Open-access INTENÇÃO DE ESTUDANTES DE EDUCAÇÃO FÍSICA EM TRABALHAR NO SUS

INTENT OF PHYSICAL EDUCATION STUDENTS TO WORK IN THE SUS

INTENCIÓN DE ESTUDIANTES DE EDUCACIÓN FÍSICA DE TRABAJAR EN EL SUS

Resumo

O objetivo foi verificar a intenção de atuar no SUS de estudantes de bacharelado em Educação Física de três instituições públicas do Paraná. 349 estudantes responderam questionário sobre informações sociodemográficas, percepções sobre o Sistema único de Saúde (SUS), conhecimento sobre Programas Públicos para Práticas Corporais e Atividades Físicas (PCAF) e intenção de atuação profissional no SUS, especificamente em Unidades Básicas de Saúde (UBS), hospitais que atendem SUS e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Cerca de quatro em cada 10 estudantes referiram ter intenção de atuar em ao menos uma das possibilidades analisadas: 30,4% em UBS, 27,5% em hospitais e 24,6% nos CAPS. As prevalências foram maiores entre as mulheres, entre os que referiram avaliação mais positiva sobre o SUS, entre os que conheciam programas públicos que ofereciam PCAF e naqueles que já tinham ouvido falar do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF-AB) e do Programa Academia da Saúde antes de entrar na universidade.

Palavras-chave
Educação Física; Sistema Único de Saúde; Capacitação Profissional; Capacitação de Recursos Humanos em Saúde

Abstract

The objective was to verify the intention of working in the Unified Health System (SUS) of Bachelor’s students in Physical Education from three public institutions in Paraná. 349 students answered a questionnaire about sociodemographic information, perceptions about the SUS, knowledge about public programs for physical activities and intention to work in the SUS, specifically in Basic Health Units (UBS), hospitals serving the SUS and Psychosocial Care Centers (CAPS). Around four out of every 10 students reported their intention to work in at least one of the possibilities analyzed, 30.4% in UBS, 27.5% in hospitals and 24.6% in CAPS. The prevalence was higher among women, among those who reported a more positive assessment of the SUS, among those who were aware of public programs that offered physical activities and among those who had already known other public health programs before entering university.

Keywords
Physical Education; Unified Health System; Professional Training; Health Human Resource Training

Resumen

El objetivo fue verificar la intención de trabajar en el Sistema Único de Salud (SUS) de estudiantes de Educación Física de tres instituciones públicas de Brasil. 349 estudiantes respondieron un cuestionario sobre información sociodemográfica, percepciones sobre el SUS, conocimientos sobre programas públicos e intención de actuar profesionalmente en el SUS, específicamente en Unidades Básicas de Salud (UBS), hospitales que atienden el SUS y Centros de Atención Psicosocial (CAPS). Alrededor de cuatro de cada 10 estudiantes reportaron su intención de trabajar en al menos una de las posibilidades analizadas: 30,4% en la UBS, 27,5% en hospitales y 24,6% en CAPS. La prevalencia fue mayor entre las mujeres, entre quienes reportaron una evaluación más positiva del SUS, entre aquellos que conocían los programas públicos que promovían la actividad física y otros programas de salud pública antes de ingresar a la universidad.

Palabras clave
Educación Física; Sistema Único de Salud; Capacitación Profesional; Capacitación de Recursos Humanos en Salud

1 INTRODUÇÃO

O mercado de trabalho em Educação Física possibilita inserção nos diversos âmbitos da educação formal, atividades esportivas, lazer, danças, lutas, saúde, entre outros conforme mencionam as Diretrizes Curriculares Nacionais (Brasil, 2002, 2018). Alguns marcos importantes à inserção da Educação Física enquanto profissão relevante para o SUS, se deram especialmente a partir de políticas públicas como a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) - que em sua primeira edição apontava as Práticas Corporais e Atividades Físicas (PCAF) como uma de suas ações específicas (Brasil, 2006) e em sua revisão como um de seus temas prioritários (Brasil, 2015) -, o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF-AB, Brasil, 2008), o Programa Academia da Saúde (Brasil, 2014), entre outros. Entre 2009 e 2021, houve aumento de 476% no número de Profissionais de Educação Física (PEF) no SUS em todo o Brasil, particularmente na Atenção Primária à Saúde (APS) (Vieira et al., 2023).

