Open-access ESTRATÉGIAS PARA A INCLUSÃO DE ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

ESTRATEGIAS PARA LA INCLUSIÓN DE ALUMNOS CON DISCAPACIDAD EN LA EDUCACIÓN FÍSICA ESCOLAR: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA

Resumo

O objetivo do estudo foi analisar a produção do conhecimento nacional e internacional referente às estratégias de ensino voltadas à inclusão dos estudantes com deficiência (ECD) nas aulas de Educação Física (EF). Para tanto, foi desenvolvida uma revisão sistemática de literatura, do tipo integrativa, com base na busca eletrônica de artigos no Portal de Periódicos da CAPES e na Biblioteca Eletrônica Científica Scielo, pela associação dos descritores: estratégia, pessoa com deficiência, inclusão e Educação Física. Foram adotados como critérios de inclusão: ser escrito em língua portuguesa ou inglesa, ser publicado no período de janeiro de 2008 a novembro de 2021 e estar relacionado à temática do trabalho. A análise dos 11 artigos apontou diferentes estratégias de ensino voltadas à inclusão dos ECD nas aulas de EF, categorizadas em quatro temáticas: modelos de apoio e trabalho colaborativo; formas de comunicação e tipos de instrução; adaptações; e materiais e recursos pedagógicos.

Palavras-chave
Educação Especial; Educação Física escolar; Estratégia; Inclusão

Abstract

The objective of the study was to analyze the production of knowledge at the national and international levels regarding teaching strategies aimed at the inclusion of students with disabilities (SWD) in Physical Education (PE) classes. For this purpose, we used an integrative systematic literature review, based on the electronic search for articles in the CAPES Periodicals Portal and Scielo Scientific Electronic Library, by associating the descriptors: strategy, persons with disabilities, inclusion, and Physical Education. Inclusion criteria were: written in Portuguese or English, published from January 2008 to November 2021, and related to the topic of the study. The analysis of the 11 articles pointed out different teaching strategies aimed at the inclusion of SWD in PE classes, categorized into four themes: support models and collaborative work; forms of communication and types of instruction; adaptations; and teaching materials and resources.

Keywords
Special Education; Physical Education in school; Strategy; Inclusion

Resumen

El objetivo del estudio fue analizar la producción de conocimiento a nivel nacional e internacional referente a estrategias didácticas dirigidas a la inclusión de alumnos con discapacidad (ACD) en las clases de Educación Física (EF). Para ello, se utilizó una revisión de literatura sistemática integradora, basada en la búsqueda electrónica de artículos en el Portal de Periódicos de la CAPES y en la Biblioteca Científica Electrónica Scielo, asociando los descriptores: estrategia, personas con discapacidad, inclusión y Educación Física. Se adoptaron criterios de inclusión: estar escrito en portugués o inglés, publicado entre enero de 2008 y noviembre de 2021, y relacionado con el tema del estudio. El análisis de los 11 artículos señaló diferentes estrategias didácticas dirigidas a la inclusión de ACD en las clases de EF, categorizadas en cuatro temas: modelos de apoyo y trabajo colaborativo; formas de comunicación y tipos de instrucción; adaptaciones; y materiales y recursos didácticos.

Palabras clave
Educación Especial; Educación Física escolar; Estrategia; Inclusión

1 INTRODUÇÃO

O tema deste trabalho debruça-se sobre estratégias de ensino para a inclusão de estudantes com deficiência (ECD) no contexto da Educação Física Escolar (EFE).

A Constituição da República Federativa do Brasil (1988) garante o direito à educação para todos, incluindo pessoas com deficiência, porém somente em janeiro de 2008 foi promulgada a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI), visando garantir a inclusão ECD nas escolas regulares (Brasil, 2008). Os dados do Censo Escolar (Brasil, 2018; 2019) mostram um aumento significativo no número de ECD matriculados em salas comuns da rede regular de ensino: de 325.316 alunos no ano de 2006, para 1.152.875 no ano de 2020, refletindo o impacto positivo da PNEEPEI

No entanto, são necessários ajustes estruturais e preparo dos profissionais da educação para garantir a qualidade do ensino para essa população. Apesar de frequentarem as aulas regulares, muitos ECD enfrentam dificuldades em participar efetivamente das atividades escolares e interagir socialmente, o que destaca a importância de promover uma inclusão verdadeira (Glat; Pletsch, 2010). Mendes (2006) destaca que a inclusão social é um processo bilateral no qual tanto a sociedade quanto a população excluída colaboram para garantir a igualdade de oportunidades para todos, construindo uma sociedade democrática que respeita a diversidade e reconhece as diferenças.

