função de estabelecer metas que orientam a vida de maneira geral, de dar um senso de positividade afetiva e de preenchimento e, por último, de engajar a pessoa em ações pró-sociais, ou seja, fazendo-as ir além dos interesses individuais (Hill et al., 2010).

O propósito na vida, como vimos, manifesta-se nas especificidades, nas derivações e especializações do propósito mais geral de vida. Por exemplo, uma pessoa pode ter como propósito da vida o respeito e o tratamento justo para com as outras pessoas. Como resultado, esse propósito de vida se manifesta, concretamente, em cada uma das esferas ilustradas na Figura 1a. Focalizando na esfera do trabalho, esse propósito poderia se traduzir em ações específicas assegurando o respeito e o tratamento justo no ambiente de trabalho. Essa pessoa, provavelmente, se desligaria de um trabalho remunerado bem pago caso viesse a presenciar situações de injustiça e desrespeito que colocassem em risco a observância desse propósito da vida. Em outras palavras, o propósito da vida, neste caso, estaria sob risco na esfera do trabalho, gerando tensões que fariam a pessoa retomar sua hierarquia de valores para decidir-se por reorientar o propósito da vida (evitando, assim, uma dissonância cognitiva), ou reorientar o propósito na esfera de trabalho para preservar o propósito originário da vida.

O propósito da vida, além de situar-se em um nível mais abstrato, articula ao menos três dimensões fundamentais: epistemológica (verdade), estética (belo) e ético-moral (bom/certo) (Metz, 2021). Isso baliza um conjunto de julgamentos que a pessoa faz do valor de sua própria vida (Frankl, 1963), com efeitos nas diversas esferas em que ela se manifesta, repercutindo na dotação de sentido e significado que fazemos de cada esfera da vida. O propósito da vida incorpora tanto princípios abstratos que versam sobre a compreensão da vida imediata e concreta (naturalismo), como da vida espiritual, onde estaria a dimensão ético-moral. Em decorrência, tais princípios se manifestariam de modo particular em propósitos na vida, em um esforço de diálogo com a experiência concreta de cada um, fazendo adaptações face a circunstâncias e tensões geradas entre propósitos ‘da’ e ‘na’ vida.

Teorias naturalistas do propósito da vida estão fortemente enraizadas no mundo físico e no método científico. Nisto estaria o sentido da vida: aumentar o conhecimento e o domínio do homem sobre o mundo. Teorias sobrenaturais, ao contrário, deslocam o propósito para o nível espiritual (ente divino). Em consequência, o propósito da vida seria realizar o plano de Deus para o universo e o aperfeiçoamento da alma imortal, em qualquer das esferas em que a vida se manifesta. Isto é, o propósito da vida repercutindo nos propósitos na vida. O naturalismo incorpora duas vertentes, uma mais moderada, que admite a conciliação da vida racional com um domínio espiritual, e uma mais radical, que a nega.

O naturalismo também adota duas facetas: a objetiva e a subjetiva (Metz, 2021). A faceta objetiva apoia-se em uma narrativa coletiva e compartilhada que nos engaja na busca do bom/certo (moral), da verdade (mediante questionamento) e da manifestação criativa (beleza). A faceta subjetiva funda-se na crença de que o significado da vida varia de pessoa para pessoa, pois dialoga com a existência concreta do dia a dia. No entanto, essa faceta vem perdendo sua força devido à urgência de problemas que estão crescentemente colocando em risco a vida do planeta e a própria existência humana. Tragédias ambientais por ação do homem, por exemplo, clamam por respostas de consenso sobre o propósito de vida que se traduzam em ações concretas na vida. Ainda que haja convergência de propósitos da vida (assegurar o futuro de novas gerações), conflitos e tensões oriundos de interesses econômicos geram disputas sérias e concorridas de propósitos na vida para salvar o planeta, ajudar vítimas de tragédias etc.

Por fim, no âmbito das teorias sobrenaturais ou transcendentais o propósito centra-se em uma dimensão metafísica que pode ter contornos variados a depender da tradição que a desenvolve. Contudo, em comum a elas, é que tais crenças fundamentam as condutas assumidas em sociedade, possuindo uma dimensão ético-moral. Um exemplo, são aquelas tradições na qual o propósito centra-se na alma e na figura de Deus. Nelas, a alma seria imortal, quer levando a um paraíso (transcendental), quer reincorporando-se a outro corpo na vida terrena (correntes do espiritismo). A alma é que daria sentido à luta contra a injustiça, por exemplo. Assim, a crença de que somos livres para fazer nossas escolhas nos aproximaria da condição de seres morais em busca de aperfeiçoamento.

Níveis e relações entre propósitos e significações

Uma conclusão provisória a que podemos chegar neste ponto é que o propósito, seja na ou da vida, traduz-se na forma de significações. Estas são compostas por sentidos e significados. Embora inter-relacionados, ambos os termos podem ser diferenciados. Em um esforço de alinhamento com o que fizemos em relação ao propósito, aqui também vamos fazer uma diferenciação em níveis.

Na psicologia, Vygotsky (1997) propôs uma análise sobre o processo de significação tomando a palavra como exemplo. Uma palavra, qualquer que seja, possui duas facetas inter-relacionadas. Primeira, ela possui um significado. Tal significado é social e compartilhado, e implica no seu uso entre as pessoas e em certas esferas, estando materializado em ferramentas como dicionários. É a faceta manifesta, mais palpável, por assim dizer, da significação. É adquirida via processos de socialização e internalização. Segundo Vygotsky, é a faceta decorrente da função comunicativa da linguagem que permite duas pessoas de compartilharem o conteúdo de suas consciências e serem compreendidas mutuamente. É a faceta do significado de uma palavra que permite esse compartilhamento.