O reconhecimento da Educação Física como área da saúde aconteceu pela resolução 218 (Brasil, 1997) e em 2012, a resolução 229 do Conselho Federal de Educação Física definiu a Saúde Coletiva como área de especialização do PEF (CONFEF, 2012). Em 2020, a Classificação Brasileira de Ocupações acrescentou à lista o termo “profissional de educação física na saúde” indicando como atuação a promoção da saúde na prevenção primária, secundária e terciária do SUS (Brasil, 2020a). Ressalta-se a importância do SUS na melhoria dos indicadores de saúde da população brasileira ao longo de sua existência, uma vez que diminuiu as desigualdades no acesso à saúde (Viacava et al., 2018). No caso específico das PCAF, o SUS é estratégico para a diminuição das desigualdades de acesso (Crochemore-Silva et al., 2020).

Embora tenham ocorrido avanços em relação às politicas públicas de inserção de PEF na saúde pública, conteúdos relacionados especificamente ao SUS têm sido pouco abordados nos currículos da graduação em Educação Física. Alguns estudos têm mostrado que, estes conteúdos, quando aparecem nos currículos, o fazem em uma perspectiva insatisfatória em relação às especificidades do SUS (Abib; Knuth, 2021; Silva; Nicoes; Knuth, 2021; Bandeira et al., 2022; Tracz et al., 2022).

Especificamente sobre a inserção profissional de egressos do curso de Educação Física, um estudo analisou a inserção de egressos de um curso que tinha como ênfase principal a formação para atuação no setor saúde e observou que a maioria dos egressos estava inserida em atividades consideradas da área fitness, sendo baixa a inserção no contexto do SUS (Candido; Rossit; Oliveira, 2018). Outro estudo encontrou que 43% dos egressos do curso de bacharelado em Educação Física de uma universidade federal tinham a intenção de atuar em setores relacionados à atividade física e promoção da saúde (Salles; Farias; Nascimento, 2015).

Nesse contexto, conhecer melhor a intenção dos estudantes do curso de Educação Física se faz importante para auxiliar no planejamento de estratégias para a melhoria da formação profissional, contribuindo para a construção de uma formação mais alinhada aos interesses dos estudantes e as potencialidades do SUS enquanto um sistema de saúde complexo e que tem importantes princípios como universalidade, equidade e integralidade. Assim, ressalta-se que o PEF pode ser importante não apenas para a promoção da saúde e da atividade física em nível individual e comunitário, mas também tem um papel na construção de um sistema mais resolutivo, humanizado e com a oferta de cuidado integral aos usuários do SUS. Assim, o objetivo deste estudo foi verificar a intenção de atuar no SUS de estudantes de bacharelado em Educação Física de três instituições públicas do Paraná.

2 MÉTODOS

Pesquisa quantitativa com delineamento transversal e descritivo, realizada em 2019 com a intenção de incluir todos os estudantes do primeiro e do último ano do curso de bacharelado em Educação Física de três universidades públicas do Paraná: Universidade Federal do Paraná (UFPR) campus Curitiba, que possuía 75 vagas para o curso em turmas de período integral (Brasil, 2020b), a Universidade Estadual de Londrina (UEL) com três turmas noturnas e três matutinas com o total de 180 vagas (UEL, 2018) e a Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), campus Guarapuava, disponibilizando 40 vagas em uma turma de período integral (UNICENTRO, 2019).

Entrou-se em contato com as coordenações dos cursos, explicando os objetivos e métodos da pesquisa e requisitando consentimento para a realização desta. Na época, nenhum dos cursos pesquisados havia iniciado currículo novo atendendo a Diretrizes Curriculares Nacionais de 2018.

Com os ingressantes, a coleta de dados foi realizada entre março e abril de 2019, com o objetivo de investigar a visão dos estudantes com influência mínima da universidade. Com os concluintes, a coleta de dados aconteceu entre agosto e setembro de 2019, com objetivo de analisar a visão destes no início do último semestre do curso, para que os dados representassem as expectativas destes estudantes ao final do curso.

