Open-access Análise de Modelos de Negócios Sustentáveis no Setor Industrial Brasileiro: Proposição de um Framework

Resumo

Apesar das inúmeras discussões na literatura sobre a integração de Modelos de Negócios Sustentáveis (MNS) nas empresas, particularmente no setor industrial, ainda há uma falta de um modelo unificado e aplicável para esses negócios. Portanto, para abordar essa lacuna, esta pesquisa tem como objetivo propor uma estrutura para o desenvolvimento de MNS no contexto do setor industrial brasileiro. Este estudo analisou práticas sustentáveis no setor industrial brasileiro com base numa amostra de 75 empresas industriais. O questionário utilizado consistia numa escala Likert de 5 pontos, e a sua estrutura foi desenvolvida em torno de arquétipos. Para a análise dos dados, foram empregadas a análise fatorial exploratória (AFE) e a análise fatorial confirmatória (AFC). Com base nessas análises, foi desenvolvido um modelo teórico composto por quatro fatores: Fator 1 – Relação com as partes interessadas; Fator 2 – Produção e consumo sustentáveis; Fator 3 – Minimização e reciclagem do uso de recursos; e Fator 4 – Criação de valor. A análise fatorial confirmatória mostrou que todos os indicadores têm coeficientes significativos (p < 0,001) e valores Z elevados, sugerindo que os dados se encaixam na estrutura teórica. Assim, o modelo proposto é válido e os fatores latentes são bem representados pelos indicadores. Esta pesquisa apresenta novas perspectivas sobre a aplicação do desenvolvimento do Modelo de Negócio Sustentável (MNS) no contexto da indústria brasileira, abordando a lacuna identificada. Como resultado, o estudo contribui para enriquecer o conhecimento científico e fortalece a aplicação prática desses modelos de negócios.

Palavras-chave
modelo de negócio sustentável; indústria; aplicação; estrutura; análise multivariada

Abstract

Despite the numerous discussions in the literature about the integration of Sustainable Business Models (SBMs) in companies, particularly in the industrial sector, there is still a lack of a unified and applicable model for these businesses. Therefore, to address this gap, this research aims to propose a framework for the development of SBMS within the context of the Brazilian industrial sector. This study analyzed sustainable practices in the Brazilian industrial sector based on a sample of 75 industrial companies. The questionnaire used consisted of a 5-point Likert scale, and its structure was developed around archetypes. For data analysis, exploratory factor analysis (EFA) and confirmatory factor analysis (CFA) were employed. Based on these analyses, a theoretical model was developed consisting of four factors: Factor 1 – Stakeholder Relationship; Factor 2 – Sustainable Production and Consumption; Factor 3 – Minimizing and Recycling Resource Use; and Factor 4 – Value Creation. The confirmatory factor analysis showed that all indicators have significant coefficients (p < 0.001) and high Z-values, suggesting that the data fit the theoretical structure. Thus, the proposed model is valid, and the latent factors are well represented by the indicators. This research presents new perspectives on the application of Sustainable Business Model (SBMS) development in the context of the Brazilian industry, addressing the identified gap. As a result, the study contributes to enriching scientific knowledge and strengthens the the practical application of these business models.

Keywords
sustainable business model; industry; application; framework; multivariate analysis

Introdução

O entrelaçamento entre indústria e sustentabilidade tem se tornado um ponto crucial de discussão no cenário empresarial contemporâneo e para o conhecimento científico. À medida em que o mundo enfrenta desafios ambientais, as empresas estão sendo impelidas a redesenhar os seus modelos de negócios (MN) para incorporar práticas que contribuam positivamente com o meio ambiente e a sociedade. Diversas motivações internas e externas conduzem as empresas a reavaliar o seu papel, como as pressões externas exercidas pelas partes interessadas para a redução do impacto ambiental (Preghenella and Battistella, 2021).

A adoção da sustentabilidade requer a modificação de práticas ou do modelo de negócios. Nesse contexto, para que as empresas adotem uma estratégia sustentável, é essencial redesenhar a proposta de valor e, assim, fazer a transição de um modelo de negócios convencional para um modelo centrado na sustentabilidade (Preghenella and Battistella, 2021).

As definições do modelo de negócios sustentável (MNS) estão alinhadas no que concerne a proposição de valor sustentável (ambiental, social e econômico) para os stakeholders, considerando o meio ambiente e a sociedade como principais partes interessadas (Bocken et al., 2014). Shakeel et al. (2020) complementam que o modelo de negócios sustentável integra a visão de múltiplas partes interessadas e busca a criação de valor (monetário e não monetário) e possui uma perspectiva de longo prazo.

Esse processo de transição do modelo de negócios tradicional para o MNS requer a modificação das práticas da empresa. Bocken et al. (2014) propõem um conjunto de arquétipos para o modelo de negócios sustentável, os quais podem ser adotados individualmente ou de forma integrada. Posteriormente, Ritala et al. (2018) revisaram esse modelo testando-o empiricamente em empresas que fazem parte do Standard & Poor's 500 (S&P500).

Embora a literatura tenha avançado nas discussões sobre o MNS sob diferentes perspectivas, após uma década do estudo de Bocken et al. (2014) ainda não há um modelo unificado (Karuppiah et al., 2023). Assim, as pressões exercidas pelos stakeholders, a emergência ambiental e o cumprimento de normativos exigem um novo posicionamento das empresas, especialmente no setor industrial.

Esse cenário se torna ainda mais desafiador em indústrias localizadas em países emergentes, com desafios complexos e que não são encontrados em países desenvolvidos (Quashie et al., 2024). Os autores Hluszk et al. (2024) ressaltam em seu estudo sobre indústrias latino-americanas, inclusive no Brasil, alguns pontos que demonstram um baixo nível de materialidade e apresentam desafios para sociedade. Como principais achados, os autores mencionam a negligência em questões sociais, a fase inicial em estudos que quantifiquem os seus impactos ambientais, porém, retratam a adesão fortemente ao conceito e temática de ESG.

As empresas de manufatura são consideradas altamente poluidoras, sendo responsáveis por cerca de 30% das emissões totais (Maldonado-Guzmán and Garza-Reyes, 2020). Embora a literatura apresente um conjunto de categorizações como os 9 (nove) arquétipos (Bocken et al., 2014; Ritala et al., 2018) e a taxonomia que reúne 45 (quarenta e cinco) padrões de MNS (Lüdeke-Freund et al., 2018), o setor industrial precisa de uma análise holística sobre o MNS. Muitas empresas ainda encontram dificuldades em vista da falta de clareza acerca do MNS (Karuppiah et al., 2023). Nesse sentido, esses autores propõem algumas lacunas de pesquisa sobre o tema, levando ao seguinte questionamento: Como pode ser estruturado um framework de referência para desenvolver Modelos de Negócios Sustentáveis (MNS) no contexto industrial brasileiro? Deste modo, a pesquisa tem como objetivo propor um framework para o desenvolvimento de MNS no contexto industrial brasileiro.

