Resumo
Atualmente, acompanhamos uma intensificação no processo migratório de futebolistas brasileiras para o contexto europeu. Diante disso, esta pesquisa objetivou problematizar a migração e as possibilidades de carreira das futebolistas ítalo-brasileiras que migraram para o futsal italiano. O corpus empírico do estudo constitui-se de cinco “entrevistas compreensivas” com futebolistas que atuaram na Série A do futsal feminino italiano, além do uso de fontes documentais e digitais. A pesquisa mapeou um elevado número de brasileiras nas últimas sete edições da competição: 27 em 2016; 37 em 2017; 43 em 2018; 37 em 2019; 31 em 2020; 40 em 2021 e 41 em 2022. Concluímos que, apesar de o futsal feminino italiano representar uma oportunidade valorizada pelas futebolistas brasileiras, persistem adversidades que dificultam as possibilidades de essas atletas migrantes construírem uma carreira sólida.
Palavras-chave
Futsal feminino; Migração; Itália; Carreira
Abstract
Currently, there has been an intensification of the migration of Brazilian female football players to Europe. This study aimed to critically examine the migration and career opportunities of Italo-Brazilian players who moved to Italian futsal. The empirical corpus of the study consists of five “in-depth interpretive interviews” with footballers who played in the Italian women’s futsal Serie A, as well as the use of documentary and digital sources. The research identified a substantial number of Brazilian players across the last seven editions of the competition (27 in 2016; 37 in 2017; 43 in 2018; 37 in 2019; 31 in 2020; 40 in 2021; and 41 in 2022). We conclude that, although Italian women’s futsal represents a valued opportunity, various adversities persist that hinder these migrant athletes’ ability to build a solid career.
Keywords
Women’s futsal; Migration; Italy; Career
Resumen
Actualmente observamos una intensificación en el proceso de migración de futbolistas brasileñas al contexto europeo. Este estudio tuvo como objetivo problematizar la migración y las posibilidades de carrera de las futbolistas ítalo-brasileñas que migraron al futsal italiano. El corpus empírico del estudio se compone de cinco “entrevistas en profundidad” con futbolistas que han jugado en la Serie A del futsal femenino italiano, además de utilizar fuentes documentales y digitales. La investigación identifico un número elevado de brasileñas en las últimas siete ediciones de la competición (27 en 2016; 37 en 2017; 43 en 2018; 37 en 2019; 31 en 2020; 40 en 2021 y 41 en 2022). Concluimos que el futsal femenino italiano representa una oportunidad valorada, pero persisten adversidades que dificultan las posibilidades de que estas atletas migrantes construyan una carrera sólida.
Palabras clave
Futsal femenino; Migración; Italia; Carrera
1 INTRODUÇÃO
Em novembro de 2022, jogadoras de diferentes nacionalidades1 divulgaram um vídeo no qual reivindicam a instauração de um Mundial de Futsal Feminino reconhecido pela FIFA (Jogadoras..., 2022). No vídeo, a presidente da AJFSF, Natalia Orive, declarou: “Em setembro de 2021, nos dirigimos à FIFA pelo maltrato e abandono público de jogadoras de futsal. Um ano depois, continuamos sem respostas oficiais. Estamos reunidas pela primeira vez na história para denunciar publicamente o trato discriminatório”2. Essa manifestação ocorreu em um contexto no qual, desde 2015, a FIFA, que gerencia o futsal feminino, havia organizado duas edições da Copa do Mundo de Futsal masculino, mas nenhuma do feminino (Dislascio, 2022). Em 2024, a FIFA confirmou a realização da primeira edição da Copa do Mundo Feminina de Futsal, que foi disputada de 21 de novembro a 7 de dezembro de 2025 (FIFA, 2025)3.
