Resumo
Este artigo introdutório da seção especial da revista Movimento explora perspectivas globais sobre ética no esporte, destacando que o pensamento filosófico foca em questões “abertas” e valoriza a precisão conceitual e o enfoque crítico. O texto oferece uma visão geral dos artigos da seção, abordando temas como a trajetória e as reflexões de Scott Kretchmar, pioneiro na ética esportiva; a importância dos valores culturais no kendo; as implicações éticas da inteligência artificial; o papel central das regras no esporte; questões de sextorsão e doping; e o papel da educação física e dos valores no esporte escolar como direitos fundamentais na África do Sul. Conclui enfatizando a necessidade de reflexão ética para promover um ambiente esportivo mais íntegro, inclusivo e respeitoso.
Palavras-chave
Esporte; Educação Física; Ética; Filosofia
ABSTRACT
This introductory article in the special section of the journal Movimento explores global perspectives on sports ethics, highlighting that philosophical thought focuses on “open” questions and values conceptual precision and critical inquiry. The text provides an overview of the section's articles, covering topics such as the career and reflections of Scott Kretchmar, a pioneer in sports ethics; the importance of cultural values in kendo; the ethical implications of artificial intelligence; the central role of rules in sports; issues of sextortion and doping; and the role of physical education and values in school sports as fundamental rights in South Africa. It concludes by emphasizing the need for ethical reflection to foster a more respectful, inclusive, and integrity-driven sports environment.
Keywords
Sport; Ethics; Physical Education; Philosophy
Resumen
Este artículo introductorio de la sección especial de la revista Movimento explora perspectivas globales sobre la ética deportiva, destacando que el pensamiento filosófico se centra en cuestiones “abiertas” y valora la precisión conceptual y el enfoque crítico. El texto ofrece una visión general de los artículos de la sección, abordando temas como la trayectoria y las reflexiones de Scott Kretchmar, pionero en ética deportiva; la importancia de los valores culturales en el kendo; las implicaciones éticas de la inteligencia artificial; el papel central de las reglas en el deporte; cuestiones de sextorsión y dopaje; y el papel de la educación física y los valores en el deporte escolar como derechos fundamentales en Sudáfrica. Concluye enfatizando la necesidad de reflexión ética para promover un ambiente deportivo más íntegro, inclusivo y respetuoso.
Palabras clave
Esporte; Educação Física; Ética; Filosofia
Ao redor do mundo, as abordagens às questões filosóficas variam amplamente, influenciadas tanto pela geografia e cultura quanto pela autoridade e imposições ideológicas. No entanto, o que distingue o pensamento filosófico em qualquer contexto é sua ênfase na importância da linguagem e na precisão conceitual. A filosofia busca desvendar as complexidades da vida para que possamos compreendê-las: “A filosofia desata os nós do nosso pensamento; por isso, seus resultados devem ser simples, mas o filosofar precisa ser tão complicado quanto os nós que desata” (Wittgenstein, 1967, §452). Outro traço característico é sua atenção às chamadas “questões abertas” — questões que não possuem respostas definitivas. Além disso, a filosofia não segue um conjunto padronizado de procedimentos para encontrar respostas, mas utiliza uma diversidade de formas de raciocínio lógico e argumentação. Seus avanços geralmente se manifestam na forma de “crítica”, ou seja, demonstrando que uma determinada posição ou argumento é falso ou insustentável.
Historicamente, a filosofia surgiu na Grécia Antiga, simultaneamente à democracia e ao esporte, e muitos argumentam que isso não é mera coincidência. Os três compartilham uma mentalidade semelhante: a disposição de reconhecer que você pode estar errado ou que talvez não seja capaz de superar um adversário; o apreço pela competição; a aceitação da derrota em uma disputa; o princípio da igualdade e da meritocracia; a ênfase no desenvolvimento humano; e a busca por uma Vida Boa, entendida como uma vida virtuosa. (McCoy; Martínková, 2022)
A Ética é um ramo da filosofia frequentemente associado à busca por teorias éticas gerais, como o utilitarismo, a deontologia, a ética das virtudes, a ética situacional ou a “ética do cuidado”. No entanto, a Ética Aplicada segue um caminho diferente, dando menor importância à teorização abstrata. Seu foco está na análise minuciosa e detalhada da natureza e justificativa de ações ou eventos específicos, reunindo considerações e argumentos relevantes para o caso em questão e defendendo uma posição fundamentada sobre o tema.