Nessa perspectiva, surge a necessidade de explorar novos modelos de negócios industriais que não só promovam o crescimento econômico, mas que também assegurem a sustentabilidade ambiental e social, posicionando o setor industrial como ator principal nessa transição. Adicionalmente, a pesquisa contribui com o papel da indústria nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), especificamente o ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura (Martins et al., 2020).

O estudo está estruturado em cinco seções. Na introdução foi apresentada a contextualização da pesquisa. A segunda seção apresenta o embasamento teórico. Em seguida, detalha-se o método do estudo na seção 3. Os resultados e discussões são explorados na seção 4. Por fim, apresenta-se as considerações finais e implicações da pesquisa.

O modelo de negócio sustentável e a importância da sustentabilidade no contexto do setor industrial brasileiro

O conceito de modelo de negócios se desenvolveu de forma expressiva e contínua a partir da década de 1990 (Ghaziani and Ventresca, 2005; Taran et al., 2015) e ganhou consenso na literatura, no geral, como o meio pelo qual uma empresa propõe, cria, entrega e captura valor com o intuito de gerar receitas e obter vantagem competitiva (Chesbrough and Rosenbloom, 2002; Richardson, 2005; Taran et al., 2015).

A inovação foi integrada ao conceito posteriormente (Vils et al., 2017) e outras ferramentas passaram a ser propostas para o desenvolvimento do campo, como o Business Model Canvas que permitiu o planejamento, organização e criação do modelo de negócios por meio de nove elementos: proposta de valor, segmentos de clientes, relacionamento com os clientes, canais, parceiros-chave, atividades-chave, recursos-chave, estrutura de custos e fluxos de receita (Osterwalder and Pigneur, 2010).

A integração de novas abordagens ao modelo de negócios proporcionou que a literatura evoluísse para uma perspectiva em que os aspectos econômicos, ambientais e sociais da sociedade pudessem ser considerados, o que permitiu que o conceito de modelo de negócios sustentável fosse desenvolvido e discutido no meio acadêmico (Shakeel et al., 2020; Preghenella and Battistella, 2021).

Lüdeke-Freund e Dembek (2017) discutiram essa temática como um campo emergente e integrador, que depende e, ao mesmo tempo, vai além de campos já estabelecidos, levando em consideração o seu processo de institucionalização nas esferas acadêmica, industrial e governamental, a partir do avanço nos aspectos de crenças e conceitos básicos específicos, recursos e ferramentas orientadores da pesquisa e a prática, autoridades promotoras e a comunidade de pesquisadores e profissionais.

Nesse contexto, outras concepções passaram a compor essa discussão, como o modelo de negócios circular (Lewandowski, 2016; Lüdeke-Freund et al., 2019); o modelo de negócios do sistema produto-serviço (Reim et al., 2015; Yang and Evans, 2019) ou com foco na digitalização (Parida and Wincent, 2019; Teixeira and Tavares-Lehmann, 2021).

De acordo com Geissdoerfer et al. (2018a), os modelos de negócios sustentáveis devem manter uma perspectiva de longo prazo e incorporar uma gestão proativa de múltiplas partes interessadas para a criação de valor monetário e não monetário. Para Preghenella e Battistella (2021), é essencial que modelos de negócios orientados para a sustentabilidade integrem a proposição, entrega e captura de valor sustentável, sendo estes econômicos, ambientais e sociais, além do engajamento com os stakeholders nos negócios da empresa, visando sua prosperidade no longo prazo.

Em consonância com a evolução desta temática, Bocken et al. (2014) identificaram oito arquétipos dos modelos de negócios sustentáveis, quais sejam: (1) maximizar a eficiência material e energética; (2) fechar ciclos (loops) de recursos; (3) substituir por processos renováveis e naturais; (4) entregar funcionalidades em vez de propriedade; (5) adotar papel de liderança; (6) incentivar a suficiência; (7) adaptar para a sociedade e meio ambiente e (8) desenvolver soluções sustentáveis em escala.

Ritala et al. (2018) avançaram na proposta inicial dos arquétipos, dividindo-os nas categorias ambiental, social e econômica, e ampliando a categorização com a adição do arquétipo (9) criação de valor inclusivo, que abrange a necessidade existente da inclusão de segmentos não abordados anteriormente e inclui tendências como o crescente número de modelos peer-to-peer e de compartilhamento.

Os arquétipos representam um esforço inicial de ampliação da pesquisa relacionada a MNS e possibilitou a identificação de temas emergentes na área, como a conscientização da adoção de MNS, o papel do avanço da tecnologia e o nível de inovação nesse processo. De modo geral, eles fomentam uma linguagem comum de conexão entre a pesquisa e a prática, uma vez que descrevem agrupamentos de mecanismos e soluções para o MNS. Ademais, as organizações podem utilizar os arquétipos, isoladamente ou combinados, como uma ferramenta de construção de modelos de negócios sustentáveis ou para a modificação de MNS existentes (Bocken et al., 2014; Ritala et al., 2018).

Geissdoerfer et al. (2018a) entendem que os arquétipos propostos por Bocken et al. (2014) e ampliados por Ritala et al. (2018) representam estratégias orientadoras do processo de inovação de modelos de negócios sustentáveis. Shakeel et al. (2020) observam que esta classificação representa um ponto de partida interessante para a integração na inovação sustentável no MNS.

Beard e De Giacomo (2025) reconhecem que os arquétipos de modelos de negócios sustentáveis propostos por Bocken et al. (2014) constituem uma das principais contribuições teóricas e práticas para estruturar a criação de valor sustentável, posteriormente reforçados pela aplicação empírica de Ritala et al. (2018), que demonstraram sua utilidade como ferramenta de análise comparativa em larga escala. Partindo desse modelo, os autores analisam a prevalência dos diferentes arquétipos em pequenas e médias empresas, evidenciando que, embora tenham se consolidado como uma base relevante para a pesquisa e a prática, os arquétipos apresentam, limitações em capturar a diversidade e a evolução dos MNS. Assim, o estudo sugere a necessidade de avanços conceituais e da formulação de novos modelos capazes de refletir melhor as dinâmicas contemporâneas de sustentabilidade, ao mesmo tempo em que valoriza a contribuição fundamental dos arquétipos como ponto de partida.

