Open-access Formação no bacharelado em Educação Física sob a ótica sociocultural e pedagógica

Education and training in the bachelor’s degree in Physical Education from a sociocultural and pedagogical perspective

Formación en el grado en Educación Física desde la perspectiva sociocultural y pedagógica

Resumo

Sob o olhar das subáreas Sociocultural e Pedagógica, esta revisão mapeou e analisou a produção científica que aborda a formação no Bacharelado em Educação Física a partir de perspectivas socioculturais e pedagógicas, buscando identificar tendências temáticas, referenciais teóricos mobilizados e lacunas presentes na literatura. O mapeamento ocorreu nos bancos de dados Google Acadêmico e SciELO, entre janeiro de 2002 e maio de 2024. Ao aplicarmos critérios de inclusão e exclusão, realizarmos leitura exploratória e analítica, 30 estudos foram elegíveis. Sistematizamos os resultados a partir de descritores gerais, a saber: “Título do Trabalho”; “Autoria”; “Ano”; “Tipo do trabalho”; “Periódico Publicado”; “Subárea temática. A revisão apontou para incipiência de produções voltadas à pesquisa da formação cuja perspectiva nos interessa: suas dimensões éticas, políticas e estéticas no campo da experiência e subjetividades que perpassam o cotidiano formativo dos sujeitos.

Palavras-chave
Educação Física; Bacharelado; Ensino Superior; Revisão de Literatura

Abstract

From the perspective of the Sociocultural and Pedagogical subfields, this review mapped and analyzed the scientific literature addressing education and training in the bachelor’s degree in Physical Education from sociocultural and pedagogical perspectives. The aim was to identify thematic trends, the theoretical frameworks employed, and gaps in the existing literature. The mapping was conducted in the databases Google Scholar and SciELO between January 2002 and May 2024. After applying inclusion and exclusion criteria and carrying out an exploratory and analytical reading, 30 studies were deemed eligible. The results were systematized using general descriptors, namely: “Title of the Study,” “Authorship,” “Year,” “Type of Study,” “Journal of Publication,” and “Thematic Subfield.” The review points to a scarcity of studies focused on research into professional education and training from the perspective addressed here, particularly regarding its ethical, political, and aesthetic dimensions within the field of experience and subjectivities that permeate individuals’ everyday formative processes.

Keywords
Physical Education; Bachelor’s degree; Higher education; Literature review

Resumen

Desde la perspectiva de las subáreas Sociocultural y Pedagógica, esta revisión mapeó y analizó la producción científica que aborda la formación en el grado en Educación Física desde enfoques socioculturales y pedagógicos, con el objetivo de identificar tendencias temáticas, marcos teóricos movilizados y lagunas presentes en la literatura. El mapeo se realizó en las bases de datos Google Académico y SciELO entre enero de 2002 y mayo de 2024. Tras la aplicación de criterios de inclusión y exclusión, así como la realización de lecturas exploratorias y analíticas, se consideraron elegibles 30 estudios. Los resultados se sistematizaron a partir de descriptores generales, a saber: “Título del trabajo”, “Autoría”, “Año”, “Tipo de trabajo”, “Revista de publicación” y “Subárea temática”. La revisión evidenció una escasez de producciones orientadas a la investigación de la formación desde la perspectiva que aquí nos interesa, en particular en lo que respecta a sus dimensiones éticas, políticas y estéticas en el campo de la experiencia y de las subjetividades que atraviesan la cotidianidad formativa de los sujetos.

Palabras clave
Educación Física; Grado universitario; Enseñanza superior; Revisión de literatura

1 ADENTRAR O CENÁRIO

Esta revisão de literatura (Teixeira; Megid Neto, 2006; Galvão; Ricarte, 2020) objetivou mapear e analisar a produção científica que aborda a formação no Bacharelado em Educação Física a partir de perspectivas socioculturais e pedagógicas, buscando identificar tendências temáticas, referenciais teóricos mobilizados e lacunas presentes na literatura publicada entre 2002 e 2024.

Para tanto, reconhecemos que a formação do/da bacharel/bacharela em Educação Física é amparada também pelo chão sócio-cultural-político-pedagógico desse campo de conhecimento.Tendo em vista que, conforme as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os Curso de Graduação em Educação Física, no que diz respeito ao artigo 18 que versa sobre a Etapa Específica do Bacharelado, o/a bacharel/bacharela em Educação Física deverá estar qualificado/a para abordar a realidade social, intervindo acadêmica e profissionalmente, bem como fomentando a ampliação dos saberes culturais à sociedade em relação à cultura corporal (Brasil, 2018).

Nesse sentido, concordamos com Triani (2021) e Triani et al. (2019) que, para além do viés Biodinâmico, por meio do qual habitualmente é compreendido e identificado, o curso de Bacharelado em Educação Física também deve estar compromissado com as perspectivas das Ciências Humanas e Sociais. Haja vista que, ele deve assegurar aos/às discentes uma formação que, além de técnica, também é humanista, crítica, reflexiva e ética (Brasil, 2018). Isto porque, a finalidade dos cursos de Educação Física no Brasil, desde 2004, é ser espaço formativo fértil para que os sujeitos assumam uma identidade acadêmico-profissional em Educação Física que contemple as “[...] dimensões político-social, ético-moral, técnico-profissional e científica” (Brasil, 2004, s.p.) da formação, necessárias à uma intervenção profissional que se faça historicamente situada.