Ainda de acordo com a proposta de Vygotsky (1997), sentidos são as apropriações dos significados por meio dos processos de socialização e internalização. É como um raio de luz atingindo uma superfície líquida: ele não invade a água de forma reta, mas sofre uma distorção, a depender da densidade do meio. Usando essa metáfora, algo similar ocorre no processo de significação: há uma internalização dos significados, não absorvidos de forma passiva e automática pela pessoa. Eles são reelaborados internamente (Coelho-Lima, Varela & Bendassolli, 2021; Pino, 2005; Zittoun & Gillespie, 2015), impulsionados por aspectos afetivos da pessoa, aspectos cognitivos prévios, experiências e expectativas pessoais.

Uma vez reelaborados, sentidos são então externalizados na cultura, e com o tempo, ajudam a produzir novos significados, que então serão compartilhados e retransmitidos, também via cultura, para outras pessoas, até mesmo outras gerações. Todo esse processo ocorre pelos sentidos serem o material da linguagem interna das pessoas, a qual é utilizada para guiá-las no mundo. Logo, ela diz menos sobre a compreensão de uma pessoa sobre os outros, e mais sobre a organização da consciência e das ações dessa pessoa.

Assim, no processo de significação teríamos sentidos e significados formando uma unidade. Por um lado, o significado é a “pedra fundamental” do sentido. É a partir do significado internalizado que a pessoa pode reelaborá-lo, revesti-lo de conteúdos de sua consciência/afetividade e transformá-lo em instrumento que guia sua ação. Por outro lado, os significados apenas cumprem sua função de comunicação quando conseguem também se traduzir em sentidos para as pessoas. Sem o seu uso e circulação social, sem atingir as consciências das pessoas nas suas relações interpessoais, determinados significados se esvaem. Essas relações interpessoais atualizam os significados a partir das elaborações coletivas realizadas pelas pessoas. Logo, trata-se de uma relação dialética no núcleo dessa unidade, que pressupõe constantes tensões, reelaborações, atualizações e superações.

Em suma, teríamos duas bases para delimitar a relação entre significações e propósitos. A primeira é o significado que se refere ao processo de produção simbólica, habilitando uma pessoa a operar com signos e símbolos e suas representações na linguagem. Significados são compartilhados e permitem a pessoa construir uma narrativa compreensiva sobre sua vida, em articulação direta com narrativas sociais de significação. Significados são também direcionadores coletivos, fazendo convergir ações individuais. A segunda base é a do sentido que dá a direção, funcionando como o motor que impulsiona as ações de uma pessoa rumo a um determinado fim, ainda que, no caso da vida, esse fim não seja exatamente um ponto fixo, mas um processo. Também se refere ao valor atribuído a um determinado aspecto da vida, a uma decisão, a um objeto ou evento etc. Em termos do processo de significação, sentido também é a razão pela qual uma pessoa decide e não renuncia a um curso de ação.

Podem ser valores ou crenças fortemente internalizadas e utilizadas como referência para a pessoa diante das infinitas possibilidades de significação sobre sua vida e seu trabalho. Portanto, é base sobre a qual os propósitos da vida (e do trabalho) são elaborados. Importante destacar que não é arbitrária a construção, seja do propósito da vida (processo coletivo) ou o propósito na vida (processo pessoal). Da mesma forma, não há uma ligação mecânica entre os elementos desse binômio – como vimos, eles podem não coincidir entre si, gerando tensões e reposicionamentos. Ainda mais, é importante negritar que a passagem do significado para o sentido é um processo essencialmente de tradução, de transformação de um no outro. Mais do que isso: é um processo ativo. Não se trata da transposição mecânica de um significado social para a esfera individual da consciência. É o enriquecimento, distorção, alargamento e adaptação desses significados ao todo já existente previamente na consciência dos sujeitos (Vigotski, 1997). Logo, a experiência do sujeito no aqui e agora social, na sua situação social de desenvolvimento, diante do seu meio presente é apropriado de maneira particular de acordo com a biografia dessa pessoa. Os significados são a pedra angular, mas não resumem o sentido. O meio abre as possibilidades de significação, mas não a efetiva. É necessária a participação ativa do sujeito, composto por sua história pessoal, para a elaboração desses sentidos.

Na perspectiva histórico-cultural, especificamente no âmbito das teorias da atividade, Leontiev (1978) propôs uma discussão que nos ajuda a aprofundar a análise de níveis de interação entre propósito, significações e trabalho. No contexto da obra desse autor, o trabalho é analisado como atividade. E a atividade deve ser diferenciada de outras duas dimensões: a dimensão das operações e a dimensão das ações. Operações são manifestações de esquemas operativos internalizados, consolidados e automatizados. Por exemplo, uma pessoa proficiente em digitação não precisa pensar como deverá posicionar suas mãos no teclado (e.g., QWERTY) e movimentar os dedos e braços, a cada vez que inicia um trabalho no computador. Se ela for digitar um texto, ela simplesmente vai traduzir, tão rápido e eficientemente quanto possível, seus pensamentos em caracteres na tela, via o uso coordenado de suas mãos e dedos. Em tempos remotos, obviamente, a mediação não era entre teclado e tela, mas entre caneta e papel.

O nível das ações, no entanto, compreende o conjunto de operações organizadas por segmentos concatenados visando a um objetivo circunscrito. Aproveitando o mesmo exemplo de escrever um texto, para o nível da ação, a pessoa precisa acessar informações de modo consciente. Não basta apenas saber teclar, mas também é necessário ter um esquema mental do que se vai escrever, e traduzir tal esquema em caracteres. Então, as ações envolvem o pensar, eventualmente fazer um rascunho do que será escrito, na sequência escrever o texto, revisar, imprimir, enviar por e-mail a um destinatário etc. Temos aqui uma série de ações articuladas e que, como resultado, vão produzir o texto final dirigido a um destinatário. Cada ação tem um objetivo; não é meramente o fazer automático de coisas. O objetivo de pensar sobre o conteúdo do texto é transmitir uma informação; o objetivo de enviar o texto a alguém é obter de um terceiro algum tipo de resposta, e assim por diante.