Por meio do avanço dos arquétipos iniciais de MNS propostos por Bocken et al. (2014) e atualizados por Ritala et al. (2018), a literatura vem apresentando novas abordagens que complementam e expandem essas contribuições. Breuer et al. (2018) propõem princípios que orientam a integração da sustentabilidade nos MN, critérios que servem para avaliar seu impacto ambiental, social e econômico e ferramentas que oferecem métodos práticos para a sua concepção e implementação. Geissdoerfer et al. (2018b) mostram como MNS e cadeias de suprimentos podem ser integrados para viabilizar a Economia Circular (EC). Desse modo, os autores contribuem ao sugerir uma estrutura conceitual que conecta decisões de design de MN com práticas de gestão de cadeias de suprimento, de modo a fechar ciclos de recursos, reduzir desperdícios e gerar valor ambiental, social e econômico. Lüdeke-Freund et al. (2018) desenvolvem uma taxonomia com 45 padrões de MNS distribuídos em cinco categorias principais de criação de valor e 11 grupos, apoiando a inovação orientada para a sustentabilidade. Gao e Li (2020) aplicam um framework ao setor de bike-sharing, evidenciando a adaptação de MNS em indústrias emergentes. López-Nicolás et al. (2021) exploram modelos inovadores voltados à sustentabilidade, de modo a apontar caminhos para a transformação empresarial por meio de processos de inovação. E, por último, Agwu e Oftedal (2025) propõem uma nova abordagem que integra a teoria dos paradoxos à inovação em MS, mostrando como gerar valor sustentável ao mesmo tempo em que se afastam de práticas empresariais insustentáveis. Em conjunto, esses estudos demonstram como o campo tem se diversificado, consolidando abordagens mais contextuais, aplicadas e integrativas.

Ogrean e Herciu (2020) se posicionam de forma distinta em relação aos estudos que buscam ampliar os MNS por meio de novos padrões, frameworks e aplicações. Em vez de avançar na modelagem, os autores desenvolvem uma crítica construtiva à utilização dos arquétipos como referencia predominante no campo, argumentando que essas estruturas – embora úteis para organizar e orientar os modelos – limitam o entendimento da sustentabilidade a abordagens normativas e funcionalistas. Assim, os autores propõem uma reorientação epistemológica, centrada em uma perspectiva ética global, que considera os MNS como construções contingentes, contextuais e multiníveis, capazes de responder aos desafios complexos e dinâmicos da sustentabilidade contemporânea. Trata-se, portanto, não de rejeitar os arquétipos, mas de evidenciar seus limites enquanto base conceitual dominante e indicar caminhos para uma evolução teórica mais crítica e integrativa no campo.

Nessa perspectiva, Abdelkafi et al. (2023) analisam as estruturas baseadas em padrões de modelos de negócios sustentáveis e argumentam que a mera combinação de padrões econômicos, ambientais e sociais não garante, por si só, a construção de MNS. Para além dessa limitação, os autores introduzem o conceito de “modelos de negócios verdadeiramente sustentáveis”, com base na teoria da contingência e dos sistemas e, propõem um modelo para MNS verdadeiramente sustentáveis, composto por três níveis: (i) a coerência interna do modelo de negócios enquanto sistema; (ii) o sistema mais amplo em que ele opera (delimitação de usuários/clientes e cobertura geográfica); e (iii) os fatores de contingência internos e externos que variam no tempo. O modelo orienta uma verificação sequencial e a revisão contínua do MNS, deixando claro que combinar padrões é condição necessária, porém não suficiente para alcançar a verdadeira sustentabilidade.

No que tange ao contexto industrial, tem-se que, inicialmente, as empresas desse segmento adotaram estratégias reativas em relação ao desenvolvimento sustentável, muito por força da regulamentação e da política. Em contraponto a este quadro, com o passar dos anos, foi possível observar que muitas empresas passaram a empregar medidas proativas direcionadas à sustentabilidade. É fundamental compreender que é necessário proporcionar valor sustentável a uma ampla gama de partes interessadas, sobretudo, associadas ao contexto industrial. Estas, por sua vez, devem abrir os seus horizontes de pensamento para enfrentar os desafios ambientais, sociais e econômicos que a sociedade vive. Corroborando com essa visão, a pesquisa científica sobre modelos de negócios sustentáveis tem apresentado um aumento constante no período recente (Agwu and Bessan, 2021).

De maneira geral, ao buscar um contexto de negócios que contemple a sustentabilidade, as ações tomadas pelas empresas implicam, de certa forma, em algum tipo de influência entre si, ou seja, umas nas outras, o que representa um desafio para o equilíbrio das dimensões ambientais, sociais e econômicas. As diferentes abordagens acerca do tema modelos de negócios sustentáveis na literatura resultam em certa confusão em boa parte das organizações dispostas a se aprofundar nesse processo. Estudos emergentes com enfoque na indústria podem contribuir para dirimir esse quadro (Agwu and Bessan, 2021).

Com isso, surgem estudos de casos em diversos setores industriais, principalmente em países desenvolvidos. Pode-se citar o estudo dos autores Sah e Hong (2024) realizado em uma indústria de açúcar em Taiwan que identificou desafios e oportunidades associados ao MNS que inclui a economia circular. Como desafios os autores citam a complexidade das cadeias de suprimentos, a falta de regulamentações e diretrizes padronizadas e a necessidade de colaboração dos stakeholders e como oportunidades, trazem a inovação e o desenvolvimento e implantação de novas tecnologias sustentáveis e a abertura de novos mercados voltados para produtos circulares.

Outro exemplo é o estudo realizado pelos autores Arı, e Dursun (2024) que criaram uma estrutura de aplicação para avaliar os modelos de aeronaves da indústria de aviação, tendo em vista que o setor de transportes é um dos mais poluentes e enfrenta desafios na redução de emissão de gases. Desse modo, a pesquisa traz a necessidade do setor de encontrar um equilíbrio entre uso da mobilidade, crescimento econômico e questões sustentáveis. Logo, esses estudos mostram que até mesmos em países desenvolvidos ainda existem inúmeros obstáculos enfrentados, assim como, trazem os principais benefícios que a adoção de MNS pode trazer para essas indústrias.

A adoção de modelos de negócios orientados para a sustentabilidade está em uma fase relativamente inicial nos países em desenvolvimento e a comunidade industrial desses países enfrenta muitas dificuldades em relação a essa implementação. Por este motivo, países emergentes devem receber um olhar prioritário no que diz respeito ao desenvolvimento da pesquisa e da prática de MNS. Essa ênfase pode contribuir significativamente para o atingimento dos ODS e o papel das inovações relacionadas ao MNS pode favorecer a indústria a avançar nessa temática (Karuppiah et al., 2023).

Neste cenário, os avanços associados à Indústria 4.0 (I40) e a forma como a inovação pode contribuir para tal estão ganhando mais popularidade por parte da academia, dos profissionais envolvidos e do governo. A integração dos paradigmas de sustentabilidade se torna muito importante neste contexto (Khan et al., 2023). A convergência das tecnologias digitais contemporâneas e da inovação na Indústria 4.0 pode contribuir positivamente para a criação de valor industrial sustentável, aproximando ainda mais as dimensões ambientais, sociais e econômicas nesse segmento (Bonilla et al., 2018).