No Brasil, o futebol e futsal femininos foram por muito tempo proibidos. Na década de 1940, o Conselho Nacional de Desportos (CND) instituiu o Decreto-Lei nº 3.199/41, que proibia às mulheres a prática do futebol, futsal e outros esportes considerados "viris". Ancorada em discursos que associavam as mulheres à maternidade e aos afazeres domésticos (Goellner, 2005; Almeida, 2018), a proibição teve alcance nacional e se estendeu até 1979, apesar de práticas de resistência terem ocorrido em diferentes lugares (Rigo et al., 2008; Cunha, 2024)4.
No contexto pós-proibição do futebol feminino brasileiro, um dos fenômenos que tem ganhado relevância, principalmente a partir do século XXI, é a migração de futebolistas brasileiras, tanto de futebol de campo quanto de futsal. Apesar de suas particularidades, esse movimento segue a lógica já trilhada pelo futebol masculino brasileiro (Damo, 2005; Tedesco, 2014) de "imigração de especialistas" (Rial, 2006).
Para as mulheres, a busca por uma carreira5 profissional parece ser um dos principais fatores que as incentivam a sair do país (Souza Júnior, 2013; Almeida, 2018). No futebol de campo, muitas procuram melhores oportunidades nos Estados Unidos da América, nas ligas francesa, inglesa e espanhola, entre outras (Pisani, 2014; Pessoa; Scaciotti, 2023). No futsal feminino, a predominância está no contexto europeu, com destaque para países como Itália, Espanha e Portugal.
A relevância desta pesquisa reside em abordar a migração no futsal feminino, uma prática esportiva emergente que carece de maior atenção acadêmica. O objetivo principal do estudo foi problematizar o processo de migração, a profissionalização e as possibilidades de carreira das futebolistas brasileiras que migram para atuar na Série A do futsal italiano. Além disso, a pesquisa buscou mapear a distribuição dessas atletas transnacionais nas equipes italianas e analisar o estado da profissionalização do futsal feminino naquele país.
2 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
O estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa que utilizou como suporte empírico as entrevistas compreensivas (Ferreira, 2014). Além disso, foram empregadas fontes documentais e publicações veiculadas nas redes sociais, que se entrelaçaram com as informações orais coletadas.
A "entrevista compreensiva" é um procedimento metodológico que valoriza o cruzamento de fontes de naturezas distintas: dessa forma, ela pode ser caracterizada como uma metodologia que tangencia diferentes abordagens qualitativas, como a Etnografia e a História Oral. Essa conexão é particularmente relevante se considerarmos a História Oral como um campo metodológico interdisciplinar, que se baseia no uso de fontes orais (Montenegro, 2010; Portelli, 2010; Thompson, 1992).
O corpus empírico desta pesquisa constitui-se das entrevistas (propriamente ditas) e também das fontes que produzimos a partir dos diálogos e das trocas de mensagens que realizamos com as entrevistadas através das suas redes sociais pessoais (Instagram). Somado a esse material também fizemos uso de fontes documentais e sites. O principal site utilizado para realizar o mapeamento das futebolistas foi o da Divisione Calcio a 5, entidade responsável pelo campeonato nacional de futsal de mulheres na Itália.
Posteriormente, construímos uma rede de entrevistadas composta por cinco futebolistas brasileiras que, em 2022, estavam atuando na Série A do futsal italiano. Para melhor contemplar a diversidade existente entre elas, selecionamos jogadoras de distintas regiões e de diferentes equipes que atuavam na Itália há, no mínimo, dois anos. Todas as entrevistadas possuíam um considerável "capital futebolístico" (Damo, 2005), com certo reconhecimento no futsal feminino brasileiro e italiano. Três delas tiveram passagem pela seleção brasileira e duas pela seleção italiana.
Além das entrevistas, acompanhamos o Instagram das cinco entrevistadas. Essa rede social é onde elas costumam compartilhar fotos e vídeos pessoais, imagens de suas viagens, treinos e jogos. As entrevistas, que totalizaram cinco, foram realizadas remotamente com a permissão das participantes, sendo posteriormente gravadas e transcritas.
