Open-access O voleibol e o minivoleibol para surdos na região de Santa Maria: um estudo histórico da modalidade praticada por surdos na região de Santa Maria/RS

Volleyball and Mini-Volleyball for the Deaf in the Santa Maria Region: a historical study of the sport practiced by the deaf in Santa Maria, Brazil

Voleibol y Minivoleibol para Sordos en la Región de Santa María: un estudio histórico del deporte practicado por personas sordas en la Región de Santa María, Brasil

Resumo

A história do movimento surdo em Santa Maria foi marcada pela criação da Associação dos Surdos de Santa Maria – ASSM, em 1985. O presente estudo procurou responder à seguinte questão: como se desenvolveram o voleibol e o minivoleibol para surdos na Região de Santa Maria considerando a trajetória da ASSM? Para compreender esse processo histórico, utilizaram-se as seguintes fontes: referências bibliográficas de autores surdos para sistematizar o estado da arte; leis municipais de Santa Maria (RS) relacionados à ASSM; reportagens em jornais físicos e digitais e redes sociais relacionadas à ASSM; projetos da ASSM aprovados no Proesp nos anos de 2022, 2023 e 2024. Posteriormente, foram entrevistados dois dirigentes da ASSM. Os resultados reforçam a importância da Língua Brasileira de Sinais como artefato cultural para a comunidade surda e o esporte como local de trocas culturais e espaço de fortalecimento dos surdos. A organização do voleibol e minivoleibol para surdos, de 2018 até 2024, evidenciou-se como potencializador da ASSM, trazendo benefícios refletidos na evolução organizacional. O trabalho traz a possibilidade de estudos futuros sobre o tema, para, principalmente, aprofundar os aspectos metodológicos do ensino do voleibol e minivoleibol para surdos.

Palavras-chave
Voleibol; Minivoleibol de Surdos; Comunidade Surda; ASSM

Abstract

The history of the deaf movement in Santa Maria was marked by the creation of the Santa Maria Deaf Association – ASSM, in 1985. This study sought to answer the following question: how did Volleyball and Mini-Volleyball for the Deaf develop in the Santa Maria region considering the trajectory of ASSM? To understand this historical process, the following sources were used: bibliographic references from deaf authors to systematize the state of the art; municipal laws of Santa Maria (RS) related to the ASSM; reports in print and online newspapers and on social media related to the ASSM; ASSM projects approved under Proesp in 2022, 2023 and 2024. Subsequently, two ASSM leaders were interviewed. The results reinforce the importance of Brazilian Sign Language as a cultural artifact for the deaf community and sport as a place for cultural exchange and a space for the empowerment deaf people. The organization of Volleyball and Mini-Volleyball for the Deaf, from 2018 to 2024, proved to be a driving force for the ASSM, bringing benefits reflected in its organizational evolution. This study opens avenues for future research on the topic, primarily to further explore the methodological aspects of teaching volleyball and mini-volleyball to the Deaf.

Keywords
Volleyball; Mini-volleyball for the Deaf; Deaf Community; ASSM

Resumen

La historia del movimiento de personas sordas en Santa María estuvo marcada por la creación de la Asociación de Sordos de Santa María (ASSM) en 1985. Este estudio buscó responder a la siguiente pregunta: ¿cómo se desarrollaron el voleibol y el minivoleibol para sordos en la región de Santa María, considerando la trayectoria de la ASSM? Para comprender este proceso histórico, se utilizaron las siguientes fuentes: referencias bibliográficas de autores sordos para sistematizar el estado del arte; leyes municipales de Santa María (RS) relacionadas con la ASSM; reportajes en periódicos impresos y digitales, y em redes sociales relacionados con la ASSM; proyectos de la ASSM aprobados em el Proesp en los años 2022, 2023 y 2024. Posteriormente, se entrevistó a dos dirigentes de la ASSM. Los resultados refuerzan la importancia de la Lengua de Señas Brasileña como un recurso cultural para la comunidad sorda y del deporte como un espacio de intercambio cultural y empoderamiento de las personas sordas. La organización del Voleibol y del Minivoleibol para Sordos, entre 2018 y 2024, demostró ser una herramienta poderosa para la ASSM, aportando beneficios que se reflejan en su evolución organizativa. Este trabajo abre possibilidades para futuros estudios sobre el tema, principalmente para profundizar en los aspectos metodológicos de la enseñanza del voleibol y minivoleibol para Sordos.

Palabras clave
Voleibol; Minivoleibol para sordos; Comunidad Sorda; ASSM

1 INTRODUÇÃO1

A história do movimento surdo em Santa Maria tem longa data, tendo como fato marcante o início da Associação dos Surdos de Santa Maria – ASSM, em 1985. Localizada na Avenida Oliveira Mesquita, 84, Bairro Salgado Filho, a ASSM passou por recente reforma em suas instalações, visando ampliar as atividades culturais como capoeira, xadrez e tênis de mesa, além de eventos envolvendo a comunidade surda da região. É uma história que preza pelo desenvolvimento e pelo fortalecimento dos surdos através de potentes artefatos culturais:

Em 1979, o grupo de surdos de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, influenciou a aquisição e multiplicação da língua de sinais dos surdos em Santa Maria. A partir dessa influência, os surdos começaram a desenvolver a língua de sinais e a cultura surda na cidade. Reuniam-se para jogar futebol, futsal, voleibol e para conversar em sua própria língua. Foi fundada, então, a Associação dos Surdos de Santa Maria (ASSM) no dia 13 de julho de 1985, com o objetivo de priorizar a luta pelos direitos dos surdos, defender a criação da escola para surdos, preservar o desenvolvimento da língua de sinais, valorizar a cultura surda e o respeito à pessoa surda, promover os esportes, atividades culturais e educacionais

(Souza; Miranda, 2021, p. 43- 44).