Os estudos acerca da integração da Indústria 4.0 e a sustentabilidade tem avançado recentemente, contemplando investigações como a importância das tecnologias que englobam a I40 e incorporam inovação de processos verdes para o desempenho da sustentabilidade (Liu and De Giovanni, 2019); as melhorias tecnológicas provenientes da I40 que aumentam a eficiência energética (Chen et al., 2021); os tipos de inovação sustentável aberta baseada nos preceitos da I40 (Mubarak et al., 2021); e as tecnologias digitais que auxiliam a inovação aberta (Adamides and Karacapilidis, 2020).

Khan et al. (2023) revisaram sistematicamente a literatura para identificar os tipos de inovações que a I40 possibilita e a forma como elas impactam nos aspectos da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável. Os autores apontaram evidências importantes sobre como os MNS podem contribuir para que tais inovações e impactos sustentáveis sejam positivos e transformadores, como a utilização de tecnologia digital no realinhamento da proposição, entrega e captura de valor de uma empresa da indústria de resíduos em busca de métodos sustentáveis de operação, o que acrescenta valor econômico à reciclagem, promovendo a recuperação de materiais não biodegradáveis e apoiando a comunidade local com inovação social.

O cenário organizacional brasileiro ainda é pouco desenvolvido em questões de sustentabilidade, mas alguns avanços são observados nos últimos anos. As empresas brasileiras ainda possuem dificuldade em integrar práticas sustentáveis em seus sistemas de gestão (Cazeri et al., 2018; Martins et al., 2020). Esse ponto tem sido foco de pesquisadores, formuladores de políticas e tomadores de decisão (Cagno et al., 2019).

Martins et al. (2020) analisaram a percepção de especialistas em relação às contribuições do setor industrial brasileiro para o desenvolvimento sustentável. Os autores apontam que o Brasil vem realizando algumas ações, sejam estas esporádicas ou planejadas, de forma mais avançada, com o aumento da produtividade e a modernização tecnológica, ou em ações menos avançadas, mais ligadas ao estímulo ao consumo sustentável e à negociação com pequenas empresas.

Estudos inicias, como o de Morioka e De Carvalho (2015), analisaram o setor industrial brasileiro com base nos arquétipos de MNS de Bocken et al. (2014), realizando estudos de caso em cinco empresas. Os resultados mostraram que, embora cada empresa apresentasse predominância de um arquétipo, elas não estavam restritas a um único modelo, o que evidencia a complexidade e a adaptabilidade dos MNS no contexto brasileiro. Estudos mais recentes, como o de Maffini (2023) que aplicou os arquétipos de Bocken et al. (2014), juntamente com as atualizações propostas por Ritala et al. (2018), em uma abordagem quantitativa, identificou uma relação positiva entre inovação sustentável e o grau de inovação nos modelos de negócios das empresas industriais brasileiras. Assim, o setor industrial brasileiro não apenas adapta os arquétipos internacionais às suas particularidades, mas também evidencia o potencial de expansão e limites de sua aplicabilidade. Dessa forma, as evidências indicam oportunidades para pesquisas futuras que explorem abordagens diferentes e adotem técnicas quantitativas mais robustas do que as utilizadas até então.

Nesse sentido, outros estudos avançam ao investigar como o setor industrial brasileiro vem incorporando práticas de inovação sustentável em seus modelos de negócios. Kneipp et al. (2021) mostram que empresas com maior grau de inovação em seus modelos de negócios tendem a adotar práticas sustentáveis de forma mais estratégica e sistêmica, ainda que condicionadas a pressões competitivas e estruturais. Já Kneipp et al. (2023) evidenciam que a internacionalização amplia esse processo, impulsionando a adoção de práticas mais robustas em produtos, processos e estruturas organizacionais. Esses achados sugerem que, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios para consolidar a sustentabilidade em sua gestão, o setor industrial brasileiro vem avançando na implementação de soluções sustentáveis frente às especificidades institucionais, estruturais e sociais de contextos emergentes.

Após essa breve fundamentação teórica acerca do modelo de negócios sustentável e da importância da sustentabilidade no setor industrial, sobretudo, no contexto brasileiro, o próximo tópico discorre sobre os procedimentos metodológicos adotados no presente estudo.

Método

O presente estudo propõe a construção de um framework para modelos de negócios sustentáveis no contexto da indústria brasileira. Esta construção será realizada a partir de uma abordagem quantitativa de modo a garantir uma compreensão holística e detalhada do tema.

A etapa quantitativa envolveu a coleta e análise de dados referentes as práticas sustentáveis na indústria brasileira. Para isso, a amostra deste estudo foi selecionada a partir do banco de contatos criado através do grupo de pesquisa em Inovação e Sustentabilidade, que inclui 14.031 empresas industriais brasileiras de diversos setores. O instrumento de coleta de dados utilizado foi um questionário adaptado de Kneipp (2016), composto por uma escala ordinal, do tipo intervalar de cinco pontos (escala Likert) e dividido em quatro grandes blocos. Para esta pesquisa, foram analisadas apenas as variáveis do bloco três, que correspondem aos arquétipos de Bocken et al. (2014) e Ritala et al. (2018), conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1
Variáveis da pesquisa

O questionário foi disponibilizado para as empresas do banco de dados por meio do Google Forms entre o período de recorte de julho de 2020 a setembro de 2022. A amostra final consistiu nas empresas que efetivamente receberam, responderam e retornaram os questionários preenchidos corretamente, resultando em uma amostra final de 75 empresas.

Para a análise dos dados, foram utilizadas duas técnicas estatísticas de análise multivariada. Primeiro, foi utilizada uma abordagem de análise fatorial exploratória (EFA) para investigar a estrutura dos dados e identificar potenciais fatores subjacentes, uma vez que esta análise permite explorar as correlações entre um grande número de variáveis, agrupando-as em fatores. Posteriormente, a análise fatorial confirmatória (CFA) foi utilizada para validar e confirmar a estrutura fatorial identificada na EFA, seguindo as etapas de pesquisa mostradas na Figura 1. Este procedimento foi adotado para garantir a replicabilidade e robustez dos fatores identificados na análise exploratória (Hair et al., 2009).

Figura 1
Etapas da Pesquisa

Nesse sentido, as etapas para a elaboração da AFE seguiram as orientações descritas pelo autor Hongyu (2018). O que resultou em cinco etapas: (i) a amostra utilizada foi dimensionada com mais de 50 observações, considerada adequada para a análise. (ii) A avaliação inicial incluiu a verificação dos resultados dos testes de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e de (iii) Esfericidade de Bartlett para garantir a viabilidade da fatoração da matriz de dados. As Medidas de Adequação Amostral (MMA) foram calculadas para todas as variáveis, sendo que valores acima de 0,6 indicam maior adequação das variáveis para a análise fatorial (Hair et al., 2009).

