Open-access As outras economias diante das crises múltiplas: tecendo novas relações socioambientais

Other Economies in the Face of Multiple Crises: Weaving New Socio-Environmental Relations

Resumo

A conjuntura histórica contemporânea é marcada pela imbricação de crises múltiplas, que demandam respostas plurais, capazes de gerar modos de transformação diversos nos sistemas econômicos que alimentam o quadro socioambiental crítico dos últimos anos. Parte-se do reconhecimento da diversidade das outras economias - tratado como um termo capaz de abranger a economia popular, a economia solidária, as cooperativas e um amplo conjunto de atividades econômicas situadas fora do domínio tradicional do setor privado e do Estado -, apontando para sua importância na conjuntura histórica atual, passando pelos modos com que suas atividades podem, através da autogestão, fazer avançar as possibilidades de ação diante das crises múltiplas e entrelaçadas. A dimensão ambiental, central no quadro atual, é abordada através da perspectiva do desenvolvimento regenerativo, da ruptura metabólica e dos projetos de decrescimento através do fortalecimento do comum, tendo as outras economias como um eixo estruturante.

Palavras-chave:
outras economias; crises contemporâneas; ruptura metabólica; decrescimento; comum

Abstract

The contemporary historical conjuncture is marked by an intertwining of multiple crises, which call for plural responses capable of generating diverse modes of transformation within the economic systems that sustain the critical socio-environmental landscape of recent years. This perspective begins with the recognition of the diversity of other economies - a term encompassing popular economies, the solidarity economy, cooperatives, and a broad range of economic activities that operate beyond the traditional domains of the private sector and the state - highlighting their significance in the current historical context. It also explores how their activities, through self-management, can advance possibilities for action in response to these multiple and interconnected crises. The environmental dimension, central to the present scenario, is addressed through the lenses of regenerative development, metabolic rift, and degrowth projects, emphasizing the strengthening of the commons, with other economies serving as a structuring axis.

Keywords:
other economies; contemporary crises; metabolic rupture; degrowth; common

1 Introdução

O sistema econômico hegemônico vigente, em sua vertente neoliberal contemporânea, vem produzindo um quadro social, político e ambiental que se caracteriza por uma série de crises interligadas e de grande escala que têm tido consequências trágicas para os grupos (humanos e não-humanos) mais vulneráveis (Andrade; Albuquerque, 2018). A crise ecológica - que engloba o risco crescente do colapso da biodiversidade (Bergstrom et al., 2021) em interação com a emergência climática; as crises econômicas, que não somente se sucedem e praticamente se encaixam umas nas outras (o mundo pós-crise de 2008, ainda lidando com seus efeitos, entra na pandemia, e posteriormente na conjuntura inflacionária da guerra da Ucrânia), mas tornam-se funcionais aos modos de operação e reprodução das hegemonias (Sassen, 2016); as crises dos sistemas democráticos, que envolvem o retorno persistente e prolongado da extrema direita, chegando ao poder num amplo conjunto de grandes democracias; o incremento da desigualdade mesmo no contexto dos países centrais, como consequência do avanço da neoliberalização (Lazzarato, 2009); as crises metropolitanas, que se assentam como um modo permanente de crise social urbana nas grandes metrópoles (Carvalho, 2006), produzindo oportunidades para o fortalecimento de uma miríade de agentes altamente regressivos (na proliferação de tipos diferentes de organizações criminosas, que se expandem e diversificam seus modos de exploração dos territórios e dos espaços sociais urbanos); o crescimento da incidência de quadros de doença mental, sobretudo ansiedade crônica, depressão e transtorno de pânico (Reis, 2024); entre outras manifestações diversas da urgência do quadro sociopolítico contemporâneo.

São muitos os vínculos causais entre este quadro crítico e os circuitos econômicos. Podemos sintetizar esta relação causal em dois eixos estruturantes: as relações sociais produzidas através da hiperexploração do trabalho e do modus operandi da esfera produtiva, geradora de desigualdades e injustiças crescentes, e o problema da “ruptura metabólica” (Saito, 2022) entre o sistema econômico e os sistemas naturais. Essa ruptura se constitui na medida em que o sistema econômico captura e extrai os produtos dos sistemas naturais de modo a maximizar seus ganhos de curto prazo, sem se preocupar com a sustentabilidade de longo prazo dos próprios sistemas que proveem estes recursos.

A saída desse cenário crônico de alta complexidade envolve a necessidade de respostas múltiplas e diversas, assentadas em tipos de agentes e formas de ação que podem abranger uma heterogeneidade que vai da ação estatal tradicional (no refortalecimento democrático da esfera pública e no seu uso para o enfrentamento direto aos vetores regressivos e que alimentam as crises) à expansão e o fortalecimento de organizações sociais de muitos tipos. Nesse sentido, ampliar o leque de possibilidades de ação coletiva no âmbito das atividades econômicas é uma tarefa imprescindível na atual conjuntura, para além do (retorno ao) projeto desenvolvimentista focado na reindustrialização, na ciência e na tecnologia, e na sustentabilidade - ou buscando modos de torná-lo mais aberto a outras formas econômicas, para além da empresa tradicional, seja privada ou estatal.1

A ideia das “outras economias” (Monte-Mór, 2018; Santos, 2017), que aparece na literatura da geografia econômica internacional como “economias diversas” (Gibson-Graham; Dombroski, 2020), é um modo de agrupar práticas de trabalho e produção, e formas de integração e inserção econômica, que não passam pelo mercado tradicional - composto por empresas privadas em seus moldes majoritários e hegemônicos - ou pelo Estado:

Nas últimas décadas, temos visto se fortalecerem outras economias, complementares à economia capitalista: economia ecológica, economia social, economia popular, economia solidária, economia da funcionalidade, entre muitas outras que ganham visibilidade e experimentação em todo o mundo, do sul global, onde sempre foram endêmicas, ao norte global, onde ressurgem reinventadas. Diversas e com objetivos distintos, essas outras economias guardam pontos em comum. Um ponto central é a reprodução coletiva da vida, da escala local à planetária, com foco na questão ambiental, mas também na diversidade social e cultural (Monte-Mór, 2018, p. 234).

As outras economias envolvem um conjunto de atividades econômicas que se diferenciam dos setores tradicionais representados pelo capital e pelo Estado, em primeiro lugar no sentido de que tendem a partir de iniciativas de movimentos sociais e/ou das próprias pessoas em situação de vulnerabilidade, mas sem a constituição de empresas formalizadas tradicionais, separadas do âmbito da reprodução (do lar e da vizinhança) (Coraggio, 2011). Neste artigo, trato das outras economias como um conjunto ampliado que inclui os circuitos da economia solidária,2 as cooperativas, a economia popular (nas suas múltiplas manifestações, do comércio popular de rua à agricultura familiar de pequena escala3), as múltiplas formas de constituição, produção e manutenção do comum (Tonucci, 2017; Dardot; Laval, 2017 [2014]; Hardt; Negri, 2016[2009]), as redes de reciprocidade e apoio mútuo, e outros modos de produção, circulação e intercâmbio de bens e serviços (sistemas de escambo e troca direta, redes de apoio comunitário, grupos de software livre, bancos de tempo etc.), não inseridos nos formatos tradicionais da empresa privada e das atividades geridas pelo Estado.