O propósito ou o sentido é reservado ao nível da atividade, que abriga o porquê de fazermos algo. Por que escrevemos um texto? Seria este uma carta de amor, endereçada a uma pessoa querida? Ou um artigo científico, destinado a uma revista de elevado fator de impacto? O nível da atividade envolve funções mentais superiores, como a imaginação, a criatividade, a interpessoalidade. Assim, a atividade implica incorporação de finalidades ou propósitos que extrapolam o autor de um texto, no exemplo da escrita de um texto. Aristóteles (2009) havia feito uma distinção basilar ao propor diferenciarmos movimentos e atividades. Movimentos são expressões factuais observadas entre o agente humano e seu contexto. Levantar um braço e mover as mãos ao ar são apenas isso: um braço e uma mão no ar. Quando consideramos a atividade, estamos nos domínios dos gestos, não dos atos em si – um braço e mão ao ar podem significar, para um interlocutor humano, um adeus ou uma saudação.

Uma conclusão importante a ser extrapolada dessa análise sobre as relações de níveis proposta por Leontiev (1978), na qual o sentido é relacionado à atividade, é a fragmentação observada em muitos arranjos de trabalho na atualidade. Voltaremos a este ponto na seção seguinte. Por ora, cumpre adiantar que é perfeitamente possível uma pessoa trabalhar sem vislumbrar o propósito do trabalho que realiza. Aqui podemos unir as duas discussões, isto é, a de atividade e sentidos e significados. É possível que alguém trabalhe em uma tarefa que não lhe demande profundas considerações sobre o propósito mais amplo de sua atuação. Para ela, pode ser apenas para obter um salário. Um trabalhador pode realizar sua tarefa apenas conhecendo os significados das diversas ações que ele tem de realizar no curso de seu dia de trabalho, sendo privado do acesso ao propósito mais amplo de seu fazer (no campo da gestão de pessoas, um binômio correlato que descreve essa situação seria o de opor uma atuação tática vs. uma atuação estratégica). Leontiev, neste ponto, usa o conceito de alienação para se referir a essa situação. Quer dizer, aliena-se o trabalhador que, muito embora opere normalmente suas tarefas (movimentos e ações), não entende, não pode ou não quer apreender o sentido daquela atividade – o sentido para si (internalização), mas também o sentido para a sociedade em que aquela atividade é realizada, seu valor social, i.e., o propósito do trabalho. Na próxima seção discorremos mais detidamente sobre esse argumento. Para isso, vamos analisar algumas tensões entre os níveis dos sentidos e significados, atividades e tarefas, trabalho e emprego.

O trabalho como esfera específica da vida: tensões e reposicionamentos

A Figura 1b, mencionada anteriormente, permite compreender que o trabalho pode tanto ser um objeto sobre o qual a pessoa indaga seu propósito mais amplo e abstrato, como um objeto específico que se manifesta em diversas possibilidades de realização (via tarefas, movimentos e ações). Na referida figura, destacamos o trabalho doméstico e o trabalho remunerado. Como já enfatizamos, a esfera do trabalho pode tanto influenciar como ser influenciada pelas outras esferas de vida. Em particular, dessa relação podem surgir tensões e reposicionamentos capazes de alterar os processos de significação (i.e., a dinâmica entre sentidos e significados) tanto do trabalho como da vida mais ampla. Nesta seção, vamos analisar algumas dessas tensões.

Uma primeira tensão refere-se à distinção entre trabalho e emprego. Na Figura 1b representamos algumas possibilidades de concretização do trabalho como uma esfera abstrata da existência, relacionada à transformação do homem e a da natureza. Vimos que o trabalho remunerado é uma dessas formas de materialização do propósito no trabalho. Por sua vez, o trabalho remunerado é, ele próprio, objeto de múltiplas manifestações. Talvez a mais discutida seja a sua materialização como emprego, cujo propósito no trabalho seria a mera subsistência, isto é, trabalho como fonte de obtenção de um salário. Nessa linha, o propósito no trabalho não seria outra coisa que a forma pela qual a maioria da população obtém uma fonte de renda necessária para sobreviver e sustentar as outras dimensões da vida (família, lazer, comunidade).

Nos anos de 1980, a situação do emprego, tal como o conhecemos a partir da Revolução Industrial, passou a ser alvo de discórdia. Rifkin (1995), por exemplo, havia profetizado o fim desse tipo de manifestação do trabalho, apregoando, em seu lugar, uma sociedade “sem trabalho”. Como resultado, uma discussão sobre a perda da centralidade do trabalho se sucedeu. Uma forma de capturar essa discussão gira em torno dos novos conceitos de carreira que passaram a emergir no período. Na sua base, a mesma premissa: o fim do trabalho (entendido como emprego), e a necessidade de as pessoas buscarem formas de se posicionar em um mercado cada vez mais dinâmico e instável, resultado de contínuas transformações organizacionais e cortes de níveis hierárquicos e empregos. Foi então que surgiram termos como carreiras sem fronteiras, carreiras portfólio, carreira metamorfose, entre outros (e.g., Bendassolli, 2009). A questão central é a seguinte: essas discussões sobre o “fim do trabalho” repercutiram (e ainda repercutem) na significação do trabalho e, consequentemente, em seu propósito?

Historicamente, Marx (2015) havia previsto que, à medida em que os desenvolvimentos tecnológicos se ampliassem, o trabalho morto passaria cada vez mais a ser realizado por máquinas. Em uma sociedade que tivesse superado a exploração do trabalho como base de sua produção, o tempo livre resultante desse processo liberaria as pessoas para que estas se dedicassem a outros projetos pessoais que não apenas os ligados ao trabalho como fonte de sobrevivência. Em outras palavras: outras esferas da existência poderiam florescer, em vez de serem presas da esfera instrumental representada pelo trabalho-como-emprego. Similarmente, poderíamos esperar que, com o “fim” dos empregos, nos moldes em que estes se desenharam ao longo da Revolução Industrial e décadas seguintes, presenciaríamos a uma intensificação da busca por propósitos de vida mais amplos, mais diversos. Na prática, porém, o que resultou da suposta “morte” da sociedade do trabalho (Arendt, 2018) foi uma ampliação das desigualdades sociais, uma intensificação da exploração do trabalhador. Outra grave consequência foi o aumento da segmentação da sociedade entre um enorme grupo de pessoas que vivem e dependem do trabalho (na sua forma remunerada, inclusive informal) e outro grupo de pessoas que têm maior liberdade de decisão, e material, para se dedicarem às relações entre trabalho e não-trabalho, ou seja, para se dedicarem ao desenvolvimento mais integrado entre as diversas esferas de significações para a vida.