Para avaliar a confiabilidade das escalas, empregou-se (iv) o coeficiente de consistência interna Alpha de Cronbach, cujos valores próximos de 1 indicam maior confiabilidade, tendo como limite inferior o valor de 0,70 (Hair et al., 2009). As cargas fatoriais e comunalidades foram determinadas utilizando (v) o método de Máxima Verossimilhança com rotação Varimax.

Desse modo, a presente pesquisa a partir dos métodos supracitados apresenta novas perspectivas acerca do desenvolvimento do MNS no contexto da indústria brasileira, enriquecendo o conhecimento científico e fortalecendo a prática desses negócios. Na próxima seção serão apresentados os resultados e discussões oriundos das análises dos dados.

Apresentação e discussão dos resultados

Nesta seção, apresentam-se os principais achados deste estudo, divididos em três tópicos principais: análise fatorial exploratória, análise fatorial confirmatória e finaliza com a proposta de um framework para modelos de negócios sustentáveis no contexto da indústria brasileira.

Análise fatorial exploratória

Conforme a Tabela 2, pode-se observar que o p-valor é menor que 0.001, o que implica na rejeição da hipótese nula. Desse modo, há uma correlação significativa entre as variáveis, indicando que a matriz de correlação não é uma matriz identidade. A rejeição da hipótese nula sugere que as variáveis são adequadas para a análise fatorial. Há correlações significativas entre as variáveis, justificando a aplicação de métodos de redução de dimensionalidade, como a análise fatorial. Assim, o Teste de Esfericidade de Bartlett indica que as variáveis têm correlações significativas entre si e são adequadas para a análise fatorial.

Tabela 2
Teste de Esfericidade de Bartlett

Para determinar a adequação da amostragem para a análise fatorial exploratória, foi calculada a Medida de Adequação de Amostragem de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO), conforme mostra a Tabela 3.

Tabela 3
Medida de Adequação de Amostragem de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO)

A partir desses dados, o valor de KMO global é 0.869, o que indica uma adequação de amostragem para a análise fatorial, ou seja, confirmando que a amostragem é adequada para a identificação dos fatores subjacentes. Com relação aos indicadores individuais, todos os valores de KMO estão acima de 0.7, o que sugere uma adequação aceitável da amostragem. Especificamente, indicadores como Var05 (0.937), Var07 (0.927) e Var08 (0.921) mostram uma excelente adequação.

A Tabela 4 apresenta as estatísticas de confiabilidade da escala medida pelo Alfa de Cronbach, um coeficiente de consistência interna que verifica a coesão entre itens de uma escala. Com isso, o coeficiente apontou o valor de 0.912, o que revela uma excelente consistência interna. Logo, os itens da escala medem de maneira consistente o mesmo construto subjacente, o que reforça a confiabilidade da escala utilizada. Isto significa que a escala é confiável e adequada para a pesquisa, sendo capaz de produzir resultados consistentes e replicáveis.

Tabela 4
Estatísticas de Confiabilidade de Escala

A Tabela 5 traz os pesos fatoriais das variáveis de pesquisa. Ressalta-se que a singularidade indica a variância de cada variável que não é explicada pelos fatores.

Tabela 5
Pesos fatoriais das variáveis de pesquisa

Baseado nos dados, foram identificados quatro fatores, cada qual com suas respectivas variáveis, correlacionadas a partir das cargas fatoriais. Sendo estes, respectivamente: Fator 1: Fortes influências são observadas em Var07 (Substituição de produtos por serviços), Var08 (bem-estar dos stakeholders), Var10 (integração comunitária e com os stakeholders) e Var11. (interação com stakeholders). Fator 2: Fortes influências em Var03 (cadeia de fornecimento), Var04 (ecoeficiência. prod./serv. menor recursos), Var06 (inovação em produtos e processos), Var09 (ações para consumo sustentável), Var14 (solsustent. benefícios socioambientais). Fator 3: Fortes influências em Var01 (eficiência energética), Var02 (eficiência hídrica), Var05 (reutilização e transformação de resíduos) Fator 4: Fortes influências em Var12 (mecanismos de compartilhamento) e Var13 (maxsustent. incubadoras e plataformas). A análise de singularidade revela que a maioria das variáveis tem baixa singularidade, o que indica que a maior parte da variância dessas variáveis é explicada pelos fatores extraídos, sugerindo que o modelo fatorial é eficaz em representar essas variáveis. No entanto, a variável 07 apresenta alta singularidade, indicando que uma grande parte de sua variância não é explicada pelos fatores, sugerindo que esta variável pode não ser bem representada pelo modelo fatorial, em razão desse resultado, optou-se por retirá-la do modelo. Ademais, este modelo indica que a rotação varimax ajudou a clarificar as cargas fatoriais, permitindo uma interpretação mais fácil das variáveis associadas a cada fator.

Diante os achados, construiu-se um modelo teórico acerca dos quatro fatores e o classificou conforme as variáveis dispostas em cada fator, sendo respectivamente, Fator 1: Relacionamento com os Stakeholders; Fator 2: Produção e Consumo Sustentáveis; Fator 3: Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los e Fator 4: Criação de valor.

Considerados como um ponto de partida para o MNS, as empresas podem utilizar os arquétipos de forma combinada como uma ferramenta para modificar o MN, impulsionando inovações sustentáveis (Boken et al., 2014; Ritala et al., 2018). Após a configuração inicial de Bocken et al. (2014), a proposta de Ritala et al. (2018) consolidou nove arquétipos, agrupados nas dimensões ambiental, social e econômica. Maffini (2023) aplicou o modelo baseado nos arquétipos desses autores em indústrias brasileiras e encontrou um efeito positivo e significativo entre as práticas de inovação sustentável e o MNS. No entanto, a consolidação de um framework no contexto brasileiro ainda é pouco explorada na literatura. No Brasil, o setor industrial vem implementando ações sustentáveis, algumas esporádicas e outras de forma planejada, no entanto com oportunidades de aprimoramento contínuo (Martins et al., 2020). Dessa forma, o MNS trata-se de uma forma ordenada para a consolidação do propósito sustentável.

Análise fatorial confirmatória

Após a criação de um modelo teórico através da análise fatorial exploratória, é necessário à sua validação. À vista disso, para testar se as relações entre as variáveis observáveis e seus fatores latentes são consistentes com o que se espera teoricamente, a Tabela 6 apresenta a análise fatorial confirmatória (AFC) dos pesos fatoriais. Assim, cada fator na tabela representa um construto teórico e os indicadores associados a esses fatores representam variáveis observáveis que se espera que sejam medidas desses construtos.