Pode-se perceber que uma das atividades culturais relevantes da formação da comunidade surda de Santa Maria tem sido o esporte. Parlebas (2001) define o esporte como um conjunto de situações motrizes codificadas em forma de competição e institucionalizadas. Quanto mais institucionalizado internacionalmente, mais esportivizado será. Por isso, neste momento histórico, as práticas corporais que se realizam desvinculadas de instituições poderão ser consideradas jogo tradicional, como pode ser o exemplo do minivoleibol podendo representar uma manifestação tradicional que acontece em Santa Maria, em especial da Associação dos Surdos de Santa Maria. Já o voleibol de quadra para surdos, modalidade que já se encontra vinculada a eventos específicos, está mais caracterizada como esporte. De acordo com Parlebas, esses dois grupos de práticas corporais compõem o mundo dos jogos esportivos.

Segundo Di Franco (2019), para os surdos, o jogo esportivo tem significado identitário, social, econômico e político, surgindo, a cada dia, mais eventos e participantes. Na caminhada do surdo pelo reconhecimento como grupo/comunidade/povo e autonomia, o jogo esportivo ocupou um papel decisivo: a prática esportiva oportunizou e possibilitou conquistas às pessoas surdas, aliadas à amizade e sentimento de cooperação, possibilitando a expansão de conhecimentos, ser reconhecido como capaz e lutar por seu lugar na sociedade. O grupo/sujeito foi construindo relações nos encontros esportivos com seus iguais, muitos não oficiais, encontrando no esporte a possibilidade de lutar pelo seu lugar na sociedade, reconhecimento de capacidade e ampliação de conhecimentos (Di Franco, 2019, p. 18). Essas relações construídas pelos surdos através do jogo esportivo, mais especificamente no voleibol para surdos, despertaram curiosidade pela relevância e ineditismo.

O voleibol de quadra é uma modalidade jogada por duas equipes, cada uma com seis componentes, em uma quadra dividida por uma rede. Visa passar a bola pelo bordo superior da rede, de maneira que ela caia na quadra adversária e, ao mesmo tempo, impedir a equipe adversária de fazer o mesmo. Cada equipe pode efetuar até três toques e usar o contato com o bloqueio para enviar a bola ao campo adversário. Marchi Junior e Caron (2019) relatam que, no Brasil, atualmente, o voleibol é considerado a segunda modalidade na preferência nacional, perdendo apenas para o futebol.

No minivoleibol, as regras sofrem modificações e adaptações de acordo com o tamanho e habilidade dos participantes, tendo a quadra cerca de 6x6 metros e equipes de quatro jogadores, com uma bola mais leve e menor do que a do voleibol tradicional. O número de toques permitidos para enviar a bola à quadra adversária é maior que no voleibol tradicional e a altura da rede mais baixa.

O minivoleibol é jogado com uma bola mais leve e menor, permitindo que as crianças, jovens, adultos e idosos possam lançá-la e recebê-la com mais facilidade. Além disso, o número de toques permitidos para enviar a bola à quadra adversária é maior que no voleibol tradicional, a fim de incentivar os praticantes a se familiarizarem com a lógica interna e o ambiente que o esporte está estruturado

(Cardoso et al., 2024, p. 7).

Segundo Souza e Miranda (2021), o vôlei para surdos praticado na região de Santa Maria/RS vem se destacando nos cenários estadual e nacional, o que pode ser comprovado pelas conquistas dos últimos anos e destaque na mídia. Os atletas surdos, ou surdoatletas, da Associação dos Surdos de Santa Maria, que abrange vários municípios da região, além de títulos estaduais, têm sido convocados para as seleções gaúcha e brasileira de vôlei para surdos.

A partir de pesquisas preliminares, a Associação dos Surdos de Santa Maria já se destaca como o local de práticas desportivas desde a articulação inicial do povo surdo da região, constituição da comunidade surda e local de lutas e conquistas importantes com a valorização da Libras e espaços de cultura surda. A ASSM aparece como o local do desenvolvimento do voleibol para surdos na região de Santa Maria/RS e apresenta em seu quadro de sócios surdos provenientes de várias cidades da região e do estado, sendo uma referência como centro de cultura surda, Libras e esporte de surdos. Em busca do desejo de conhecer a história e construir um registro sobre o voleibol para surdos, surgiu o questionamento: “Como se desenvolveu o voleibol e o minivoleibol para surdos na Região de Santa Maria?”

2 METODOLOGIA

O estudo é uma pesquisa histórica. Foram usadas como fontes revisão bibliográfica, documentos e entrevistas. De acordo com Richardson (2012, p. 254), “a pesquisa histórica, bem como outros tipos de pesquisa, propõe-se a produzir novos conhecimentos, criar novas formas de compreender os fenômenos e dar a conhecer a forma como estes têm-se desenvolvido [...]”

O processo de compreensão histórica de qualquer tema passa pela compreensão do passado. Di Franco (2014) aponta que na convivência com surdos de diferentes locais há vários anos se percebeu que o esporte, importante artefato cultural (Strobel, 2008), não faz parte da realidade de muitas pessoas. Há o desconhecimento relativo ao voleibol para surdos. Não há maiores informações e fontes de consulta sobre a sua história, locais de práticas, competições.

Ressalta-se, que a autora Maria Esther Gomes de Souza é participante atuante da Associação dos Surdos de Santa Maria (ASSM), como 2ª Secretária e treinadora de voleibol desde 2018. Assim, também haverá registros de sua participação nos dados coletados. Será utilizado “apud” sempre que a citação for usada pelo autor surdo em seu trabalho, pois um dos focos dessa pesquisa é priorizar o ponto de vista do pesquisador surdo. Segundo Perlin (2003), estudos feitos por surdos, em comparação com ouvintes, têm sempre diferenças nas narrativas. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria: n. CAEE 76163623.2.0000.5346.