A Ética Aplicada do Esporte é uma área central dentro da Filosofia do Esporte, cuja importância teórica e prática não pode ser subestimada. Esta seção especial, publicada na revista Movimento, editada pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ESEFID-UFRGS), explora questões éticas que permeiam o mundo esportivo, apresentando contribuições de acadêmicos de diversas tradições filosóficas. O objetivo é oferecer uma visão abrangente dos debates atuais na Ética do Esporte, destacando a relevância do pensamento ético tanto para pesquisadores quanto para profissionais envolvidos na formulação de políticas esportivas e na tomada de decisões.
A Ética do Esporte trata do comportamento moral e das normas que orientam as práticas esportivas em suas diversas formas. Essa área de conhecimento, tanto teórica quanto prática, examina questões como fair play (jogo limpo), integridade, justiça, violência, doping e discriminação, entre outros temas relevantes que nos levam a refletir sobre os princípios morais que devem guiar a conduta de atletas, treinadores, árbitros e dirigentes esportivos. O principal objetivo da Ética do Esporte é manter uma atenção crítica sobre questões que possam comprometer a base moral do esporte, assegurando que ele continue sendo uma atividade que não apenas desafia seus participantes física e mentalmente, mas também promova valores que fortaleçam a integridade esportiva (Gardiner; Parry; Robinson, 2017) e, de forma mais ampla, contribuam para a construção de uma sociedade justa e respeitosa.
A Ética do Esporte é frequentemente discutida no contexto do “esporte competitivo”, definido de forma mais restrita, com exemplos clássicos sendo os esportes olímpicos. De acordo com os seis critérios de Parry (2023), esses esportes são caracterizados como “competições institucionalizadas e regulamentadas de habilidades físicas humanas”. A competição impõe objetivos exclusivos dentro do quadro de respeito às regras, ou seja, metas que não podem ser alcançadas simultaneamente por todos os participantes. Como a vitória de um atleta ou equipe implica a derrota dos demais, surgem várias tensões e desafios morais, e a busca pela vitória pode trazer tentações como violar regras, doping, manipulação de resultados e violência. Além disso, como as regras estabelecem uma estrutura quase legal para as competições esportivas, questões de justiça e equidade são centrais na Ética do Esporte, envolvendo temas como igualdade, discriminação, corrupção e diversos problemas relacionados à governança esportiva (ver, por exemplo, Engelman; Reppold Filho, 2021; Costa et al., 2019), incluindo a gestão democrática das federações esportivas.
Nesta seção especial, os artigos selecionados refletem a diversidade de pensamentos e abordagens sobre a Ética do Esporte, com contribuições de acadêmicos de diferentes partes do mundo, enriquecendo o debate ao trazer perspectivas globais sobre a ética esportiva. Essa pluralidade de vozes é essencial para ampliar nossa compreensão dos desafios éticos que emergem em variados contextos culturais e sociais, promovendo um intercâmbio enriquecedor de ideias entre as diversas tradições filosóficas e realidades sociais. Tudo isso converge em um objetivo comum: esclarecer a natureza e o valor do esporte.
O Artigo 1, A trajetória filosófica de Scott Kretchmar: explorando como o esporte e a atividade física significam, abre a seção com uma biografia intelectual de Scott Kretchmar, um dos pioneiros da Filosofia do Esporte desde a década de 1970. Ao traçar o desenvolvimento do pensamento de Kretchmar ao longo de mais de 50 anos de carreira, Cesar R. Torres (EUA) e Francisco Javier López Frías (Espanha/EUA) identificam quatro áreas principais de sua pesquisa: “a metafísica do jogo, dos esportes e da competição; o papel da educação física; a ética do esporte; e os aspectos espirituais e de criação de significado no esporte”. Os autores investigam as contribuições de Kretchmar em cada uma dessas áreas. Para o leitor, o texto pode ser interpretado como uma narrativa sobre o desenvolvimento desta área como um todo, o que evidencia a proeminência de Kretchmar. Destacando uma das “lições” de Kretchmar apontadas pelos autores, sublinhamos sua insistência de que as questões da Ética do Esporte não podem ser adequadamente tratadas sem uma análise prévia das questões metafísicas e conceituais. Precisamos entender a natureza do esporte antes de investigar com sucesso suas características normativas.