Tabela 6
Análise fatorial confirmatória dos pesos fatoriais

A análise fatorial confirmatória dos pesos fatoriais demonstrados acima, indica que todos os indicadores têm coeficientes significativos (p < 0.001) e altos valores de Z. Isso sugere que os dados suportam a estrutura fatorial teórica, confirmando que os indicadores são boas medidas dos fatores subjacentes. Logo, o modelo de medição é válido e os fatores latentes são bem representados pelos seus respectivos indicadores.

A fim de validar o modelo proposto, a análise fatorial confirmatória corroborou os seguintes fatores: Fator 1 – Relacionamento com os Stakeholders; Fator 2 – Produção e Consumo Sustentáveis; Fator 3 – Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los e Fator 4 - Criação de valor.

O Fator 1 – Relacionamento com os Stakeholders inclui os arquétipos “Adotar um papel de liderança garantindo o bem-estar dos stakeholders’ e ‘Reorientar o negócio para a sociedade/meio ambiente”, essenciais na proposição do MNS (Bocken et al., 2014; Ritala et al., 2018). No entanto, O ‘arquétipo 7 - Entrega de funcionalidade ao invés de propriedade’, baseado na premissa do sistema de produto-serviço (Product-Service System –PSS), não foi confirmado para o modelo estatístico utilizado nesta pesquisa, sendo retirado do modelo proposto. Esse aspecto pode ser parcialmente explicado pelo nível de maturidade da indústria brasileira em relação à sustentabilidade (Kolling et al., 2022). Em uma pesquisa no setor de máquinas agrícolas brasileiro, Kolling et al. (2022) constataram que as questões socioambientais não são prioridade para o setor, sendo que há obstáculos, especialmente culturais que sustentam esse comportamento. Assim, a ‘interface do cliente’ (Boons and Lüdeke-Freund, 2013) pode contribuir ao motivar os clientes a assumir a responsabilidade por seu consumo e estimular a mudança cultural por parte do consumidor.

O Fator 2, nomeado, Produção e Consumo Sustentáveis, diretamente associado ao ‘ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, incorpora práticas sustentáveis que beneficiam sociedade e meio ambiente, os quais são considerados stakeholders principais (Stubbs and Cocklin, 2008; Bocken et al., 2014).

O Fator 3 - Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los engloba um conjunto de práticas relacionadas ao aumento da eficiência hídrica e energética, além de processos de reutilização e transformação de resíduos em matérias-primas e/ou outros produtos. Essas práticas possuem um alinhamento direto com o conceito de economia circular (Ghisellini et al., 2016).

O Fator 4, nomeado Criação de valor, se refere ao compartilhamento de recursos, conhecimento, propriedade e geração de riqueza (Ritala et al., 2018). Embora essa prática não seja amplamente adotada por grandes corporações (Ritala et al., 2018), neste estudo revelou-se significativa no contexto brasileiro.

Portanto, no contexto industrial brasileiro, o modelo proposto por Bocken et al. (2014) e Ritala et al. (2018) apresentou um novo ajustamento das práticas nos fatores. Assim, pode-se inferir que o contexto/setor possui características específicas que influenciam nos resultados. Isso reforça a importância deste estudo para a literatura sobre o tema MNS.

A Figura 1 ilustra um modelo de equações estruturais (SEM), através de um diagrama de caminhos. Este diagrama é uma representação visual das relações entre os fatores latentes e seus respectivos indicadores, assim como as relações entre os próprios fatores.

O modelo inclui quatro fatores latentes, representados por círculos: RcoS (Relacionamento com os Stakeholders), PeCS (Produção e Consumo Sustentáveis), Maudrer (Minimizar a Utilização dos Recursos e Reciclá-los), e Cdv (Criação de Valor). As setas unidirecionais indicam as cargas fatoriais dos indicadores nos fatores latentes, enquanto as setas bidirecionais entre os fatores latentes representam correlações entre esses fatores.

Este diagrama confirma a estrutura fatorial teórica, mostrando como os indicadores se relacionam com os fatores latentes e a inter-relação entre esses fatores. A análise da significância dos coeficientes, como mostrada anteriormente, valida que os indicadores são apropriados para medir os construtos teóricos e que o modelo é estatisticamente significativo.

Além disto, esta análise fornece uma base prática para compreender como diferentes componentes do modelo de negócios interagem e influenciam uns aos outros, proporcionando insights valiosos para a melhoria e otimização das práticas de negócios na indústria.

Proposição de um framework para o modelo de negócios sustentável no contexto industrial brasileiro

Com base nos resultados das análises fatorial exploratória e confirmatória, bem como na literatura internacional sobre o tema, foi possível construir um framework para o MNS da indústria brasileira, conforme ilustrado na Figura 2. O framework integra quatro fatores principais, distribuídos entre as três dimensões da sustentabilidade: Relacionamento com os Stakeholders (dimensão social), Produção e Consumo Sustentáveis e Minimizar a Utilização dos Recursos e Reciclá-los (dimensão ambiental), e Criação de Valor (integração das dimensões econômica, social e ambiental). Cada fator é composto por indicadores específicos, validados empiricamente, fornecendo um modelo teórico capaz de avaliar e orientar melhorias na sustentabilidade da indústria brasileira.

Figura 2
Construto do Modelo de Negócios sustentável da Indústria Brasileira - Diagrama de Caminho

Este modelo não apenas oferece uma visão estruturada e empiricamente validada dos elementos que compõem um negócio sustentável, como também serve de base para pesquisas futuras e práticas gerenciais. A implementação desse framework pode auxiliar as indústrias a orientar suas estratégias de sustentabilidade de forma eficaz, promovendo um equilíbrio entre desempenho econômico, responsabilidade ambiental e impacto social. A seguir, os fatores e seus respectivos indicadores serão detalhados para melhor compreensão do modelo proposto.

Relacionamento com os stakeholders

O Fator 1 – Relacionamento com os stakeholders compreende as variáveis: Var08 (bem-estar dos stakeholders), Var10 (integração comunitária e com os stakeholders) e Var11 (interação com stakeholders). Sua principal contribuição para a transição de modelos tradicionais para MNS está em reposicionar e consolidar os stakeholders como coprodutores de valor, de modo que o desempenho organizacional deixa de estar restrito a clientes ou acionistas e passa a depender do bem-estar coletivo, da integração comunitária e da interação contínua entre todos os stakeholders. Desse modo, estudos anteriores como de Stubbs e Cocklin (2008), já apontavam que o sucesso organizacional está ligado ao bem-estar dos stakeholders em sentido amplo – incluindo sociedade e meio ambiente – reforçando que o planejamento estratégico deve incorporar objetivos sociais e ambientais como parte indissociável da criação de valor nos MNS.