Como o intuito era incluir todos os estudantes do primeiro e do último ano, não foi realizada nenhuma técnica de amostragem probabilística, sendo convidados a participar da pesquisa todos os estudantes presentes em sala de aula durante a coleta de dados. Os estudantes foram informados sobre os objetivos e procedimentos desta coleta e, aqueles que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Aceitaram participar da pesquisa 373 estudantes, 238 ingressantes (38 da UFPR, 166 da UEL e 34 da UNICENTRO) e 135 concluintes (41 da UFPR, 73 da UEL e 21 da UNICENTRO). Como o objetivo da pesquisa foi verificar a visão dos ingressantes com mínima influência da graduação, excluíram-se os estudantes que estivessem repetindo parcial ou totalmente o primeiro ano. Assim, foram descartados 17 questionários respondidos. Outros sete questionários também foram retirados por não terem sido respondidos de forma completa, sendo considerados dados de 349 estudantes: 216 ingressantes e 133 concluintes.

Os estudantes responderam um questionário com questões relacionadas a informações sociodemográficas, percepções sobre o SUS, conhecimento sobre programas públicos para PCAF e intenção de atuação profissional no SUS.

As variáveis dependentes foram a intenção de atuação profissional no SUS, em três contextos diferentes: UBS, hospitais que atendem SUS e CAPS. Estas informações foram obtidas a partir de três perguntas: “Em relação às suas expectativas de atuação profissional, assinale a alternativa mais parecida com o que você pensa atualmente” com as seguintes opções de resposta: 1) Definitivamente não pretendo trabalhar em Unidades Básicas de Saúde; 2) É pouco provável que eu procure trabalhar em Unidades Básicas de Saúde; 3) É provável que eu procure trabalhar em Unidades Básicas de Saúde; 4) Com certeza eu vou tentar trabalhar em Unidades Básicas de Saúde; 5) Não sei responder. A segunda e a terceira perguntas seguiram esta mesma lógica e redação, sendo substituído o termo “Unidades Básicas de Saúde por “hospitais que atendem SUS” (segunda pergunta) e “Centros de Atenção Psicossocial” (terceira pergunta). Para as análises, as respostas dessas três perguntas foram dicotomizadas em ‘Pretende atuar no SUS’, agrupando-se as respostas “é provável que eu procure trabalhar...” e “com certeza eu vou tentar trabalhar em...”, e ‘Não pretende atuar no SUS’, onde foram agrupadas as outras opções de resposta.

As variáveis independentes foram informações sociodemográficas de sexo, raça/cor, onde cursou ensino médio (se em escola pública ou privada), escolaridade da mãe e escolaridade do pai. Nas questões relacionadas às percepções sobre o SUS, os estudantes responderam sobre a utilização do SUS (se tinham plano privado ou se utilizavam somente o SUS), como avaliavam o SUS, como foi o último atendimento que tiveram no SUS, se usou ou acompanhou alguém em atendimento no SUS nos últimos 12 meses. Quanto ao conhecimento sobre programas públicos para PCAF, os estudantes responderam se conheciam algum programa público que oferecia PCAF à população, se já tinha ouvido falar no NASF-AB e no Programa Academia da Saúde antes de entrar na universidade. Na época da coleta de dados o NASF-AB ainda existia. Com a criação do Programa Previne Brasil (Brasil, 2019) e com a Nota Técnica 3/2020 (Brasil, 2020c), o programa deixou de ser renovado. Contudo, em maio de 2023, a Portaria 635 (Brasil, 2023a) instituiu incentivo financeiro para equipes multiprofissionais na APS – eMulti, que são equipes formadas por profissionais de saúde de diversas áreas para atuar complementarmente às equipes da APS.

Foi realizado estudo piloto com 19 estudantes do segundo ano do curso de bacharelado em Educação Física da UEL, para verificar a compreensão dos estudantes em relação às questões e o tempo para responder o questionário. Pequenos ajustes nas perguntas foram realizados após o estudo piloto e o tempo médio de resposta foi de 20 minutos.

As respostas dos questionários válidos foram duplamente digitadas e as inconsistências encontradas foram corrigidas. Utilizou-se para as análises o Programa Statistical Package for the Social Sciences versão 19.0, empregando a regressão logística para análise dos fatores associados à intenção de atuação no SUS de maneira geral, em UBS, em hospitais que atendem SUS e em CAPS. As análises bivariadas verificaram a existência de associações brutas com cada uma das categorias das variáveis independentes, estimadas por meio do cálculo das Razões de Prevalência e seus respectivos Intervalos de Confiança (95%). Para compor as análises ajustadas, foram selecionadas as variáveis com valor de p≤0,20.