Trata-se de um agrupamento amplo e heterogêneo de atividades, que vai dos grupos de economia solidária aos vendedores ambulantes, e que constitui um modo de garantia não somente da sobrevivência, mas da “vida com dignidade” (como é frequentemente afirmado pelos próprios trabalhadores dos setores populares) para uma quantidade muito significativa de pessoas, majoritariamente de baixa renda, no contexto urbano brasileiro (Diniz, 2016, p. 117). De modo geral, as políticas públicas e a ação estatal relacionam-se a esse universo de modos muito diversos, que vão da repressão direta e violenta aos camelôs e ambulantes nas ruas das grandes cidades às políticas de fomento à economia solidária nos três níveis de governo. No entanto, mesmo essas políticas mais amigáveis, que partem de um reconhecimento da economia solidária (resultante de um longo processo de politização e luta desses grupos, como movimento social), são bastante tímidas, operam com poucos recursos, e ocupam lugares muito marginais nas estruturas estatais onde se inserem.

Proponho que esse lugar menor que é reservado às outras economias no âmbito da política estatal formal contrasta fortemente com seus potenciais para intervir e alterar o quadro ampliado das crises múltiplas e interligadas descrito anteriormente. Por trás da heterogeneidade marcante das outras economias - que envolve, inclusive, algumas porções altamente regressivas, com práticas e relações precarizadas, heterônomas e exploratórias - há uma seara que se pauta pela busca da autogestão. Estas envolvem atividades potencialmente definidas e moldáveis por processos políticos deliberativos (e não por dinâmicas e interesses de mercado). Portanto podem atuar na direção da coprodução de resultados socioambientais urgentes na conjuntura contemporânea, como efeitos diretos e indiretos dos modos como a produção, a circulação, a comercialização e o consumo são consciente, coletiva e deliberadamente constituídos. Ou seja, o desenraizamento da economia em relação ao tecido social resultante do fortalecimento do livre mercado, na perspectiva polanyiana (Polanyi, 2012), pode ser contraposto por um movimento reenraizador que efetue reinserções múltiplas do econômico na sociedade e na natureza, de acordo com objetivos coletivos democraticamente predefinidos. Ao produzir outras relações sociais e ambientais, as outras economias criam antídotos em potencial para o quadro das crises múltiplas e imbricadas.

O objetivo dessa intervenção é apontar um caminho para a construção democrática de formas de justiça econômica e do bem-viver através do conjunto ampliado das outras economias, como uma saída possível da conjuntura das crises múltiplas. Propõe-se que o repertório político das economias diversas contêm potenciais para a construção de trajetórias emancipatórias capazes de configurar relações virtuosas entre os circuitos econômicos e o meio natural não-humano, ao mesmo tempo que promove práticas econômicas politicamente necessárias - inclusivas, justas, solidárias - diante do recrudescimento da conjuntura histórica atual.

Apresento uma leitura das outras economias diante de uma série de questões advindas da conjuntura contemporânea, propondo a importância e a necessidade do aprofundamento das pesquisas acerca do tema, bem como do avanço da teorização normativa voltada para esses circuitos produtivos, como uma agenda fundamental na conjuntura contemporânea, marcada por uma profusão de crises interligadas e em processo de agravamento. Parto do reconhecimento da diversidade das outras economias e de sua importância na conjuntura histórica atual, passando pelos modos como suas atividades podem trazer novas formas de fazer avançar as reflexões em torno dos projetos de desenvolvimento nesse contexto. Exploro as consequências, para esses circuitos, do fato de que os mercados são sempre social e politicamente construídos, e não frutos de dinâmicas sociais espontâneas. Proponho, também, uma análise da pertinência da perspectiva das outras economias em relação ao decrescimento e ao comum, diante do problema da “ruptura metabólica” (Saito, 2022).

Fundamento minha argumentação numa abordagem conceitual exploratória, voltada para a proposição de novas elaborações através de leituras combinadas de um conjunto transdisciplinar e ampliado de referências, e trazendo também, em algumas breves passagens, elementos empíricos obtidos em pesquisa qualitativa realizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) em 2019 e 2022-2023.4 O intuito dessa pequena inserção de informações obtidas em campo é simplesmente complementar as elaborações propostas e ilustrar alguns argumentos com o ponto de vista dos próprios agentes diretamente envolvidos no universo das outras economias.

2 As outras economias e a conjuntura contemporânea

Como já adiantado, o período histórico contemporâneo pode ser abordado através da chave de uma miríade de crises interligadas, situadas em domínios socioambientais diversos, que se alimentam mutuamente e produzem diversos agrupamentos de consequências perversas, que, por sua vez, encadeiam impactos nos complexos tecidos sociais e ambientais que caracterizam as espacialidades e os tempos presentes. Um dos elementos que atuam na reprodução desse quadro ampliado é a própria dinâmica inercial do sistema econômico hegemônico, que segue sua busca incessante por formas de expansão, apesar de os efeitos nocivos do crescimento (através das atuais estruturas produtivas) serem claros e conhecidos (sendo mais visíveis no âmbito das relações com o meio natural não-humano). Fortaleceu-se nas últimas décadas uma vertente de pensamento e ação no chamado desenvolvimento sustentável, com importante influência nas esferas do planejamento e na tentativa de construção de estruturas e mecanismos capazes de darem continuidade ao crescimento econômico, mas sem que o meio natural continuasse a ser devastado pelo processo.

Muitos são os diagnósticos de fracasso e/ou insuficiência do projeto da sustentabilidade (Sparn, 2019, p. 17; Limonad, 2013) que conseguiram produzir algumas transformações importantes na esfera produtiva, na direção da economia circular, da mitigação de impactos etc., mas sem chegar a ter força suficiente para se contrapor ao fortíssimo crescimento da produção que ocorre por fora de seus métodos. Ou seja, mesmo que a produção automobilística, por exemplo, tenha adotado formas menos impactantes (através da reciclagem em larga escala de materiais, ou do uso de energias renováveis, entre outros), o crescimento substancial do volume de produção no setor em todo o mundo nas últimas décadas faz com que seus impactos sejam imensos - na poluição, na expansão desenfreada dos setores extrativos, na saúde pública etc. Ademais, a produção e o consumo não sustentável têm crescido de modo muito mais significativo do que os circuitos que buscam promover a sustentabilidade - como atesta o próprio consumo de energia, as fontes limpas representam uma fração minoritária diante da continuidade da expansão da energia suja. Esses desvios acontecem, em parte, em função das pressões do próprio mercado, inclusive aquelas que advêm da busca incessante por maior remuneração aos investidores.

A autogestão - que pode, de fato, ser encontrada em muitos processos econômicos nos circuitos da economia popular e solidária, bem como nas cooperativas - aponta para a possibilidade de outros modos de (re)enraizamento da economia nos tecidos socioambientais. Esse é um potencial que não se realiza espontaneamente, precisando ser trabalhado politicamente, sendo que há, inclusive, um potencial para que isso aconteça através das políticas públicas, apesar da timidez da ação estatal presente em relação às outras economias. Assim como as outras economias, a autogestão é marcada por uma grande diversidade de práticas, definições, princípios, objetivos e métodos. Numa abordagem bem conhecida, Rosanvallon (1976) aponta a importância do projeto no âmbito socialismo iugoslavo, e sua emancipação (daquele contexto), reapropriação e ressignificação por parte dos movimentos sociais que emergiram depois das movimentações de 1968. Nesses, a autogestão é trabalhada não como uma teoria abstrata, mas como uma prática vivida e experimentada, que representa, em sua essência, uma recusa às formas centralizadas de poder - seja o socialismo estatal ou a socialdemocracia - e a aposta em uma gestão dos próprios assuntos pelos sujeitos diretamente envolvidos.