Para atingir o objetivo proposto, utilizou-se as seguintes fontes: referências bibliográficas de autores surdos para sistematizar o estado da arte; Leis municipais de Santa Maria (RS) relacionadas à ASSM; reportagens em jornais físicos e digitais e redes sociais relacionados à ASSM; projetos da ASSM aprovados no Proesp2 nos anos de 2022, 2023 e 2024. Posteriormente, foram entrevistados dois dirigentes da ASSM. A entrevista semiestruturada foi realizada com dois dirigentes da ASSM e versou sobre a organização da associação e o processo de organização e realização dos eventos esportivos de voleibol e minivoleibol. As entrevistas, que foram realizadas em língua de sinais, tiveram como colaboradores desta pesquisa Jeferson de Oliveira Miranda e Jéssica Garzão, ambos dirigentes surdos da ASSM.

2.1 ANÁLISE DOS DADOS

Os dados coletados foram organizados com inspiração na análise de conteúdo de Bardin, prevendo a pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados – a inferência e interpretação. Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo caracteriza-se por:

um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (p. 47).

Considerando as especificações detalhadas por Bardin (2011), o quadro 1 detalha cada etapa realizada na análise de conteúdo do presente estudo:

Quadro 1
Etapas da análise de conteúdo

3 RESULTADO E DISCUSSÃO

Nesta parte serão apresentados os resultados que também serão analisados tendo como porte a literatura da área, com o intuito de compreender como se desenvolveu o voleibol e o minivoleibol para surdos na Associação dos Surdos de Santa Maria/ ASSM. Para estruturar melhor os resultados do estudo, essa parte foi dividida em três etapas: 3.1) Associação de Surdos de Santa Maria (RS): aspectos organizacionais e protagonistas; 3.2) Esporte e a Associação de Surdos; 3.3) O voleibol e o minivoleibol da ASSM. Finalizou-se o texto apresentando as considerações finais.

3.1 ASSOCIAÇÃO DOS SURDOS DE SANTA MARIA/RS ASPECTOS ORGANIZACIONAIS E PROTAGONISTAS

Compreender a ASSM perpassa o entendimento de como começou a articulação dos principais protagonistas (dirigentes, fundadores e apoiadores) que organizaram esse espaço de convivência e de luta da comunidade surda. Recorreu-se a uma busca na internet com o intuito de encontrar registros iniciais do movimento surdo em Santa Maria. Tem-se, na figura abaixo, a imagem da Sede da Associação dos Surdos de Santa Maria em 2013, localizada na Avenida Oliveira Mesquita, nº 84, Bairro Salgado Filho.

Figura 1
Sede da Associação dos Surdos de Santa Maria em 2013

O entrevistado Jéferson fez menção aos anos de 1978 e 1979, quando um grupo de surdos de Porto Alegre influenciou a aquisição da língua de sinais e sua multiplicação em Santa Maria. Segundo Souza e Miranda (2021, p. 33), a missão e história da Associação dos Surdos de Santa Maria está ligada à história da comunidade surda de Santa Maria e do Rio Grande do Sul.

Jeferson de Oliveira Miranda é gaúcho, natural de Santa Maria, é surdo, assim como dois de seus irmãos. Tem destaque como líder dos surdos, um dos protagonistas fundadores da ASSM, é graduado em Educação Física - Licenciatura Plena pela UFSM, em 1987, e tem Curso Superior Letras-LIBRAS - Licenciatura Plena pela UFSC (2011). É professor da rede estadual e municipal de ensino, tendo ocupado os cargos de coordenador pedagógico, vice-diretor e diretor da Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser, bilíngue para surdos, em Santa Maria. Tem longo histórico na comunidade surda, tendo grande atuação social e no esporte. Atualmente, é vice-presidente da Federação Desportiva de Surdos do Rio Grande do Sul (FDSRS), técnico de futsal feminino da equipe da ASSM, técnico de futebol de campo masculino da FDSRS e foi convocado como técnico de voleibol feminino da equipe da FDSRS para participar da Surdolimpíada Nacional – 2021.

Jéssica Garzão participa ativamente da organização dos eventos de minivoleibol para surdos desde o primeiro, em 2018. A entrevistada também passou a articular, junto com Thomaz Severo, antigo presidente da ASSM e atual vice-presidente, a organização dos campeonatos estaduais de minivoleibol para surdos pela FDSRS.

A entrevistada Jéssica mencionou os líderes surdos Jeferson, Wilson, Edinei e Sônia como fundadores da ASSM. Wilson de Oliveira Miranda, apontado na resposta dos dois entrevistados como um dos líderes na formação da ASSM, é Professor Doutor na UFSM e, também, um dos autores/pesquisadores utilizados como fonte para esta pesquisa. Aparecem, na resposta da entrevistada Jéssica, Edinei Cordeiro do Nascimento, que foi presidente da Associação dos Surdos nos anos 2000. Sonia Messerschimidt é formada em Psicologia e Letras - Libras, tendo uma trajetória de luta pela Libras e pelo surdo na UFSM e Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser. Sonia foi, outrossim, surdoatleta de Voleibol, tendo cedido algumas fotos que constam neste estudo. São três líderes protagonistas da ASSM, que, juntamente com o entrevistado Jeferson Miranda (irmão de Wilson), participaram das inúmeras lutas e conquistas do movimento surdo de Santa Maria e do Rio Grande do Sul.