A pesquisa seguiu preceitos éticos e as normas da Resolução do Conselho Nacional de Saúde 466/12, sendo aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa das universidades participantes: UEL (CAAE 07939019.6.0000.5231), UFPR (CAAE 07939019.6.3002.0102) e UNICENTRO (CAAE 07939019.6.3003.0106).

3 RESULTADOS

A amostra foi composta majoritariamente por homens (65,9%), que se autodeclararam da raça/cor amarela/branca (70,2%), que estudaram totalmente em escola pública no ensino médio (66,8%), e cujos pais tinham até o ensino médio completo (mãe 59,4%; pai 70,8%). Sobre a utilização do SUS, 53,4% relataram que não utilizavam o SUS por ter plano privado de saúde, 43,8% avaliaram o SUS como regular, 61,9% consideraram seu último atendimento no SUS como regular/ruim/muito ruim/não sei responder; 68,4% relataram ter utilizado ou acompanhado alguém no SUS nos últimos 12 meses. Quanto ao conhecimento sobre programas públicos para PCAF, 62,4% afirmaram conhecer; 91,6% afirmaram que não conheciam o NASF-AB antes de entrar na universidade e 86,2% declararam que não conheciam o Programa Academia da Saúde antes de ingressar na universidade. Na comparação destas características entre ingressantes e concluintes, observou-se que os finalistas apresentaram uma avaliação mais positiva do SUS, bem como de sua última consulta, maior proporção de utilização ou acompanhamento de alguém em atendimento no SUS nos últimos 12 meses e conhecimento de programas públicos que oferecem atividade física à população. Nas demais características não se observaram diferenças significativas (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização dos estudantes ingressantes e concluintes segundo variáveis demográficas, de utilização e avaliação sobre o SUS e de conhecimento sobre programas públicos de PCAF. Estudantes de três universidades públicas do Paraná, Brasil, 2019. (n=349)

A prevalência de estudantes que referiu intenção em atuar pelo menos em umas das possibilidades consideradas neste estudo (UBS, hospitais que atendem SUS e CAPS) foi de 39,0%, sendo maior entre as mulheres (RPajus=2,09; IC:1,62-2,70), entre os que avaliaram o SUS como bom/muito bom (RPajus=1,64; IC:1,15-2,34), entre aqueles que utilizaram ou acompanharam alguém no SUS nos últimos 12 meses (RPajus=1,61; IC:1,14-2,27), entre os que conheciam algum programa público que oferecia PCAF à população (RPajus=1,70; IC:1,25-2,30). Também houve diferença significativa para aqueles que relataram conhecer o NASF-AB (RPajus=1,54; IC:1,11-1,12) e o Programa Academia da Saúde antes de entrar na universidade (RPajus=1,42; IC:1,04-1,94) (Tabela 2).

Tabela 2
Prevalência e razão de prevalência bruta e ajustada dos estudantes que pretendiam atuar no SUS de maneira geral, segundo variáveis demográficas, de utilização e avaliação sobre o SUS e de conhecimento sobre programas públicos de PCAF. Estudantes de três universidades públicas do Paraná, Brasil, 2019. (n=349).

Sobre a intenção dos estudantes de atuarem em UBS, a prevalência foi de 30,4%, sendo maior entre as mulheres (RPajus=2,15; IC:1,57-2,94), entre aqueles que avaliaram o SUS como bom/muito bom (RPajus=2,06; IC:1,29-3,29), os que relataram conhecer algum programa público que oferecia PCAF à população (RPajus=1,94; IC:1,32-2,85) e naqueles que responderam que conheciam o NASF-AB (RPajus=1,95; IC:1,36-2,79) e o Programa Academia da Saúde (RPajus=1,69; IC:1,20-2,39) antes de entrar na universidade (Tabela 3).

Tabela 3
Prevalência e razão de prevalência bruta e ajustada dos estudantes que pretendiam atuar em Unidades Básicas de Saúde (UBS), segundo variáveis demográficas, de utilização e avaliação sobre o SUS e conhecimento sobre programas públicos de PCAF. Estudantes de três universidades públicas do Paraná, Brasil, 2019. (n=349)

No geral, 27,5% dos estudantes responderam ter intenção de atuar em hospitais que atendem SUS. A prevalência foi maior entre as mulheres (RPajus=2,27; IC:1,62-3,18), entre aqueles que avaliaram o SUS como bom/muito bom (RPajus=1,98; IC:1,24-3,15), entre os que relataram que conheciam algum programa público que oferecia PCAF à população (RPajus=1,79; IC:1,21-2,67) e também entre os que responderam que conheciam o NASF-AB (RPajus=2,12; IC:1,42-3,15) e o Programa Academia da Saúde (RPajus=1,75; IC:1,21-2,54) antes de entrar na universidade (Tabela 4).

Tabela 4
Prevalência e razão de prevalência bruta e ajustada dos estudantes que pretendem atuar em hospitais que atendem SUS, segundo variáveis demográficas, de utilização e avaliação sobre o SUS e de conhecimento sobre programas públicos de PCAF. Estudantes de três universidades públicas do Paraná, Brasil, 2019. (n=349)

Sobre a intenção de atuar em Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), a prevalência foi de 24,6%, sendo maior entre as mulheres (RPajus=2,14; IC:1,50-3,07), entre os que avaliaram o SUS como bom/muito bom (RPajus=1,63; IC:1,00-2,68), entre os que utilizaram ou acompanharam alguém no SUS nos últimos 12 meses (RPajus=2,17; IC:1,28-3,68), entre os que conheciam algum programa público que oferecia PCAF à população (RPajus=1,87; IC:1,21-2,90), conheciam o NASF-AB (RPajus=1,64; IC:1,00-2,69) e o Programa Academia da Saúde (RPajus=1,53; IC:1,01-2,33) antes de entrar na universidade (Tabela 5).

Tabela 5
Prevalência e razão de prevalência bruta e ajustada dos estudantes que pretendiam atuar em Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), segundo variáveis demográficas, de utilização e avaliação sobre o SUS e de conhecimento sobre programas públicos de PCAF. Estudantes de três universidades públicas do Paraná, Brasil, 2019. (n=349)

4 DISCUSSÃO

Esta pesquisa teve como objetivo verificar a intenção em atuar no SUS de estudantes de bacharelado em Educação Física de três universidades públicas do Paraná. Cerca de quatro em cada 10 estudantes referiram ter intenção de atuar em ao menos uma das possibilidades analisadas: UBS, hospitais que atendem SUS e CAPS. Ao analisar separadamente a intenção de atuação em cada possibilidade, foi observada prevalência de 30,4% em UBS, 27,5% em hospitais e 24,6% nos CAPS. Houve associação semelhante nas três possibilidades de atuação analisadas, e as prevalências foram maiores nas mulheres, naqueles que referiram avaliação mais positiva sobre o SUS, entre os que conheciam programas públicos que ofereciam PCAF, que já tinham ouvido falar do NASF-AB e do Programa Academia da Saúde antes de entrar na universidade. Além disso, não foi observada associação com a etapa do curso, entre ingressantes e concluintes.

A maior prevalência de intenção de atuar em UBS (30,4%), provavelmente se deu por ser o principal local de inserção de PEF no SUS, por meio do NASF-AB e dos investimentos na APS (Vieira et al., 2023). Além disso, grande parte das residências multiprofissionais, inclusive aquelas em que PEFs são inseridos, especialmente as residências multiprofissionais em saúde da família, são vinculadas à APS (Xavier; Knuth, 2016; Araújo; Guizardi, 2021).

Sobre o interesse dos estudantes em atuar em hospitais, a prevalência foi de 27,5% e essa intenção provavelmente vem do interesse dos estudantes nas áreas de prescrição de exercício físico e reabilitação. Nas atuações de PEFs em hospitais prevalece a reabilitação, o condicionamento físico e a ginástica laboral, além da colaboração na promoção, no cuidado e na educação em saúde (Dias; Antunes; Arantes, 2014).

Em relação ao interesse em atuar nos CAPS, a prevalência menor pode ser explicada por ser o local de atuação menos conhecido. Documentos oficiais sobre o CAPS fazem pouca menção à atuação de PEFs, como o documento de 2004 do Ministério da Saúde, no qual o PEF aparece apenas na modalidade CAPS II e nas outras modalidades o PEF não é mencionado (Brasil, 2004). Já a Portaria 3.588 de 2017 inclui o PEF na modalidade CAPS AD IV em sua equipe mínima (Brasil, 2017). Sobre as justificativas das intervenções de PEFs concursados em CAPS de Goiânia, percebeu-se que no início do trabalho é comum os PEFs terem pouco entendimento sobre o propósito social do seu trabalho e não observarem sentido ao trabalho que realizam, mas isso é construído no decorrer do processo de trabalho, com a consequente integração do PEF com outros profissionais da equipe e formação continuada em saúde mental (Furtado et al.,2020).