Numa leitura de um conjunto de textos de Henri Lefebvre que se engajam com esse tema, Brenner e Elden (2009) interpretam que, para aquele autor, a autogestão é

não somente um projeto de governança radicalmente democrática, mas um processo conflitivo e contraditório através do qual os participantes se engajam continuamento na auto-crítica, no debate, na deliberação, no conflito e nas lutas; não se trata de uma condição fixa, mas de um nível de intenso engajamento político e ‘espontaneidade revolucionária’ [...] que deve ‘ser continuamente executado (Brenner; Elden, 2009, p. 16).

No contexto latinoamericano, a grande crise da década de 1980 abriu oportunidades para uma incorporação dessa agenda no âmbito dos movimentos da economia solidária, das fábricas recuperadas, das cooperativas e de outras frentes. Atualmente, mais do que uma simples resposta às crises, trata-se de uma possibilidade de constituição de outro modo de organização econômica, baseado em outras relações sociais. Nesse contexto, o termo é definido como

el movimiento social, económico y político que tiene como método y objetivo que la empresa, la economía y la sociedad en general estén dirigidas por quienes producen y distribuyen los bienes y servicios generados socialmente. La autogestión propugna la gestión directa y democrática de los trabajadores, en las funciones empresariales de planificación, dirección y ejecución (Iturraspe, 1986, p. 31).

Ou seja, a autogestão se caracteriza por uma democratização dos processos que abre possibilidades para a definição dos modos de funcionamento da produção de acordo com necessidades, desejos, demandas e urgências que vão se definindo democraticamente de acordo com circunstâncias e conjunturas. Noutros termos, a autogestão envolve a possibilidade de um movimento dinâmico, adaptativo e deliberado de constituição democrática dos processos produtivos, na direção daquilo que Antonio Negri (2015[1993]) conceituou como o “poder constituinte”. Para Negri, trata-se de uma força criativa, sempre em movimento, que surge das lutas e da autonomia dos sujeitos sociais. Ele não é um momento excepcional e limitado no tempo, como na tradição clássica do constitucionalismo, mas um processo contínuo de criação política, sempre aberto a novas formas de organização e resistência. Diferentemente da perspectiva tradicional do pensamento político, que vê o poder constituinte como uma força que dá origem a uma nova ordem e depois se esgota ao se transformar em poder constituído -, ou seja, nas instituições do Estado -, Negri argumenta que ele permanece vivo, impulsionado pelas lutas. Estas, por sua vez, envolvem um movimento de redefinição constante, de acordo com conjunturas e circunstâncias diversas.

Mas para que os processos autogeridos ganhem escala (e escopo), no período atual, é necessário que eles tenham um conteúdo reticular - ou seja, operem através da construção de redes de reciprocidade e apoio mútuo, que podem, por sua vez, tecer relações virtuosas e eventualmente produzir outras espacialidades e outros tecidos socioambientais. A autogestão no contexto contemporâneo depende da constituição de redes de reciprocidade, apoio mútuo, e no âmbito econômico, de um circuito de trocas (de bens, serviços e conhecimento) e comercialização. No âmbito dos movimentos da Economia Solidária, esta já é uma construção em curso, ciente das dificuldades e dos desafios envolvidos. Parte do desafio consiste no fortalecimento e na extensão das práticas de autogestão para além dos lugares limitados onde ela já existe atualmente, começando pelas porções das outras economias - sobretudo no âmbito da economia popular, mas não somente - que ainda se caracterizam por relações (socioambientais) viciosas, de exploração e dominação.5

Se as necessidades contemporâneas apontam uma saída possível do quadro das crises múltiplas através da reconstituição de relações que foram desmanteladas de formas diversas, é possível que a autogestão incorpore esse princípio como um norte em sua configuração democrática de processos diversos. Nesse sentido, a autogestão, através de sua capacidade de transformar os modos de funcionamento por meio de vias coletivas deliberativas, poderia dedicar-se à construção de formas de reenraizamento da economia em tecidos socioambientais constituídos a partir de práticas econômicas virtuosas.

Escobar et al. (2024) propõem que a crise atual - ambiental, política e social - decorre de um modo de vida baseado na “produção ativa da não relacionalidade”, que produziu indivíduos inseridos numa economia de mercado através de sua retirada (frequentemente violenta) de teias de relações socioambientais, sendo que a produção da ideia desse indivíduo autônomo, e de sua “existência intrínseca” segue seu curso no período contemporâneo. Como contraponto, aqueles autores apontam na direção da “relacionalidade como uma fundação reemergente da vida”, que “aponta na direção da interdependência radical de todas as coisas” (Escobar et al., 2024, p. 4-6).

Estes não são apontamentos normativos completamente abstratos. Há uma série de experiências em curso, visando a construção de relações socioambientais virtuosas, no âmbito da agroecologia em suas diversas manifestações, urbanas e rurais (Candiotto, 2020), em novos movimentos sociais protagonizados por populações tradicionais, como a Teia dos povos (Pimentel, 2022), nas movimentações de grupos neorrurais no contexto da Europa continental (Vizuete et al., 2024), que ganharam muita força após a grande crise de 2008, nas novas experiências econômicas solidárias baseadas nas plataformas de P2P (peer-to-peer) (Bauwens, 2015), entre muitos outras. A agenda de pesquisa desejável aqui envolve o aprofundamento no conhecimento acerca dessas experiências, que pode acontecer através da pesquisa-ação, colaborativa, e em simbiose com a atividade de extensão e apoio direto às atividades.

Confrontado com as exigências da concorrência e a constante busca pela maximização de lucros, o mercado acaba por relegar os elementos exigidos como respostas às crises múltiplas - como a própria sustentabilidade - a uma posição secundária, pois esses objetivos, difusos e implícitos, não aparecem diretamente nas mercadorias em si (que tendem a esconder os processos) ou nos resultados das empresas. Ao mesmo tempo, o Estado enfrenta desafios significativos decorrentes das pressões advindas dos arranjos neoliberais, o que dificulta a implementação de políticas públicas capazes de promover as transformações necessárias diante das múltiplas crises. Ademais, na conjuntura atual, observa-se uma tendência preocupante à desregulamentação generalizada, justamente no momento em que se faz urgente a adoção de medidas estruturais para reconfigurar as relações socioeconômicas. Mesmo que o conflito e a resistência a essa tendência sejam imperativo político no tempo presente, é possível e desejável construir soluções e respostas através de outras formas coletivas.

O sentido do comum (Tonucci, 2017; Dardot; Laval, 2017 [2014]; Hardt; Negri, 2016[2009]) - entendido como os conjuntos de elementos, recursos, localidades e patrimônios coletivos, de uso comum, que não são de propriedade estatal e/ou geridos pelo Estado, nem por entidades privadas - ajuda a orientar os esforços aqui, como um norte político capaz de informar trajetórias e projetos muito diversos. É importante também pensar nas possibilidades de novas formas, e na necessidade de acrescentar camadas normativas mais diretamente vinculadas ao âmbito da produção e da circulação - outros “modos de integração econômica” (Polanyi, 2012), que podem vir a ser criados a partir de elementos contemporâneos que não existiam mesmo no início deste século, e que vêm atuando na contramão dos projetos emancipatórios, mas podem ser redirecionados e apropriados de outros modos, como é o caso das Novas Tecnologias de Comunicação e Informação (NTICs). Uma economia do comum, que seja capaz de produzir o comum e a partir dele, envolve uma preocupação com a abertura do acesso aos meios de produção (inclusive no domínio da terra e/ou de outras formas de propriedade imobiliária), e sua posterior autogestão.