É importante que esse processo também ocorra no contexto escolar, pois segundo Munster e Alves (2018, p. 172), a educação inclusiva consiste em:

[...] um processo de reorganização do sistema educacional e dos ambientes de ensino e aprendizagem, abrangendo de forma colaborativa todos os agentes envolvidos na comunidade escolar, visando efetivar a equiparação de oportunidades educacionais orientadas pelos princípios de respeito à diversidade, aceitação e reconhecimento político das diferenças.

A Lei nº 10.793 instituiu a Educação Física (EF) como componente curricular obrigatório da educação básica e a integrou à proposta pedagógica da escola (Brasil, 2003), assim sendo, os ECD, matriculados nas escolas comuns da rede regular de ensino também devem ter a sua participação e o melhor aproveitamento garantido nas aulas de EF.

No estudo de Fiorini e Manzini (2014), professores de EF relataram diversas dificuldades em lidar com a inclusão de ECD em suas aulas. Essas dificuldades incluíam falta de formação, questões administrativas, características individuais dos alunos, diagnóstico, envolvimento da família, recursos pedagógicos e estratégias de ensino. Ao discutir as dificuldades apontadas em relação à estratégia, os professores questionavam como abordar a inclusão desses alunos, sendo recomendado considerar cuidadosamente as estratégias de ensino para garantir a participação de todos os estudantes nas aulas de EF.

Fiorini e Manzini (2018, p. 196) entendem estratégia, como sendo:

[...] uma ação do professor, que possui uma intenção subjacente, direcionada ao aluno, com a finalidade de ensino, que é flexível e passível de alteração em função do comportamento do aluno nesse processo de interação durante o ensino.

Manzini (2010) explica que a estratégia, por se tratar de uma ação do professor, ocorre no momento de ensino, mas necessita ser planejada levando-se em consideração as características dos estudantes, o objetivo da atividade e o nível de complexidade que será exigido.

Para enfrentar o desafio crescente de atender as necessidades individuais de ECD nas aulas de EF, os professores devem ser capazes de empregar estratégias de ensino que resultem em ambientes inclusivos (Cervantes et al., 2013). Seabra Junior (2008) cita que para o professor de EF contemplar a participação de todos os estudantes nas aulas, requer a utilização de recursos pedagógicos e estratégias de ensino adequadas e/ou adaptadas a cada grupo de participantes. O recurso pedagógico tem como características ser concreto, manipulável e ter finalidade pedagógica1.

Oliveira, Nunes e Munster (2017), ao mapearem e analisarem as produções discentes sobre EF e inclusão escolar dos programas de Pós-Graduação do Brasil, no período de 2002 a 2015, encontraram 73 estudos oriundos de dissertações e teses. Desses, somente cinco abordavam estratégias de suporte ao processo de inclusão escolar nas aulas de EF.

Com o intuito de verificar as estratégias de ensino e os recursos pedagógicos indicados para que o professor de EF possa utilizar como ferramentas na inclusão escolar do ECD, Fiorini, Braccialli e Manzini (2015) realizaram uma análise sistemática de teses e dissertações produzidas nos programas Pós-Graduação em Educação e EF até o ano de 2011. Eles encontraram cinco dissertações e três teses que apresentaram estratégias de ensino e recursos pedagógicos para a inclusão escolar de ECD nas aulas de EF, indicando escassez de estudos com foco nesta temática.

A partir da constatação de existirem poucas pesquisas nessa temática e da indicação de que as revisões anteriores incluíram estudos publicados até o ano de 2015, surgiu o interesse em realizar um novo levantamento especificando quais estratégias de ensino os artigos publicados em periódicos trazem como possibilidade para que os professores de EF de escolas comuns da rede regular de ensino de nível básico (educação infantil ao ensino médio) possam utilizar em sua prática pedagógica, a fim de possibilitar a inclusão dos ECD nas aulas de EFE.

Assim, o estudo teve como objetivo analisar a produção do conhecimento nacional e internacional referente às estratégias de ensino voltadas à inclusão dos ECD nas aulas de EF.