Nesse sentido, torna-se crucial considerar todos os stakeholders – e não apenas os clientes – como parte do MNS (Lüdeke-Freund & Dembek, 2017). Freudenreich et al. (2020) ampliam a compreensão teórica ao defender que o modelo de negócios deve ser concebido como um portfólio de valores cocriados com múltiplos stakeholders. Complementarmente, Velter et al. (2021) demonstram que a integração multistakeholder em processos de inovação sustentável se beneficia de ferramentas de mediação que facilitam o alinhamento coletivo de responsabilidades e compromissos. Desse modo, considerado como característica fundamental, o engajamento dos stakeholders internos e externos exige princípios-chave de parceria, participação, comunicação e consulta (Goni et al., 2021). Em estudos mais recentes, essas perspectivas vêm ganhando ainda mais reforço e atenção, como Karuppiah et al. (2023), que enfatizam a necessidade de cooperação entre os stakeholders como elemento de viabilidade do MNS.

Assim, este fator evidencia que a sustentabilidade organizacional não se limita a práticas internas, mas está diretamente vinculada ao bem-estar dos stakeholders, à criação de mecanismos de interação e à integração comunitária, condições fundamentais para o alcance do resultado triplo (Bocken et al., 2014, Ritala et al., 2018) Adicionalmente, este fator contribui ao ressaltar a dimensão social – frequentemente negligenciada na literatura e de baixa aplicabilidade prática nas empresas (Scarpellini, 2021, Missimer & Mesquita, 2022, Annarelli et al., 2024) – ao demonstrar que o relacionamento com stakeholders internos e externos, enquanto coprodutores de valor, é eixo central para fortalecer esse pilar nos MNS.

Produção e consumo sustentáveis

O Fator 2 – Produção e Consumo Sustentáveis incorpora as variáveis: Var03 (cadeia de fornecimento) Var04 (ecoeficiência), Var06 (inovação em produtos e processos), Var09 (ações para consumo sustentável) e Var14 (soluções sustentáveis e benefícios socioambientais). Em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 9 e 12, que tratam respectivamente, da indústria, inovação e infraestrutura e do consumo e produção responsáveis, o fator reforça o papel da indústria como meio de produção inovador e responsável, capaz de estimular os clientes – seja por meio de processos, produtos mais inovadores e sustentáveis, ou canais ativos de comunicação – para fomentar um pensamento mais sustentável e resiliente, em que a conscientização emerge como ponto de partida para fortalecer a relação entre empresas e consumidores rumo à sustentabilidade. Nessa perspectiva, as indústrias podem adotar inovações sustentáveis nos três níveis – produto, processo e organizacional – e desenvolver estratégias de marketing sustentável por meio de uma comunicação externa capaz de sensibilizar os clientes e estimular a produção e consumo sustentáveis (Klewitz & Hansen, 2014, Bezerra et al., 2020).

Estudos recentes reforçam esses insights, mostrando que envolver consumidores como participantes ativos em práticas de sustentabilidade não apenas reduz a diferença entre intenção e comportamento de consumo sustentável, mas também fornece subsídios para que as empresas inovem em produtos, processos e estratégias de marketing, utilizando tecnologias que aumentem a eficiência e promovam soluções mais sustentáveis, fortalecendo simultaneamente a conscientização e engajamento dos consumidores (de Oliveira et al., 2022). Nesse contexto, a disponibilidade de produtos ecológicos, embalagens sustentáveis e percepção de preço acessível, por exemplo, estimulam a intenção de consumo consciente, sendo fatores relevantes para a mudança cultural necessária (Yadav et al., 2024). Desse modo, a própria produção exerce papel central no processo de conscientização, uma vez que a oferta de produtos sustentáveis, o uso de embalagens ecológicas e a definição de preços acessíveis não apenas ampliam as opções de escolha, mas também funcionam como mecanismos estratégicos e educativos que estimulam o consumo consciente e aceleram a mudança cultural necessária.

Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los

O Fator 3 – Minimizar a utilização dos recursos e recicla-los integra as variáveis Var01 (eficiência energética), Var02 (eficiência hídrica) e Var05 (reutilização e transformação de resíduos). Esse fator está alinhado aos princípios da economia circular e reforçar a capacidade da indústria de gerar valor ao longo da cadeia, por meio de práticas sustentáveis que fortalecem a sustentabilidade nas operações, promovem inovação em processos e produtos, e consolidam estratégias capazes de impulsionar a transição para modelos de negócios mais circulares. Sendo assim, práticas como a logística reversa, a transformação de resíduos em subprodutos e o uso de tecnologias para otimização do consumo de energia e água são fundamentais para a transição para um MNS. Essas abordagens estão alinhadas com os princípios de EC, que visam eliminar o desperdício e promover a circulação contínua de materiais e produtos, baseados nos princípios fundamentais (3R) de EC: reduzir, reutilizar e reciclar (Ghisellini et al., 2016). Nesse sentido, Galvão et al. (2024) destacam a importância da eficiência energética e da gestão de resíduos como vetores de transformação industrial, enquanto Karkou (2024) avança na discussão sobre eficiência hídrica ao propor um framework conceitual que orienta práticas de reutilização e estratégias que ampliam a circularidade no uso da água.

No contexto brasileiro, Psarommatis (2025) aponta que, embora práticas de reutilização e reaproveitamento tragam ganhos claros de eficiência e competitividade, ainda persistem obstáculos ligados à falta de incentivos regulatórios, à limitada capacidade de investimento das empresas e à ausência de infraestrutura adequada. De forma complementar, Mainardi et al. (2025) ressaltam que a implementação da economia circular no país exige articulação entre políticas públicas e estratégias empresariais, de modo a superar barreiras institucionais e culturais que dificultam a difusão dessas práticas.

Portanto, o Fator 3 revela-se um eixo estratégico capaz de integrar energia, água e resíduos em uma lógica circular. Sua consolidação evidencia não apenas a viabilidade prática da EC na indústria nacional, mas também sua contribuição teórica ao demonstrar que a adaptação de arquétipos internacionais encontra aplicabilidade e coerência no contexto brasileiro, o que fortalece a competitividade industrial sustentável por meio dessa lógica.

Criação de valor

O Fator 4 – Criação de Valor compõe-se pelas variáveis Var12 (mecanismos de compartilhamento) e Var13 (maximizar os benefícios de sustentabilidade em incubadoras e plataformas). Sua principal contribuição consiste em orientar as empresas industriais a criar valor integrado – econômico, social e ambiental – por meio de soluções que promovam inovação social, tecnológica e sustentável, destacando o papel estratégico dos mecanismos de compartilhamento e das incubadoras como impulsionadores desses eixos de inovação. A definição central de MNS está no conceito de “valor” (Nosratabadi et al., 2019), que, embora inicialmente voltado a questões de sustentabilidade evoluiu para criar benefícios duradouros para os stakeholders, considerando impactos de longo prazo (Shakeel et al., 2020). Para as empresas industriais, transformar impactos sociais e ambientais em valor econômico representa um desafio estratégico (Schaltegger et al., 2011), que pode ser superado por meio da mobilização de ativos intangíveis, configurando-se como uma estratégia corporativa (Goni et al., 2021). Mecanismos como o crowdsourcing – prática colaborativa que envolve a participação de múltiplos stakeholders - permitem à indústria identificar ideias criativas, desenvolver soluções inovadoras e, consequentemente, adquirir ou ampliar a sua capacidade de inovação (Feller et al., 2012).