O Artigo 2, Um dilema sobre a internacionalização do kendo como budo – “zan-shin” japonês e “jon-shim” coreano, de Yoshiko Oda (Japão) e Kevin Krein (EUA), aborda uma controvérsia sobre valores culturais e esportivos em torno do kendo, uma arte marcial japonesa. Enquanto o judo se ocidentalizou de maneira “bem-sucedida”, tornando-se um esporte olímpico e internacional, alguns argumentam que isso resultou em mudanças significativas nos valores e cultura centrais da atividade. A questão é: o kendo deve seguir o mesmo caminho? Os autores exploram as ideias filosóficas por trás das práticas marciais japonesas (e outras práticas, como a cerimônia do chá) e demonstram que a resposta não pode ser dada sem uma investigação profunda dessas tradições. Embora defendam a disseminação e a apreciação global do kendo, os autores alertam para a importância de preservar as valiosas tradições que capturam os significados mais profundos dessa prática.
O Artigo 3, Inteligência Artificial no esporte: uma tecnologia revolucionária que deve ser manejada com cuidado, de Alberto Carrio Sampedro (Espanha), aborda um dos temas mais relevantes da atualidade: as questões éticas decorrentes do rápido crescimento da Inteligência Artificial (IA) no esporte. O autor destaca os aspectos positivos das aplicações da IA na indústria esportiva, como o aprimoramento do desempenho, o engajamento dos fãs e a geração de receitas por meio da identificação e recrutamento de talentos. No entanto, ele também explora os desafios éticos que essa tecnologia impõe à governança esportiva, alertando para o risco de enfraquecer os valores do esporte como uma atividade essencialmente humana.
Os dois artigos seguintes ilustram a centralidade das regras para a compreensão do esporte e para a apreciação do que é errado no esporte. O Artigo 4, Regras de elegibilidade no esporte, de Irena Martínková (República Tcheca) e Jim Parry (Reino Unido/República Tcheca), questiona a suposição comum de que as regras constitutivas e regulativas são as mais importantes, enquanto as regras de elegibilidade são “auxiliares” ou secundárias. Eles reconsideram o papel das regras de elegibilidade no esporte e concluem que, embora as regras constitutivas forneçam a estrutura necessária para um evento esportivo, o evento também é necessariamente estruturado por regras de elegibilidade. Dessa forma, os dois conjuntos de regras são igualmente importantes e interdependentes. Os autores concordam que a categorização de elegibilidade de atletas nunca é totalmente perfeita e, com frequência, apresenta um grau inevitável de arbitrariedade. No entanto, essa categorização é fundamental para permitir uma competição mais inclusiva e tem como objetivo reduzir injustiças e exclusões.
No Artigo 5, Subvertendo as regras no esporte, Miroslav Imbrišević (Reino Unido) questiona o que há de errado em subverter as regras do jogo, como ocorre com o uso da “falta estratégica” no futebol, uma prática que hoje parece amplamente aceita como uma artimanha inevitável. O autor argumenta que essa atitude representa um erro conceitual, pois transforma elementos transcendentais do jogo – as próprias condições que permitem a sua existência – em partes do jogo em si. Os jogadores que agem dessa forma estão jogando de maneira autocontraditória, pois minam os próprios fundamentos do jogo, dos quais todos dependem para que ele aconteça. Como muitos bons argumentos filosóficos, este é simples, mas poderoso. Imbrišević demonstra claramente o que está errado com essa prática. O problema, no entanto, é que alguns jogadores, treinadores e dirigentes não estão preocupados com a integridade do jogo em si, mas sim com a vitória – e, para alcançar esse objetivo, fazem uso de qualquer meio, mesmo que seja às custas do próprio espírito do esporte.