O quadro abaixo mostra alguns aspectos da biografia das cinco futebolistas que entrevistamos6:
3 A TRAJETÓRIA DE FUTEBOLISTAS BRASILEIRAS NO FUTSAL FEMININO ITALIANO
A migração esportiva pode ocorrer dentro do próprio país, entre nações do mesmo continente e entre continentes diferentes (Maguire, 1994). Entretanto, a maior parte “os jogadores naturais de países onde os clubes não são financeiramente bem-dotados, emigram para clubes europeus mais ricos” (Nolasco, 2017, p. 60).
Alcázar assinala que o processo de migração de futebolistas brasileiras do futsal para a Europa teve início a partir de 2005, especificamente para o Futsi Atletico Navalcarnero, importante clube da Primeira Divisão do futsal feminino espanhol, ali as brasileiras ficaram conhecidas por “su nível superior al de las españolas. Son de las que ganan partidos” (Alcázar, 2005, parágrafo 1). Em 2007 ocorreu algo similar para o futsal feminino italiano, mais especificamente para o Futsal Preci12. Esse acontecimento ficou conhecido como o “Il miracolo sportivo che cambiò il futsal femminile”13 (Scardicchio, 2022, s.p).
Nos últimos anos acompanhamos uma intensificação da migração de futebolistas mulheres de futsal para o continente europeu, principalmente, para a Espanha14 e para a Itália. No quadro 2, apresentamos um levantamento da participação das futebolistas brasileiras nas edições de 2016 a 2023 da Série A italiana.
A tabela acima mostra que, na temporada de 2016-2017, 27 brasileiras estavam distribuídas entre 9 equipes. Esse número cresceu para 37 em 13 equipes na temporada de 2017-2018. Já em 2018-2019, eram 43 jogadoras em 14 equipes.
Houve uma leve queda na edição de 2019-2020, com 37 brasileiras em 13 equipes, e novamente em 2020-2021, que contou com 31 jogadoras em 9 equipes, em 2021-2022, foram 40 brasileiras em 11 das 12 equipes que disputaram a competição, apenas a equipe Padova não contando com brasileiras. Em 2022-2023, novamente 40 jogadoras brasileiras estiveram presentes em 11 das 14 equipes que disputaram o campeonato. Essas futebolistas estavam atuando em equipes distribuídas nas diferentes regiões do território italiano15.
As atletas que saem do Brasil em busca de novas oportunidades na Itália fazem parte de um fluxo migratório contemporâneo que abrange trocas culturais, econômicas e afetivas (Zanini; Assis; Beneduzi, 2013). Em "um mundo em que as distâncias diminuíram” (Zanini; Assis; Beneduzi, 2013, p. 2) a transição de uma carreira nacional para uma transnacional torna-se uma possibilidade para jogadoras originárias de países com poucas opções profissionais no esporte (Agergaard; Ryba, 2014).
Na Itália, de forma semelhante ao ocorrido no Brasil, as competições de futsal praticadas por mulheres tiveram início oficial a partir de 1992. Naquele período, os campeonatos consistiam em disputas regionais, distribuídas do norte ao sul do país. Nessas competições, as oito melhores equipes disputavam o chamado Final Eight, uma etapa de jogos eliminatórios que coroava o campeão nacional (Scardicchio, 2022).
Com o crescimento do futsal feminino na Itália, os dirigentes do Futsal Preci, Damiano Basile e seu pai, Raffaele Basile, em 2007 organizaram uma "peneira" na cidade de Chopinzinho, Paraná e selecionaram seis futebolistas brasileiras, todas descendentes de italianos, uma exigência relacionada às regras de imigração da época, (Scardicchio, 2022). Na temporada seguinte, em 2008, os gestores da equipe de Preci decidiram investir também em futebolistas argentinas (Scardicchio, 2022).
A importação de jogadoras não europeias gerou controvérsias no futsal italiano. Assim, a federação italiana de futsal restringiu a participação de estrangerias a uma jogadora extracomunitária e mais cinco com dupla nacionalidade por equipes16.