Do mesmo modo que a politização do consumo e do investimento, de forma geral, tem alguma capacidade de gerar efeitos na produção - pressionando na direção da eliminação das matrizes produtivas com alto grau de emissão de gases de efeito estufa, por exemplo - a autogestão tem a capacidade de colocar em prática esse princípio de modo muito mais abrangente, pois o faz diretamente, tendo os próprios produtores como agentes diretos das decisões e dos modos de transformação da produção. É nesse sentido que os esforços de transformação das grandes empresas na direção da chamada responsabilidade socioambiental têm limites muito restritos, e tendem a fomentar movimentações ideológicas e marqueteiras (sobretudo no âmbito da sustentabilidade) mais significativas do que as dinâmicas realmente efetivas e transformadoras - pois a empresa tradicional tende a permanecer guiada por princípios de minimização de custos e maximização de receitas, diretamente responsáveis pela reprodução do trabalho sub-remunerado e precarizado, e pela exploração e subsunção de comunidades e ecossistemas a processos altamente nocivos à sua sobrevivência e ao seu bem-estar.

Em contraste a esse quadro, no âmbito da autogestão, mantendo o foco no exemplo da crise ecológica e da emergência climática, a produção configurada através de processos deliberativos coletivos pode se pautar pela construção de meios que alimentem as saídas e soluções para as crises, na contramão dos sistemas que as reproduzem e aprofundam. Ou seja, no âmbito dos agentes econômicos empresariais da economia de mercado, o projeto da sustentabilidade (e da chamada responsabilidade social) tende a permanecer sujeito a condições e lógicas econômicas maiores que podem restringir seu alcance, diminuir sua importância em períodos de crise, e/ou a se tornarem meros insumos para as políticas de marketing e relações públicas desses agentes capitalistas. As atividades econômicas que são definidas a partir e através de processos políticos - em contato com o universo dos movimentos sociais - tendem a funcionar através de uma lógica contrária: é a predefinição do modus operandi da produção (ausência de relações hierárquicas rígidas e perenes, autogestão, não separação entre trabalho e propriedade dos meios de produção etc.) que ocorre em primeiro lugar e que define a forma com que as atividades ocorrerão. Se as relações com a natureza e com as comunidades são trazidas para esse âmbito decisório e deliberativo responsável por conformar os formatos da produção em si, o alcance da preocupação com a sustentabilidade efetiva e a promoção da autonomia dos grupos envolvidos será muito maior.

As outras economias compõem um potencial lugar de construção política da esfera produtiva e dos circuitos econômicos que podem atuar na construção do “pós-desenvolvimentismo”, do “desenvolvimento regenerativo”, e/ou de um conjunto de dinâmicas sintrópicas, capazes de frear e contrapor a enorme entropia gerada nos sistemas econômicos hegemônicos. Enquanto a entrada dessa gramática transformadora no âmbito do Estado é fundamental para seu avanço, colocar esse objetivo como um pré-requisito para o início da formulação dos projetos e da construção de práticas é incoerente com as urgências que marcam o tempo presente.

O pós-desenvolvimentismo refere-se ao conjunto de perspectivas e práticas, geralmente situadas nas esferas dos movimentos sociais e ambientais, críticas ao desenvolvimentismo tradicional (em todo o leque diverso que ele abrange no campo político), em busca da construção de outras formas de bem viver (Acosta, 2012), que implicam outros modos de vida e de produção e reprodução do bem-estar coletivo no planeta. Rompe-se não somente com o pressuposto desenvolvimentista do imperativo inescapável do crescimento econômico, mas também com o caráter antropocêntrico do projeto, que muito raramente contempla outras espécies e outros seres vivos como sujeitos (e não objetos instrumentalizados) dos processos.

O desenvolvimento regenerativo, por sua vez, parte do pressuposto de que é necessário superar e caminhar além das abordagens de desenvolvimento sustentável (Reed, 2007), que têm sido insuficientes no enfrentamento da crise ecológica, por motivos diversos. Entre eles a própria captura do termo e do ideário da sustentabilidade pelo marketing das grandes empresas, inclusive em setores de altíssimo impacto ambiental, geralmente resultando em conjuntos de atividades e ações que visam mitigar e/ou compensar os próprios impactos, mas o fazem de forma insuficiente, tendo o aspecto imagético e propagandístico inflado em relação aos verdadeiros efeitos das ações. Mesmo conceitualmente, a ideia da sustentabilidade propõe a manutenção das condições ambientais existentes diante de uma atividade econômica a ser desenvolvida em determinada região ou setor de atividade.

A regeneração, por sua vez, traz para o centro das preocupações a grande escala da destruição dos ecossistemas já acumulada, e aponta para a necessidade da restauração ecológica e da recuperação de áreas degradadas, através de atividades que conciliem não simplesmente a preservação, mas a recuperação com a produção. Para Reed (2007), a sustentabilidade envolve a neutralidade na relação dos seres humanos com a natureza, enquanto na perspectiva regenerativa os seres humanos participam como natureza das relações com outros entes. Podemos acrescentar aqui uma ligação com a ideia de coevolução, ou da ajuda mútua entre espécies como um “fator de evolução” - conforme Kropotkin (2009[1902]). Há grande desafio e potente contribuição em potencial dessa abordagem para uma nova rodada de atualização ecológica do pensamento desenvolvimentista, na direção do desenho e da conformação de formas de produção que não somente respeitem e preservem determinada paisagem ou sistema ecológico, mas atuem na direção da regeneração ecológica das localidades onde a produção se estabelece.

E a perspectiva da entropia, como trabalhada por Stiegler (2015a; 2015b; 2018) no âmbito dos estudos sociais da ciência e da tecnologia, permite uma reavaliação dos processos econômicos, de formas parecidas com que fez o estudo do desenvolvimento sustentável, no que diz respeito à sua relação com o meio natural e o uso dos recursos. Stiegler mobiliza a ideia da entropia - advinda da física da termodinâmica, que diz respeito a uma medida de desordem ou aleatoriedade de um dado sistema, que, em processos naturais, tende a aumentar com o tempo - para o entendimento do antropoceno como um grande sistema entrópico. Se a sustentabilidade se preocupa com a minimização de “impactos” e/ou com a possibilidade de neutralizá-los, a perspectiva da entropia amplia e aprofunda a preocupação com os efeitos dos processos econômicos num conjunto complexo e dinâmico de elementos sociais e naturais - sendo que estes podem caminhar na direção de um maior grau de desmantelamento (dos sistemas florestais, por exemplo, ou de biomas que demandam maior tempo para se regenerar, como a caatinga), ou no sentido oposto, contrário ao entrópico.