A sede da ASSM é localizada em um imóvel doado pelo Poder Executivo em 1992, através da Lei nº 3.546 de 29 de outubro de 1992. Assinou o documento o prefeito em exercício Luiz Carlos Iop Druzian. A sede da ASSM foi reformada em 2023, após ser considerada de utilidade pública pela Lei nº 6.699 de 24 de novembro de 2022, que alterou a Lei Municipal nº 5.556/2011. Assinou a lei o prefeito municipal Jorge Cladistone Pozzobon.

A estrutura física da ASSM conta com salão de festas, cozinha, banheiros e acessibilidade. No salão, ocorrem treinamentos de xadrez, tênis de mesa e e-sports. Também há prática de futebol, futsal, basquete, montain bike e vôlei de praia em diferentes locais. O voleibol, minivoleibol para surdos e futsal são praticados, semanalmente, no Centro Desportivo Municipal (CDM), complexo esportivo público gerido pela Prefeitura Municipal de Santa Maria.

A trajetória da organização do esporte e do voleibol na associação tem origem no grupo de surdos de Santa Maria que se reunia para conversar em sua própria língua, jogar futebol, futsal e voleibol e acabou por fundar a ASSM em 1985. Conforme o depoimento de Jeferson, esse espaço foi sendo construído concomitantemente à trajetória do esporte para surdos. Alguns registros da equipe de vôlei feminino da ASSM da década de 90 foram conseguidos com a ex-surdoatleta de voleibol Sonia Messerschimidt, importante líder da comunidade surda de Santa Maria.

A entrevistada Jéssica, por sua vez, enfatiza o momento atual do voleibol e minivoleibol para surdos, reportando ao projeto de Voleibol e Minivoleibol para Surdos de todas as idades iniciado em 2018, uma vez que, anteriormente, ela não participou porque não havia nascido. Importante assinalar essa questão de não ter um conhecimento anterior, já que essa história não ficou registrada em material para consulta. É uma história perpetuada, ou não, através de recontos na comunidade surda.

3.2 ESPORTES E ASSOCIAÇÕES DE SURDOS

Conforme mencionado anteriormente, a partir da ideia de Parlebas (2001) o esporte apresenta as características de um processo de institucionalização internacional e competição. Parlebas também mostra o forte vínculo dos princípios competitivistas com o sistema capitalista. Mas como essas características se relacionam com o contexto esportivo de surdos (as)? Possivelmente essa questão não seja respondida, mas serão apresentados os primeiros caminhos.

De acordo com Ogoura (2018), a primeira edição das Surdolimpíadas aconteceu em Paris em 1924, com a denominação inicial de Jogos Internacionais Silenciosos. A base para a criação desse evento esportivo foi a mesma da criação das olimpíadas modernas a partir das ideias de Pierre de Cobertin. De acordo com o autor, em 1969, o evento passou a ser denominado Jogos Mundiais para Surdos e a partir de 2001, como Surdolimpíadas, em inglês, Deaflympics.

Ao longo da história, de acordo com Di Franco (2019), os surdos assumiram papéis identitários diferentes: foram vistos como resultantes de pecados dos pais, idolatrados, foram ditos deficientes, deficientes auditivos (DA), diferentes, conforme ideias e filosofias de variadas épocas. A grande maioria das pessoas do mundo é ouvinte e tem como canal de comunicação a língua oral-auditiva. Os surdos usam o canal espaço-visual, uma outra forma de sentir, perceber e se comunicar. Segundo Miranda (2001, p. 9),

a surdez é uma diferença que surge no momento em que marcamos os ouvintes como constituidores de outra identidade e não com pretensa superioridade, é própria do povo surdo nas diferentes partes do mundo em diferentes momentos.

De acordo com a perspectiva dos surdos como sujeitos culturais, o discurso dos surdos se diferencia da sociedade ouvinte, com língua, identidades, valores, arte, tempo e produção da própria história. Di Franco (2019) descreve que a surdez consiste em deficiência em uma perspectiva, mas, em outra perspectiva, diferencia as pessoas com perda auditiva que se comunicam pela Língua Brasileira de Sinais (Libras) e participam de associações, pois se reconhecem como surdas, tendo linguagem adquirida na infância e convivência na comunidade surda, compreendendo identidade na cultura linguística da língua de sinais. Como conceito e definição de povo surdo e cultura surda, Perlin (2003, p.17) diz:

Quero definir aqui visíveis diferenças entre povo surdo e comunidade surda. Povo surdo é tido como o grupo de surdos constituído com língua, lugar e cultura específica. Comunidade surda trata de um aspecto mais híbrido na constituição epistêmica como um grupo instável de pessoas que a constitui. Tanto podem ser os surdos, os ouvintes filhos de pais surdos, os intérpretes e os que simpatizam com os surdos.

De acordo com Di Franco, Paludo e Lebedeff (2015), o modo de viver dos surdos – de interagir e de compreender o mundo, criando estratégias para sobreviver em seu meio – é diferente dos ouvintes. A língua de comunicação é determinante nessa diferença. Para Strobel (2008), a Língua Brasileira de Sinais – Libras compõe os artefatos da Cultura Surda, juntamente com a experiência visual, artes visuais, relacionamentos familiares, literatura surda, vida social e política, aqui, também, pode-se destacar o esporte surdo. Esses artefatos culturais são importantes para a relação com o mundo que os cerca e a construção da identidade surda. A Lei de LIBRAS nº 10.436 de 2002 (BRASIL, 2002) e o Decreto nº 5.626 de 2005 trouxeram o reconhecimento da língua de sinais como a língua oficial da comunidade surda e asseguraram o direito da presença de intérpretes na educação e atos públicos e a obrigatoriedade do ensino de Libras em cursos de licenciatura e formação de professores. Essa legislação vem proporcionando grandes mudanças quanto à participação e acesso dos surdos à educação, à política, a esportes e a trabalho, possibilitando o protagonismo de sua própria história. A comunidade surda se mantém com o passar do tempo, apesar do discurso dominante e ouvintista. Miranda (2001, p.19) observa que:

Nota-se que a comunidade surda se mantém apesar das inúmeras tentativas de grupos e de discursos dominantes com suas atitudes predatórias que pensam a surdez ou se dedicam a trabalhar com surdos de forma a ouvintizá-los ou desarticulá-los da comunidade, ou mesmo tratando- os como deficientes, como incapacitados ou cognitivamente nulos [...].