No que tange formação como esse espaço fértil de assunção dos sujeitos (Freire, 2021), sublinhamos a interação dinâmica existente entre a graduação e a pós-graduação no contexto universitário (Cury, 2004). Ao considerarmos, por exemplo, o princípio da indissociabilidade na universidade, conforme artigo 207 de nossa Constituição (Brasil, 1988), é possível perceber a necessidade de que exista fluidez e diálogo entre o conhecimento que é produzido no âmbito da pesquisa, a maneira como ele será compartilhado pela via do ensino e, simultaneamente, de que forma ele será socializado à comunidade não-universitária por meio da extensão. Conforme aponta Cury (2004), essas dimensões de ação institucionais devem estar presentes no conjunto universitário de forma efetiva e articulada. Diante disso, verificamos, por exemplo, a dupla atuação dos/das professores/as pesquisadores/as que atuam no ensino superior trabalhando tanto na formação inicial (graduação) quanto na continuada (pós-graduação lato e/ou stricto sensu).

Por seu lado, o ser professor não resume em si apenas o docente capaz do ensino, mas inclui o pesquisador dotado de condições para promover investigações e para absorver resultados da pesquisa. Por sua vez, o pesquisador não é suficiente para ser docente. A formação didático-pedagógica é necessária para a formação de geração de estudantes qualificados, muitos dos quais voltados para as licenciaturas responsáveis pela formação de outros docentes [...]

(Cury, 2004, p. 778).

Há uma porosidade entre graduação e pós-graduação, através da qual permeiam questionamentos, descobertas, denominações, tensionamentos e terminologias. Um movimento que impossibilita a separação dessas ambiências como se fossem andares incomunicáveis da progressão acadêmica/profissional. De acordo com Cury (2004, p. 778), essa relação deve realizar-se através de uma circularidade, possibilitando o benefício mútuo de cada uma, em sua especificidade, “[...] seja para a qualificação interna da universidade, seja para a formação de profissionais compromissados, críticos e competentes para o desenvolvimento do país”.

Considerando isso, no campo da Educação Física percebemos que as disputas políticas, científicas, epistemológicas e acadêmicas entre suas diferentes associações e afinidades com as Ciências naturais, humanas, sociais, da educação e da saúde perpassam as diversas instâncias formativas no âmbito do universitário nesta área: formação inicial e formação continuada. Debates e embates que implicam até mesmo em “[...] sua legitimidade no âmbito acadêmico-científico, seu reconhecimento como ciência ou como prática social e seu papel no ensino superior” (Manoel; Carvalho, 2011, p. 391).

No âmbito da pós-graduação os termos “Biodinâmica”, “Sociocultural” e “Pedagógica” são comumente utilizados para denominar a organização da área em subáreas de conhecimento. Sendo associados, tradicionalmente, mais à “Biodinâmica” linhas e grupos de pesquisa que se aproximam das Ciências Naturais (exatas e biológicas) e da Saúde, à “Sociocultural” àqueles mais próximos das Ciências Sociais e Humanas e à “Pedagógica” os que se vinculam às Ciências Humanas e da Educação (Decian et al., 2017). Tal organização, embora mais comum no âmbito da pós-graduação, não escapa às lógicas de/para pensar o funcionamento da graduação tendo em vista que as discussões em torno da cientificidade da Educação Física e sua associação à diferentes áreas de conhecimento a acompanham desde os anos de 1970. Um fenômeno que interpela a área como um todo

[...] tanto no que diz respeito ao entendimento de ciência adotado para fundamentar e digerir a Educação Física, quanto, a partir do desvelamento da sua visão implícita de homem e sociedade, aos seus efeitos práticos sobre a formação e a saúde

(Bracht, 2000, p. 55).

Considerando isso, ainda que a circulação de terminologias como “Biodinâmica”, “Sociocultural” e “Pedagógica” estejam mais presentes no âmbito dos cursos de pós-graduação, elas circulam na ambiência da graduação. Na literatura, por exemplo, é possível identificarmos trabalhos que refletem a respeito dessas disputas políticas, científicas e epistemológicas que perpassam a Educação Física quanto a sua divisão em subáreas quanto devido à alocação do campo à Área 21 (Saúde) de estratificação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Produções científicas, como a de Triani, Novaes e Telles (2023), por exemplo, investigam as repercussões do desequilíbrio entre as subáreas “Biodinâmica”, “Sociocultural” e “Pedagógica” no contexto da graduação em Educação Física ao desenvolverem seu estudo a respeito das representações sociais da Educação Física na formação de licenciandos e bacharelandos.

Segundo Triani, Novaes e Telles (2023, p. 2), é possível observar “[...] que as lógicas epistemológicas e avaliativas que vigoram na Educação Física estão pautadas predominantemente no viés biológico”. Tal perspectiva, conforme indicam os autores, causa impactos na formação desses profissionais desde a graduação, ao engendrar no processo formativo inicial uma desconsideração da diversidade epistemológica da área, principalmente no que tange à identificação da formação e das identidades profissionais na perspectiva das subáreas sociocultural e pedagógica. Ainda nesse cenário, Triani et al. (2019), explicam que essa fragmentação da Educação Física em subáreas diz respeito à uma dicotomização do entendimento da própria área como campo de conhecimento. Um movimento que, embora tenha tido na pós-graduação, parece estar sendo refletido na graduação no que tange as representações sociais de bacharelandos em Educação Física.

Diante disso, é necessário considerarmos que as características, identidades e associações com as diferentes ciências no campo acadêmico da Educação Física

[...] são definidos a partir da disputa ou luta no campo em torno da identificação de qual seu objeto, qual a concepção de ciência a ser adotada, quais problemáticas de investigação são legítimas ou devem ser privilegiadas. Ou seja [...] os contornos do campo como algo dinâmico, que não é definido (e definível) a priori, mas sim, é fruto de dinamismo que envolve lutas e tensões

(Bracht, 2000, p. 62).