2 MÉTODO

O estudo caracteriza-se por uma pesquisa de revisão sistemática de literatura, do tipo integrativa, cuja finalidade consiste em organizar o conhecimento e resultados obtidos em pesquisas sobre um tema ou questão de diferentes áreas (Pompeo; Rossi; Galvão, 2009; Ercole; Melo; Alcoforado, 2014; Gomes; Caminha, 2014).

A presente revisão utilizou as recomendações do método PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses) para a elaboração de revisões sistemáticas (Galvão; Pansani; Harrad, 2015).

2.1 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

A pesquisa foi conduzida nos ambientes virtuais nas bases de dados eletrônicos do Portal de Periódicos da CAPES, por acesso realizado via Comunidade Acadêmica Federada (CAFe), e da Biblioteca Eletrônica Científica Online (Scielo)2.

Com a finalidade de identificar artigos nacionais e internacionais pertinentes à pesquisa foi realizada uma busca nas plataformas selecionadas a partir da associação dos seguintes descritores: estratégia, pessoa com deficiência, inclusão e educação física.

As informações foram coletadas em novembro de 2021, pelas autoras do estudo, de forma independente, visando minimizar o viés no processo de busca (Costa; Zoltowski, 2014). Em cada etapa do estudo foram realizadas reuniões entre as pesquisadoras para cruzar e discutir os dados obtidos, visando sanar possíveis divergências.

A busca abrangeu artigos publicados em periódicos no período de janeiro de 2008 a novembro de 2021. A delimitação do período de busca justifica-se por 2008 ser o ano de implementação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva PNEE-PEI (Brasil, 2008), além de ser um recorte temporal atual no qual se podem analisar as estratégias de ensino adotadas pelos professores para trabalhar com ECD nas aulas de EF.

Para a seleção dos artigos foram adotados os seguintes critérios: (a) ser escrito em língua portuguesa ou inglesa; (b) ter sido publicado no período de janeiro de 2008 a novembro de 2021; (c) ser relacionado à temática do trabalho.

2.2 PROCEDIMENTO DE BUSCA, IDENTIFICAÇÃO E SELEÇÃO DOS TRABALHOS

Ao realizar a identificação de 1468 estudos nas bases de dados pesquisadas, estes foram armazenados e organizados no Endnote Web3 e exportados para o aplicativo Rayyan, para a realização da seleção.

Após cruzar todos os dados, foi realizada a exclusão de 25 estudos duplicados. Na etapa de triagem, os 1443 estudos foram analisados, sendo selecionados 17 artigos que continham os descritores nos títulos, resumos ou palavras-chave, para a leitura na íntegra.

Dentre os artigos selecionados, 13 foram excluídos pelos seguintes motivos: não estar relacionado ao tema do trabalho (9), o texto não estar disponível para leitura na íntegra (3), não ser realizado em escola comum da rede regular de ensino ou ser um artigo de revisão (1).

Além da pesquisa nas bases de dados, foi realizada uma busca adicional nas listas de referências dos artigos analisados (busca manual), utilizando a mesma estratégia especificada anteriormente e que preenchiam os critérios de seleção deste estudo, possibilitando a identificação e o acréscimo de sete artigos pertinentes. Assim sendo, foram incluídos um total de 11 artigos nesta revisão.

A figura 1 apresenta o fluxograma com as informações de cada etapa da pesquisa, contendo a quantidade de artigos selecionados e excluídos.

Figura 1
Fluxograma

Os 11 estudos incluídos na pesquisa foram analisados a partir da técnica de análise temática, proposta por Braun e Clarke (2006), um método de análise qualitativa utilizado para identificar, analisar, interpretar e relatar padrões, chamados de temas, a partir dos dados.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 CARACTERÍSTICAS DOS ESTUDOS

Os principais dados dos 11 estudos selecionados foram descritos (Quadro 1), sendo organizados em ordem cronológica crescente de acordo com o ano (do mais antigo ao mais atual). Foram incluídas informações a respeito do(s) autor(es), ano de publicação, objetivo(s), método e principais resultados.

Quadro 1
Descrição dos estudos selecionados para análise

Os estudos selecionados foram publicados a partir do ano de 2011, sendo 2013 o mais significativo em produtividade, registrando três publicações. Entre os anos de 2016 e 2021, houve a inclusão de no máximo dois estudos por ano abordando a temática estudada. Esse dado indica um número ainda tímido de estudos relativos a estratégias de ensino voltadas à inclusão dos ECD nas aulas de EF, corroborando com o estudo de Fiorini; Braccialli e Manzini (2015).