A identidade e a alteridade surdas se constroem em ambientes de articulação e de representação cultural – as comunidades. Os surdos, pela representação visual, constroem sua identificação através da utilização da língua de sinais. Segundo Dall’Alba (2013), a língua de sinais é um dos bens mais preciosos das comunidades surdas, porquanto é possível estabelecer uma comunicação efetiva e sem barreiras através dela. Significa para o surdo perceber o mundo pela visão, com a produção de conhecimentos e exploração que se dá por meio da experiência visual, produzindo novos significados culturais, possibilitando uma nova interpretação desses sujeitos. Essa realidade é encontrada em centros maiores, onde as comunidades surdas se articulam. Existem comunidades surdas que não se relacionam, não se sentem como comunidades, e há outras que são o espaço onde se vive e se constituem as identidades, arte, cultura e história (Miranda, 2001, p.11).

A construção da cultura e produção de identidades nascem em espaços geográficos conquistados e possibilitados para a organização surda. Partindo inicialmente do cenário mundial, a Europa aparece como sede dos primeiros e principais eventos de surdos: o monge Ponce de León, com o alfabeto gestual para filhos de nobres espanhóis dos anos 1520 a 1582; Juan Pablo Bonet, em 1813, com o processo de oralização dos surdos para que desenvolvessem a fala; o médico inglês John Bulwer, defendendo a língua gestual. No século XVIII, o abade francês Charles L’Éppé iniciou o reconhecimento da língua natural dos surdos, a língua gestual, fundando uma escola para surdos em Paris, que existe até hoje (Moura; Lodi; Harrison,1997apud Di Franco, 2014) 4:

[...] a partir desse acontecimento, surgiram muitos estudos comprovando a efetividade da língua gestual em nível mundial, até que, nos Estados Unidos, os surdos começaram a tornar-se professores e a ensinar em escolas de surdos. Assim, o educador surdo francês Laurent Clerc e o educador americano Thomas Hopkins Gallaudet abriram uma escola para surdos em 1817, e o filho de Gallaudet, Edward, fundou, em 1857, a Universidade Gallaudet, a única no mundo para surdos especificamente e que ainda funciona em Washington, D. C. Sua língua oficial desde sempre foi a Americana de Sinais [...]

(American Sign Language – Asl).

Entretanto, aconteceu em 1880 o 1º Congresso Mundial de Educação de Surdos na cidade de Milão, Itália, em que foi decidido por ouvintes a proibição do uso das línguas gestuais e a adoção do oralismo como meio de ensino na educação de surdos. Apenas os Estados Unidos continuaram com a escolha da Língua Americana de Sinais – ASL. Di Franco (2014) narra que o primeiro movimento surdo aconteceu na França em 1834, uma homenagem ao Abade L’Éppé, tornando-se anual e precursor dos movimentos surdos de vários países, inclusive o Brasil.

Conforme Perlin (1998, p. 54), “A identidade surda existe desde que a pessoa passe a se utilizar dos olhos para fazer interação com o semelhante”. Cabe citar o Dr. Paddy Ladd (2013), famoso autor inglês que traz uma nova palavra para o ser surdo – Deafhood, que, traduzindo para o português, significa “surdidade”, que simboliza um processo de luta pela qual cada criança, família e adultos surdos passam para explicar a si próprios e aos outros a sua existência.

Com o passar dos anos e o reconhecimento da Libras a partir da legislação, os sujeitos surdos aumentaram a sua participação no movimento surdo e a articulação com as comunidades surdas, estabelecendo intercâmbios linguísticos, renovando movimentos de resistência e luta (Dall’ Alba, 2013, p. 65).

No processo de constituição da comunidade surda, acreditava-se que a formação do povo surdo estivesse embasada cientificamente na educação, mas, olhando-se para o passado, há a consolidação do esporte como base antropológica, orientação e troca de informações. Entretanto, há uma defasagem de estudos no campo de esportes surdos, a história está fragmentada e há carência de registros. A história dos surdos é assinalada pela marca da “incapacidade”, por relações construídas, principalmente, por ouvintes. As representações sociais ouvintistas despertaram nos surdos a necessidade de organização e a realização de ações, como o esporte, para sua autonomia (Di Franco, 2019). Por não se considerarem pessoas com deficiência, os surdos não participam dos Jogos Paralímpicos.

Os surdos não se consideram pessoas com deficiência, assim sendo não participam dos jogos paralímpicos. A despeito de a sociedade, majoritariamente, considerar que a surdez significa não ouvir e acreditar que isto é uma deficiência, o surdo considera o não ouvir como uma característica da identidade surda e, portanto, não como uma deficiência. Diferenciam-se dos ouvintes por não ouvir, mas, principalmente, por ter o desenvolvimento de suas potencialidades de forma distinta e por ter uma cultura visual-gestual, na qual sua língua se faz presente

(Di Franco, 2019, p. 20).

As primeiras competições esportivas adaptadas promovidas por “pessoas com deficiência” foram os Jogos Olímpicos dos Surdos, a partir de 1924, na França, que aconteciam, como os Jogos Olímpicos Internacionais, de quatro em quatro anos, mas sem vínculo entre eles. Assim, iniciaram as Deaflympics (Jogos Internacionais para Surdos), com a participação de atletas surdos de inúmeros países e diferentes modalidades (Cardoso, 2011 apud Di Franco, 2014)5.