Os agenciamentos necessários no contexto contemporâneo são justamente os sintrópicos (negentrópicos em Stiegler (2018)), aqueles que dão conta de colocar freios e/ou reverter a intensidade e a violência dos processos entrópicos, do ponto de vista ampliado da inclusão de elementos do meio natural nas análises. A modernização envolve a produção de entropia, cujos resultados ela frequentemente desloca nos territórios para áreas de despejo e descarte - periferias, barragens de rejeitos, lixões e as grandes concentrações de lixo nos oceanos, rios poluídos etc. A localização dessas áreas de concentração dos elementos indesejados gerados pelos processos produtivos é muito frequentemente situada nas proximidades de áreas onde vivem populações marginalizadas/racializadas, como as abordagens do capitalismo racial na geografia contemporânea demonstram (Pulido, 2017). Ademais, após a produção em larga escala dessas espacialidades do despejo de rejeitos, o moderno tende a tratá-las como localidades de baixa densidade do próprio processo de modernização - e que demandam justamente a sua intensificação, que posteriormente tende a gerar novos deslocamentos e novas concentrações dos resultados da entropia novamente criada.

Essas três abordagens - pós-desenvolvimentismo, desenvolvimento regenerativo, processos sintrópicos - permitem a formulação de um novo quadro normativo que pode eventualmente influenciar as trajetórias do pensamento e da prática no âmbito do desenvolvimento social, humano e econômico, superando, potencialmente, uma aversão e uma negação rígida do projeto do desenvolvimento que impera atualmente nos círculos ambientalistas e em frações importantes dos movimentos sociais. Ademais, a crise ecológica, apesar de sua urgência marcante no período contemporâneo, não constitui a única esfera onde as crises imbricadas se manifestam - sendo o âmbito da política e das relações entre grupos sociais diversos um quadro igualmente urgente, marcado pela reascensão recente de forças autoritárias, obscurantistas e altamente nocivas para a reprodução ampliada da vida coletiva e diversa, e para os projetos que visam melhorar as suas condições de forma ampla e irrestrita.

A economia ecológica (Sparn, 2019, p. 82-87) há muito vem estudando a relação do metabolismo econômico com o metabolismo da natureza não-humana, trazendo importantes críticas ao paradigma dominante nas ciências econômicas e construindo ricas alternativas analíticas e propositivas, que muito contribuem para o desenho de soluções regenerativas. No entanto, embora as relações com o meio natural sejam trazidas para o seio das preocupações, parece haver certa negligência em relação à centralidade do formato das relações sociais envolvidas nos processos produtivos que, do ponto de vista de economia política crítica, constitui o pilar fundamental dos sistemas econômicos. O foco nas relações sociais, ampliadas na direção da inclusão dos sujeitos naturais não-humanos, como sujeitos de direitos (Calmet, 2023), poderia contribuir bastante com essa abordagem.

Proponho que a conjuntura das crises múltiplas convoca outra perspectiva de economia política, que traga a questão ambiental para o seio da crítica (Saito, 2022), o que é possível de ser feito através de um foco nas relações sociais (intrassociedade) e socioambientais (entre sociedade e natureza não-humana). Lefebvre (1973; 1974) elaborou uma robusta teoria da relação entre espaço e sociedade apoiada na ideia de que o sistema econômico hegemônico se reproduz através da reprodução das relações sociais que constituem seu pilar fundamental, sendo a produção do espaço (em escalas múltiplas) um modo fundamental de manutenção das hegemonias, justamente em função de sua capacidade de manter e gerir as relações sociais num determinado formato.

De Angelis (2017) propõe a ideia dos comuns como sistemas sociais. Não se trata de uma propriedade dos objetos, lugares, recursos e bens a serem acessados - que caracteriza, segundo aquele autor, as abordagens mainstream acerca do comum: “ser um bem comum [como] puramente uma propriedade da coisa, não da pluralidade que provê significado social à coisa” (de Angelis, 2017, p. 42, grifo do original). Mas

esta pluralidade (…) cria outros valores além do valor de uso dos bens comuns. Ela cria valores relacionais, ao medir, avaliar e prover sentido particular aos modelos de relações sociais através das quais os bens comuns são (re)produzidos e seu valor de uso é distribuído pelos comuneiros (ibidem, p. 30).

O comum reside, nessa perspectiva, no processo, e no modo de agenciamento daquilo que será acessado e/ou produzido. Do mesmo modo que no sistema econômico hegemônico as relações sociais configuram a produção e são determinadas por ela, no comum, entendido como um sistema, as relações sociais são produzidas pelo modo de agenciamento dos bens comuns: eles são sustentados por relações (de solidariedade, por exemplo), e ajudam a configurá-las.

Para além da pertinência das outras economias na conjuntura histórica atual, cabe explorar o seu potencial de expansão, à guisa de conclusão desta seção. Propõe-se esse exercício através de uma recuperação histórica que nos permite contextualizar o tempo presente. A análise histórica dos modos de intercâmbio de Koijin Karatani (2014) fornece contribuição importante para o entendimento contemporâneo das outras economias. Aquele autor propõe uma mudança no eixo do entendimento histórico das formas econômicas, retirando o foco no modo de produção e centrando as análises nos modos de intercâmbio, que são as formas com que as sociedades realizam as trocas, interna e externamente. Karatani sugere, como ponto de partida, um modo A, que corresponde ao sistema de trocas baseado na prática da reciprocidade e da dádiva em povos seminômades (ainda presente nas sociedades indígenas e em populações tradicionais diversas no mundo contemporâneo), mais frequente em sociedades sem Estado.

O surgimento da autoridade estatal envolve a gênese do modo de intercâmbio B, que é caracterizado pelo comando vinculado à proteção, e à centralização e redistribuição da produção (realizada de modo difuso, mas parcialmente recolhida, centralizada e redistribuída pelas autoridades num determinado território). O modo C, que surge como uma prática paralela, corresponde à troca de mercadorias, ao mercado, e eventualmente torna-se dominante e passa a reger a própria ação estatal. É dentro do modo C que ocorre um salto substancial na própria produção, condicionada e sujeita aos mercados. O modo D de Karatani refere-se à tendência contemporânea de ressurgimento de novas formas de reciprocidade, dádivas, apoio mútuo e trocas não monetárias.

O modo A tinha como efeito colateral um laço de compromisso na esfera da comunidade, que prendia e limitava as pessoas diante da obrigação da retribuição, que por vezes envolvia um aspecto repressor - a dádiva exageradamente generosa, vista como um insulto, ao implicar uma dificuldade muito grande na retribuição, sendo que sua ausência poderia implicar a desonra daquele que deixa de ser recíproco. O modo B envolve a necessidade da autoridade, da formação de elites que ocupam essa posição, e do risco de aumento das práticas de repressão e da conformação de autoritarismos. E o modo C envolve a produção de desigualdades como consequência das dinâmicas de mercado. Karatani propõe o modo D como uma negação do modo B, e uma síntese entre A e C, caracterizando-se pela “tentativa de se restaurar a comunidade recíproca (A) [mas sem que ela tenha] o poder de prender os indivíduos à comunidade. Nesse sentido, o modo D tem sua possibilidade condicionada à existência do modo C” (Karatani, 2014, p. 127).

As tecnologias contemporâneas (de informação e comunicações) criam um grande potencial para esse retorno dialético à reciprocidade, sendo que a sua interface com o universo da economia solidária e do cooperativismo ainda tem sido pouco explorada, embora com resultados bastante promissores - no circuito do cooperativismo de plataformas, por exemplo (Scholz, 2016).

É importante acrescentar também que o modo B poderia se alterar - na direção da produção de experiências econômicas virtuosas no que diz respeito à formação de relações - através de um processo de transformação do Estado resultante do aprofundamento democrático. A importância dessa via reside no potencial do fundo público, já demonstrado nas experiências mais avançadas de Estados de bem-estar social, que pode ser direcionado para a construção e a reprodução das formas econômicas regenerativas que, em parte, compõem o universo das outras economias. Coraggio (2011) já percebe esse potencial em suas proposições voltadas para o uso das compras públicas direcionadas ao fomento da economia popular. Há todo um conjunto de possibilidades de construção das outras economias a partir do reconhecimento dos mercados como processo social, política e espacialmente construídos.

3 A construção social, política e espacial dos mercados e as outras economias

Os mercados normalmente se apresentam como entidades sociais abertas para o acesso de todos. As pessoas que precisam obter alguma renda podem buscar por oportunidades no mercado de trabalho; aquelas que podem produzir suas próprias mercadorias e serviços podem comercializá-los nos mercados respectivos; as organizações de maior porte voltadas para a produção de mercadorias e/ou a oferta de serviços podem encontrar os consumidores e trabalhadores em potencial justamente nos mercados. No entanto, por trás desse construto discursivo e desse conjunto de aparências há uma série de fechamentos: trabalhadores que não encontram trabalho, a não ser em formas precarizadas; consumidores em potencial que não conseguem encontrar aquilo que necessitam num custo acessível e coerente com suas restrições orçamentárias (a forma de exclusão que sustenta e reproduz o imenso déficit habitacional brasileiro); pequenos ofertantes de mercadorias e serviços que não conseguem sobreviver à concorrência com grandes agentes monopolistas ou oligopolistas, ou são perseguidos pelo poder público em função da não inserção na economia formal e nos espaços de comercialização designados pelo Estado; entre outras inúmeras formas de exclusão.

Diante desse quadro, as outras economias abrangem uma série de atividades econômicas que buscam tecer outras formas de produção e reprodução ampliada da vida coletiva que conformam outros mercados e outros circuitos econômicos. Um modo muito particular de fechamento ocorre nesses circuitos: as pessoas que tentam deixar de direcionar sua demanda efetiva ao mercado hegemônico, constituído e dominado por grandes empresas tradicionais, e buscando os circuitos das outras economias, frequentemente têm uma amplitude muito restrita de oferta de bens e serviços, necessariamente precisando acessar os mercados tradicionais para atender a partes substanciais de seu conjunto de necessidades. Do mesmo modo, os agentes econômicos dessas economias não tradicionais precisam atuar em mercados muito pequenos e de difícil acesso para a comercialização de sua produção e de seus serviços.

Uma rica vertente da geografia econômica contemporânea dedica-se ao estudo da conformação social, política e espacial dos mercados, entendidos como produtos sociais que precisam ser proativamente construídos (Berndt; Boeckler, 2009; 2011; Cohen, 2017; Peck, 2024[2020]) - na direção oposta da leitura espontaneísta que enxerga os mercados como resultantes orgânicos (ou “naturais”) das trajetórias históricas. O espaço é uma dimensão importante nessas construções, podendo ser o objeto direto dos mercados (no âmbito da renda da terra e dos capitais imobiliários) ou um suporte indispensável que atua de modo determinante nas construções e no funcionamento dos mercados resultantes. Essa linha de teorização aponta na direção de um tratamento mais cuidadoso do lugar dos mercados no pensamento normativo em economia política - superando o binarismo redutor que caracteriza os debates, na celebração liberal dos mercados de um lado, ou em sua total condenação por parte da teoria crítica, do outro (Cohen, 2017). Se os mercados são construções sociais, há possibilidades de que elas ocorram de formas social e politicamente virtuosas.

No âmbito das economias diversas, uma leitura parecida dedica-se à aplicação das “teorias da performatividade” (Butler, 2003[1990]) na produção cultural e simbólica de outras economias. Do mesmo modo que o gênero, naquela abordagem, é um construto sociocultural - precisa ser aprendido, atuado, performado pelas pessoas que tornam-se homens ou mulheres através da incorporação de um conjunto de práticas culturalmente constituídas -, as economias diversas também podem e devem ser.

Um entrevistado do agrupamento das confecções atuante na ES na RMBH desde o ano 2000 relata o surgimento do circuito em Belo Horizonte justamente nesses termos: trata-se de uma construção política forjada através de ações deliberadas de um conjunto de ativistas e profissionais do terceiro setor (na Igreja católica, principalmente) que conseguiram encontrar pontos de convergência com o poder público municipal, e fizeram surgir o circuito da economia solidária na cidade. A conjuntura que ele descreve, marcada por altas taxas de desemprego, alimentou uma performatividade coletiva que buscava negar e contrapor, na prática, a total sujeição das pessoas às dinâmicas supostamente espontâneas e naturais do mercado hegemônico:

Começou lá em 2000, a pessoa com 40 anos estava velha para o mercado e o jovem estava novo demais para o mercado. Então, não tinha emprego nem para um nem para o outro. Você consegue com experiência, mas não servia para nada. Você sem experiência também não servia. E aí, uns malucos (sic) juntaram a ideia de criar uma outra forma de trabalhar. Uma forma de que ninguém seria empregado de ninguém. Porque a economia solidária traz essa ideia de ninguém ser dono, ninguém ser patrão de ninguém (entrevista com empreendedor da economia solidária, Belo Horizonte, 2022).

Essas ações caminharam na direção da construção de um circuito econômico através de uma política pública, que acabou predominando, em detrimento de um modo de ação autônomo que fortalecesse outros circuitos através dos movimentos sociais (possibilidade que permanece em aberto na conjuntura atual, mas ainda dependendo do quadro legal, na direção do direito de construir o comum). Em algumas experiências de políticas públicas observadas na RMBH, verifica-se um caráter ambíguo dessas aberturas: ao mesmo tempo que criam possibilidades de inserção para os grupos envolvidos, a limitação do próprio alcance da política (que se relaciona ao lugar menor frequentemente reservado para essas ações nas estruturas de governo) amarra e diminui a escala em potencial dos circuitos, que passam a depender da própria abertura de espaços de comercialização por parte do poder público. Há aqui um paralelo com as experiências de moeda social, em que a mesma legislação que regula e abre a possibilidade das moedas entrarem em operação, ao exigir a manutenção de um estoque de moeda oficial correspondente ao volume de moeda social emitida, limita o alcance dos circuitos.

Em contraste com a economia solidária, a economia popular (camelôs e ambulantes, por exemplo) tende a ser perseguida pelo poder público, e isso é uma parte importante da construção política dos mercados de trabalho urbanos, que dependem desses fechamentos: as alternativas de inserção precisam ser fechadas para que as pessoas não tenham outra possibilidade senão o trabalho formal em seu formato tradicional, conformando relações de subordinação e exploração operadas por capitais diversos. Ou seja, no âmbito da construção sociopolítica dos mercados, para que alguns mercados específicos existam, outros precisam ser combatidos.

Os agenciamentos ideológicos hegemônicos escondem esse segredo muito bem: as economias são construídas social e politicamente. Buscam canalizar as energias inovadoras na direção do empreendedorismo neoliberal, sendo esse adjetivo um qualificador importante: como argumentaram Hardt e Negri (2017, p. 139), através da proposta do “empreendedorismo da multidão”, existem muitos potenciais na captura da ideia do empreendedorismo para os projetos emancipatórios, que dependem de ações inovadoras e criadoras de novas experiências práticas. É fundamental que a construção social das outras economias atue nessa dimensão da produção de outros mercados, o que pode abrir importantes possibilidades de fortalecimento de seus circuitos.