Quando o propósito do trabalho se reduz apenas à obtenção de renda – como o foi historicamente na forma de trabalho assalariado/emprego ou nas formas autônomas de trabalho – ele está aprisionado em uma significação instrumental. Assim, há uma tensão entre a base material do trabalho e sua significação social. De um lado, a compreensão mais ampla sobre o propósito do trabalho (como forma de transformação da realidade e transformação profunda do próprio sujeito), e de outro sua negação em formas concretas de trabalho que, pelas suas características no capitalismo atual (e.g., intensificação e fragmentação), bloqueiam as possibilidades de entender e vivenciar o trabalho como atividade de transformação. Mudar de emprego constantemente pode ajudar em incrementos de propósito no trabalho, mas não necessariamente mudará a distância entre, de um lado, o trabalho como atividade de transformação de si e da realidade e, de outro, o conjunto de tarefas específicas que uma pessoa é obrigada a realizar em troca de um salário que, por vezes, apenas lhe garante a sobrevivência (Figura 2).

Figura 2
Propósito no Trabalho

Uma segunda tensão deriva da anterior e refere-se à relação entre trabalho como fim em si mesmo e trabalho como meio para outra coisa. Embora ambas sejam possíveis concomitantemente, talvez esta não seja a realidade da maioria dos trabalhadores submetidos a condições aviltantes de trabalho. Uma forma de ilustrar isso é sugerindo a hipótese de que o trabalho funciona como meio quando seu propósito é derivado de outra esfera de vida. Por exemplo, quando o trabalho se torna um meio para se atingir os objetivos da esfera da família (Figura 2). Quanto menos propósito (sentido e significado) uma pessoa experiencia em um trabalho em particular, i.e., emprego, ocupação ou profissão, menos ele terá saliência como fonte de significação. Como consequência, a pessoa pode tender a buscar outras fontes de significação, e neste ponto a família se destaca. A situação dos entregadores por aplicativo exemplifica bem a exacerbação desse processo na sociedade contemporânea. Oriundos das parcelas da classe trabalhadora que ocupam as piores formas de trabalho, esses entregadores veem no trabalho em plataforma uma chance de melhorar o seu ganho financeiro. Muitos não eram profissionais nessa área antes das plataformas digitais e narram a entrada nesse trabalho em busca de renda (Wolf et al., 2025). Se por um lado, essa situação é um dos extremos da perda do propósito no trabalho ligado à própria atividade, por outro, é um contexto explorado ativamente pelas próprias plataformas digitais. Como apontado por Coelho-Lima et al. (2023), o discurso central assumido por essas empresas é a promessa de melhoria na remuneração dos entregadores. Assim, de maneira direta, é negado tanto pelo próprio trabalhador, como pela empresa, qualquer sentido próprio da atividade, sendo assumido como explicitamente apenas o trabalho como meio, quanto o sentido e o significado para esse trabalho.

Porém, quando o trabalho é vivenciado como um fim em si mesmo ele tende a propiciar maiores condições para uma forte identificação por parte da pessoa, o que, a princípio, pode levar a uma maior saliência ou centralidade dessa esfera de vida. Nesse caso, o propósito do trabalho é apreendido em sua totalidade como realização pessoal. Diversos fatores podem estar envolvidos nessa situação. Por exemplo, o conteúdo da atividade sendo realizada e sua valorização social. O mundo das artes é um caso emblemático nesse sentido, particularmente as chamadas indústrias criativas (e.g., Bendassolli & Borges-Andrade, 2011). Trata-se de esferas para as quais o componente de criação tem um papel de destaque, com a possibilidade de arranjos de trabalho mais autônomos e diversificados. Não à toa, alguns autores têm proposto que as indústrias criativas são um protótipo contemporâneo do trabalho do artesão do passado e, por essa razão, funcionariam como um reservatório de possibilidades a serem exploradas por outras esferas econômicas mais intensivas em tecnologia, padronização e controle (e.g., Menger, 2009).

Uma terceira tensão envolve a dimensão do propósito e sentido no trabalho. Se retomarmos a distinção proposta por Leontiev (1978) na seção anterior, temos três níveis a considerar na vivência de trabalho concreto: o nível das operações, das ações e da atividade. O problema, e daí uma tensão, é que esses níveis podem ser segmentados em condições concretas de trabalho. Quer dizer, eles não necessariamente são vivenciados como uma totalidade, como partes de um mesmo conjunto. Como já destacamos naquela seção, é perfeitamente possível que nas condições atuais de trabalho a ênfase recaia sobre ações, e não necessariamente sobre atividades. O significado de um conjunto de ações é imanente a essas ações. Alguém que trabalha como chapeiro em uma rede de fast-food, por exemplo, sabe quais as ações necessárias para a realização de suas tarefas. Tais ações têm objetivos específicos como aquelas relacionadas ao preparo da chapa; do alimento propriamente dito; e também ações complementares de manutenção da chapa, após seu uso. Em uma situação concreta, a única coisa que um chapeiro, nessas condições, precisa saber é como executar essas ações. Não é preciso que ele reflita, deliberada e profundamente, sobre o sentido (i.e., o propósito) mais amplo dessas ações no interior de uma atividade – a alimentação de outras pessoas ou sobre a divisão social do trabalho como um fenômeno histórico e, potencialmente, mutável.