Nessa circunstância, trabalhamos com as terminologias utilizadas para situar a associação às subáreas do conhecimento a nível de especialização mesmo tratando aqui da formação inicial no bacharelado, isto porque reconhecemos e presenciamos a capilaridade existente entre graduação e pós-graduação, bem como o intercâmbio de hábitos e maneiras de encarar a Educação Física nessas instâncias.

Diante disso, ao dialogar com o Bacharelado, esse trabalho se caracteriza por uma investigação que enxerga a formação desde dentro (Imbernón, 2010). Ou seja, um estudo elaborado por sujeitos que constroem o Bacharelado internamente, atuando profissionalmente nele/com ele, sendo atravessados, desde a formação inicial, pelos acontecimentos que se dão nesse ambiente: as situações problemáticas, os desafios, as transformações e as bonitezas (Freire, 2021). Fazemos isso articulando as diferentes dimensões epistemológicas do campo da Educação Física para empreendermos nossas investigações no âmbito de um grupo de pesquisa voltado aos estudos das relações entre os corpos, os esportes e a sociedade.

Neste sentido, nossas escolhas científicas vão de encontro às tendências epistêmico-metodológicas que marcam historicamente a Educação Física com paradigmas tecnicistas, biologicistas e esportivistas (Soares, 1994; Marinho, 2012; Castellani Filho, 2021). Nuances essas que acabaram por implicar na orientação desse campo de conhecimento, em grande parte de sua existência, a partir de perspectivas próprias das Ciências Naturais, Exatas e Biológicas, fazendo com que, com o passar do tempo, ocorresse um alargamento desproporcional da subárea Biodinâmica em detrimento das subáreas Sociocultural e Pedagógica nos processos de pesquisar, ensinar, aprender, conhecer e formar (Telles; Lüdorf; Pereira, 2017; Triani, 2021).

É possível encontrarmos em nosso campo investigações voltadas para o estudo dos percursos formativos iniciais e continuados dos sujeitos atuantes na/com a Educação Física, tais como: currículos (Azevedo, 2016); os aspectos socioculturais e históricos da Educação Física (Souza Neto et al., 2004); as questões relativas às representações sociais desses profissionais (Triani, 2021). No entanto, é evidente, conforme indicam Triani et al. (2019), que a maioria dessas investigações ainda se voltam apenas à formação em Licenciatura.

Esse fenômeno vem causando uma carência histórica de pesquisas a respeito da formação do/da bacharel/bacharela nas subáreas Sociocultural e Pedagógica no campo da Educação Física (Telles; Lüdorf; Pereira, 2017; Triani et al., 2019). Enquanto, àquelas relacionadas à Biodinâmica e outras temáticas vinculadas ao campo das Ciências da Saúde parecem seguir não apenas ocupando o ranking de interesse daqueles/daquelas que pesquisam no/com/o Bacharelado, como também sendo as principais referências de representação social para os/as bacharelandos/as em formação (Triani et al., 2019).

Verificando, então, a necessidade do desenvolvimento de pesquisas que insiram o curso de Bacharelado em Educação Física nas discussões das subáreas Sociocultural e Pedagógica, formulamos o seguinte questionamento: Como e o quanto vêm sendo produzidos na literatura estudos referentes à formação no Bacharelado em Educação Física sob a perspectiva das subáreas Sociocultural e Pedagógica entre janeiro de 2002 e maio de 2024? Para tencioná-lo, encaramos a produção desta revisão de literatura como uma experiência (Larrosa, 2003) que nos inquieta a ir em busca do que procuramos, lidando constantemente com o desafio de discutir, mapear, perguntar, mirando aspectos, nuances e dimensões os quais vêm sendo privilegiados nas produções encontradas (Ferreira, 2002).

Optamos, então, por adotar tal experiência como estética de construção deste estudo. Propondo um percurso que se desvela à medida que quem lê estabelece relação direta com cada palavra escolhida para fazer desta escrita uma jornada de “[...] enveredar-se por trilhas, experimentá-las, experienciá-las; perder-se, quiçá, para já, se encontrando, tomar outros caminhos, fazer outros caminhos no ato mesmo de caminhar [...]” (Guedes; Ribeiro, 2019, p. 20).

Assim, não anunciamos previamente nesta introdução o caminho que percorremos em sequência. Sustentamos, ao invés disso, a escolha de possibilitar que a entrada nas seções do artigo faça algo com você (Bemvenuto, 2024), lhe convidando a conectar-se com aquilo que cada uma reserva, lhe propondo um questionamento: em qual (ou em quais) subáreas do conhecimento você tem, prioritariamente, baseado suas produções e saberes científicos a respeito do Bacharelado em Educação Física?

2 ESCOLHAS METODOLÓGICAS: UM CONSTANTE COLOCAR-SE À DISPOSIÇÃO

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma

(Barros, 2016, p. 15).

Para se operar didaticamente por meio da invenção é necessário dar aos objetos oportunidades para se tornarem outras coisas. Desinventá-los, trabalhar com possibilidades pouco exploradas para, daí, visibilizar o que acontece. Para nós, embrenhar-se em um processo metodológico não é muito diferente, tendo em vista que a definição daquilo que se compreende como método, portanto, “[...] adquire uma feição, um aspecto real, profundo, vivente, quando de verdade já nos familiarizamos com ele” (Morente, 1980, p. 34).

Ou seja, para além de seu caráter técnico de definição, descrição e estruturação sistematizados a partir de um rigor científico próprio, há também uma implicação com um rigor poético, flexível e também científico (Guedes; Ribeiro, 2019), uma disposição para se transformar à medida que o/a pesquisador/a desenvolve intimidade com o método durante o processo investigativo. Nesse sentido, dando ao “fazer metodológico” outras funções, eles ficam à disposição de operarem nas pesquisas implicados com sentido, com feição.