Quanto ao tipo de pesquisa, três foram categorizadas como descritivas e oito como exploratórias. Entre os tipos de estratégias de ensino encontradas nos artigos, seis estudos eram destinados para todos os tipos de deficiência, três para ECD visual, um para ECD intelectual e um para ECD auditiva.

A autoria dos estudos demonstrou que Fiorini e Manzini (2016, 2018) têm abordado a temática sobre estratégias de ensino para ECD com maior frequência do que os demais. Esses autores foram importantes na construção do referencial teórico a respeito da temática abordada.

3.2 ESTRATÉGIAS DE ENSINO VOLTADAS À INCLUSÃO DOS ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA

A leitura na íntegra dos 11 estudos possibilitou verificar as semelhanças entre eles e organizá-los em categorias, seguindo a análise temática. Assim sendo, emergiram os seguintes temas: modelos de apoio e trabalho colaborativo; formas de comunicação e tipos de instrução; adaptações; e materiais e recursos pedagógicos. O mapa temático (Figura 1) e o Quadro 2 apresentam a categorização das pesquisas analisadas nesta revisão.

Figura 2
Mapa temático da categorização dos estudos.
Quadro 2
Categorização dos estudos.

Dentre os estudos, seis foram alocados em mais de uma categoria, por apresentarem informações que se relacionam a mais de uma temática (Fiorini; Deliberato; Manzini, 2013; Fiorini; Manzini, 2016; Overton; Wrench; Garrett, 2016; Fiorini; Manzini, 2018; Majoko, 2019; Rufino et al., 2021). E os outros cinco foram inseridos em uma única categoria (Grenier, 2011; Cervantes et al., 2013; Munster, 2013; Alves; Fiorini, 2018; Gatti, Munster, 2021).

3.2.1 Modelos de apoio e trabalho colaborativo

Os modelos de apoio e trabalho colaborativo encontrados nos estudos selecionados foram: a tutoria por pares; a consultoria colaborativa; e o ensino colaborativo, também chamado de coensino.

O trabalho colaborativo, assim como os modelos de apoio pertencem a cultura colaborativa, entendida como uma filosofia de vida (Torres; Alcântra; Irala, 2004) na qual os membros de um grupo se apoiam, visando atingir objetivos comuns negociados pelo coletivo, estabelecendo relações que tendem à não-hierarquização, liderança compartilhada, confiança mútua e corresponsabilidade pela condução das ações (Costa, 2005). Assim, o trabalho colaborativo visa a ação conjunta da comunidade escolar, e apresenta potencial para auxiliar no enfrentamento dos desafios escolares, como a inclusão (Damiani, 2008).

A tutoria por pares é definida como a aprendizagem entre pares, sob orientação e supervisão do professor, sendo constituída por um colega tutor e um tutorado, estabelecendo-se uma relação de parceria e mútua aprendizagem (Klavina; Liberman, 2018). Já a consultoria e o coensino são entendidos como a parceria entre profissionais que atuarão juntos, contando com um professor do ensino comum e um professor de educação especial ou outro especialista para promover o acesso escolar ao estudante em um ambiente de educação comum (Friend, 2008; Caetano; Mendes, 2008; Mendes; Vilaronga; Zerbato, 2014; Machado; Almeida, 2014). A consultoria é considerada um serviço indireto com o auxílio para o professor, enquanto o coensino uma atuação direta junto ao professor para ministrar instruções aos estudantes.

Os estudos de Grenier (2011) e Gatti e Munster (2021) analisaram a possibilidade de diferentes modelos de apoio e trabalho colaborativo auxiliarem na inclusão de ECD nas aulas de EFE. Ao utilizar o coensino como uma estratégia para a prática inclusiva, Grenier (2011) concluiu que houve a evolução e o envolvimento de todos os estudantes nas atividades, além da socialização e inclusão. Neste sentido, os resultados obtidos por Gatti e Munster (2021) por meio da aplicação do coensino pelos agentes protagonistas (PEF, ECD e seus pares), demonstraram que em dois casos, dos três aplicados, foram favoráveis e possíveis de serem implementados, trazendo resultados positivos para todos os estudantes e a inclusão do ECD nas aulas de EF.