Segundo dados da CBDS, disponível em seu site, a I Olimpíada de Surdos do Brasil aconteceu na cidade de Passo Fundo/RS, em maio de 2002, tendo 29 delegações participantes, com formalidades pertinentes à sua importância para a comunidade surda, compreendendo as modalidades de atletismo, ciclismo, natação, tênis de mesa e de quadra, futebol de salão, basquete, xadrez, vôlei de quadra e de praia.

O esporte surdo não está atrelado à concepção de saúde, mas da esfera antropológica de legitimidade de comunidade emergente e autonomia, proporcionando contato entre as pessoas que se identificam, preservando identidades e renovação cultural entre contextos interculturais, constituindo-se como um dos meios de empoderamento dos surdos, ratificando-se a capacidade igualitária entre surdos e ouvintes (Di Franco, 2019). Em sua tese de doutorado denominada História das Surdolimpíadas, Di Franco (2019) busca elucidar o esporte surdo “como uma questão histórico-cultural de construção de identidades, bem como uma situação de convívio, socialização e competição.”

De acordo com Di Franco (2014), é recente a produção científica e também histórica dos surdos, o que acarreta dificuldade de obtenção de registros oficiais. Assim sendo, as narrativas se tornam essenciais na história surda. O autor destaca a origem das associações de surdos no contexto brasileiro:

Assim, é importante salientar que as associações de surdos tiveram sua origem no Grêmio Esportivo do INES, fundado em 1930. O Instituto era a única escola de surdos no país, congregando, portanto, um número muito expressivo de surdos vindos de diversas partes do Brasil. O Grêmio era responsável por elaborar ou adaptar regras de esportes e desportos e organizar competições internas das quais a maioria, se não todos os alunos, participavam com grande interesse. Estes eram importantes eventos de confraternização e interação entre surdos, concorrendo para a integração social daqueles indivíduos

(Di Franco, 2014, p. 32).

Conforme o autor, algumas dessas associações existem desde essa época, outras foram fundadas posteriormente e algumas deixaram de existir. Deve-se a essas associações diversas vitórias e conquistas dos surdos, tanto em nível político quanto social. Para tanto, as associações se apresentam como importantes organizações nas quais os surdos somam forças para lutar em busca de seus direitos, para fortificar sua cultura, conviver com semelhantes e para confraternizar.

Em muitas dessas confraternizações, o esporte aparece como diversão, nos jogos de pingue-pongue durante jantares, e até em competições exclusivas de surdos, nas quais o esporte é o cenário principal. Percebe-se, então, uma colaboração recíproca e integrada entre eventos esportivos e associações de surdos, considerando-se que as associações tiveram origem por causa dos eventos esportivos e estes, atualmente, devem-se a elas, tamanha é a frequência e o peso dos jogos esportivos na vida dos surdos, que houve a necessidade de articular as associações de maneira a controlar e melhor promover estes eventos, que transpõem fronteiras de municípios e estados. Foi então percebida a necessidade de organizar as associações para eventos esportivos em instâncias estaduais, fundando-se, assim, as federações esportivas

(Di Franco, 2014, p. 33).

Considerando os aspectos históricos da associação apresentadas até então, levanta-se uma questão que deverá ser aprofundada em estudos futuros: Qual o papel e as características do esporte no espaço de lutas e conquistas sociais da comunidade surda, seguindo as diretrizes das associações?

3.3 O VOLEIBOL E O MINIVOLEIBOL NA ASSM

A trajetória da organização do voleibol e minivoleibol na Associação tem origem no grupo de surdos de Santa Maria que se reunia para conversar em sua própria língua, jogar futebol, futsal e voleibol e acabou por fundar a ASSM em 1985. Abaixo, segue a fala do Jeferson.

Lembro que quando foi criada a assm, o grupo de surdos começou com o vôlei lá no lugar itaimbé, ao lado da prefeitura municipal. Tinha muitos surdos, crianças, jovens, adultos. Começando com 11 anos. Jogavam todo dia, até à tardinha. A prefeitura liberava para jogar.

ano 1985, 1987, primeira competição em santa maria, o campeonato desportivo dos surdos: futsal, futebol de campo e vôlei, na ufsm. Homens no futebol de campo e mulheres no vôlei de quadra. Depois no futebol de salão, assm, porto alegre e caxias do sul

(Jéferson, 2024).

A organização e a trajetória da Associação dos Surdos de Santa Maria, conforme o depoimento de Jeferson foi sendo construída concomitantemente à trajetória do esporte para surdos. Alguns registros da equipe de vôlei feminino da ASSM da década de 90 foram conseguidos com a ex-surdoatleta de voleibol Sonia Messerschimidt, importante líder da comunidade surda de Santa Maria.

Figura 2
Campeonato de Associações de Porto Alegre, Esteio, Caxias do Sul, Santa Maria e Guaíba (início dos anos 90)
Figura 3
Aniversário da ASSM - 1990

A entrevistada Jéssica, por sua vez, enfatiza o momento atual do voleibol e minivoleibol pelo fato de não ter tido um conhecimento anterior, visto que essa história não ficou registrada em material para consulta. É uma história perpetuada, ou não, através de relatos na comunidade surda.

Eu sei que começou em 2018 (projeto atual), mas eu não participava. Era de noite e eu não tinha como ir, por causa aula da faculdade noturna. Eu via o grupo de vôlei pelas fotos do facebook. Começou a se desenvolver o trabalho, eu não sabia de regras, nada.