Jociane Neckel (2022), uma das primeiras a imigrar para jogar no Futsal Preci, relatou que o processo para conseguir os documentos de dupla cidadania foi difícil: "Eu não conseguia saber de onde meu avô era na Itália, eu sabia o nome dele, mas não sabia de que cidade, não sabia nada". Então:
Mandei essa informação para eles na Itália, os que estavam me convidando pra jogar, e eles mandaram uma carta para o padre na igreja, porque na época era na igreja que eles tinham os documentos, pedindo se tinha nascido lá um “fulano de tal”, com tal idade. Daí procuraram nos livros e responderam que sim, que era meu trisavô que tinha nascido lá, com tudo. Então conseguimos
(Neckel, 2022).
Superadas as adversidades relacionadas à documentação, as primeiras futebolistas que emigraram vivenciaram episódios de preconceito por parte de alguns colegas (Scardicchio, 2022), principalmente pela disputa entre as colegas de equipes e também com as adversárias: “porque, como eu te falei no início, a gente fazia 20, 30 gols a cada partida nelas. E levamos “xingão”, macaco, assim, ‘brasileira, banana, macaco’”17 (Neckel 2022). Todavia as demais futebolistas relataram que foram bem recebidas, Luciléia Minuzzo (2021) destacou que: “eles gostam muito das brasileiras aqui, né? Até porque eles têm aquela imagem de ‘ah, brasileiro joga bem, sabe jogar’, então acaba que eles se apaixonam”.
A chegada de estrangeiras alavancou a modalidade no país e gerou uma reformulação no futsal italiano. Em 2011/12 a principal competição deixou de ser um campeonato regionalizado e passou a ser nacional, denominado de Serie A18. O novo formato de disputa impulsionou as equipes a contratarem mais futebolistas brasileiras, “tem muitas brasileiras aqui [...], todo time tem uma ou duas brasileiras, ou até mais, como é o caso do meu time aqui, que tem cinco”, diz Minuzzo (2021). Inicialmente, na temporada de 2007, eram apenas seis brasileiras (Scardicchio, 2022), em 2023 são mais de 40, distribuídas em 11 das 14 equipes que compuseram a grade competitiva da temporada 2022/23 (Tuttocampo, 2023).
Para auxiliar na inserção das futebolistas estrangeiras na cultura italiana, alguns times investem em aulas de italiano para as não nativas, outros, apostam em contratar mais de uma jogadora (e/ou membros da comissão técnica) com mesma nacionalidade. Estratégias que procuram facilitar a construção de redes de apoio mútuos entre as futebolistas estrangeiras, algumas compartilham a própria moradia. Ao estudar os futebolistas homens, Rial (2008, p. 55) aponta que a “constituição de redes de companheiros” costuma ser utilizada para auxiliar no êxito das migrações de jogadores. Agergaard e Ryba, (2014) também destacam a importância dessas redes que atuam como facilitadoras das interações sociais dos atletas transnacionais.
As estratégias para captação de jovens futebolistas costumam ocorrer através de um processo de garimpagem. Bianca Castagnaro, por exemplo, que atua na Itália desde 2016, relembrou como foi o seu caso: “você tem sobrenome italiano, né? [...] pelo seu sobrenome, você tem sim [...], eu não vou te cobrar nada, se caso a gente conseguir fazer sua cidadania. Posso começar a te oferecer para alguns clubes europeus?” (Castagnaro, 2023). No caso de Castagnaro, os agentes cuidaram de todos os procedimentos legais para a aquisição de dupla nacionalidade e migração, além das negociações diretas com a equipe de futsal Braganze.
Como o futsal feminino não movimenta grandes montantes econômicos muitas jogadoras assumem a responsabilidade por agenciar suas próprias carreiras. Esse foi o caso de Bianca Castagnaro: "Então, a primeira vez que eu vim foi a agência que me ofereceu [...], depois dali os clubes vinham diretamente falar comigo, daí a gente já entrava nessa questão de contrato" (Castagnaro, 2023). A transferência de Vanin para o futsal italiano deu-se de forma similar à de Castagnaro: “Um espanhol que trabalha pro Kick Off, [...], assistiu (virtualmente) a jogos da Taça Brasil e comentou para o clube que tinha interesse de me levar pra lá” (Vanin, 2023).