4 A ruptura metabólica, o decrescimento e o comum

A gravidade da conjuntura contemporânea - do ponto de vista social, político e ambiental - invoca a necessidade de uma ruptura epistemológica nos termos elaborados por Louis Althusser (2015[1965]) a partir de Gaston Bachelard. Segundo este,

o conhecimento do real é luz que sempre projeta algumas sombras. Nunca é imediato e pleno. As revelações do real são recorrentes. O real nunca é ‘o que se poderia achar’ mas é sempre o que se deveria ter pensado. O pensamento empírico torna-se claro depois, quando o conjunto de argumentos fica estabelecido. Ao retomar um passado cheio de erros, encontra-se a verdade num autêntico arrependimento intelectual. No fundo, o ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização (Bachelard, 2005[1938], p. 17).

Os pressupostos lançados de modo implícito nas elaborações precisam ser questionados, e a constituição de novos olhares permite a visualização de elementos que já estavam em cena, mas não eram vistos. Althusser interpreta uma ruptura na trajetória do pensamento de Marx como a sua passagem da juventude a uma suposta maturidade em que o materialismo e a necessidade de entendê-lo de forma rigorosa ganham proeminência em relação às perspectivas subjetivas anteriormente presentes. Saito (2022) aponta para outra guinada na trajetória de Marx, pertinente para o contexto contemporâneo da crise ecológica, que ocorre logo após a publicação do primeiro livro d’O capital. Nessa segunda inflexão, segundo Saito, entra em cena a necessidade de entendimento da natureza e das sociedades pré-modernas, combinada a uma crítica do próprio eurocentrismo anterior, como movimento necessário para a conclusão da própria obra, que seria deixada interminada por Marx, falecido antes que pudesse completar esse movimento realizado em sua maturidade última.

Acerca da ideia do decrescimento, uma primeira crítica poderia apontar o problema de seu foco na dimensão da dinâmica econômica em termos quantitativos, o que pode gerar um ruído e uma miríade de conflitos políticos facilmente evitáveis com o deslocamento do eixo normativo para a ideia das outras formas econômicas. Ou seja, não se trata necessariamente de abandonar o crescimento em si, mas de transformá-lo radicalmente. Caso as atividades em expansão estejam alinhadas a paradigmas de regeneração - como no âmbito da agroecologia, por exemplo -, e sejam formadoras e mantenedoras de relações socioambientais virtuosas, é importante que elas cresçam intensamente.

No que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico, não há restrições necessárias às possíveis inovações que atuem na direção da regeneração e na sustentação de relações sociais recíprocas e de ganho mútuo. No entanto, a trajetória do desenvolvimento técnico das últimas décadas é tão distante dessa possibilidade, que é compreensível certo ceticismo em relação às possibilidades da tecnologia, através de uma leitura que a entende como um aparato inseparável do processo de neoliberalização (como é o caso das tecnologias da informação em Wark (2022[2019])), ou da destruição da natureza (como ocorre na literatura acerca do neoextrativismo (Gudynas, 2018; Svampa, 2015)). É possível que a tecnologia atue de modo convergente às outras economias constituintes de relações sociais e socionaturais opostas às hegemônicas, mas esse é um projeto que demanda grandes movimentos de reconfiguração dos aparatos de produção da inovação, e de ciência e tecnologia.

No entanto, mesmo mantendo a possibilidade do crescimento em novos padrões, a questão da produtividade tende a não ser resolvida, pois a ruptura metabólica no modelo produtivista hegemônico atual tende a maximizar a produtividade dos fatores em detrimento do bem-estar humano (em função do excesso de trabalho, da exploração crescente etc.) e da natureza. A mudança de foco para as relações e na convergência metabólica (entre uso de recursos e regeneração) lança a produtividade para um lugar secundário, e é nesse sentido que uma dinâmica de decrescimento relativo da produção de riqueza stricto senso pode ser desencadeada - mas como um efeito de uma estratégia com outro foco, e não como um fim em si mesmo. Nesse sentido, é fundamental que a noção de valor seja repensada, e nisso é bastante proveitosa a abordagem de Saito (2022, p. 225-226), ao entender que a riqueza privada é criada através da destruição do comum, que por sua vez constitui formas diversas de riqueza pública, o que implica possibilidade de decrescimento através do fortalecimento do comum. Para Saito, a saída é a construção de uma abundância do comum, em detrimento da riqueza privada, que historicamente esvaziou e desmantelou a primeira. Nesse raciocínio, a dimensão da produção pode entrar em cena através das outras economias, produzindo de outros modos, fortalecendo o comum, através dele e em relações de apoio mútuo com ele.

Saito (2022, p. 236) aponta para o “trabalho comum como uma forma de reparação da ruptura metabólica”. O autor propõe que a ideia, do próprio Marx, do comunismo do decrescimento, assentada sobre a “abundância radical da riqueza comunal”, se liberta da escassez artificial da mercadoria e da moeda, e produz abundância e riqueza através do foco no valor de uso, em detrimento do valor de troca. Segundo Saito, esse movimento permitiria a melhoria daquilo que é necessário de fato, e a redução do trabalho socialmente desnecessário, que é sustentado pela primazia do valor de troca no capitalismo. A decisão do que produzir passaria a vir do comum, e não mais do capital - cujas decisões ocorrem em função da lucratividade em potencial e não da satisfação de desejos e necessidades, sendo falsa a correspondência que o marginalismo pressupõe entre atividades lucrativas e produções socialmente necessárias. A convergência da proposta de Kohei Saito com o universo das outras economias aparece também em sua defesa da autogestão e da democracia no local de trabalho, que também apontam na direção do decrescimento, a produtividade podendo deixar de ser prioridade nesses processos, que tornam a produção potencialmente mais lenta (Saito, 2022, p. 241-242).

No entanto, é fundamental que a ideia das outras economias não seja limitada à esfera da produção. As cooperativas habitacionais são um exemplo importante de um tipo de prática de alteridade econômica que envolve um momento da produção dos imóveis que servirão de base para todo um trabalho posterior de gestão e ação política em torno da promoção do acesso à moradia para a população de baixa renda. Ao atacar frontalmente a renda da terra e o rentismo - que têm um peso muito significativo no orçamento das famílias em situação de vulnerabilidade -, o provimento da moradia através da ação coletiva no âmbito dos movimentos sociais tem efeito semelhante ao aumento dos rendimentos dos grupos que são assistidos. E tanto na fase da construção de novas unidades quanto no período posterior, da manutenção e gestão dos espaços de residência, há uma prática política que se mescla ao elemento econômico, produzindo relações sociais opostas àquelas que sustentam os circuitos hegemônicos. Esse é um exemplo da abundância do comum como um vetor vinculado ao decrescimento e a um padrão de desenvolvimento que regenera relações. Os vínculos com o meio natural são perfeitamente encaixáveis no mesmo modelo através da agroecologia e da combinação da experiência da cooperativa habitacional com a formação de espaços coletivos e autogeridos de produção de alimentos em moldes ecológicos, por exemplo. Os efeitos econômicos são semelhantes a um aumento da renda (no próprio acesso direto aos alimentos de alta qualidade), e envolvem modos de promoção comunitária de bem-estar, não somente na própria conformação de laços de reciprocidade e apoio mútuo entre os envolvidos, mas também através da dimensão terapêutica dessas práticas coletivas construtivas, entre outros efeitos virtuosos.