Antes eu não sei, eu não tinha nascido, depois, também não. Eu comecei a treinar em 2022. Eu observava. Me organizei com meu filho e comecei. Daí observei, e comecei a aprender a praticar. O minivôlei de 3 eu comecei a observar em 2020

(Jéssica, 2024).

Jéssica participa ativamente da organização dos eventos de minivoleibol para surdos desde o primeiro, em 2018. Da organização local, passou a praticar regularmente, sendo uma grande entusiasta da prática. Também partiu dela a motivação para que, durante o período de verão, começasse a se praticar o vôlei de praia para recreação com um grande número de surdoatletas. A entrevistada também passou a articular, junto com Thomaz Severo, antigo presidente da ASSM e atual vice- presidente, a organização dos Campeonatos Estaduais de Minivoleibol para Surdos pela FDSRS. Fica evidenciado, em ambas as respostas dos entrevistados, que o esporte é uma das bases da ASSM e acompanhou o seu desenvolvimento ao longo dos anos.

Souza e Miranda (2021, p. 49) descrevem os objetivos específicos do minivoleibol para surdos como “proporcionar o acesso ao voleibol usando atividades ministradas em Libras, promover espaço de convivência e integração entre os participantes, realizar ações técnico-táticas do voleibol”. Também é descrito o ensino de movimentos e fundamentos do vôlei através de jogos reduzidos: mini 2x2 (dois jogadores em cada equipe) e mini 3x3 (três jogadores em cada equipe), iniciando a aproximação com o vôlei (6x6).

O projeto de Voleibol para Surdos acabou se transformando em Minivoleibol para Surdos devido à necessidade de adaptação que se apresentou durante os treinamentos. A redução da quadra para o uso de Libras e a participação maior no jogo foi um dos pontos destacados. O objetivo principal visava a participação de todos os surdoatletas, como recreação ou competição. Muitos surdos nunca tiveram oportunidade de praticar esporte ou de compreender as explicações dos treinadores, pois essas práticas anteriores normalmente aconteceram em espaços de ouvintes.

Para os pesquisadores surdos, a pedagogia visual ou a pedagogia da diferença, considera a diferença cultural e a diferença linguística, compreendendo o surdo como uma pessoa completa que aprende pelas experiências visuais e o significado do mundo através das interações em língua de sinais. Segundo Gládis Perlin (2006) “um jeito surdo de aprender requer um jeito surdo de ensinar”. O processo de ensino-aprendizagem do voleibol e minivoleibol para surdos foi sendo construído com os treinamentos em Libras e adaptações que proporcionassem um melhor entendimento entre os participantes, para que conseguissem jogar. Sugere-se que a caracterização deste processo de ensino e de consolidação do voleibol e minivoleibol junto a ASSM seja objeto de outra investigação.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo teve como objetivo compreender como se desenvolveu o voleibol e o minivoleibol para surdos na Associação dos Surdos de Santa Maria/ ASSM. A fundação da ASSM, em 1985, aparece como um importante espaço social de encontro, trocas e desejos da comunidade surda de Santa Maria, fazendo parte de um movimento surdo no Estado do Rio Grande do Sul. Nos seus 39 anos, a ASSM vem mantendo esse objetivo de perpetuação e transmissão da cultura surda com ampliação de práticas esportivas. Nessa trajetória, o voleibol e o minivoleibol cunharam um importante legado para a sociedade santamariense.

Durante estes anos de existência da ASSM, o esporte apresenta-se e firma-se como um potente artefato cultural da comunidade surda. É um espaço onde a comunicação na língua natural da comunidade surda é estimulada, mesmo que haja praticantes considerados DA, ou até mesmo surdos que muitas vezes não tiveram acesso a Libras e começam, então, a utilizá-la. É um local de identificação social e política com seus semelhantes. O estudo mostrou a evolução organizacional recente na ASSM, instituição que iniciou com muitas limitações estruturais e com a atuação estratégica dos gestores, em especial, pela organização esportiva e destaque na mídia, a ASSM tornou-se de utilidade pública e tem sido contemplada com o PROESP de Santa Maria.

O aumento de praticantes do minivoleibol para surdos na ASSM e a realização de torneios reflete no cenário estadual. A Federação Desportiva de Surdos do Rio Grande do Sul (FDSRS) reconheceu o minivoleibol para surdos como modalidade, realizando o 1º Campeonato Estadual de Minivoleibol para Surdos na cidade de Alvorada/RS, em 2022. Essa movimentação causada pela organização do Minivoleibol para Surdos deve-se à adaptação metodológica do uso da Libras e à adequação do espaço e das regras. A medição de 15m x 4,5m tornou fácil o uso do ginásio para práticas de quatro equipes de três surdoatletas concomitantemente, pontuação até 30, jogos rápidos, sem a necessidade de perícia técnica apurada, pois não há cobrança de dois toques.