Para ilustrar melhor este último ponto, sobre a atividade ser relacionada à alimentação, compare agora esse chapeiro em outra esfera de sua vida – digamos, preparando a refeição de sua família. Aqui, no interior da família, sua atuação não se caracteriza como um conjunto de ações específicas, com tempos e movimentos predeterminados, mas de uma atividade compartilhada: o alimentar da família. O propósito assume um sentido bastante distinto do propósito de ações na situação anterior. Não à toa, comer ao redor da mesa, com toda a família, ainda é um retrato da sociabilidade em nossa cultura, mesmo que a invasão de fast foods tenda a romper esses rituais de compartilhamento significativo no interior da família.

Outras esferas econômicas – como a das indústrias criativas ou de esferas intensas em uso de conhecimento, podem ampliar nossa ilustração sobre o argumento em debate. Considere, por exemplo, o setor aeronáutico. Uma pessoa produzindo um avião, mesmo que inserida em algum processo produtivo fragmentado, talvez tenha clareza sobre o propósito de sua atividade, no sentido de um propósito social e de realização pessoal. Esse setor, e diversos outros, apresentam maior potencial para a vivência do trabalho como totalidade, isto é, como operação-ação-atividade e, portanto, como propósito do e no trabalho e da e na vida. Há um potencial maior de “vasos comunicantes” entre ambos. A mesma coisa talvez se aplicasse à indústria automobilística no passado, que tendia a organizar a sociabilidade de trabalhadores, suas famílias, comunidades e mesmo cidades inteiras. Tais esferas permitiam um senso de orgulho em torno dos bens produzidos. Muitas famílias surgiam em torno de tais indústrias, com trabalhadores casando-se entre si e desenvolvendo densas redes de amizade em torno do trabalho. Vida e trabalho tinham maior inter-relação entre si, sendo organicamente integradas na própria estruturação dessas indústrias.

Porém, as transformações tecnológicas afetaram diversas esferas de modo intenso, produzindo algumas das transformações mencionadas anteriormente em relação ao “fim dos empregos”. Mais importante são seus impactos sobre a dinâmica trabalho-vida e seu propósito. Quando um trabalhador de tais esferas percebe que seu trabalho pode se tornar obsoleto ou mesmo extinto, isso pode ter repercussões tão amplas quanto sobre o nível do propósito do trabalho, ou seja, no seu nível mais abstrato e fundamental. Por exemplo, o trabalhador pode se indagar sobre o propósito do trabalho no mundo atual e, sobretudo, sobre o lugar que ele ocupa na sua vida pessoal, especialmente se não consegue se ver exercendo outra atividade com sentido e significado. Como sintoma desse processo de erosão do propósito do/no trabalho e, ato contínuo, na/da vida, vemos diversas ações de trabalhadores apoiando políticos de ultradireita que lhes prometem devolver o “passado perdido”, reestabelecendo, assim, a harmonia propiciada por um arranjo de trabalho mais holístico em relação às esferas de vida.

Se usarmos não mais casos ilustrativos da indústria intensiva em trabalho intelectual, mas relacionados aos trabalhos tipicamente fordistas e tayloristas, a tensão discutida no parágrafo anterior fica mais óbvia. Tais casos são abundantes no mundo do trabalho atual. Por exemplo, qual o propósito da atividade de uma pessoa que trabalha cortando frangos em um frigorífico? Primeiro, rigorosamente falando, esta é uma indústria da morte. Como parte da atividade do trabalhador está o ato de matar, mesmo que, socialmente, o propósito dessa ação esteja legitimado pela sociedade. A justificação social da morte, contudo, não apaga o “trabalho real” (Clot, 1999) de matar.

Em segundo lugar, qual a “obra” que esse trabalhador verifica ao final, pela qual pode justificar seu propósito e, em última instância, seu sentido? Não há obra, exceto o empacotamento e distribuição de partes de animais mortos. A tensão nesse caso nos parece evidente entre o propósito no trabalho e o do trabalho. De um lado, o propósito no trabalho corresponde ao propósito/objetivo das ações cotidianas do trabalhador na linha de montagem (além de suas operações automatizadas). Um trabalhador treinado sabe como e o porquê de fazer uma ação X. De outro lado, quando recorremos ao propósito da atividade desse trabalhador, ou o propósito do trabalho em tela, emerge a questão da morte. Não obstante, associado à sua própria sobrevivência e, eventualmente de sua família.

No exemplo acima, a tensão entre propósito do e no trabalho é evidente. Tal tensão pode terminar gerando dissonâncias cognitivas e afetivas para o trabalhador. Uma forma de lidar com tais dissonâncias é destituir o trabalho de qualquer propósito que não o de gerar uma fonte de renda, seja para a sobrevivência mais imediata, ou para a construção dos projetos da família (formar um filho, por exemplo – e nisto estaria o sentido do trabalho). O fato do uso de um exemplo extremo (indústria da morte) não apaga a potencialidade desse tipo de tensão em muitos outros trabalhos, cujo sonho de utopistas é o de serem realizados por máquinas no futuro.

Retornando ao exemplo dos entregadores por aplicativo, aparentemente o que é operado do ponto de vista psicológico entre eles é o esvaziamento do propósito do e no trabalho vinculado à atividade. Assim, o ato de entregar em si, de mediar uma transação de compra de mercadoria, não é resgatado na determinação do propósito em nenhuma das duas dimensões. Diferentemente, o aspecto instrumental do dinheiro, é central tano no propósito do trabalho assumido nesse meio, como no propósito no trabalho.

Como conclusão, a tensão derivada dos desencaixes entre sentidos, significados e propósitos não é resolvida meramente transformando o propósito do trabalho a partir do propósito no trabalho. Se isso fosse possível, quer dizer, se fosse viável enfatizar o último, já que não podemos mudar o primeiro, haveria a possibilidade de inexistência do sofrimento no trabalho ou de adoecimento pelo trabalho. Como apresentado por outros autores (e.g., Bendassolli, 2024), a depressão causada ou associada com o trabalho pode ter profundas ramificações na tensão entre sentidos e significados. Ao mesmo tempo, é importante considerar a complexidade do processo de adoecimento no trabalho, tendo em vista que a dinâmica subjetiva também determina esse processo, não apenas as condições na qual o trabalho ocorre.

O modelo holístico desenvolvido por Lips-Wiersman e Morris (2009) aponta que a construção de sentido no trabalho pelo ser humano envolve uma complexa orientação valorativa. Ela se mostra expressa em duas dimensões, a primeira centrada na promoção do eu (desenvolvimento e expressão do potencial) ou no servir aos outros (servir aos outros e assegurar uma unidade identitária com os demais) e a segunda na relação entre o ser e o fazer.

Acrescenta-se, ainda, o limitado alcance de teorias como as do “enriquecimento de cargos”, tal como proposta, por exemplo, por Hackman e Oldhman (1976). A intenção aqui, embora louvável e necessária, é infundir significados no trabalho – ou seja, razões e motivos para que as pessoas encontrem sentido nele. É inegável que teorias e ações como essas têm seu mérito em melhorar o trabalho e suas condições. É preciso trazer para o primeiro plano a discussão sobre as tensões e os desencontros entre sentido e significado do trabalho. Tais tensões são provocadas por fatores internos à própria dinâmica dos processos de significação, mas também, e sobretudo, por condições concretas e materiais de trabalho em um momento de capitalismo ultra intensificado.

Implicações e reflexões práticas

As implicações do propósito como significação

Quais seriam, então, as implicações da associação que fizemos entre propósitos e significações? A primeira delas se manifesta no nível de uma teorização que cruza distintos campos na literatura – de um lado, sobre sentidos e significados e, de outro, sobre centralidade do trabalho. A segunda é a de apresentar algumas iniciativas concretas para se lidar com as tensões e reposicionamentos entre os distintos níveis do propósito do trabalho.

A primeira consequência é literal: definir propósito como um significado. Sendo um significado, a princípio valeriam os aspectos mencionados em seções anteriores sobre significados: são socializados, compartilhados, relativamente estáveis, e parte integral da cultura humana, com suas variações históricas e sociais. De modo mais específico, o propósito da vida e o propósito do trabalho seriam significados. Isso porque ambos possuem um caráter abstrato e genérico. Por serem significados, também estão condicionados ao conjunto das relações sociais de uma época. Um exemplo é o próprio significado e propósito do trabalho: enquanto no período medieval o propósito de trabalhar era o pagamento de tributos, sobrevivência imediata e expiação dos pecados, no capitalismo ele se desloca para a obtenção de renda, autoexpressão e autoafirmação – quer dizer, ele tende a incorporar os sentidos, reafirmando valores, preferências e expectativas do indivíduo.

Ao mesmo tempo que os significados se transformam dentro das relações sociais particulares em cada momento histórico e em cada comunidade, por outro ele é elaborado tendo como base uma realidade material. Isto é, ele produz a representação abstrata de um processo concreto. Isso é válido tanto para a vida como para o trabalho. Portanto, o propósito da vida e do trabalho são elaborados por uma sociedade inteira e suas comunidades particulares, tendo como base a organização concreta da vida e o processo de trabalho nessas sociedades e comunidades.

Uma segunda consequência dessa teorização é que propósito, como significado, é também internalizado e, como resultado, reelaborado individualmente, conforme sua ressonância com aspectos afetivos de uma biografia singular (i.e. sentidos). Disto decorre tensões e reposicionamentos constantes, pois uma pessoa pode ter uma interpretação e apreensão sobre o propósito de ou na sua vida que diferem ou não coincidem exatamente com os propósitos compartilhados em sua cultura ou grupo social. Ao mesmo tempo, o propósito da vida elaborado por uma sociedade/comunidade se torna incontornável na internalização de uma pessoa. Seja para negá-lo totalmente, negá-lo em parte, afirmá-lo, ou reelaborá-lo, ao final ele fará parte do propósito pessoal em alguma medida. Portanto, é inalienável uma dimensão pessoal de elaboração ativa sobre o sentido, logo, do propósito na vida e no trabalho. Essa situação tanto resulta na possibilidade de elaboração de sentidos antagônicos aos significados, como também da reelaboração desses significados a partir das produções individuais.

Em terceiro lugar, admite-se que o propósito pode ser interpretado como um tipo de significação de ordem superior. Em outras palavras, propósito articula, coordena ou mesmo fomenta o próprio processo de significação. Faz isso ao convergir as energias vitais de uma pessoa, sua cognição e seus afetos, rumo a uma direção no futuro. Isso quer dizer que o propósito da vida tem, quando internalizado, a função de direcionar nossas ações nessa direção. Nos termos discutidos aqui, quando revestido dos afetos, memórias, elementos existentes já na consciência dos indivíduos, converte-se em propósito na vida e tem o poder de mobilizar o indivíduo em sua globalidade. Dotar algo de sentido oferece um foco para o engajamento afetivo e cognitivo, além da sua convergência na realização de um objetivo.

Uma quarta implicação é a relativa independência entre os processos materiais que organizam a vida, a elaboração do propósito da vida e do propósito na vida. Ainda que ambas as dimensões estejam relacionadas, sejam ponto de partida uma para as outras, e constantemente se confrontem reciprocamente, os elementos dessa tríade guardam determinações singulares. Portanto, é possível que, em uma dada situação social, seja produzido um propósito da vida que contradiga o próprio processo material dessa sociedade. Ou mesmo um propósito na vida que vá em direção contrária. Um bom exemplo é o da crise socioambiental. De um lado, há a aceleração das mudanças climáticas que aumentam o risco de inviabilização da vida humana no planeta. De outro, a persistência do consumismo como forma de realizar um propósito da e na vida, o qual, paradoxalmente, aumenta esse mesmo risco. A tensão entre essas duas realidades materiais termina por se revelar, para as pessoas, em tensões e contínuas pressões por reelaborações, que exigem a proposição de iniciativas para mudanças.