O Artigo 6, Sextorsão no esporte: uma abordagem ética aplicada à conduta indevida, é inovador. É o primeiro artigo a descrever e avaliar a natureza e a gravidade da “sextorsão” no esporte, definida como “o abuso de poder para obter um benefício ou vantagem sexual”. Incorporando evidências empíricas originais de 49 países, Whitney Bragagnolo (Canadá/Países Baixos) e Yaneí Lezama (México/Canadá) chamam nossa atenção para a importância de identificar casos de sextorsão, já que pode escapar das definições legais de “violência” ou “corrupção”. Elas enfatizam o papel crucial do exercício de poder nas relações esportivas, em sua análise do conceito de sextorsão; e isso revela as normas de consentimento e autonomia que são violadas. Assim, mesmo onde disposições legais explícitas não são violadas, a gravidade da sextorsão é exposta. Este é um exemplo clássico das capacidades de uma abordagem filosófica. Todos podemos ver que a sextorsão é errada – mas dizer exatamente o que é e por que é errada requer pensamento filosófico.
O Artigo 7, Uma interpretação da literatura brasileira sobre doping no esporte, de Marcus Campos, Odilon José Roble e Alberto Reinaldo Reppold Filho (todos do Brasil), oferece uma análise da pesquisa brasileira sobre doping e antidoping no esporte. Os autores oferecem uma análise teórica da produção acadêmica publicada no país até o momento, utilizando um modelo consolidado para interpretar argumentos sobre o doping no esporte. Além disso, avaliam os pontos fortes e as limitações da pesquisa brasileira, com o objetivo de posicioná-la no contexto mais amplo da literatura internacional sobre doping no esporte.
No Artigo 8, Educação física, esporte escolar e valores olímpicos como direitos fundamentais na África do Sul, Marion Keim (África do Sul) reúne diversas perspectivas ao analisar a oferta de esporte e educação física para crianças e jovens no país. Com base em um estudo de métodos mistos – que inclui pesquisa qualitativa, dados de levantamentos, entrevistas e estudos focais – a autora articula argumentos inspirados na filosofia do Olimpismo e na teoria dos direitos humanos para sustentar políticas públicas. Keim defende a revitalização da educação física no currículo escolar, uma abordagem baseada em valores para a educação moral por meio do esporte e a regulamentação de programas de “esporte para o desenvolvimento e a paz” realizados por organizações não governamentais. O artigo conclui com propostas práticas para reformas legislativas e organizacionais, treinamento e desenvolvimento profissional, além de investimento em infraestrutura, recursos e instalações.
Para aqueles leitores não familiarizados com a literatura da Filosofia do Esporte, esperamos que encontrem nesta seção especial algum tema ou abordagem que lhes sirva como ponto de partida para pesquisas adicionais nesta área. A Filosofia do Esporte pode ajudá-los a esclarecer para si mesmos questões relacionadas ao esporte, mas também pode levar a um diálogo mais profundo com atletas ou treinadores (por exemplo, ver Mareš, 2023). Para aqueles que já estão familiarizados, esperamos que esses artigos inspirem debates produtivos e novas pesquisas sobre a direção ética do esporte no mundo contemporâneo. Além disso, como uma subárea da “Filosofia Aplicada”, estamos (como sempre) focados em propostas positivas e recomendações para políticas. Precisamos das melhores pesquisas empíricas para informar nossas decisões; mas a pesquisa empírica não é suficiente: todas as recomendações e propostas são normativas. Isso significa que é logicamente impossível passar diretamente dos fatos para conclusões sobre políticas; o pensamento ético é um componente necessário na tomada de decisões.
A filosofia introduz uma certa lentidão ao esporte, que geralmente busca ir “mais rápido, mais alto, mais forte.” Este enfoque é especialmente adequado para momentos de recuperação, quando a prática esportiva dá uma pausa e há tempo para refletir e deliberar sobre o que foi feito e sobre alternativas de como algo poderia ser feito de outra maneira (Geisz, 2022; Martínková; Andrieu; Parry, 2022). Esperamos que esses artigos funcionem como um guia para uma prática esportiva mais ética e reflexiva, promovendo uma transformação positiva entre aqueles envolvidos no esporte.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
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COMO REFERENCIAR
PARRY, Jim; MARTÍNKOVÁ, Irena; REPPOLD FILHO, Alberto Reinaldo. Ética do Esporte ao redor do mundo. Movimento, v. 30, p. e30051, jan./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.143568
REFERÊNCIAS
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Editado por
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira**Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.