Corroborando com o exposto, Majoko (2019) cita as culturas colaborativas dentre as ações que facilitaram a inclusão de crianças com deficiência nas aulas de EF em sala de aula regular, descritas pelos professores entrevistados. Costa, Seabra Junior e Amparo (2018) consideram o trabalho em equipe e de maneira colaborativa fundamentais para o sucesso da inclusão escolar.

Cervantes et al. (2013) ao examinar os efeitos da tutoria por pares como estratégia de ensino e inclusão de ECD na EF salientaram os benefícios desta para estudantes com e sem deficiência nas aulas de EF, além de fornecer recomendações específicas para a implementação deste modelo de apoio nestas aulas. A tutoria também foi citada como um dos cinco tipos de estratégias de sucesso elencadas pelos professores participantes da pesquisa de Fiorini, Manzini (2018) para promover a participação de estudantes com Deficiência Auditiva (DA) nas mesmas atividades que os demais estudantes da turma.

Assim, essas estratégias colaborativas, trazem benefícios para todos os estudantes (tanto os ECD como os sem deficiência), como promover progresso nas relações sociais, na aprendizagem, na assimilação das instruções, além de melhora da autoestima dos ECDs e na promoção de um ambiente de ensino mais inclusivo (Gonçalves; Ribeiro, 2008; Oliveira; Munster, 2023; Gatti; Munster, 2023; Santos; Costa, 2023).

3.2.2 Formas de comunicação e tipos de instrução

Nesta categoria temática foram alocados estudos que descreveram formas de comunicação e tipos de instrução utilizadas pelos professores para facilitar o processo de inclusão dos ECD nas aulas de EF. A comunicação, entendida como uma característica humana, não inclui somente o falar, o ouvir, ler, e o escrever; os informes não verbais, ou seja, as expressões faciais, os gestos, as excitações e o silêncio, são considerados informes de grande significação (Andrade, 1994). Os estudos selecionados apontaram a instrução verbal, a utilização de gestos, movimentos corporais e expressões faciais, além da demonstração.

Com exceção de Majoko (2019), os estudos desta categoria ao apresentarem os dados das pesquisas relataram exemplos de situações em que os participantes utilizaram formas de comunicação e tipos de instrução enquanto estratégias para a inclusão escolar de estudantes com Deficiência Visual (DV).

Majoko (2019), ao analisar as práticas pedagógicas utilizadas pelos professores de EF para incluir crianças com deficiência em salas de aula regulares da escola primária pública na província educacional de Midlands no Zimbábue, cita que a utilização de instrução adaptada facilitou a inclusão desses estudantes nas aulas de EF.

Fiorini e Manzini (2016) descreveram que, em uma das situações observadas no estudo, o professor de EFE, por meio de instrução verbal, forneceu à estudante com DV informações precisas sobre o tipo de resposta esperada na atividade específica, enquanto em outro momento, foi utilizada nova instrução para a estudante com DV individualmente, ao identificar que a instrução verbal e a demonstração não auxiliaram na realização da atividade. Overton; Wrench; Garrett (2016), ao observar o ensino de três professores que ministraram aulas de EF no primeiro ano do ensino fundamental para ECD, verificaram que eles utilizaram várias estratégias pedagógicas para estabelecer relacionamentos positivos com os estudantes, dentre eles a comunicação eficaz.

Ao analisar as estratégias de sucesso utilizadas por professores de EF para promover a participação de estudantes com DA nas mesmas atividades que os demais estudantes da turma, Fiorini e Manzini (2018) descreveram que o professor explicou individualmente para a estudante com DA, por meio de gestos e movimentos corporais, a atividade que havia sido explicada verbalmente para os demais estudantes, usando neste caso, a forma mais funcional de comunicação para a estudante. O professor utilizou também a comunicação não verbal, quando estabeleceu comunicação com a estudante com DA por meio de gestos e expressões faciais.

Todos os estudos apontaram a comunicação como uma das estratégias positivas para auxiliar na inclusão de estudantes com deficiência. Munster (2023) além de destacar as abordagens distintas que os professores de EF podem utilizar nas aulas para atender as necessidades especiais dos ECD, traz os tipos de instruções que podem ser utilizadas como opção de práticas inclusivas na EF.

3.2.3 Adaptações

As análises dos dados relativos a esta categoria temática foram realizadas levando-se em consideração a definição de Rodrigues (2006). Segundo o autor, o processo de adaptação de uma atividade “consiste em intervir sobre um conjunto de variáveis influenciando o seu maior ou menor grau de dificuldade” (Rodrigues, 2006, p. 41).