Houve maior intenção de mulheres em atuar no SUS, observado tanto de forma geral como nas três possibilidades analisadas separadamente. Geralmente cursos voltados à área da saúde são mais procurados por mulheres que por homens e essa feminização do trabalho na saúde ocorre muitas vezes devido a atribuições de gênero em que são conferidas às mulheres características sociais como resiliência, realização de várias atividades simultâneas, paciência e a prática do cuidado (Wermelinger et al., 2010; Matos; Toassi; Oliveira, 2013; Coletivo..., 2018), o que pode explicar a maior identificação das mulheres estudantes de Educação Física pela atuação no SUS.

Outro resultado observado foi a maior prevalência na intenção de atuar no SUS entre estudantes que referiram ter utilizado ou acompanhado alguém em atendimento no SUS nos últimos 12 meses. Ainda que indiretamente toda a população brasileira utilize o SUS, este estudo analisou, nesta questão, a utilização direta ou acompanhamento de alguém em atendimento no SUS. Assim, é importante que cursos de graduação em Educação Física proporcionem aos graduandos experiências frequentes no SUS, objetivando trabalhar o conhecimento sobre a importância do sistema de saúde, o funcionamento e o processo de trabalho. Vivências de integração ensino-serviço-comunidade, por meio, por exemplo, do PET-Saúde na APS, podem possibilitar que os estudantes se envolvam em práticas de cuidado junto às equipes de saúde a comunidades, se familiarizando com especificidades do processo de trabalho, aproximando os estudantes das realidades e singularidades do SUS (Prado; Carvalho, 2016; Vendruscolo et al.,2020). Vale mencionar que em novembro de 2023 o governo federal lançou o 11º edital para que secretarias de saúde e instituições de ensino superior submetessem seus projetos ao PET-Saúde, fortalecendo a educação pelo trabalho no âmbito do SUS e o processo ensino-serviço-comunidade, contribuindo para a formação de futuros profissionais (Brasil, 2023b).

Os estudantes que avaliaram o SUS como bom/muito bom, também apresentaram maior prevalência na intenção de atuar no SUS. Embora ainda haja um imaginário negativo sobre o SUS, entre outros motivos pela intensa divulgação de suas fragilidades e pouca propagação de sua abrangência e outros pontos positivos, a experiência positiva no SUS observada neste estudo pode ter influenciado a intenção destes estudantes em atuar neste campo. Dados de estudo realizado em 2011 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) identificou que aqueles que haviam vivenciado atendimentos no SUS tinham uma avaliação mais positiva sobre este que aqueles que não haviam passado por atendimento ou acompanhado alguém nos últimos 12 meses (IPEA, 2011).

O maior interesse em atuar no SUS apresentado pelos estudantes que conheciam programas públicos que ofereciam PCAF à população indica que, ter conhecimento prévio sobre estes programas pode aumentar o interesse. Importante lembrar que nem todos os programas públicos que oferecem PCAF são vinculados ao SUS, entretanto, ampliar o conhecimento dos graduandos a respeito destes programas, bem como do NASF-AB (atual eMulti) e do Programa Academia da Saúde podem ser estratégias relevantes não só para que os estudantes tenham interesse em atuar na saúde pública, mas para que tenham conhecimento ampliado de saúde, para além da perspectiva biomédica (Manske; Oliveira, 2017). A Educação Física escolar também pode ser importante enquanto espaço para se apresentar e discutir o SUS para as pessoas, inclusive ajudar na conscientização que o acesso às PCAFs é um direito (PNUD, 2017). Neste sentido, ampliar as possibilidades de conteúdos e práticas que permitam aos graduandos conhecer como se dá o acesso aos equipamentos públicos de saúde e programas de promoção das PCAFs, poderá motivar futuros professores de Educação Física a trabalharem estes conteúdos em suas aulas na educação básica.