Iniciativas e possibilidades

A primeira e mais importante iniciativa em relação à reflexão sobre o propósito do trabalho é o reconhecimento dos limites existentes para a consolidação de um propósito do e no trabalho que potencialize a existência humana. Quer dizer, há uma dissonância entre a base material do trabalho e sua significação. E a tentativa de superação exclusivamente individual dessa tensão deságua, inevitavelmente, no adoecimento. Assim, o horizonte ao qual precisamos mirar é o da possibilidade de elaboração de propósitos do e no trabalho que envolvam um agir coletivo. Essa não é uma observação secundária, afinal os dilemas do trabalho na atualidade são vivenciados coletivamente. Sinais de uma possível reação coletiva têm sido verificados em distintos momentos. Por exemplo, desde a denominada “grande resignação”, durante a pandemia de COVID-19, passando pelos movimentos de redução de carga horária, até as próprias ideias revolucionárias de supressão do modo explorador de trabalho.

Mas a construção de propósitos do e no trabalho que impulsionem a existência não está restrita apenas a um horizonte, isto é, ao futuro. Há diversas iniciativas no presente que produzem propósitos no trabalho e que tentam superar as incongruências entre a tríade processo de trabalho-propósito do trabalho–propósito no trabalho. Um exemplo é a Economia Solidária (Gaiger, 2013; Souza & Augusto Jr, 2020). Esse movimento tem, há séculos, fomentado um propósito do trabalho que se liga a um propósito da vida, na busca de reconhecer as necessidade e potencialidade humanas. No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (Caetano & Wanderley, 2022) tem demonstrado a força que uma tríade de processo-propósito do-propósito no trabalho que supere o trabalho explorado possui. Outro exemplo é observado no trabalho por conta própria. Mesmo que de maneira limitada, e pressionada pela forte determinação da ideologia neoliberal e do trabalho explorado, o que é colocado em pauta por diversos coletivos de trabalhadores precarizados (por exemplo, plataformizados) é um trabalho em que se busca contenção da violência e a heterogestão (Coelho-Lima & Bendassolli, 2018). Em alguma medida, também é um movimento de produção de novos propósitos do trabalho e da vida.

Para finalizar, gostaríamos de retomar nosso ponto de partida. A busca de propósitos é uma forma de driblar a angústia e o sofrimento derivado do reconhecimento da finitude humana. Buscamos continuamente dotar de propósito a vida, o trabalho e as demais esferas que circunscrevem a existência humana na Terra, ainda que por meio de sua negação. Como apontado na introdução desse ensaio, a relação entre sentido e propósito é bastante complexa e necessita ser abordada considerando a sua interdependência ao longo da trajetória de vida pessoal e socialmente compartilhada.

O propósito, que se traduz em significados e sentidos que orientam o agir humano em suas múltiplas facetas, encontra-se em contínuo e dispersivo movimento, que oscila entre um estranhamento crítico desafiador da realidade vivida (mundo concreto) e as utopias que idealizam um por vir nem sempre realizável (mundo projetado). O sistema social organizacional e, especialmente, aqueles profissionais que se dedicam à gestão de pessoas, necessitam reconhecer a importância de oferecer caminhos para a construção de propósitos do e no trabalho, que permitam a cada trabalhador aderir a propósitos coletivos baseado em valores que dignificam o trabalho, dando-lhe sentido e significado. Ao mesmo tempo, é fundamental ampliar as possibilidades de que trabalhadores encontrem sentidos comuns no que fazem, vindo a fortalecer compartilhamentos de modos de trabalhar que orientem um fazer com propósito na vida e no trabalho.