Munster (2013) em seu ensaio discutiu o papel das adaptações curriculares e metodológicas no processo de inclusão de ECD em programas regulares de EFE.

Os estudos de Fiorini e Manzini (2016, 2018) descrevem adaptações nas regras das atividades, a fim de possibilitar a participação de ECD nas aulas de EFE. No estudo de 2016, os autores citaram uma situação em que o professor de EF identificou a dificuldade da estudante com DV e propôs adaptações na maneira de deslocar, jogar a bola para cima, bater palmas e segurar a bola de volta, de modo que a estudante jogasse a bola para o professor. No episódio relatado por Fiorini e Manzini (2018), o professor de EF adaptou a regra da atividade, realizando comando verbal para estudantes ouvintes e comando por meio de gestos e movimentos corporais para a estudante com DA, fato que deixou a atividade menos restritiva para a estudante.

No artigo de Fiorini, Deliberato e Manzini (2013), além da adaptação nas regras, os autores relataram adaptações nos recursos pedagógicos. Eles citam o uso da corda-guia em atividades de corrida; a adaptação na bola, seja envolvendo-a em papel celofane e/ou sacos plásticos, ou então, colocando guizos em seu interior; e no cone, que pode ser colorido ou encapado com cores vibrantes.

Overton; Wrench; Garrett (2016) mencionaram que para atender as necessidades dos ECD os professores de EF participantes do estudo incluíram modificações nas regras e nos ambientes de aprendizagem. Eles simplificaram as regras, possibilitaram um tempo extra para a realização das tarefas e modificaram as distâncias para que os estudantes pudessem participar e ter sucesso na atividade.

Os estudos apresentaram diferentes exemplos de adaptações utilizadas pelos professores de EF com a finalidade de possibilitar a participação de todos os estudantes, incluindo de ECD nas atividades propostas. Corrobora esse entendimento a definição de Rodrigues (2006, p.41) que compreende que “adaptar seria adequar a exigência da tarefa ao nível de desempenho do executante”.

Rufino et al. (2021) salientaram em seu estudo que se o professor de EF realizasse um planejamento prévio das adaptações necessárias, os estudantes com DV poderiam se sentir incluídos nas aulas de EF e conseguiriam participar de forma mais efetiva das atividades desenvolvidas. Assim, Santos, Santos e Mattos (2022) afirmam que quando o professor planeja suas aulas, tem a possibilidade de refletir criticamente sobre sua prática, definir objetivos e estratégias, além de observar se os propósitos foram alcançados e quando não atingidos, entender o porquê e quais estratégias serão adotadas.

Os estudos descreveram adaptações nas regras, nos espaços e nos materiais adotados pelos professores para auxiliar a participação efetiva dos ECD nas aulas de EF, não necessitando de muitos recursos e demanda de tempo para sua realização. Alguns autores evidenciam a importância do uso de adaptações a fim de adequar as atividades às necessidades dos ECD (Block; Klavina; Davis, 2016; Lieberman; Houston-Wilson, 2018; Winnick; Porretta, 2017).

Segundo Alves e Duarte (2014), essas adaptações devem possibilitar que o ECD se sinta beneficiado com o processo de ensino-aprendizagem e permitam que ele participe socialmente dentro do grupo no qual está inserido.

3.2.4 Materiais e recursos pedagógicos

Os recursos pedagógicos podem ser utilizados para auxiliar uma ação e assim, facilitar e possibilitar atingir um objetivo (Manzini, 2010). Como os recursos pedagógicos foram citados em quatro estudos entre os 11 incluídos na revisão, e por entender que eles podem complementar a ação do professor, criou-se essa categoria pela sua relevância.

O estudo de Fiorini, Deliberato e Manzini (2013) teve como objetivo planejar estratégias de ensino e adaptações de recursos com foco na inclusão educacional do estudante com DV, fundamentando-se nas atividades contidas na Proposta Curricular do Estado de São Paulo. Assim, duas adaptações de recursos pedagógicos foram sugeridas e quatro novos recursos foram indicados para as aulas. Dentre eles, o uso de alguns que não foram listados na Proposta Curricular, como colchonetes, fita adesiva amarela, guizos, papel celofane e sacos plásticos, normalmente encontrados nos materiais destinados às aulas de EF em escolas da rede regular de ensino.