Assim, compreendemos a revisão de literatura, de natureza narrativa, como um processo imbricado com a análise de trabalhos sobre um tema, refletindo seus resultados e explicitando caminhos possíveis de serem percorridos (Galvão; Pereira, 2014; Galvão; Ricarte, 2020). Enxergamos na flexibilidade formal e metodológica da revisão narrativa possibilidades amplas para a articulação de ideias a respeito de um assunto (Ogassavara et al., 2023), bem como a viabilidade de desenvolver um trabalho detalhado e minucioso, que requer atenção cirúrgica, tempo, paciência para olhar diversas vezes as páginas dos bancos de dados elencados, repetindo e repetindo até que possamos percebê-los de forma diferente (Barros, 2016). Nesse sentido, embora caracterizada em grande parte por seu caráter descritivo, a revisão narrativa nos possibilita realizar uma análise crítica, minuciosa e intencional do material que buscamos na literatura (Ogassavara et al., 2023). Frente a isso, a característica narrativa desta produção viabiliza o estabelecimento de possibilidades relacionais “[...] entre as produções e temáticas existentes de modo que se possa subsidiar inferências para novas perspectivas teóricas e de estudos de forma contextualizada, mesmo sem um protocolo [rigorosamente] sistematizado” (Ogassavara et al., 2023, p. 17). Com base nisso, o detalhamento dos critérios utilizados para selecionar e avaliar o material captado são variados e arbitrários.

Diante disso, entendemos que esta produção tem cunho qualiquantitativo, caracterizando-se como uma revisão de literatura mista, ou seja, orientada tanto por uma nuance qualitativa – o “como”, buscando compreender, por exemplo, as subáreas as quais estão ligados os periódicos onde os estudos foram publicados–, quanto por uma quantitativa – o “quanto”, visibilizando o número de trabalhos encontrados (Galvão; Ricarte, 2020). A partir disso, operamos com uma análise descritiva e qualitativa elegendo descritores1 para sistematizar os dados encontrados (Teixeira; Megid Neto, 2006).

2.1 PROCESSO DE REVISÃO

A operacionalização da revisão ocorreu por meio da busca nas bases de dados da “Scielo” e do “Google Acadêmico”, entre os meses de maio de 2024 e julho de 2024. Essas bases foram selecionadas, conforme Galvão e Ricarte (2020), por englobarem, em sua maioria, a produção de trabalhos no contexto da América Latina, assim como devido a sua abrangência temática vinculada, em sua maioria, às subáreas sociocultural e pedagógica. Além disso, considerando o aspecto temático do trabalho, optamos por tais bases de dados considerando a relevância, qualidade e mais abrangência dos produtos indexados (Galvão; Ricarte, 2020), nos possibilitando entrar em contato com produções de diferentes naturezas, tais como: artigos, ensaios, relatos de experiências etc.

Com o objetivo de tornar o processo de operacionalização mais explícito, e desejando contribuir para melhor entendimento do/da leitor/a, organizamos as etapas realizadas em um fluxograma, sintetizando a explicação que o sucede, apresentado a seguir.

Figura 1
Fluxograma de seleção dos estudos.

O processo de seleção das produções ocorreu em seis etapas, descritas a seguir: na 1a etapa – Identificação utilizamos os descritores de busca “Educação Física”, “Formação” e “Bacharelado” no campo “busca simples” nas referidas bases de dados. Os descritores de busca foram combinados a partir do operador booleanoand”, alcançando 17.118 estudos, nos quais 18 correspondem às buscas na “Scielo” e 17.100 no “Google Acadêmico compreendidos entre janeiro de 2002 e maio de 2024. Elegemos este período acreditando que foi a partir do ano de 2002 que as discussões relativas à estruturação do Bacharelado como um curso independente podem ter passado a frequentar mais fortemente o campo da Educação Física, haja vista a promulgação do Parecer 138/2002, sua consequente revogação e conseguinte discussão, elaboração e publicação das DCNs de 2004 (Veronez et al., 2013).

A 2° etapa foi caracterizada pela realização de uma leitura exploratória dos títulos, dos resumos simples e das palavras-chave dos trabalhos, identificando 62 estudos pertinentes à análise, usando os seguintes critérios de inclusão: a) textos abordando o contexto de formação do Bacharelado no Brasil; b) textos oriundos de plataformas de acesso livre; c) textos publicados em português; d) textos publicados em inglês e/ou espanhol desde que fossem escritos por pesquisadores/as brasileiros/as a respeito da formação do Bacharelado em Educação Física no Brasil. No que diz respeito ao critério de exclusão retiramos: a) os textos de caráter “Revisão sistemática”; b) textos inseridos na subárea da biodinâmica do campo; c) textos publicados como capítulos de livros3; d) produções caracterizadas como livros; e) textos com problemas de acesso no endereço eletrônico. Dentre os 62 trabalhos, 2 deles eram duplicados. Resultando em 60 estudos para a continuidade do processo de revisão.

Durante o processo de leitura, foi identificada a necessidade metodológica de uma reconfiguração das escolhas feitas (3° etapa) nesta etapa (Megid Neto, 1999). Reconfiguração esta que se deu a partir do contato direto com trabalhos que íamos encontrando, entremeado com o aprofundamento constante dos estudos sobre a temática de interesse na literatura e o entendimento mais concreto dos aspectos a respeito da “formação” que queríamos identificar e investigar.

Nesse sentido, compreendemos nosso desejo/objetivo localizado:em mapear produções científicas que enxerguem a formação no Bacharelado em Educação Física a partir de suas dimensões éticas, políticas e estéticas no campo da experiência, das subjetividades que atravessam o cotidiano formativo dos sujeitos envolvidos com o curso (sejam discentes ou docentes), os processos reflexivos que se dão na experimentação prática de suas atuações profissionais e formações iniciais.