A agroecologia é um bom modelo de uma prática multifacetada de desenvolvimento regenerativo que beneficia comunidades e a natureza não-humana, e que poderia servir como um exemplo que transbordasse não somente ao longo da própria cadeia produtiva da alimentação, mas também na direção de outros setores. A atividade extrativista em moldes populares e antigos (no caminho oposto do chamado neoextrativismo (Gudynas, 2018; Svampa, 2015)), como o circuito do açaí no Pará (Silva, 2017), também envolve a produção através de relações com a natureza que não são somente de preservação e sustentabilidade, mas de regeneração. É perfeitamente possível que a produção madeireira seja realizada nos mesmos moldes regenerativos, o que chegaria a contribuir com o balanço da captura de carbono, ao manter o estoque capturado na madeira processada e transformada em objetos diversos, além de evitar que árvores mais velhas terminem em processo de decomposição, que, por sua vez, retorna à atmosfera o carbono estocado ao longo de seu crescimento.

5 Considerações finais

As relações entre o meio dos movimentos sociais e a esfera econômica são, tradicionalmente, pautadas por uma negatividade e um conflito entre as demandas e reivindicações e as tendências produzidas pelos controladores da esfera produtiva. As outras economias guardam um potencial de fortalecimento de outro modo de relação entre movimentos políticos autônomos e a produção, pois podem ser diretamente configuradas e geridas por esses processos cidadãos, como atesta a experiência da economia solidária. Existem modos diversos de se promover a politização efetiva dos circuitos econômicos, e a conjuntura contemporânea convoca modos de ação cidadã capazes de regenerar relações.

A pauta da transformação necessária do Estado, atualmente capturado e dominado por estruturas regressivas, que conseguem prevalecer mesmo diante (e através) de governos que tentam promover agendas opostas, poderia ser colocada como um objetivo último, a ser encarado através de construções autônomas previamente fortalecidas. No entanto, como é bem sabido no âmbito dos movimentos sociais, diante da urgência dos efeitos da ação estatal no abastecimento das crises múltiplas e das fortes tendências antidemocráticas que se apresentam na atual conjuntura, há um imperativo do engajamento na atuação imediata no plano político institucional.

Napoletano et al. (2022) propõem que a concepção de Henri Lefebvre acerca da autogestão (Lefebvre, 1973; 2021[1972]; 1968) envolve uma preocupação central justamente com a questão da ruptura metabólica, teorizando a autogestão como uma “prática radical visando a superação das contradições socioecológicas do capital” (Napoletano et al., 2022, p. 433). Em linhas lefebvrianas, essa é uma transformação que demanda preocupação com a constituição de outras espacialidades, e outras cotidianidades.

É fundamental que a economia política contemporânea encare de forma sistemática o quadro das crises múltiplas e imbricadas. O pensamento voltado para seu entendimento e sua superação envolve um potencial de se abrir o olhar para dinâmicas, experiências e agentes que são frequentemente tratados como menores, mesmo no âmbito da crítica. É evidente a necessidade e o potencial de se transformar processos produtivos e mercados por dentro, na direção de eles tornarem-se agenciadores de soluções e saídas das crises, na direção oposta do que têm sido, vetores alimentadores das crises. Há também uma necessidade e um potencial para uma agenda de pesquisa com essa perspectiva (crítica, analítica e programática), que aprofunde o entendimento das relações entre as estruturas produtivas e as crises, identifique experiências econômicas já existentes que atuam na contramão dessas relações, e formule modos múltiplos de fomento a esses circuitos outros.

Agradecimentos

A todos os colegas pesquisadores e ativistas da economia popular e da economia solidária; àqueles que, muito gentilmente, nos concederam entrevistas para esta pesquisa; e aos assistentes de pesquisa - estudantes do curso de Geografia da UFMG - que contribuíram de alguma forma para este projeto (Lara Puliero, Fernanda Araújo, Nicolas Knup, João Pedro Moraleida, Renata Rocha, João Victor Rodrigues, João Victor de Jesus, Gabriel dos Santos, Rafael Costa, Maria de Fátima Cavalcante, Amanda Fernandes e Uriel Valadares). Agradeço também aos pareceristas anônimos, cujas observações foram fundamentais para aprimorar este artigo.

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  • WARK, M. O capital está morto. São Paulo: Editora Funilaria, 2022[2019].
  • Códigos JEL:
    P32, P39, P48, Z10, Z13
  • JEL Codes:
    P32, P39, P48, Z10, Z13
  • 1
    É notável a ausência de vínculos com as políticas de fomento à economia solidária e de incentivos às cooperativas na estratégia de reindustrialização recém-lançada pelo governo brasileiro no pacote do plano Nova Indústria Brasil. Essas outras formas de organização das atividades econômicas são lançadas às margens da política econômica e do aparato regulatório, mesmo em movimentos mais progressistas como esse rompimento com a cartilha neoliberal expresso no novo plano desenvolvimentista.
  • 2
    São muitas definições possíveis para a economia solidária. Paul Singer propõe que “a economia solidária é outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual. A aplicação desses princípios une todos os que produzem numa única classe de trabalhadores que são possuidores de capital por igual em cada cooperativa ou sociedade econômica” (Singer, 2002, p. 10).
  • 3
    A economia popular pode ser definida como o conjunto de atividades realizadas direta e independentemente pelos próprios trabalhadores, com seus próprios recursos, conforme Coraggio (2011). Essa concepção evita a visão Estado-cêntrica da informalidade, e reconhece um leque ampliado de atividades que se enquadram nesse formato. Há uma sobreposição com a economia solidária, mas muito do que compõe o universo da economia popular não se caracteriza pelos processos que compõem os circuitos da economia popular, podendo existir relações de exploração, e a frequente comercialização de objetos fabricados por parte de empresas tradicionais.
  • 4
    Os trabalhos de campo cujos resultados são parcialmente apresentados neste artigo foram organizados em duas frentes de pesquisa, com entrevistas em profundidade realizadas com agentes da economia popular (camelôs e vendedores ambulantes), ativistas de movimentos sociais e funcionários públicos envolvidos nas dinâmicas relacionadas a esses agentes, ao longo do segundo semestre de 2019. Uma segunda rodada do trabalho de campo abordou o circuito da economia solidária, com entrevistas cedidas por membros de grupos e empreendimentos do setor, membros e funcionários de ONGs apoiadoras do circuito, e funcionários públicos atuantes nas políticas de fomento a essas atividades, no segundo semestre de 2022 e no primeiro semestre de 2023. Todas as entrevistas foram realizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
  • 5
    Limitar esse potencial autogestionário ao circuito da economia solidária implicaria deixar de reconhecer as formas de autogestão que existem em outras porções do universo das outras economias, e diminuir o potencial dessa contaminação positiva, considerando que as relações entre a economia solidária e a economia popular realmente existentes são difíceis, envolvem conflitos e práticas de exclusão e distanciamento mútuo.
  • Editor responsável
    Alexandre Mendes Cunha (Editor-chefe).
    Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9949-0112.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    27 Fev 2024
  • Aceito
    23 Abr 2025
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