Nesse contexto, o estudo de Agwu e Oftedal (2025) evidencia que abraçar paradoxos e buscar inovação nos modelos de negócio é crucial para superar práticas insustentáveis, o que fortalece simultaneamente o valor econômico, social e ambiental, que devem atuar de forma integrada nesses modelos. A Var13, que busca maximizar os benefícios de sustentabilidade em incubadoras e plataformas, demonstra que esses ambientes de inovação podem gerar valor nas três dimensões, promovendo inovação tecnológica, social e sustentável e garantindo que os benefícios criados sejam amplamente compartilhados entre todas as partes interessadas (Circule & Uvarova, 2022). Assim, esses fatores evidenciam o papel das incubadoras e plataformas como ambientes estratégicos de inovação, capazes de articular múltiplos benefícios e sustentar processos de criação de valor.

Conclusões

Esta pesquisa apresentou um framework para o desenvolvimento de MNS no contexto industrial brasileiro. Após a aplicação de um conjunto de técnicas estatísticas, foi desenvolvido o modelo teórico acerca dos quatro fatores composto pelos seguintes fatores: Fator 1 – Relacionamento com os Stakeholders; Fator 2 – Produção e Consumo Sustentável; Fator 3 – Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los e Fator 4 - Criação de valor. No fator 1, a variável referente ao arquétipo ‘Entrega de funcionalidade ao invés de propriedade’ não foi confirmada, sugerindo uma perspectiva para investigações futuras no contexto industrial brasileiro.

A partir dos achados, foi proposto um framework para o MNS no contexto industrial brasileiro com os elementos: Relacionamento com os Stakeholders; Produção e Consumo Sustentável; Minimizar a utilização dos recursos e reciclá-los e Criação de valor. A pesquisa traz contribuições teóricas e gerenciais. De acordo com a literatura, não foram encontrados estudos que propõem um framework para o MNS a partir dos arquétipos propostos por Bocken et al. (2014) e Ritala et al. (2018) para o contexto industrial brasileiro.

Conforme os resultados deste estudo, no contexto industrial brasileiro, os arquétipos de MNS, inicialmente propostos em países desenvolvidos, necessitam ser reinterpretados e adaptados às especificidades de um contexto emergente. A adoção tende a ser seletiva e incremental, com as empresas aplicando elementos de forma parcial ou adaptada, o que mostram a necessidade de flexibilidade. Nesse sentido, as empresas combinam componentes dos arquétipos com soluções locais inovadoras, gerando caminhos não previstos nos modelos originais. Assim, o MNS deve ser entendido como um conceito dinâmico e adaptável, em constante aprimoramento, refletindo como a sustentabilidade é operacionalizada na indústria brasileira.

Nessa perspectiva, os quatro fatores identificados na aplicação empírica emergem como contribuições centrais:

  1. O Fator 1 reforça a dimensão social dos MNS – frequentemente negligenciada na literatura e de baixa aplicabilidade práticas nas empresas – ao demonstrar que stakeholders internos e externos, como coprodutores de valor, reposicionam a sustentabilidade empresarial em direção ao bem-estar coletivo, à interação contínua e à integração comunitária;

  2. O Fator 2, apoiado nos ODS 9 e 12, evidencia que a produção e o consumo sustentáveis não apenas promovem práticas industriais responsáveis, mas também atuam como mecanismos de conscientização, o que fortalece a interação entre empresas e consumidores e incentiva mudanças culturais rumo à sustentabilidade;

  3. O Fator 3 mostra que a integração entre eficiência energética, eficiência hídrica e reaproveitamento de resíduos constitui um eixo estratégico para a competitividade industrial sustentável, o que demonstra a viabilidade da economia circular no Brasil – mesmo com inúmeros desafios na sua implementação. Sua contribuição teórica está em adaptar arquétipos internacionais ao contexto nacional, fortalecendo a capacidade das indústrias de conciliar sustentabilidade, inovação e circularidade como fundamentos para novos modelos de negócios;

  4. O Fator 4 orienta as empresas industriais a integrar benefícios econômicos, sociais e ambientais por meio da inovação tecnológica, social e sustentável, consolidando o papel de mecanismos de compartilhamento e incubadoras como ambientes estratégicos capazes de sustentar processos contínuos de criação de valor.

Assim, a pesquisa contribui com a literatura sobre modelo de negócios sustentável. Em nível gerencial, o framework proposto pode servir como um guia para gestores na implementação do MNS nas indústrias brasileiras e também pode ser replicado para outros contextos/países. Além disso, a integração da sustentabilidade nos processos industriais está alinhada aos ODS.

As limitações da pesquisa concentram-se no número de empresas respondentes e na dificuldade de obtenção dos dados, o que restringe a generalização dos resultados. Além disso, há uma limitação temporal, uma vez que o estudo reflete o contexto e as práticas vigentes em um período especifico, podendo não capturar mudanças rápidas na indústria ou novas políticas de sustentabilidade. Estudos futuros podem testar os arquétipos e identificar suas variações em países em desenvolvimento, comparando-os com o framework proposto nesta pesquisa. Recomenda-se, ainda, a aplicação do método estudo de caso para analisar os arquétipos em empresas industriais. Por fim, um estudo pode verificar o desempenho sustentável das empresas que utilizam o framework proposto.

Figura 3
Modelo de Negócios Sustentável no Contexto Industrial Brasileiro

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  • Linguagem inclusiva:
    Os autores utilizam uma linguagem inclusiva que reconhece a diversidade, transmite respeito por todas as pessoas, é sensível às diferenças e promove a igualdade de oportunidades.
  • Verificação de plágio:
    A O&S submete todos os documentos aprovados para publicação à verificação de plágio, utilizando ferramentas específicas.
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    A O&S incentiva a partilha de dados. No entanto, em conformidade com os princípios éticos, não exige a divulgação de qualquer informação que possa identificar os participantes da investigação, preservando assim totalmente a sua privacidade. A prática de dados abertos visa garantir a transparência dos resultados da investigação, sem exigir a identificação dos participantes da investigação.
  • Financiamento:
    Os autores agradecem o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, projeto nº 405510/2023-3).
  • Editora Associada:
    Andréa Cardoso Ventura

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    Maio 2026

Histórico

  • Recebido
    20 Dez 2024
  • Aceito
    05 Nov 2025
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