Rufino et al. (2021) também observaram que os materiais e recursos pedagógicos empregados pelos professores que participaram do estudo, para auxiliar a inclusão dos dois estudantes com baixa visão em suas aulas, são os que normalmente estão disponíveis na escola para a disciplina de EF e, na maioria das aulas, não houve necessidade de adaptá-los.

Os estudos de Overton, Wrench e Garrett (2016) e Fiorini e Manzini (2016) citaram exemplos de materiais e recursos pedagógicos utilizados pelos professores para auxiliar os ECD durante a realização das atividades desenvolvidas nas aulas de EF. Overton, Wrench e Garrett (2016) descrevem que um dos professores participantes do estudo salientou o uso de equipamentos de cores vivas e bolas com guizos para acomodar as necessidades dos estudantes com DV. Fiorini e Manzini (2016) descreveram que o professor participante da pesquisa selecionou, dentre as bolas disponíveis na escola, uma com gomos coloridos e guizos, o que permitia contraste com o pano de fundo e emitia sons percebidos auditivamente pela aluna com DV.

Todos os estudos alocados nesta categoria descrevem exemplos de materiais e recursos pedagógicos utilizados para auxiliar a inclusão de ECD visual nas aulas de EF, sendo os mais citados as bolas com guizos e coloridas. Seabra Junior (2008) ressalta que os recursos pedagógicos serão meios de estímulos para os ECD visual se o professor programar cores e contrastes adequados, a distância e o tamanho do objeto, material, equipamento ou mesmo as referências do local que necessita fazer uso, segundo as limitações visuais de cada aluno.

Com isso, foi possível analisar que as categorias temáticas elencadas englobam diferentes critérios que abrangem distintas estratégias apresentadas em vários estudos, com diferentes ideias e possibilidades para contribuir com as ações dos professores e auxiliá-los na inclusão de ECD nas aulas de EFE.

CONCLUSÃO

Os artigos analisados nesta revisão descreveram diferentes estratégias de ensino voltadas à inclusão dos ECD nas aulas de EF, divididas em quatro categorias temáticas: modelos de apoio e trabalho colaborativo; formas de comunicação e tipos de instrução; adaptações; e materiais e recursos pedagógicos.

Os estudos encontrados mostram como essas estratégias auxiliam o professor em sua prática e ajudam na inclusão efetiva dos ECD nas aulas de EF. Cabe salientar a importância de serem previamente planejadas, com o objetivo de torná-las mais eficazes.

Ao analisar a produção de conhecimento nacional e internacional referente às estratégias de ensino voltadas à inclusão dos ECD nas aulas de Educação Física, constatou-se que apesar da busca ter resultado em um número considerável de estudos, ao adotar os critérios de seleção, poucos descreviam tais estratégias, o que leva a concluir a necessidade de um avanço tanto das pesquisas quanto das intervenções voltadas para uma mudança positiva na inclusão escolar de ECD, a partir da utilização de estratégias de ensino que contribuam para a atuação docente e amplie as possibilidades de participação efetiva de todos os estudantes nas aulas de EF regulares em todos os níveis de ensino.

  • 1
    Manzini; Deliberato, 2007 apud Fiorini; Braccialli; Manzini, 2015.
  • 2
    O uso da mesma estratégia de busca conduziu a resultados diferentes entre as duas bases de dados.
  • 3
    Endnote Web é um gerenciador de referências bibliográficas, e exportados para o aplicativo Rayyan, para a realização da seleção e Rayyan é um aplicativo da web, que auxilia os autores de revisão sistemática a realizarem a triagem de forma eficiente.
  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

COMO REFERENCIAR

  • BASSO-BRAZ, Aline; GATTI, Melina Radaelli; MUNSTER, Mey de Abreu Van; COSTA, Maria da Piedade Resende da. Estratégias para a inclusão de estudantes com deficiências na educação física escolar: uma revisão sistemática. Movimento, v. 30, e30021, jan./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.124293

REFERÊNCIAS

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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga *, Elisandro Schultz Wittizorecki *, Mauro Myskiw *, Raquel da Silveira *
    *Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    23 Maio 2022
  • Aceito
    30 Abr 2024
  • Publicado
    12 Set 2024
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Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rua Felizardo, 750 Jardim Botânico, CEP: 90690-200, RS - Porto Alegre, (51) 3308 5814 - Porto Alegre - RS - Brazil
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