Frente a isso, o estudo fez surgir a eleição de cinco novos critérios de exclusão: f) estudos implicados em abordar, como foco central, características legislativas de regulamentação do curso; g) trabalhos que abordem a cisão da formação em Educação Física entre licenciatura e Bacharelado; h) produções que se voltem à discussão de currículo no âmbito das diretrizes curriculares, de documentos norteadores e/ou mandatórios, mas que não estudam o currículo do Bacharelado diretamente; i) produções organizadas como estudos comparativos entre licenciatura e Bacharelado; j) trabalhos que focalizam questões a respeito de disputas formativas entre licenciatura e Bacharelado.

Seguimos realizando uma nova leitura exploratória (4° etapa) dos títulos, dos resumos simples e das palavras-chave dos trabalhos, nos deparando apenas com 30 estudos elegíveis para nossa investigação. Após essa etapa, procedemos com uma leitura analítica (5° etapa) para a organização e ordenação do corpus do material, priorizando a elegibilidade dos 30 trabalhos, sem exclusões nesta fase, e sistematizando (6° etapa) os seguintes descritores gerais: “Título do Trabalho”; “Autoria”; “Ano”; “Tipo do trabalho”; “Periódico Publicado”; “Subárea temática”. Tais descritores abarcaram os dados da análise qualitativa deste artigo, cujos resultados apresentamos a seguir.

3 ARTICULAÇÃO COM OS ACHADOS DA BUSCA

Eis aqui talvez um dos momentos de maior implicação para quem pesquisa: a articulação dos achados provenientes da busca. A sistematização daquilo que, entendendo como importante, damos contorno, visibilizamos e explicitamos no processo de análise. Tratando-se, portanto, de “[...] abrir horizontes de possibilidade para que possamos vivenciar o assombro, da dúvida, o estranhamento, a indagação e o encantamento na pesquisa” (Sampaio; Ribeiro; Souza, 2018, p. 37). No contexto de uma produção científica qualitativa, caracterizam este momento instantes decisivos de caráter dialético, onde somos atravessados pela função determinante que os dados levantados operam na pesquisa: a de ensinar (Sampaio; Ribeiro; Souza; 2018).

Nessa perspectiva, a seguir apresentamos os dados via descritores e à medida em que o fazemos, expomos também o que eles nos ensinam. Para adentrá-los, apresentamos a seguir o quadro no qual estão organizados o quantitativo de trabalhos em relação à ordem de aparecimento nas buscas, ao título, autoria e ano de publicação. O primeiro trabalho encontrado foi identificado como T1 e assim sucessivamente até T30.

3.1 TÍTULO DO TRABALHO E AUTORIA

Quadro 1
Trabalho, Título e Autoria

Destacamos que alguns/algumas autores/as estão envolvidos/as em mais de uma publicação. Brasil, V.; Milistetd, M., Nascimento, J, por exemplo, colaboraram na construção de três trabalhos. Já, Oliveira, A.; Souza, J.; Triani, F.; Telles, S.; Barros, M.; Cárdenas, A.; Feuerschütte, S.; Ramos, V., participaram da elaboração de dois trabalhos. Reconhecemos que essas autorias têm contribuído substancialmente para a expansão de estudos a respeito da formação do Bacharelado ao longo do tempo, mobilizando-nos a pensar sobre a necessidade e urgência de novos estudos que se debrucem sob essa temática.

3.2 ANO DE PUBLICAÇÃO

Gráfico 1
Distribuição dos trabalhos ao longo dos anos

Quanto à distribuição dos trabalhos ao longo dos anos: nota-se que 2016 e 2018 foram os anos com maior concentração, tendo cinco cada um. Sendo precedidos de 2014 e 2017, ambos com três trabalhos publicados. Os anos de 2013, 2015, 2019, 2020 e 2021, tiveram dois trabalhos cada, enquanto 2004, 2006, 2007 e 2012, apenas um. Nos demais anos não encontramos publicações.

Diante de tal distribuição e da compreensão das transformações acontecidas entre 2002 e 2007, no âmbito da formação em Educação Física, com a estruturação do curso de Bacharelado no Brasil, nos inquieta a incipiência de trabalhos neste período, bem como nos anos seguintes (2008, 2009, 2010 e 2011) – tendo em vista que apenas a partir de 2012 identificamos uma presença crescente de publicações ano a ano. Esses dados encontram nossa hipótese inicial: de que desde 2002 até o período que começamos a elaborar o mapeamento (mês de maio de 2024), totalizando vinte e dois anos completos e quatro meses, há indícios de uma incipiência de produções que abordem as perspectivas formativas as quais nos interessamos aqui.

A partir disso foi possível observar um número ainda reduzido de trabalhos que abordam explicitamente a formação no Bacharelado em Educação Física sob perspectivas socioculturais e pedagógicas nas bases de dados consultadas. Cabe destacar, contudo, que tal constatação refere-se ao recorte metodológico adotado nesta revisão narrativa que, devido à caracterização intencional e variada dos critérios de seleção, das bases de dados investigadas e avaliação dos materiais, “[...] podem acabar deixando estudos fora do arcabouço teórico que poderia ser articulado, discutido e elucidado” (Ogassavara et al., 2023, p. 18). Não permitindo, consequentemente, afirmar de forma categórica a inexistência de outras produções em diferentes bases, periódicos ou formatos de publicação.