Outras vezes a contratação pode acontecer através das redes de contatos, amigos e conhecidos. Minuzzo (2021) contou que foi incentivada por um amigo que disputava a liga masculina de futsal profissional italiana: “onde esse meu amigo jogava também tinha o feminino, aí ele falou [...], como uma primeira experiência: ‘vem pra cá, porque aí tu conheces e sabes como que é o campeonato’” (Minuzzo, 2021). O processo de transferência de Ana Sestari, em 2015, se assemelha ao de Minuzzo. Segundo ela, um amigo jornalista lhe informou que a janela de transferência estava aberta e ela mesma fez contato diretamente com Everaldo, treinador do Portos19.
Ao migrarem para o futsal italiano muitas futebolistas projetam construir uma carreira de destaque internacional. Nesse sentido, chegar à seleção nacional de seu país de nascimento (Brasil), ou da seleção italiana, constitui-se em um dos objetivos mais almejados pelas futebolistas Ítalo-brasileiras.
A importância de representar a seleção italiana foi ressaltada pela futebolista ítalo-brasileira transnacional, Gaby Vanelly, (Kick Off C5). Gaby joga na Itália desde 2018 e em 2022 foi convocada para representar a seleção de futsal italiana pela primeira vez: Gaby ressaltou que “[...] foi um mix de satisfação, de alegria e de muitas emoções”. E, acrescentou: “Quero carregar por anos essa camisa e representar da melhor forma possível, e farei de tudo para ganhar títulos com ela”, entrevista realizada por Christopher Henrique (2022), do site Torcedores20.
Oficialmente constituída em 2015, a Azzurra, seleção de futsal feminino italiana, contou com futebolistas ítalo-brasileiras, desde a sua primeira formação. Em um levantamento feito a partir das fontes do site da Federazione Italiana Giuoco Calcio (FIGC), constatou-se que de 2015 até 2023, doze ítalo-brasileiras tiveram passagem pela seleção italiana21 (FIGC, 20--).
A maior parte das futebolistas ítalo-brasileiras consideram a convocação para a seleção italiana um reconhecimento de seu “capital futebolístico”22 (Damo, 2005). Como evidenciou Bruna Borges23, em entrevista concedida ao Globo Esporte de Prudente em 2009: “Eu só consigo agradecer. Aqui (na Itália) existe reconhecimento do futsal feminino. Me sinto importante e espero crescer cada vez mais. Quem sabe não aparece uma chance na Seleção Brasileira, na quadra”. Bruna jogava pela equipe de Montesilvano quando foi convocada pela Itália pela primeira vez, em 2015.
Assim como Bruna, Renata Adamatti24, também mostrou certa satisfação pelo reconhecimento que teve: “[...] não foi uma escolha fácil, pois representei a vida inteira o Brasil. Sempre foi meu sonho. A Itália me acolheu e me deu essa oportunidade. Eu estava lá há quatro anos e me sentia representando a seleção italiana. Decidi, porque a Itália está no meu coração também”25
Tanto Bruna quanto Renata evidenciam uma subjetividade/identidade ítalo-brasileira (Hall, 2006) reconfigurada pelo futebol. Essa subjetividade de atleta transmigrante é um fenômeno bastante comum entre futebolistas homens que defendem seleções de países distintos de seus locais de nascimento (Rigo et al., 2023).
Se tomarmos como referência 2007, ano em que as primeiras futebolistas de futsal brasileiras emigraram para a Itália (Scardicchio, 2022)26 e os dados que levantamos, é visível o aumento do número de futebolistas ítalo-brasileiras que passaram a atuar na Itália. A chegada dessas atletas transmigrantes qualificou o futsal feminino italiano, modalidade que, com frequência, era caracterizada como um esporte para aquelas que "pararam de jogar futebol de campo, de quem não aguenta mais jogar campo e vai jogar futsal", Neckel (2022)
4 PROFISSIONALIZAÇÃO DO FUTSAL DE MULHERES ITALIANO: AVANÇOS E CONTRADIÇÕES
No Brasil um grande número de homens têm a possibilidade de ter o futebol como uma opção de carreira profissional (Marques; Marchi Júnior, 2021), mas, para as mulheres essa possibilidade ainda é bem mais difícil, seja no futebol ou no futsal. Souza e Martins (2018) constataram que mais de 95% das atletas que disputaram o campeonato paulista de futsal de 2015 — uma das competições mais estruturadas da modalidade no país — não possuíam nenhum tipo de contrato ou vínculo formal de trabalho. Apesar de ser uma exigência prevista na legislação brasileira (Brasil, 1998)27.
Ciente da realidade do futebol feminino brasileiro Vanin (2023) ressaltou: “acredito que quem vive disso, realmente escolhe viver, não vai escolher viver no Brasil, né? ”. Nessa mesma perspectiva Minuzzo ressalta: "recebia, mas nem lembro quantos meses agora, mas acho que 11 meses, acabava que em dezembro, janeiro, que era período de férias, a gente não recebia". E, acrescenta: "não tinha um contrato profissional". Minuzzo (2021). Na mesma linha, Castagnaro (2023) comentou: "no Brasil eu nunca tive um contrato profissional. A gente fazia no ‘boca a boca', [...] e muitas vezes por telefone".
Nesse cenário de não profissionalização do futsal feminino brasileiro28, jogar na Europa se tornou uma alternativa para algumas futebolistas (Tedesco, 2014). No contexto europeu, países como Espanha29 e Itália têm se destacado como destinos preferidos pelas atletas brasileiras. Neckel (2022) destacou que “no início, nenhuma brasileira queria vir para a Itália [...], queriam ir tudo para a Espanha”. A Itália passou a figurar como uma boa opção a partir de 2011, quando o campeonato de futsal feminino deixou de ser regido por comitês regionalizados e passou a ser administrado pela Divisione Calcio a 530. A partir desse momento, o campeonato italiano tornou-se uma competição nacional concisa, formado por duas divisões principais, a Serie A e a A2.
A Divisione Calcio a 5 impôs uma série de normas para a disputa da competição, como a exigência de quadras fechadas. Neckel (2022) ressaltou que a chegada de futebolistas brasileiras ajudou a impulsionar e a reconfigurar o futsal italiano: “então o processo foi assim: quando alguns times começaram a ver que as brasileiras são melhores, diziam: ‘eu também quero uma, eu também quero uma’. E assim foi que o futsal explodiu aqui na Itália” (Neckel, 2022).
Essa busca pelas melhores futebolistas deu-se em paralelo a algumas exigências que foram estabelecidas pela Federação Italiana de Futsal, que incidiram na relação contratual estabelecida entre atleta e equipe/clube. Uma dessas exigências, presente no regulamento da Serie A, estabeleceu que todas as equipes seriam obrigadas a protocolar na Federação Italiana o contrato estabelecido com cada atleta:
Os contratos de trabalho esportivo e os contratos de aprendizagem dos jogadores/jogadoras devem ser depositados, por conta da sociedade, concomitantemente ao pedido de inscrição e, em todo caso, de acordo com as previsões dos Acordos Coletivos. O depósito dos referidos contratos deve ser feito pela sociedade junto à Divisão de Futebol de Salão, com comunicação escrita simultânea ao/à jogador/jogadora. Caso a sociedade não providencie o depósito dentro dos prazos, tal cumprimento poderá ser feito pelo jogador/jogadora dentro de 15 dias após o vencimento dos referidos prazos. O depósito após os prazos previstos no presente parágrafo não é permitido e não será aceito
(FIGC, 2025)
No contrato estabelecido consta o salário mensal e o tempo de filiação entre atleta e clube. Essa medida tornou-se um atrativo para as futebolistas brasileiras acostumadas com acordos informais. Minuzzo (2021) destacou a importância de um contrato protocolado na Federação pois, [...] caso der algum problema, tu acionas a Federação e aí o clube é obrigado a te pagar”. Sobre a importância da implementação de contratos oficiais no futebol de mulheres, Fernanda Haag (2018) denuncia que a contratação verbal, que predomina no Brasil, deixa as atletas em uma situação de dependência da “boa fé” dos empregadores, e sempre existe o risco do não cumprimento do que foi verbalmente acordado.
Todavia, apesar da exigência de um contrato protocolado na Federação, os acordos informais continuam existindo no futsal italiano. Vanin (2023) exemplificou: "se eu pedir a luz paga, eles não colocam direto nesse contrato que vai para a Federação, aí é um contrato meio que verbal pra gente colocar esse 'algo a mais'". Esse "algo a mais" possui certa tradição no processo de profissionalização esportiva e costuma ser utilizado para auxiliar atletas que não possuem uma alta remuneração (Souza; Martins, 2018).
Similar ao que existe no futebol de homens31, há no futsal italiano de mulheres a prática de acordar a possibilidade de prêmios extras por conquistas. “Aí você fala, tá, eu quero esse x, mas quero tanto se eu ganhar o scudetto italiano, tanto se eu ganhar a Coppa Italia e mais tanto uma outra coisa” Castagnaro (2023). Entretanto esses acordos nem sempre são cumpridos: “a gente já ganhou mais de uma vez e ganha zero. Zero de dinheiro. Então não tem como se manter” (Neckel, 2022).
Entre as exigências contratuais há uma cláusula referente à idade das atletas, que favorece mais a equipe/o clube do que as futebolistas. Tal cláusula estipula que, no caso de a jogadora que assinar um contrato com uma equipe que disputa a Série A possuir menos de 25 anos, essa atleta ficará vinculada a essa equipe até completar 25 anos. “É como se tu virasses adulta a partir dos seus 25 anos e aí tem o direito de escolher para onde vai”, comenta Vanin (2023)32.
Outra cláusula que não favorece as futebolistas trata dos casos de falência das equipes. A cláusula estipula que em caso de falência, a equipe fica eximida de cumprir as obrigações contratuais. Se isso ocorrer, "aí você perdeu, porque falência é falência" Castagnaro (2023).
Essas contradições e fragilidades do futsal italiano feminino causam uma série de incertezas e angustias coletiva que, como denunciou Ana Sestari (2022), estende-se ao pós-carreira:
A gente sabe que a carreira é curta, é uma carreira que se tu não constrói nada ou não tem nada guardado, [...] não temos carteira assinada, não temos nada. Temos contrato depositado na Federação, mas nada que você conte como aposentadoria, então, para a minha vida, vou trabalhar até meus 85 anos.
Entretanto, apesar das inúmeras dificuldades para construir uma carreira no futsal italiano, as cinco ítalo-brasileiras que entrevistamos avaliaram que mesmo assim, o futsal italiano feminino é uma oportunidade mais promissora do que o brasileiro: “Se eu pensar financeiramente é aqui, não existe outro país que pague como aqui”, Ana Sestari (2022). “A Itália compensa mais pela questão financeira” (Vanin, 2023).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Itália se destaca como um dos países mais procurados pelas futebolistas brasileiras de futsal. Nosso estudo evidenciou que, na temporada de 2022/2023, por exemplo, a Série A contou com 40 brasileiras distribuídas em 14 equipes. De acordo com as futebolistas entrevistadas, essa procura se deve, principalmente, às melhores possibilidades de construir uma carreira como futebolista do que no Brasil. As atletas também ressaltaram que atuar na Série A do futsal italiano representa agregar mais "capital futebolístico" às suas carreiras.
Este estudo também nos mostrou a pertinência e a necessidade de outras pesquisas que tratam do futsal feminino Italiano. Como, por exemplo, estudos que tratam das 48 equipes que compõem a Série A2 do futsal italiano33. Ou ainda, de pesquisas que abordem a migração de futebolistas para aquelas nações que se consolidam como receptoras de futebolistas brasileiras de futsal, como é o caso da Espanha, Rússia e Portugal. (Ávila, 2022; Vecchioli, 2023).
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REFERÊNCIAS
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