Mesmo não sendo encontradas diferenças na prevalência de intenção de atuação no SUS entre ingressantes e concluintes, estes últimos, apresentaram avaliação mais positiva sobre o SUS, melhor avaliação sobre o seu último atendimento, tiveram maior proporção de utilização deste nos últimos 12 meses e de conhecimento sobre programas públicos que ofereciam PCAF à população. Estes resultados podem refletir as experiências vividas pelos concluintes durante a graduação sobre a relação da Educação Física com o SUS, que os ingressantes não tiveram por estarem no início do curso. Nas três universidades participantes havia ao menos uma disciplina que trabalhava questões relacionadas ao SUS e à atuação de PEF neste contexto, sendo que em duas universidades havia pelo menos uma disciplina obrigatória e na outra apenas uma disciplina optativa. Isso reforça a importância dos currículos contemplarem conteúdos que relacionem a Educação Física com o SUS, para compreender as especificidades deste campo de atuação e fortalecer o conceito ampliado de saúde dos estudantes, além de equilibrar currículos que privilegiam conteúdos biomédicos (Manske; Oliveira, 2017; Oliveira; Gomes, 2019).

Uma das limitações desta pesquisa é ter avaliado apenas três universidades públicas em um único estado brasileiro. Essa escolha ocorreu por conveniência, já que havia parcerias com docentes destas instituições, facilitando o processo de coleta de dados. Outra limitação é a temporalidade da coleta de dados, considerando que os estudantes que participaram desta pesquisa cursavam o currículo anterior às Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física, que foram instituídas pela Resolução CNE/CES nº6 (Brasil, 2018). Recomenda-se a realização de novas pesquisas com estudantes que ingressaram no curso sob as novas diretrizes curriculares e também estudos que abordem questões relacionadas à formação e às características dos cursos, que não foi objetivo nesta pesquisa. Por outro lado, há de se destacar a originalidade do tema, visto que não foram encontradas análises que tiveram o objetivo de investigar a intenção de atuar no SUS entre estudantes de Educação Física.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No cenário pesquisado, quatro em cada 10 estudantes apresentaram intenção de atuar no SUS, sendo maior a proporção de interesse em atuar na APS (30,4%). As estudantes mulheres mostraram maior vontade em atuar no SUS, assim como aqueles que tiveram avaliação mais positiva sobre este serviço, os que conheciam programas públicos que ofereciam PCAF e aqueles que já tinham ouvido falar do NASF-AB e do Programa Academia da Saúde antes de entrar na universidade.

Considerando que a Educação Física é uma profissão que possibilita ampla atuação, pode-se considerar relativamente alta a proporção de estudantes que referiu interesse em atuar no SUS, especialmente na APS. Entretanto, a literatura tem evidenciado que a formação específica para esse contexto ainda é frágil em grande parte dos cursos de Educação Física. Assim, é possível inferir o quanto experiências sobre o funcionamento do SUS, suas singularidades e possibilidades de atuação do PEF na saúde pública são importantes para os estudantes de Educação Física, pois os resultados mostraram que avançar nesse aspecto pode fazer diferença no entendimento sobre como o sistema de saúde funciona e sobre a intenção do PEF em atuar no SUS, auxiliando também na ampliação do olhar dos estudantes acerca do conceito de saúde. Este último aspecto incorpora a universalização do SUS que pode possibilitar o acesso às PCAF enquanto direito social contribuindo para o desenvolvimento humano de todos/as, democratizando o acesso e contribuindo para a promoção da saúde da população.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • ÉTICA DE PESQUISA
    A pesquisa seguiu os protocolos vigentes nas Resoluções 466/12 e foi aprovada pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Londrina, PR, CAAE 07939019.6.0000.5231; pela Universidade Federal do Paraná, CAAE 07939019.6.3002.0102 e pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, PR, CAAE 07939019.6.3003.0106.
  • COMO REFERENCIAR
    PIMENTEL, Joamara de Oliveira; BORGES, Lucélia Justino; COUTINHO, Silvano da Silva; LOCH, Mathias Roberto. Intenção de estudantes de Educação Física em trabalhar no SUS. Movimento, v. 30, p. e30044, jan./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.139824

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  • ARAÚJO, Cássia A.; GUIZARDI, Francini L. A formação das residências multiprofissionais na APS: competências e as redes de atenção à saúde. Saúde em Redes, v. 7, n. 3, 2021. DOI: https://doi.org/10.18310/2446-4813.2021v7n3p27-40
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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    *Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    23 Abr 2024
  • Aceito
    10 Out 2024
  • Publicado
    02 Nov 2024
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Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rua Felizardo, 750 Jardim Botânico, CEP: 90690-200, RS - Porto Alegre, (51) 3308 5814 - Porto Alegre - RS - Brazil
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