Destacamos que os trabalhos T1, T2 e T3, versaram sobre temáticas que consideraram o alunado em formação no Bacharelado. T1 investigou a intenção daqueles/as estudantes em trabalharem com o público idoso, refletindo sobre a importância de se pensar as disciplinas que compõem o curso de Bacharelado para além do vínculo com a área da saúde;T2 se interessou por saber as características, os saberes e as motivações dos/das estudantes que ingressavam no curso de Bacharelado no ano de 2004 e as razões pelas quais esses sujeitos escolhiam esse curso; T3 compartilhou uma experiência adotada em uma universidade para o desenvolvimento do Estágio Curricular obrigatório, tendo em vista sua importância na preparação profissional e seu funcionamento como elo entre intervenção profissional, conhecimentos técnicos, pedagógicos e científicos.

Ao compreendermos que esse intervalo de tempo (2004-2007) é marcado pelo estabelecimento e cumprimento das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física (Brasil, 2004), destacamos a relevância dos trabalhos citados e o exercício das autorias em compreender as realidades dos cursos de Bacharelado que construíam naquele momento.

Neste sentido, o trabalho T2, vai ao encontro da dimensão formativa que nos é cara, ao olhar à formação para além do trato curricular. Conforme os autores, desde aquela época, a formação em Educação Física já vinha sendo analisada e debatida tendo a legislação que direciona a elaboração e as propostas curriculares como temática central. No entanto, indicam que pouco estava sendo feito para “[...] compreender o que leva pessoas a buscarem os cursos superiores de Educação Física, que trajetória percorrem para chegar à profissão e quais são as influências que estas pessoas recebem até realizarem a escolha por este curso” (Silva; Carneiro, 2006, p. 9).

Nesta trilha, compreendemos que a investigação de Silva e Carneiro (2006) é contundente com o momento histórico que vivíamos no Brasil e que, à medida que se identifique quem eram os sujeitos que se interessavam pelo Bacharelado entendendo as razões que levam à opção pelo curso de Educação Física,

[...] tantos as Universidades quanto os órgãos legislativos e conselhos de classe, terão conhecimento de quais são as representações que estas pessoas vêm adquirindo na sociedade como fruto do trabalho dos profissionais já em exercício. Além disso, ter conhecimento dos interesses e objetivos destes ingressantes colabora para que se possa oferecer a eles uma aprendizagem significativa buscando compartilhar os mesmos códigos sociais, permitindo uma interlocução melhor situada o que, conseqüentemente, resulta em aperfeiçoamento profissionais

(Silva; Carneiro, 2006, p. 9).

Em sincronia, T4 versou sobre os desafios na formação do/da profissional bacharel/bacharela em Educação Física, articulando documentos oficiais e a sua intervenção no mundo. Percebendo ainda que as Instituições de Ensino Superior estavam com dificuldades para responderem perguntas relativas à formação desses sujeitos e para organizar os conhecimentos específicos próprios do curso. Nesse sentido, Nunes, Votre e Santos (2012) identificaram uma diminuta produção científica sobre o Bacharelado. Em contraponto, no que tange os estudos sobre a licenciatura, a autoria encontrou material acadêmico em abundância. Suas análises indicam a importância do desenvolvimento, desde 2012, de pesquisas que pudessem contribuir com a expansão de tal discussão temática no âmbito do Bacharelado.

3.3 TIPO DE TRABALHO, PERIÓDICO PUBLICADO E SUBÁREA TEMÁTICA

No que tange aos tipos de trabalho, T7, T14 e T29 tratam de relatos de experiências, T16 é um trabalho de conclusão de curso (TCC) de graduação em Educação Física, T17 um estudo de caso, T18 um ensaio, e os demais vinte e quatro são do tipo artigo científico.

A respeito da organização dos trabalhos em relação aos periódicos em que foram publicados e as subáreas temáticas aos quais estão vinculados os periódicos, organizamos o quadro exposto a seguir4.

Quadro 2
Periódicos e Subáreas

A partir do quadro acima é possível perceber que alguns periódicos se destacam no quantitativo de publicações encontradas: a “Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde” e o “Journal of Physical Education” com três trabalhados cada; as revistas “Motriz”, “Motrivivência”, “Revista da Educação Física”, revista “Movimento” e “Pensar a Prática” com dois trabalhos cada.

Quanto à vinculação dos periódicos com as subáreas do campo da Educação Física, visitamos os sites dos periódicos na aba “sobre o periódico” para identificarmos o perfil da revista e seu foco de interesse. Assim, classificamos uma revista como da subárea Sociocultural e Pedagógica quando apresentava indícios de pesquisas que tematizam questões referentes à cultura corporal em conexão com as Ciências Humanas, Educativas e Sociais, notadamente abordagens socioculturais, filosóficas e pedagógicas.

No caso da subárea da Biodinâmica, levamos em conta produções que se constroem no encontro com as áreas da atividade física, do exercício e do esporte, levando em consideração o conhecimento fundamental e aplicado no âmbito das Ciências da Saúde ou das Ciências do Exercício, tais como Biomecânica, Desempenho Desportivo, Atividade Física e Promoção da Saúde. Ao considerar mista, o periódico abarca temáticas sobre a cultura corporal e sua interface com a Educação Física, Ciências do Esporte e áreas afins, comprometidas com a diversidade e variedade teórica, metodológica, disciplinar, interdisciplinar e geográfica das pesquisas nacionais e internacionais.

Vale lembrar que, conforme explicitado na introdução deste texto, no campo da Educação Física brasileira, os termos sociocultural, pedagógica e biodinâmica emergem sobretudo das discussões epistemológicas relacionadas à organização da produção científica na área, particularmente no contexto da pós-graduação e de sua interface com a Área 21 da CAPES. Embora essas categorias tenham sido inicialmente mobilizadas para compreender tendências da pesquisa científica, elas passaram a ser frequentemente utilizadas como referenciais interpretativos para analisar disputas epistemológicas e formas de organização do conhecimento no campo da Educação Física, perpassando a graduação.

Neste estudo, tais categorias são empregadas como ferramentas analíticas para compreender tendências presentes nas produções que discutem a formação no Bacharelado em Educação Física, reconhecendo-se, contudo, que a organização institucional dos cursos de Graduação nas universidades brasileiras nem sempre reproduz essas mesmas terminologias, podendo estar vinculada a outras expressões como Ciências da Saúde, Ciências da Vida ou Humanidades.

Frente a isso, não encontramos diferença significativa entre os trabalhos publicados em periódicos em relação às principais subáreas temáticas da Educação Física, já que sete foram classificados como periódicos ligados à Sociocultural e Pedagógica, cinco à Biodinâmica e sete a Mistas. No entanto, é interessante observar que dentre os periódicos com maior concentração de trabalhos apenas um foi classificado junto à subárea Biodinâmica – o “Journal os Physical Education”; enquanto os demais são de característica Mista, Sociocultural e Pedagógica. Demonstrando que os estudos sobre o Bacharelado nessas subáreas têm ganhado força ao serem publicados em periódicos interessados nessa temática, assim como em revistas da área das Ciências da Educação: “Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos”, “Revista do Programa de pós-graduação em educação – UNECS” e “Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação”.

Destacamos ainda a expressiva presença de periódicos com características epistemológicas da subárea Biodinâmica. Mas, embora T6; T7; T11; T12; T13; T14; T15; T19; T23 versem sobre aspectos relativos à saúde, os estudos foram desenvolvidos em interseções e reflexões diretas com as subáreas Sociocultural e Pedagógica.

T14, por exemplo, ao abordar a temática da saúde coletiva, investigou a formação do curso de bacharelado da Universidade Estadual de Londrina a partir das experiências vividas nele. A autoria compartilha as experiências de ensinar e aprender que vinha construindo junto aos/às estudantes desde 2008, na disciplina “Educação Física e Saúde Pública”, a partir de formas de lecionar menos centradas no professor e “[...] incentivando uma participação mais ativa dos alunos, algo mais próximo do que sugerem as metodologias ativas de ensino” (Loch, 2016, p. 286).Nessa trilha, Loch (2016) explica que as aulas eram desenvolvidas a partir da compreensão de que os conteúdos trabalhados são “amplos” e vinculados às questões sociais. Conteúdos esses que, segundo o autor, precisam ser estudados por todas as profissões da área da saúde.

Já T15, conecta saberes da Psicologia e da Psicanálise ao aplicar o dispositivo metodológico de investigação e intervenção no grupo operativo. Essa proposta, de acordo Hur, Mendonça e Viana (2016, p. 99), “[...] consiste em um grupo de discussão centrado numa tarefa e tem como função fomentar a troca de representações e experiências do coletivo no âmbito cognitivo e afetivo. Nesse sentido, a autoria objetivou discutir a formação em Educação Física através dos discursos dos/das professores/as, técnicos/as administrativos/as e estudantes de uma universidade federal brasileira que, em 2012, havia formado a sua primeira turma. T15 evidenciou a formação como um processo coletivo, considerando que para realizar tal avaliação seria necessário escutar e refletir junto às pessoas que constroem o curso.

Ao problematizar o cotidiano desses sujeitos em/com suas funções (docente, discente e técnica-administrativa), T15 mostrou que o grupo de participantes defendeu a “[...] construção do “currículo ampliado” com enfoque multidisciplinar, que integrasse uma formação para a vida, com as demandas técnicas da profissão” (Hur, Mendonça; Viana, 2016, p. 104). Uma “emergência de uma utopia grupal” (p. 106) explicitada na forma de currículo que contemple uma formação mais pluralizada, multidisciplinar.

Já T19, utilizou-se de trato metodológico quantitativo para desenvolver o estudo transversal descritivo, focalizando saberes e percepções dos/das estudantes a respeito dos suplementos alimentares. Ao estabelecerem interface entre as temáticas saúde e formação, sublinham o caráter educativo do/da profissional que atua com a Educação Física, explicitando a importância de que o/a bacharel/bacharela em formação entre em contato com assuntos da área da Saúde que fazem interface com a Educação Física (Ropelato; Ravazzani, 2017). Além disso, a autoria menciona uma problemática encontrada no curso de Bacharelado em Educação Física: o fato de estudantes dos períodos iniciais (do primeiro ao quarto) já trabalharem em salões de musculação de academias de ginástica. O que significa que muitos/as desses/as estudantes começaram no mercado de trabalho como estagiários/as antes de terem contato com conhecimentos específicos necessários para desenvolverem suas ações nesse ambiente.

Diante do exposto, T14, T15 e T19 nos dão a ver que, embora publicados em periódicos que focalizam temas abraçados pela subárea Biodinâmica, ainda assim, ao tratarem da formação no Bacharelado, os/as pesquisadores/as estabelecem vínculos diretos com as subáreas Sociocultural e Pedagógica, direcionando reflexões e perspectivas que explicitam que essas subáreas temáticas podem/devem ser construídas e investigadas em constante interface. Devido a esta caracterização, embora tais trabalhos versem a respeito de temáticas mais próximas à subárea biodinâmica, eles foram considerados para nossa reflexão frente à postura de análise e reflexão das autorias que desenvolveram seus estudos a partir de uma perspectiva sociocultural e pedagógica.

A análise do conjunto dos estudos identificados permite observar que, embora a formação em Educação Física seja frequentemente abordada em diferentes perspectivas, são ainda reduzidas as investigações que analisam explicitamente a formação no Bacharelado a partir de referenciais socioculturais e pedagógicos. Em muitos casos, as discussões sobre formação aparecem articuladas a temáticas como saúde, treinamento ou desempenho esportivo, evidenciando a predominância de abordagens associadas à subárea biodinâmica. Esse cenário sugere a necessidade de ampliação de investigações que problematizem a formação profissional no Bacharelado considerando também dimensões éticas, políticas e estéticas da experiência formativa.

4 ALGUMAS OUTRAS CONSIDERAÇÕES

Mobilizamo-nos a revisitar a literatura com o intuito de saber como e o quanto veio sendo produzido na literatura estudos referentes à formação no Bacharelado em Educação Física sob a perspectiva das subáreas Sociocultural e Pedagógica entre janeiro de 2002 e maio de 2024. Nesse sentido, embora se trate de uma revisão de natureza mista, trazendo o “quanto” e o “como” em interface, artesonamos caminhos qualitativos a fim de cumprir dois objetivos: mapear essas produções, apresentando os resultados do mapeamento através da organização de descritores gerais; refletir a respeito da incidência e do teor de pesquisas voltadas à discussão da formação no Bacharelado em educação física sob as perspectivas das subáreas Sociocultural e Pedagógica.Conforme visto, o mapeamento fez emergir seis descritores gerais e à medida que os apresentamos, confeccionamos reflexões tanto a partir da leitura dos trabalhos encontrados no mapeamento quanto junto à literatura que nos é base.

Diante do exposto e considerando aquilo que Drigo et al. (2020) apresentam, entendemos que as discussões em relação ao Bacharelado em Educação Física, suas nuances formativas e principais características não estão dadas, mas sim em constante disputa. Continuando, portanto, emergente nos dias de hoje “[...] o debate sobre a criação de cursos de Bacharelado e sua necessidade” (p. 9), principalmente devido à nova Diretriz Curricular para a Graduação em Educação Física em vigor (Brasil, 2018). No entanto, compreendemos ser indispensável também aquilo a que Nunes, Votre e Santos nos mobilizam desde 2012: a necessidade de, diante da existência do curso de Bacharelado, praticarmos, como professores/as pesquisadores/as, o exercício constante de “recontextualizar a formação do profissional de educação física, construindo e elaborando modos não escolares para [...] intervir na sociedade (Nunes; Votre; Santos, 2012, p. 289).

Dentro dessa prática, entendemos que problematizar o padrão hegemônico de produção científica junto à subárea Biodinâmica, pensando a formação e intervenção do/da bacharel/bacharela não apenas a partir de seus vínculos com as ciências biológicas, naturais e da saúde mas também por meio de caminhos das ciências humanas e sociais, bem como articulando nossas pesquisas feitas a partir do Bacharelado com temáticas associadas às subáreas Sociocultural e Pedagógica, pode ser um caminho para a ampliação das discussões não só sobre essa formação, mas com ela.

Um processo que resulta na visibilização de maneiras outras para construir o Bacharelado, encarando-o a partir de uma perspectiva pedagógica consolidada, a fim de que os sujeitos formados por esse curso produzam, com/por meio dele, sentidos outros para intervirem na sociedade, reconhecendo as múltiplas dimensões de seu processo formativo, instituídas pelo Ministério da Educação (Brasil, 2004; 2018), desde a graduação: a da relação ser humano-sociedade, do aspecto biológico do corpo humano, da produção do conhecimento científico e tecnológico, dimensões culturais do movimento humano, técnico-instrumental e didático-pedagógico.

Este estudo apresenta como principal contribuição o mapeamento inicial das produções que abordam a formação no Bacharelado em Educação Física a partir de perspectivas socioculturais e pedagógicas. No entanto, reconhece-se que a natureza narrativa da revisão e o objetivo de identificar tendências gerais da produção conferem ao estudo um caráter predominantemente descritivo.

Nesse sentido, futuras investigações podem aprofundar análises sobre o tema, explorando de maneira mais detalhada as abordagens conceituais, os referenciais teóricos mobilizados e as implicações dessas perspectivas para a formação profissional no campo da Educação Física.

Por fim, entendendo a necessidade que atravessa a produção científica de focalizar determinados elementos, a partir de estratégias específicas, para melhor compreendê-los, indicamos ser preciso o desenvolvimento de outras pesquisas que também se voltem à investigação da formação do Bacharelado, utilizando outros bancos de dados, termos de busca, limitações temporais etc. Trabalhos que possam contribuir à ampliação dessa discussão e fortalecimento da presença do Bacharelado nas subáreas Sociocultural e Pedagógica, tanto quantitativamente quanto qualitativamente.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • COMO REFERENCIAR
    BONIFACIO, Vitória Bemvenuto; PEREIRA, Erik Giuseppe Barbosa. Formação no Bacharelado em Educação Física sob a ótica Sociocultural e Pedagógica. Movimento, v. 32, p. e32027, jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.150905
  • 1
    O termo descritor foi empregado por Megid Neto (1999) que ao mapear teses e dissertações na sistematização da metodologia de sua tese de doutorado, o utilizou para “[...] indicar os aspectos a serem observados na classificação e descrição [...], bem como na análise de suas características e tendências. Em outros estudos são utilizadas denominações distintas, como indicador, categoria, item [...]” (p. 35. Grifo do autor).
  • 2
    Conforme detalhado a seguir, as etapas 3, 5 e 6 são qualitativas não havendo, portanto, quantificação de trabalhos nessas fases. Suas ações foram realizadas em cima do número de trabalhos vinculados às etapas que as antecedem.
  • 3
    A fim de uniformizar a sistematização da busca, diante do fato de que diversos livros não estavam disponíveis gratuitamente e não tinha, portanto, acesso livre.
  • 4
    T16 não consta no quadro pois trata-se de um TCC e não foi publicado em periódico.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

REFERÊNCIAS

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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Ana Paula Dahlke*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    * Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Out 2025
  • Aceito
    14 Abr 2026
  • Publicado
    16 Jul 2026
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