Referências bibliográficas

  • Arendt, H. (2018). The human condition Chicago: University of Chicago Press.
  • Aristotle. (2009). Nicomachean Ethics (D. Ross, Trad.). Oxford: Oxford University Press.
  • Bendassolli, P.F. (2024). Work and depression: a meaning-making perspective. Culture & Psychology, 30, 1-12. doi/10.1177/1354067X241226452
  • Bendassolli, P.F. (2009). Recomposição da relação sujeito-trabalho nos modelos emergentes de carreira. RAE - Revista de Administração de Empresas, 49, 387-400. doi.org/10.1590/S0034-75902009000400003
  • Bendassolli, P.F., & Borges-Andrade, J.E. (2011). Significado do trabalho nas indústrias criativas. RAE - Revista de Administração de Empresas, 51, 143-159. doi.org/10.1590/S0034-75902011000200003
  • Blanch, J.M. (2014). La juventud NINI, un agujero negro psicosocial. Revista Psicologia Organizações e Trabalho, 14 (4), 355-366. Recuperado em 25 de janeiro de 2024, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572014000400003&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572014000400003&lng=pt&tlng=pt
  • Caetano, G.F.C., & Wanderley, S.E.P.V. (2022). Autogestão do trabalho num assentamento do MST. Farol-Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, 9 (24), 13-59. doi.org/10.25113/farol.v9i24.6181
  • Clot, Y. (1999). La fonction psychologique du travail. Paris: PUF.
  • Coelho-Lima, F., & Bendassolli, P.F. (2018). A ideologia e o significado do trabalho para trabalhadores por conta própria. Estudos de Psicologia (Natal), 23 (3), 259-270. doi.org/10.22491/1678-4669.20180025
    » https://doi.org/10.22491/1678-4669.20180025
  • Coelho-Lima, F., Varela, V., & Bendassolli, P.F. (2021). Ideology, sense, and meaning: A theoretical-methodological approach. Culture & Psychology, 27 (1), 152-171. doi.org/10.1177/1354067X21993795
  • Coelho-Lima, F., Keppler, I.L., Leocádio, L.A., Bezerra, I.P.L., Barbosa, S.S.A.C., França, L.M.P., & Paes, M.L. (2023). A ideologia do trabalho e o autogerenciamento subordinado nas empresas-plataforma de entrega de mercadoria. Revista Brasileira de Sociologia, 11 (29), 151-176. doi.org/10.20336/rbs.959
  • Damon, W., Menon, J., & Bronk, K.C. (2003). The development of purpose during adolescence. Applied Developmental Science, 7, 119-128. doi.org/10.1207/S1532480XADS0703_2
  • Frankl, V.E. (1963). Man's search for meaning. New York: Washington Square Press.
  • Frigotto, G. (2024). Quatro décadas do MST: reforma agrária e educação. Revista Trabalho Necessário, 22 (47), 01-04. doi.org/10.22409/tn.v22i47.61701
  • Gaiger, L.I. (2013). A economia solidária e a revitalização do paradigma cooperativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 28, 211-228. doi.org/10.1590/S0102-69092013000200013
  • Hackman, J.R., & Oldham, G.R. (1976). Motivation through the design of work: test of a theory. Organizational Behavior and Human Performance, 16, 250-279. doi.org/10.1016/0030-5073(76)90016-7
    » https://doi.org/10.1016/0030-5073(76)90016-7
  • Hill, P.L., Burrow, A.L., O'Dell, A.C., & Thornton, M.A. (2010). Classifying adolescents' conceptions of purpose in life. The Journal of Positive Psychology, 5 (6), 466-473, doi.org/10.1080/17439760.2010.534488
  • Holmes, T.H., & Rahe, R.H. (1967). The Social Readjustment Rating Scale. Journal of Psychosomatic Research, 11 (2), 213-218. doi.org/10.1016/0022-3999(67)90010-4
  • Kashdan, T.B., & McKnight, P.E. (2009). Origins of purpose in life: Refining our understanding of a life well lived. Psychological Topics, 18 (2), 303-316. Retrieved from http://hrcak.srce.hr/48215
    » http://hrcak.srce.hr/48215
  • Kosine, N.R., Steger, M.F., & Duncan, S. (2008). Purposecentered career development: A strengths-based approach to finding meaning and purpose in careers. Professional School Counseling, 12, 133-136. https://doi.org/10.5330/PSC.n.2010-12.133
    » https://doi.org/10.5330/PSC.n.2010-12.133
  • Leontiev, A.N. (1978). Activity, consciousness, and personality. New Jersey: Prentice-Hall.
  • Lips-Wiersma, M., & Morris, L. (2009). Discriminating Between "Meaningful Work" and the "Management of Meaning." Journal of Business Ethics, 88 (3), 491-511. doi:10.1007/s10551-009-0118-9
    » https://doi.org/10.1007/s10551-009-0118-9
  • Marx, K. (2015). Manuscritos econômico-filosóficos São Paulo: Boitempo Editorial.
  • McKnight, P.E., & Kashdan, T.B. (2009). Purpose in life as a system that creates and sustains health and well-being: An integrative, testable theory. Review of General Psychology, 13, 242-251. https://doi.org/10.1037/a0017152
    » https://doi.org/10.1037/a0017152
  • Menger, P.M. (2009). Le travail createur. Paris: Gallimard.
  • Metz, T. (2021) The Meaning of Life. The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2021 Edition), Edward N. Zalta (ed.), Retrieved form https://plato.stanford.edu/archives/win2021/entries/life-meaning
    » https://plato.stanford.edu/archives/win2021/entries/life-meaning
  • Pino, A. (2005). As marcas do humano: às origens da constituição cultural da criança na perspectiva de Lev S. Vigotski. São Paulo: Cortez.
  • Rifkin, J. (1995). The end of work New York: Putnam Publishing Group.
  • Ryff, C.D. (1989). Beyond Ponce de Leon and life satisfaction: New directions in quest of successful ageing. International Journal of Behavioral Development, 12, 35-55. https://doi.org/10.1177/016502548901200102
    » https://doi.org/10.1177/016502548901200102
  • Souza, A.R., & Júnior, F.A. (2020). A economia solidária como resposta à crise pandêmica e fator de outro tipo de desenvolvimento. P2P e Inovação, 7, 8-25.
  • Vygotsky, L.S. (1997). The collected works of L.S. Vygotsky (Vol. 4, R.W. Rieber, Ed., M.J. Hall, Trans.). New York: Plenum Press.
  • Zittoun, T., & Gillespie, A. (2015). Internalization: How culture becomes mind. Culture & Psychology, 21 (4), 477-491. https://doi.org/10.1177/1354067X15615809
    » https://doi.org/10.1177/1354067X15615809
  • Weber, M. (1967). A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira.
  • Wolf, A.B., Coelho-Lima, F., Keppler, I.L.D.S., Ferreira, M.D.S., Dall'Asta, C., Florez, M.E.R., & Figueroa, M. (2025). 'Be Your Own Boss?'Explaining Variation in Worker Response to the Gig Economy's Ideology in the Global North and South. British Journal of Industrial Relations, 63, 01-15. https://doi.org/10.1111/bjir.12887
    » https://doi.org/10.1111/bjir.12887
  • Linguagem inclusiva:
    Os autores usam linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, demonstra respeito por todas as pessoas, é sensível a diferenças e promove oportunidades iguais.
  • Verificação de plágio:
    A O&S submete todos os documentos aprovados para a publicação à verificação de plágio, mediante o uso de ferramenta específica.
  • Disponibilidade de dados:
    A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.
  • Financiamento:
    Os autores agradecem o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela concessão de bolsa de produtividade para os dois primeiros autores do texto.
  • Editora Associada:
    Claudia Simone Antonello

Disponibilidade de dados

A O&S incentiva o compartilhamento de dados. Entretanto, por respeito a ditames éticos, não requer a divulgação de qualquer meio de identificação dos participantes de pesquisa, preservando plenamente sua privacidade. A prática do open data busca assegurar a transparência dos resultados da pesquisa, sem que seja revelada a identidade dos participantes da pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    Mar 2026

Histórico

  • Recebido
    05 Mar 2024
  • Aceito
    19 Ago 2025
location_on
Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia Av. Reitor Miguel Calmon, s/n 3o. sala 29, 41110-903 Salvador-BA Brasil, Tel.: (55 71) 3283-7344, Fax.:(55 71) 3283-7667 - Salvador - BA - Brazil
E-mail: revistaoes@ufba.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error