Nesta pesquisa foi possível evidenciar o importante papel social da ASSM para a comunidade surda de Santa Maria e região. O acesso da comunidade surda a distintas práticas corporais também representa a grande contribuição desta instituição. O voleibol e o minivoleibol para surdos consolidam-se como local de perpetuação da cultura surda. Especialmente para o campo da Educação Física, sugere-se a realização de novos estudos, em especial, no que tange aos aspectos didáticos atinentes ao ensino dos esportes para surdos.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
  • ÉTICA DE PESQUISA
    A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de Santa Maria. Número na Plataforma Brasil CAAE: n. CAEE 76163623. 2.0000.5346.
  • COMO REFERENCIAR
    GOMES DE SOUZA, Maria Esther; MAGNO RIBAS, João Francisco. O Voleibol e o Minivoleibol para Surdos na Região de Santa Maria: um estudo histórico da modalidade praticada por surdos na região de Santa Maria/RS. Movimento, v. 32, p. e- …. jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.142754.
  • 1
    O artigo é um produto da dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento e reabilitação da Universidade Federal de Santa Maria denominado Do voleibol ao minivoleibol para surdos: um estudo histórico da modalidade praticada por surdos na região de Santa Maria/RS, da mestranda Maria Esther Gomes de Souza, orientada pelo Prof. Dr. João Francisco Magno Ribas, aprovada em 2024.
  • 2
    Programa Municipal de Apoio e Promoção do Esporte PROESP-SM, instituído pela Lei nº 5157, de 3 de outubro de 2008.
  • 3
  • 4
    MOURA, Maria Cecília de; LODI, Ana Cláudia B.; HARRISON, Kathryn M. R. História e educação: o surdo, a oralidade e o uso de sinais. In: LOPES FILHO, Otacílio de C. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, p. 327-357, 1997. Disponível em: https://www.docsity.com/pt/docs/historia-e-educacao-o-surdo-a-oralidade-e-o-uso-de-sinais/4802630/ Acesso em: 24 fev. 2026
  • 5
    CARDOSO, Vinícius Denardin. A reabilitação de pessoas com deficiência através do desporto adaptado. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 33, n. 2, p. 529-539, abr./jun. 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S0101-32892011000200017

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

REFERÊNCIAS

  • BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo São Paulo: Edições 70, 2011.
  • BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, 25 abr. 2002.
  • BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União, seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 2005.
  • CARDOSO, Vinicius Felipe et al Pedagogia do esporte e a Educação Física Escolar: possibilidades entre o teaching games for understanding (TGfU) e o minivoleibol. Motrivivência, v. 36, n. 67, p. 1-17, 2024. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8042.2023.e93736
    » https://doi.org/10.5007/2175-8042.2023.e93736
  • DALL’ALBA, Carilissa. Movimentos surdos e educação: negociação da cultura surda. 2013. 94 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2013. Disponível em: http://repositorio.ufsm.br/handle/1/7063 Acesso em: 15 abr. 2023.
    » http://repositorio.ufsm.br/handle/1/7063
  • DI FRANCO, Marco Aurélio R. Esportes surdos na constituição do ser social: o resgate histórico sob a perspectiva da educação ambiental. 2014. 81 f. Dissertação (Mestrado em Educação Ambiental)- Universidade Federal de Rio Grande- FURG, Rio Grande, 2014.
  • DI FRANCO, Marco Aurélio R. Surdolimpíadas (Deaflympics): histórias e memórias dos esportes surdos no Brasil (1993-2017). 2019. 112f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre, 2019.
  • DI FRANCO, Marco Aurélio R.; PALUDO, Simone dos Santos; LEBEDEFF, Tatiana Bolivar. Esportes surdos na constituição do ser social: uma compreensão histórica sob a perspectiva da Educação Ambiental. Revista Educação Especial, v. 28, n. 52, p. 365-376, mai./ago., 2015. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/index.php/educacaoespecial/article/view/14964 Acesso em: 15 abr. 2023.
    » https://periodicos.ufsm.br/index.php/educacaoespecial/article/view/14964
  • FERREIRA, Aline do Prado. O movimento esportivo surdo: produções de modos de vida surda na contemporaneidade. 2021. 119f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, 2021.
  • LADD, Pady. Em busca da surdidade 1: colonização dos surdos. Lisboa: Surd’Universo, 2013.
  • MARCHI JÚNIOR, Wanderley; CARON, Ana Elisa. Introdução ao ensino do voleibol Curitiba: Intersaberes, 2019.
  • MIRANDA, Wilson de Oliveira. Comunidade dos surdos: olhares sobre os contatos culturais. 2001. 110 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre, 2001.
  • OGOURA, Kazuo. The deaflympics: history, present status, issues, and comparison with the paralympics, Journal of Paralympic Research Group, v. 8, p. 17-35, 2018. DOI: https://doi.org/10.32229/parasapo.8.0_17,
    » https://doi.org/10.32229/parasapo.8.0_17
  • PARLEBAS, Pierre. Juegos, deporte y sociedad: léxico de praxiología Motriz. Barcelona: Paidotribo, 2001.
  • PERLIN, Gládis T. T. Identidades surdas. In: SKLIAR, Carlos (org). A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre, Mediação, 1998.
  • PERLIN, Gládis T. T. O ser e o estar sendo surdos: alteridade, diferença e identidade. 2003. 156 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre, 2003.
  • PERLIN, Gládis T. Surdos: cultura e pedagogia. In THOMA, Adriana da Silva; LOPES, Maura Corcini (org) A invenção da surdez II: espaços e tempos de aprendizagens na educação de surdos. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2006. p. 63-84.
  • RICHARDSON, Roberto J. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo: Atlas, 2012.
  • SOUZA, Maria Esther G; MIRANDA, Jeferson de Oliveira. Minivoleibol para surdos: uma breve pesquisa bibliográfica e relatos de práticas na Associação dos Surdos de Santa Maria. Porto Alegre: Alcance, 2021.
  • STROBEL, Karin L. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: UFSC, 2008. Disponível em: https://www.academia.edu/41857386/As_imagens_do_outro_sobre_a_cultura_surda?pop_sutd=fals Acesso em: 14 mar. 2022.
    » https://www.academia.edu/41857386/As_imagens_do_outro_sobre_a_cultura_surda?pop_sutd=fals

Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Janice Zarpellon Mazo*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    * Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Set 2024
  • Aceito
    20 Fev 2026
  • Publicado
    18 Maio 2026
location_on
Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rua Felizardo, 750 Jardim Botânico, CEP: 90690-200, RS - Porto Alegre, (51) 3308 5814 - Porto Alegre - RS - Brazil
E-mail: movimento@ufrgs.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro